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REPRESENTAÇÕES DOS PROFESSORES DO ENSINO SECUNDÁRIO A PROPÓSITO by xtw20642

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									REPRESENTAÇÕES DOS PROFESSORES DO ENSINO SECUNDÁRIO A PROPÓSITO DOS RANKINGS ESCOLARES
– NOTAS DE UMA PESQUISA EMPÍRICA
MARIA BENEDITA PORTUGAL E MELO | PROFESSORA AUXILIAR DO DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO DA FACULDADE DE CIÊNCIAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA


AS ACTUAIS EXIGÊNCIAS DIRIGIDAS À ESCOLA                  que medem as suas competências ao nível da literacia             Os professores passaram, assim, a ser confrontados
«para todos» e aos professores resultam de uma com-       ou numeracia, por exemplo, são por eles apresentados         com discursos antinómicos: o que valoriza os processos
plexa rede de influências e interdependências na qual a   como provas da “crise” em que a educação em Portugal         educativos, isto é, a especificidade local e contextualiza-
lógica global detém um papel determinante no modo         se encontra e como um dado objectivo que sustenta e          da da sua acção e o que enfatiza uma avaliação quantifi-
como a actividade docente tem vindo a ser definida e      reforça a necessidade de os professores prestarem con-       cada dos resultados do seu desempenho que não tem em
regulada pelo Estado português (Teodoro, 2001; Antu-      tas da sua acção.                                            conta as características dos meios em que estes actores
nes, 2005). A adopção, no início da década de noventa,        A propagação mediática dos resultados de pesqui-         sociais desenvolvem a sua actividade profissional (An-
dos princípios ideológicos neo-liberais característicos   sas internacionais e nacionais que salientam o atraso do     tunes, 2005, p. 131).
de uma nova filosofia de gestão do sector público e da    sistema educativo português relativamente à União Eu-            Confrontados com a necessidade de “desenvolverem
«cultura de excelência» que a ela se encontra associada   ropeia e de uma retórica que defende, insistentemente, a     plenamente os estudantes num mundo social e profis-
(Afonso, 1999) levou o Estado nacional a assumir pro-     organização de um mercado escolar instituído com base        sional fortemente hierarquizado e dominado pela ideia
gressivamente políticas de “recentralização, de “meta-    nas preferências dos consumidores, no direito parental à     de performance” (Valentim, 1997, p.75), os docentes do
regulação” e de “controlo remoto” (Sanches, 2004, p.42)   escolha da escola e nos rankings escolares têm vindo, na     ensino secundário têm, na verdade, de gerir diariamen-
que visam a responsabilização e prestação de contas por   verdade, a contribuir fortemente para legitimar as polí-     te no seu ofício várias imposições contraditórias: por
parte dos professores e das escolas.                      ticas educativas que visam promover a expansão de uma        um lado, promoverem o desenvolvimento integral dos
    Em Portugal, esta ideia tem vindo a ser recorrente-   educação com qualidade devidamente aferida através de        discentes, dado que esta norma oficial é dirigida a to-
mente defendida por parte de muitos opinion makers que    uma avaliação quantificada.                                  dos os professores, independentemente dos ciclos de
têm participado no debate mediatizado sobre a escola          Em nome da promoção da qualidade do sistema edu-         escolaridade que leccionam; por outro, avaliar «objec-
nos últimos anos. A difusão da ideia de que os piores     cativo nacional, a avaliação das aprendizagens dos estu-     tivamente» os estudantes através dos testes e provas
resultados escolares se devem aos professores e às es-    dantes do ensino secundário – sob a forma de exames          escolares. Ora, se a primeira tarefa apela para a função
colas, mais concretamente aos «maus» professores – os     nacionais – e a avaliação da eficácia da acção dos profes-   não hierarquizadora da escola, as avaliações dos alunos
que utilizam a «pedagogia» - e às «más» escolas foi uma   sores – sob a forma de rankings escolares – foi apresenta-   conduzem inevitavelmente à hierarquização e selecção
constante. Os efeitos «escola» e «professor» aparece-     da mediaticamente como uma das medidas fundamentais          escolar (Perrenoud, 1999).
ra, de acordo com estes juízos, como os únicos factores   para se solucionar a “crise” em que a educação nacional          O facto de os docentes trabalharem com os alunos
determinantes para o sucesso ou insucesso escolar, na     se encontra. A divulgação dos rankings não só permitiria     ao longo de um ano lectivo e de efectuarem uma ava-
medida em que é “devido à sua actuação” que não são       ao Estado e à população portuguesa aferir as escolas que     liação contínua desse mesmo trabalho, possibilita-lhes,
incutidos nos alunos os hábitos de estudo, trabalho e     proporcionam um ensino “com mais rigor, exigência e          pelo menos teoricamente, resolver este dilema: desen-
aprendizagem adequados. Os maus resultados que os         qualidade”, como daria a possibilidade às restantes esco-    volverem práticas lectivas que estimulem nos alunos o
estudantes atingem em provas internacionais (P.I.S.A.)    las “de seguirem o exemplo das melhores classificadas”.      espírito crítico, a criatividade, a capacidade de iniciativa,


                                                               VÍRUS JUNHO/JULHO 2008   [8] CIDADES INVISÍVEIS
o trabalho em equipa, a responsabilidade e, simultane-          deve também desempenhar na formação integral dos             relevante – muito mais do que a valorização do mérito
amente, realizarem a avaliação dos desempenhos esco-            sujeitos.                                                    dos alunos - não surja como prioritária para estes pro-
lares também com base na «medição» das valências que                Evidenciando uma concepção compósita sobre o             fessores.
os estudantes possuirão para serem bem sucedidos no             papel da escola, os docentes inquiridos entendem que             Sendo confrontados, no exercício do seu trabalho,
mercado de trabalho.                                            a missão principal do sistema educativo não se reduz         com alunos que já foram alvo de um forte processo de
    Todavia, a existência de exames nacionais e de              à transmissão de saberes universais passíveis de ser         selecção escolar, parecem mais preocupados com as
rankings escolares que publicamente dão a conhecer a            quantificados. Perante um conjunto diversificado de          questões que têm de gerir no seu quotidiano do que com
diferença entre a classificação final atribuída pelo pro-       funções com que foram confrontados, os professores do        os desígnios ideais que a escola deveria cumprir. Pro-
fessor no final do ano lectivo e a classificação final obtida   12º ano elegeram como as três mais importantes as que        vavelmente será por isso que desvalorizam as funções
pelo aluno no exame nacional de 12º ano poderá origi-           respeitam as que visam a formação de “cidadãos críticos,     relacionadas com a promoção da autonomia e eficiência
nar uma deriva desta aplicação de princípios de justiça         competentes e activos”, as que os preparem para “serem       do sistema escolar: não exercendo funções de gestão
distintos para a concentração única na “justeza” dos dis-       criativos e flexíveis” e as que respeitam à “transmissão     nos seus estabelecimentos de ensino, estas directrizes
positivos (a expressão é de Derouet, 2002, p.14).               de saberes universais” – Ver quadro 1 na próxima pá-         estarão mais distantes do seu dia-a-dia, parecendo-lhes,
    De forma a evitarem uma grande discrepância entre           gina).                                                       assim, menos prementes.
a classificação interna e a classificação externa obtida            As prescrições «modernas» de que o sistema de en-            No entanto, esta concepção compósita sobre o papel
pelo estudante, os professores do 12º ano poderão, com          sino é alvo, isto é, à necessidade de a escola intervir na   da escola não parece ter uma tradução directa nas prá-
efeito, direccionar os seus investimentos pedagógicos           educação para a cidadania dos jovens e formá-los para        ticas lectivas destes inquiridos.
apenas para as dimensões cognitivas do trabalho escolar         a vida activa reúnem bastantes mais respostas (44,7%)            Questionados sobre os efeitos da implementação dos
em detrimento das tarefas que visam incutir nos estu-           que a referente à “transmissão dos conhecimentos”            exames nacionais no 12º ano nas suas práticas lectivas,
dantes as competências que tanto valorizam retorica-            (25,1%).                                                     61,7% dos professores inquiridos apontaram a “impossi-
mente.                                                              A socialização profissional de que foram alvo e a si-    bilidade de experimentarem outras pedagogias” como a
    Os dados obtidos na investigação que realizámos             tuação concreta em que se encontram estes docentes           consequência mais nefasta da imposição da obrigatorie-
demonstram que as práticas dos professores inquiri-             poderá explicar estes resultados. Ao leccionarem o últi-     dade dos exames nacionais no 12º ano de escolaridade
dos, em vez de traduzirem os valores presentes no seu           mo ano dos estudos secundários, estarão mais sensibi-        - Ver quadro 2 na próxima página2.
discurso, revelam, sobretudo, a percepção dos condicio-         lizados para a transmissão de competências que se en-            Apesar de revelarem a percepção de que terão per-
nalismos a que se encontram quotidianamente sujeitos            contram associadas ao futuro próximo dos seus alunos         dido alguma autonomia e espaço para desenvolverem a
para poderem desempenhar o amplo conjunto de tarefas            e à sua consequente integração social e profissional. A      criatividade – características tradicionais do trabalho
que lhes são incumbidas.                                        participação cívica dos estudantes e a entrada no mundo      docente -, constata-se que a maioria dos inquiridos con-
    Na verdade, ao nível da retórica, os professores            do trabalho ou na universidade exigirão da parte dos         sidera que a estratégia pedagógica mais adequada para
questionam a imposição de um modelo educativo que               jovens que sejam activos, críticos, flexíveis, adaptáveis,   que os alunos obtenham bons resultados seja a que tra-
privilegia um modelo de avaliação centrado meramente            competentes, criativos e capazes de trabalhar em grupo       duz uma lógica de ensino-aprendizagem mais «mecani-
em provas e exames - “reduzindo, assim, o indivíduo             para terem sucesso. Nesta ordem de ideias, compreende-       zada»: leccionarem o programa, dando mais relevância
à sua performance” – e salientam o papel que a escola           se que a função da democratização do ensino, embora          às matérias que poderão sair no exame e treinando os


                                                                     VÍRUS JUNHO/JULHO 2008   [9] CIDADES INVISÍVEIS
QUADRO 1 – FUNÇÕES SOLICITADAS AO SISTEMA                                                    QUADRO 2 – OPINIÃO DOS PROFESSORES RELATIVAMENTE
DE ENSINO BÁSICO E SECUNDÁRIO CONSIDERADAS PELOS                                              AOS ASPECTOS NEGATIVOS DA OBRIGATORIEDADE DOS
PROFESSORES COMO MAIS IMPORTANTES                                                                                  EXAMES NACIONAIS NO 12º ANO

TRANSMISSÃO DO CONHECIMENTO                                            N          %          Sub-total                Aspectos negativos                        N            %
Dar instrução, transmitir conteúdos programáticos                      40        15,7           64                    Introduziu muita pressão no               5           10,6
Transmitir valores e saberes universais                                24         9,4         25,1%                   trabalho dos professores
DEMOCRATIZAÇÃO DO SISTEMA ESCOLAR                                      N          %          Sub-total                Retirou margem de manobra aos             8           17,0
Garantir a igualdade de oportunidades a todos os alunos                23         9,0                                 professores
Integrar todos os alunos/ter em atenção a sua multiculturalidade        7         2,7                                 Impossibilitou a experimentação de        29          61,7
Promover o sucesso escolar dos alunos ‘menos capazes’                   9         3,5            42                   outras pedagogias
Valorizar as diferenças entre as personalidades dos alunos              3         1,2          16,5%                  Outra razão mais significativa              5          10,6
EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA E                                                                                           Sub-total                                 47          100
FORMAÇÃO DOS JOVENS PARA A VIDA ACTIVA                                 N          %          Sub-total                Não se aplica*                            37
Desenvolver plena e harmoniosamente a personalidade dos alunos         15         5,9                                      OS RESULTADOS APRESENTADOS NESTE QUADRO CORRESPONDEM
                                                                                                                           À SOMA DAS RESPOSTAS DOS PROFESSORES QUE CONSIDERARAM
Transmitir as regras de uma cidadania comum                            10         3,9
                                                                                                                          A OBRIGATORIEDADE DOS EXAMES DE 12º ANO COMO UMA MEDIDA
Formar cidadãos críticos, competentes e activos*                       57        22,4                                                        A
                                                                                                                                      NEGATIV OU COM ASPECTOS POSITIVOS E NEGATIVOS.
Incutir nos alunos competências para que estes                                                                                           NESTE ÚLTIMO CASO, SÃO APENAS CONSIDERADAS
                                                                                                                                               AS RESPOSTAS AOS FACTORES NEGATIVOS..
aprendam a trabalhar em grupo*                                          5        1,9            114
Incutir nos alunos competências que os preparem
para ser criativos e flexíveis*                                         27        10,6         44,7%
PROMOÇÃO DE TALENTOS                                                   N          %          Sub-total
Valorizar o mérito dos alunos ‘mais capazes’                            5         1,9           18
Promover a excelência ao nível dos resultados escolares                13         5,0          6,9%
PROMOÇÃO DA EFICIÊNCIA DO SISTEMA ESCOLAR                              N          %          Sub-total
Racionalizar e optimizar os investimentos
e recursos económicos na escola                                        1         0,4
Racionalizar e optimizar os recursos humanos na escola                 3         1,2             9
Efectuar uma gestão escolar eficaz e competitiva                        5         1,9           3,5%
AUTONOMIZAÇÃO DOS ESTABELECIMENTOS ESCOLARES                           N         %           Sub-total       * O CONTEÚDO DESTES ITENS APELA SIMULTANEAMENTE ÀS DIMENSÕES DA
Desenvolver a escola como uma “comunidade educativa”                   6         2,4             8                                                                    A.
                                                                                                             EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA E DA FORMAÇÃO PARA A VIDA ACTIV AO
                                                                                                             ASSINALAREM-NOS NAS SUAS RESPOSTAS, OS INQUIRIDOS PODERÃO TER-LHES
Adaptar a escola à especificidade do contexto local em que se           2         0,8           3,2%
                                                                                                             ATRIBUÍDO OS DOIS SENTIDOS OU APENAS UM DELES. POR ESSE MOTIVO, OPTÁ-
encontra                                                                                                     MOS POR APRESENTAR EM CONJUNTO AS DUAS FUNÇÕES EM CAUSA.
TOTAL DE RESPOSTAS                                                    255        100

                                                                   VÍRUS JUNHO/JULHO 2008   [10] CIDADES INVISÍVEIS
alunos, desde o princípio do 12º ano, a saber responder     possível, adquirindo o cunho utilitarista característico       inquiridos não alterou as suas práticas pedagógicas.
a testes cujos enunciados são idênticos aos exames de       das exigências do mercado. Nesta ordem de ideias, ape-             Mas, para além disso, um outro factor poderá expli-
final do ano (Quadro 3).                                    sar de teoricamente o ensino secundário dar acesso a           car estes resultados: parte dos docentes que não altera-
    Se estas opiniões poderão revelar uma crença na         níveis crescentes de complexidade de conhecimento e            ram as suas práticas lectivas, não o fizeram porque estas
necessidade do ensino secundário ser eficaz «a todo o       reflexão, interrogamo-nos se a instrumentalização da           já visavam o objectivo exame e já tinham em atenção
custo», poderão igualmente desvendar como as roti-          cultura escolar a favor dos critérios da eficiência e eficá-   as diferenças entre as notas obtidas na frequência e as
nas profissionais destes docentes tendem a centrar-se       cia não provocará, na prática, um empobrecimento deste         notas dos testes nacionais: “sempre tive em atenção a meta
na avaliação e na criação de “hierarquias de excelência”    nível de ensino, cujas consequências nas vivências dos         do exame”; “sempre tive a preocupação de comparar os resul-
(Perrenoud, 1999). Ora, esta forma de perspectivar o        estudantes não serão de ignorar.                               tados dos meus alunos obtidos na nota de avaliação interna
exercício da actividade lectiva poderá resultar num pa-         Muito mais do que os rankings escolares, é a exis-         e na nota do exame”.
radoxo relativamente à forma como a organização do          tência dos exames nacionais que parece justificar o                Fruto das orientações políticas na área da educação, a
sistema educativo se encontra estruturado e aos objec-      modo como os professores desenvolvem a sua acção               emergência do paradigma da “educação contábil” (Lima,
tivos que presidiram à sua construção.                      quotidiana.                                                    2002, p.106), poderá, na verdade, ter provocado efeitos
    Com efeito, o sistema escolar encontra-se organi-           De facto, os dados obtidos nesta pesquisa demons-          nas práticas profissionais dos docentes muito antes de
zado em graus correspondentes a níveis distintos de         tram que a maioria dos professores percepcionam os             os rankings escolares serem publicitados.
aprendizagem, para proporcionar o acesso a estádios         rankings escolares como meios que produzem um julga-               Importa, pois, termos em atenção que o discurso om-
cada vez mais complexos de compreensão do saber             mento público sobre o mundo escolar em geral, e sobre          nipresente da qualidade da educação, da avaliação, dos
(Dubet, 2005, p.57). Todavia, dada a pressão para se        o seu desempenho, em particular, mas isso não é uma            resultados, do rigor principiou a fazer-se sentir no início
obterem boas classificações nas provas de 12º ano, os       condição suficiente para alterarem as rotinas profissio-       da década de noventa, tendo-se acentuado desde que os
alunos são treinados, desde o primeiro período lectivo, a   nais.                                                          exames nacionais de 12 ano passaram a ser obrigatórios.
saber responder a testes cujos enunciados são idênticos         Na verdade, só um número reduzido do total de do-          Terá sido, assim, a partir de meados dos anos noventa
aos exames de final do ano. Por isso, ao longo do ano,      centes inquiridos - 22,4% - assumiram que a publicação         que objectivamente tomou forma “a educação que conta,
os professores não experimentam nem arriscam estra-         dos rankings escolares influenciou o modo como passa-          isto é, aquela que é orientada segundo objectivos preci-
tégias de ensino novas que levem os alunos a apreender      ram a leccionar – Ver quadro 43.                               sos e que dessa forma se torna contável através da acção
os conteúdos de formas diferentes, que lhes permitam            O processo de recepção das mensagens mediáticas            de instâncias de contadoria e dos respectivos agentes e
«aprender a pensar», pois estas estratégias implicam        é um processo de “negociação do significado” no qual           processos contadores” (sublinhados do autor, Lima, 2002,
um dispêndio de tempo que não podem perder. O sa-           interferem diversas variáveis. A falta de credibilidade        p.106).
ber transmitido no último ciclo do secundário parece,       e confiança que os docentes atribuem aos critérios que             Ao perspectivarem as escolas, o ensino e a apren-
assim, estar a perder a sua nobre função humanista de       presidem à elaboração das listas ordenadas das escolas,        dizagem como elementos quantificáveis e mensuráveis,
contribuir para a formação de um ser humano comple-         por um lado, e o facto de ideologicamente defenderem a         via processos avaliativos validados, fiáveis e fidedignos,
to intelectualmente «elevado» e «emancipado» (Laval,        realização de uma avaliação multidimensional que inte-         (procurando, assim, esbater imperfeições e subjectivida-
2004, p. 42) e a ser progressivamente encarado como         gre os aspectos qualitativos da realidade educativa, por       des), as orientações políticas contribuíram, com efeito,
um «instrumento» que tem de ser o mais rentabilizado        outro, explicarão porque motivo a grande maioria dos           como salienta Lima, para discriminarem a educação que



                                                                 VÍRUS JUNHO/JULHO 2008    [11] CIDADES INVISÍVEIS
QUADRO 3 – CONDIÇÃO MAIS IMPORTANTE PARA QUE OS ALUNOS                                                             QUADRO 4 – OPINIÃO DOS PROFESSORES
OBTENHAM BONS RESULTADOS NOS EXAMES DE 12º ANO, SEGUNDO OS                                                         RELATIVAMENTE À INFLUÊNCIA DO
PROFESSORES                                                                                                        RANKING ESCOLAR NO MODO COMO
                                                                                                                   PASSARAM A LECCIONAR AO 12º ANO.


Condições                                                                           N         %                    A publicação dos rankings teve    N     %
Terem professores que leccionem o programa, dando mais relevância às matérias que   4         4,8                  influência nas práticas lectivas
poderão sair no exame                                                                                              Sim                               19   22,4
Terem professores que leccionem o programa e avaliem os alunos desde o primeiro     21       25,0                  Não                               66   77,6
período com testes semelhantes aos dos exames                                                                      Total de inquiridos               85   100
Terem professores que leccionem o programa, dêem mais relevância às matérias        43       51,2
que poderão sair no exame e avaliem os alunos desde o primeiro período com testes
semelhantes aos dos exames
Terem professores que leccionem o programa mas permitam aos alunos desenvolver      11       13,1
actividades e realizar testes independentemente dos exames
Outra                                                                                5       6,0
Sub-total                                                                           84       100
Não responde                                                                         1
Total de inquiridos                                                                 85




                                                                VÍRUS JUNHO/JULHO 2008   [12] CIDADES INVISÍVEIS
conta da educação que não conta, ou conta menos (subli-         OS RANKINGS ESCOLARES PARECEM, ASSIM, TEREM SOBRETUDO
nhados do autor, Lima, 2002, p.107). A educação que con-
ta centra-se no cálculo e na mensuração dos resultados,                                                              V
                                                                INFLUENCIADO A FORMA COMO OS PROFESSORES PASSARAM A A ALIAR
sendo a que não conta ou conta menos a que se refere aos
                                                                OS SEUS ALUNOS. A V               V
                                                                                   ALORIZAÇÃO DA A ALIAÇÃO AFERIDA DOS DESEMPENHOS
processos e dimensões educativas mais amplas e infor-
mais, que visam a incorporação de «competências» e                                           V                A
                                                                DOS ALUNOS EM DETRIMENTO DA A ALIAÇÃO FORMATIV CONSTITUIRÁ
de «qualificações» de tipo democrático e cívico (Lima,
                                                                A CONSEQUÊNCIA MAIS EVIDENTE DA ADOPÇÃO DESTAS PRÁTICAS.
2002 p.107).
    Assim sendo, aventamos a possibilidade de ter sido a
partir do momento em que foi implementada a obriga-
toriedade de realização de exames nacionais que muitos         dos desempenhos dos alunos em detrimento da avalia-           rar as características tradicionais do trabalho docente:
docentes se sentiram impelidos a assumir uma “lógica           ção formativa constituirá a consequência mais evidente        trabalho centrado no ensino e nos alunos, protegido e
de acção por objectivos” (Derouet, 1996, p.78), adoptan-       da adopção destas práticas. O risco de a multiplicidade       isolado do trabalho dos outros professores (Tardif e
do práticas pedagógicas que visassem a rentabilização          de olhares sobre os alunos se ir reduzindo e de estes         Lessard, 1999, cit. por Maroy, 2005, p.6), dispondo de
máxima dos resultados. A afirmação de um professor             passarem apenas a ser representados como meros re-            uma forte autonomia à qual se encontra associada um
que não alterou as suas práticas, é clara a este respeito:     produtores de conhecimento - dada a desvalorização que        forte isolamento e incerteza. Neste sentido, pretende-
“desde 1996 que tenho a preocupação com os resultados ob-      passa a ser concedida à sua participação nas aulas e ao       se que os docentes construam uma identidade “orga-
tidos pelos meus alunos nos exames, tendo procurado fazer      seu envolvimento nas diferentes actividades educativas,       nizacional”, “inovadora e cooperativa” prescrevendo-se,
o ajustamento necessário na gestão do programa para um         incluindo as actividades extra-curriculares (Santiago,        para isso, um tempo de trabalho dedicado à componente
melhor desempenho”.                                            et al, 2004, p.20) - torna-se então bastante provável,        lectiva e um tempo dedicado a tarefas de gestão e activi-
    Se, porventura, os professores que alteraram a forma       como, aliás, o reconhecem alguns professores: “preparar       dades em grupo (Maroy, 2005, p.10). Pretende-se ainda
como leccionavam ao 12º ano resistiriam a sobrevalori-         os alunos para o exame não significa prepará-los bem, mas     que assumam o modelo de profissionalismo correspon-
zar as dimensões mensuráveis, comparativas e avaliati-         sem notas nos exames não há opção de escolha e a minha lec-   dente ao do “prático reflexivo”, isto é, a de um actor
vas da educação, desde a publicação dos rankings esco-         cionação é orientada para o exame”. Das suas afirmações       educativo que aplica uma pedagogia do tipo construti-
lares passaram a atribuir tanta importância aos exames         é também possível constatar um outro efeito paradoxal         vista e diferenciada - tanto mais importante quanto mais
que parecem deles fazer “a sua razão de existir” (Correia      que a divulgação mediática das «listas» terá provocado        se acentua a heterogeneidade do público escolar -, que
e Matos, 2001, p.126): “eliminei o acessório, centrei-me nas   na actividade lectiva destes docentes.                        trabalha em equipa e investe na vida colectiva do seu
capacidades de que serão objecto de testagem, utilizo menor        No discurso modernizador preconizado pelos defen-         estabelecimento escolar (Maroy, 2005, p.8 -10).
variedade de metodologias”; “passei a preparar os alunos       sores do ranking escolar e pelos que entendem que o               Ora, tudo indica que a maioria dos professores inqui-
quase exclusivamente para o exame”.                            sistema escolar deverá acompanhar as mudanças que as          ridos continua a construir a sua identidade muito mais
    Os rankings escolares parecem, assim, terem sobretu-       sociedades actuais têm sofrido, estão em jogo diversas        a partir de uma “definição profissional” (Maroy, 2005,
do influenciado a forma como os professores passaram a         variáveis, nomeadamente o comprometimento dos pro-            p.8) do que “organizacional”, dada a importância que
avaliar os seus alunos. A valorização da avaliação aferida     fessores numa dinâmica escolar colectiva que visa supe-       atribuem ao exercício da actividade lectiva e à componen-


                                                                    VÍRUS JUNHO/JULHO 2008   [13] CIDADES INVISÍVEIS
te das competências disciplinares e da transmissão dos         é preparar os alunos, dotá-los de conhecimentos, independen-   NOTAS:
saberes. Deste modo, em vez do modelo do “pedagogo”            temente dos rankings”.
– professores centrados no processo de aprendizagem                Num contexto em que o processo de democratização           1
                                                                                                                                As questões trabalhadas neste texto resultam da in-
do conhecimento («ensinar a aprender a aprender») e            quantitativa do ensino secundário e superior continua          vestigação que realizámos no âmbito do doutoramento
do modelo do “prático reflexivo”, poderemos estar a as-        a aumentar, a multiplicidade crescente dos públicos es-        em Sociologia, na especialidade Sociologia da Comuni-
sistir ao retorno do modelo do “mestre”, característico        colares apela a uma maior atenção à diversificação dos         cação, da Cultura e da Educação.
do ethos do docente do princípio do século XX (Lang,           métodos de ensino para que este crescimento quanti-            2
                                                                                                                                Esta opção de resposta é a mais assinalada por todos
1999, cit. por Maroy, 2005, p.9). Na verdade, as carac-        tativo dê lugar a um sucesso qualitativo. No entanto,
                                                                                                                              os respondentes, independentemente do sexo, dos anos
terísticas do ensino promovido pelo “mestre instruído”         as pressões que mais fortemente se dirigem aos profes-
                                                                                                                              de serviço, da área de estudos e da posição relativamente
parecem corresponder às evidenciadas pelos professores         sores – quer as exercidas pela publicação dos rankings,
                                                                                                                              à publicação dos rankings escolares - Quadros 25; 26;
que interrogámos: docentes que dominam antes de mais           quer as exercidas pelo Estado através da introdução dos
                                                                                                                              27 e 28 – Anexo 1.
os saberes disciplinares, trabalham individualmente e          exames obrigatórios - assentam sobretudo em critérios
aplicam uma metodologia de tipo “monolítico” e trans-          quantitativos. A tendência que parece verificar-se para        3
                                                                                                                                Uma vez mais, não se registaram variações de respos-
missivo” centradas nos conteúdos programáticos das             estes redefinirem a sua missão em torno dos valores aca-       ta dignas de registo entre os inquiridos – Quadros 70,
suas disciplinas (Maroy, 2005, p.9).                           démicos, preterindo as dimensões educativas e afectivas,       71, 72 e 73 – Anexo 1.
    Aliás, o que diferencia estes professores uns dos ou-      será então o resultado paradoxal da adaptação destes
tros, não será o desenvolvimento de práticas lectivas          professores às exigências de desenvolverem performan-
diversificadas, mas uma concepção simbólico-ideológica         ces mais eficazes.
da sua actividade profissional claramente discordante da
visão que sobre eles é actualmente promovida e que os
rankings materializam.
    Será, assim, por isso, que parte dos docentes que
não alteraram o modo como leccionavam o 12º ano, se
insurgem contra os rankings escolares não admitindo,
pelo menos retoricamente, que estes interfiram no seu
trabalho. Em consequência, afirmam o seu profissio-
nalismo, defendem uma auto-análise integrada na sua
actividade diária e exaltam o exercício responsável da
autonomia que dispõem, bem como a importância de
desenvolverem uma relação pedagógica com os alunos:
“sempre pautei a minha actuação pelo máximo rigor, profis-
sionalismo, privilegiando não só a leccionação dos conteúdos
como a relação pedagógica”; “a minha preocupação essencial



                                                                    VÍRUS JUNHO/JULHO 2008    [14] CIDADES INVISÍVEIS
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