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Aprender antropologia

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Aprender Antropologia

        c
    Fran¸ois Laplantine

           2003
2
     u
Conte´ do

I                       o
    Marcos Para Uma Hist´ria Do Pensamento An-
      o
tropol´gio                                     23
      e     o
1 A Pr´-Hist´ria Da Antropologia:                                25
  1.1 A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom Civilizado . . . . . . . 27
  1.2 A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau Civilizado . . . . . . . 32

     e
2 O S´culo XVIII:                                                          39

3 O Tempo Dos Pioneiros:                                                   47

4 Os Pais Fundadores Da Etnografia:                                     57
  4.1 BOAS (1858-1942) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
  4.2 MALINOWSKI (1884-1942) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60

                 o
5 Os Primeiros Te´ricos Da Antropologia:                                   67


II                      e
     As Principais Tendˆncias Do Pensamento An-
      o               a
tropol´gico Contemporˆneo                       73
          ca
6 Introdu¸˜o:                                                               75
                           c˜
  6.1 Campos De Investiga¸ao . . . . . . . . . . . . . . . . .      . . . . 75
                co
  6.2 Determina¸˜es Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . .     . . . . 76
                 o      o
  6.3 Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento Antropol´gico  o        Con-
             a
       temporˆneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . 80

                                  o
7 A Antropologia Dos Sistemas Simb´licos                                   87

8 A Antropologia Social:                                                   91

9 A Antropologia Cultural:                                                 95

                                     3
4                                                                   ´
                                                               CONTEUDO

                                   e
10 A Antropologia Estrutural E Sistˆmica:                                  103

                     a
11 A Antropologia Dinˆmica:                                                113


III                        a             o
      A Especificidade Da Pr´tica Antropol´gica                            119
                      o
12 Uma Ruptura Metodol´gica:                                               121

             a     a
13 Uma Invers˜o Tem´tica:                                                  125

           e
14 Uma Exigˆncia:                                                          129

15 Uma Abordagem:                                                          133

           c˜           ca                             o
16 As Condi¸oes De Produ¸˜o Social Do Discurso Antropol´gico137

17 O Observador, Parte Integrante Do Objeto De Estudo:                     139

18 Antropologia E Literatura:                                              143

           o                          a
19 As Tens˜es Constitutivas Da Pr´tica Antropol´gica:    o                 149
   19.1 O Dentro E O Fora . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   . 149
   19.2 A Unidade E A Pluralidade . . . . . . . . . . . . . . . . . .     . 152
   19.3 O Concreto E O Abstrato . . . . . . . . . . . . . . . . . . .     . 157

20 Sobre o autor:                                                          163
     ´
CONTEUDO                                                                    5

       a
   Pref´cio
                                          a
A ANTROPOLOGIA: uma chave para a compreens˜o do homem

                                                               a
Uma das maneiras mais proveitosas de se dar a conhecer uma ´rea do conhe-
         e    c            o
cimento ´ tra¸ar-lhe a hist´ria, mostrando como foi variando o seu colorido
     e                                    co
atrav´s dos tempos, como deitou ramifica¸˜es novas que alteraram seu tema
                                   e                      ca
de base ampliando-o. Para tanto ´ requerida uma erudi¸˜o dificilmente en-
                                           ca               ca
contrada entre os especialistas, pois erudi¸˜o e especializa¸˜o constituem-se
                   ca                   a
em opostos: a erudi¸˜o abrindo- se na ˆnsia de dominar a maior quantidade
    ıvel                       ca                                c
poss´ de saber, a especializa¸˜o se fechando no pequeno espa¸o de um co-
nhecimento minucioso.

                   o           e       c
O livro do antrop´logo francˆs Fran¸ois Laplantine, professor da Univer-
                               a
sidade de Lyon II, autor de v´rias obras importantes e que hoje efetua pes-
                     u
quisas no Brasil, re´ne as duas perspectivas: vai balizando o conhecimento
        o          e         o
antropol´gico atrav´s da hist´ria e mostrando as diversas perspectivas atuais.
                                a
Em primeiro lugar, efetua a an´lise de seu desenvolvimento, que permite uma
          a                          ı            ı
compreens˜o melhor de suas caracter´sticas espec´ficas; em seguida, apresenta
       e                 a
as tendˆncias contemporˆneas e, finalmente, um panorama dos problemas co-
               a                                        ca
locados pela pr´tica e por suas possibilidades de aplica¸˜o.

                          ca a
Trata-se de uma introdu¸˜o ` Antropologia que parece fabricada de enco-
                                            ca                 e
menda para estudantes brasileiros. A forma¸˜o nacional em Ciˆncias Sociais
                    a       a                                      ca
(e a Antropologia n˜o foge ` regra. . .) segue a via da especializa¸˜o, muito
                         ca                         e
mais do que a da forma¸˜o geral. Os estudantes lˆem e discutem determi-
                      a
nados autores, ou ent˜o os componentes de uma escola bem delimitada; o
                   e                 e
conhecimento lhes ´ inculcado atrav´s do conhecimento de um problema ou
de um ramo do saber na maioria de seus aspectos, nos debates que susci-
                          co                        o
tou, nas respostas e solu¸˜es que inspirou. A hist´ria da disciplina, assim
          a                                                    ı
como da ´rea de conhecimentos a que pertence, o exame cr´tico de todas
          co       a
as proposi¸˜es tem´ticas que foi suscitando ao longo do tempo, permanecem
                              co
muitas vezes fora das cogita¸˜es do curso, como se fosse algo de somenos
      a
importˆncia.

                                   c                              e
No Brasil o presente tem muita for¸a; nele se vive intensamente, ´ ele que se
                                               ca                 a
busca compreender profundamente, na convic¸˜o de que nele est˜o as ra´zes ı
              ı            ca
do futuro. Pa´s em constru¸˜o, seus habitantes em geral, seus estudiosos em
                      e      ı               a                            ca
particular, tem consciˆncia n´tida de que est˜o criando algo, de que sua a¸˜o
e           a                                 e
´ de importˆncia capital como fator por excelˆncia do provir. E, para chegar
6                                                                         ´
                                                                     CONTEUDO

                     ´                                    ca           ca
a ela escolhe-se uma unica via preferencial, a especializa¸˜o numa dire¸˜o,
                   a                 ca
como se fora dela n˜o existisse salva¸˜o.

                                        a
No entanto, com esta maneira de ser t˜o mercante, perdem-se de vista com-
ponentes fundamentais desse mesmo provir: o passado, por um lado, e por
                                                 e            c
outro lado a multipli-cidade de caminhos que tˆm sido tra¸ados para cons-
   ı                                                                    e
tru´-lo. A necessidade real, no preparo dos estudiosos brasileiros em Ciˆncias
         e        c                                          o
Sociais, ´ o refor¸o do conhecimento do passado de sua pr´pria disciplina e
                                               e
da variedade de ramos que foi originando at´ a atualidade. Este livro, em
muito boa ora traduzido, oferece a eles um primeiro panorama geral da An-
                          a
tropologia e seu lugar no ˆmbito do saber.

         ı                  ca                                ı
Constru´do dentro da tradi¸˜o francesa do pensamento anal´tico e da cla-
                a               ca
reza de express˜o, esta introdu¸˜o ao conhecimento da Antropologia atinge,
                  u
na verdade, um p´blico mais amplo do que simplesmente o dos estudantes e
                   e                        a        a      u
especialistas de Ciˆncias Sociais. Sua difus˜o se far´ sem d´vida entre todos
             ı
aqueles atra´dos para os problemas do homem enquanto tal, que buscam co-
nhecer ao homem enquanto seu igual e ao mesmo tempo ”outro”.

                                          1
Maria Isaura Pereira de Queiroz




    1
                                    e
    Maria Isaura Pereira de Queiroz ´ professora do Departamento de Sociologia e pes-
quisadora do Centro de Estudos Rurais e Urbanos da I I FLCH-USP.
     ´
CONTEUDO                                                                        7

          ca
   Introdu¸˜o
                              o
O Campo e a Abordagem Antropol´gicos

O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. Em todas as socie-
                                                              e
dades existiram homens que observavam homens. Houve at´ alguns que eram
  o                               e
te´ricos e forjaram, como diz L´vi-Strauss, modelos elaborados ”em casa”.
          a
A reflex˜o do homem sobre o homem e sua sociedade, e a elabora¸ao de umc˜
         a              a
saber s˜o, portanto, t˜o antigos quanto a humanidade, e se deram tanto na
´                ´             e
Asia como na Africa, na Am´rica, na Oceania ou na Europa. Mas o projeto
                    e                                    e           a
de fundar uma ciˆncia do homem - uma antropologia - ´, ao contr´rio, muito
                                      e            e            c
recente. De fato, apenas no final do s´culo XVIII ´ que come¸a a se constituir
um saber cient´  ıfico (ou pretensamente cient´ ıfico) que toma o homem como
                              a                                    e
objeto de conhecimento, e n˜o mais a natureza; apenas nessa ´poca ´ que oe
esp´           ıfico pensa, pela primeira vez, em aplicar ao pr´prio homem os
    ırito cient´                                                 o
  e          e     a               ´
m´todos at´ ent˜o utilizados na area f´ ısica ou da biologia.

                                  a           o
Isso constitui um evento consider´vel na hist´ria do pensamento do homem
                                                       a
sobre o homem. Um evento do qual talvez ainda hoje n˜o estejamos medindo
                 ue                                       e    a       o
todas as conseq¨ˆncias. Esse pensamento tinha sido at´ ent˜o mitol´gico,
   ıstico, teol´gico, filos´fico, mas nunca cient´
art´           o          o                     ıfico no que dizia respeito ao
                                                        ´
homem em si. Trata-se, desta vez, de fazer passar este ultimo do estatuto de
                                            e
sujeito do conhecimento ao de objeto da ciˆncia. Finalmente, a antropolo-
                                              o               c        e
gia, ou mais precisamente, o projeto antropol´gico que se esbo¸a nessa ´poca
                       o       a
muito tardia na Hist´ria - n˜o podia existir o conceito de homem enquanto
    o
regi˜es da humanidade permaneciam inexploradas - surge * em uma regi˜o     a
                                                 a
muito pequena do mundo: a Europa.. Isso trar´, evidentemente, como vere-
                            ue
mos mais adiante, conseq¨ˆncias importantes.

                                                          co
Para que esse projeto alcance suas primeiras realiza¸˜es, para que o novo
saber comece a adquirir um in´    ıcio de legitimidade entre outras disciplinas
cient´          a                                           e
      ıficas, ser´ preciso esperar a segunda metade do s´culo XIX, durante o
qual a antropologia se atribui objetos emp´              o
                                               ıricos autˆnomos: as sociedades
   a                                            ` ´                 c˜        e
ent˜o ditas ”primitivas”, ou seja, exteriores as areas de civiliza¸ao europ´ias
                             e                            e
ou norte-americanas. A ciˆncia, ao menos tal como ´ concebida na ´poca,    e
    o
sup˜e uma dualidade radical entre o observador e seu objeto. Enquanto que
          c˜                a a                 c˜
a separa¸ao (sem a qual n˜o h´ experimenta¸ao poss´      ıvel) entre o sujeito ob-
                                e
servante e o objeto observado ´ obtida na f´                                a
                                              ısica (como na biologia, botˆnica,
ou zoologia) pela natureza suficientemente diversa dos dois termos presentes,
        o              a
na hist´ria, pela distˆncia no tempo que separa o historiador da sociedade
8                                                                           ´
                                                                       CONTEUDO

                        a                        e
estudada, ela consistir´ na antropologia, nessa ´poca - e por muito tempo -
             a                           a
em uma distˆncia definitivamente geogr´fica. As sociedades estudadas pelos
                 o        a
primeiros antrop´logos s˜o sociedades long´         `          a
                                            ınquas as quais s˜o atribu´  ıdas as
                  ısticas: sociedades de dimens˜es restritas; que tiveram pou-
seguintes caracter´                            o
                                                         e
cos contatos com os grupos vizinhos; cuja tecnologia ´ pouco desenvolvida
         ca `                      a                        c˜
em rela¸˜o a nossa; e nas quais h´ uma menor especializa¸ao das atividades
      c˜             a        e
e fun¸oes sociais. S˜o tamb´m qualificadas de ”simples”; em conseq¨ˆncia,ue
       a                         a                     c
elas ir˜o permitir a compreens˜o, como numa situa¸ao de laborat´rio, dao
          c˜                          o
organiza¸ao ”complexa”de nossas pr´prias sociedades.



                                        ***

                                                                      e o
    A antropologia acaba, portanto, de atribuir-se um objeto que lhe ´ pr´prio:
                    c˜        a             a          ca               a
o estudo das popula¸oes que n˜o pertencem ` civiliza¸˜o ocidental. Ser˜o ne-
    a                      e
cess´rias ainda algumas d´cadas para elaborar ferramentas de investiga¸ao  c˜
                                                      co             c˜
que permitam a coleta direta no campo das observa¸˜es e informa¸oes. Mas
        o                    o        e                          ıcio
logo ap´s ter firmado seus pr´prios m´todos de pesquisa - no in´ do s´culoe
XX - a antropologia percebe que o objeto emp´    ırico que tinha escolhido (as
                             a                              o
sociedades ”primitivas”) est´ desaparecendo; pois o pr´prio Universo dos
             a e                                          c˜
”selvagens”n˜o ´ de forma alguma poupado pela evolu¸ao social. Ela se vˆ,    e
portanto, confrontada a uma crise de identidade. Muito rapidamente, uma
      a
quest˜o se coloca, a qual, como veremos neste livro, permanece desde seu
nascimento: o fim do ”selvagem”ou, como diz Paul Mercier (1966), ser´ que a
                         a
a ”morte do primitivo”h´ de causar a morte daqueles que haviam se dado
                                             a
como tarefa o seu estudo? A essa pergunta v´rios tipos de resposta puderam
                                                  e
e podem ainda ser dados. Detenhamo-nos em trˆs deles.

           o                                                        ˆ
1) O antrop´logo aceita, por assim dizer, sua morte, e volta para o ambito das
         e                                    a
outras ciˆncias humanas. Ele resolve a quest˜o da autonomia problem´tica a
de sua disciplina reencontrando, especialmente a sociologia, e notadamente
      e
o que ´ chamado de ”sociologia comparada”.

                                     ´               c˜              e
2) Ele sai em busca de uma outra area de investiga¸ao: 0 camponˆs, este
selvagem de dentro, objeto ideal de seu estudo, particularmente bem ade-
        a                                                  e
quado, j´ que foi deixado de lado pelos outros ramos das ciˆncias do homem.
2

    2
                      a                        a
    A pesquisa etnogr´fica cujo objeto pertence ` mesma sociedade que i) observador foi,
     ıcio, qualificada pelo nome de folklore. Foi Van uenncp que elaborou os m´todos
de in´                                               ¨                          e
  o
pr´prios desse campo de estudo, empenhando-se em explorar exclusivamente (mas de uma
     ´
CONTEUDO                                                                               9


                                                                     a
3) Finalmente, e aqui temos um terceiro caminho, que inclusive n˜o exclui
o anterior (pelo menos enquanto campo de estudo), ele afirma a especifici-
                a       a              e
dade de sua pr´tica, n˜o mais atrav´s de um objeto emp´      ırico constitu´ıdo
                        e              e
(o selvagem, o camponˆs), mas atrav´s de uma abordagem epistemol´gica     o
                    e                        c                c         a
constituinte. Essa ´ a terceira via que come¸aremos a esbo¸ar nas p´ginas
                         a
que se seguem, e que ser´ desenvolvida no conjunto deste trabalho. O objeto
  o                        a    a                                       c
te´rico da antropologia n˜o est´ ligado, na perspectiva na qual come¸amos
                                           c      a                       o
a nos situar a partir de agora, a um espa¸o geogr´fico, cultural ou hist´rico
                                 a e     a
particular. Pois a antropologia n˜o ´ sen˜o um certo olhar, um certo enfoque
que consiste em: a) o estudo do homem inteiro; b) o estudo do homem em
todas as sociedades, sob todas as latitudes em todos os seus estados e em
         e
todas as ´pocas.

O estudo do homem inteiro

 o                                     o
S´ pode ser considerada como antropol´gica uma abordagem integrativa que
                           ca       u             o
objetive levar em considera¸˜o as m´ltiplas dimens˜es do ser humano em so-
                           u                                           c˜
ciedade. Certa-mente, o ac´mulo dos dados colhidos a partir de observa¸oes
                           c               e                  c˜
diretas, bem como o aperfei¸oamento das t´cnicas de investiga¸ao, conduzem
                                   c˜                e
necessariamente a uma especializa¸ao do saber. Por´m, uma das voca¸˜es co
                                             a
maiores de nossa abordagem consiste em n˜o parcelar o homem mas, ao
     a                                              ca       u
contr´rio, em tentar relacionar campos de investiga¸˜o freq¨entemente se-
                              ´
parados. Ora, existem cinco areas principais da antropologia, que nenhum
                                                            `
pesquisador pode, evidentemente, dominar hoje em dia, mas as quais ele deve
estar sensibilizado quando trabalha de forma profissional em algumas delas,
                      a         e       co
dado que essas cinco ´reas mant´m rela¸˜es estreitas entre si.

                    o
A antropologia biol´gica (designada antigamente sob o nome de antropologia
 ısica) consiste no estudo das varia¸˜es dos caracteres biol´gicos do homem
f´                                  co                      o
          c                          a    e          c˜                  o
no espa¸o e no tempo. Sua problem´tica ´ a das rela¸oes entre o patrimˆnio
     e                    a         o
gen´tico e o meio (geogr´fico, ecol´gico, social), ela analisa as particulari-
               o            o
dades morfol´gicas e fisiol´gicas ligadas a um meio ambiente, bem como a
       ca
evolu¸˜o destas particularidades. O que deve, especialmente, a cultura a
             o                e                    o
este patrimˆnio, mas tamb´m, o que esse patrimˆnio (que se transforma)
       `                          o                     a              c˜
deve a cultura? Assim, o antrop´logo biologista levar´ em considera¸ao os
                                                            c˜
fatores culturais que influenciam o crescimento e a matura¸ao do indiv´  ıduo.

                           co                                  a
forma magistral) as tradi¸˜es populares camponesas, a distˆncia social e cultural que
                                                          a          a
separa o objeto do sujeito, substituindo nesse caso a distˆncia geogr´fica da antropologia
   o
”ex´tica”.
10                                                                            ´
                                                                         CONTEUDO

                  a
Ele se perguntar´, por exemplo: por que o desenvolvimento psicomotor da
     c            e                                     c       e
crian¸a africana ´ mais adiantado do que o da crian¸a europ´ia? Essa parte
da antropologia, longe de consistir apenas no estudo das formas de crˆnios,a
         c˜
mensura¸oes do esqueleto, tamanho, peso, cor da pele, anatomia comparada
     c                                                                       e
as ra¸as c dos sexos, interessa-se em especial - desde os anos 50 - pela gen´tica
            co
das popula¸˜es, que permite discernir o que diz respeito ao inato e ao ad-
                                    a
quirido, sendo que um e outro est˜o interagindo continuamente. Ela tem, a
                                                                        a
meu ver, um papel particularmente importante a exercer para que n˜o sejam
                 co                              e                         e
rompidas as rela¸˜es entre as pesquisas das ciˆncias da vida e as das ciˆncias
humanas.

                   e     o    e                         e        ıgios mate-
A antropologia pr´-hist´rica ´ o estudo do homem atrav´s dos vest´
                                              e
riais enterrados no solo (ossadas, mas tamb´m quaisquer marcas da atividade
                                      `
humana). Seu projeto, que se liga a arqueologia, visa reconstituir as socie-
                                         e                c˜
dades desaparecidas, tanto em suas t´cnicas e organiza¸oes sociais, quanto
                co
em suas produ¸˜es culturais e art´  ısticas. Notamos que esse ramo da antro-
                                            e     `
pologia trabalha com uma abordagem idˆntica as da antropologia hist´ricao
e da antropologia social e cultural de que trataremos mais adiante. O histo-
        e                          o            e
riador ´ antes de tudo um histori´grafo, isto ´, um pesquisador que trabalha
                                                              e    o
a partir do acesso direto aos textos. O especialista em pr´-hist´ria reco-
lhe, pessoalmente, objetos no solo. Ele realiza um trabalho de campo, como
o realizado na antropologia social na qual se beneficia de depoimentos vivos.3

                    uıstica. A linguagem ´, com toda evidˆncia, parte do
4 antropologia ling¨´                       e                  e
patrimˆnio cultural de uma sociedade. E
       o                                   ´ atrav´s dela que os indiv´
                                                    e                     ıduos
          o
que comp˜em uma sociedade se expressam e expressam seus valores, suas
         c˜
preocupa¸oes, seus pensamentos. Apenas o estudo da l´      ıngua permite com-
preender: o como os homens pensam o que vivem e o que sentem, isto ´,        e
                                                          ıi´
suas categorias psicoafetivas e psicocognitivas (etnoling´ ıstica); o como eles
                                                        a
expressam o universo e o social (estudo da literatura, n˜o apenas escrita, mas
     e           ca                                                      o
tamb´m de tradi¸˜o oral); o como, finalmente, eles interpretam seus pr´prios
                     a                          e
saber e saber-fazer (´rea das chamadas etnociˆncias).
   A antropologia ling¨´             e
                        uıstica, que ´ uma disciplina que se situa no encontro

     3
                         c                                               e
     Foi notadamente gra¸as a pesquisadores como Paul Rivet e Andr´ Leroi-Gourhan
                      ca           a                     ısica, biol´gica e s´cio-cultural
(1964) que a articula¸˜o entre as ´reas da antropologia f´          o        o
                           c                               c
nunca foi rompida na Fran¸a. Mas continua sempre amea¸ada de ruptura devido a um
                         ca
movimento de especializa¸˜o facilmente compreens´ ıvel. Assim, colocando-se do ponto de
                                                                        a          ca
vista da antropologia social, Edmund Leach (1980) fala d,a ”desagrad´vel obriga¸˜o de
         e    a                                              e    o
fazer m´nage ` trois com os representantes da arqueologia pr´-hist´rica e da antropologia
 ısica”, comparando-a ` coabita¸˜o dos psic´logos e dos especialistas da observa¸˜o de
f´                     a        ca          o                                      ca
                o
ratos em laborat´rio
     ´
CONTEUDO                                                                         11

de v´rias outras, 4 n˜o diz respeito apenas, e de longe, ao estudo dos dialetos
     a               a
                                      e                 ´
(dialetologia). Ela se interessa tamb´m pelas imensas areas abertas pelas no-
     e                              c˜
vas t´cnicas modernas de comunica¸ao (mass media e cultura do audiovisual).

                       o           e              o
A antropologia psicol´gica. Aos trˆs primeiros p´los de pesquisa que foram
                     a                    ´
mencionados, e que s˜o habitualmente os unicos considerados como constitu-
tivos (com antropologia social e a cultural, das quais falaremos a seguir) do
                                              a
campo global da antropologia, fazemos quest˜o pessoalmente de acrescentar
             o                             o
um quinto p´lo: o da antropologia psicol´gica, que consiste no estudo dos
                                                                       o
processos e do funcionamento do psiquismo humano. De fato, o antrop´logo ´   e
                 a                  a                                   ıduos.
em primeira instˆncia confrontado n˜o a conjuntos sociais, e sim a indiv´
                         e
Ou seja, somente atrav´s dos comportamentos - conscientes e inconscientes -
dos seres humanos particulares podemos apreender essa totalidade sem a qual
  a e                 ´     a                       a        o
n˜o ´ antropologia. E a raz˜o pela qual a dimens˜o psicol´gica (e tamb´m   e
           o     e                        a
psicopatol´gica) ´ absolutamente indissoci´vel do campo do qual procuramos
                     e
aqui dar conta. Ela ´ parte integrante dele.

                                                             a
A antropologia social e cultural (ou etnologia) nos deter´ por muito mais
                          a                            e
tempo. Apenas nessa ´rea temos alguma competˆncia, e este livro tra-
   a
tar´ essencialmente dela. Assim sendo, toda vez que utilizarmos a partir
de agora o termo antropologia mais genericamente, estaremos nos referindo
`
a antropologia social e cultural (ou etnologia), mas procuraremos nunca es-
                e
quecer que ela ´ apenas um dos aspectos da antropologia. Um dos aspectos
            e      e          a      a
cuja abrangˆncia ´ consider´vel, j´ que diz respeito a tudo que constitui
                                         ca     o              e
uma sociedade: seus modos de produ¸˜o econˆmica, suas t´cnicas, sua or-
       c˜
ganiza¸ao pol´           ıdica, seus sistemas de parentesco, seus sistemas de
              ıtica e jur´
                         c                  ıngua, sua psicologia, suas cria¸˜es
conhecimento, suas cren¸as religiosas, sua l´                               co
   ısticas.
art´

                   c            a
Isso posto, esclare¸amos desde j´ que a antropologia consiste menos no levan-
                a
tamento sistem´tico desses aspectos do que em mostrar a maneira particular
                a                              e
com a qual est˜o relacionados entre si e atrav´s da qual aparece a especifi-
cidade de uma sociedade. E ´ precisamente esse ponto de vista da totalidade,
                         o                                       e
e o fato de que o antrop´logo procura compreender, como diz L´vi-Strauss,
                         a
aquilo que os homens ”n˜o pensam habitualmente em fixar ria pedra ou no
                                         o
papel”(nossos gestos, nossas trocas simb´licas, os menores detalhes dos nos-
  4
                o                                    e
    Foi o antrop´logo Edward Sapir (1967) quem, al´m de introduzir o estudo da lin-
                                   o             c       e
guagem entre os materiais antropol´gicos, come¸ou tamb´m a mostrar que um estudo
         o        ıngua (a l´
antropol´gico da l´         ıngua como objeto de pesquisa inscrevendo-se na cultura)
                         uıstico da cultura (a l´
conduzia a um estudo ling¨´                     ıngua como modelo de conhecimento da
cultura).
12                                                                           ´
                                                                        CONTEUDO

sos comportamentos), que faz dessa abordagem um tratamento fundamental-
                                                       o
mente diferente dos utilizados setorial- mente pelos ge´grafos, economistas,
              o           o
juristas, soci´logos, psic´logos. . .

O estudo do homem em sua totalidade

                  a e                                        o
A antropologia n˜o ´ apenas o estudo de tudo que com-p˜e uma sociedade.
Ela ´ o estudo de todas as sociedades humanas (a nossa inclusive 5 ), ou seja,
     e
das culturas da humanidade como um todo em suas diversidades hist´ricas  o
        a
e geogr´ficas. Visando constituir os ”arquivos”da humanidade em suas di-
      c                                                               a
feren¸as significativas, ela, inicialmente privilegiou claramente as ´reas de
        c˜              `                              a
civiliza¸ao exteriores a nossa. Mas a antropologia n˜o poderia ser definida
por um objeto emp´   ırico qualquer (e, em especial, pelo tipo de sociedade ao
                ıpio
qual ela a princ´ se dedicou preferencialmente ou mesmo exclusivamente).
                           ca
Se seu campo de observa¸˜o consistisse no estudo das sociedades preservadas
                                                                a
do contato com o Ocidente, ela se encontraria hoje, como j´ comentamos,
sem objeto.

             e                                       ca            o
Ocorre, por´m, que se a especificidade da contribui¸˜o dos antrop´logos em
    c˜                                    e                  a
rela¸ao aos outros pesquisadores em ciˆncias humanas n˜o pode ser con-
fundida com a natureza das primeiras sociedades estudadas (as sociedades
             e        e
extra-europ´ias), ela ´ a meu ver indissociavelmente ligada ao modo de conhe-
                                                                          c˜
cimento que foi elaborado a partir do estudo dessas sociedades: a observa¸ao
                      c˜
direta, por impregna¸ao lenta e cont´                            u
                                     ınua de grupos humanos min´sculos com
                              c˜
os quais mantemos uma rela¸ao pessoal.

   e                        a             c˜
Al´m disso, apenas a distˆncia em rela¸ao a nossa sociedade (mas uma
     a                                                    o
distˆncia que faz com que nos tornemos extremamente pr´ximos daquilo que
e
´ long´                                                           a
       ınquo) nos permite fazer esta descoberta: aquilo que tom´vamos por
              o         e                                           e
natural em n´s mesmos ´, de fato, cultural; aquilo que era evidente ´ Infinita-
                 a                                          c˜          o
mente problem´tico. Disso decorre a necessidade, na forma¸ao antropol´gica,
                a
daquilo que n˜o hesitarei em chamar de ”estranhamento”(depaysement), a
                                                          a         o
perplexidade provo- cada pelo encontro das culturas que s˜o para n´s as mais
                                                    ca
distantes, e cujo encontro vai levar a uma modifica¸˜o do olhar que se tinha
                                           ´                        a
sobre si mesmo. De fato, presos a uma Unica cultura, somos n˜o apenas
       `
cegos a dos outros, mas m´  ıopes quando se trata da nossa. A experiˆnciae
     5
               o           c
    Os antrop´logos come¸aram a se dedicar ao estudo das sociedades’ industriais
    c
avan¸adas apenas muito recentemente. As primeiras pesquisas trataram primeiro, como
                                                   a
vimos, dos aspectos ”tradicionais”das sociedades ”n˜o tradicionais”(as comunidades cam-
              e                                                     a
ponesas europ´ias), em seguida, dos grupos marginais, e finalmente, h´ alguns anos apenas
        c
na Fran¸a, do setor urbano.
     ´
CONTEUDO                                                                       13

                            c˜               e
da alteridade (e a elabora¸ao dessa experiˆncia) leva-nos a ver aquilo que
nem ter´ ıamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa
     c˜             e
aten¸ao no que nos ´ habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos ”evi-
dente”. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (ges-
tos, m´                     co              a
       ımicas, posturas, rea¸˜es afetivas) n˜o tem realmente nada de ”natu-
             c         a
ral”. Come¸amos, ent˜o, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a
 o                                                    o
n´s mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropol´gico) da nossa cultura
passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos es-
                                                     ıvel
pecialmente reconhecer que somos uma cultura poss´ entre tantas outras,
       a    ´
mas n˜o a unica.

Aquilo que, de fato, caracteriza a unidade do homem, de que a antropo-
              a                                                     a e
logia, como j´ o dissemos e voltaremos a dizer, faz tanta quest˜o, ´ sua
      a
aptid˜o praticamente infinita para inventar modos de vida e formas de orga-
    c˜
niza¸ao social extremamente diversos. E, a meu ver, apenas a nossa disciplina
permite notar, com a maior proximidade poss´   ıvel, que essas formas de com-
                                             a
portamento e de vida em sociedade que tom´vamos todos espontaneamente
por inatas (nossas maneiras de andar, dormir, nos encontrar, nos emocionar,
                                     e            a
comemorar os eventos de nossa existˆncia. . .) s˜o, na realidade, o produto
                                                                e
de escolhas culturais. Ou seja, aquilo que os seres humanos tˆm em comum
e
´ sua capacidade para se diferenciar uns dos outros, para elaborar costumes,
 ınguas, modos de conhecimento, institui¸oes, jogos profundamente diversos;
l´                                       c˜
         a                        e                    e       e
pois se h´ algo natural nessa esp´cie particular que ´ a esp´cie humana, ´  e
         a `        c˜
sua aptid˜o a varia¸ao cultural

                   o
O projeto antropol´gico consiste, portanto, no reconhecimento, conhecimento,
                               a
juntamente com a compreens˜o de uma humanidade plural. Isso sup˜e ao     o
mesmo tempo a ruptura com a figura da monotonia do duplo, do igual, do
  e                     a                ıvel
idˆntico, e com a exclus˜o num irredut´ ”alhures”. As sociedades mais di-
ferentes da nossa, que consideramos espontaneamente como indiferenciadas,
 a                a                                a
s˜o na realidade t˜o diferentes entre si quanto o s˜o da nossa. E, mais ainda,
      a                                                e
elas s˜o para cada uma delas muito raramente homogˆneas (como seria de se
                          a
esperar) mas, pelo contr´rio, extremamente diversificadas, participando ao
mesmo tempo de uma comum humanidade.

                      o                                         c˜
A abordagem antropol´gica provoca, assim, uma verdadeira revolu¸ao epis-
     o               c                ca
temol´gica, que come¸a por uma revolu¸˜o do olhar. Ela implica um des-
                                         e
centramento radical, uma ruptura com a id´ia de que existe um ”centro do
mundo”, e, correlativamente, uma amplia¸˜o do saber 6 e uma muta¸ao de
                                       ca                          c˜

  6
                                    o a                                e
      Veremos que a antropologia sup˜e n˜o apenas esse desmembramento (´clatement)
14                                                                            ´
                                                                         CONTEUDO

                                                                e
si mesmo. Como escreve Roger Bastide em sua Anatomia de Andr´ Gide:
                ıveis em mim; mas n˜o posso me resignar a querer apenas
”Eu sou mil poss´                  a
um deles”.

                              e               c˜
A descoberta da alteridade ´ a de uma rela¸ao que nos permite deixar de
identificar nossa pequena prov´  ıncia de humanidade com a humanidade, e
                                                                      o
correlativamente deixar de rejeitar o presumido ”selvagem”fora de n´s mes-
                     `                              a
mos. Confrontados a multiplicidade, a priori enigm´tica, das culturas, somos
aos poucos levados a romper com a abordagem comum que opera sempre a
           c˜
naturaliza¸ao do social (como se nossos comportamentos estivessem inscri-
          o                           a
tos em n´s desde o nascimento, e n˜o fossem adquiridos no contato com a
cultura na qual nascemos). A romper igualmente com o humanismo cl´ssico a
          e                        c˜
que tamb´m consiste na identifica¸ao do sujeito com ele mesmo, e da cultura
                                           a           o            a
com a nossa cultura. De fato, a filosofia cl´ssica (antol´gica com S˜o Tom´s,a
                                                    o
reflexiva com Descartes, criticista com Kant, hist´rica com Hegel), mesmo
                                                   o
sendo filosofia social, bem como as grandes religi˜es, nunca se deram como
                              c                          a
objetivo o de pensar a diferen¸a (e muito menos, de pens´-la cientificamente),
                          u                                         a
e sim o de reduzi-la, freq¨entemente inclusive de uma forma igualit´ria e com
                                                           e
do saber, que se expressa no relativismo (de um Jean de L´ry) ou no ceticismo (de um
                                                   a                             e
Montaigne), ligados ao questionamento da cultura ` qual se pertence, mas tamb´m uma
                                ca
nova pesquisa e uma reconstitui¸˜o deste saber. Mas nesse ponto coloca-se uma quest˜o:a
   a                    e
ser´ que a Antropologia ´ o discurso do Ocidente (e somente dele) sobre a alteridade?

                               a         ´                            a
Evidentemente, o europeu n˜o foi o unico a interessar-se pelos h´bitos e pelas ins-
     co        a
titui¸˜es do n˜o-europeu. A rec´              e e
                                 ıproca tamb´m ´ verdadeira, como atestam notadamente
                                                               e
os relatos de viagens realizadas na Europa desde a Idade M´dia, por viajantes vindos
    ´
da Asia. E os ´                                      e                 a
                 ındios Flathead de quem nos fala L´vi-Strauss eram t˜o curiosos do que
                                                                                co
ouviam dizer dos brancos que tomaram um dia a iniciativa de organizar expedi¸˜es a fim
            a
de encontr´-los. Poder´                                      a                        ca
                        ıamos multiplicar os exemplos. Isso n˜o impede que a constitui¸˜o
                         ca
de um saber de voca¸˜o cient´     ıfica sobre a alteridade sempre tenha se desenvolvido
                            e
a partir da cultura europ´ia. Esta elaborou um orientalismo, um americanismo, um
africanismo, um oceanismo, enquanto que nunca ouvimos falar de um ”europe´     ısmo”, que
                  ıdo                       o                ´      ´
teria se constitu´ como campo de saber te´rico a partir da Asia, da Africa ou da Oceania.

                       co            ca       o            a
Isso posto, as condi¸˜es de produ¸˜o hist´ricas, geogr´ficas, sociais e culturais da
                                                                           o
antropologia constituem um aspecto que seria rigorosamente antiantropol´gico perder
                     a                        ca                         a
de vista, mas que n˜o devem ocultar a voca¸˜o (evidentemente problem´tica) de nossa
                                                                             e
disciplina, que visa superar a irredutibilidade das culturas. Como escreve L´vi-Strauss:
   a                                                     o
”N˜o se trata apenas de elevar-se acima dos valores pr´prios da sociedade ou do grupo
                                   e                       e             c
do observador, e sim de seus m´todos de pensamento; ´ preciso alcan¸ar formula¸˜o    ca
 a       a
v´lida, n˜o apenas para um observador honesto mas para todos os observadores poss´ıveis”.

                                 o       c
Lembremos que a antropologia s´ come¸ou a ser ensinada nas universidades h´ al-a
         e             a                                                        c
gumas d´cadas. Na Gr˜-Bretanha a partir de 1908 (Frazer em Liverpool), e na Fran¸a a
partir de 1943 (Griaule na Sorbonne, seguido por Leroi-Gourhan).
     ´
CONTEUDO                                                                     15

                 c˜
as melhores inten¸oes do mundo.

                          o
O pensamento antropol´gico, por sua vez, considera que, assim como uma
        c˜
civiliza¸ao adulta deve aceitar que seus membros se tornem adultos, ela deve
                                                           e
igualmente aceitar a diversidade das culturas, tamb´m adultas. Estamos,
evidentemente, no direito de nos perguntar como a humanidade pˆde per-  o
manecer por tanto tempo cega para consigo mesma, amputando parte de si
   o                                a
pr´pria e fazendo, de tudo que n˜o eram suas ideologias dominantes sucessi-
                           a                       e
vas, um objeto de exclus˜o. Desconfiemos por´m do pensamento - que seria
    u
o c´mulo em se tratando de antropologia - de que estamos finalmente mais
  u
”l´cidos”, mais ”conscientes”, mais ”livres”, mais ”adultos”, como acaba-
                                     e                       o
mos de escrever, do que em uma ´poca da qual seria errˆneo pensar que est´    a
                                                    a                 e
definitivamente encerrada. Pois essa transgress˜o de uma das tendˆncias do-
minantes de nossa sociedade - o expansionismo ocidental sob todas as suas
             o
formas econˆmicas, pol´  ıticas, intelectuais - deve ser sempre retomada. O que
                                           o
significa de forma alguma que o antrop´logo esteja destinado, seja levado por
                                                           o
alguma crise de identidade, ao adotar ipso facto a l´gica das outras socie-
                                                         a
dades e a censurar a sua. Procuraremos, pelo contr´rio, mostrar nesse livro
         u
que a d´vida e a cr´                        o a
                     ıtica de si mesmo s´ s˜o cientificamente fundamentadas
se forem acompanhadas da interpela¸ao cr´c˜    ıtica dos de outrem.

Dificuldades

             o         a
Se os antrop´logos est˜o hoje convencidos de que uma das caracter´     ısticas
                   a
maiores de sua pr´tica reside no confronto pessoal com a alteridade, isto ´,e
                                 o                              a    o
convencidos do fato de que os fenˆmenos sociais que estudamos s˜o fenˆmenos
que observamos em seres humanos, com os quais estivemos vi-vendo; se eles
 a       e      a                         a                  ılia
s˜o tamb´m unˆnimes em pensar que h´ uni-dade da fam´ humana, a
    ılia           o     e
fam´ dos antrop´logos ´, por sua vez, muito dividida, quando se trata de
dar conta (aos interessados, aos seus colegas, aos estudantes, a si mesmo, e
                                      e
de forma geral a todos aqueles que tˆm o direito de saber o que verdadei-
                         o                         u
ramente fazem os antrop´logos) dessa unidade m´ltipla, desses materiais e
            e
dessa experiˆncia.

1) A primeira dificuldade se manifesta, como sempre, ao n´       ıvel das pala-
                 e      e
vras. Mas ela ´, tamb´m aqui, particularmente reveladora da juventude de
                         a
nossa disciplina,6 que n˜o sendo, como a f´             e              ıda,
                                           ısica, uma ciˆncia constitu´ con-
        a                                                    o
tinua n˜o tendo ainda optado definitivamente pela sua pr´pria designa¸ao.     c˜
                                                                     `
Etnologia ou antropologia? No primeiro caso (que corresponde a tradi¸˜o       ca
          o                                                             ıvel
terminol´gica dos franceses), insiste- se sobre a pluraridade irredut´ das
             e                                  e                   ıses
etnias, isto ´, das culturas. No segundo (que ´ mais usado nos pa´ anglo-
16                                                                               ´
                                                                            CONTEUDO

   o                             e
saxˆnicos), sobre a unidade do gˆnero humano. E optando-se por antro-
                                           a
pologia, deve-se falar (com os autores britˆnicos) em antropologia social -
                          e                      co
cujo objeto privilegiado ´ o estudo das institui¸˜es - ou (com os autores
americanos) de antropologia cultural - que consiste mais no estudo dos com-
portamentos.7

2) A segunda dificuldade diz respeito ao grau de cientificidade que conv´me
         `                             a           co
atribuir a antropologia. O homem est´ em condi¸˜es de estudar cientifica-
                       e                 e
mente o homem, isto ´, um objeto que ´ de mesma natureza que o sujeito?
           a
E nossa pr´tica se encontra novamente dividida entre os que pensam, com
                                            a
Radcliffe-Brown (1968), que as sociedade s˜o sistemas naturais que devem
ser estudados segundo os m´todos comprovados pelas ciˆncias da natureza,8 e
                           e                           e
                                                   e
os que pensam, com Evans-Pritchard (1969), que ´ preciso tratar as socieda-
      a                    a                              o
des n˜o como sistemas orgˆnicos, mas como sistemas simb´licos. Para estes
´                            e
ultimos, longe de ser uma ”ciˆncia natural da sociedade”(Radcliffe-Brown), a
antropologia deve antes ser considerada como uma ”arte”(Evans-Pritchard).

                                e          c˜
3) Uma terceira dificuldade prov´m da rela¸ao amb´  ıgua que a antropolo-
         e             e               o
gia mant´m desde sua gˆnese com a Hist´ria. Estreitamente vinculadas nos
 e                             a       a
s´culos XVIII e XIX, as duas pr´ticas v˜o rapidamente se emancipar uma
             e
da outra no s´culo XX, procurando ao mesmo tempo se reencontrar perio-
                                                                  o
dicamente. As rupturas manifestas se devem essencialmente a antrop´logos.
                                         o                    a e
Evans-Pritchard: ”O conhecimento da hist´ria das sociedades n˜o ´ de ne-
     7
                                 a
      Para que o leitor que n˜o tenha nenhuma familiaridade com esses conceitos possa
localizar-se, vale a pena especificar bem o significado dessas palavras. Estabele¸amos, c
          e                                                                           e
como L´vi-Strauss, que a etnografia, a etnologia e a antropologia constituem os trˆs mo-
                                                       e
mentos de uma mesma abordagem. A etnografia ´ a coleta direta, e o mais minuciosa
poss´              o                                             ca
      ıvel, dos fenˆmenos que observamos, por uma impregna¸˜o duradoura e cont´        ınua e
                                             co                       o
um processo que se realiza por aproxima¸˜es sucessivas. Esses fenˆmenos podem ser reco-
                                       e            ca                a
lhidos tomando-se notas, mas tamb´m por grava¸˜o sonora, fotogr´fica ou cinematogr´fica.  a
                                           ıvel         ca
A etnologia consiste em um primeiro n´ de abstra¸˜o: analisando os materiais colhidos,
                    o
fazer aparecer a l´gica espec´   ıfica da sociedade que se estuda. A antropologia, finalmente,
                               ıvel
consiste era um segundo n´ de inteligibilidade: construir modelos que permitam com-
                                                e                        e      c      e
parar as sociedades entre si. Como escreve L´vi-Strauss, ”seu objetivo ´ alcan¸ar, al´m da
imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir, um invent´rio     a
                                           a               u
das possibilidades inconscientes, que n˜o existem em n´mero ilimitado”.
    8
                      a                                    e
      Ao modelo orgˆnico dos funcionalistas ingleses, L´vi-Strauss substituiu, como vere-
mos, um modelo ling¨´   uıstico, e mostrou que trabalhando no ponto de encontro da natureza
                                         a e
(o inato) e da cultura (tudo o que n˜o ´ hereditariamente programado e deve ser inven-
                                          a
tado pelos homens onde a natureza n˜o programou nada), a antropologia deve aspirar a
                   e                                         a e
tornar-se uma ciˆncia natural: ”A antropologia pertence `s ciˆncias humanas, seu nome o
                                                                    o             e
proclama suficientemente; mas se se resigna em fazer seu purgat´rio entre as ciˆncias soci-
      e          a                                     e
ais, ´ porque n˜o desespera de despertar entre as ciˆncias naturais na hora do julgamento
          e
final”(L´vi-Strauss, 1973)
     ´
CONTEUDO                                                                            17

nhuma utilidade quando se procura compreender o funcionamento das insti-
    c˜                 o                                 ca           o
tui¸oes”. Mais categ´rico ainda, Leach escreve: ”A gera¸˜o de antrop´logos
`             c                                                          o
a qual perten¸o tira seu orgulho de sempre ter-se recusado a tomar a Hist´ria
              ca          e         e                       c˜
em considera¸˜o”. Conv´m tamb´m lembrar aqui a distin¸ao agora famosa
      e                                             e    o
de L´vi-Strauss opondo as ”sociedades frias”, isto ´, ”pr´ximas do grau zero
                      o           a                             o
de temperatura hist´rica”, que s˜o menos ”sociedades sem hist´ria”, do que
                    a                 o      u
”sociedades que n˜o querem ter est´rias”(´nicos objetos da antropologia
  a                   o
cl´ssica) a nossas pr´prias sociedades qualificadas de ”sociedades quentes”.

              ca            c˜                          o               o
Essa preocupa¸˜o de separa¸ao entre as abordagens hist´rica e antropol´gica
   a                                 a              o
est´ longe, como veremos, de ser unˆnime, e a hist´ria recente da antropo-
                        e                       ca
logia testemunha tamb´m um desejo de coabita¸˜o entre as duas disciplinas.
                                         c
Aqui, no Nordeste do Brasil, onde come¸o a escrever este livro, desde 1933,
um autor como Gilberto Freyre, empenhando-se em compreender a forma¸˜o    ca
da sociedade brasileira, mostrou o proveito que a antropologia podia tirar do
                  o
conhecimento hist´rico.

                                 e                           a
4) Uma quarta dificuldade prov´m do fato de que nossa pr´tica oscila sem
parar, e isso desde seu nascimento, entre a pesquisa que se pode qualificar de
                          e
fundamental e aquilo que ´ designado sob o termo de ”antropologia aplicada”.

      c
Come¸aremos examinando o segundo termo da alternativa aqui colocada e
que continua dividindo profundamente os pesquisadores. Durkheim conside-
                        a                                        c˜
rava que a sociologia n˜o valeria sequer uma hora de dedica¸ao se ela n˜o     a
            ´                    o                                a
pudesse ser util, e muitos antrop´logos compartilham sua opini˜o. Margaret
Mead, por exemplo, estudando o comportamento dos adolescentes das ilhas
Samoa (1969), pensava que seus estudos deveriam permitir a instaura¸˜o deca
                                                          c˜
uma sociedade melhor, e, mais especificamente a aplica¸ao de uma pedagogia
                   a                                a
menos frustrante ` sociedade americana. Hoje v´rios colegas nossos consi-
                                                     c            c˜
deram que a antropologia deve colocar-se ”a servi¸o da revolu¸ao”(segundo
                                                                   a
especialmente )ean Copans, 1975). O pesquisador torna-se, ent˜o, um mili-
                    o              a                                c˜
tante, um ”antrop´logo revolucion´rio”, contribuindo na constru¸ao de uma
                         c˜
”antropologia da liberta¸ao”. Numerosos pesquisadores ainda reivindicam a
qualidade de especialistas de conselheiros, participando em especial dos pro-
                                       o
gramas de desenvolvimento e das decis˜es pol´                      a          a
                                               ıticas relacionadas ` elaborac˜o
desses programas. Quer´  ıamos simplesmente observai aqui que a ”antropolo-
                                             ´
gia aplicada”9 n˜o ´ uma grande novidade. E por ela que, com a coloniza¸ao,
                 a e                                                        c˜
                            10
a antropologia teve inicio.

  9
      Sobre a antropologia aplicada, cf. R. Bastide, 1971
 10
                            o
      A maioria dos antrop´logos ingleses, especialmente, realizou suas pesquisas a pe-
18                                                                             ´
                                                                          CONTEUDO


Foi com ela, inclusive, que se deu o in´ıcio da Antropologia, durante a co-
      c˜
loniza¸ao. No extremo oposto das atitudes ”engajadas”das quais acabamos
                            ca                              e
de falar, encontramos a posi¸˜o determinada de um Claude L´vi-Strauss que,
  o
ap´s ter lembrado que o saber cient´ıfico sobre o homem ainda se encontrava
         a                                    c˜
num est´gio extremamente primitivo em rela¸ao ao saber sobre a natureza,
escreve:

                         e
”Supondo que nossas ciˆncias um dia possam ser colocadas a servi¸o da   c
 c˜    a            a e
a¸ao pr´tica, elas n˜o tˆm, no momento, nada ou quase nada a oferecer. O
                                     e      e
verdadeiro meio de permitir sua existˆncia, ´ dar muito a elas, mas sobretudo
 a
n˜o lhes pedir nada”.

As duas atitudes que acabamos de citar a antropologia ”pura”ou a antro-
                                    e
pologia ”diluida”como diz ainda L´vi-Strauss encontram na realidade suas
                   co                 o                ca
primeiras formula¸˜es desde os prim´rdios da confronta¸˜o do europeu com
                         e                       c
o ”selvagem”. Desde o s´culo XVI, de fato, come¸a a se implantar aquilo o
                                e                     o
que alguns chamariam de ”arqu´tipos”do discurso etnol´gico, que podem ser
                      c˜
ilustrados pelas posi¸oes respectivas de um Jean de Lery e de um Sahagun.
                                        e
Jean de Lery foi um huguenote* francˆs que permaneceu algum tempo no
                          a                                     o
Brasil entre os Tupinamb´s. Longe de procurar convencer seus h´spedes da
                                e            a
superioridade da cultura europ´ia e da religi˜o reformada, ele os interroga
e, sobretudo, se interroga. Sahagun foi um franciscano espanhol que alguns
                                                  c˜       e
anos mais tarde realizou uma verdadeira investiga¸ao no M´xico.

              `                                       a                 a
Perfeitamente a vontade entre os astecas, ele estava l´ enquanto mission´rio
                          c˜
a fim de converter a popula¸ao que estuda.11

                                                                          a
O fato da diversidade das ideologias sucessivamente defendidas (a convers˜o
                    ca                                          e
religiosa, a ”revolu¸˜o”, a ajuda ao ”Terceiro Mundo”, as estrat´gias daquilo
     e                                                    c
que ´ hoje chamado ”desenvolvimento”ou ainda ”mudan¸a social”) n˜o al- a
                       ˆ                        e
tera nada quanto ao amago do problema, que ´ o seguinte: 0 antrop´logo  o
                                  o                       c˜
deve contribuir, enquanto antrop´logo, para B transforma¸ao das sociedades
que ele estuda 11

                     co
dido das administra¸˜es: Os Nuers de Evans-Pritchard foram encomendados pelo governo
     a
britˆnico, Fortes estudou os Tallensi a pedido do governo da Costa do Ouro. Nadei foi
                                a
conselheiro do governo do Sud˜o, etc
   11
                                   ca                                                 ´
      Essa dupla abordagem da rela¸˜o ao outro pode muito bem sei realizada por um unico
                                           a
pesquisador. Assim Malinowski chegando `s ilhas Trobriand (trad. franc., 1963) se deixa
                                                                   a
literalmente levar pela cultura que descobre e que o encanta. Mas v´rios anos depois (trad.
                                                    e
franc., 1968) participa do que chama ”uma experiˆncia controlada”do desenvolvimento
     ´
CONTEUDO                                                                         19


Eu responderia, no que me diz respeito, da seguinte forma: nossa abor-
dagem, que consiste antes em nos surpreender com aquilo que nos ´ maise
familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade na qual nascemos)
                                           e
e em tornar mais familiar aquilo que nos ´ estranho (os comportamentos, as
     c                                     a a
cren¸as, os costumes das sociedades que n˜o s˜o as nossas, mas nas quais po-
   ıamos ter nascido), est´ diretamente confrontada hoje a um movimento de
der´                       a
              ca                                      o
homogeneiza¸˜o, ao meu ver, sem precedente’ na Hist´ria: o desenvolvimento
de uma forma de cultura industrial-urbana e de uma forma de pensamento
     e
que ´ a do racionalismo social. Eu pude, no decorrer de minhas estadias
                                    e                         e
sucessivas entre os Berberes do M´dio Atlas e entre os Baul´s da Costa do
Marfim, perceber realmente o fasc´   ınio que exerce este modelo, perturbando
completamente os modos de vida (a maneira de se alimentar, de se vestir, de
se distrair, de se encontrar, de pensar 12 e levando a novos comportamentos
       a
que n˜o decorrem de uma escolha)

        a         a                                   o     e
A quest˜o que est´ hoje colocada para qualquer antrop´logo ´ a seguinte:
 a
h´ uma possibilidade em minha sociedade (qualquer que seja) permitindo-
                      a                                o
lhe o acesso a um est´gio de sociedade industrial (ou p´s-industrial) sem
             a                                c˜
conflito dram´tico, sem risco de despersonaliza¸ao?

               ca e                  o
Minha convic¸˜o ´ de que o antrop´logo, para ajudar os atores sociais a
                        a    a                                     o
responder a essa quest˜o, n˜o deve, pelo menos enquanto antrop´logo, tra-
                          c˜                                        a
balhar para a transforma¸ao das sociedades que estuda. Caso contr´rio, seria
                                                             o          e
conveniente, de fato, que se convertesse em economista, agrˆnomo, m´dico,
   ıtico, a n˜o ser que ele seja motivado por alguma concep¸ao messiˆnica
pol´         a                                                c˜        a
                                                                 ca
da antropologia. Auxiliar uma determinada cultura na explicita¸˜o para ela
                 o             c e
mesma de sua pr´pria diferen¸a ´ uma coisa; organizar pol´            o
                                                          ıtica, econˆmica e
                     ca              c e
socialmente a evolu¸˜o dessa diferen¸a ´ uma outra coisa. Ou seja, a parti-
     c˜            o                 e
cipa¸ao do antrop´logo naquilo que ´ hoje a vanguarda do anticolonialismo
                                                  e       e
e da luta para os direitos humanos e das minorias ´tnicas ´, a meu ver, uma
        ue                     a        a e                 a
conseq¨ˆncia de nossa profiss˜o, mas n˜o ´ a nossa profiss˜o propriamente
dita.

                                                               e     `
Somos, por outro lado, diretamente confrontados a uma dupla urgˆncia a
qual temos o dever de responder.

  12
            co                                                      ca
   As muta¸˜es de comportamentos geradas por essa forma de civiliza¸˜o mundialista
            e                                           o
podem tamb´m evidentemente ser encontradas nas nossa; pr´prias culturas rurais e ur-
                      ca
banas. Em compensa¸˜o, parecem-me bastante fracas aqui no Nordeste do Brasil, onde
    c
come¸ou a redigir este livro
20                                                                           ´
                                                                        CONTEUDO

       e                  c˜             o                            c
a) Urgˆncia de preserva¸ao dos patrimˆnios culturais locais amea¸ados (e
                                 a
a respeito disso a etnologia est´ desde o seu nascimento lutando contra o
                            ca
tempo para que a transcri¸˜o dos arquivos orais e visuais possa ser realizada
                        ´              a              co             a
a tempo, enquanto os ultimos deposit´rios das tradi¸˜es ainda est˜o vivos)
                         c˜                                  o
e, sobretudo, de restitui¸ao aos habitantes das diversas regi˜es nas quais tra-
                     o                                   o
balhamos, de seu pr´prio saber e saber-fazer. Isso sup˜e uma ruptura com
         c˜        e                                      ca
a concep¸ao assim´trica da pesquisa, baseada na capta¸˜o de informa¸˜es.  co
  a a                                             e             a
N˜o h´, de fato, antropologia sem troca, isto ´, sem itiner´rio no decor-
rer do qual as partes envolvidas chegam a se convencer reciprocamente da
                 a                                                      ´
necessidade de n˜o deixar se perder formas de pensamento e atividade unicas.

       e           a              c˜
b) Urgˆncia de an´lise das muta¸oes culturais impostas pelo desenvolvimento
                 a                                       a
extremamente r´pido de todas as sociedades contemporˆneas, que n˜o s˜o a a
                                                        a
mais ”sociedades tradicionais”, e sim sociedades que est˜o passando por um
                         o                       e              co
desenvolvimento tecnol´gico absolutamente in´dito, por muta¸˜es de suas
    c˜                                     ca
rela¸oes sociais, por movimentos de migra¸˜o Interna, e por um processo de
         c˜                     e
urbaniza¸ao acelerado. Atrav´s da especificidade de sua abordagem, nossa
                   a
disciplina deve, n˜o fornecer respostas no lugar dos interessados, e sim for-
            o                                        a               a
mular quest˜es com eles, elaborar com eles uma reflex˜o racional (e n˜o mais
  a                                                                  e
m´gica) sobre os problemas colocados pela crise mundial que e tamb´m uma
                                                               e
crise de identidade ou ainda sobre o plurarismo cultural, isto ´, o encontro
    ınguas, t´cnicas, mentalidades. Em suma, a pesquisa antropol´gica, que
de l´        e                                                     o
 a e
n˜o ´ de forma alguma, como podemos notar, uma atividade de luxo, sem
                                     `       o         o
nunca se substituir aos projetos e as decis˜es dos pr´prios atores sociais,
                      ca                        a    co
tem hoje como voca¸˜o maior a de propor n˜o solu¸˜es mas instrumentos
            ca             a
de investiga¸˜o que poder˜o ser utilizados em especial para reagir ao choque
            c˜        e
da acultura¸ao, isto ´, ao risco de um desenvolvimento conflituoso levando ` a
    e                                         o
violˆncia negadora das particularidades econˆmicas, sociais, culturais de um
povo.

                                                  a
5) Uma quinta dificuldade diz respeito, finalmente, ` natureza desta obra que
                            u        a
deve apresentar, em um n´mero de p´ginas reduzido, um campo de pesquisa
                                       e
imenso, cujo desenvolvimento recente ´ extremamente especializado. No fi-
         e               ´
nal do s´culo XIX, um unico pesquisador podia, no limite, dominar o campo
global da antropologia (Boas fez pesquisas em antropologia social, cultural,
    uıstica, pr´-hist´rica, e tamb´m mais recentemente o caso de Ktoeber,
ling¨´         e     o            e
                 ´              o                                  ´
provavemente o ultimo antrop´logo que explorou: com sucesso uma area t˜o a
             a e                                            o
extensa). N˜o ´, evidentemente, o caso hoje em dia. O antrop´logo considera
agora – com raz˜o – que ´ competente apenas dentro de uma ´rea restrita 13
                 a         e                                 a

 13
                          e                           o         ıtica, a antropologia do
      A antropologia das t´cnicas, a antropologia econˆmica, pol´
     ´
CONTEUDO                                                                                  21

         o                           ´         a
de sua pr´pria disciplina e para uma area geogr´fica delimitada.

Era-me portanto imposs´                                      o    a
                          ıvel, dentro de um texto de dimens˜es t˜o restri-
tas, dar conta, mesmo de uma forma parcial, do alcance e da riqueza dos
campos abertos pela antropologia. Muito mais modestamente, tentei colocar
           u               e
um certo n´mero de referˆncias, definir alguns conceitos a partir dos quais o
            a
leitor poder´, espero, interessar-se em ir mais adiante.

        a                                                  c˜
Ver-se-´ que este livro caminha em espiral. As preocupa¸oes que est˜o noa
                                          o
centro de qualquer abordagem antropol´gica e que acabam de ser mencio-
           a
nadas ser˜o retomadas, mas de diversos pontos de vista. Eu lembrarei em
                                                            c˜
primeiro lugar quais foram as principais etapas da constitui¸ao de nossa dis-
                        e            o
ciplina e como, atrav´s dessa hist´ria da antropologia, foram se colocando
                            o                                     e
progressivamente as quest˜es que continuam nos interessando at´ hoje. Em
               c          o     o
seguida, esbo¸arei os p´los te´ricos - a meu ver cinco - em volta dos quais
                              a            o
oscilam o pensamento e a pr´tica antropol´gica. Teria sido, de fato, surpreen-
dente, se, procurando dar conta da pluraridade, a antropologia permanecesse
monol´            e         a
       ıtica. Ela ´ ao contr´rio claramente plural. Veremos no decorrer deste
                                                             e
livro que existem perspectivas complementares, mas tamb´m mutuamente
                             e
exclusivas, entre as quais ´ preciso escolher. E, em vez de fingir ter ado-
tado o ponto de vista de Sirius, em vez de pretender uma neutralidade, que
       e                  e                  c
nas ciˆncias humanas ´ um engodo, esfor¸ando-me ao mesmo tempo para
                       a
apresentar com o m´ximo de objetividade o pensamento dos outros, n˜o        a
                            o         co                        ´
dissimularei as minhas pr´prias op¸˜es. Finalmente, em uma ultima parte,
                                                   a
os principais eixos anteriormente examinados ser˜o, em um movimento por
assim dizer retroativo, reavaliados com o objetivo de definir aquilo que cons-
titui, a meu ver, a especificidade da antropologia.

Eu queria finalmente acrescentar que este livro dirige-se o mais amplo
  u
p´blico poss´        a `              e               a
             ıvel. N˜o aqueles que tˆm por profiss˜o a antropologia – du-
vido que encontrem nele um grande interesse – mas a todos que, em algum
                                             e
momento de sua vida (profissional, mas tamb´m pessoal), possam ser levados
                                     a
a utilizar o modo de conhecimento t˜o caracter´  ıstico da antropologia. Esta
e       a                                                              e
´ a raz˜o pela qual, entre o inconveniente de utilizar uma linguagem t´cnica
e o de adotar uma linguagem menos especializada, optei voluntariamente
                                        e    e                          e
pela segunda. Pois a antropologia, que ´ a ciˆncia do homem por excelˆncia,
pertence a todo o mundo. Ela diz respeito a todos n´s. o


                        co                                         ıstica, a antropologia dos
parentesco, das organiza¸˜es sociais, a antropologia religiosa, art´
                     co
sistemas de comunica¸˜es...
22        ´
     CONTEUDO
          Parte I

                    o
Marcos Para Uma Hist´ria Do
                     o
 Pensamento Antropol´gio




             23
   ıtulo 1
Cap´

    e     o
A Pr´-Hist´ria Da
Antropologia:

                          c
a descoberta das diferen¸as pelos vi-
             e
ajantes do s´culo e a dupla resposta
     o                  e       e
ideol´gica dada daquela ´poca at´ nos-
sos dias
    e              a           o     e           a     `
A gˆnese da reflex˜o antropol´gica ´ contemporˆnea a descoberta do Novo
                                        c     e   a
Mundo. O Renascimento explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e come¸a   c
                                                                      1
                                                                    c
a elaborar discursos sobre os habitantes que povoam aqueles espa¸os. A
              a      e    a
grande quest˜o que ´ ent˜o colocada, e que nasce desse primeiro confronto
                         e
visual com a alteridade, ´ a seguinte: aqueles que acabaram de serem desco-
                   a                      e
bertos pertencem ` humanidade? O crit´rio essencial para saber se conv´me
                                   e        e
atribuir-lhes um estatuto humano ´, nessa ´poca, religioso: O selvagem tem
                                      e                           a
uma alma? O pecado original tamb´m lhes diz respeito? –quest˜o capital
                a      a                    a
para os mission´rios, j´ que da resposta ir´ depender o fato de saber se ´ e
     ıvel                   ca                          e
poss´ trazer-lhes a revela¸˜o. Notamos que se, no s´culo XIV, a quest˜o  a
   1
                           co
    As primeiras observa¸˜es e os primeiros discursos sobre os povos ”distantes”de que
                e                             co
dispomos provˆm de duas fontes: 1) as rea¸˜es dos primeiros viajantes, formando o que
habitualmente chamamos de ”literatura de viagem”. Dizem respeito em primeiro lugar `      a
  e       a                        a     e     a ´       a ´
P´rsia e ` Turquia, em seguida ` Am´rica, ` Asia e ` Africa. Em 1556, Andr´ Thevete
                                    c      a                                  o
escreve As Singularidades da Fran¸a Ant´rtica, em 1558 Jean de Lery, A Hist´ria de Uma
                                                       e
Viagem Feita na Terra do Brasil. Consultar tamb´m como exemplo, para um per´           ıodo
            e
anterior (s´culo XIII), G. de Rubrouck (reed. 1985), para um per´                     e
                                                                     ıodo posterior (s´culo
                                                     a
XVII) Y. d’Evreux (reed. 1985), bom como a coletˆnea de textos de J. P. Duviols (1978);
           o                a                                co          ıtas e
2) os relat´rios dos mission´rios e particularmente as ”Rela¸˜es”dos jesu´ (s´culo XVII)
          a         a                                           ˆ
nc Canad´, no Jap˜o, na China, Cf., por exemplo, as Lettres Edifiantes et Curieuses de la
                                e
Chine par des Missionnaires J´suites: 1702-1776, Paris reed. Garnier-Flammarion, 1979.


                                            25
26              CAP´            ´     ´
                   ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

e            a e                                      a
´ colocada, n˜o ´ de forma alguma solucionada. Ela ser´ definitivamente
                       e
resolvida apenas dois s´culos mais tarde.

       e     e             c             c
Nessa ´poca ´ que come¸am a se esbo¸ar as duas ideologias concorrentes,
                                    e
mas das quais uma consiste no sim´trico invertido da outra: a recusa do es-
                                                      a e               e
tranho apreendido a partir de uma falta, e cujo corol´rio ´ a boa consciˆncia
                                    2
                                              ca                          a
que se tem sobre si e sua sociedade; a fascina¸˜o pelo estranho cujo corol´rio
e     a      e
´ a m´ consciˆncia que se tem sobre si e sua sociedade.

           o                             ca    a
Ora, os pr´prios termos dessa dupla posi¸˜o est˜o colocados desde a me-
         e                                             e      u
tade do s´culo XIV: no debate, que se torna uma controv´rsia p´blica, que
     a a                                                             o
durar´ v´rios meses (em 1550, na Espanha, em Valladolid), e que op˜e o
dominicano Las Casas e o jurista Sepulvera.

Las Casas:

  `                             ı        a a
”Aqueles que pretendem que os ´ndios s˜o b´rbaros, responderemos que essas
         e                                                         ı
pessoas tˆm aldeias, vilas, cidades, reis, senhores e uma ordem pol´tica que,
                    e
em alguns reinos, ´ melhor que a nossa. (...) Esses povos igualavam ou
  e                       co                    ı
at´ superavam muitas na¸˜es e uma ordem pol´tica que, em alguns reinos, ´    e
                                                         e
melhor que a nossa. (...) Esses povos igualavam ou at´ superavam muitas
   co                                                  a       a
na¸˜es do mundo conhecidas como policiadas e razo´veis, e n˜o eram infe-
riores a nenhuma delas. Assim, igualavam-se aos gregos e os romanos, e
  e
at´, em alguns de seus costumes, os superavam. Eles superavam tamb´m a  e
                  c                             o
Inglaterra, a Fran¸a, e algumas de nossas regi˜es da Espanha. (...) Pois a
                  co                  a
maioria dessas na¸˜es do mundo, sen˜o todas, foram muito mais pervertidas,
                                                                e
irracionais e depravadas, e deram mostra de muito menos prudˆncia e saga-
cidade em sua forma de se governarem e exercerem as virtudes morais. N´s   o
mesmos fomos piores, no tempo de nossos ancestrais e sobre toda a extens˜o a
                             a                                         ca
de nossa Espanha, pela barb´rie de nosso modo de vida e pela deprava¸˜o de
nossos costumes”.

Sepulvera:

                                            e          a
”Aqueles que superam os outros em prudˆncia e raz˜o, mesmo que n˜o se-   a
                       c ı                  a
jam superiores em for¸a f´sica, aqueles s˜o, por natureza, os senhores; ao
     a         e            c             ı
contr´rio, por´m, os pregui¸osos, os esp´ritos lentos, mesmo que tenham as
   c ı                                             a       a
for¸as f´sicas para cumprir todas as tarefas necess´rias, s˜o por natureza ser-

     2
                                                         e              ca
    Sendo, as duas variantes dessa figura: 1) a condescendˆncia e a prote¸˜o, paternalista
                       a
do outro: 2) sua exclus˜o
1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO                                   27

        e        ´                                                     o
vos. E ´ justo e util que sejam servos, e vemos isso sancionado pela pr´pria
                  a        co    a                                a
lei divina. Tais s˜o as na¸˜es b´rbaras e desumanas, estranhas ` vida civil
                    ı            a
e aos costumes pac´ficos. E ser´ sempre justo e conforme o direito natural
                                              e          ı
que essas pessoas estejam submetidas ao imp´rio de pr´ncipes e de na¸˜es co
                                           c a                   a     e
mais cultas e humanas, de modo que, gra¸as ` virtude destas e ` prudˆncia
                                     a
de suas leis, eles abandonem a barb´rie e se conformem a uma vida mais
                                                                e
humana e ao culto da virtude. E se eles recusarem esse imp´rio, pode-se
    o                                           a
impˆ-lo pelo meio das armas e essa guerra ser´ justa, bem como o declara
o direito natural que os homens honrados, inteligentes, virtuosos e humanos
                        a e
dominem aqueles que n˜o tˆm essas virtudes”.

                          a        a                                    a
Ora, as ideologias que est˜o por tr´s desse duplo discurso, mesmo que n˜o se
                                                                      e
expressem mais em termos religiosos, permanecem vivas hoje, quatro s´culos
ap´s a polˆmicaque opunha Las Casas a Sepulvera.3 Como s˜o estere´tipos
  o        e                                                  a       o
                                          a
que envenenam essa antropologia espontˆnea de que temos ainda hoje tanta
                                     e
dificuldade para nos livrarmos, conv´m nos determos sobre eles.




1.1      A Figura Do Mau Selvagem E Do Bom
         Civilizado
A extrema diversidade das sociedades humanas raramente apareceu aos ho-
                                              ca
mens como um fato, e sim como uma aberra¸˜o exigindo uma justifica¸ao.   c˜
        u                                        a                  a
A antig¨idade grega designava sob o nome de b´rbaro tudo o que n˜o par-
                                e     `            c˜               a
ticipava da helenidade (em referˆncia a inarticula¸ao do canto dos p´ssaros
        `         ca
oposto a significa¸˜o da linguagem humana), o Renascimento, os s´culos e
                                                        e
XVII e XVIII falavam de naturais ou de selvagens (isto ´, seres da floresta),
                            `                                   e
opondo assim a animalidade a humanidade. O termo primitivos ´ que triun-
   a     e                                                 e
far´ no s´culo XIX, enquanto optamos preferencialmente na ´poca atual pelo
de subdesenvolvidos.

                                                        e
Essa atitude, que consiste em expulsar da cultura, isto ´, para a natureza to-
                  a                                        a
dos aqueles que n˜o participam da faixa de humanidade ` qual pertencemos
                                e                e
e com a qual nos identificamos, ´, como lembra L´vi-Strauss, a mais comum

   3
               ca              o
    Essa oscila¸˜o entre dois p´los concorrentes, mas ligados entre si por um movimento
    e                                          a                           e
de pˆndulo ininterrupto, pode ser encontrada n˜o apenas em uma mesma ´poca, mas em
                                      e
um mesmo autor. Cf., por exemplo, L´ry (1972) ou Buffon (1984).
28              CAP´            ´     ´
                   ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

                                                    ıstica dos ”selvagens”.4
a toda a humanidade, e, em especial, a mais caracter´

             e                             e
Entre os crit´rios utilizados a partir do s´culo XIV pelos europeus para julgar
       e
se conv´m conferir aos ´                                e         e
                         ındios um estatuto humano, al´m do crit´rio religioso
         a                                      c˜
do qual j´ falamos, e que pede, na configura¸ao na qual nos situamos, uma
                                a                a
resposta negativa (”sem religi˜o nenhuma”, s˜o ”mais diabos”), citaremos:

     • a aparˆncia f´
             e                     a
                    ısica: eles est˜o nus ou ”vestidos de peles de animais”;

     • os comportamentos alimentares: eles ”comem carne crua”, e ´ todo o
                                                                 e
       imagin´rio do canibalismo que ir´ aqui se elaborar;5
             a                         a

     • a inteligˆncia tal como pode ser apreendida a partir da linguagem: eles
                e
       falam ”uma l´                ıvel”.
                     ıngua inintelig´

             a                          a                a
    Assim, n˜o acreditando em Deus, n˜o tendo alma, n˜o tendo acesso `   a
linguagem, sendo assustadoramente feio e alimentando-se como um animal,
            e                                   a
o selvagem ´ apreendido nos modos de um besti´rio. E esse discurso so-
                                             `     a          o
bre a alteridade, que recorre constantemente a met´fora zool´gica, abre o
                     e                           a
grande leque das ausˆncias: sem moral, sem religi˜o, sem lei, sem escrita,
                        e             a
sem Estado, sem consciˆncia, sem raz˜o, sem objetivo, sem arte, sem pas-
sado, sem futuro.6 Cornelius de Pauw acrescentar´ at´, no s´culo XVIII:
                                                  a e         e
                                          e
”sem barba”, ”sem sobrancelhas”, ”sem pˆlos”, ”sem esp´ıritosem ardor para
          e
com sua fˆmea”.

 ´             o                                            o
”E a grande gl´ria e a honra de nossos reis e dos espanh´is, escreve Go-
                 o              ı                            ı         ´
mara em sua Hist´ria Geral dos ´ndios, ter feito aceitar aos ´ndios um unico
            ´     e       ´
Deus, uma unica f´ e um unico batismo e ter tirado deles a idolatria, os sa-
    ı
crif´cios humanos, o canibalismo, a sodomia; e ainda outras grandes e maus
pecados, que nosso bom Deus detesta e que pune. Da mesma forma, tiramos
deles a poligamia, velho costume e prazer de todos esses homens sensuais;
     4
                        e                                          co
     ”Assim”, escreve L´vi-Strauss (1961), ”Ocorrem curiosas situa¸˜es onde dois interlo-
           a e               e                                             o
cutores d˜o-s´ cruelmente a r´plica. Nas Grandes Antilhas, alguns anos ap´s a descoberta
        e                        o                    o         e
da Am´rica, enquanto os espanh´is enviavam comiss˜es de inqu´rito para pesquisar se os
   ıgenas possu´
ind´                      a
                 ıam ou n˜o uma alma, estes empenhavam-se em imergir brancos prisio-
                                              ca                      a
neiros a fim de verificar, por uma observa¸˜o demorada, se seus cad´veres eram ou n˜o     a
          a        ca
sujeitos ` putrefa¸˜o”
   5
                                         e
     Cf. especialmente Hans Staden, V´ritable Histoire et Descriptiou d’un Pays Habit´    e
                                    e
par des Hommes Sauvages, Nus. F´roces et Anthropo phages, 1557, reed. Paris, A. M.
    e     e
JVl´taili´, 1979.
   6
                                            e                       a e
     Essa falta pode ser apreendida atrav´s de duas variantes: I) n˜o tˆm, irremediavel-
                    a                                                   e
mente, futuro e n˜o temos realmente nada a esperar dele (Hegel); 2) ´ poss´          e
                                                                             ıvel fazˆ-los
               ca          a              e                             ca
evoluir. Pela a¸˜o mission´ria (a partir s´culo XVI). Assim como pela a¸˜o administrativa
1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO                          29

                                                a
mostramo-lhes o alfabeto sem o qual os homens s˜o como animais e o uso do
          e a         a                     e                    a
ferro que ´ t˜o necess´rio ao homem. Tamb´m lhes mostramos v´rios bons
 a
h´bitos, artes, costumes policiados para poder melhor viver. Tudo isso – e
  e                                                      e
at´ cada uma dessas coisas – vale mais que as penas, as p´rolas, o ouro que
                                    a
tomamos deles, ainda mais porque n˜o utilizavam esses metais como moeda”.

                     ı                      a a
”As pessoas desse pa´s, por sua natureza, s˜o t˜o ociosas, viciosas, de pouco
                o                            a      ca
trabalho, melanc´licas, covardes, sujas, de m´ condi¸˜o, mentirosas, de mole
      a
constˆncia e firmeza (...). Nosso Senhor permitiu, para os grandes, abo-
    a                                          u
min´veis pecados dessas pessoas selvagens, r´sticas e bestiais, que fossem
                             ı                                  e
atirados e banidos da superf´cie da Terra”. escreve na mesma ´poca (1555)
                    o         ı
Oviedo em sua Hist´ria das ´ndias.

      o               a          a                     u
Opini˜es desse tipo s˜o inumer´veis, e passaram tranq¨ilamente para nossa
e             e                                           `
´poca. No s´culo XIX, Stanley, em seu livro dedicado a pesquisa de Li-
                                                                  o
vingstone, compara os africanos aos ”macacos de um jardim zool´gico”, e
convidamos o leitor a ler ou reler Franz Fanon (1968), que nos lembra o que
                                            e
foi o discurso colonial dos franceses na Arg´lia.

                   a                                       c˜
Mais dois textos ir˜o deter mais demoradamente nossa aten¸ao, por nos pa-
recerem muito reveladores desse pensamento que faz do selvagem o inverso
                a
do civilizado. S˜o as Pesquisas sobre os Americanos ou Relatos Interessantes
            `     o          e
para servir a Hist´ria da Esp´cie Humana, de Cornelius de Pauw, publicado
                             ca `                  o
em 1774, e a famosa Introdu¸˜o a Filosofia da Hist´ria, de Hegel.

                     o             o
1) De Pauw nos prop˜e suas reflex˜es sobre os ´                e
                                                  ındios da Am´rica do Norte.
          c˜ e                        ıllimos a influˆncia da natureza ´ total,
Sua convic¸ao ´ a de que sobre estes l´              e                e
                                           c             a         o
ou mais precisamente negativa. Se essa ra¸a inferior n˜o tem hist´ria e est´a
pura sempre condenada, por seu estado ”degenerado”, a permanecer fora do
                   o         a                   ıda
movimento da Hist´ria, a raz˜o deve ser atribu´ ao clima de uma extrema
umidade:

                           ca
”Deve existir, na organiza¸˜o dos americanos, uma causa qualquer que em-
                                   ı
brutece sua sensibilidade e seu esp´rito. A qualidade do clima, a grosseria
                      ı                                ca
de seus humores, o v´cio radical do sangue, a constitui¸˜o de seu tempera-
                             a                     ı
mento excessivamente fleum´tico podem ter diminu´do o tom e o saracoteio
dos nervos desses homens embrutecidos”.

      e                                          a ´
Eles tˆm, prossegue Pauw, um ”temperamento t˜o umido quanto o ar e
                                             a
a terra onde vegetam”e que explica que eles n˜o tenham nenhum desejo se-
                   a
xual. Em suma, s˜o ”infelizes que suportam todo o peso da vida agreste
30                   CAP´            ´     ´
                        ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

          a
na escurid˜o das florestas, parecem mais animais do que vegetais”. Ap´s ao
          e                    ıcio           ca ısica”, Pauw chega a de-
degenerescˆncia ligada a um ”v´ de constitui¸˜o f´                     `
      c˜          ´                                        c˜ e
grada¸ao moral. E a quinta parte do livro, cuja primeira se¸ao ´ intitulada:
     e
”O gˆnio embrutecido dos Americanos”.

                                          e           ı                   ca
”A insensibilidade, escreve nosso autor, ´ neles um v´cio de sua constitui¸˜o
                a                c          a     a                   a
alterada; eles s˜o de uma pregui¸a imperdo´vel, n˜o inventam nada, n˜o em-
                     a                                   ca   e
preendem nada, e n˜o estendem a esfera de sua concep¸˜o al´m do que vˆem e
     a                                                  ı         a
pusilˆnimes, covardes, irritados, sem nobreza de esp´rito, o desˆnimo e a
                                                                   u
falta absoluta daquilo que constitui o animal racional os tornam in´teis para
si mesmos e para a sociedade. Enfim, os californianos vegetam mais do que
vivem, e somos tentados a recusar-lhes uma alma.

             ca
Essa separa¸˜o entre um estado de natureza concebido por Pauw como ir-
                       a                          ca
remediavelmente imut´vel, e o estado de civiliza¸˜o, pode ser visualizado
              u          e                     e                  c
num mapa m´ndi. No s´culo XVIII, a enciclop´dia efetua dois tra¸ados: um
longitudinal, que passa por Londres e Paris, situando de um lado a Europa,
  ´           ´                    e
a Africa e a Asia, de outro a Am´rica, e um latitudinal dividindo o que se
encontra ao norte e ao sul do equador. Mas, enquanto para Buffon, a proxi-
                                               a               a
midade ou o afastamento da linha equatorial s˜o explicativos n˜o apenas da
         c˜ ısica mas do moral dos povos, o autor das Pesquisas Filos´ficas
constitui¸ao f´                                                       o
                                                e
sobre os Americanos escolhe claramente o crit´rio latitudinal, fundamento
                           ca             ca                   c˜        a
aos seus olhos da distribui¸˜o da popula¸˜o mundial, distribui¸ao essa n˜o
                                  c˜            a
cultural e sim natural da civiliza¸ao e da barb´rie: ”A natureza tirou tudo
               e                      a                         c
de um hemisf´rio deste globo para d´-lo ao outro”. ”A diferen¸a entre um
       e                                          e       a
hemisf´rio e o outro (o Antigo e o Novo Mundo) ´ total, t˜o grande quanto
                                      a
poderia ser e quanto podemos imagin´-la”: de um lado, a humanidade, e de
outro, a ”estupidez na qual vegetam”esses seres indiferenciados:

                a                                 c
”Igualmente b´rbaros, vivendo igualmente da ca¸a e da pesca, em pa´ses ı
          e                                         ca
frios, est´reis, cobertos de florestas, que despropor¸˜o se queria imaginar
entre eles? Onde se sente as mesmas necessidades, onde os meios de sa-
       e     a                           e            a a                e
tisfazˆ-los s˜o os mesmos, onde as influˆncias do ar s˜o t˜o semelhantes, ´
     ı                  ca                       co        e
poss´vel haver contradi¸˜o nos costumes ou varia¸˜es nas id´ias?”

Pauw responde, evidentemente, de forma negativa. Os ind´    ıgenas america-
                                                         a
nos vivem em um ”estado de embrutecimento”geral. T˜o degenerados uns
                            a
quanto os outros, seria em v˜o procurar entre eles variedades distintivas da-
quilo que se pareceria com uma cultura e com uma hist´ria.7
                                                        o

     7
         Sobre C. de Pauw, cf. os trabalhos de M. Duchet (1971, 1985).
1.1. A FIGURA DO MAU SELVAGEM E DO BOM CIVILIZADO                                   31


                                                   a
2) Os julgamentos que acabamos de relatar – que est˜o, notamos, em ruptura
                               e
com a ideologia dominante do s´culo XVIII, da qual falaremos mais adiante,
e em especial com o Discurso sobre a Desigualdade, de Rousseau, publicado
                                                                  e
vinte anos antes – por excessivos que sejam, apenas radicalizam id´ias com-
                                       e        e            a
partilhadas por muitas pessoas nessa ´poca. Id´ias que ser˜o retomadas e
expressas nos mesmos termos em 1830 por Hegel, o qual, em sua Introdu¸˜oca
`                   o            o
a Filosofia da Hist´ria, nos exp˜e o horror que ele ressente frente ao es-
                       e                                    a a       o
tado de natureza, que ´ o desses povos que jamais-ascender˜o ` ”hist´ria”e
`        e
a ”consciˆncia de si”.

                         c˜         e                          u
Na leitura dessa Introdu¸ao, a Am´rica do Sul parece mais est´pida ainda
                        ´                      a   a
do que a do Norte. A Asia aparentemente n˜o est´ muito melhor. Mas ´       e
   ´                         ´                                          c˜
a Africa, e, em especial, a Africa profunda do interior, onde a civiliza¸ao
      e             a                                    o
nessa ´poca ainda n˜o penetrou, que representa para o fil´sofo a forma mais
nitidamente inferior entre todas nessa infra-humanidade:

 ´      ıs                                         ı        a         e
”E o pa´ do ouro, fechado sobre si mesmo, o pa´s da infˆncia, que, al´m
                o                   a
do dia e da hist´ria consciente, est´ envolto na cor negra da noite”.

           ´      e
Tudo, na Africa, ´ nitidamente visto sob o signo da falta absoluta: os ”ne-
       a                                       o          a
gros”n˜o respeitam nada, nem mesmo eles pr´prios, j´ que comem carne
                      e                          o
humana e fazem com´rcio da ”carne”de seus pr´ximos. Vivendo em uma
ferocidade bestial inconsciente de si mesma, em uma selvageria em estado
bruto, eles n˜o tˆm moral, nem institui¸˜es sociais, religi˜o ou Estado.8 Pe-
             a e                       co                   a
                                   a                              c
trificados em uma desordem inexor´vel, nada, nem mesmo as for¸as da colo-
    c˜         a                                                o
niza¸ao, poder´ nunca preencher o fosso que os separa da Hist´ria universal
da humanidade.

         c˜                                            a a
Na descri¸ao dessa africanidade estagnante da qual n˜o h´ absolutamente
nada a esperar – e que ocupa rigorosamente em Hegel o lugar destinado a     `
indianidade em Pauw – , o autor da Fenomenologia do Esp´    ırito vai, vale a
                                                      o
pena notar, mais longe que o autor das Pesquisas Filos´ficas sobre os Ameri-
                                 e
canos. O ”negro”nem mesmo se vˆ atribuir o estatuto de vegetal. ”Ele cai”,
                        ıvel
escreve Hegel, ”para o n´ de uma coisa, de um objeto sem valor”.



   8
    ”O fato de devorar homens corresponde ao princ´                               a
                                                       ıpio africano.”Ou ainda: ”S˜o os
                                                            e
seres mais atrozes que tenha no mundo, seu semelhante ´ para eles apenas uma carne
                                   a                      a               ca
como qualquer outra, suas guerras s˜o feroze: e sua religi˜o pura supersti¸˜o”.
32            CAP´            ´     ´
                 ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

1.2     A Figura Do Bom Selvagem E Do Mau
        Civilizado

                              a
A figura de uma natureza m´ na qual vegeta um selvagem embrutecido ´ emi- e
                   ıvel
nentemente suscet´ de se transformar em seu oposto: a da boa natureza
                                 `
dispensando suas benfeitorias a um selvagem feliz. Os termos da atribui¸˜o  ca
                                                 e
permanecem, como veremos, rigorosamente idˆnticos, da mesma forma que
               ıdo
o par constitu´ pelo sujeito do discurso (o civilizado) e seu objeto (o natu-
                                        a
ral). Mas efetua-se dessa vez a invers˜o daquilo que era apreendido como um
vazio que se torna um cheio (ou plenitude), daquilo que era apreendido como
                                           a
um menos que se torna um mais. O car´ter privativo dessas sociedades sem
                                                     a
escrita, sem tecnologia, sem economia, sem religi˜o organizada, sem clero,
sem sacerdotes, sem pol´                                            a     e
                         ıcia, sem leis, sem Estado –acrescentar-se-´ no s´culo
                        ´          a
XX sem Complexo de Edipo – n˜o constitui uma desvantagem. O selvagem
 a e
n˜o ´ quem pensamos.

                                c˜
Evidentemente, essa representa¸ao concorrente (mas que consiste apenas
                     c˜              c˜
em inverter a atribui¸ao de significa¸oes e valores dentro de uma estrutura
  e
idˆntica) permanece ainda bastante r´         e
                                     ıgida na ´poca na qual o Ocidente desco-
                                                             o
bre povos ainda desconhecidos. A figura do bom selvagem s´ encontrar´ suaa
        ca             a                          e       o
formula¸˜o mais sistem´tica e mais radical dois s´culos ap´s o Renascimento:
no rousseau´         e                    e                          a
            ısmo do s´culo XVIII, e, em s´guida, no Romantismo. N˜o deixa
    e                                                     a
por´m de estar presente, pelo menos em estado embrion´rio, na percep¸˜o   ca
      e                             e           u                  e
que tˆm os primeiros viajantes. Am´rico Vesp´cio descobre a Am´rica:

               a         a
”As pessoas est˜o nuas, s˜o bonitas, de pele escura, de corpo elegante. .
                                                   e
. Nenhum possui qualquer coisa que seja, pois tudo ´ colocado em comum.
E os homens tomam por mulheres aquelas que lhes agradam, sejam elas sua
  a          a                                    a               c
m˜e, sua irm˜, ou sua amiga, entre as quais eles n˜o fazem diferen¸a. . .
               u              a e
Eles vivem cinq¨enta anos. E n˜o tˆm governo”.

     o a                                                  e        ıso;
Crist´v˜o Colombo, aportando no Caribe, descobre, ele tamb´m o para´

       a                                      e             a
”Eles s˜o muito mansos e ignorantes do que ´ o mal, eles n˜o sabem se
                               a
matar uns aos outros (...) Eu n˜o penso que haja no mundo homens melho-
              e    a a
res, como tamb´m n˜o h´ terra melhor”.

             a      e                      e
Toda a reflex˜o de L´ry e de Montaigne no s´culo XVI sobre os ”naturais”baseia-
                       c˜
se sobre o tema da no¸ao de crueldade respectiva de uns e outros, e, pela
                                ıtica da civiliza¸ao e um elogio da ”ingenui-
primeira vez, instaura-se uma cr´                c˜
1.2. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO                                     33

                                       e                     a
dade original”do estado de natureza. L´ry, entre os Tupinamb´s, interroga-se
                          e         e
sobre o que se passa ”aqu´m”, isto ´, na Europa. Ele escreve, a respeito de
                     a               a           e
”nossos grandes usur´rios”: ”Eles s˜o mais cru´is do que os selvagens dos
                                                ´
quais estou falando”. E Montaigne, sobre esses ultimos: ”Podemos portanto
              a        a                 `              a         a
de fato cham´-los de b´rbaros quanto as regras da raz˜o, mas n˜o quanto
   o                                                     a
a n´s mesmos que os superamos em toda sorte de barb´rie”. Para o autor
dos Ensaios, esse estado paradis´ıaco que teria sido o nosso outrora, talvez
esteja conservado em alguma parte. O huguenote que eu interroguei at´ o  e
encontrou.

Esse fasc´ınio exercido pelo ind´ıgena americano, e em especial por le Hu-
    9
                          c˜
ron, protegido da civiliza¸ao e que nos convida a reencontrar o universo ca-
                                 e                                      c˜
loroso da natureza, triunfa nos s´culos XVII e XVIII. Nas primeiras Rela¸oes
        ıtas
dos jesu´ que se instalam entre os Hurons desde 1626 pode-se ler:

       a     a
”Eles s˜o af´veis, liberais, moderados. . . Todos os nossos padres que
    u
freq¨entaram os Selvagens consideram que a vida se passa mais docemente
                          o
entre eles do que entre n´s”. Seu ideal: ”viver em comum sem processo,
                                          ı
contentar-se de pouco sem avareza, ser ass´duo no trabalho”.

                               e
Do lado dos livres-pensadores, ´ o mesmo grito de entusiasmo; La Hontan:

                                            o
”Ah! Viva os Hurons que sem lei, sem pris˜es e sem torturas passam a
           c            u
vida na do¸ura, na tranq¨ilidade, e gozam de uma felicidade desconhecida
dos franceses”.

            c˜   a e
Essa admira¸ao n˜o ´ compartilhada apenas pelos navegadores estupefa-
    10
tos.   O selvagem ingressa progressivamente na filosofia – os pensadores

   9
                                                  e
     Um dos primeiros textos sobre os Hurons ´ publicado em 1632: Le Grand Vayage
au Pays des Hurons, de Gabriel Sagard. A seguir temos: em 1703, Le Supplement aux
                                    u
Voyages du Baron de La Hontan o¨ ion Trouve des Dialogues Curieux entre 1’Auteur et
                                                 e                                 e
un Sauvage; em 1744, Moeurs des Sauvages Am´ricains, de Lafitau; em 1767, Vlng´nu, de
Vol-taire..
                                 ca                             o
  Notemos que de cada popula¸˜o encontrada nasce um estere´tipo. Se o discurso euro-
                                                                      e    a
peu sobre os Astecas e os Zulus faz, na maior parte das vezes, referˆncia ` crueldade, o
                          o                            ´         a
discurso sobre os Esquim´s a sua hospitalidade, estes ultimos n˜o hesitando em oferecer
                                                              e       u
suas mulheres como presente, a imagem da bondade inocente ´ sem d´vida predominante
em grande parte na literatura sobre os ´ ındios.
  10
         e                                 e                 a                       e
     No s´culo XVIII, um marinheiro francˆs escreve em seu di´rio de viagem: ”A inocˆncia
          u          a                                                   a
e a tranq¨ilidade est´ entre eles, desconhecem o orgulho e a avareza e n˜o trocariam essa
              ıs                                       a
vida e seu pa´ por qualquer coisa no mundo”(coment´rios relatados por ). P. Duviols,
1978).
34             CAP´            ´     ´
                  ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

das Lumi`resu 11 – , mas tamb´m nos sal˜es liter´rios e nos teatros parisien-
         e                   e         o        a
              e                  a
ses. Em 1721, ´ montado um espet´culo intitulado O Arlequim Selvagem. 0
personagem de um Huron trazido para Paris declama no palco:

     e a
”Vocˆs s˜o loucos, pois procuram com muito empenho uma infinidade de
         u         e a
coisas in´teis; vocˆs s˜o pobres, pois limitam seus bens ao dinheiro, em vez
                               ca           o        a
de simplesmente gozar da cria¸˜o, como n´s, que n˜o queremos nada a fim
de desfrutar mais livremente de tudo”.

´ e
E a ´poca em que todos querem ver os Indes Galantes que Rameau aca-
                   e
bou de escrever, a ´poca em que se exibem nas feiras verdadeiros selvagens.
          c˜                                                 c˜
Manifesta¸oes essas que constituem uma verdadeira acusa¸ao contra a civi-
    c˜                 ınio pelos ´
liza¸ao. Depois, o fasc´                    a         ıdo
                                  ındios ser´ substitu´ progressivamente, a
                   e
partir do fim do s´culo XVIII, pelo charme e prazer id´    ılico que provoca o
                                                                        e
encanto das paisagens e dos habitantes dos mares do sul, dos arquip´lagos
     e                                                            a
polin´sios, em especial Samoa, as ilhas Marquises, a ilha de P´scoa, e so-
                          a
bretudo o Taiti. Aqui est´, por exemplo, o que escreve Bougainville em sua
Viagem ao Redor do Mundo (reed. 1980):

                                  a
”Seja dia ou noite, as casas est˜o abertas. Cada um colhe as frutas na
         a                                                            o
primeira ´rvore que encontra, ou na casa onde entra. . . Aqui um doce ´cio
e                                                       e
´ compartilhado pelas mulheres, e o empenho em agradar ´ sua mais preciosa
      ca
ocupa¸˜o. . . Quase todas aquelas ninfas estavam nuas. . . As mulheres
           a
pareciam n˜o querer aquilo que elas mais desejavam. . . Tudo lembra a cada
              c
instante as do¸uras do amor, tudo incita ao abandono”.

Todos os discursos que acabamos de citar, e especialmente, os que exal-
         c
tam a do¸ura das sociedades ”selvagens”, e, correlativamente fustigam tudo
                                  a               a             a
que pertence ao Ocidente ainda s˜o atuais. Se n˜o o fossem, n˜o nos seriam
diretamente acess´        a                                   e
                  ıveis, n˜o nos tocariam mais nada. Ora, ´ precisamente a
           a
esse imagin´rio da viagem, a esse desejo de fazer existir em um ”alhures”uma
sociedade de prazer e de saudade, em suma, uma humanidade convivial cujas
                       `         e
virtudes se estendam a magnificˆncia da fauna e da flora (Chateau-briand,
Segalen, Conrad, Melville. . .), que a etnologia deve grande parte de seu
                u
sucesso com o p´blico.

O tema desses povos que podem eventualmente nos ensinar a viver e dar
  11
                           o                           ıdos, precisar´
    Condillac escreve: ”N´s que nos consideramos instru´             ıamos ir entre os
                                                  c                              e
povos mais ignorantes, para aprender destes o come¸o de nossas descobertas: pois ´ so-
                    c            ıamos: ignoramo-lo porque deixamos h´ tempo de ser
bretudo desse come¸o que precisar´                                     a
       ıpulos da natureza”
os disc´
1.2. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO                          35

ao Ocidente mort´         c˜                                        a e
                  ıfero li¸oes de grandeza, como acabamos de ver, n˜o ´ novi-
                                u         a                         ıvel
dade. Mas grande parte do p´blico est´ infinitamente mais dispon´ agora
                                             `
do que antes para se deixar persuadir que as sociedades constrangedoras da
      c˜        a                                    co                o
abstra¸ao, do c´lculo e da impessoalidade das rela¸˜es humanas, op˜em-se
                                       a
sociedades de solidariedade comunit´ria, abrigadas na suntuosidade de uma
                             ca
natureza generosa. A decep¸˜o ligada aos ”benef´ ıcios”do progresso (nos quais
               o                                                  a
muitos entre n´s acreditam cada vez menos) bem como a solid˜o e o ano-
nimato do nosso ambiente de vida, fazem com que parte de nossos sonhos
 o                                     ıso               o
s´ aspirem a se projetar nesses para´ (perdido) dos tr´picos ou dos mares
                                      ıdo                                o
do Sul, que o Ocidente teria substitu´ pelo inferno da sociedade tecnol´gica.

          e                                    o                      e
Mas conv´m, a meu ver, ir mais longe. O etn´logo, como o militar, ´ recru-
tado no civil. Ele compartilha com os que pertencem a mesma cultura que a
                         c˜      u                                 ´
sua, as mesmas insatisfa¸oes,-ang´stias, desejos. Se essa busca do Ultimo dos
                                                                         e
Moicanos, essa etnologia do selvagem do tipo ”vento dos coqueiros”(que ´ na
realidade uma etnologia selvagem) contribui para a popularidade de nossa
                   a                     c˜           o         o
disciplina, ela est´ presente nas motiva¸oes dos pr´prios etn´logos. Mali-
           a                              a
nowski ter´ a franqueza de escrever e ser´ muito criticado por isso:

            u                   a      a               e
”Um dos ref´gios fora dessa pris˜o mecˆnica da cultura ´ o estudo das for-
mas primitivas da vida humana, tais como existem ainda nas sociedades
    ınquas do globo. A antropologia, para mim, pelo menos, era uma fuga
long´
    a
romˆntica para longe de nossa cultura uniformizada”.

Ora, essa ”nostalgia do neol´                               e
                              ıtico”, de que fala Alfred M´traux e que es-
                         o          c˜        o     e
teve na origem de sua pr´pria voca¸ao de Ctn´logo, ´ encontrada em muitos
                                  co             co
autores, especialmente nas descri¸˜es de popula¸˜es preservadas do contato
corruptor com o mundo moderno, vivendo na harmonia e na transparˆncia. e
O qualificativo que fez sucesso para designar o estado dessas sociedades, que
 a                                                o
s˜o caracterizadas pela riqueza das trocas simb´licas, foi certamente o de
     e             a       c˜
”autˆntico”(oposto ` aliena¸ao das sociedades industriais adiantadas), termo
                                    e                     ıdo    e
proposto por Sapir em 1925, e que ´ erroneamente atribu´ a L´vi-Strauss.



                                    ***
A imagem que o ocidental se fez da alteridade (e correlativamente de si
        a                                        o
mesmo) n˜o parou, portanto, de oscilar entre os p´los de um verdadeiro
movimento pendular. Pensou-se alternadamente que o selvagem:
   • era um monstro, um ”animal com figura humana”(L´ry), a meio cami-
                                                      e
                                                    e
     nho entre a animalidade e a humanidade mas tamb´m que os monstros
36             CAP´            ´     ´
                  ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:

       e       o                         c˜
       ´ramos n´s, sendo que ele tinha li¸oes de humanidade a nos dar;
     • levava uma existˆncia infeliz e miser´vel, ou, pelo contr´rio, vivia num
                       e                    a                   a
                                                  c
       estado de beatitude, adquirindo sem esfor¸os os produtos maravilhosos
       da natureza, enquanto que o Ocidente era, por sua vez, obrigado a
                                       u
       assumir as duras tarefas da ind´stria;
     • era trabalhador e corajoso, ou essencialmente pre gui¸oso;
                                                            c
     • n˜o tinha alma e n˜o acreditava em nenhum deus, ou era profunda-
        a                a
       mente religioso;
     • vivia num eterno pavor do sobrenatural, ou, ao inverso, na paz e na
       harmonia
     • era um anarquista sempre pronto a massacrar seus semelhantes, ou um
                                                 e                    o
       comunista decidido a tudo compartilhar, at´ e inclusive suas pr´prias
       mulheres;
     • era admiravelmente bonito, ou feio;
     • era movido por uma impulsividade criminalmente congˆnita quando era
                                                           e
          ıtimo temer, ou devia ser considerado como uma crian¸a precisando
       leg´                                                   c
               c˜
       de prote¸ao;
     • era um embrutecido sexual levando uma vida de orgia e devassid˜o   a
                                  a
       permanente, ou, pelo contr´rio, um ser preso, obedecendo estritamente
                   `        co
       aos tabus e as proibi¸˜es de seu grupo;
     • era atrasado, est´pido e de uma simplicidade brutal, ou profundamente
                        u
       virtuoso e eminentemente complexo;
     • era um animal, um ”vegetal”(de Pauw), uma ”coisa”, um ”objeto sem
                                                a
       valor”(Hegel), ou participava, pelo contr´rio, de uma humanidade da
       qual tinha tudo como aprender.
       a                       co             c                      a
Tais s˜o as diferentes constru¸˜es em presen¸a (nas quais a repuls˜o se trans-
forma rapidamente em fasc´                                   a            a
                             ınio) dessa alteridade fantasm´tica que n˜o tem
           ca
muita rela¸˜o com a realidade. O outro – o ´    ındio, o taitiano, mas recente-
                          a e
mente o basco ou o bret˜o– ´ simplesmente utilizado como suporte de um
        a                       e            e       e                  ıs
imagin´rio cujo lugar de referˆncia nunca ´ a Am´rica, Taiti, o Pa´ Basco
                  a
ou a Bretanha. S˜o objetos-pretextos que podem ser mobilizados tanto com
        `        ca       o
vistas a explora¸˜o econˆmica, quanto ao militarismo pol´            a        a
                                                              ıtico, ` convers˜o
             `     c˜     e                                           a e
religiosa ou a emo¸ao est´tica. Mas, em todos os casos, o outro n˜o ´ consi-
derado para si mesmo. Mal se olha para ele. Olha-se a si mesmo nele.
1.2. A FIGURA DO BOM SELVAGEM E DO MAU CIVILIZADO                           37


Voltemos ao nosso ponto de partida: o Renascimento. Seria em v˜o, tal-  a
           o
vez anacrˆnico, descobrir nele o que poderia aparentar-se a um pensamento
       o       a          a
etnol´gico, t˜o problem´tico, como acabamos de observar, ainda no final do
 e              a                                                 e
s´culo XX. N˜o basta viajar e surpreender-se com o que se vˆ para tornar-se
    o         a
etn´logo (n˜o basta mesmo ter numerosos anos de ”campo”, como se diz
             e                              e
hoje). Por´m, numerosos viajantes nessa ´poca colocam problemas (o que
  a                           a                a
n˜o significa uma problem´tica) aos quais ser´ necessariamente confrontado
                  o
qualquer antrop´logo. Eles abrem o caminho daquilo que laboriosamente ir´     a
                                   e
se tornar a etnologia. Jean de L´ry, entre os ind´ıgenas brasileiros, pergunta-
    e               a                                     a
se: ´ preciso rejeit´-los fora da humanidade? Consider´-los como virtualida-
              a                         a                     o
des de crist˜os? Ou questionar a vis˜o que temos da pr´pria humanidade,
      e                            e             e                      c˜
isto ´, reconhecer que a cultura ´ plural? Atrav´s de muitas contradi¸oes (a
        c˜                             a                             o
oscila¸ao permanente entre a convers˜o e o olhar, os objetivos teol´gicos e os
que poder´                           a
           ıamos chamar de etnogr´ficos, o ponto de vista normativo e o ponto
                                           a
de vista narrativo), o autor da Viagem n˜o tem resposta. Mas as quest˜es    o
                                                            ´         a
(e para o que nos interessa aqui, mas especificamente a ultima) est˜o no en-
                                                     `
tanto implicitamente colocadas. Montaigne (hoje as vezes criticado), mesmo
                       e
se o que o preocupa ´ menos a humanidade dos ´   ındios do que a inumanidade
                                  e
dos europeus, seguindo nisso L´ry que transporta para o ”Novo Mundo”os
                            c                u               ıcio
conflitos do antigo, come¸a a introduzir a d´vida no edif´ do pensamento
                                                    ıvel
europeu. Ele testemunha o desmoronamento poss´ deste pensamento, me-
                                        c˜             c˜
nos inclusive ao pronunciar a condena¸ao da civiliza¸ao do que ao considerar
                      a e
que a ”selvageria”n˜o ´ nem inferior nem superior, e sim diferente.

              e                           e
Assim, essa ´poca, muito timidamente, ´ verdade, e por alguns apenas de
seus esp´                                               c˜
         ıritos os menos ortodoxos, a partir da observa¸ao direta de um ob-
                  e            a        a
jeto distante (L´ry) e da reflex˜o a distˆncia sobre este objeto (Montaigne),
                    c˜               a                      o
permite a constitui¸ao progressiva, n˜o de um saber antropol´gico, muito me-
                e            o                             e         o
nos de uma ciˆncia antropol´gica, mas sim de um saber pr´-antropol´gico.
38   CAP´            ´     ´
        ITULO 1. A PRE-HISTORIA DA ANTROPOLOGIA:
   ıtulo 2
Cap´

   e
O S´culo XVIII:

       ca
a inven¸˜o do conceito de homem
                                c                    c˜       a
Se durante o Renascimento esbo¸ou-se, com a explora¸ao geogr´fica de conti-
                                           c˜              e      u
nentes desconhecidos, a primeira interroga¸ao sobre a existˆncia m´ltipla do
                       ca                                    e
homem, essa interroga¸˜o fechou-se muito rapidamente no s´culo seguinte,
               e                                                      a
no qual a evidˆncia do cogito, fundador da ordem do pensamento cl´ssico,
             a                  c
exclui da raz˜o o louco, a crian¸a, o selvagem, enquanto figuras da anorma-
lidade.

   a                     e
Ser´ preciso esperar o s´culo XVIII para que se constitua o projeto de fun-
             e                      e                 a
dar uma ciˆncia do homem, isto ´, de um saber n˜o mais exclusivamente
especulaivo, e sim positivo sobre o homem. Enquanto encontramos no s´culoe
                                                e     o
XVI elementos que permitem compreender a pr´-hist´ria da antropologia, en-
           e                             a      a
quanto o s´culo XVII (cujos discursos n˜o nos s˜o mais diretamente acess´  ıveis
                                           c˜               e
hoje) interrompe nitidamente essa evolu¸ao, apenas no s´culo XVIII ´ que e
entramos verdadeiramente, como mostrou Michel Foucault (1966), na mo-
                            e           a         e
dernidade. Apenas nessa ´poca, e n˜o antes, ´ que se pode apreender as
      c˜       o                            o
condi¸oes hist´ricas, culturais e epistemol´gicas de possibilidade daquilo que
vai se tornar a antropologia.

                    e                                           a
”Antes do final do s´culo XVIII”, escreve Fou-cauilt, ”o homem n˜o existia.
            e
Como tamb´m o poder du vida, a fecundidade do trabalho ou a densidade
    o                   ´
hist´rica da linguagem. E uma criatura muito recente que o demiurgo do sa-
                        o       a     a
ber fabricou com suas pr´prias m˜os, h´ menos de duzentos anos (...) Uma
                    e                 a e
coisa em todo caso ´ certa, o homem n˜o ´ o mais antigo problema, nem o
                                                                    e
mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. O homem ´ uma
      ca                                                         e
inven¸˜o e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto ´ recente.
                                                               a    o
E”, acrescenta Foucault no final de As Palavras e as Coisas, ”qu˜o pr´ximo

                                      39
40                                       CAP´           ´
                                            ITULO 2. O SECULO XVIII:

talvez seja o seu fim”.

                  o         a           c˜
O projeto antropol´gico (e n˜o a realiza¸ao da antropologia como a enten-
               o
demos hoje) sup˜e:

              c˜                 u                           c
1) a constru¸ao de um certo n´mero de conceitos, come¸ando pelo pr´prio   o
                        a
conceito de homem, n˜o apenas enquanto sujeito, mas enquanto objeto do
                                  e      a
saber; abordagem totalmente in´dita, j´ que consiste em introduzir dualidade
caracter´             e
         ıstica das ciˆncias exatas (o sujeito observante e o objeto observado)
        c˜        o
no cora¸ao do pr´prio homem;

                ca                        a                         a
2) a constitui¸˜o de um saber que n˜o seja apenas de reflex˜o, e sim de
         ca        e
observa¸˜o, isto ´, de um novo modo de acesso ao homem, que passa a ser
                            e                                          co
considerado em sua existˆncia concreta, envolvida nas determina¸˜es de seu
                           c˜             c˜
organismo, de suas rela¸oes de produ¸ao, de sua linguagem, de suas insti-
   c˜                                              c              ca
tui¸oes, de seus comportamentos. Assim come¸a a constitui¸˜o dessa posi-
tividade de um saber emp´               a
                              ırico (e n˜o mais transcendental) sobre o homem
enquanto ser vivo (biologia), que trabalha (economia), pensa (psicologia) e
          uıstica). . . Montesquieu, em O Esp´
fala (ling¨´                                      ırito das Leis (1748), ao mos-
            c˜                    e          e           o
trar a rela¸ao de interdependˆncia que ´ a dos fenˆmenos sociais, abriu o
                                                          e
caminho para Saint-Simon que foi o primeiro (no s´culo seguinte) a falar
             e                                                       e
em uma ”ciˆncia da sociedade”. Da mesma forma, antes dessa ´poca, a lin-
                                          c˜
guagem, quando tomada em considera¸ao, era objeto de filosofia ou exegese.
Tornou-se paulatinamente (com de Brosses, Rousseau) o objeto espec´       ıfico de
um saber cient´                                 ca
                 ıfico (ou, pelo menos, de voca¸˜o cient´   ıfica);

                 a                            c
3) uma problem´tica essencial: a da diferen¸a. Rompendo com a convic¸ao  c˜
                  e
de uma transparˆncia imediata do cogito, coloca-se pela primeira vez no
 e                   a         c˜
s´culo XVIII a quest˜o da rela¸ao ao impensado, bem como a dos poss´    ıveis
                       ca                                     o
processos de reapropria¸˜o dos nossos condicionamentos fisiol´gicos, das nos-
         c˜           ca                                   c˜
sas rela¸oes de produ¸˜o, dos nossos sistema de organiza¸ao social. Assim,
                                                                  c˜
inicia-se uma ruptura com o pensamento do mesmo, e a constitui¸ao da id´iae
de que a linguagem nos precede, pois somos antes exteriores a ela. Ora, tais
      o                                                       c˜
reflex˜es sobre os limites do saber, assim como sobre as rela¸oes de sentido
e poder (que anunciam o fim da metaf´                          a
                                         ısica) eram inimagin´veis antes. A
               e
sociedade do s´culo XVIII vive uma crise da identidade do humanismo e da
       e           e                                       e
consciˆncia europ´ia. Parte de suas elites busca suas referˆncias em um con-
fronto com o distante.

Em 1724, ao publicar Os Costumes dos Selvagens Americanos Compara-
                                                  a
dos aos Costumes dos Primeiros Tempos, Lafitau se d´ por objetivo o de
                                                                                    41

                e                     a             e            e
fundar uma ”ciˆncia dos costumes e h´bitos”, que, al´m da contingˆncia dos
                          a                  c˜        a
fatos particulares, poder´ servir de compara¸ao entre v´rias formas de hu-
                                                   c˜
manidade. Em 1801, Jean Itard escreve Da Educa¸ao do Jovem Selvagem
                                                         a
do Aveyron. Ele se interroga sobre a comum humanidade ` qual pertencem
                     ca
o homem da civiliza¸˜o em que nos transportamos e o homem da natureza,
a crian¸a-lobo.1 Mas foi Rousseau quem tra¸ou, em seu Discurso sobre a
        c                                     c
                                                                    a
Origem e os Fundamentos da Desigualdade, o programa que se tornar´ o da
etnologia cl´ssica, no seu campo tem´tico2 tanto quanto na sua abordagem:
            a                        a
       c˜
a indu¸ao de que falaremos agora;

          e              ca      a          e
4) um m´todo de observa¸˜o e an´lise: o m´todo indutivo. Os grupos sociais
            c
(que come¸am a ser comparados a organismos vivos, podem ser considerados
como sistemas ”naturais”que devem ser estudados empiricamente, a partir du
         ca                               ıpios gerais, que hoje chamar´
observa¸˜o de fatos, a fim de extrair princ´                            ıamos
de leis.

                                                 c˜
Esse naturalismo, que consiste numa emancipa¸ao definitiva em rela¸ao aoc˜
                                                          3
                  o        o
pensamento teol´gico, imp˜e-se em especial na Inglaterra, com Adam Smith
e, antes dele, David Hume, que escreve em 1739 seu Tratado sobre a Natureza
Humana, cujo t´                  e
                 ıtulo completo ´: ”Tratado sobre a natureza Humana: tenta-
                ca            e
tiva de introdu¸˜o de um m´todo experimental de racioc´    ınio para o estudo
                                o
de assuntos de moral”. Os fil´sofos ingleses colocam as premissas de todas
                           a              e
as pesquisas que procurar˜o fundar, no s´culo XVIII, uma moral natural”,
                                            a
um ”direito natural”, ou ainda uma ”religi˜o natural”.



                                        ***

                                                            e
Esse projeto de um conhecimento positivo do homem – isto ´, de um estudo
            e
de sua existˆncia emp´ırica considerada por sua vez como objeto do saber –
                             a          o
constitui um evento consider´vel na hist´ria da humanidade. Um evento que
                       e                                 a
se deu no Ocidente no s´culo XVIII, que, evidentemente, n˜o ocorreu da noite
                                             a
para o dia, mas que terminou impondo-se j´ que se tornou definitivamente
   1
                        c
     Cf. o filme de Fran¸ois Truffaut, VEnfant Sauvage (1970), e o livro de Lucien Malson
que the serviu de base.
   2
                                         o                             o
     Rousseau estabelece a lista das regi˜es devedoras de viagens ”filos´ficas”: o mundo
inteiro menos a Europa ocidental.
   3
                              e                         e                        ca
     A precocidade e preeminˆncia, no pensamento inglˆs, do empirismo em rela¸˜o ao
                  e
pensamento francˆs, caracterizado antes pelo racionalismo (e idealismo), podem a meu
                                       a              c       e
ver explicar em parte o crescimento r´pido (no come¸o do s´culo XX) da antropologia
    a
britˆnica e o atraso da antropologia francesa.
42                                           CAP´           ´
                                                ITULO 2. O SECULO XVIII:

                                                    e
constitutivo da modernidade na qual, a partir dessa ´poca, entramos. A fim
                                                      c˜
de avaliar melhor a natureza dessa verdadeira revolu¸ao do pensamento –
que instaura uma ruptura tanto com o ”humanismo”do Renascimento como
                         e      a
com o ”racionalismo”do s´culo cl´ssico –, examinemos de mais perto o que
                             e
mudou radicalmente desde o s´culo XVI.

1)Trata-se em primeiro lugar da natureza dos objetos observados. Os relatos
                    e                                                a
dos viajantes dos s´culos XVI e XVII eram mais uma busca cosmogr´fica do
                          a
que uma pesquisa etnogr´fica. Afora algumas incurs˜es t´              ´
                                                       o ımidas para area das
                                4
        c˜                                            c˜       e
”inclina¸oes”e dos ”costumes”, o objeto de observa¸ao, nessa ´poca era mais
   e
o c´u, a terra, a fauna e a flora, do que o homem em si, e, quando se tratava
deste, era essencialmente o homem f´                                     ca
                                      ısico que era tomado em considera¸˜o.
         e                c                   c
Ora, o s´culo XVIII tra¸a o primeiro esbo¸o daquilo que se tornar´ uma a
antropologia social e cultural, constituindo-se inclusive, ao mesmo tempo,
tomando como modelo a antropologia f´    ısica, e instaurando uma ruptura do
       o
monop´lio desta (especialmente na Fran¸a).c

2) Simultaneamente, o destaque se desloca pouco a pouco do objeto de estudo
                            o
para a atividade epistemol´gica, que se torna cada vez mais organizada. Os
               e
viajantes dos s´culos XVI e XVII coletavam ”curiosidades”. Esp´  ıritos curio-
                 c˜
sos reuniam cole¸oes que iam formar os famosos ”gabinetes de curiosidades”,
                                         a           e
ancestrais dos nossos museus contemporˆneos. No s´culo XVIII, a quest˜o    a
e
´: como coletar? E como dominar em seguida o que foi coletado? Com a
     o                                   e
Hist´ria Geral das Viagens, do padre Pr´vost (1746), passa-se da coleta dos
                     ca                a                       e
materiais para a cole¸˜o das coletas. N˜o basta mais observar, ´ preciso pro-
                 c˜    a                               e             e
cessar a observa¸ao. N˜o basta mais interpretar o que ´ observado, ´ preciso
                           5
                      c˜       e                           e
interpretar interpreta¸oes. E ´ desse desdobramento, isto ´, desse discurso,
                                                      c˜             ca
que vai justamente brotar uma atividade de organiza¸ao e elabora¸˜o. Em
                                a
1789, Chavane, o primeiro, dar´ a essa atividade um nome. Ele a chamar´:    a
a etnologia.



                                         ***
             e     e                                                 o
Finalmente, ´ no s´culo XVIII que se forma o par do viajante e do fil´sofo:
                                                                  e
o viajante: Bougainville, Maupertuis, La Condamine, Cook, La P´rouse. .
                 e            e                     o
realizando o que ´ chamado na ´poca de ”viagens filos´ficas”, precursoras das
     4
     Cf. em especial UHistoire Naturetle et Morale des Indes, de Acosta (1591), ou o
         a                                                                    co
question´rio que Beauvilliers envia aos intendentes em 1697 para obter informa¸˜es sobre
o estado das mentalidades populares no reino.
   5
     Cf sobre isso G. Leclerc. 1979
                                                                                        43

           o        ıficas contemporˆneas; o fil´sofo Buffon, Voltaire, Rous-
nossas miss˜es cient´               a         o
                                                `
seau, Diderot (cf. em especial o seu Suplemento a Viagem de Bougainville)
                              o            c˜
”esclarecendo”com suas reflex˜es as observa¸oes trazidas pelo viajante.

                 a
Mas esse par n˜o tem realmente nada de id´       ılico. Que pena, pensa Rous-
                           a           o
seau, que os viajantes n˜o sejam fil´sofos! Bougainville retruca (em 1771
                                                                 o
em sua Viagem ao Redor do Mundo): que pena que os fil´sofos n˜o sejam     a
viajantes!6 Para o primeiro, bem como para todos os fil´sofos naturalistas do
                                                            o
 e                   e                     e                               ca
s´culo das luzes, se ´ essencial observar, ´ preciso ainda que a observa¸˜o seja
                               e
esclarecida. Uma prioridade ´ portanto conferida ao observador, sujeito que,
para apreender corretamente seu objeto, deve possuir um certo n´mero de  u
               e                                               e
qualidades. E ´ assim que se constitui, na passagem do s´culo XVIII para o
 e
s´culo XIX, a Sociedade dos Observadores do Homem (1799-1805), formada
         a                   o             a                  o
pelos ent˜o chamados ”ide´logos”, que s˜o moralistas, fil´sofos, naturalistas,
  e
m´dicos que definem muito claramente o que deve ser o campo da nova ´rea       a
de saber (o homem nos seus aspectos f´    ısicos, ps´ıquicos, sociais, culturais) e
                            e                o
quais devem ser suas exigˆncias epistemol´gicas.

              c˜                        e
As Considera¸oes sobre os Diversos M´todos a Seguir na Observa¸ao dos c˜
                                          a
Povos Selvagens, de De Gerando (1800) s˜o, quanto a isso, exemplares. Pri-
meira metodologia da viagem, destinada aos pesquisadores de uma miss˜o     a
                                   e
nas ”Terras Austrais”, esse texto ´ uma cr´                   c˜
                                             ıtica da observa¸ao selvagem do
selvagem, que procura orientar o olhar do observador. O cientista naturalista
               o                                                         e
deve ser ele pr´prio testemunha ocular do que observa, pois a nova ciˆncia
                    e                       e               e        e
– qualificada de ”ciˆncia do homem”ou ”ciˆncia natural-- ´ uma ”ciˆncia de
        ca                                           o           e
observa¸˜o”, devendo o observador participar da pr´pria existˆncia dos gru-
pos sociais observados.7

   6
     Rousseau: ”Suponhamos um Montesquieu, um Buffon, um Diderot, um d’Alembert,
um Condillac, ou homens de igual capacidade, viajando para instruir seus compatriotas,
                              e
observando como sabem fazˆ-lo a Turquia, o Egito, a Barbaria. . . Suponhamos que
              e                                c          a
esses novos H´rcules, de volta de suas andan¸as memor´veis, fizessem a seguir a hist´riao
natural, moral e pol´                              ıamos nascer de seus escritos um mundo
                     ıtica do que teriam visto, ver´
novo, e aprender´ ıamos assim a conhecer o nosso.
                                                    e
  Bougainville: ”Sou viajante e marinheiro, isto ´, um mentiroso e um imbecil aos olhos
                                 c
dessa classe de escritores pregui¸osos e soberbos que, na sombra de seu gabinete, filosofam
sem fim sobre o mundo e seus habitantes, e submetem imperiosamente a natureza a suas
        co
imagina¸˜es. Modos bastante singulares e inconceb´     ıveis da parte de pessoas que, n˜oa
                                 o        o
tendo observado nada por si pr´prias, s´ escrevem e dogmatizam a partir de observa¸˜es co
tomadas desses mesmos viajantes aos quais recusam a faculdade de ver e pensar”.
   7
     Estamos longe de Montaigne, que se contenta em acreditar nas palavras de ”um homem
simples e rude”, um huguenote que esteve no Brasil, a respeito dos ´  ındios entre os quais
esteve.
44                                              CAP´           ´
                                                   ITULO 2. O SECULO XVIII:


    e                                a
Por´m, o projeto de De Gerando n˜o foi aplicado por aqueles a que se des-
tinava diretamente, e n˜o ser´, por muito tempo ainda, levado em conta.8
                         a     a
                                                       a
Se esse programa que consiste em ligar uma reflex˜o organizada a uma ob-
      ca        a       a
serva¸˜o sistem´tica, n˜o apenas do homem f´                    e
                                                 ısico, mas tamb´m do homem
                    a o                    e              e         a
social e cultural, n˜o pˆde ser realizado, ´ porque a ´poca ainda n˜o o per-
                     e                                                c˜
mitia. O final do s´culo XVIII teve um papel essencial na elabora¸ao dos
                          e                  a
fundamentos de uma ”ciˆncia humana”. N˜o podia ir mais longe, e n˜o po-a
   ıamos credit´-lo aquilo que s´ ser´ poss´ um s´culo depois.
der´            a                o     a     ıvel       e

                              a
Mais especificamente, o obst´culo maior ao advento de uma antropologia
     ıfica, no sentido no qual a entendemos hoje, est´ ligado, ao meu ver, a
cient´                                              a
dois motivos essenciais.

              c˜
1) A distin¸ao entre o saber cient´                    o
                                    ıfico e o saber filos´fico, mesmo sendo
              a e
abordada, n˜o ´ de forma alguma realizada. Evidentemente, o conceito da
                                         e
unidade e universalidade do homem, que ´ pela primeira vez claramente afir-
                       c˜            c˜
mado, coloca as condi¸oes de produ¸ao de um novo saber sobre o homem.
       a                  `          c˜
Mas n˜o leva ipso facto a constitui¸ao de um saber positivo. No final do
 e                                                           a a
s´culo XVIII, o homem interroga-se: sobre a natureza, mas n˜o h´ biologia
           a                                      c˜              ca
ainda (ser´ preciso esperar Cuvier); sobre a produ¸ao e reparti-ti¸˜o das ri-
                     a
quezas, mas ainda n˜o se trata de economia (Ricardo); sobre seu discurso
            a
mas isso n˜o basta para elaborar uma filosofia (Bopp), muito menos uma
    uıstica.9
ling¨´

     8
                             ca                           a                           o
      Os cientistas da expedi¸˜o conduzida por Bodin n˜o eram de forma alguma etn´grafos,
         e          o             a                             a                   a
e sim m´dicos, zo´logos, miner´logos, e os objetos etnogr´ficos que recolheram n˜o foram
                                         o
sequer depositados no Museu de Hist´ria Natural de Paris, e sim dispersados em cole¸˜es   co
                       o
particulares. O pr´prio Gerando, ”observador dos povos selvagens”em 1800, torna-se
                                                             a
”visitante dos pobres”em 1824. O que mostra a prontid˜o de uma passagem poss´ entre ıvel
o estudo dos ind´                                                           e
                   ıgenas e a ajuda aos indigentes, mas sobretudo, nessa ´poca, uma certa
    e                ca
ausˆncia de distin¸˜o entre a antropologia principiante e a ”filantropia”.
                                                        e                  o
   Notemos finalmente que, publicado em 1800, o m´moire de Gerando s´ foi reeditado- na
      c                                        a                c
Fran¸a em 1883. E o primeiro museu etnogr´fico da Kran¸a foi fundado apenas cinco anos
                                                            ıdo
antes (em Paris, no Trocadero). sendo depois substitu´ pelo atual Museu do Homem.
    9
                                 a
      A antropologia contemporˆnea me parece, pessoalmente, dividida entre uma homena-
                                    a       o         e              e
gem a esses pais fundadores que s˜o os fil´sofos do s´culo XVIII (L´vi-Strauss, por exemplo,
                                                 e     e              e
considera que o Discours sur l’Origine de l’In´galit´ de Rousseau ´ ”o primeiro tratado de
etnologia geral”) e um assass´                                       ca
                                ınio ritual consistindo na reatualiza¸˜o de uma ruptura com
                                    o                          e                  ca
um projeto que permanece filos´fico, enquanto que a ciˆncia exige a constitui¸˜o de um
                                                                            a
saber positivo e especializado. Mas neste segundo caso, a positividade, n˜o mais do saber,
                                                              e
e sim dc saberes que, muito rapidamente (a partir do s´culo XIX), se rompem se parce-
lam, formando o que Foucault chama de ”ontologias regionais”constituindo-se em torno
           o
dos territ´rios da vida (biologia), do trabalho (economia), da linguagem (ling¨´             e
                                                                                   uıstica), ´
                                                                                   45


                                 e                e
O conceito de homem tal como ´ utilizado no ”s´culo das luzes”permanece
                            e                    o
ainda muito abstrato, isto ´, rigorosamente filos´fico. Estamos na impossi-
                                                           o
bilidade de imaginar o que consideramos hoje como as pr´prias condi¸˜es  co
          o                           o
episte-mol´gicas da pesquisa antropol´gica. De fato, para esta, o objeto de
        ca a e
observa¸˜o n˜o ´ o ”homem”, e sim indiv´                               e
                                          ıduos que pertencem a uma ´poca
                                          a e
e a uma cultura, e o sujeito que observa n˜o ´ de forma alguma o sujeito da
                 o
antropologia filos´fica, e sim um outro indiv´                         o
                                             ıduo que pertence ele pr´prio a
      e
uma ´poca e a uma cultura.

                        o        e           e       a                    o
2) O discurso antropol´gico do s´culo XVIII ´ insepar´vel do discurso hist´rico
desse per´           e               c˜             o
          ıodo, isto ´, de sua concep¸ao de uma hist´ria natural, liberada da
teologia e animando a marcha das sociedades no caminho de um progresso
                   a                  a
universal. Restar´ um passo consider´vel a ser dado para que a antropologia
se emancipe deste pensamento e conquiste finalmente sua autonomia. Para-
                             a          e
doxalmente, esse passo ser´ dado no s´culo XIX (em especial com Morgan)
                                               e
a partir de uma abordagem igualmente e at´, talvez, mais marcadamente
historicista: o evolucionismo. E´ o que veremos a seguir.




                     a                  o           a
evidentemente problem´tica para o antrop´logo, que n˜o pode resignar-se a trabalhar em
     a
uma ´rea setorizada.
46   CAP´           ´
        ITULO 2. O SECULO XVIII:
   ıtulo 3
Cap´

O Tempo Dos Pioneiros:

                              e
os pesquisadores-eruditos do s´culo XIX
    e                                   c     e     a
O s´culo XVl descobre e explora espa¸os at´ ent˜o desconhecidos e tem um
                                                                    c
discurso selvagem sobre os habitantes que povoam esses espa¸os. Ap´s um      o
   e           e                                           e                 e
parˆntese no s´culo XVII, esse discurso se organiza no s´culo XVIII: ele ´ ”ilu-
          a          o                                              o
minado”` luz dos fil´sofos, e a viagem se torna ”viagem filos´fica”. Mas a
                                           c˜         e               ca
primeira – a grande – tentativa de unifica¸ao, isto ´, de instaura¸˜o de redes
                  c                    ca                         e
entre esses espa¸os, e de reconstitui¸˜o de temporalidades ´ incontestavel-
                  e                e                    a
mente obra do s´culo XIX. Esse s´culo XIX, hoje t˜o desacreditado, realiza
                                                          a
o que antes eram apenas empreendimentos program´ticos. Dessa vez, ´ a           e
e
´poca durante a qual se constitui verdadeiramente a antropologia enquanto
               o           e
disciplina autˆnoma: a ciˆncia das sociedades primitivas em todas as suas
        o        o      e            o
dimens˜es (biol´gica, t´cnica, econˆmica, pol´                         uıstica, psi-
                                                ıtica, religiosa, ling¨´
   o
col´gica. . .) enquanto que, notamo-lo, em se tratando da nossa sociedade,
                      a
essas perspectivas est˜o se tornando individualmente disciplinas particulares
cada vez mais especializadas.

               c˜                             c˜
Com a revolu¸ao industrial inglesa e a revolu¸ao pol´ıtica francesa, percebe-
                                       a
se que a sociedade mudou mais voltar´ a ser o que era. A Europa se vˆ       e
                                  e
confrontada a uma conjuntura in´dita. Seus modos de vida, suas rela¸oes  c˜
                         c˜                                    a
sociais sofrem uma muta¸ao sem precedente. Um mundo est´ terminando,
                a                        e                 c
e..um outro est´ nascendo. Se o final do s´culo XVIII come¸ava a sentir essas
            c˜                                           e
transforma¸oes, ele reagia ao enigma colocado pela existˆncia de sociedades
                                                      c˜
que tinham permanecido ora dos progressos da civiliza¸ao, trazendo uma du-
                                   e
pla resposta abandonada pela do s´culo que nos interessa agora:

                                              ca
– resposta que confia nas vantagens da civiliza¸˜o e considera totalmente

                                        47
48                              CAP´
                                   ITULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:

                   o                               e            a
estranhas a ela pr´pria todas essas formas de existˆncia que est˜o situadas
            o
fora da hist´ria e da cultura (de Pauw, Hegel);

– mas sobretudo resposta preocupada, que se expres* sa na nostalgia d´ o
antigo que ainda subsiste noutro lugar: o estado de felicidade do homem
num ambiente protetor situa-se do lado do ”estado de natureza”, enquanto
                      a                    ca
que a infelicidade est´ do lado da civiliza¸˜o (Rousseau).

         e
Ora, no s´culo XIX, o contexto geopol´      e                  e      ıodo da
                                      ıtico ´ totalmente novo: ´ o per´
                                   a
conquista colonial, que desembocar´ em especial na assinatura, em 1885, do
                                           ´                 e           e
Tratado de Berlim, que rege a partilha da Africa entre as potˆncias europ´ias
   o          `
e p˜e um fim as soberanias africanas.

´
E no movimento dessa conquista que se constitui a antropologia moderna,
          o
o antrop´logo acompanhando de perto, como veremos, os passos do colono.
       e        ´
Nessa ´poca, a Africa, a ´              a               a
                          ındia, a Austr´lia, a Nova Zelˆndia passam a ser
                   u              a                              a
povoadas de um n´mero consider´vel de emigrantes europeus; n˜o se trata
                       a
mais de alguns mission´rios apenas, e sim de administradores. Uma rede de
         c˜              a             a
informa¸oes se instala. S˜o os question´rios enviados por pesquisadores das
metr´poles (em especial da Gr˜-Bretanha) para os quatro cantos do mundo,1
     o                        a
                                                   a
e cujas respostas constituem os materiais de reflex˜o das primeiras grandes
                                     a
obras de antropologia que se suceder˜o em ritmo regular durante toda a se-
                    e
gunda metade do s´culo. Em 1861, Maine publica Ancient Law, em 1861,
                                                                  e
Bachofen, Das Mutterrecht; em 1864, Fustel de Coulanges, La Cit´ Antique;
em .1865, MacLennan, O Casamento Primitivo; em 1871, Tylor, A Cultura
Primitiva-, em 1877, Morgan, A Sociedade Antiga; em 1890, Frazer, os pri-
meiros volumes do Ramo de Ouro.

                           e              c˜          a
Todas essas obras, que tˆm uma ambi¸ao consider´vel – seu objetivo n˜o      a
e                                                                      a
´ nada menos que o estabelecimento dc um verdadeiro corpus etnogr´fico da
                                                 c
humanidade – caracterizam-se por uma mudan¸a radical de perspectiva em
    c˜ a e
rela¸ao ` ´poca das ”luzes”o ind´                                   e     a e
                                   ıgena das sociedades extra-europ´ias n˜o ´
                      e                                      e
mais o selvagem do s´culo XVIII, tornou-se o primitivo, isto ´, o ancestral do
                                 a               c˜       a
civilizado, destinado a reencontr´-lo. A coloniza¸ao atuar´ nesse sentido. As-
sim a antropologia, conhecimento do primitivo, fica indissociavelmente ligada
                                         e
ao conhecimento da nossa origem, isto ´, das formas simples de organiza¸˜o ca
social e de mentalidade que evolu´   ıram para as formas mais complexas das

     1
    Morgan escreveu, assim, Systems of Consanguinity and Affinity of lhe Human Family
                                                                   e
(1879), em seguida Frazer (a partir de suas Questions sur les Matii`res. [es Coutumes, la
Relizions, les Superstitions des Peuples
                                                                                        49

nossas sociedades.

                                                                   o
Procuremos ver mais de perto em que consiste o pensamento te´rico dessa
                                                                 e
antropologia que se qualifica de evolucionista. Existe uma esp´cie humana
  e                                                              o
idˆntica, mas que se desenvolve (tanto em suas formas tecnoeconˆmicas como
nos seus aspectos sociais e culturais) em ritmos desiguais, de acordo com as
       c˜                                             c      ıvel
popula¸oes, passando pelas mesmas etapas, para alcan¸ar o n´ final que ´ oe´
            ca                        e
da ”civiliza¸˜o”. A partir disso, conv´m procurar determinar cientificamente
a seq¨ˆncia dos est´gios dessas transforma¸˜es.0
     ue            a                        co

                             a              c˜                a
O evolucionismo encontrar´ sua formula¸ao mais sistem´tica e mais ela-
                              2
borada na obra de Morgan e particularmente em Ancient Society, que se
        a                       e
tornar´ o documento de referˆncia adotado pela imensa maioria dos an-
     o                    e
trop´logos do final do s´culo XIX, bem como na lei de Haeckel. Enquanto
                                    c˜     a                a        co
para de Pauw ou Hegel as popula¸oes ”n˜o civilizadas”s˜o popula¸˜es que,
  e                                e                 o      a e        o
al´m de se situarem enquanto esp´cies fora da Hist´ria, n˜o tˆm hist´ria em
          e                 a a          c
sua existˆncia individual (n˜o s˜o crian¸as que se tornaram adultos atrasados,
             c                  a                         c
e sim crian¸as que permanecer˜o inexoravelmente crian¸as), Haeckel afirma
                        a            e                     e
rigorosamente o contr´rio: a ontogˆnese reproduz a filogˆnese; ou seja, o in-
div´                                           o           e
    ıduo atravessa as mesmas fases que a hist´ria das esp´cies. Disso decorre
            ca                                                          c˜
a identifica¸˜o – absolutamente incontestada tanto pela primeira gera¸ao de
                                              a
marxistas quanto pelo fundador da psican´lise –dos povos primitivos aos
                                       3
vest´            a
     ıgios da infˆncia da humanidade

        e     e
O que ´ tamb´m muito caracter´                                  e
                                  ıstico dessa antropologia do s´culo XIX, que
pretende ser cient´      e            a        c˜                          co
                   ıfica, ´ a consider´vel aten¸ao dada: 1) a essas popula¸˜es
que aparecem como sendo as mais ”arcaicas”do mundo: os abor´        ıgines aus-
                                                             a
tralianos, 2) ao estudo do ”parentesco”, 3) e ao da religi˜o. Parentesco e
      a a            e                         ´
religi˜o s˜o, nessa ´poca, as duas grandes areas da antropologia, ou, mais
especificamente, as duas vias de acesso privilegiadas ao conhecimento das so-
   0
                e                 e
     Non-civilis´s ou Semi-civilis´s) Le Rameau d’Or (1981-1984). Uma correspondˆnciae
intensa circula entre os pesquisadores e os novos residentes europeus que lhes mandam
                                      co    e
uma grande quantidade de informa¸˜es e lˆem em seguida seus livros.
   2
            ´                e      a            ca                                   a
     Este ultimo distingue trˆs est´gios de evolu¸˜o da humanidade – selvageria, barb´rie,
         ca                             e
civiliza¸˜o – cada um dividido em trˆs per´                ca                     e
                                             ıodos, em fun¸˜o notadamente do crit´rio tec-
   o
nol´gico
   3
                                  o                                           ca
     Se o evolucionismo antropol´gico tende a aparecer hoje como a transposi¸˜o ao n´  ıvel
       e                                    o                       e
das ciˆncias humanas do evolucionismo biol´gico (A Origem das Esp´cies, de Darwin, 1859)
                              ca                                        e
que teria servido de justifica¸˜o ao primeiro, notemos que o primeiro ´ bem anterior ao
                                          e
segundo. Vico elabora sua teoria das trˆs idades (que anuncia Condorcet, Comte, Morgan,
              e
Frazer) no s´culo XVIII, e Spencer. fundador da forma mais radical de evolucionismo
       o                    o                                                e
sociol´gico, publica suas pr´prias teorias antes de ter lido A Origem das Esp´cies.
50                               CAP´
                                    ITULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:

           a                                                        u
ciedades n˜o ocidentais; elas permanecem ainda, notamo-lo, os dois n´cleos
                                  o               a
resistentes da pesquisa dos antrop´logos contemporˆneos.

            a                                            a          o
1) A Austr´lia ocupa um lugar de primeira importˆncia na pr´pria cons-
     c˜                                              e a
titui¸ao da nossa disciplina (cf. Elkin, l967), pois ´ l´ que se pode apreender
o que foi a origem bsoluta das nossas pr´prias institui¸oes.4
                                           o              c˜

                                                                 e
2) No estudo dos sistemas de parentesco, os pesquisadores dessa ´poca pro-
                                                     o
curam principalmente evidenciar a anterioridade hist´rica dos sistemas de
     c˜
filia¸ao matrilinear sobre os sistemas patrilineares. Por deslize do pensa-
                                               e                      e
mento, imagina-se um matriarcado primitivo, id´ia que exerceu tal Influˆncia
que ainda hoje alguns continuam inspirando-se nela (cf. em especial Evelyn
Reed, Feminismo e Antropologia, (trad. franc. 1979), um dos textos de re-
   e
ferˆncia do movimento feminista nos Estados Unidos).

      a                                  a        a                  ca
3) A ´rea dos mitos, da magia e da religi˜o deter´ mais nossa aten¸˜o, pois
perece-nos reveladora ao mesmo tempo da abordagem e do esp´    ırito do evolu-
                                                                  o
cionismo. Notemos em primeiro lugar que a maioria dos antrop´logos desse
   ıodo, absolutamente confiantes na racionalidade cient´
per´                                                                        a
                                                         ıfica triunfante, s˜o
 a              o                e
n˜o apenas agn´sticos mas tamb´m deliberadamente anti-religiosos. Mor-
                    a                                          o
gan, por exemplo, n˜o hesita em escrever que ”todas as religi˜es primitivas
 a
s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ıveis”, e Tylor deve parte de sua
     c˜            ca
voca¸ao a uma rea¸˜o visceral contra o espiritualismo de seu meio. Mas ´      e
certamente o Ramo de Ouro, de Frazer (trad. fr. 1981-1984),5 que realiza
a melhor s´                                  e
           ıntese de todas as pesquisas do s´culo XIX sobre as ”cren¸as”ec
         c˜
”supersti¸oes”.
     4
                e                          a
     Desde a ´poca de Morgan, a Austr´lia continuou sendo objeto de muitos escritos,
 a          co                                                            ca
v´rias gera¸˜es de pesquisadores expressando literalmente sua estupefa¸˜o diante da dis-
   ca
tor¸˜o entre a simplicidade da cultura material desses povos, os mais ”primitivos”e mais
”atrasados”do mundo, vivendo na idade da pedra sem metalurgia, sem cerˆmica, sema
                       ca
tecelagem, sem cria¸˜o de animais... e a extrema complexidade de seus sistemas de paren-
                            co                            e
tesco baseados sobre rela¸˜es minuciosas entre aquilo que ´ localizado na natureza (animal,
vegetal) e aquilo que atua na cultura: o ”totemismo”.
                                           ˆe
   Quando Durkheim escreve Les Formes El´mentaires de la Vie Religieuse (1912) baseia-se
                                                  a
essencialmente sobre os dados colhidos na Austr´lia por Spencer e Gillen. Quando Roheim
                                          o                                         e
(trad. franc. 1967) decide refutar a hip´tese colocada por Malinowski da inexistˆncia do
                 ˆ                                         a
complexo de Edipo entre os primitivos, escolhe a Austr´lia como terreno de pesquisa.
Poder´ ıamos assim multiplicar os exemplos a respeito desse continente que exerceu (junto
com os ´                      a
         ındios) um papel t˜o decisivo. Um papel decisivo inclusive, a meu ver, menos para
                                                          a
compreender a origem da humanidade dn nue a da reflex˜o antropol´gica.  o
   5
                                                      o
     Frazer era, inclusive, mais reservado sobre o fenˆmeno religioso do que os dois autores
              a         e            o                                   ca
anteriores, j´ que vˆ nesse um fenˆmeno recente, fruto de uma evolu¸˜o lenta e dizendo
respeito a ”esp´  ıritos superiores”
                                                                                       51


Nessa obra gigantesca, publicada em doze volumes de 1890 a 1915 e que
´ uma das obras mais c´lebres de toda a literatura antropol´gica,6 Frazer
e                         e                                   o
     c
retra¸a o processo universal que conduz, por etapas sucessivas, da magia
`       a                      a a e
a religi˜o, e depois, da religi˜o ` ciˆncia. ”A magia”, escreve Frazer, ”re-
                                                     o        ırito humano,
presenta uma fase anterior, mais grosseira, da hist´ria do esp´
                      c                                    a
pela qual todas as ra¸as da humanidade passaram, ou est˜o passando, para
                        a        e                  c
dirigir-se para a religi˜o e a ciˆncia”. Essas cren¸as dos povos primitivos
                                                e
permitem compreender a origem das ”sobrevivˆncias”(termo forjado por Ty-
lor) que continuam existindo nas sociedades civilizadas. Como Hegel, Frazer
                                                    o
considera que a magia consiste num controle ilus´rio da natureza, que se
                    a      `    a
constitui num obst´culo a raz˜o. Mas, enquanto para Hegel, a primeira ´     e
                                                  a
um impasse total, Frazer a considera como religi˜o em potencial, a qual dar´a
                   a e                  a       a e       c
lugar por sua vez ` ciˆncia que realizar´ (e est´ at´ come¸ando a realizar) o
que tinha sido imaginado no tempo da magia.



                                          ***

                                                              e
O pensamento evolucionista aparece, da forma como podemos vˆ-lo hoje,
como sendo ao mesmo tempo dos mais simples e dos mais suspeitos, e as
     c˜                                                         e
obje¸oes de que foi objeto podem organizar-se em torno de duas s´ries de
  ıticas:
cr´

                      a
1) mede-se a importˆncia do ”atraso”das outras sociedades destinadas, ou
                              c         a                       c˜
melhor, compelidas a alcan¸ar o pelot˜o da frente, em rela¸ao aos unicos´
    e                     e                       e             o
crit´rios do Ocidente do s´culo XIX, o progresso t´cnico e econˆmico da nossa
                                                                  ca
sociedade sendo considerado como a prova brilhante da evolu¸˜o hist´rica  o
da qual procura-se simultaneamente acelerar o processo e reconstituir os
   a
est´gios. Ou seja, o ”arca´                                 a
                              ısmo”ou a ”primitividade”s˜o menos fases da
     o                          e
Hist´ria do que a vertente sim´trica e inversa da modernidade do Ocidente;
                                        `         c˜           c˜
o qual define o acesso entusiasmante a civiliza¸ao em fun¸ao dos valores
    e             c˜        o           a
da ´poca: produ¸ao econˆmica, religi˜o monote´      ısta, propriedade privada,
   6
     Le Rameau d’Or ´ uma obra de referˆncia como existem poucas em um s´culo. E
                       e                  e                                      e       ´
                       a    a                e
quanto a isso compar´vel ` Origem das Esp´cies, de Darwin. Exerceu uma influˆncia     e
         a
consider´vel tanto sobre a filosofia de Bergson e escola francesa de sociologia sobre o pen-
                  o
samento antropol´gico de Freud que, em Totem e Tabu. retira grande parte de seus mate-
            a                                          e                            ca
riais etnogr´ficos dessa obra que todo home 11 culto da ´poca vitoriana tinha obriga¸˜o de
                                    c                           o     a             a
conhecer. Quanto a seu autor, alcan¸ou durante sua vida uma gl´ria n˜o apenas britˆnica,
                                        o
mas internacional, que muito poucos etn´logos – fora Malinowski, Margaret Mead o L´vi- e
Strauss – conheceram.
52                           CAP´
                                ITULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:

   ılia   a
fam´ monogˆmica, moral vitoriana

                                                   c˜
2) o pesquisador, efetuando de um lado a defini¸ao de seu objeto de pes-
            e
quisa atrav´s do campo emp´                               a
                             ırico das sociedades ainda n˜o ocidentalizadas,
                              a                        c˜ `
e, de outro, identificando-se `s vantagens da civiliza¸ao a qual pertence, o
                                            c˜    o                 a
evolucionismo aparece logo como a justifica¸ao te´rica de uma pr´tica: o co-
                                  a                               e
lonialismo. Livingstone, mission´rio que, enquanto branco, isto ´, civilizado,
  a                  ıcios da t´cnica e os da religi˜o, pode exclamar: ”Vie-
n˜o dissocia os benef´          e                   a
                                              c
mos entre eles enquanto membros de uma ra¸a superior e servidores de um
                                                             ılia
governo que deseja elevar as partes mais degradadas da fam´ humana”. ,

                                          co
A antropologia evolucionista, cujas ambi¸˜es nos parecem hoje desmedidas,
  a                 c                   c
n˜o hesita em esbo¸ar em grandes tra¸os afrescos imponentes, atrav´s dose
                       a                                          c˜
quais afirma com arrogˆncia julgamentos de valores sem contesta¸ao poss´    ıvel.
          c˜                                    e
A convic¸ao da marcha triunfante do progresso ´ tal que, juntando e interpre-
                                              a
tando fatos provenientes do mundo inteiro (` luz justamente dessa hip´teseo
                          a     ıvel extrair as leis universais do desenvolvi-
central), julga-se que ser´ poss´
                                                                     c˜
mento da humanidade. Assim, encontramo-nos frente a reconstitui¸oes con-
                  e                                        e
junturais que tˆm, pelo volume dos fatos relatados, a aparˆncia de um corpus
cient´                                               `             e
      ıfico, mas assemelham-se muito, na realidade, a filosofia do s´culo ante-
                a         e               ca
rior; a qual n˜o tinha por´m a preocupa¸˜o de fundamentar sua reflex˜o na a
             c˜                a
documenta¸ao enorme que ser´ pela primeira vez reunida pelos homens do
 e
s´culo XIX.

               c˜
Essa preocupa¸ao de um saber cumulativo visa na realidade a demonstrar a
                                                          o
veracidade de uma tese mais do que a verificar uma hip´tese, os exemplos
       a                u
etnogr´ficos sendo freq¨entemente mobilizados apenas para ilustrar o pro-
cesso grandioso que conduz as sociedades primitivas a se tornarem socieda-
des civilizadas. Assim, esmagados sob o peso dos materiais, os evolucionistas
                   o
consideram os fenˆmenos recolhidos (o totemismo, a exogamia, a magia, o
                              c˜
culto aos antepassados, a filia¸ao matrilinear. . .) como costumes que ser-
                                a
vem para exemplificar cada est´gio. E quando faltam documentos, alguns
                         c˜              c˜
(Frazer) fazem por intui¸ao a reconstitui¸ao dos elos ausentes; procedimento
absolutamente oposto, como veremos mais adiante, ao da etnografia contem-
    a                       e             ca               u
porˆnea, que procura, atrav´s da introdu¸˜o de fatos min´sculos recolhidos
          ´                                 c˜         ca         c˜
em uma unica sociedade, analisar a significa¸ao e a fun¸˜o de rela¸oes sociais.

                    e a           e      o
Isso colocado, como ´ f´cil – e at´ irris´rio – desacreditar hoje todo o trabalho
                                                                                          53

que foi realizado pelos pesquisadores – eruditos da ´poca evolucionista.7 N˜o
                                                    e                        a
custa muito denunciar o etnocentrismo que eles demonstraram em rela¸˜o     ca
                                                  e
aos ”povos atrasados”, evidenciando assim tamb´m, um singular esp´     ırito a-
    o                                 ca                     e
hist´rico – e etnocentrista – em rela¸˜o a eles, sendo que ´ provavelmente
que, sem essa teoria, empenhada em mostrar as etapas do movimento da
                                          o
humanidade (teoria que deve ser ela pr´pria considerada como uma etapa
                      o
do pensamento sociol´gico), a antropologia no sentido no qual a praticamos
hoje nunca teria nascido.

              e             o                              o
Claro, nessa ´poca o antrop´logo raramente recolhe ele pr´prio os materi-
ais que estuda e, quando realiza um trabalho de coleta direta,8 ´ antes no
                                                                e
                  c˜                        co
decorrer de expedi¸ao visando trazer informa¸˜es, do que de estadias tendo
por objetivo o de impregnar-se das categorias mentais dos outros. O que
                e      a e                              a
importa nessa ´poca n˜o ´ de forma alguma a problem´tica de etnografia
            a
enquanto pr´tica intensiva de conhecimento de uma determinada cultura, ´  e
                         a                      ıvel
a tentativa de compreens˜o, a mais extensa poss´ no tempo e no espa¸o,  c
de todas as culturas, em especial das ”mais long´ınquas”e das ”mais desco-
nhecidas”, como diz Tylor.

  a
N˜o poder´  ıamos finalmente criticar esses pesquisadores da segunda metade
     e                a
do s´culo XIX por n˜o terem sido especialistas no sentido atual da palavra
                                              ´         a
(especialistas de uma pequena parte de uma area geogr´fica ou de uma mi-
                              a
crodisciplina de um eixo tem´tico). Eles se recusavam a atuar dessa forma,
                                                         a
julgando que observadores conscienciosos, guiados a distˆncia por cientistas
preocupados em criticar fontes, eram capazes de recolher todos os materi-
          a
ais necess´rios, e sobretudo considerando implicitamente que a antropologia
tinha tarefas mais urgentes a realizar do que um estudo particular em tal
                                 a                         c˜         o
ou tal sociedade. De fato, eles n˜o tinham nenhuma forma¸ao antropol´gica

   7
                              e a                      e
     Da mesma forma que ´ f´cil reduzir toda essa ´poca ao evolucionismo (a respeito do
           e                                                a
qual conv´m notar que foi muito mais afirmado na Gr˜-Bretanha e nos Estados Unidos
do que nos outros pa´   ıses). Bastian por exemplo insiste sobre a especificidade de cada
cultura irredut´                           o
                 ıvel ao seu lugar na hist´ria do desenvolvimento da humanidade. Ratzel
                                 a
abre o caminho para o que ser´ chamado de difusionismo. Tylor desconfia dos modelos de
           ca
interpreta¸˜o simples e un´                                                   ca       ca
                             ıvocos do social e anuncia claramente a substitui¸˜o da no¸˜o de
   ca a                                            ca e       e
fun¸˜o ` causa. No entanto, a teoria da evolu¸˜o ´ nessa ´poca amplamente dominante,
               e             e                   c
pelo menos at´ o final do s´culo no qual come¸a a mostrar (com Frazer) os primeiros sinais
de esgotamento.
   8
                                a     a                              ıa e
     s pesquisas de primeira m˜o est˜o longe de serem ausentes ne-´ ´poca na qual todos os
        o       a a                                                              a
antrop´logos n˜o s˜o apenas pesquisadores indo de seu gabinete de trabalho ` biblioteca.
                                         co
Em 1851, Morgan publica as observa¸˜es colhidas no decorrer de uma viagem realizada
           o
por ele pr´prio entre os Iroqueses. Alguns anos mais tarde, Bastian realiza uma pesquisa
                           e
no Congo, e Tylor no M´xico.
54                           CAP´
                                ITULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:

                                        a                    e e
(Maine, MacLen-nan, Bachofen, Morgan s˜o juristas; Bastian ´ m´dico; Rat-
       o                      ıamos critic´-los por isso, j´ que eles foram
zel, ge´grafo), mas como poder´           a                a
                                                   a
precisamente os fundadores de uma disciplina que n˜o existia antes deles?

Em suma, o que me parece eminentemente caracter´         ıstico desse per´ıodo ´e
a intensidade do trabalho que realizou, bem como sua imensa curiosidade.
             e                     `      c˜
Durante o s´culo XIX, assistimos a cria¸ao das sociedades cient´     ıficas de et-
                                         a
nologia, das primeiras cadeiras universit´rias, e, sobretudo, dos museus como
                         a                                              a
o que foi fundado no pal´cio do Trocadero em 1879 e que se tornar´ o atual
                     ´ at´ dif´ imaginar hoje em dia a abrangˆncia dos co-
Museu do Homem. E e ıcil                                           e
nhecimentos dos principais representantes do evolucionismo. Tylor possu´       ıa
                                         e     o
um conhecimento perfeito tanto da pr´-hist´ria, da ling¨´    uıstica, quanto do
que chamar´ ıamos hoje de ”antropologia social e cultural”do seu tempo. Ele
                          c                  a
dedicava os mesmos esfor¸os ao estudo das ´reas da tecnologia, do parentesco
            a
ou da religi˜o. Frazer, em contato epistolar permanente com centenas de ob-
servadores morando nos quatro cantos do mundo, trabalhou doze horas por
dia durante sessenta anos, dentro de uma biblioteca de 50 mil volumes. A
                o
obra que ele pr´prio produziu estende-se, como diz Leach (1980), em quase
dois metros de estantes.

      e                                              e
Atrav´s dessa atividade extrema, esses homens do s´culo passado colocavam
o problema maior da antropologia: explicar a universalidade e a diversidade
      e                    c˜                                   c
das t´cnicas, das institui¸oes, dos comportamentos e das cren¸as, compa-
         a                       c˜
rar as pr´ticas sociais de popula¸oes infinitamente distantes uma das outras
              c                          e     e            ıdo
tanto no espa¸o como no tempo. Seu m´rito ´ de ter extra´ (mesmo se o
                                                  c˜
fizerem com dogmatismo, mesmo se suas convic¸oes foram mais passionais
                            o                        a
do que racionais) essa hip´tese mestra sem a qual n˜o haveria antropologia,
                                                      e
mas apenas etnologias regionais: a unidade da esp´cie humana, ou, como
                          ılia
escreve Morgan, da ”fam´ humana”. Pode-se sorrir hoje diante dessa vis˜o   a
                                    c˜
grandiosa do mando,baseada na no¸ao de uma humanidade integrada, dentro
da qual concorrem em graus diferentes, mas para chegar a um mesmo n´     ıvel
                         co                  a
final, as diversas popula¸˜es do globo. Mas s˜o eles que mostraram pela pri-
                                                                    a
meira vez que as disparidades culturais entre os grupos humanos n˜o eram
                            ue                 co       e
de forma alguma a conseq¨ˆncia de predisposi¸˜es congˆnitas, mas apenas o
                  co e                 o
resultado de situa¸˜es t´cnicas e econˆmicas. Assim, uma das caracter´ısticas
                                  a
principais do evolucionismo – ser´ que isso foi suficientemente destacado? –
e
´ o seu anti-racismo.

   e                                                          a
At´ Morgan (eu teria vontade de dizer sobretudo Morgan) n˜o tem a ri-
                        e
gidez doutrinai que lhe ´ retroativamente atribu´ıda. Com ele, o objeto da
                             a                           c˜       a
antropologia passa a ser a an´lise dos processos de evolu¸ao que s˜o os das
                                                                                 55

    c˜                co               ıdicas, pol´
liga¸oes entre as rela¸˜es sociais, jur´                             c˜
                                                  ıticas. . . a liga¸ao entre
esses diferentes aspectos do campo social sendo em si caracter´  ıstica de um
determinado per´             o
                 ıodo da hist´ria humana. A novidade radical da sociedade
        e
arcaica ´ dupla.

                                                 o               e
1) Essa obra toma como objeto de estudo fenˆmenos que at´ ent˜o n˜o   a    a
                a     o                          o
diziam respeito ` Hist´ria, a qual, para Hegel, s´ podia ser escrita. Qualifi-
cando essas sociedades de ”arcaicas”, Morgan as reintegra pela primeira vez
na humanidade inteira; e ao acento sendo colocado sobre o desenvolvimento
                                  o        c
material, o conhecimento da hist´ria come¸a a ser posto sobre bases total-
                                       o
mente diferentes das do idealismo filos´fico.

                     a                  a a
2) Os elementos da an´lise comparativa n˜o s˜o mais, a partir de Morgan, cos-
                                                  ca
tumes considerados bizarros, e sim redes de intera¸˜o formando ”sistemas”,
termo que o antrop´logo americano utiliza para as rela¸oes de parentesco.9
                   o                                    c˜

  a a
N˜o h´, como mostrou Kuhn (1983), conhecimento cient´               ıvel sem
                                                           ıfico poss´
                                                            e
que se constitua uma teoria servindo de ”paradigma”, isto ´, de modelo or-
                                       ca
ganizador do saber, e a teoria da evolu¸˜o teve incontestavelmente, no caso,
um papel decisivo. Foi ela que deu seu impulso a antropologia. O paradoxo
(aparente, pois o conhecimento cient´         a
                                     ıfico se d´ sempre mais por descontinui-
         o                          ca    e                     o
dades te´ricas do que por acumula¸˜o), ´ que a antropologia s´ se tornar´   a
     ıfica( no sentido que entendemos) introduzindo uma ruptura em rela¸˜o
cient´                                                                    ca
a esse modo de pensamento que lhe havia no entanto aberto o caminho. E o  ´
que examinaremos agora.




  9
                      o                          a       e     a
    Por essas duas raz˜es, compreende-se qual ser´ a influˆncia ` Morgan sobre o mar-
xismo, e particularmente, sobre Engels (1954)
56   CAP´
        ITULO 3. O TEMPO DOS PIONEIROS:
   ıtulo 4
Cap´

Os Pais Fundadores Da
Etnografia:

Boas e Malinowski
                           e                                      a
Se existiam no final do s´culo XIX homens (geralmente mission´rios e ad-
ministradores) que possu´                                             c˜
                          ıam um excelente conhecimento das popula¸oes no
                          e
meio das quais viviam – ´ o caso de Codrington, que publica em 1891 uma
                     e
obra sobre os melan´sios, de Spencer e Gillen, que relatam em 1899 suas
        co
observa¸˜es sobre os abor´   ıgines australianos, ou de Junod, que escreve A
Vida de uma Tribo Sul-africana (1898) – a etnografia propriamente dita s´   o
     c
come¸a a existir a partir do momento no qual se percebe que o pesquisador
                                            o
deve ele mesmo efetuar no campo sua pr´pria pesquisa, e que esse trabalho
           c˜        e
de observa¸ao direta ´ parte integrante da pesquisa.

         ca               a
A revolu¸˜o que ocorrer´ da nossa disciplina durante o primeiro ter¸o do  c
 e          e         a
s´culo XX ´ consider´vel: ela p˜e fim a reparti¸ao das tarefas, at´ ent˜o
                                  o      `         c˜                   e    a
                                                                 a
habitualmente divididas entre o observador (viajante, mission´rio, adminis-
                                                                 c˜
trador) entregue ao papel subalterno de provedor de informa¸oes, e o pes-
                                                      o
quisador erudito, que, tendo permanecido na metr´pole, recebe, analisa e
                                               c˜
interpreta – atividade nobre! – essas informa¸oes. O pesquisador compre-
ende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho
                                                                        a
para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados n˜o mais
                                                           o
como informadores a serem questionados, e sim como h´spedes que o rece-
                                                  a
bem e mestres que o ensinam. Ele aprende ent˜o, como aluno atento, n˜o       a
                                                               ıngua e a pensar
apenas a viver entre eles, mas a viver como eles, a falar sua l´
       ıngua, a sentir suas pr´prias emo¸˜es dentro dele mesmo. Trata-se,
nessa l´                       o          co
                             co
como podemos ver, de condi¸˜es de estudo radicalmente diferentes das que

                                      57
58        CAP´
             ITULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA:

                         e               e          a
conheciam o viajante do s´culo XVIII e at´ o mission´rio ou o administrador
     e
do s´culo XIX, residindo geralmente fora da sociedade ind´ ıgena e obtendo
       c˜              e                                       ´
informa¸oes por interm´dio de tradutores e informadores: este ultimo termo
merece ser repetido. Em suma, a antropologia se torna pela primeira vez
uma atividade ao ar livre, levada, como diz Malinowski, ”ao vivo”, em uma
”natureza imensa, virgem e aberta”.

Esse trabalho de campo, como o chamamos ainda hoje, longe de ser visto
                                        a
como um modo de conhecimento secund´rio servindo para ilustrar uma tese,
e                        o
´ .onsiderado como a pr´pria fonte de pesquisa. Orientou a partir desse
                                     c˜        o
momento a abordagem da nova gera¸ao de etn´logos que, desde os primei-
              e                                                     c˜
ros anos do s´culo XX, realizou estadias prolongadas entre as popula¸oes do
mundo inteiro. Em 1906 e 1908, Radcliffe-Brown estuda os habitantes das
                                                              a
ilhas Andaman. Em 1909 e 1910, Seligman dirige uma miss˜o no Sud˜o.     a
                                                     a
Alguns anos mais tarde, Malinowski volta para a Gr˜-Bretanha, impregnado
                                                                     ca
do pensamento e dos sistemas de valores que lhe revelou a popula¸˜o de
         u           e           e                ı,       o
um min´sculo arquip´lago melan´sio. A partir da´ as miss˜es de pesquisas
       a                c˜
etnogr´ficas e a publica¸ao das obras que delas resultam se seguem em um
ritmo ininterrupto. Em 1901, Rivers, um dos fundadores da antropologia
                            ındia; ap´s a .Primeira Guerra Mundial, Evans-
inglesa, estuda os Todas da ´        o
                           e
Pritchard estuda os Azand´s (trad. franc. 1972) e os Nuer (trad. franc.
                               e
1968); Nadei, as Nupes da Nig´ria; Fortes, os Tallensi; Margaret Mead, os
                       e
insulares da Nova Guin´, etc

         a e
Como n˜o ´ poss´  ıvel examinar, dentro dos limites deste Inibalho, a con-
      c˜                                              c˜
tribui¸ao desses diferentes pesquisadores na elabora¸ao da etnografia e da
                     a
etnologia contemporˆnea, dois entre eles, a meu ver os mais importantes, de-
   a             c˜                                  a
ter˜o nossa Hlen¸ao: um americano de origem alem˜: Franz Boas; o outro,
      e                   e
polonˆs naturalizado inglˆs: Bronislaw Malinowski.




4.1     BOAS (1858-1942)
                                                    a             o
Com ele assistimos a uma verdadeira virada da pr´tica antropol´gica. Boas
era antes de tudo um homem de campo. Suas pesquisas, totalmente pioneiras,
                                   ´                 e
iniciadas, notamo-lo, a partir dos ultimos anos do s´culo XIX (em particular
                                        u         a
entre os Kwakiutl e os Chinook de Col´mbia Britˆnica), eram conduzidas de
um ponto de vista que hoje qualificar´                       o
                                       ıamos de microssociol´gico. No campo,
ensina Boas, tudo deve ser anotado: desde os materiais constitutivos das
4.1. BOAS (1858-1942)                                                                59

        e                                              o
casas at´ as notas das melodias cantadas pelos Esquim´s, e isso detalhada-
                                                                   c˜
mente, e no detalhe do detalhe. Tudo deve ser objeto da descri¸ao mais
                         ca                                           o
meticulosa, da retranscri¸˜o mais fiel (por exemplo, as diferentes vers˜es de
                                                      ca
um mito, ou diversos ingredientes entrando na composi¸˜o de um alimento).

Por outro lado, enquanto raramente antes dele as sociedades tinham sido
realmente consideradas em si e para si mesmas, cada uma dentre elas ad-
                                        o
quire o estatuto de uma totalidade autˆnoma. O primeiro a formular com
seus colaboradores (cf. em particular Lowie, 1971) a cr´ıtica mais radical e
mais elaborada das no¸oes de origem e de reconstitui¸ao dos est´gios,1 ele
                        c˜                            c˜           a
                           o              c˜
mostra que um costume s´ tem significa¸ao se for relacionado ao contexto
particular no qual se inscreve. Claro, Morgan e, muito antes dele, Montes-
                                                           e
quieu tinham aberto o caminho a essa pesquisa cujo objeto ´ a totalidade das
    c˜                                                            c e
rela¸oes sociais e dos elementos que a constituem. Mas a diferen¸a ´ que,ia
partir de Boas, estima-se que para compreender o lugar particular ocupado
                    a
por esse costume n˜o se pode mais confiar nos investigadores e, muito menos
                   o                                    o
nos que, da ”metr´pole”, confiam neles. Apenas o antrop´logo pode elaborar
                       e
uma monografia, isto ´, dar conta cientificamente de uma microssociedade,
                                                                  o
apreendida em sua totalidade e considerada em sua autonomia te´rica. Pela
                   o                      a
primeira vez, o te´rico e o observador est˜o finalmente reunidos. Assistimos
                                                              a
ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que n˜o se contenta
                            a                    a
mais em coletar materiais ` maneira dos antiqu´rios, mas procura detectar
                                                    e
o que faz a unidade da cultura que se expressa atrav´s desses diferentes ma-
teriais.

Por outro lado, Boas considera, e isso muito antes de Griaule, do qual fala-
                           a a                                          e
remos mais adiante, que n˜o h´ objeto nobre nem objeto indigno da ciˆncia.
                              a a
As piadas de um contador s˜o t˜o importantes quanto a mitologia que ex-
               o
pressa o patrimˆnio metaf´ısico do grupo. Em especial, a maneira pela qual as
sociedades tradicionais, na voz dos mais humildes entre eles, classificam suas
                                                           ca
atividades mentais e sociais, deve ser levada em considera¸˜o. Boas anuncia
                 ca                                     e
assim a constitui¸˜o do que hoje chamamos de ”etnociˆncias”.

                                                    a                 a
Finalmente, ele foi um dos primeiros a nos mostrar n˜o apenas a importˆncia,
          e                             o
mas tamb´m a necessidade, para o etn´logo, do acesso a l´` ıngua da cultura
                           c˜                a
na qual trabalha. As tradi¸oes que estuda n˜o poderiam ser-lhe traduzidas.
   1
                                                 a            ue
    Da qual Radcliffe-Brown e Malinowski tirar˜o as conseq¨ˆncias tec ricas: n˜o ´  a e
mais poss´ıvel opor sociedades ”simples”e sociedades ”complexas”, sociedades ”inferio-
                                                                               ca
res”evoluindo para o ”superior”, sociedades ”primitivas”a caminho da ”civiliza¸˜o”. As
            a a                          o
primeiras n˜o s˜o as formas An nraanizac˜es originais das quais as segundas teriam deri-
vado.
60          CAP´
               ITULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA:

      o                e         ıngua de seus interlocutores.2
Ele pr´prio deve recolhˆ-las na l´

Pode parecer surpreendente, levando em conta o que foi dito, que Boas, ex-
ceto entre os profissionais da antropologia, seja praticamente desconhecido.
                                      o
Isso se deve principalmente a duas raz˜es:

                              c˜
1) multiplicando as comunica¸oes e os artigos, ele nunca escreveu nenhum
                     u                                          a
livro destinado ao p´blico erudito, e os textos que nos deixou s˜o de uma
      a                   e                                            c˜
concis˜o e de um rigor asc´tico. Nada que anuncie, por exemplo, a emo¸ao
que se pode sentir (como veremos logo) na leitura de um Malinowski; ou que
lembre o charme ultrapassado da prosa enfeitada de um Frazer;

                                              a
2) nunca formulou uma verdadeira teoria, t˜o estranho era-lhe o esp´     ırito
                          ca                               a
de sistema; e a generaliza¸˜o apressada parecia-lhe o que h´ de mais distante
do esp´ırito cient´     ` ambi¸oes dos primeiros tempos – quero falar dos
                  ıfico. As      c˜
                          e                                o
afrescos gigantescos do s´culo XIX, que retratam os prim´rdios da humani-
                                               o
dade mas expressam simultaneamente os prim´rdios da antropologia, isto ´     e
                                                              e
uma antropologia principalmente – sucedem, com ele, a mod´stia e a sobri-
edade da maturidade.

                           e                        a
De qualquer modo, a influˆncia de Boas foi consider´vel. Foi um dos pri-
            o                       c˜           a           c˜
meiros etn´grafos. A sua preocupa¸ao de precis˜o na descri¸ao dos fatos
                                         c˜      o               o
observados, acrescentava-se a de conserva¸ao met´dica do patrimˆnio reco-
lhido (foi conservador do museu de Nova Iorque). Finalmente, foi, enquanto
                                                       c˜            o
professor, o grande pedagogo que formou a primeira gera¸ao de antrop´logos
americanos (Kroeber, Lowie, Sapir, Herskovitz, Linton. . . e, em seguida,
R. Benedict, M. Mead). Ele permanece sendo o mestre incontestado da an-
                                             e
tropologia americana na primeira metade do s´culo XX.




4.2       MALINOWSKI (1884-1942)
                                                        o
Malinowski dominou incontestavelmente a cena antropol´gica, de 1922, ano
          ca
de publica¸˜o de sua primeira obra, Os Argonautas do Pac´    ıfico Ocidental,
  e
at´ sua morte, em 1942.
        a                                                          e
1) Se n˜o foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiˆncia et-
     a         e                                          c˜
nogr´fica, isto ´, em primeiro lugar, a viver com as popula¸oes que estudava
     2
                ca                  ıngua e do etn´logo, cf. particular-mente. ap´s Boas.
    Sobre a rela¸˜o da cultura, da l´             o                              o
Sapir (1967) e Leenhardt (1946).
4.2. MALINOWSKI (1884-1942)                                                   61

                                                                       a
e a recolher seus materiais de seus idiomas, radicalizou essa compreens˜o por
                                             a
dentro, e para isso, procurou romper ao m´ximo os contatos com o mundo
europeu.

       e                              c
Ningu´m antes dele tinha se esfor¸ado em penetrar tanto, como ele fez
no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand, na mentali-
dade dos outros, e em compreender de dentro, por uma verdadeira busca
                   c˜
de despersonaliza-¸ao, o que sentem os homens e as mulheres que perten-
                          a e
cem a uma cultura que n˜o ´ nossa. Boas procurava estabelecer repert´rioso
exaustivos, e muitos entre seus seguidores nos Estados Unidos (Kroeber, Mur-
                                        c˜                 u
dock. . .) procuraram definir correla¸oes entre o maior n´mero poss´ de ıvel
    a                                                      ca        e
vari´veis. Malinowski considera esse trabalho uma aberra¸˜o. Conv´m pelo
      a                                                    a
contr´rio, segundo ele, conforme o primeiro exemplo que d´ em seu primeiro
                                   ´                               ´
livro, mostrar que a partir de um unico costume, ou mesmo de um unico ob-
jeto (por exemplo, a canoa trobriandesa – voltaremos a isso) aparentemente
muito simples, aparece o perfil do conjunto de uma sociedade.

                                         o                             ca
2) Instaurando uma ruptura com a hist´ria conjetural (a reconstitui¸˜o es-
                   a              e
peculativa dos est´gios), e tamb´m com a geografia especulativa (a teoria di-
                             ıcio   e
fusionista, que tende, no in´ do s´culo, a ocupar o lugar do evolucionismo,
                  e                        a
e postula a existˆncia de centros de difus˜o da cultura, a qual se transmite
          e
por empr´stimos), Malinowski considera que uma sociedade deve ser estu-
dada enquanto uma totalidade, tal como funciona no momento mesmo onde
a observamos. Medimos o caminho percorrido desde Frazer, que foi no en-
                                                 a
tanto o mestre de Malinowski. Quando pergunt´vamos ao primeiro por que
       o     a
ele pr´prio n˜o ia observar as sociedades a partir das quais tinha constru´ıdo
sua obra, respondia: ”Deus me livre!”. Os Argonautas do Pac´     ıfico Ociden-
                                                       o
tal, embora tenha sido editado alguns anos apenas ap´s o fim da publica¸ao c˜
                                    a                     o
de O Ramo de Ouro, com um pref´cio, notamo-lo, do pr´prio Frazer, adota
uma abordagem rigorosamente inversa: analisar de uma forma intensiva e
cont´                                                  o
     ınua uma microssociedade sem referir-se a sua hist´ria. Enquanto Frazer
                      a
procurava responder ` pergunta: ”Como nossa sociedade chegou a se tornar
        e                                     e
o que ´?”; e respondia escrevendo essa ”obra ´pica da humanidade”que ´ O  e
                                                e
Ramo de Ouro, Malinowski se pergunta o que ´ uma sociedade dada em si
                           a
mesma e o que a torna vi´vel para os que a ela pertencem, observando-a no
               e           ca
presente atrav´s da intera¸˜o dos aspectos que a constituem.

                                                        e
(Com Malinowski, a antropologia se torna uma ”ciˆncia”da alteridade que
                                                                 c˜
vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstitui¸ao das origens
           c˜                              o                           ısticas de
da civiliza¸ao, e se dedica ao estudo das l´gicas particulares caracter´
                                                              e
cada cultura. O que o leitor aprende ao ler Os Argonautas ´ que os costumes
62          CAP´
               ITULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA:

                     a                                        e
dos Trobriandeses, t˜o profundamente diferentes dos nossos, tˆm uma signi-
    c˜             e         a a
fica¸ao e uma coerˆncia. N˜o s˜o puerilidades que testemunham de alguns
vest´                                     o
     ıgios da humanidade, e sim sistemas l´gicos perfeitamente elaborados.
                   o          a
Hoje, todos os etn´logos est˜o convencidos de que as sociedades diferentes
            a
da nossa s˜o sociedades humanas tanto quanto a nossa, que os homens e
                             a
mulheres que nelas vivem s˜o adultos que se comportam diferentemente de
 o       a                 o
n´s, e n˜o primitivos”, autˆmatos atrasados (em todos os sentidos do termo)
                        e                                   co      u
que pararam em uma ´poca distante e vivem presos a tradi¸˜es est´pidas.
                                                 a
Mas nos anos 20 isso era propriamente revolucion´rio.

                               e
3) A fim de pensar essa coerˆncia interna, Malinowski elabora uma teoria
                                             e
(o funcionalismo) que tira seu modelo das ciˆncias da natureza: o indiv´ıduo
                  u
sente um certo n´mero de necessidades, e cada cultura tem precisamente
          c˜                   `
como fun¸ao a de satisfazer a sua maneira essas necessidades fundamen-
                                                c˜         o
tais. Cada uma realiza isso elaborando institui¸oes (econˆmicas, pol´ ıticas,
   ıdicas, educativas. . .), fornecendo respostas coletivas organizadas, que
jur´
                                        co
constituem, cada uma a seu modo,solu¸˜es originais que permitem atender
a essas necessidades.

4) Uma outra caracter´    ıstica do pensamento do autor de Os Argonautas ´,    e
                               ca
ao nosso ver, sua preocupa¸˜o em abrir as fronteiras disciplinares, devendo o
                               e                 c˜                      o
homem ser estudado atrav´s da tripla articula¸ao do social, do psicol´gico e
       o             e
do biol´gico. Conv´m em primeiro lugar, para Malinowski, localizar a rela¸ao c˜
                              o                                      a
estreita do social e do biol´gico; o que decorre do ponto anterior, j´ que, para
                                                                c˜
ele, uma sociedade funcionando como um organismo, as rela¸oes biol´gicas  o
                             a                                   o
devem ser consideradas n˜o apenas como o modelo epistemol´gico que per-
                     c˜                               o
mite pensar as rela¸oes sociais, e sim como o seu pr´prio fundamento. Al´m   e
                            e
disso, uma verdadeira ciˆncia da sociedade implica, ou melhor, inclui o es-
                 c˜           o
tudo das motiva¸oes psicol´gicas, dos comportamentos, o estudo dos sonhos e
                            3
dos desejos do indiv´  ıduo. E Malinowski, quanto a esse aspecto (que o separa
                                                             e
radicalmente, como veremos, de Durkheim), vai muito al´m da an´lise da  a
                                                                   o
afetividade de seus interlocutores. Ele procura reviver nele pr´prio os sen-
                                            c˜
timentos dos outros, fazendo da observa¸ao participante uma participa¸ao     c˜
      o
psicol´gica do pesquisador, que deve ”compreender e compartilhar os senti-
                ´                                 c˜
mentos”destes ultimos ”interiorizando suas rea¸oes emotivas”.


     3´
                             c                                    o
    E essa vontade de alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es, e, notadamente,
    a
de n˜o dissociar o grupo do indiv´                                               o
                                  ıduo, que faz com que seja um dos primeiros etn´logos
a interessar-se pelas obras de Freud. Mas devemos reconhecer que ele demonstra uma
                    a           a
grande incompreens˜o da psican´lise
4.2. MALINOWSKI (1884-1942)                                                 63

                                    ***

                        o
O fato de a obra (e a pr´pria personalidade) de Malinowski ter sido provavel-
                                          o
mente a mais controvertida de toda a hist´ria da antropologia (isso inclusive
                                    o                 a          a
quando era vivo) se deve a duas raz˜es, ligadas ao car´ter sistem´tico de sua
   c˜
rea¸ao ao evolucionismo.

              o           e
1) Os antrop´logos da ´poca vitoriana identificavam-se totalmente com a
                      e                ca
sua sociedade, isto ´, com a ”civiliza¸˜o industrial”, considerada como ”a
        c˜                              ıcios. Em rela¸˜o a esta. os costumes
civiliza¸ao”tout court, e com seus benef´             ca
dos povos ”primitivos”eram vistos como aberrantes. Malinowski inverte essa
    c˜                       o                c˜
rela¸ao: a antropologia sup˜e uma identifica¸ao (ou, pelo menos, uma busca
             ca                      a
de identifica¸˜o) com a alteridade, n˜o mais considerada como forma social
          `        ca                                a
anterior a civiliza¸˜o, e sim como forma contemporˆnea mostrando-nos cm
sua pureza aquilo que nos faz tragicamente falta: a autenticidade. Assim
                 c˜ a        a
sendo, a aberra¸ao n˜o est´ mais do lado das sociedades ”primitivas”e sim
                                                                      a
do lado da sociedade ocidental (cf. pp. 50-51 deste livro os coment´rios de
                                               ca
Malinowski, que retomam o tema da idealiza¸˜o do selvagem).

2) Convencido de ser o fundador da antropologia cient´   ıfica moderna (o que,
               a e
ao meu ver, n˜o ´ totalmente falso, pois o que fez a partir dos anos 20 ´     e
                                                  ´
essencial), ele elabora – sobretudo durante a ultima parte de sua vida –
uma teoria de uma extrema rigidez, que contribuiu, em grande parte, para o
     e                       e
descr´dito do qual ele ainda ´ objeto: o ”funcionalismo”. Nesta perspectiva,
                             a                  a
as sociedades tradicionais s˜o sociedades est´veis e sem conflitos, visando
naturalmente a um equil´            e              c˜                        `
                         ıbrio atrav´s de institui¸oes capazes de satisfazer as
                                           a
necessidades dos homens. Essa compreens˜o naturalista e marcadamente oti-
mista de uma totalidade cultural integrada, que postula que toda sociedade
e a                                             c˜      a ı
´ t˜o boa quanto pode ser, pois suas institui¸oes est˜o a´ para satisfazer a
todas as necessidades, defronta-se com duas grandes dificuldades: como ex-
                c
plicar a mudan¸a social? Como dar conta do disfuncionamento e da patologia
cultural?

                   o            e                        u              e
A partir de sua pr´pria experiˆncia – limitada a um min´sculo arquip´lago
                      ıcio     e
que permanece, no in´ do s´culo, relativamente afastado dos contatos in-
                                                                       o
terculturais –, Malinowski, baseando-se no modelo do finalismo biol´gico,
                     c˜           a         a
estabelece generaliza¸oes sistem´ticas que n˜o hesita em chamar de ”leis ci-
   ıficas da sociedade”. Al´m disso, esse funcionalismo ”cient´
ent´                        e                                        a
                                                               ıfico”n˜o tem
    c˜                             c˜                           c˜
rela¸ao com a realidade da situa¸ao colonial dos anos 20, situa¸ao essa, to-
                                                             ca
talmente ocultada. A antropologia vitoriana era a justifica¸˜o do per´    ıodo
                                         a            o
da conquista colonial. O discurso monogr´fico e a-hist´rico do funcionalismo
64         CAP´
              ITULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA:

                      c˜
passa a ser a justifica¸ao de uma nova fase do colonialismo.



                                      ***
                e        ıticas que o pr´prio Malinowski contribuiu em pro-
Apesar disso, al´m das cr´              o
                                                               a
vocar, tudo o que devemos a ele permanece ainda hoje consider´vel.

                           ´
1) Compreendendo que o unico modo de conhecimento em profundidade dos
       e             c˜             e                                e
outros ´ a participa¸ao a sua existˆncia, ele inventa literalmente e ´ o pri-
          o        a              c˜
meiro a pˆr em pr´tica a observa¸ao participante, dando-nos o exemplo do
                                                           e
que deve ser o estudo intensivo de uma sociedade que nos ´ estranha. O fato
                                      c˜
de efetuar uma estadia de longa dura¸ao impregnan-do-se da mentalidade
         o                c                                o
de seus h´spedes e esfor¸ando-se para pensar em sua pr´pria l´   ıngua pode
                        a
parecer banal hoje. N˜o o era durante os anos 1914-1920 na Inglaterra, e
                      c
muito menos na Fran¸a. Malinowski nos ensinou a olhar. Deu-nos o exemplo
                                                     a
daquilo que devia ser uma pesquisa de campo, que n˜o tem mais nada a ver
com a atividade do ”investigador”questionando ”informadores”.

2) Em Os Argonautas do Pac´      ıfico Ocidental, pela primeira vez, o social
                  o                     o            ca
deixa de ser aned´tico, curiosidade ex´tica, descri¸˜o moralizante ou cole¸˜o  ca
                                    c
exaustiva erudita. Pois, para alcan¸ar o homem em todas as suas dimens˜es,    o
e                    a         c˜                                         u
´ preciso dedicar-se ` observa¸ao de fatos sociais aparentemente min´sculos
                                c˜ o
e insignificantes, cuja significa¸ao s´ pode ser encontrada nas suas posi¸oes   c˜
respectivas no interior de uma totalidade mais ampla. Assim, as canoas tro-
                                          a                    ca
briandesas (das quais falamos acima) s˜o descritas em rela¸˜o ao grupo que
                                  a                         `
as fabrica e utiliza, ao ritual m´gico que as consagra, as regulamenta¸oes    c˜
que definem sua posse, etc. Algumas transportando de ilha em ilha colares
de conchas vermelhas, outras, pulseiras de conchas brancas, efetuando em
              a                      a
sentidos contr´rios percursos invari´veis, passando necessariamente de novo
por seu local de origem, Malinowski mostra que estamos frente a um pro-
                                      ıvel `         a       o
cesso de troca generalizado, irredut´ a dimens˜o econˆmica apenas, pois
nos permite encontrar os significados pol´            a                      e
                                            ıticos, m´gicos, religiosos, est´ticos
do grupo inteiro.

Os Jardins de Coral, o segundo grande livro de Malinowski, trabalha com a
                                          e
mesma abordagem. Esse ”estudo dos m´todos agr´                             a
                                                     ıcolas e dos ritos agr´rios
nas ilhas Trobriand”, longe de ser uma pesquisa especializada sobre um
   o             o
fenˆmeno agronˆmico dado, mostra que a agricultura dos Trobriandeses
inscreve-se na totalidade social desse povo, e toca em muitos outros aspectos
      a
que n˜o a agricultura.
4.2. MALINOWSKI (1884-1942)                                                     65


                                                               e
3) Finalmente, uma das grandes qualidades de Malinowski ´ sua faculdade
           ca           e
de restitui¸˜o da existˆncia desses homens e dessas mulheres que puderam
                             e             c˜                    e
ser conhecidos apenas atrav´s de uma rela¸ao e de uma experiˆncia pessoais.
                                c˜      a a
Mesmo quando estuda institui¸oes, n˜o s˜o nunca vistas como abstra¸˜es    co
                                   o
reguladoras da vida de atores anˆnimos. Seja em Os Argonautas ou’ Os
                                         o                       e      a
Jardins de Coral, ele faz reviver para n´s esse povo trobriandˆs que n˜o po-
                                                  c˜
deremos nunca mais confundir com outras popula¸oes ”selvagens”. O homem
                                                             e
nunca desaparece em proveito do sistema. Ora, essa exigˆncia de conduzir
um projeto cient´                     a
                  ıfico sem renunciar ` sensibilidade art´ıstica chama-se etno-
                                               o a
logia. Malinowski ensinou a muitos entre n´s n˜o apenas a olhar, mas a
                      `
escrever, restituindo as cenas da vida cotidiana seu relevo e sua cor. Quanto
                                                ´
a isso, Os Argonautas me parece exemplar. E um livro escrito num estilo
magn´                                                  e
      ıfico que aproxima seu autor de um outro polonˆs que, como ele, viveu
                                        e
na Inglaterra, expressando-se em inglˆs: Joseph Conrad, e que anuncia as
                a                   o           e
mais bonitas p´ginas de Tristes Tr´picos, de L´vi Strauss.

                            a     e     u                c
A antropologia contemporˆnea ´ freq¨entemente amea¸ada pela abstra¸˜o     ca
          c˜
e sofistica¸ao dos protocolos, podendo, como mostrou Devereux (1980), ir
  e           c˜
at´ a destrui¸ao do objeto que pretendia estudar, e, conjuntamente, da es-
pecificidade da nossa disciplina. ”Um historiador”, escreve Firth, ”pode ser
                                          o
surdo, um jurista pode ser cego, um fil´sofo pode a rigor ser surdo e cego,
     e                        o
mas ´ preciso que o antrop´logo entenda o que as pessoas dizem e veja o
                                c
que fazem”. Ora, a grande for¸a de Malinowski foi ter conseguido fazer ver e
ouvir aos seus leitores aquilo que ele mesmo tinha visto, ouvido, sentido. Os
Argonautas do Pac´  ıfico Ocidental, publicado com fotografias tiradas a partir
                                                             a
de 1914 por seu autor, abre o caminho daquilo que se tornar´ a antropologia
            4
audiovisual.




  4
      Sobre a obra de Malinowski, consultar o trabalho de Michel Panoff. 1972.
66   CAP´
        ITULO 4. OS PAIS FUNDADORES DA ETNOGRAFIA:
   ıtulo 5
Cap´

               o
Os Primeiros Te´ricos Da
Antropologia:

Durkheim e Mauss
Boas e Malinowski, nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial,
                                                               a
fundaram a etnografia. Mas o primeiro, recolhendo com a precis˜o de um na-
                               a            o
turalista os fatos no campo, n˜o era um te´rico. Quanto ao segundo, a parte
  o                        e
te´rica de suas pesquisas ´ provavelmente, como acabamos de ver, o que h´  a
                  a
de mais contest´vel em sua obra. A antropologia precisava ainda elaborar
instrumentos operacionais que permitissem construir um verdadeiro objeto
cient´       ´
     ıfico. E precisamente nisso que se empenharam os pesquisadores france-
           e                       `
ses dessa ´poca, que pertenciam a chamada ”escola francesa de sociologia”.
                                                          c              c˜
Se existe uma autonomia do social, ela exige, para alcan¸ar sua elabora¸ao
     ıfica, a constitui¸˜o de um quadro te´rico, de conceitos e modelos que
cient´                 ca                   o
          o                  ca                  e
sejam pr´prios da investiga¸˜o do social, isto ´, independentes tanto da ex-
     c˜        o                               a
plica¸ao hist´rica (evolucionismo) ou geogr´fica (difusionismo), quanto da
        c˜       o                                              o
explica¸ao biol´gica (o funcionalismo de Malinowski) ou psicol´gica (a psi-
           a               a
cologia cl´ssica e a psican´lise principiante).

           e                a             a       ue
Ora, conv´m notar desde j´ – e isso ter´ conseq¨ˆncias essenciais para o
                            a                              a a
desenvolvimento contemporˆneo de nossa disciplina – que n˜o s˜o de forma
            o                       o           o
alguma etn´logos de campo, e sim fil´sofos e soci´logos – Durkheim e Mauss,
                                            a                        o
de quem falaremos agora – que forneceram ` antropologia o quadro te´rico
e os instrumentos que lhe faltavam ainda.

Durkheim, nascido em 1858, o mesmo ano que Boas, mostrou em suas pri-
                         c˜
meiras pesquisas preocupa¸oes muito distantes das da etnologia, e mais ainda

                                    67
68 CAP´                       ´
      ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA:

                                    e           o                    o
da etnografia. Em As Regras do M´todo Sociol´gico (1894), ele op˜e a ”pre-
   a         o    a          a                       a
cis˜o”da hist´ria ` ”confus˜o”da etnografia, e se d´ como objeto de estudo
                          c        c˜     a
”as sociedades cujas cren¸as, tradi¸oes, h´bitos, direito, incorporaram-se em
                           e
movimentos escritos e autˆnticos”. Mas, em As Formas Elementares da Vida
                                                                 e a
Religiosa (1912), ele revisa seu julgamento, considerando que ´ n˜o apenas
                       e         a                                  ca
importante, mas tamb´m necess´rio estender o campo de investiga¸˜o da so-
                                           o
ciologia aos materiais recolhidos pelos etn´logos nas sociedades primitivas.

                ca        e
Sua preocupa¸˜o maior ´ mostrar que existe uma especificidade do social, e
          e         u                                     e            o
que conv´m conseq¨entemente emancipar a sociologia, ciˆncia dos fenˆmenos
sociais, dos outros discursos sobre o homem, e, em especial, do da psicologia.
     a                e
Se n˜o nega que a ciˆncia possa progredir por seus confins, considera que na
    e       e                                     c
sua ´poca ´ vantajoso para cada disciplina avan¸ar separadamente e construir
       o
seu pr´prio objeto. ”A causa determinante de um fato social deve ser bus-
                                     a                       e
cada nos fatos sociais anteriores e n˜o nos estados da consciˆncia individual”.
              a                                               e
Durkheim n˜o procura de forma alguma questionar a existˆncia desta, nem
         e                           o      a        c˜         o
a pertinˆncia da psicologia. Mas op˜e-se `s explica¸oes psicol´gicas do social
                                        a
(sempre ”falsas”, segundo sua express˜o). Assim, por exemplo, a quest˜o daa
    c˜                               a
rela¸ao do homem com o sagrado n˜o poderia ser abordada psicologicamente
estudando os estados afetivos dos indiv´                           e
                                          ıduos, nem mesmo atrav´s de alguma
                                                                   e
psicologia ”coletiva”. Da mesma forma , que a linguagem, tamb´m fenˆmenoo
            a                                 c˜
coletivo, n˜o poderia encontrar sua explica¸ao na psicologia dos que a falam,
                                               c                  e
sendo absolutamente independente da crian¸a que a aprende, ´-lhe exterior,
               o        a
a precede e c´ntinuar´ existindo muito tempo depois de sua morte.

                                         ıduos (que ´ a pedra-de-toque de qual-
Essa irredutibilidade do social aos indiv´          e
                       o                                             ue
quer abordagem sociol´gica) tem para Durkheim a seguinte conseq¨ˆncia: os
               a                 o
fatos sociais s˜o ”coisas”que s´ podem ser explicados sendo relacionados a
outros fatos sociais. Assim, a sociologia conquista pela primeira vez sua auto-
                                         e o
nomia ao constituir um objeto que lhe ´ pr´ximo, por assim dizer arrancado
          o               co        o           a            o          o
ao monop´lio das explica¸˜es hist´ricas, geogr´ficas, psicol´gicas, biol´gicas.
       e
. . da ´poca.

                                                     e a
Esse pensamento durkheimiano – que, observamos, ´ t˜o funcionalista quanto
                         a                           o               e
o de Malinowski, mas n˜o deve nada ao modelo biol´gico – vai atrav´s de suas
           e               o
novas exigˆncias metodol´gicas, renovar profundamente a epistemologia das
  e                                           e
ciˆncias humanas da primeira metade do s´culo XX, ou, mais exatamente,
      e                                                                  e
das ciˆncias sociais destinadas a se separar destas. Vai exercer uma influˆncia
         a                               o
consider´vel sobre a pesquisa antropol´gica, particularmente na Inglaterra e
                         c       ıs
evidentemente na Fran¸a, o pa´ de Durkheim, onde, ainda hoje. nossa dis-
         a
ciplina n˜o se emancipou realmente da sociologia.
                                                                          69


Marcel Mauss (1872-1950) nasceu, como Durkheim, em Epinal, quatorze
        o                 e                          c˜    o
anos ap´s este, de quem ´ sobrinho. Suas contribui¸oes te´ricas respecti-
                c˜                              a
vas na constitui¸ao da antropologia moderna s˜o ao mesmo tempo muito
  o                                                                     a
pr´ximas e muito diferentes. Se Mauss faz, tanto quanto Durkheim, quest˜o
de fundar a autonomia do social, separa-se muito rapidamente do autor de
                e           o
As Regras do M´todo Sociol´gico a respeito de dois pontos essenciais: o es-
                e           `                          e              o
tatuto que conv´m atribuir a antropologia, e uma exigˆncia epistemol´gica
que hoje qualificar´ıamos de pluridisciplinar.

                                                      o
Durkheim considerava os dados recolhidos pelos etnol´gos nas sociedades
                   ˆ
”primitivas”sob o angulo exclusivo da sociologia, da qual a etnologia (ou
antropologia) era destinada a se tornar uma ramo. Mauss vai trabalhar in-
cansavelmente, durante toda sua vida (com Paul Rivet), para que esta seja
                         e                  a
reconhecida como uma ciˆncia verdadeira, e n˜o como uma disciplina anexa.
                                               a                     a
Em 1924, escreve que ”o lugar da sociologia”est´ ”na antropologia”e n˜o o
inverso,.

                                                                   o
Um dos conceitos maiores forjados por Mareei Mauss e o do fenˆmeno social
                              c˜                               o          o
total, consistindo na integra¸ao dos diferentes aspectos (biol´gico, econˆmico,
   ıdico, hist´rico, religioso, est´tico. . .) constitutivos de uma dada reali-
jur´          o                    e
                      e                                         o       c
dade social que conv´m apreender em sua integralidade. ”Ap´s ter for¸osamente
                                                      e
dividido um pouco exageradamente”, escreve ele, ”´ preciso que os sociol´goso
                                                                     o
se esforcem em recompor o todo”. Ora, prossegue Mauss, os fenˆmenos so-
       a                              e
ciais s˜o ”antes sociais, mas tamb´m conjuntamente e ao mesmo tempo fi-
    o              o
siol´gicos e psicol´gicos”. Ou ainda: ”O simples estudo desse fragmento de
                 e                              a             a
nossa vida que ´ nossa vida em sociedade n˜o basta”. N˜o se pode, ainda,
                       o             e      e          o
afirmar que todo fenˆmeno social ´ tamb´m um fenˆmeno mental, da mesma
                     o               e      e          o
forma que todo fenˆmeno mental ´ tamb´m um fenˆmeno social, devendo as
                                                                o
condutas humanas ser apreendidas em todas as suas dimens˜es, e particular-
                         o         o          o                 o
mente em suas dimens˜es sociol´gica, hist´rica e psicofisiol´gica.

                                                             e
Assim, essa ”totalidade folhada”, segundo a palavra de L´vi-Strauss, co-
                                  e
mentador de Mauss (1960), isto ´, ”formada de uma multitude de planos
             o                              e              ıduos”. Devemos,
distintos”, s´ pode ser apreendida na experiˆncia dos indiv´
                                                                a
escreve Mauss, ”observar o comportamento de seres totais, e n˜o divididos
                       ´
em faculdades”. E a unica garantia que podemos ter de que um fenˆmenoo
                    `                                         e
social corresponda a realidade da qual procuramos dar conta ´ que possa ser
                      e
apreendido na experiˆncia concreta de um ser humano, naquilo que tem de
´
unico:
70 CAP´                       ´
      ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA:

            e            a e       ca                            e
   ”O que ´ verdadeiro, n˜o ´ a ora¸˜o ou o direito,e sim o melan´sio de tal
ou tal ilha”.

  a                            c                     ca
N˜o podemos portanto alcan¸ar o sentido e a fun¸˜o de uma institui¸˜o      ca
    a                                      e           e                 e
se n˜o formos capazes de reviver sua incidˆncia atrav´s de uma consciˆncia
                   e              e                 ca
individual, consciˆncia esta que ´ parte da institui¸˜o e portanto do social.
                                       o                   e
Finalmente, para compreender um fenˆmeno social total, ´ preciso apreendˆ-  e
                      e                                         e
lo totalmente, isto ´, de fora como uma ”coisa”, mas tamb´m de dentro
                                ´                    e
como uma realidade vivida. E preciso compreendˆ-lo alternadamente tal
                                                o                 e
como o percebe o observador estrangeiro (o etn´logo), mas tamb´m tal como
os atores sociais o vivem. O fundamento desse movimento de desdobramento
                          a                                   o     ´
ininterrupto diz respeito ` especificidade do objeto antropol´gico. E um ob-
                                           e
jeto de mesma natureza que o sujeito, que ´ ao mesmo tempo – emprestando
          a                                                  c˜
o vocabul´rio de Mauss e Durkheim – ”coisa”e ”representa¸ao”. Ora, o que
                                         o         e                   e
caracteriza o modo de conhecimento pr´prio das ciˆncias do homem, ´ que o
                                                         c
observador-sujeito, para compreender seu objeto, esfor¸a-se para viver nele
                 e                   oe      ıvel                     e
mesmo a experiˆncia deste, o que s´ ´ poss´ porque esse objeto ´, tanto
quanto ele, sujeito.

                                                          `
Trabalhando inicialmente com uma abordagem semelhante a de Durkheim,
       a                                              c˜
a reflex˜o da Mauss desembocou, como vemos, em posi¸oes muito diferen-
                                            o           o
tes. Estamos longe do distanciamento sociol´gico que sup˜e a metodologia
                  o           a           a                        ´
durkheimiana, e pr´ximos da pr´tica etnogr´fica de Malinowski. Este ultimo
                           a
ponto merece alguns coment´rios.

Os Argonautas do Pac´    ıfico Ocidental, de Malinowski, e o Ensaio sobre o
                   a
Dom, de Mauss, s˜o publicados com um ano de intervalo (o primeiro em
                                              a          o
1922, o segundo em 1923). As duas obras s˜o muito pr´ximas uma da ou-
                      o
tra. A segunda sup˜e o conhecimento dos materiais recolhidos pelo etn´-   o
                                              a                     ıda
grafo. A primeira exige uma teoria que ser´ precisamente constitu´ pelo
       o                        a               ca
antrop´logo. Os Argonautas s˜o uma descri¸˜o meticulosa desses grandes
circuitos mar´                                    e         e
              ıtimos transportando, nos arquip´lagos melan´sicos, colares e
                                                         e
pulseiras de conchas: a kula. O Ensaio sobre o Dom ´ uma tentativa de
                          c˜                e                 a
esclarecimento e elabora¸ao da kula, atrav´s da qual Mauss n˜o apenas vi-
                                    o                           e
sualiza um processo de troca simb´lica generalizado, mas tamb´m come¸a    c
                 e
a extrair a existˆncia de leis da reciprocidade (o dom e o contradom) e da
          ca        a     o                         a
comunica¸˜o, que s˜o pr´prias da cultura em si, e n˜o apenas da cultura tro-
                                                       o
briandesa. Enquanto Os Argonautas, a obra menos te´rica de Malinowski,
                                         a       o
evidencia o que Leach chama de ”inflex˜o biol´gica”, o Ensaio sobre o Dom
 a                    c˜
j´ expressa preocupa¸oes estruturais.
                                                                      71

O fato de poder ser abordada de diferentes maneiras, de suscitar inter-
     c˜     u                        c˜           e o
preta¸oes m´ltiplas, ou mesmo voca¸oes diversas, ´ pr´prio de toda obra
                                   a
importante, e a obra de Mauss est´ incontestavelmente entre estas. Muitos
                            e
mestres da antropologia do s´culo XX (estou pensando particularmente em
                                                              e
Marciel Griaule, fundador da etnografia francesa, em Claude I.´vi-Strauss,
pai do estruturalismo, em Georges Devereux, fundador da etnopsiquiatria)
                          o                                  c
o consideram como seu pr´prio mestre. Mauss ocupa na Fran¸a um lugar
                a
bastante compar´vel ao de Boas nos Estados Unidos, especialmente para to-
dos os que, influenciados por ele, procuraram promover a especificidade e a
              e
unidade das ciˆncias do homem.
72 CAP´                       ´
      ITULO 5. OS PRIMEIROS TEORICOS DA ANTROPOLOGIA:
         Parte II

                   e
As Principais Tendˆncias Do
                     o
 Pensamento Antropol´gico
                 a
      Contemporˆneo




             73
   ıtulo 6
Cap´

       ca
Introdu¸˜o:

Com o trabalho efetuado pelos pais fundadores da etno-grafia – Boas, Ma-
                                              o               e
linowski, Rivers. . . – e pelos primeiros te´ricos da nova ciˆncia do social
– Durkheim e Mauss –, podemos considerar que a antropologia entrou em
                                               a
sua maturidade. O que examinaremos agora s˜o os desenvolvimentos contem-
    a        a
porˆneos. N˜o se trata evidentemente de apresentar aqui um panorama com-
pleto desse per´                             e                   a         e
                ıodo que cobre mais de meio s´culo (1930-1986), t˜o grande ´ a
                                           o                        e
diversidade e a riqueza do campo antropol´gico explorado, e tamb´m porque
              a                        c                           a
nos falta distˆncia para fazer o balan¸o dos trabalhos que nos s˜o propria-
                   a
mente contemporˆneos. Contentar-nos-emos, mais modestamente, em abrir
                           o
algumas trilhas (mais pr´ximas da trilha do que da auto-estrada) que per-
                          e
mitam destacar as tendˆncias dominantes do pensamento e da pr´tica dosa
       o               e                               e
antrop´logos de nossa ´poca. Podemos fazer isso de trˆs diferentes maneiras.


6.1                          ca
          Campos De Investiga¸˜o
                                                   o              c
A primeira via, que me recusarei a adotar por raz˜es que come¸aram a ser
              ıcio                                     a
expostas no in´ desse livro, consistia em levantar as ´reas de investiga¸˜oca
e estudar os resul tados obtidos em cada uma ou em algumas delas. O
desenvolvimento do pensamento cient´                                 c˜
                                     ıfico implica uma diferen cia¸ao cres-
                                               a
cente dos campos do saber. A antropologia n˜o apenas tende a progredir
          ca          c˜ `                                      o
por disjun¸˜o em rela¸ao a filosofia, sociologia, psicologia, hist´ria. . . (po-
                                           c                ca
dendo manter paralelamente canais e espa¸os de articula¸˜o e confronto),
         c                   o       a
mas avan¸a, dentro de sua pr´pria pr´tica, especializando-se e instaurando
at´ subespecialidades.1
  e
   1
                                                                     o
     Especialidades: antropologia das tecnologias, antropologia econˆmica, antropologia
dos sistemas de parentesco, antropologia pol´ ıtica, antropologia religiosa, antropologia
   ıstica, antropologia da comunica¸˜o, antropologia urbana, antropologia industrial. ..
art´                               ca


                                           75
76                                                CAP´               ¸˜
                                                     ITULO 6. INTRODUCAO:


Se deixamos de lado essa primeira forma poss´                       ca
                                                     ıvel de exposi¸˜o do campo
          o                  a     e
antropol´gico contemporˆneo, ´ porque consideramos que uma disciplina
cient´                           e       a
      ıfica (ou que pretende sˆ-lo) n˜o deva ser caracterizada por objetos
emp´         a
     ıricos j´ constitu´                        a                   c˜
                        ıdos, mas, pelo contr´rio, pela constitui¸ao de objetos
                      ´
formais. Ou seja, a unica coisa pass´  ıvel, a nosso ver, de definir uma disciplina
                          a e
(qualquer que seja), n˜o ´ de forma alguma um campo de investiga¸ao dadoc˜
                                                 a
(a tecnologia, o parentesco, a arte, a religi˜o. . .), muito menos uma area   ´
       a
geogr´fica ou um per´                 o
                         ıodo da hist´ria, e sim a especificidade da abordagem
                                                  ´
utilizada que transforma esse campo, essa area, esse per´      ıodo em objeto ci-
   ıfico.
ent´




6.2                c˜
          Determina¸oes Culturais
                                      c
Uma segunda via, que apenas esbo¸aremos aqui, consistiria em mostrar o
                           o            `       a             o
que a pesquisa do antrop´logo deve a cultura ` qual ele pr´prio pertence.
         c˜       o                          ca                     o
As condi¸oes hist´ricas e sociais de produ¸˜o do saber antropol´gico s˜o   a
                                  a              o            a     a
eminentemente diversificadas, e n˜o seria satisfat´rio relacion´-las `penas ao
                                                 e            a
”Ocidente”, como se este fosse um bloco homogˆneo e Imut´vel. Mostrare-
mos quais foram os caracteres culturais distintivos que marcavam profunda-
                                    a
mente e continuam influenciando v´rias sociedades nas quais o pensamento e
    a              o         a
a pr´tica (antropol´gicas est˜o hoje particularmente desenvolvidos. Limitur-
              e                                   a
nos-emos a trˆs: a antropologia americana, a britˆnica h francesa.

A antropologia americana:

                              a
Tendo tido um crescimento r´pido com o impulso especialmente do evolu-
                              o
cionismo e de seu principal te´rico Lewis Morgan, pode ser caracterizada da
seguinte maneira:

1) trata-se de um tipo de pesquisa que destaca a diversidade das culturas-
          co
, as varia¸˜es praticamente ilimitadas que aparecem quando se comparam
                                                                        c˜
as sociedades entre si. Esse estudo, conduzido mais a partir da observa¸ao
                                                                      c˜
dos comportamentos individuais do que do funcionamento das institui¸oes,
visa evidenciar a especificidade das personalidades culturais, bem como das
      c˜
produ¸oes culturais caracter´                          ca
                             ısticas de uma etnia ou na¸˜o. Disso decorre a
                           uıstica, etnomedicina, etnopsiquiatria, etnomusicologia, de que
Subespecialidades: etnoling¨´
 o               a                a        a
s´ se domina a pr´tica para uma ´rea geogr´fica limitada.
              ¸˜
6.2. DETERMINACOES CULTURAIS                                              77

      a                                  c˜
importˆncia, nos Estados Unidos, das rela¸oes da etnologia com a psicologia
           a
ou a psican´lise:

                                a
2) a antropologia americana n˜o se interessa apenas pelos processos de in-
    c˜
tera¸ao entre os indiv´                                e              o
                       ıduos e sua cultura, mas tamb´m entre as pr´prias1
                                                      c˜
culturas: forjou, em especial, o conceito de ”acultura¸ao”ao qual voltaremos
mais adiante;

                                   a                          c
3) nunca foi confrontada, ao contr´rio do que ocorreu na Fran¸a e na Ingla-
                                c˜               c˜
terra, aos processos da coloniza¸ao e descoloniza¸ao, mas, em contrapartida,
                                     o
aos problemas colocados por suas pr´prias minorias (negra, ´ındia e portorri-
quenha);

4) acrescentemos finalmente que se a antropologia americana contribuiu muito
                                    o         `     a                  co
cedo em grande parte (Boas) para pˆr um fim a arrogˆncia das reconstitui¸˜es
    o
hist´ricas especulativas, reatualizou e renovou ao mesmo tempo, em seus de-
                            a
senvolvimentos contemporˆneos, a abordagem evolucionista sob a forma do
     e
que ´ hoje chamado neo-evolucionismo

                   a
A antropologia britˆnica:

                      e           a
Seu crescimento, tamb´m muito r´pido, como nos Estados Unidos, deve ser
            `       a               e
relacionado a importˆncia de seu imp´rio colonial. Pode ser caracterizada da
seguinte maneira:

    e
1) ´ uma antropologia antievolucionista, que se constituiu desde Malinowski
          ca                     a      o                             co
em oposi¸˜o a uma compreens˜o hist´rica do social (as reconstru¸˜es hi-
     e           a                                      a
pot´ticas dos est´gios, indo das sociedades ”primitivas”`s ”civilizadas”, bem
                                                                      `
como a abordagem da historiografia). Dedica-se preferencialmente a inves-
      c˜                           e
tiga¸ao do presente a partir de m´todos funcionais (Malinowski), e, em se-
guida, estruturais (Radcliffe-Brown): uma sociedade deve ser estudada em
si, independentemente de seu passado, tal como se apresenta no momento no
qual a observamos. O modelo pode portanto ser qualificado de sincrˆnico, o
enquanto a pesquisa baseia-se no levantamento da totalidade dos aspectos
que constituem uma determinada sociedade: a monografia;

   e                                              o `
2) ´ uma antropologia antidifusionista, o que a op˜e a antropologia ame-
                                                                  a
ricana, a qual se preocupa em compreender o processo de transmiss˜o dos
elementos de uma cultura para outra. Para a maioria dos pesquisadores
                         a
ingleses, uma sociedade n˜o deve ser explicada nem pelo que herda de seu
passado, nem pelo que empresta a seus vizinhos;
78                                                CAP´               ¸˜
                                                     ITULO 6. INTRODUCAO:


    e
3) ´ uma antropologia de campo, que se desenvolve muito rapidamente, a
            ıcio      e
partir do in´ do s´culo, com Malinowski e, antes, com Radcliffe-Brown, o
      e
qual ´, mais ainda que Malinowski, um dos pais fundadores de quem a maio-
                o            a             a
ria dos antrop´logos britˆnicos contemporˆneos se considera sucessora. Esse
    a
car´ter emp´                  ca
             ırico (observa¸˜o direta de uma determinada sociedade, a partir
                                                                     a
de um trabalho exigindo longas estadias no campo) e indutivo da pr´tica dos
        o                    o                    ca       a
antrop´logos ingleses ap´ia-se numa longa tradi¸˜o britˆnica: o empirismo
        o                ıs,
dos fil´sofos desse pa´ que se pode opor ao racionalismo e ao idealismo
                        e                         o
do pensamento francˆs. Hoje ainda, um antrop´logo que pode ser conside-
                                            a                     a
rado como um dos mais importantes da Gr˜-Bretanha, Leach, n˜o hesita em
                                  e                      e
qualificar-se de ”empirista”, e at´ de ”materialista”, e vˆ a abordagem de um
  e
L´vi-Strauss como tipicamente francesa: racionalista e idealista;

              e                                        a
4) finalmente, ´ uma antropologia social que, ao contr´rio da antropologia
                                          c˜
americana, privilegia o estudo da organiza¸ao dos sistemas sociais em detri-
mento do estudo dos comportamentos culturais dos indiv´  ıduos.

A antropologia francesa:

        c     a
A Fran¸a est´ praticamente ausente da cena da antropologia social e cul-
                              e                                      e
tural da segunda metade do s´culo XIX. Nenhum pesquisador francˆs teve,
      e            e                      e
nessa ´poca, a influˆncia de um Tylor (inglˆs) ou de um Morgan (americano).
             c˜                                                        ´
As preocupa¸oes da antropologia francesa estavam voltadas para outra area.
                                                              ısica, que era
Quando se falava de antropologia, tratava-se da antropologia f´
    a
ent˜o ilustrada pelos trabalhos de Broca, Quatrefages ou Topinard, que pu-
blicou em 1876 uma obra intitulada simplesmente A Antropologia.2

Esse atraso da etnologia francesa – muito importante se considerarmos a
intensa atividade que se desenvolvia do outro lado do canal da Mancha e do
   a           a      a                   ıcio     e
Atlˆntico – n˜o ser´ recuperado no in´ do s´culo XX. Enquanto que um
campo emp´            o             a                ıa
            ırico e te´rico consider´vel se constitu´ tanto nos Estados Unidos
             a
como na Gr´-Bretanha; enquanto, nesses dois pa´       ıses, administradores utili-
                               c              o
zavam cada vez mais os servi¸os de antrop´logos formados nas universidades,
                             e
a etnologia francesa dessa ´poca permanecia ainda uma etnologia selvagem,
      a                          o                          a
que n˜o era praticada por etn´logos e sim por mission´rios e por alguns ad-
     2
    Notemos que Gobineau, que considera o estudo do homem apenas sob o ˆngulo da a
  c                                      e    e
ra¸a, nunca das culturas (Essai sur iln´galit´ des Races Humaines, 1853) era francˆs.   e
                  e           a
Lembremos tamb´m a importˆncia que teve a antropologia f´            e     o            c
                                                           ısica e pr´-hist´rica na Fran¸a
         ca                a     e             a                          e
(em rela¸˜o notadamente ` influˆncia consider´vel exercida no final do s´culo XIX pelas
  e                                     ıs
ciˆncias positivas e experimentais no pa´ de Pasteur e de Claude Bernard)
              ¸˜
6.2. DETERMINACOES CULTURAIS                                                          79

ministradores de colˆnias francesas.3
                    o

                             co               a
Mais uma vez, as preocupa¸˜es francesas est˜o voltadas para outros aspec-
                                   c˜     o           o            o
tos: trata-se dessa vez de preocupa¸oes te´ricas de fil´sofos e soci´logos que,
       u             a           e                           ca
sem d´vida, exercer˜o uma influˆncia decisiva na constitui¸˜o cient´    ıfica da
                  a a                                 a            a
etnologia, mas n˜o s˜o sustentadas por nenhuma pr´tica etnogr´fica. Nem
Durkheim (cujo pensamento vai impregnar profundamente a antropologia in-
               e                                      c˜         o
glesa), nem L´vy-Bruhl efetuaram qualquer observa¸ao. O pr´prio Mauss,
     e
que ´ paradoxalmente autor de uma excelente obra, manual de investiga¸ao   c˜
       a                                         c˜
etnogr´fica (1967), nunca realizou uma investiga¸ao no campo.

   a
Ser´ preciso esperar os anos 30 para que uma verdadeira etnografia pro-
                                         c                    a
fissional comece a se constituir na Fran¸a. A primeira miss˜o de car´tera
     ıfico (a famosa ”Dacar-Djibuti”) ser´ efetuada por Mareei Griaule e
cient´                                     a
                                                 e
seus colaboradores em 1931. A partir da mesma ´poca, Maurice Leenhardt,
                                                     o
que permaneceu por mais de 20 anos na Nova Caledˆnia como mission´rio  a
protestante, empreendeu trabalhos (1946, 1985) que podem ser qualificados
                                                                        a
de pioneiros, enquanto Paul Rivet passava a ser um dos principais artes˜os
            c˜                               ıs.                e
da organiza¸ao da antropologia no nosso pa´ A partir dessa ´poca, mas
 o
s´ a partir dela, pode-se considerar que, com o impulso especialmente dos
homens que acabamos de citar, a antropologia francesa entrou em sua maturi-
dade. A partir desse momento, as pesquisas foram prosseguindo, estendendo
o aprofundando-se em um ritmo ininterrupto.

         ıcil, principalmente em algumas frases, caracterizar os desenvolvi-
Seria dif´
                                 a
mentos propriamente contemporˆneos dessa pesquisa francesa, cuja riqueza
 a
n˜o tem mais nada a invejar dos Estados Unidos ou da Inglaterra. Lembre-
mos apenas aqui alguns aspectos relevantes:



   • as preocupa¸˜es te´ricas dos antrop´logos franceses que aparecem par-
                co     o                o
                                                                   ` a
     ticularmente quando confrontamos seus trabalhos (e debates) a pr´tica
                               o         u
     da antropologia anglo-saxˆnica, freq¨entemente mais emp´  ırica;

   • um objeto de predile¸˜o que ´ o estudo dos sistemas de ”representa¸˜es”
                         ca      e                                     co
   3
    Clozel e Delafosse estudaram no in´           e                  ıdico das popula¸˜es
                                         ıcio do s´culo o sistema jur´               co
        a
do Sud˜o. O segundo se tornou professor na Escola Colonial. diretor da Revue
                                         ı
d’Ethnographie e co-fundador do Institu´ d’Ethno-logie de Paris (1924). Publicou notada-
                                          e
mente Les Noirs de 1’Afrique e L’Ame N`gre (1922). Entre os pioneiros desse africanismo
     e                    e
francˆs principiante, conv´m lembrar os noves de Tauxier, Monteil, Labouret, que s˜o   a
                                                               a          ı¸
administradores coloniais eruditos, e sobretudo ]unod, mission´rio da Su´ca romanche
80                                              CAP´               ¸˜
                                                   ITULO 6. INTRODUCAO:

                                  a                                     c˜
         (particularmente a religi˜o, a mitologia, a literatura de tradi¸ao oral),
                                                          e          a
         termos que devemos a Dur-kheim, enquanto L´vy-Bruhl j´ se interes-
         sava pelo que chamava de ”mentalidades”;

     • uma renova¸˜o metodol´gica, com o impulso especialmente:
                 ca         o

                               e           e
1) do estruturalismo (do qual L´vi-Strauss ´ evidentemente o representante
mais ilustre),

2) de pesquisas conduzidas dentro da perspectiva do marxismo;



     • um crescimento muito recente, mas apoiado em uma s´lida tradi¸ao, da
                                                            o         c˜
                                                    o
       etnografia, da museografia e da etnologia da pr´pria sociedade francesa,
                                  c˜
       em suas diversidades e muta¸oes.


6.3                   o      o
            Os Cinco P´los Te´ricos Do Pensamento
                    o                a
            Antropol´gico Contemporˆneo
                         a                 c˜   ´
Uma terceira via deter´ mais nossa aten¸ao. E para essa que finalmente
               e                               a
optaremos, e ´ a partir dela que se organizar´ a segunda parte desse li-
                                          ca                            c˜
vro. Pareceu-nos que, desde sua conslitui¸˜o enquanto disciplina de voca¸ao
          4
     ıfica, a antropologia oscila entre v´rios p´los te´ricos que aparecem
cient´                                    a     o     o
    u                                                 a
freq¨entemente como exclusivos uns dos outros, mas s˜o de fato pontos de
vista diferentes sobre a mesma realidade.

                                                                a
Tentaremos, portanto, dar conta do desenvolvimento contemporˆneo da an-
              a                                      o
tropologia, n˜o nos colocando mais do lado dos territ´rios particulares (ter-
   o        a                              o
rit´rios tem´ticos como a antropologia econˆmica, a antropologia religiosa, a
                                             co
antropologia urbana), nem do lado das colora¸˜es nacionais, explicativas das
     e                    a                                           e
tendˆncias culturais da pr´tica dos pesquisadores, mas do lado dos m´todos
            c˜
de investiga¸ao.

                                                        a
A pluralidade dos modelos mobilizados e utilizados n˜o tem, a meu ver,
                                 o
nada de desvantajoso. E seria errˆneo atribuir exclusivamente a impress˜o a
                  a      u                                o           o
de cacofonia que d˜o freq¨entemente os congressos e reuni˜es de antrop´logos
     4
             co           o                         c
    As funda¸˜es antropol´gicas de Morgan, o aperfei¸oamento de instrumentos de inves-
    ca                         a                                            ca
tiga¸˜o verdadeiramente etnogr´ficos com Boas, Rivers e Malinowski, a elabora¸˜o de um
               e
quadro de referˆncia conceitual com Mauss e Durkheim
               ´      ´                            ´              ˆ
6.3. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE

a uma imaturidade cient´                 a
                            ıfica e ao car´ter ainda principiante de nossa disci-
                                                                    u
plina. Novamente, procurando estudar a pluralidade, seria o c´mulo se a
                a                                              e
antropologia n˜o fosse ela mesma ”plural”. A pluralidade ´ pelo contr´rio  a
                                    a    ´
para mim, uma das garantias (n˜o a unica evidentemente, pois pode haver
pluralidade de dogmatismos e ortodoxias) de que nossas pesquisas aceitam
                ıticas rec´
sujeitar-se a cr´                                                    ca
                          ıprocas e passar por processos de invalida¸˜o (cf. K.
                                           o
Popper, 1937), cada um dos modelos te´ricos sendo apenas uma perspectiva
                   a       o
sobre o social e n˜o o pr´prio social.

Em As Palavras e as Coisas, Michel Foucault distingue o que ele chama de
  e       o            o                                      ıram, a partir do
trˆs ”regi˜es epistemol´gicas”, em torno das quais se constitu´
 e                                                                       e
s´culo XIX, os diferentes saberes positivos sobre o homem: a biologia, ciˆncia
                             e              c˜            co            ca
do ser vivo; a economia, ciˆncia da produ¸ao e das rela¸˜es de produ¸˜o; a
            e                                               o
filologia, ciˆncia da linguagem e de suas diversas express˜es (mitologias, li-
                c˜
teraturas, tradi¸oes orais. . .). Mais precisamente, diz Foucault:

   • a biologia ´ o estudo das fun¸˜es do homem nas suas regula¸oes fi-
                 e                  co                            c˜
         o                                    c˜
     siol´gicas e nos seus processos de adapta¸ao, bem como o estudo das
                                    c˜
     normas reguladoras dessas fun¸oes;

   • a economia ´ o estudo dos conflitos entre o homens, a partir das rela¸oes
                 e                                                       c˜
     sociais do trabalho, bem como das regras que permitem controlar esses
     conflitos;

   • a filologia ´ o estudo do sentido que elaboramos em nossos discursos,
                e
                                                e
     bem como do sistema que constitui sua coerˆncia.

        a       o
A ”regi˜o”biol´gica, considera Foucault (1966), encontra um de seus pro-
                              o
longamentos no campo psicol´gico que estuda nossos processos neuromoto-
res, mas tamb´m nossa aptid˜o em elaborar fantasias e representa¸oes. A
                e             a                                        c˜     `
     a        o                             o                           co
”regi˜o”econˆmica pertence o campo sociol´gico que explora as rela¸˜es de
                       ´          a                          c
poder. Finalmente, a ultima regi˜o vai dar lugar ao espa¸o ling¨´            `
                                                                    uıstico, as
                                    e                   ca             a
disciplinas que chamamos hoje de ciˆncias da comunica¸˜o, que se d˜o como
            a                         c˜
objeto a an´lise de todas as manifesta¸oes escritas, orais e gestuais.

       e
O que ´ importante notar, ainda de acordo com o autor de /ls Palavras
             e
e as Coisas, ´:

        a                                                               ca
1) o car´ter inconsciente das normas, das regras e dos sistemas, em rela¸˜o
`     co                   a          c˜
as fun¸˜es, aos conflitos e `s significa¸oes;

                                                        ca
2) o fato de que esses diferentes pares conceituais (fun¸˜o/norma, conflito/regra,
82                                              CAP´               ¸˜
                                                   ITULO 6. INTRODUCAO:

                                                       o
sentido/sistema) podem deslocar-se para fora dos territ´rios nos quais apa-
receram. Assim, por exemplo, o estudo do social tende a apreender o homem
                                            e
em termos de regras e conflitos. Mas tamb´m pode ser conduzido a partir
                     c˜
dos conceitos de fun¸oes e normas (Durkheim, Malinowski) ou a partir do
                                e
sentido e do sistema (Griaule, L´vi-Strauss).

                      c˜
Dispondo dessa orienta¸ao, o que procurarei mostrar agora, falando em meu
              e
nome pessoal, ´ que:

                              e a                    a
1) o objeto da antropologia ´ t˜o complexo que n˜o podia dotar-se de um
´
unico modo de acesso sem correr o risco do esp´    ırito de ortodoxia. E efe-
tivamente, no per´                                     e
                  ıodo de aproximadamente meio s´culo que estudaremos,
                                                                    a
veremos nossa disciplina utilizando sucessiva ou simultaneamente v´rios mo-
dos de acesso.

            a           o      a
2) a reflex˜o antropol´gica n˜o pode deixar de lado o conceito de incons-
                   a
ciente, forjado no ˆmbito do discurso psicanal´                          a
                                                ıtico, mas do qual este n˜o tem
                           o                    a
evidentemente o monop´lio. Somente o car´ter inconsciente das normas,
                                                                  e
regras e sistemas nos permite compreender que a partir dos trˆs campos do
saber determinados por Michel Foucault estaremos confrontados com pesqui-
          o            a
sas etnol´gicas de car´ter emp´ ırico e a pesquisas preocupadas da constru¸˜oca
de seu objeto cient´                     e
                     ıfico; o qual nunca ´ dado, e sim conquistado, sendo por
                                  ca
assim dizer arrancado da percep¸˜o consciente imediata tanto dos atores so-
ciais quanto das observadoras do social.

                                                        ıvel
Levando em conta o que foi dito, parece a meu ver poss´ localizar cinco
 o
p´los em torno dos quais a antropologia oscila constantemente.

                       o                 e         a
1) A antropologia simb´lica. Seu objeto ´ essa regi˜o da linguagem que cha-
mamos s´ ımbolo e que ´ o lugar de m´ltiplas significa¸oes,5 que se expressam
                      e              u                c˜
                  e           o                               c˜         a
em especial atrav´s das religi˜es, das mitologias e da percep¸ao imagin´ria
do cosmos. Esse primeiro eixo da pesquisa caracteriza-se mais, como vere-
                              c˜                    e
mos, por um tipo de preocupa¸oes do que por um m´todo propriamente dito.
Trata-se de apreender o objeto que se pretende estudar do ponto de vista do
                                     c˜
sentido. O que significam as institui¸oes ou os comportamentos que encon-
tramos em tal sociedade? O que se pode dizer a respeito daquilo que uma
                         e      o
sociedade expressa atrav´s da l´gica de seus discursos?


     5
                 ca          o
   Sobre a defini¸˜o antropol´gica do s´ımbolo, autorizo-mo a indicar meu livro t.es 50
       e
Mots Cl´s de /’Anthropologie. Toulouse. Privai, 1974.
               ´      ´                            ´              ˆ
6.3. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE

2) A antropologia social. Seu objeto situa-se claramente no campo epis-
       o
temol´gico oriundo da economia (cf. acima M. Foucault). Nada distingue
                      o            o            o
realmente seu territ´rio do territ´rio do soci´logo. Um dos conceitos ope-
   o                                            ıcio            e         c˜
rat´rios a partir do qual essa perspectiva de in´ se instaurou, ´ o de fun¸ao
                         e                   u
(Malinowski, mas tamb´m Durkheim), freq¨entemente ligado ao estudo dos
                         c˜             c˜                co      ´
processos de normaliza¸ao destas fun¸oes (= as institui¸˜es). E um eixo
                    a
de pesquisa que n˜o se interessa diretamente para as maneiras de pensar,
                                                             c˜
conhecer, sentir, expressar-se, em si, e mais para a organiza¸ao interna dos
grupos, a partir da qual podem ser estudados o pensamento, o conhecimento,
       ca                                                ca
a emo¸˜o, a linguagem. Qual a finalidade de tal institui¸˜o? Para que serve
tal costume? A que classe social pertence aquele que tem tal discurso, e qual
e     ıvel           c˜
´ o n´ de integra¸ao dessa classe na sociedade global?

                                                              o           o
3) A antropologia cultural. Seja o modelo utilizado, biol´gico, psicol´gico
                          uıstico (Sapir, 1967), ´ uma antropologia freq¨ente-
(Kardiner, 1970), ou ling¨´                      e                       u
mente emp´                                     c˜
           ırica, que se situa do lado da fun¸ao ou, mais ainda, do sentido,
em detrimento da norma e do sistema. Mas o que permite essencialmente
                      e                          e      e
caracterizar essa tendˆncia de nossa disciplina ´ o crit´rio da continuidade ou
                                                                         o
descontinuidade entre a natureza e a cultura de um lado, e entre as pr´prias
culturas, de outro.

                                         e
a) Enquanto autores como Bateson ou L´vi-Strauss, de quem falaremos adi-
           c
ante, esfor¸am-se em pensar a continuidade (ou, mais exatamente, no caso
     e                     c˜
de L´vi-Strauss, a articula¸ao) entre a ordem da natureza e a da cultura,
                                                            a
os que chamamos ”aculturalistas”, com autores de quem est˜o, no que diz
respeito ao essencial, muito afastados, como Evans-Pritchard ou Devereux,
                              ca
privilegiam claramente a solu¸˜o da descontinuidade.

                            u                o
b) Enquanto um grande n´mero de antrop´logos salienta a universalidade
                                          o a       a
da cultura (para Morgan, as sociedades s´ s˜o pens´veis porque pertencem a
                                       a              e            co
um tronco comum, para Malinowski, h´ uma permanˆncia das fun¸˜es, e para
Devereux uma ”universalidade da cultura”), os culturalistas mais uma vez,
                                                                 e       e
sobretudo a respeito disso, privilegiam a des-continuidade, isto ´ a coerˆncia
                   c         ıvel
interna e a diferen¸a irredut´ de cada cultura.

                                    e                           a o
c) A antropologia estrutural e sistˆmica. Estudaremos aqui n˜o s´ uma,
      a                                      o
mas v´rias correntes do pensamento antropol´gico. Uns utilizam um modelo
        ıtico; outros um modelo proveniente do que Foucault designa como
psicanal´
                    o
o campo epistemol´gico da economia (Mauss elabora, como vimos, as regras
explicativas da troca); outros finalmente, os mais numerosos, escolhem um
modelo ling¨´              a            e       e
             uıstico, matem´tico, cibern´tico (L´vi-Strauss, Bateson). Mas
84                                          CAP´               ¸˜
                                               ITULO 6. INTRODUCAO:

qualquer que seja o modelo adotado, ele realiza uma passagem do consciente
                                    c˜
para o inconsciente: passagem da fun¸ao para a norma (Roheim), do conflito
                                                  e
para a regra (Mauss), do sentido para o sistema (L´vi-Strauss).

                   a                                  c˜
Enquanto nos situ´vamos por exemplo do lado da fun¸ao, o alteridade sempre
                                                       c
corria o risco de ser considerada (e rejeitada) no espa¸o da extraterritoriali-
                           e
dade: ao lado, fora. isto ´, para sempre diferente. Assim, para a psicologia
   e                                     a e
pr´-freudiana, o normal e o anormal n˜o tˆm nada em comum. Para a et-
              e
nologia de L´vy-Bruhl (1933), existe uma ”mentalidade primitiva”exclusiva
              e o                     o
de tudo que ´ pr´prio do homem da l´gica. Para Griaule, finalmente (1966),
`          c˜                                              ´
as institui¸oes e mitologias plenamente significantes da Africa tradicional,
   o                 a                                     a
op˜e-se a insignificˆncia do Ocidente industrial. Invers˜o de perspectiva
                    c˜
neste caso, em rela¸ao ao anterior, mas que se inscreve no mesmo horizonte
          o                a                                  o
epistemol´gico. Ao contr´rio, quando a atividade epistemol´gica come¸a a  c
                                 a               c˜                a
situar-se do lado da norma (e n˜o mais da fun¸ao), da regra (e n˜o mais do
                          a                      a e          ıvel
conflito), do sistema (e n˜o mais do sentido), n˜o ´ mais poss´ pensar que
                      a
os doentes mentais s˜o ”loucos”, a ”mentalidade primitiva”, ”absurda”, e os
                                                 a e          e
mitos ”insignificantes”. O que desmorona, ent˜o, ´ a pertinˆncia dos pares
      o                             o          o           o
antinˆ-micos do normal e do patol´gico, do l´gico e do il´gico, do sentido e
     a
do n˜o-sentido.

                             a                      o                  e
Se insistimos tanto desde j´ sobre esse quarto p´lo da pesquisa, ´ porque,
                             o
com ele, o campo epistemol´gico do sabei sobre o homem muda radicalmente
                                      e
pela segunda vez desde o final do s´culo XVIII (cf. p. 53 deste livro). E
e
´, de fato, em torno das obras de Freud (o inconsciente explicativo do cons-
ciente), Saussure, e depois Jakobson (a l´  ıngua explicativa da palavra), de
  e
L´vi-Strauss e dos estruturalistas (a prio ridade dada ao sistema sobre o
                              a                           o
sentido), que se reorganizar´ o conhecimento antropol´gico contemporˆneo. a
Na antropo logia psicanal´ ıtica, como na antropologia estrutural, estima-se
       e                                              co          o
que al´m da surpreendente diversidade das forma¸˜es psicol´gicas ou das
       c˜                           ıvel
produ¸oes culturais localizadas a n´ emp´                                a
                                             ırico existe o que Bastian j´ cha-
mava de ”unidade ps´  ıquica da humanidade”. Mas esta deve doravante ser
            a           ıvel             co                      ıvel
pensada, n˜o mais ao n´ das significa¸˜es vividas, mas ao n´ do sistema
                                            o                   a     a e
(inconsciente). Uma das principais quest˜es que se colocar´ ent˜o ´ a se-
                a
guinte: quais s˜o as estruturas inconscientes do esp´   ırito que atuam, tanto
nas formas elementares e complexas do parentesco, quanto no mito, na obra
de arte?. . .

                     a
5) A antropologia dinˆmica. Reunimos nesse termo um eixo da pesquisa
        o                a
antropol´gica contemporˆnea que se situa no horizonte do que Foucault6
                       o                                 c˜
chama de campo sociol´gico, e que procura estudar as rela¸oes de poder.
               ´      ´                            ´              ˆ
6.3. OS CINCO POLOS TEORICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLOGICO CONTEMPORANE

              co                                       a     a
As interroga¸˜es dos autores dos quais trataremos n˜o est˜o distantes das
                                                                  o
da sociologia, e alguns inclusive preferem qualificar-se de sociol´gos. Uma
das caracter´                         co                            e
             ısticas de suas contribui¸˜es para a antropologia do s´culo XX,
                                                   e
e mais especificamente, da segunda metade do s´culo XX, consiste, a meu
ver, em reorientar a antropologia social, operando uma ruptura total com o
                                                              o
funcionalismo em seus pressupostos, ao mesmo tempo a hist´ricos (socieda-
       o                                                    ca a
des im´veis que podem ser estudadas como se a coloniza¸˜o n˜o existisse)
                     c˜
e finalistas (institui¸oes visando satisfazer as necessidades). Para esses au-
                  a         e    a             ´
tores, pelo contr´rio, conv´m n˜o isolar essa area particular do homem que
            o           e                                     o
seria a hist´ria. Esta ´ parte integrante do campo antropol´gico. Por isso,
         o               a                    e      a
as quest˜es colocadas s˜o as seguintes: qual ´ a dinˆmica de tal sistema so-
                             a                                          co
cial? De onde vem? Quais s˜o as modalidades atuais de suas transforma¸˜es?

               o
Esses cinco p´los em torno dos quais se organiza a antropologia contem-
   a       a e                        a      e
porˆnea n˜o tˆm nada de exclusivo. S˜o tendˆncias de pesquisa que podem
                                                                   ´
coexistir dentro de uma mesma escola de pensamento, ou mesmo de um unico
             7
pesquisador.

                       e
A escolha da pieeminˆncia do que Devereux (1972) chamou de motivo ope-
                             o
rante (ou modelo epistemol´gico principal, constitutivo da abordagem ado-
                                          a
tada) – o qual pode ser exclusivo (ou n˜o) do lugar concedido a um motivo
                                        c˜
instrumental (ou modelo de investiga¸ao complementar) –explica os deba-
          e           o                       a
tes, ou at´ as discuss˜es, a que assistimos n˜o apenas entre disciplinas, mas
      e                                                    a
tamb´m dentro de uma mesma disciplina. A incompreens˜o entre os pesqui-
                                        a                      e
sadores pode se tornar total, se estes n˜o tiverem plena consciˆncia do falo de
                                                 o
que efetuam respectivamente escolhas metodol´gicas, que constituem diver-
sas perspectivas poss´ıveis visando dar conta de um mesmo objeto emp´     ırico.
   7
                                  c                                             o
    Assim, por exemplo, o come¸o da obra de Malinowski aparece como muito pr´ximo da
antropologia cultural. Evidenciando a especificidade da sociedade trobriandesa (1963), e
                            a       e                   ´                   ca
afirmando em seguida a n˜o-existˆncia do complexo de Edipo nessa popula¸˜o melan´sia   e
                                 e
(1967-1970), exerceu uma influˆncia evidente (cf.. por exemplo, Kardiner, 1970) sobre os
culturalistas americanos. Mas. no final de sua vida (1968h a universalidade da fun¸˜o  ca
superou finalmente a particularidade das culturas. Considerando agora a obra de L´vi-  e
Strauss, esta situa-se, se a examinarmos do ponto de vista- dos objetos preferencialmente
                                                                   o
estudados (os mitos), do lado do que chamamos de antropologia simb´lica. Mas seu projeto
             a                        e                 o          e
diz respeito ` antropologia social (´ o nome do laborat´rio que L´vi-Strauss chefiou no
    e                                                          e e
Coll`ge de Francel e sua abordagem pertence evidentemente (e ´ at´ constitutiva dele) ao
quarto eixo de pesquisa definido acima.
  Existem portanto afinidades entre, por exemplo, a antropologia cultural e a antropo-
                                                                                    a
logia funcional (Malinowski), entre a antropologia estrutural e a antropologia dinˆmica
                                    ca e    ıcil
(Godelier. 1973). Em compensa¸˜o, ´ dif´ imaginar como se poderia conciliar uma
                              ca          ca
antropologia baseada na no¸˜o de integra¸˜o social (Malinowski) e uma antropologia de
       ca      a
orienta¸˜o dinˆmica (Balandier) ou psicanal´ıtica (Devereux).
86                                          CAP´               ¸˜
                                               ITULO 6. INTRODUCAO:

                                         `       a              e
Esse problema diz respeito em especial a quest˜o da transferˆncia dos mo-
                                                              o
delos em antro pologia. Estes podem ser, por exemplo, biol´gicos (Spencer.
                          o
Comte, Malinowski), hist´ricos (Morgan), ling¨´uısticos ou. como se diz hoje,
                                                 e                   `     co
”informacionais”(a antropologia estrutural e sistˆmica referindo-se as no¸˜es
                o                          o                ca
de mensagens, c´digos e programas), psicol´gicos (a introdu¸˜o dos conceitos
        c˜           a           c˜                                e
de inibi¸ao, repress˜o e sublima¸ao para pensar o social). Conv´m, se qui-
                             e     u                         a
sermos escapar daquilo que ´ freq¨entemente apenas um di´logo de surdos,
                                                        e
nunca esquecer que se trata somente de modelos, isto ´, de instrumentos da
                                         a
pesquisa que visam explicar o real, mas n˜o podem subsiitu´ ı-lo, pois este, em
termos cient´        o                             a
             ıficos, s´ pode ser, segundo a express˜o de Bachelard, ”aproxi-
mado”.
   ıtulo 7
Cap´

A Antropologia Dos Sistemas
    o
Simb´licos

                                                                       o
Foi a antropologia que se empenhou essencialmente em mostrar a l´gica pre-
                                          o            o             o
cisa dos sistemas de pensamento mitol´gicos, teol´gicos, cosmol´gicos, que
 a
s˜o os das sociedades qualificadas de ”tradicionais”. Toda uma corrente
                               c
de pesquisas aparece na Fran¸a, particularmente representativa dessas preo-
      c˜     e
cupa¸oes: ´ a que, a partir dos anos 30, leva Mareei Griaule e seus colabo-
                                  a
radores a efetuar estudos sistem´ticos, primeiro da mitologia dos Dogons, e
depois, da religi˜o dos Bambaras. Esses trabalhos1 v˜o marcar duradoura-
                  a                                        a
          a                               e              e       a
mente, n˜o apenas o africanismo francˆs, mas tamb´m a pr´tica etnol´gica    o
dos pesquisadores franceses. Deixando de lado, por assim dizer, a com-
        a           c˜
preens˜o das rela¸oes de poder entre os diferentes protagonistas de uma
sociedade (assunto da antropologia social, de que trataremos no pr´ximo    o
cap´                                 ca
    ıtulo), estes orientam sua aten¸˜o para os seguintes aspectos: o estudo
            co        o                                          c˜
das produ¸˜es simb´licas (artesanato), a literatura de tradi¸ao oral (mitos,
                      e                                        e
contos, lendas, prov´rbios. . .) e dos instrumentos atrav´s dos quais essas
       c˜
produ¸oes se constituem (particularmente as l´                          o
                                                  ınguas); o estudo da l´gica dos
                o                  ısticos, cient´
saberes (filos´ficos, religiosos, art´             ıficos) existentes num grupo (o
que abre o caminho para uma antropologia do conhecimento e para o que
                              e
hoje qualificamos de ”etnociˆncias”). em suma, de tudo que Griaule e seus
sucessores chamam de ”filosofia”das sociedades dogon, bambara. . . tal
                         e                    o                        u
como se expressa atrav´s dos mitos e est´rias tradicionais, da m´sica, dos
              c     a
cantos, dan¸as, m´scaras e outros objetos culturais.

                       o
Para o conjunto dos etn´logos, e para Griaule em especial, esse pensamento
   1
     Cf., por exemplo, M. Griaule (1938, 1966). G. Dielerlcn (1951, 1972), D. Paulme,
1962), M. Griaule e G. Dieterlen (1965). D Zahan (1960, 1963), G. Calame-Griaule (1965).
etc.


                                          87
88 CAP´                                        ´
      ITULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS

simb´lico e as pr´ticas rituais a ele relacionados2 e que constituem com ele o
     o           a
       o                a                                               e
patrimˆnio do grupo, n˜o se caracterizam apenas por sua profunda coerˆncia
                             e
– os sistemas de correspondˆncia extremamente precisos entre os vivos e os
mortos, o homem e o animal, a natureza e a cultura. . .

 a           c˜
S˜o elabora¸oes grandiosas, de uma complexidade e riqueza inestim´veis.a
  e                                                                  a
E ´ precisamente esse esplendor e essa grandeza (dos mitos, ritos, m´scaras.
                                                                   a
. .) que acabam impondo-se ao observador ocidental, e que far˜o em es-
               e
pecial, das fal´sias de Bandiagara (Mali) e de seus habitantes (os Dogons),
   o
ap´s os ´ındios, os abor´ıgines australianos e os trobriandeses, um dos mais
importantes lugares da antropologia.

Como estamos longe do tempo era que Morgan considerava que ”todas as
      o               a
religi˜es primitivas s˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ ıveis”. Mas
                          e              co        a
como estamos longe tamb´m das aprecia¸˜es que s˜o no entanto as de mui-
                             a
tos pesquisadores contemporˆneos de Griaule. De Frazer, por exemplo, que,
                                       a
interrogando-se sobre os mitos e as pr´ticas rituais aos quais havia no en-
                                               a        c
tanto dedicado sua vida, escreve: ”loucuras, v˜os esfor¸os, tempo perdido,
         c                       e
esperan¸as frustradas”. Ou de L´vy-.Bruhl, que anota em seus Carnets: os
        a      o                     a
mitos s˜o ”est´rias estranhas, para n˜o dizer absurdas e incompreens´  ıveis”,
                ´                 c
e acrescenta: ”E preciso um esfor¸o para se interessar por eles”.

                 e                           o
Toda essa tendˆncia do pensamento antropol´gico de que procuramos aqui
                                        co
dar conta coloca-se (a partir de observa¸˜es minuciosas) contra esses julga-
                              o               a
mentos. Da mesma forma, op˜e-se totalmente ` busca de uma determina¸ao   c˜
                                    c˜
pela economia, que explicaria a fun¸ao dos mitos dentro do sistema social.
      a            o            a a e
As pr´ticas simb´licas em quest˜o n˜o tˆm de ser fundamentadas sociologica-
               a           a                           o
mente, pois s˜o, pelo contr´rio, fundadoras da ordem c´smica e social. S˜oa
elas que devem ser tomadas como fundamentais, se aceitarmos finalmente
             e
compreendˆ-las de dentro, impregnando-nos de sua sabedoria, recolhendo o
                     ıvel                           a
mais fielmente poss´ o discurso dos iniciados, e n˜o projetando, de fora,
                                                         a
categorias caracteristicamente ocidentais. Percebe-se ent˜o que o conjunto
        ıcio
do edif´ das sociedades africanas baseia-se numa filosofia (cf., por exemplo,
                      e                                        c˜
Tempels, 1949) e at´ numa ”ontologia”que comanda a concep¸ao toda que
                            co
se tem do mundo e das rela¸˜es dos homens na sociedade.
   2
                       a                                  ca            a
    O interesse para a ´rea dos mitos, dos ritos de inicia¸˜o, da religi˜o e da magia aparece
                                                                  e
como uma constante da antropologia francesa do conjunto do s´culo XX. Cf. por exemplo
Durkheim (1979), M. Mauss (1960), A. Van Gennep (1981), M. Leiris (1958), A. M´traux   e
                                                                           e
(1958), R. Bastide (1958), J. Rouch (1960), L. de Heusch (1971), C. L´vi-Strauss (1964),
L. V. Thomas e R. Luneau (1975), G. Durand (1975), [. Favrct-Saada (1977), M. Aug´          e
(1982).
                                                                             89


                            o
Uma abordagem muito pr´xima orienta as pesquisas efetuadas por Mau-
                                      o
rice Leenhardt (um dos primeiros etn´lo-gos franceses de campo, com Gri-
                      o
aule) na Nova Caledˆnia. Em Do Kamo, a Pessoa e o Mito no Mundo
      e
Melan´sio (1985), apresentado como um ”longo caminhar pelas trilhas cana-
           e                                        ca         c
ques, atrav´s do pensamento dos insulares, de sua no¸˜o de espa¸o, de tempo,
de sociedade, de palavra, de personagem”, Leenhardt considera que o mito ´ e
                          ca
fundador da ”vida e da a¸˜o do homem e da sociedade”.

Cr´         a                                                         e
    ıticas n˜o faltaram a essa antropologia que tem de fato tendˆncia a apre-
                      c˜
ender as representa¸oes (religiosas, narrativas, art´                        a
                                                     ısticas. . .) como uma ´rea
  a                                               c˜          oa
”` parte”. Dedicando exclusivamente sua aten¸ao ao ”s´t˜o”, deixando de
                                                                         c˜
se interessar pelo que acontece ”na adega”, ela efetua a reconstitui¸ao dos
                                                   o                 co
sistemas de pensamento e conhecimento em si pr´prios. As rela¸˜es que estes
       e               c˜
mantˆm com as rela¸oes sociais, pol´              o
                                      ıticas, econˆmicas da sociedade em um
                                    o     a                          a
determinado momento de sua hist´ria s˜o consideradas secund´rias, quando
  a a                                         a                    o
n˜o s˜o pura e simplesmente ocultadas. N˜o se pensa um s´ instante, por
                   o
exemplo, na hip´tese de que as sociedades tradicionais possam, como diz
                           `
Althusser, ”ser movidas a ideologia”. Assim sendo, o discurso etnol´gico    o
tende a confundir-se com a teoria que a sociedade estudada elabora para dar
                 o
conta de si pr´pria. Trata-se evidentemente mais que de uma renova¸ao:        c˜
                 a                          c˜ `          a
de uma invers˜o de perspectivas em rela¸ao a arrogˆncia dos julgamentos
              e                                  a
ocidentalocˆntricos sobre o primitivo. Mas ser´ que essa abordagem que se
                                c˜                            a
limita a recolher as representa¸oes conscientes dos mais s´bios entre os inici-
                                   c˜           o
ados locais pode servir de explica¸ao antropol´gica?

            e            e               e                  a
O que conv´m destacar ´ que essa tendˆncia da etnologia cl´ssica inscreve-se
                          c˜                                      a
num projeto de reabilita¸ao das formas de pensamento e express˜o que n˜o   a
 a
s˜o as nossas. Mostra que, fora o saber cient´          ´
                                                ıfico, o unico a beneficiar de
                    c˜                     e
uma plena legitima¸ao no Ocidente do s´culo XX, existem outras formas de
                    e       e                                    a      e
conhecimento tamb´m autˆnticas. Esse protesto para o direito ` existˆncia
de identidades culturais e espirituais (o que Senghor, por exemplo, chamar´  a
de ”metaf´                                  a
          ısica negra”), negadas pelas pr´ticas coloniais e que coincide com
                                e
a descoberta de ”arte negra”, ´ profundamente subversivo na primeira me-
          e                              a
tade do s´culo XX. Finalmente, se n˜o existe nenhuma teoria griauliana
propriamente dita (retomamos mais uma vez o exemplo de Griaule porque
                                                           a
ele nos parece o mais representativo dessa abordagem), n˜o deixa de haver
      u
um ac´mulo de pesquisas extremamente aprofundadas que contribu´      ıram em
    `
dar a etnologia francesa seu prest´                           a
                                   ıgio, um trabalho consider´vel sem o qual
                                 a             e
a antropologia provavelmente n˜o seria o que ´ hoje.
90 CAP´                                        ´
      ITULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBOLICOS
   ıtulo 8
Cap´

A Antropologia Social:

Os princ´ıpios da antropologia social, tal como se elabora especialmente na In-
glaterra com o impulso de Malinowski e sobretudo de Radcliffe-Brown (1968),
 a
n˜o deixam de lembrar os princ´                             o
                                  ıpios da antropologia simb´lica. Esta insistia,
                                   e       o
como acabamos de ver, na coerˆncia l´gica dos sistemas de pensamento. A
                                         c                   a             c˜
antropologia social, por sua vez, come¸a destacando a coes˜o das institui¸oes,
     a                       ılia,                               a
o car´ter integrativo da fam´ da moral, e sobretudo da religi˜o (Durkheim,
1979).

                                a
Mas essas duas perspectivas s˜o muito diferentes. Essa alteridade da qual
procurava-se mostrar o significado profundo (cap´                            e
                                                     ıtulo anterior), e tamb´m
               a                    e
o valor inestim´vel, pode ser tamb´m encontrada dentro de cada sociedade,
 a          e              c˜
t˜o grande ´ a diferencia¸ao interna dos grupos sociais que comp˜em umao
                                                                       co
mesma cultura. Assim, se o interesse para os sistemas de representa¸˜es (mi-
                      a                    e
tologia, magia, religi˜o. . .) permanece, ´ para mostrar o lugar e a fun¸ao c˜
     a
que s˜o seus dentro de um conjunto maior: a sociedade global em quest˜o. Oa
    e     a
que ´ ent˜o tomado como explicativo precisa ser explicado. A antropologia
     o                                                 a
simb´lica realiza em muitos aspectos uma redundˆncia sofisticada daquilo
                       o
que era dito pelos pr´prios fatores sociais, ou, mais precisamente, pelos de-
     a
posit´rios habilitados do saber de uma parte do grupo. Perguntamo-nos
                                   e
agora: o que mostram, mas tamb´m dissimulam, esses discursos suntuosos
que expressam menos a sociedade em sua realidade do que a sociedade em
                                                                   c˜
seu ideal? Assim, ao estudo da cultura como sistema de rela¸oes vividas,
Malinowski, um dos primeiros, pede que se substitua o estudo da sociedade
                      co
como sistema de rela¸˜es reais, que escapam aos atores sociais: ”Os objetivos
      o                 a
sociol´gicos nunca est˜o presentes no esp´ırito dos ind´                  o
                                                         ıgenas”. O antrop´logo
e
´ que deve descobrir as leis de funcionamento da sociedade.

        co       o       a                       co
As produ¸˜es simb´licas s˜o simultaneamente produ¸˜es sociais que sempre

                                       91
92                             CAP´
                                  ITULO 8. A ANTROPOLOGIA SOCIAL:

                a                a
decorrem de pr´ticas sociais. N˜o devem ser estudadas em si-, mas enquanto
           co                    ´
representa¸˜es do social. Este ultimo termo, consagrado por Durkheim, vai
                            a                                 c˜
exercer um papel consider´vel, particularmente na constitui¸ao de uma an-
                           a                                               a
tropologia social da religi˜o. Quando se diz nessa perspectiva que a religi˜o
                                           e                 c˜
(da mesma forma que a arte ou a magia) ´ uma ”representa¸ao”, sublinha-se
      a                                       e       o               a
que n˜o se deve atribuir-lhe nenhuma existˆncia autˆnoma pois est´ vincu-
                                            a           c˜             c˜
lada a uma outra coisa, capaz de explic´-la: as rela¸oes de produ¸ao, de
                    c˜
parentesco, as rela¸oes entre faixas de idade, entre grupos sexuais, todos es-
     ıveis de realidade, mas que s˜o sempre rela¸oes de poder encontrando
tes n´                             a              c˜
                               a                ca
ao mesmo tempo sua express˜o e sua justifica¸˜o nesse saber integrativo e
totalizante por excelˆncia que ´ a religi˜o.1
                      e         e        a

Uma outra caracter´ ıstica desse segundo eixo de pesquisa, estreitamente vin-
                                                                    u
culada ao que acabamos de dizer, merece ser sublinhada: um certo n´mero de
            a
autores, e n˜o dos menores (Radcliffe-Brown (1968), Evans-Pritchard (1969),
                  c
ou ainda na Fran¸a, para o per´                  a
                                  ıodo contemporˆneo, Rogei Bastide (1970),
Henri Desroche (1973), Georges Balandier (1974), Louis-Vincent Thomas
                                             e     a       ca
(1975)), recusam-se a conceder uma pertinˆncia ` distin¸˜o entre a antro-
                                                        a e
pologia social e a sociologia. A antropologia social n˜o ´ profundamente
                                                     ´
diferente da sociologia, considera Radcliffe-Brown. E uma ”sociologia com-
parativa”. Evans-Pritchard, por sua vez, (1969) escreve:

”A antropologia social deve ser considerada como fazendo parte dos estudos
      o       ´
sociol´gicos. E um ramo da sociologia cujo estudo se liga mais especifica-
        a
mente `s sociedades primitivas”.

Para ilustrar seu ponto de vista, diametralmente oposto ao de Mauss, esse
autor utiliza o exemplo de um processo que confronta juizes, jurados, teste-
                       e
munhas, advogados e r´u:

                                                                  e
”No decorrer desse processo, os pensamentos e sentimentos do r´u, do j´riu
                    a
e do juiz sc alterar˜o de acordo com o momento, assim como podem variar
a idade, a cor dos cabelos e dos olhos dos diferentes protagonistas, mas es-
         co     a a
sas varia¸˜es n˜o s˜o de nenhum interesse, pelo menos imediatamente, para

     1
                                                                a             ca
     Estamos apenas dando conta, a partir do exemplo da religi˜o, de uma op¸˜o poss´  ıvel
inscrevendo-se na abordagem da antropologia social. Cf., ainda nessa perspectiva (durkhei-
miana), os trabalhos de R. E. Brad-bury e col. (1972) ou de M. Douglas (1971), muito
                                            a             a            e
representativos da antropologia social britˆnica da religi˜o. Cf. tamb´m, em uma pers-
                                                                        a e
pectiva sensivelmente diferente, G. Balandier (1967) para quem a religi˜o ´ a ”linguagem
do pol´                                   ıticas formuladas por M. Aug´ (1979) quanto `
       ıtico”, e, mais recentemente, as cr´                             e               a
   ca                 ca
no¸˜o de ”representa¸˜o”.
                                                                        93

        o            a
o antrop´logo. Este n˜o se interessa pelos atores do drama enquanto in-
   ı
div´duos”.

       c˜                               o                           o
As rela¸oes entre a perspectiva antropol´gica e a perspectiva psicol´gica,
prossegue Evans-Pritchard, podem ser formuladas nos seguintes termos:

                       o
”As duas disciplinas s´ podem ser proveitosas uma a outra, e, nesse caso,
extremamente proveitosas, se efetuarem independentemente suas respectivas
                         e               a    o
pesquisas, seguindo os m´todos que lhes s˜o pr´prios”.

Estamos frente a uma abordagem tipicamente durkheimiana. A tal ponto
que, para muitos autores americanos (cf. em especial Lowie, 1971), e nota-
                       a          a
damente para os que est˜o ligados ` antropologia cultural, que examinaremos
                              a
agora, a antropologia social n˜o faz parte da antropologia, mas se inscreve
no prolongamento da sociologia francesa.
94   CAP´
        ITULO 8. A ANTROPOLOGIA SOCIAL:
   ıtulo 9
Cap´

A Antropologia Cultural:

A passagem da antropologia social (particularmente desenvolvida na Fran¸a  c
e mais ainda na Inglaterra) para a antropologia cultural (especialmente ame-
                                    c
ricana) corresponde a uma mudan¸a fundamental de perspectiva. De um
                                                 o
lado, a antropologia se torna uma disciplina autˆnoma, totalmente indepen-
                                                    c˜
dente da sociologia. De outro, dedica-se uma aten¸ao muito grande menos
                              co
ao funcionamento das institui¸˜es do que aos comportamentos dos pr´prioso
     ıduos, que s˜o considerados reveladores da cultura a qual pertencem.
indiv´           a                                          `
                         o
Quanto a isso, uma hist´ria da antropologia como a de Kardiner e Preble
                 a                                       o
(1966) – que est´ longe de ser uma das melhores hist´rias de nossa disci-
                 a e          a    e
plina, mas essa n˜o ´ a quest˜o – ´ muito caracter´ ıstica dessa atitude ame-
ricana. Trata tanto da personalidade dos principais pesquisadores apresen-
                          e      a
tados, quanto de suas id´ias. J´ de in´                       e
                                        ıcio, coloca o que ´ uma constante
      a             o                                     ca `
da pr´tica antropol´gica nos Estados Unidos: sua rela¸˜o a psicologia e `    a
       a
psican´lise.

                                                           u
Para compreender a especificidade dessa abordagem, freq¨entemente qua-
lificada (de forma um pouco pejorativa) de ”culturalista”, parece-me impor-
tante especificar bem o significado dos conceitos de social e de cultura.

         e                       co         co              c˜         ca
O social ´ a totalidade das rela¸˜es (rela¸˜es de produ¸ao, de explora¸˜o,
           ca                              e
de domina¸˜o. . .) que os grupos mantˆm entre si dentro de um mesmo
                     a     ca
conjunto (etnia, regi˜o, na¸˜o. . .) e para com outros conjuntos, tamb´me
                                         a e                        o
hierarquizados. A cultura por sua vez n˜o ´ nada mais que o pr´prio social,
                                  a
mas considerado dessa vez sob o ˆngulo dos caracteres distintivos que apre-
sentam os comportamentos individuais dos membros desse grupo, bem como
           co                            ısticas, religiosas. . .).
suas produ¸˜es originais (artesanais, art´

                                                 e
A antropologia social e a antropologia cultural tˆm portanto um mesmo

                                     95
96                            CAP´
                                 ITULO 9. A ANTROPOLOGIA CULTURAL:

                   ca     e                               e              a
campo de investiga¸˜o. Al´m disso, utilizam os mesmos m´todos (etnogr´ficos)
                                       a
de acesso a este objeto. Finalmente, s˜o animadas por um objetivo e uma
ambi¸˜o idˆnticos: a an´lise comparativa.1 Mas, o que se compara no pri-
     ca    e            a
            e                                     c˜
meiro caso ´ o social enquanto sistema de rela¸oes sociais, sendo que, no
                                                                  e
segundo, trata-se do social tal como pode ser apreendido atrav´s dos com-
portamentos particulares dos membros de um determinado grupo: nossas
maneiras espec´ıficas, enquanto homens e mulheres de uma determinada cul-
tura, de pensar, de encontrar, trabalhar, se distrair, reagir frente aos acon-
                                                c
tecimentos (por exemplo, o nascimento, a doen¸a, a morte).

´    ıcil                ca                                 o
E dif´ dar uma defini¸˜o que seja absolutamente satisfat´ria da cultura.
Kroeber, um dos mestres da antropologia americana, levantou mais de 50.
                           e
Propomos esta: a cultura ´ o conjunto dos comportamentos, saberes e saber-
              ısticos de um grupo humano ou de uma sociedade dada, sendo
fazer caracter´
                                 e
essas atividades adquiridas atrav´s de um processo de aprendizagem, e trans-
mitidas ao conjunto de seus membros.

Detenhamo-nos um pouco para sublinhar que, a nosso ver, apenas a no¸˜o      ca
                    a                      e
e cultura, ao contr´rio da de sociedade, ´ estritamente humana. Da mesma
                          a e
forma que existe (isso n˜o ´ mais sequer discutido hoje) um pensamento e
                                                               e
uma linguagem nos animais, existem sociedades animais c at´ formas de soci-
                                                                c˜
abilidade animal, que podem ser regidas por modos de intera¸ao antagˆnicaso
             a                                       c˜
ou comunit´rias, bem como de modos de organiza¸ao complexos (em fun¸ao      c˜
                                                    a
das faixas de idade, dos grupos sexuais, da divis˜o hierarquizada do traba-
                    e                                     a
lho. . .). Indo at´ mais adiante, existe o que hoje n˜o se hesita mais em
chamar de sociologia celular. Assim, o que distingue a sociedade humana da
                        e                        a e
sociedade animal, e at´ da sociedade celular, n˜o ´ de forma alguma a trans-
     a               c˜          a                               c˜     a
miss˜o das informa¸oes, a divis˜o do trabalho, a especializa¸ao hier´rquica
                               a
das tarefas (tudo isso existe n˜o apenas entre os animais, mas dentro de uma
´       e                                     c˜
unica c´lula!), e sim essa forma de comunica¸ao propriamente cultural que se
  a       e             a
d´ atrav´s da troca n˜o mais de signos e sim de s´                          ca
                                                      ımbolos, e por elabora¸˜o
das atividades rituais aferentes a estes. Pois, pelo que se sabe, se os animais
 a
s˜o capazes de muitas coisas, nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo
            a     ´       a
de anivers´rio. E a raz˜o pela qual, se pode haver uma sociologia animal
      e                                         e
(e at´, repetimo-lo, celular), a antropologia ´ por sua vez especificamente
humana.

                       e            a
Fechemos aqui esse parˆntese, que n˜o nos afasta de forma alguma do nosso
    o                     a
prop´sito, mas, pelo contr´rio, define-o melhor, e examinemos mais adiante

     1
                               e
         Muito mais afirmada por´m na antropologia cultural do que na antropologia social.
                                                                                      97

      c                                                    o
os tra¸os marcantes dessa antropologia que qualifica a si pr´pria de cultural.
                     e               a
Deter-nos-emos em trˆs deles, que est˜o, como veremos, estreitamente liga-
dos entre si.

1) A antropologia cultural estuda os caracteres distintivos das condutas dos
seres humanos pertencendo a uma mesma cultura, considerada como uma
                  ıvel `                `
totalidade irredut´ a outra. Atenta as descontinuidades (temporais, mas
                                                                     a
sobretudo espaciais), salienta a originalidade de tudo que devemos ` socie-
      a
dade ` qual pertencemos.

                                                    c˜
2) Ela conduz essa pesquisa a partir da observa¸ao direta dos comporta-
mentos dos indiv´                                        c˜
                 ıduos, tais como se elaboram em intera¸ao com o grupo e o
meio no qual nascem e crescem estes indiv´   ıduos. Procurando compreender
                                    ca             a
a natureza dos processos de aquisi¸˜o e transmiss˜o, pelo indiv´ıduo, de uma
                                               a
cultura, sempre singular (a forma como esta n˜o apenas informa, mas modela
o comportamento dos indiv´                                              a
                            ıduos, sem que estes o percebam), encontra v´rias
          c˜                   o
preocupa¸oes comuns aos psic´logos, psicanalistas e psiquiatras. Utiliza por-
           u                                                          e
tanto freq¨entemente os modelos conceituais destes, bem como suas t´cnicas
             c˜
de investiga¸ao (por exemplo, os testes projetivos, utilizados pela primeira
vez em etnologia por Cora du Bois). Assim, esse campo de pesquisa, desig-
                  a
nado pela express˜o ”cultura e personalidade”, extremamente desenvolvido
                                                          c      a
nos Estados Unidos e relativamente negligenciado na Fran¸a e Gr˜-Bretanha,
    o                                            ´
imp˜e-se, a partir dos anos 30, como uma das areas da antropologia na qual
           ca                                  a
a colabora¸˜o pluridisciplinar se torna sistem´tica.

                                                                     ca
3) Finalmente, a antropologia cultural estuda o social em sua evolu¸˜o, e
                        ˆ                                    a        c˜
particularmente sob o angulo dos processos de contato, difus˜o, intera¸ao e
        c˜        e        c˜            c˜
acultura¸ao, isto ´, de ado¸ao (ou imposi¸ao) das normas de uma cultura por
outra.



                                         ***

           u
Um certo n´mero de obras representativas dessa abordagem – escritas em
sua maior parte por americanos 2 – merece ser citado. 1927: Margaret Mead
   2
                 e                 ca                                a
     Notemos por´m que a contribui¸˜o dos pesquisadores franceses na ´rea da antropologia
            a                        a
cultural est´ longe de ser negligenci´vel. Citemos notadamente, para o per´ ıodo contem-
    a
porˆneo, os trabalhos de Ortigues (1966), Erny (1972), J. Rabain (1979) e lembremos a
     e             a
influˆncia consider´vel que exerceu e continua exercendo Roger Bastide (1950, 1965, 1972)
que pode ser considerado como o mestre da antropologia cultural francesa.
98                      CAP´
                           ITULO 9. A ANTROPOLOGIA CULTURAL:

                                         a                a
publica Corning of Age in Samoa, que ser´ retomado em H´bitos e Sexuali-
dade na Oceania, em 1935, um livro que foi um marco. 1934: Amostras de
        c˜                                                    ıstica do cul-
Civiliza¸ao, de Ruth Benedict, certamente a obra mais caracter´
turalismo americano; 1939: Kardiner, O Indiv´ ıduo e Sua Sociedade-, 1943:
                      c˜                                e
Roheim, Origem e Fun¸ao da Cultura, que desenvolve a id´ia de que a cultura
e              c˜                       ca
´ uma sublima¸ao decorrente da imperfei¸˜o do feto humano ao nascer; 1944:
Cora du Bois, O Povo de Alor; 1945: Linton, Os Fundamentos Culturais da
Personalidade: 1949: Herskovitz, As Bases da Antropologia Cultural; 1950:
                a
Roheim, Psican´lise e Antropologia. . .

O que mostram essas diferentes obras, sempre baseadas em numerosas ob-
     co e            e    a          `                              a
serva¸˜es, ´ que conv´m n˜o atribuir a natureza o que diz respeito ` cultura;
ou seja, n˜o considerar como universal o que ´ relativo.3 Essa compreens˜o
          a                                    e                            a
           ıvel                            e
da irredut´ diversidade das culturas que ´ o eixo central da antropologia
                                              ıvel        c
cultural – aparece ao mesmo tempo: 1) ao n´ dos tra¸os singulares dos
                         ıvel
comportamentos; 2) ao n´ da totalidade da nossa personalidade cultural,
qualificada por Kardiner de ”personalidade de base”. Como essa corrente de
pesquisa, que procuraremos apresentar o mais fielmente poss´  ıvel, multiplica-
remos os exemplos.

           ca
1) A varia¸˜o cultural pode ser encontrada em cada um dos aspectos de
nossas atividades. Assim, a maneira com que descansamos. Nas sociedades
nas quais os homens dormem diretamente no. solo, dificilmente suportam
                      a
a maciez de um colch˜o. Inversamente, sentimos dificuldade em dormir –
                                              a                        c
como me aconteceu no Brasil – em uma rede, e n˜o nos passaria pela cabe¸a
                           ´                          o
descansar, como alguns na Asia. apoiando-nos em uma s´ perna.

                                      a
Tomemos um outro exemplo: a divis˜o do trabalho entre os sexos. Nas
                                                     a    a
sociedades do Oeste africano, as mulheres se dedicam ` cerˆmica, enquanto
             a           c                             a
os homens v˜o para a ro¸a, quando, na ilha de Alor, s˜o as mulheres que
                                                     c˜           c
cultivam a terra enquanto os homens cuidam da educa¸ao das crian¸as. As-
sim como na sociedade Chaumbuli, na qual os homens se dedicam aos filhos,
                       a
enquanto as mulheres v˜o pescar.

Consideremos agora os comportamentos adotados para penetrar nos edif´   ıcios
                                                                   e
religiosos. Na Europa, ao penetrar numa igreja, observamos que os fi´is tiram
        e
o chap´u e permanecem com os sapatos. Inversamente, em uma mesquita,
       c
os mu¸ulmanos tiram os sapatos e permanecem com o chap´u.  e

     3
                                                                         a
    Como mostrei em meu livro sobre A Etnopsiquiatria, este ultimo coment´rio deve
porem ser relativizado no que diz respeito a Rohem.
                                                                          99


                                    e
As formas de hospitalidade tamb´m testemunham de uma extrema diversi-
                                                           a
dade podendo, como no exemplo acima, consistir na invers˜o pura e simples
                  a
daquilo que tom´vamos espontaneamente por natural. Assim, fiquei pessoal-
                                                             ıs u
mente impressionado, durante minha primeira estadia em pa´ Ba´le (Costa
                      o
do Marfim), como h´spede, com o convite que me era sistematicamente feito
             c˜
de uma refei¸ao preparada em minha homenagem, mas que devia ser consu-
                          e            o
mida isoladamente, isto ´, em um cˆmodo e separadamente de meus hospe-
deiros, os quais, por outro lado, reservavam-me um presente muito inesperado
                           a
para um ocidental, que n˜o era nada menos que a filha mais bonita da casa.

        c                                        `
Diferen¸as significativas, decorrentes da cultura a qual pertencemos, po-
           e
dem tamb´m ser encontradas nos menores detalhes dos nossos comporta-
                                              a
mentos mais cotidianos. Assim, nas sociedades ´rabes, sul-americanas e sul-
      e                    e                                  a
europ´ias, desviar o olhar ´ considerado como um sinal de m´ educa¸˜o,ca
                                 a                   e
enquanto que nas sociedades asi´ticas e norte-europ´ias, olhar fixamente
    e            e                  o
algu´m com insistˆncia causa um incˆmodo que se traduz por uma impress˜oa
         c
de amea¸a e agressividade.

         c˜
A sauda¸ao visual consistindo em levantar rapidamente as sobrancelhas, ace-
            c                                     a                 e
nar a cabe¸a e sorrir, assinala um encontro amig´vel na Nova Guin´ ou na
              e                                                a
Europa, mas ´ censurada por ser considerada indecente no Jap˜o. As trocas
                 a                               a
de contatos cutˆneos entre dois interlocutores s˜o extremamente reduzidas
nos pa´              o                         a       o                a
       ıses anglo-saxˆnicos assim como no Jap˜o. Imp˜e-se pelo contr´rio,
              a
como express˜o normal do prazer de encontrar o outro nas sociedades medi-
    a                                                                     c
terrˆneas e sul-americanas. Esses mesmos interlocutores, sentados no terra¸o
                                    a                         c
de um bar ou passeando na rua, ir˜o manter um certo espa¸o entre si na
                          ´
Europa do Norte ou na Asia, sob pena de sentir um certo mal-estar; ten-
   a                    a                                  ´
der˜o a diminuir a distˆncia que os separa nas sociedades arabes ou latino-
americanas.

Finalmente, as formas de comportamento sexual detiveram particularmente
       c˜                                      c˜           e
a aten¸ao dos observadores. De um lado, a educa¸ao sexual ´ eminentemente
    a                                           e
vari´vel de uma sociedade para outra. Na Melan´sia, por exemplo, meninos
             a                                         e
e meninas s˜o, na idade da puberdade, iniciados nas t´cnicas amorosas por
monitores experimentados, enquanto os Muria da ´ ındia (cf. Elwin, 1959) ins-
                         a                         c
titucionalizavam essa pr´tica preservando um espa¸o (por assim dizer, uma
casa da juventude) que tem como objetivo encorajar os jogos sexuais. Por
                                 a                             a
outro lado, os rituais amorosos s˜o profundamente diferentes, n˜o apenas de
             c˜                                                   c˜
uma civiliza¸ao para outra, mas dentro de -uma mesma civiliza¸ao. Aqui
   a
est´ um exemplo recolhido por Margaret Mead que merece ser relatado.
100                   CAP´
                         ITULO 9. A ANTROPOLOGIA CULTURAL:


            ´
Durante a ultima guerra mundial, soldados americanos estavam mobiliza-
           a                                                          u
dos na Gr˜-Bretanha. Esses soldados e as jovens inglesas que freq¨enta-
                                     a       c˜         co
vam acusavam-se mutuamente de m´ educa¸ao nas rela¸˜es amorosas. Os
GIs consideravam as inglesas mulheres levianas; as inglesas achavam que
os americanos comportavam-se como marginais. Cada um dos grupos re-
agia normalmente, mas a norma era diferente de uma cultura para outra:
                                         e                       co
para os americanos, o beijo, que interv´m muito cedo nas rela¸˜es de na-
        a                       ue
moro, n˜o tinha grandes conseq¨ˆncias, enquanto que, para as inglesas, era
  ´
a ultima etapa antes do ato sexual. As inglesas ficavam, portanto, chocadas
                                 a      a                             a
que os americanos quisessem beij´-las t˜o precipitadamente; e estes n˜o en-
                                                            a
tendiam que as inglesas fugissem deles por causa de um ato t˜o insignificante
                                               a
quanto um beijo na boca, ou que passassem t˜o rapidamente para a etapa
                                           u      o
seguinte, quando tinham aceito o beijo. Q¨iproqu´s desse tipo pontuam nos-
        c˜
sas rela¸oes interculturais.

                        a
2) O peso da cultura n˜o se manifesta apenas nas formas diversificadas de
                                                a
comportamentos e atividades facilmente localiz´veis de uma sociedade para
                        c˜      a
outra (como a alimenta¸ao, o h´bitat, a maneira de se vestir, os jogos. .O,
           e
mas tamb´m nas estruturas perceptivas, cognitivas e afetivas constitutivas
      o
da pr´pria personalidade. A antropologia cultural foi assim levada a reto-
                                  ca          a              o
mar, nos fundamentos da observa¸˜o e da an´lise etnopsicol´gica, o que os
                      e
folcloristas, mas tamb´m os escritores (Chateaubriand, Georges Sand. . .)
                           e
chamavam de ”alma”ou ”gˆnio”de um povo. Assim, tentou evidenciar a pre-
       c˜
ocupa¸ao dos japoneses em nunca perder a face em sociedade, sob pena de
um desmoronamento da personalidade que se traduz por um sentimento de
                                                                  a
vergonha e culpa extremo, ou ainda, o receio dos franceses frente ` natureza
                                  a                                     a
que deve ser domesticada pela raz˜o; receio que se expressa tanto no car´ter
”bem-comportado”dos nossos contos populares (sempre menos extravagan-
                                               a
tes que os contos escandinavos, russos ou alem˜s) quanto em nossos jardins,
                                      `
qualificados precisamente de ”jardins a francesa”.

      e
Mas ´ sobretudo ao estudo das formas contrastadas da personalidade nos
povos das sociedades ”tradicionais”, que a antropologia americana deve a
                                                           co
sua fama. Margaret Mead (1969), ao confrontar duas popula¸˜es vizinhas da
           e                                                     o
Nova Guin´, considera que uma, a dos doces e ternos Arapesh, s´ deseja paz
                                                               e
e serenidade, enquanto a outra, a dos violentos Mundugumor, ´ comandada
                                                       e    a
por uma agressividade propriamente canibal. O que ´ ent˜o considerado
                                                        ıduo violento), apa-
como personalidade desviante entre os primeiros (o indiv´
     a                                                       e
recer´, entre os segundos, como perfeitamente normal, isto ´ conforme ao
                                           o
ideal do grupo, e inversamente. Na mesma ´tica, Ruth Benedict (1950) op˜e o
                                                                                      101

a sociedade ”apoloniana”dos ´                           e     `       c˜
                              ındios Pueblos do Novo M´xico a exalta¸ao e
                  ıacas”permanentes que mantˆm entre si os habitantes da
rivalidade ”dionis´                            e
ilha de Dobu, este povo de feiticeiros (R. Fortune, 1972). Se houver, entre
            ıduos que n˜o tenham nenhum sentimento de suspei¸˜o, nenhum
estes, indiv´          a                                       ca
                                       a         a
gosto pelo roubo, e detestem brigar, n˜o deixar˜o de aparecer como margi-
nais, enquanto estariam perfeitamente bem adaptados (e considerados como
conformistas) na sociedade pueblo.

A partir de exemplos desse tipo, Ruth Benedict elabora sua teoria do ”arco
cultural”. Cada cultura realiza uma escolha. Valoriza um determinado seg-
mento do grande arcode c´ ırculo das possibilidades da humanidade. Encoraja
            u
um certo n´mero de comportamentos em detrimento de outros que se vˆem       e
                   e                             ca    a       o
censurados. Atrav´s de um processo de sele¸˜o (n˜o biol´gico, mas cultu-
ral), todos os membros de uma mesma sociedade compartilham um certo
  u                  c˜                                 co           o
n´mero de preocupa¸oes, sentem as mesmas inclina¸˜es e avers˜es. O que
                                           e                  ca
caracteriza uma determinada sociedade ´ uma ”configura¸˜o cultural”, uma
 o
l´gica que se encontra ao mesmo tempo na especificidade das institui¸oes e c˜
na dos comportamentos. Toda cultura persegue um objetivo, desconhecido
dos indiv´                     o                               e
          ıduos. Cada um de n´s possui em si todas as tendˆncias, mas a cul-
      `                                    ca               co
tura a qual pertencemos realiza uma sele¸˜o. As institui¸˜es (e, em especial,
           co
as institui¸˜es educativas: fam´                               c˜
                                ılias, escolas, ritos de inicia¸ao) pretendem –
inconscientemente – fazer com que os indiv´    ıduos se conformem aos valores
   o
pr´prios de cada cultura.

Cr´ıticas, freq¨entemente severas, n˜o faltaram aos cul-turalismo americano,4
               u                     a
        a                                                  o
que est´ longe de fazer a unanimidade entre os antrop´logos, sobretudo na
      c
Fran¸a onde o m´                           e        a                  ca
                   ınimo que se pode dizer ´ que n˜o tem boa reputa¸˜o. Tra-
balhando com uma abordagem muito emp´                        ca         c˜
                                           ırica (a localiza¸˜o das fun¸oes, dos
                         co                                 ca
conflitos e das significa¸˜es, em detrimento da investiga¸˜o das normas, das
regras e dos sistemas, de acordo com os termos de Michel Foucault aos quais
                                                  c˜
nos referimos acima), tende a efetuar uma redu¸ao dos comportamentos hu-
                          c                                       `
manos a tipos, e a esbo¸ar tipologias que devem muito mais a intui¸ao e ac˜    `
   o                                              `          c˜
pr´pria personalidade do pesquisador, do que a constru¸ao rigorosa de um
objeto cient´          e                   ue
              ıfico. Al´m disso, e em conseq¨ˆncia mesmo dos pressupostos que
 a                   ca                                   e
s˜o seus (a observa¸˜o daquilo que, em uma sociedade, ´ manifesto, em detri-
                      e
mento daquilo que ´ recalcado e inconsciente), desenvolve uma concep¸˜o do ca
   4
    Autorizo-me a indicar ao leitor dois de meus livros anteriores (L’Ethnopsychiatrie, Ed.
                                                 e
Universitaires, 1973, pp. 33-36; Les 50 Mots Cl´s de 1’Anthropologie, Ed. Privat, 1974,
pp. 46-50) e a sublinhar que, a meu ver, foi Georges Devereux (1970). colocando-se no
    ca                                                         e
cora¸˜o mesmo do campo de estudo privilegiado por essa tendˆncia da antropologia, quem
    o      ıtica mais radical desta.
propˆs a cr´
102                    CAP´
                          ITULO 9. A ANTROPOLOGIA CULTURAL:

                             a
relativismo cultural (express˜o forjada por Herskovitz) que o impede de dar o
                                     co                 a
passo que separa o estudo das varia¸˜es culturais da an´lise da variabilidade
                                      a
da cultura; variabilidade esta que ser´ o objeto das pesquisas examinadas no
  o
pr´ximo cap´ ıtulo.

      a
Isso n˜o impede que, levando-se em ’conta essas cr´ıticas, levando-se em conta,
      e                                          e      u
tamb´m, o fato de que o projeto desses autores ´ freq¨entemente menos am-
bicioso do que geralmente se diz (cf. particularmente a obra de Ruth Be-
                                       ´                  c˜      e
nedict), a antropologia cultural, pela area de investiga¸ao que ´ sua e que ´ e
    u                                        ıs,
freq¨entemente deixada de lado em nosso pa´ pela amplitude do campo dos
                                  a
materiais recolhidos, pela importˆncia dos problemas colocados, represente
              c˜                     a
uma contribui¸ao bastante consider´vel para nossa disciplina.
   ıtulo 10
Cap´

A Antropologia Estrutural E
    e
Sistˆmica:

Para a antropologia cultural, cada cultura particular, caracterizada por um
                 e
conjunto de tendˆncias tais como aparecem empiricamente ao observador, ´      e
                   a     `     c                      c    a
um pouco compar´vel as pe¸as de um quebra-cabe¸a. S˜o entidades parce-
                           a                                  c˜
ladas, frutos de uma pr´tica parceladora. E nessas condi¸oes, a cultura ´     e
                           e
concebida como uma esp´cie de mosaico, um traje de Arlequim. Na perspec-
                                                   a
tiva na qual nos situaremos agora, as culturas s˜o apreendidas, ou melhor,
tratadas, em um n´               a e
                     ıvel que n˜o ´ mais dado, e sim constru´    ıdo: o do sis-
          a
tema. N˜o se trata mais de estudar tal aspecto de uma sociedade em si,
                                     co
relacionando-o ao conjunto das rela¸˜es sociais (antropologia social),’e muito
                                   o             e o
menos tal cultura particular na l´gica que lhe ´ pr´pria (antropologia cultu-
              e        o                             o
ral, mas tamb´m simb´lica): trata-se de estudar a l´gica da cultura. Ou seja,
  e                                          co
al´m da variedade das culturas e organiza¸˜es sociais, procuraremos explicar
a variabilidade em si da cultura: o que dizem e inventem os homens deve ser
                             co
compreendido como produ¸˜es do esp´     ırito humano, que se elaboram sem que
                     e
estes tenham consciˆncia disso.

                                   ıtulo um certo mimero de tendˆncias do
Isso colocado, reuniremos nesse cap´                            e
                     a
pensamento e da pr´tica antropologica, aparentemente bastante distantes
entre si:

   • o que se pode qualificar de antropologia da comunica¸ao, que, com o
                                                            c˜
     impulso de Gregory Bateson e da escola de Paio Alto, estuda as dife-
                                     ca                      a
     rentes modalidades da comunica¸˜o entre os homens, n˜o a partir dos
     interlocutores que seriam considerados como elementos separados uns
                                                     c˜
     dos outros, mas a partir dos processos de intera¸ao formando sistemas
     de troca, integrando notadamente tudo o que, no encontro, se d´ aoa

                                     103
104CAP´                                         ˆ
      ITULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA:

       ıvel a                  c˜                     ımicas, e da posturas;
      n´ (n˜o verbal) das sensa¸oes, dos gestos, das m´

   • a enopsiquiatria, cujo fundador ´ Georges Devereux, e que ´ uma
                                        e                           e
       a
     pr´tica claramente pluridisciplinar, procurando compreender ao mesmo
                      a e                 u                         a
     tempo a dimens˜o ´tnica dos dist´rbios mentais e a dimens˜o psi-
        o                 o
     col´gica e psicopatol´gica da cultura;

   • o estruturalismo francˆs, finalmente, do qual muitos gostam hoje de
                           e
                   a a
     dizer que est´ h´ muito tempo ultrapassado, mas que eu considero
     pessoalmente como mais atual do que nunca.

                                     ***

          e              c
Existem, ´ claro, diferen¸as essenciais entre essas diversas correntes da an-
                      a           u
tropologia contemporˆnea. Mas re´nem-se no entanto em torno de um certo
 u            c˜
n´mero de op¸oes.

                                          a
1) Trata-se em primeiro lugar da importˆncia dada aos modelos episte-
    o                   ˆ            e
mol´gicos formados no ambito das ciˆncias da natureza ou, mais precisa-
mente, da necessidade de um confronto entre abordagens aparentemente
 a
t˜o afastadas uma das outras quanto a etnologia, a neurofisiologia, as ma-
    a                       e                         a           uıstica).
tem´ticas (e no campo das ciˆncias humanas, a psican´lise, a ling¨´
Todos os autores que acabamos de citar colocam o problema da passagem de
                                                        a
um modo de conhecimento para outro, assim como a quest˜o da validade da
        e
transferˆncia dos modelos.

Partindo do ”princ´                                    e        ıvel
                     ıpio de incerteza”de Heiscnbcrg (´ imposs´ determinar
                                        a                       ca
ao mesmo tempo e com igual precis˜o a velocidade e a posi¸˜o do el´tron, e
                 ca                  c˜
pois sua observa¸˜o cria uma situa¸ao que o modifica), Devereux, o primeiro,
                   e
mostra que o que ´ verdadeiro no campo da f´           a      e
                                               ısica quˆntica ´ mais verdadeiro
                e
ainda no das ciˆncias humanas e, particularmente, da etnologia: a presen¸a   c
                                    o                              c˜
de um observador (no caso, o etn´grafo) provoca uma perturba¸ao do que ´       e
                             c˜
observado, e essa perturba¸ao, longe de ser uma fonte de erros a ser neutra-
        e            a                          co            e
lizada, ´ pelo contr´rio uma fonte de informa¸˜es que conv´m explorar.

                   e
Partindo da cibern´tica inventada por Norbert Wiener em 1848 a partir da
        c˜                      a
elabora¸ao da pilotagem autom´tica, Bateson, de volta de Bali, percebe que
os princ´                                           ca
         ıpios de Wiener podem trazer uma renova¸˜o total para o estudo
              ca                                                e     a a
da comunica¸˜o humana, e, particularmente, das ferramentas, at´ ent˜o n˜o
utilizadas para abordar os sistemas interativos em jogo nas nossas trocas.

      e
Ora, L´vi-Strauss, quase tanto quanto Bateson, recorre a esse modelo nascido
                                                                              105

            c˜   u            o                                     c˜ a
da fecunda¸ao m´tua da eletrˆnica e da biologia. Desde a sua Introdu¸ao `
                                e
Obra de Mareei Mauss (o qual ´ incontestavelmente o pai do estruturalismo
     e         e
francˆs, e tamb´m o ”mestre”a quem Devereux dedica seus Ensaios de Et-
                       e
nopsiquiatria Geral), L´vi-Strauss refere-se a Wiener e Neumann.

                                c
2) A partir dos anos 50, come¸a a desenvolver-se, tanto na Europa quanto
nos Estados Unidos, um modelo que Winkin qualifica de ”modelo orques-
                  c˜         ´        a                         `
tral da comunica¸ao”, esta ultima n˜o sendo mais concebida a maneira te-
    a                                              ´
legr´fica de um emissor transmitindo em sentido unico uma mensagem a um
         a                                                   c˜
destinat´rio, mas como um complexo de elementos em situa¸ao de intera¸oes c˜
cont´         a      o                         a
     ınua e n˜o aleat´ria. Disso decorre a met´fora da orquestra participando
          c˜
da execu¸ao de uma partitura ”invis´                 c˜
                                      ıvel”, na execu¸ao da qual cada um dos
  u          a                      o
m´sicos est´ envolvido. Os antrop´logos americanos que se inscrevem nessa
corrente insistem sobre o fato de que (

imposs´      a
       ıvel n˜o comunicar, todo comportamento humano (do vozerio mais
intenso ao mutismo absoluto, pontuado por gestos, posturas, m´        ımicas, ex-
     o
press˜es do rosto por m´ ınimas que sejam) consistindo em trocar mensagens
    u                    a                                      e
freq¨entemente involunt´rias. Ora, a tarefa do pesquisador ´ precisamente a
de evidenciar essas regras gramaticais constitutivas da linguagem tanto ver-
             a              e                                 o     e
bal quanto n˜o verbal, isto ´, na realidade, a cultura, cuja l´gica ´ irredut´ıvel
`
a soma de seus elementos.

                                         e              c
Lembremos mais uma vez que existem, ´ claro, diferen¸as muito importan-
                                                       e
tes entre o estruturalismo europeu, em particular francˆs, e o interacionismo
                                    `        ca            e
americano. Mas eles visam juntos a constru¸˜o do que L´vi-Strauss chama
        e                  c˜               ´                      e
uma ”ciˆncia da comunica¸ao”. Para este ultimo, toda cultura ´ uma mo-
                                 c˜
dalidade particular da comunica¸ao (das mulheres, das palavras, dos bens),
                                       a          a
regida por leis inconscientes de inclus˜o e exclus˜o. E quando o autor da
Antropologia Estrutural realiza, na parte mais recente de sua obra, o estudo
                          e `                                        a
dos mitos, refere-se tamb´m a imagem de uma partitura musical n˜o escrita
                               o
e sem autor, expressando o pr´prio inconsciente da sociedade.

                                    a                                e
Se a etnopsiquiatria de Devereux n˜o deve nada a essa abordagem ”sistˆmica”,
            e                                                 c˜      uıstica,
relutando at´, frente a quaisquer empreendimentos de formaliza¸ao ling¨´
                  a                                            e
ela acentua o car´ter eminentemente relacionai do objeto das ciˆncias huma-
            o
nas: os fenˆmenos estudados tanto pelo cl´                         o
                                             ınico quanto pelo etn´logo s˜oa
   o                     a
fenˆmenos que nunca s˜o dados em estado bruto, tratando-se simplesmente
         e                 o                               c˜
de recolhˆ-los, e sim fenˆmenos provocados em uma situa¸ao de intera¸ao  c˜
                                               e
particular com atores particulares, e que conv´m analisar, procurando com-
                                   ca                o        c˜
preender a natureza da perturba¸˜o envolvida na pr´pria rela¸ao que liga o
106CAP´                                         ˆ
      ITULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA:

”observador”e o ”observado”.

            e          o             e               e                 c˜
3) A experiˆncia etnol´gica – que ´ antes experiˆncia de uma rela¸ao hu-
            e                          a
mana, isto ´, de um encontro – se d´ no inconsciente: inconsciente freudi-
               e               e
ano, mas tamb´m inconsciente ´tnico para Devereaux, inconsciente estrutural
       e                e
para L´vi-Strauss. Isto ´, ”estrutura inata do esp´  ırito humano”. situada no
ponto de encontro entre a natureza e a cultura; mas estrutura que se expressa
                o
sempre na ”hist´ria particular dos indiv´ıduos e dos grupos”, produzindo cons-
                       e
tantemente aspectos in´ditos. Ou seja, tanto para o estruturalismo quanto
                                 ae
para etnopsiquiatria (mas isso j´ ´ menos verdadeiro para o conjunto da an-
               e                            e      e       u
tropologia sistˆmica americana, cuja tendˆncia ´, freq¨entemente, emp´    ırica
como nos Estados Unidos), o sentido do que fazem os homens deve ser procu-
rado menos no que dizem do que no que encobrem, menos no que as palavras
expressam do que no que escondem.

                               o
4) Todo o pensamento antropol´gico que procuramos aqui descrever inscreve-
                               e
se claramente no quadro das ciˆncias humanas (ou, como se diz nos Estados
                 e                             a            e
Unidos, das ”ciˆncias do comportamento”) e n˜o no das ciˆncias sociais.
                  ´                        e                          o
Enquanto estas ultimas ”aceitam sem reticˆncias estabelecer-se no pr´prio
ˆ                                         e                   e
amago de sua sociedade”, como escreve L´vi-Strauss (1973) – ´ o caso da
economia, da sociologia, do direito, da demografia –, as primeiras, visando
                                                               e
”apreender uma realidade imanente ao homem, colocam-se aqu´m de todo
indiv´ıduo e de toda sociedade”.

                                                         o
O exemplo da primeira obra de Bateson, A Cerimˆnia do Naven (1936)
                                                                  `         e
parece-me particularmente revelador. Em primeiro lugar, devido a sila exigˆncia
de pluridisciplinaridade (e. especialmente, de pluridisciplinaridade entre a
abordagem etnol´gica e psicol´gica),1 mas que n˜o ´ concebida, de forma
                   o            o                    a e
         `
alguma, a maneira da antropologia cultural. O autor estuda os diferentes
          ıveis de rela¸oes dos indiv´
tipos poss´             c˜           ıduos para com a sociedade e, mais espe-
                     c˜
cificamente, as rea¸oes dos indiv´              `     co                  ıduos.
                                  ıduos frente as rea¸˜es de outros indiv´
                                       a
Em seguida, e sobretudo, por seu car´ter inovador no campo da antropolo-
             o          e
gia anglo-saxˆnica da ´poca, caracterizada notadamente pela monografia. A
                                             e         e
partir da cultura dos latmul da Nova Guin´, mas al´m dessa cultura, o que
                      e
interessa Bateson, ´ a possibilidade de aceder a uma teoria transcultural,
                        a                                 a
cujos conceitos poder˜o ser utilizados na com preens˜o de outras socieda-
                 e                      e
des. Ora, ningu´m insistiu mais que L´vi-Strauss e Devereux sobre o fato de

   1
                 a          e                                      e      e
    Essa problem´tica, que ´ o eixo de toda a obra de Devereux ´ tamb´m uma das
         co              e                                  e
preocupa¸˜es maiores de L´vi-Strauss, que escreve em La Pens´e Sauvage que ”a etnologia
e
´ antes uma psicologia
                                                                           107

                              a
que as culturas particulares n˜o podiam antropologicamente ser apreendidas
          e     `                                               e
sem referˆncia a ”cultura”(Devereux), ”esse capital comum”(L´vi-Strauss)
                                          e
que utilizamos para elaborar nossas experiˆncias tanto individuais como co-
                            a
letivas. Disso decorre o car´ter claramente ”metacultural”(Devereux) desse
                      a
pensamento, que est´ rigorosamente no oposto do ”culturalismo”, e emi-
                                                   c˜
nentemente fundador da possibilidade da comunica¸ao tanto intersubjetiva
quanto intercultural.

5) Quer´ ıamos finalmente insistir sobre o fato de que essas diferentes abor-
          a                                     a
dagens s˜o abordagens da totalidade, refrat´rias a qualquer atitude reduci-
             e
onista, isto ´, considerando apenas um aspecto parcelar da realidade social,
     e                         ´               e
atrav´s de um instrumento unico. Para L´vi-Strauss como para Bateson,
  a                      c˜                                           o
n˜o existem nunca rela¸oes de causalidade unilinear entre dois fenˆmenos,
                co
e sim ”correla¸˜es funcionais”. E se a abordagem da etnopsiquiatria em
    c˜ a                                        e     e
rela¸ao ` da antropologia estrutural ou sistˆmica ´ claramente anal´   ıtica, e
  a      e
n˜o sint´tica, enquadra-se dentro de uma epistemologia da complementari-
                                                  c˜
dade, fundada sobre a necessidade da articula¸ao de enfoques habitualmente
                                                  o
tomados como separados. Por todas essas raz˜es, a antropologia assim con-
           e
siderada ´, de acordo com o termo proposto por Jean-Marie Auzias (1976),
                                                     a
um ”pensamento dos conjuntos”, preocupado em n˜o deixar escapar nada na
          ca                                                      e
investiga¸˜o do social, e, por isso, inventivo de modelos que conv´m qualificar
de ”complexos”.

                 e                 a                         ca
A abordagem de L´vi-Strauss ocupar´ portanto agora nossa aten¸˜o. Essa
                          e
abordagem procede de uma s´rie de rupturas radicais.

1) Ruptura em primeiro lugar com o humanismo e a filosofia, isto ´, as    e
                                                              c˜
ideologias do sujeito considerado enquanto fonte de significa¸oes. A meto-
dologia estrutural inverte a ordem dos termos em que se apoiava a filosofia.
             a     a                      `        e               e
O sentido n˜o est´ mais dessa vez ligado a consciˆncia, a qual se vˆ descen-
trada pelo projeto estrutural, como pelo projeto freudiano. Rompendo com a
                                  c                                       e
tagarelice do sujeito, ”essa crian¸a mimada da filosofia”, como escreve L´vi-
                     c˜                                              uıstica,
Strauss, as significa¸oes devem ser doravante buscadas no ”ele”da ling¨´
                        a
como no ”id”da psican´lise. Ou seja, eu sou pensado, sou falado, sou agido,
sou atravessado por estruturas que me preexistem. Assim, a antropologia
               a
como a psican´lise intro-duzem uma crise na epistemologia da racionalidade:
               ıdo                           e                       c˜
o lugar atribu´ ao sujeito transcendental ´ questionado pela irrup¸ao da
         a
problem´tica do inconsciente.

                  ca                    o                       e
2) Ruptura em rela¸˜o ao pensamento hist´rico: o evolucionismo, ´ claro,
         e                                            ´           e
mas tamb´m qualquer forma de historicismo. Para este ultimo, que ´ ne-
108CAP´                                         ˆ
      ITULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA:

                  e              e                                      e
cessariamente gen´tico, explicar ´ procurar uma anterioridade, isto ´, tentar
compreender o presente atrav´s do passado. A a
                              e                 ` an´lise dos processos em ter-
              ca            o
mos de explica¸˜o causai, op˜e-se a inteligibilidade estrutural, inteligibilidade
         o                    c˜
combinat´ria de uma institui¸ao, de um comportamento, de um relato. . .

3) Ruptura com o atomismo, que considera os elementos independentemente
                                                     uıstico, o sentido de
da totalidade. O modelo do estruturalismo sendo ling¨´
           o                                        c˜ `
um termo s´ pode ser compreendido dentro de sua rela¸ao as outras palavras
    ıngua ou do que for an´logo a esta.
da l´                     a

                                                           c
4) Ruptura, finalmente, com o empirismo. ”Para alcan¸ar o real, ´ pre-  e
                                        e                         o
ciso primeiro repudiar o vivido”, diz L´vi-Strauss em Tristes Tr´picos. Ou
                    ıfico deve ser arrancado da experiˆncia da impress˜o, da
seja, o objeto cient´                                 e                a
       c˜         a                      e
percep¸ao espontˆnea. Para isso, conv´m colocar-se ao n´          a
                                                            ıvel n˜o mais da
palavra e sim da l´        a                                  o
                   ıngua, n˜o mais, voltaremos a isso, da hist´ria consciente
                                                          ´
do que fazem os homens, e sim do sistema que ignoram. E toda a diferen¸a   c
                           e                           e          e
entre o estruturalismo inglˆs e o estruturalismo francˆs. Para L´vi-Strauss,
                                                      c˜
Radcliffe-Brown confunde a estrutura social e as rela¸oes sociais. Ora. estas
 a                                            c                       a
s˜o apenas os materiais utilizados para alcan¸ar a estrutura, a qual n˜o tem
                             `                      a
como objetivo substituir-se a realidade e sim explic´-la. Mais precisamente,
                e                    c˜
uma estrutura ´ um sistema de rela¸oes suficientemente distante do objeto
                                            a
que se estuda para que possamos reencontr´-lo em objetos diferentes.
                                     ***
             e           a           o
Assim, atrav´s da invers˜o epistemol´gica que realiza, abrindo uma compre-
    a
ens˜o nova da sociedade, o pensamento estrutural nos mostra que a extra-
      a                     co
ordin´ria variedade das rela¸˜es emp´         o                 ıvel
                                      ıricas s´ se torna intelig´ a partir do
                                                        u
momento em que percebemos que existe apenas um n´mero limitado de es-
        c˜
trutura¸oes poss´ıveis dos materiais culturais que encontramos, um n´merou
                                 c˜           c
limitado de invariantes. As rela¸oes de alian¸a entre homens e mulheres pa-
recem, a primeira vista, praticamente infinitas. Mas oscilam sempre entre
alguns grupos: comunismo sexual, levirato, sororato, casamento por rapto,
                            a                                      c˜
poligamia, monogamia, uni˜o livre. Da mesma forma, as rela¸oes dos ho-
mens com a divindade sempre se organizam a partir de um pequeno n´mero   u
      co
de op¸˜es poss´ıveis: o monote´ısmo, polite´ısmo, mante´ ısmo, ate´ısmo, agnos-
ticismo.

Foi a partir do campo do parentesco que se constituiu o estruturalismo de
 e                                    e                  a
L´vi-Strauss. Para este, o parentesco ´ uma linguagem. N˜o se pode compre-
    e                  a        ıvel
endˆ-lo efetuando a an´lise ao n´ dos termos (o pai, o filho, o tio materno
                                                       ıvel
em uma sociedade matrilinear. . .), muito menos ao n´ dos sentimentos
                                                                                    109

que podem animar os diferentes membros da fam´             ´
                                                     ılia. E preciso colocar-se
     ıvel         co                                                     a
no n´ das rela¸˜es entre estes termos, regidas por regras de troca an´logas
`           a          ıngua. Mas a an´lise estrutural das rela¸oes de alian¸a
as leis sint´ticas da l´              a                        c˜            c
                  a                     ca
e parentesco est´ longe de ser a aplica¸˜o pura e simples de um modelo (o
        uıstica). Quando se estuda o parentesco, a linguagem ou a economia,
da ling¨´
                                                                ´
estamos na realidade frente a diferentes modalidades de uma unica e mesma
    c˜                c˜                    e     o
fun¸ao: a comunica¸ao (ou a troca), que ´ a pr´pria cultura emergindo da
                                                    ´        a
natureza para introduzir uma ordem onde esta ultima n˜o havia previsto
                                                      e
nada. Mais precisamente, a reciprocidade – que ´ a troca atuando e que
                               c˜                              a
exige uma teoria da comunica¸ao – pode ser localizada em v´rios n´    ıveis:

   • ao n´                  e
          ıvel da cultura: ´ a troca de mulheres (parentesco), de palavras
          uıstica), de bens (economia), mulheres, palavras e bens sendo ter-
     (ling¨´
     mos que se trocam, informa¸oes que se comunicam;2
                                  c˜

   • no ponto de encontro entre a natureza e a cultura, isto ´, ao n´ de
                                                             e      ıvel
                                        e             e
     um inconsciente estrutural, que, al´m da contingˆncia dos materiais
     programados, reorganiza incessantemente estes mesmos materiais.

                      e                   a
Dois exemplos a que L´vi-Strauss recorre v´rias vezes em sua obra, permitem
                        a
compreender essa invers˜o de perspectiva que realiza a metodologia estrutu-
      a                                        o
ral. S˜o os exemplos do baralho e do caleidosc´pio:

             e                                        a
”O homem ´ semelhante ao jogador pegando na m˜o, ao sentar ` mesa,  a
              a             a                         e
cartas que n˜o inventou, j´ que o jogo de baralho ´ um dado da hist´ria o
             ca                                    ca
e da civiliza¸˜o. Fm segundo lugar, cada reparti¸˜o das cartas resulta de
               ca                                       a
uma distribui¸˜o contingente entre os jogadores, e se d´ independentemente
                                             co          a
da vontade de cada um. Existem as distribui¸˜es que s˜o sofridas, mas que
                                                             a
cada sociedade, como cada jogador, interpreta nos termos dc v´rios sistemas,
que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo, ou regras de uma
 a                                                  ca
t´tica. E sabe-se bem que, com a mesma distribui¸˜o, jogadores diferentes
 a            a                             a
n˜o fornecer˜o a mesma partida, embora n˜o possam, compelidos tamb´m     e
                                                      ca
pelas regras, fornecer com uma determinada distribui¸˜o qualquer partida”.

                 o               ca                   e
”Em um caleidosc´pio, a combina¸˜o de elementos idˆnticos sempre d´ no-a
                    e              o                         a
vos resultados. Mas ´ porque a hist´ria dos historiadores est´ presente nele
                        a                                               co
– nem que seja na sucess˜o de chacoalhadas que provocam as reorganiza¸˜es
   2
           o                         e              a
    ”As pr´prias mulheres”, escreve L´vi-Strauss. ”s˜o tratadas como signos dos quais se
               a      a                                       e
abusa quando n˜o se d´ a elas o uso reservado aos signos, que ´ de serem comunicados”.
E a antropologia tem como tarefa a de estabelecer as regras da troca, diferentes dc uma
sociedade para outra, mas que permanecem em todos os casos independentes da natureza
dos parceiros
110CAP´                                         ˆ
      ITULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA:

                                            c
da estrutura – e as chances para que reapare¸a duas vezes o mesmo arranjo
 a
s˜o praticamente nulas.”

                                                        a
Todo o programa e toda a abordagem do estruturalismo est˜o nesses dois
textos:

          e                  u                                      e
1) a existˆncia de um certo n´mero de materiais culturais sempre idˆnticos,
                                                o
que, como as cartas ou os elementos do caleidosc´pio, podem ser qualificados
de invariantes;

                          c˜
2) as diferentes estrutura¸oes poss´                             e
                                    ıveis destes materiais (isto ´, as manei-
ras com as quais se organizam entre si quando passamos de uma cultura
                       e                   a    a       u
para outra, ou de uma ´poca outra) que n˜o est˜o em n´mero ilimitado, pois
 a                          e
s˜o comandadas pelo que L´vi-Strauss chama de ”leis universais que regem
                                  ırito”;
as atividades inconscientes do esp´

                       a     `        c˜                           o
3) finalmente, compar´veis a aplica¸ao de leis gramaticais, o pr´prio de-
                                                          o          a
senrolar do jogo de baralho ou os movimentos do caleidosc´pio que n˜o para
                   e                                    o
de girar, com algu´m que observa esse processo – o etn´logo – dirigindo, no
                           o                                             e
caso do autor de Tristes Tr´picos, sobre o que percebe, um olhar que conv´m
                e
qualificar de est´tico.

 e             a                                      a              a
L´vi-Strauss n˜o ignora a diversidade das culturas – j´ que procurar´ preci-
                                    o
samente dar conta dela – nem a hist´ria. Mas, de um lado desconfia de um
”ecletismo apressado”que confundiria as tarefas e misturaria os programas”.
E, de outro, considera que para compreender o movimento das sociedades ´   e
          a               ıvel        e                                o
preciso n˜o se situar ao n´ da consciˆncia que o Ocidente tem da hist´ria.
            e         o                   a
Essa consciˆncia hist´rica do ”progresso”n˜o carrega consigo nenhuma ver-
      e                   e                                    e
dade, ´ um mito que conv´m estudar como os outros mitos, isto ´, estendendo
        c
no espa¸o aquilo que o historiador percebe como escalonado no tempo.

    e
Tal ´ o significado do conceito de estrutura que Pouil-lon (1966) define como
                            co
”a sintaxe das transforma¸˜es que In/em passar de uma variante para ou-
            e                    a              u                         c˜
tra”, pois ”´ essa sintaxe que d´ conta de seu n´mero limitado, da explora¸ao
                               o                      o     e
restrita das possibilidades te´ricas”. Ou seja, a hist´ria ´ um jogo no qual
                                                a
a identidade dos parceiros tem menos importˆncia que as partidas jogadas,
                                           a
e mais ainda as regras das partidas jog´veis. Ao comentar o pensamento
     e                                            a           a
de L´vi-Strauss, Pouillon recorre notadamente ` dupla met´fora do bridge e
                                            e         a
do jogo de xadrez. Enquanto no bridge ´ indispens´vel conhecer as cartas
                                                         c˜
que acabaram de ser jogadas, no xadrez, qualquer posi¸ao do jogo pode ser
compreendida sem que se tenha conhecimento das jogadas anteriores. Ora,
                                                                         111

 e                               a
L´vi-Strauss considera que o est´gio da partida jogada pelas sociedades oci-
        e
dentais ´ hoje desastroso, enquanto que as que foram jogadas pelas sociedades
                                             a
que se insiste em qualificai de ”primitivas”s˜o infinitamente mais humanas.
112CAP´                                         ˆ
      ITULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEMICA:
   ıtulo 11
Cap´

                  a
A Antropologia Dinˆmica:

                                                                   c
A antropologia cultural insiste ao mesmo tempo sobre a diferen¸a das cul-
                    c˜ a
turas umas em rela¸ao `s outras, e sobre a unidade de cada uma delas. A
                                         o
antropologia que qualificamos de simb´lica abre, notadamente atrav´s de   e
               c˜                                               o
sua reivindica¸ao antietnocentrista, uma perspectiva muito pr´xima da an-
terior, mas que se empenha em explorar particularmente um certo n´mero  u
         u
de conte´dos materiais (os mitos, os ritos) e de estruturas formais (a espe-
                o
cificidade das l´gicas do conhecimento expressando-se notadamente atrav´s     e
das l´ınguas). A antropologia estrutural, por sua vez, faz aparecer, como
acabamos de ver, uma identidade formal (um inconsciente universal) infor-
                                    u                             ´
mando uma multiplicidade de conte´dos materiais diferentes. O ultimo p´lo   o
                        a              o
do pensamento e da pr´tica antropol´gicos que estudaremos agora aparece
                          o
como ao mesmo tempo pr´ximo e diferente da antropologia social cl´ssica.a
   o                                  c˜
Pr´ximo, porque evidencia a articula¸ao de diferentes n´ıveis do social dentro
de uma determinada cultura. Diferente, porque opera uma ruptura total com
          c˜                                             e        e
a concep¸ao de Malinowski ou de Durkheim, mas tamb´m de L´vi-Strauss,
de sociedades (”primitivas”, ”selvagens”ou ”tradicionais”)harmoniosas e in-
                                                          c
tegradas, em proveito do estudo dos processos de mudan¸a, ligados tanto ao
                       e
dinamismo interno que ´ caracter´                                   `      co
                                 ıstico de toda sociedade, quanto as rela¸˜es
           e
que mantˆm necessariamente as sociedades entre si.

                                                     e
O que caracteriza essencialmente as diferentes tendˆncias dessa antropologia
                             a       e        c˜                 a
que qualificamos aqui de dinˆmica, ´ sua rea¸ao comum frente ` orienta¸˜o,ca
do seu ponto de vista conservadora, que pode ser encontrada dentro dos qua-
     o
tro p´los de pesquisa que, para maior clareza, acabamos de distinguir. Prati-
                                              o
camente, de fato, todas as perspectivas etnol´gicas que se elaboram a partir
                                        o
dos anos 30 (a antropologia social, simb´lica, cultural) e que conhecem, para
                    ca
muitas, uma renova¸˜o durante os anos 50, com o impulso particularmente
      a                   a
da an´lise estrutural, est˜o animadas por uma abordagem claramente anti-

                                     113
114                   CAP´                           ˆ
                         ITULO 11. A ANTROPOLOGIA DINAMICA:

                      a                                                 e
evolucionista. O car´ter especulativo da antropologia dominante do s´culo
                                          c˜        o
passado explica em grande parte essa rea¸ao a-hist´rica de nossa disciplina.
                                u
No entanto, tudo se passa freq¨entemente como se as sociedades preferen-
           e                                                 o          e
cial, ou at´ exclusivamente estudadas pela maioria dos antrop´logos do s´culo
                            c˜
XX, fossem isentas de rela¸oes com seus vizinhos, existissem dentro de um
              o           a                                             c˜
quadro econˆmico e geogr´fico mundial, e ignorassem tudo das contradi¸oes,
                                                o
dos antagonismos e das rupturas que seriam pr´prias apenas das sociedades
ocidentais.

Insistindo tanto sobre a natureza repetitiva e rotineira das sociedades vistas
         o                    e              o
como im´veis ou, como diz L´vi-Strauss, ”pr´ximas do grau zero de tempera-
         o                                                  c˜
tura hist´rica”, chega-se a considerar anormal a transforma¸ao. E dissocia-se,
                      u                            ´                 e
por isso mesmo, um n´cleo considerado essencial, unico objeto da ”ciˆncia”(a
integridade, estabilidade e harmonia dos grupos humanos que souberam pre-
                                         ca                              e
servar uma arte de viver), e uma sujei¸˜o julgada acidental (as perip´cias
       ca                                     c˜
da rea¸˜o com o colonialismo), Essa separa¸ao artificial de um objeto que
poderia ser apreendido em estado puro, pois estaria cm si ainda puro de qual-
         o
quer esc´ria da modernidade, e de um contexto (os grandes acontecimentos
               e                                  o     oe      ıvel
mundiais do s´culo XX) considerado como aleat´rio, s´ ´ poss´ porque se
                           o
consegue enquadrar o fenˆmeno assim recortado nos moldes de um quadro
  o                                                          ca
te´rico que funciona, em muitos aspectos, como uma oculta¸˜o da realidade.

Pois as sociedades emp´        a             o         e          e
                        ıricas `s quais o etn´logo do s´culo XX ´ confrontado
  a a                                                    a
n˜o s˜o nunca essas sociedades atem porais inencontr´veis, ficticiamente ar-
                 o                                               c˜
rancadas da hist´ria, e sim sempre sociedades’ em plena muta¸ao, nas quais,
                                         o      o
pegando apenas um exemplo, as miss˜es cat´licas e protestantes abalaram
  a
h´ muito tempo o edif´                 o
                        ıcio das religi˜es tradicionais Recusando-se a tomar
              ca                                             c
em considera¸˜o a amplitude e a profundidade das mudan¸as sociais, somos
                                 a
levados a apagar tudo o que n˜o entra no quadro que se pretende estudar
–um pouco como nesses filmes magn´                      ındios da Amazˆnia ou
                                        ıficos sobre os ´              o
os abor´                a
        ıgines da Austr´lia, em que evacuam-se as garrafas de Coca-Cola e
tanques de gasolina da Standard Oil para preservar a beleza das imagens.
         a                                              c˜     e
Mas ent˜o, devemos temer que essa quase-transmuta¸ao est´tica, essa preo-
     c˜                o                                            o
cupa¸ao que tem o etn´logo na realidade, menos em realizar ele pr´prio uma
obra de arte do que contemplar modos de vida que seriam em si obras de
                         e
arte (de Malinowski a L´vi-Strauss, passando por Griaule e Margaret Mead),
   c                               c˜
fa¸a esquecer a realidade das rela¸oes sociais.

     e                                 e                          o
Ora, ´ precisamente contra essa tendˆncia do pensamento etnol´gico que
            u               o                a
um certo n´mero de antrop´logos contemporˆneos se levantam. A partir de
uma cr´ıtica vigorosa tanto do funcionalismo quanto do estruturalismo, toda
                                                                                            115

sua abordagem consiste, de acordo com as palavras de Paul Mercier (1966),
                                                           c
em aceitar ”a morte do primitivo”e ”reabilitar”a mudan¸a. Para eles, esta
  a e                                                      c˜
n˜o ´ mais de forma alguma apreendida como a destrui¸ao de uma identi-
dade que se caracteriza por um estado de equil´  ıbrio e harmonia. Ou seja,
     e                               a                      c
conv´m deixar de ter uma compreens˜o negativa da mudan¸a social, pois esta
e                    o
´ co-extensiva ao pr´prio social, e deve, portanto, se tornar um dos pontos
               a                        ue                         e
centrais da an´lise do social. A conseq¨ˆncia desse novo enfoque ´ o desa-
                       c˜                  e
parecimento da oposi¸ao, essencial para L´vi-Strauss, e.’.tre as ”sociedades
                                                                 `
frias”e as ”sociedades quentes”; desaparecimento que pode levar a recusa de
                  ca           e
uma outra distin¸˜o que tamb´m deixa de ser reconhecida como pertinente:
a da antropologia e da sociologia.1 Esse neo-evolucionismo, particularmente
forte nos Estados Unidos; e do qual encontramos uma das mais importantes
       c˜
realiza¸oes nos trabalhos de Marshall Sahlins (1980), insiste notadamente
                                             a      a
sobre o seguinte ponto: prolongar a problem´tica, j´ instaurada por Morgan
  a      e                                                       o
h´ um s´culo, mas sobre bases dessa vez indiscutivelmente etnol´gicas, que
  a                    `            co        e          e
n˜o devem mais nada as reconstitui¸˜es hipot´ticas do s´culo XIX e que per-
                          ca
mitem pensar numa evolu¸˜o resolutamente ”plural”da humanidade.

 a e
N˜o ´ evidentemente poss´ ıvel, dentro do quadro limita do desse trabalho,
dar conta da riqueza e diversidade das pesquisas que de uma forma ou de
outra participam hoje do desenvolvimento extremamente ativo dessa antro-
                                a
pologia que qualificamos de dinˆmica. Seria conveniente, por exemplo, falar
dos trabalhos de Max Gluckman (1966), de Jacques Bergue (1964), ou ainda,
            ca                u              o                         ca
da contribui¸˜o de um certo n´mero de antrop´logos franceses de orienta¸˜o
                                                   ´                  a
marxista, que notadamente renovaram, durante os ultimos 25 anos, a ´rea

   1
                                             e                 e       e
    Se praticamente toda a antropologia do s´culo XX teve tendˆncia, at´ recentemente,
                                               a                   a             e
a considerar que as sociedades ”tradicionais”s˜o sociedades imut´veis, tal tendˆncia
e                                    c                       a          ca
´ provavelmente mais forte na fran¸a, devido notadamente ` preocupa¸˜o de muitos
   o                   ıs         ca
etn´logos de nosso pa´ em rela¸˜o aos sistemas m´                o
                                                    ıtico-cosmol´gicos. Disso decorre
      ca                   c               u
a rea¸˜o que leva na Fran¸a um certo n´mero de pesquisadores (Baslide. Desroclic,
Balandier, Thomas...) a libertarem-se desse ponto de vista considerado passadista e a
preferirem a terminologia de ”sociologia”.

                                   a
Uma das correntes contemporˆneas mais marcantes desse pensamento ´ certamente      e
a que nasceu nos Estados Unidos, durante os anos 50, com o impulso de Leslie White
                                o
(1959), e que qualifica a si pr´pria de neo-evolucionismo. Este realiza, em primeiro lugar,
                                  ca                                       e   a
uma releitura e uma reabilita¸˜o da obra de Morgan, relegada at´ ent˜o, pela maioria
                                                                               e
dos pesquisadores, ao esquecimento. Descobre assim que essa obra cont´m uma intui¸˜o         ca
                   e               a            e                         ca         a
fecunda que conv´m explorar: n˜o se trata, ´ claro, dessa ”periodiza¸˜o”sistem´tica, sobre
                 a                 o                                                   a
a qual os advers´rios do antrop´logo americano tanto insistiram para desacredit´-lo, mas
de sua descoberta de uma indissociabilidade de n´      ıveis do social (a tecnologia, a ecologia,
     ılia, as institui¸˜es pol´
a fam´                co                      a
                              ıticas, a religi˜o) estreitamente imbricadas, formando o que o
pr´prio Morgan chama de ”estruturas”, que evoluem dentro de per´
  o                                                                       ıodos sucessivos.2
116                        CAP´                           ˆ
                              ITULO 11. A ANTROPOLOGIA DINAMICA:

da antropologia econˆmica.3 Dois autores ir˜o deter mais demo-radamente
                    o                      a
          c˜
nossa aten¸ao: Georges Balandier e Roger Bastide.

                     c˜                                 ca
Uma das preocupa¸oes de Balandier, desde a publica¸˜o de suas primeiras
               ´                     e                e
obras sobre a Africa negra (1955), ´ mostrar que conv´m interessar-se para to-
                                   a
dos os atores sociais presentes (n˜o mais apenas os ”ind´                  e
                                                         ıgenas”, mas tamb´m
           a                                                      ca
os mission´rios, os administradores e outros agentes da coloniza¸˜o), pois to-
                                          ca
dos fazem parte do campo de investiga¸˜o do pesquisador. Por outro lado,
                      o
Balandier nos prop˜e uma cr´                       c˜                c˜
                                ıtica radical da no¸ao de ”integra¸ao”social,
                 a                        c˜
que seria localiz´vel a partir da observa¸ao de grupos sociais ”preservados”.
                        a                       e           a
Considera, pelo contr´rio, que toda sociedade ´ ”problem´tica”. Ou seja, da
mesma forma que Griaule havia, como dissemos, mostrado que o complexo
  a e
n˜o ´ um produto derivado de formas originais – que seriam, por sua vez,
                                       a                      e
simples – Balandier considera que n˜o se deve opor uma in´rcia – para ele
absolutamente fict´  ıcia – que seria perturbada de fora por um dinamismo,
        ıstico apenas das nossas sociedades. Mas a compara¸˜o entre Gri-
caracter´                                                       ca
                    a                    ı.
aule e Balandier p´ra evidentemente a´ O primeiro efetua o levantamento
              ca                                                a
de uma tradi¸˜o ancestral, concebida por ele como quase imut´vel, enquanto
                                                      c
o segundo coloca as bases de uma teoria da mudan¸a social, que o levar´ a a
                                                    ca
empreender, no decorrer de suas obras a constitui¸˜o de uma antropologia
da modernidade.

                                           c                        o
Essa perspecitva de um estudo da mudan¸a social integrado ao pr´prio ob-
                 c˜                   a
jeto de investiga¸ao do pesquisador n˜o tinha sido. na realidade, totalmente
                          o                      e               e
ausente da cena antropol´gica da metade do s´culo XX. Conv´m lembrar
que, antes mesmo da Primeira Guerra Mundial, Malinowski, renunciando a      `
              a                     e
atitude ”romˆntica”que era sua na ´poca de suas estadias nas ilhas Trobri-
                                                               a
and, envolve-se, no final de sua vida, em uma perspectiva dinˆmica (1970).
                 a             e
E o mesmo se d´, na mesma ´poca e em muitos aspectos, para a reflex˜o      a
de Margaret Mead, assim como para os trabalhos da antropologia cultural
                              o                                 a      a
que se desenvolve durante o p´s-guerra. Mas os conceitos que s˜o ent˜o uti-
                                                                       c a
lizados (especialmente nos Estados Unidos) para dar conta da mudan¸a, s˜o
sempre conceitos neutros, dissimulando uma realidade colonial. Fala-se em
                                                                    c˜
”contatos culturais”, ”choques culturais”, e sobretudo em ”acultura¸ao”, ter-
                  a                          o            c˜
minologia que far´ sucesso. Balandier prop˜e a substitui¸ao pura e simples
      ´                            ca
deste ultimo termo pelo de ”situa¸˜o colonial”, que implica a realidade de
          c˜                  ca
uma rela¸ao social de domina¸˜o, quase sempre sistematicamente ocultada
                   a
na antropologia cl´ssica.


  3
      Cf. Cl. Meillassoux (1964), E. Terray (1969), P. P Rey (1971), M. Godelier (1973)
                                                                                 117

                 a
A partir disso, n˜o se fala mais em primitivos ou selvagens e sim em ”povos
                                             ca                           c˜
colonizados”, enquanto o processo da coloniza¸˜o, e depois, da descoloniza¸ao
se torna parte integrante do campo que se deve estudar. Esse processo, ou
                     e                               a
outros semelhantes, ´ que nos permitem apreender n˜o apenas as mudan¸as   c
                                              `         c
estruturais em andamento, mas as respostas as mudan¸as tais como se ela-
                               o
boram, por exemplo, nas metr´poles congolesas, sob a forma de movimentos
messiˆnicos (Balandier, 1955),4 ou tais como estou observando neste mo-
      a
                                                                       e
mento em Fortaleza, no Nordeste do Brasil, sob a forma de cultos sincr´ticos.

                                                           o
A obra de Roger Bastide aparece ao mesmo tempo muito pr´xima e muito di-
ferente da anterior. Muito diferente cm primeiro lugar, porque a abordagem
desse autor inscreve-se claramente, como vimos acima, no horizonte da an-
tropologia cultural. Mas Bastide, tanto quanto Balandier, procura incluir os
diferentes protagonistas sociais no campo de seu objeto de estudo. Ademais,
      e                                       c                  a    a
tamb´m insiste, de um lado, sobre as mudan¸as sociais ligadas ` dinˆmica
  o                                                                 c˜
pr´pria de uma determinada cultura; de outro, sobre a interpenetra¸ao das
        c˜                                             c˜
civiliza¸oes, que provoca um movimento de transforma¸oes ininterruptas.

                                           u
Todas essas pesquisas, mais uma vez freq¨entemente muito diferentes uma
das outras, inscrevem-se plenamente no projeto mesmo da antropologia, que
e                     c˜        e                           c
´ dar conta das varia¸oes, isto ´, notadamente das mudan¸as. Uma de suas
                  co e                                        a
maiores contribui¸˜es ´ de ter participado de forma consider´vel do desloca-
                     co                      o
mento das preocupa¸˜es tradicionais dos etn´logos, e de ter aberto novos lu-
                  c˜                                                      ca
gares de investiga¸ao: a cidade em especial, lugar privilegiado de observa¸˜o
                        o                            c˜
dos conflitos, das tens˜es sociais e das reeetrutura¸oes em andamento (cf.
                 e
quanto a isso, al´m dos trabalhos de Balandier citados acima, Oscar Lewis
(1963), Paul Mercier (1954), Jean-Marie Gibbal (1974) ).

Correlativamente, essa antropologia da modernidade (segundo a express˜o      a
                                                     e
de Balandier), que instaura uma ruptura com a tendˆncia intelectualista da
etnologia francesa, leva o pesquisador a interessar-se diretamente pela sua
  o
pr´pria sociedade. Finalmente, enfatizando a realidade conflitual das si-
    c˜            e          o            o                  uıstica. . .), ela
tua¸oes de dependˆncia (econˆmica, tecnol´gica, militar, ling¨´
 a                                 ca
n˜o opera apenas uma transforma¸˜o do objeto de estudo, mas inicia uma
                ca        a
verdadeira muta¸˜o da pr´tica da pesquisa.

Dito isso, se essa antropologia reorienta, ”complexifica”e ”problematiza”a
               a                             o
antropologia cl´ssica, seria no entanto irris´rio pensar que a abole.


  4
              e                             u
      Cf. tamb´m V. Lantemari (1962). W E. M¨hlmann (1968), F I.awrence (I974V
118   CAP´                           ˆ
         ITULO 11. A ANTROPOLOGIA DINAMICA:
        Parte III

                     a
A Especificidade Da Pr´tica
               o
      Antropol´gica




            119
   ıtulo 12
Cap´

                   o
Uma Ruptura Metodol´gica:

                  a       e
a prioridade dada ` experiˆncia pessoal
do ”campo”
                       o
A abordagem antropol´gica de base, a que todo pesquisador considera hoje
               a                                                c˜    o
como incontorn´vel, quaisquer que sejam por outro lado suas op¸oes te´ricas,
    e                                   c˜
prov´m de uma ruptura inicial em rela¸ao a qualquer modo de conhecimento
                              e       a                            c˜
abstrato e especulativo, isto ´, que n˜o estaria baseado na observa¸ao direta
                                                   c˜
dos comportamentos sociais a partir de uma rela¸ao humana.

  a                                          a                 a
N˜o se pode, de fato, estudar os homens ` maneira do botˆnico exami-
                  a          o                       a       o
nando a samamb´ia ou do zo´logo observando o crust´ceo; s´ se pode fazˆ-loe
                                     o                               e
comunicando-se com eles: o que sup˜e que se compartilhe sua existˆncia de
             a                                   o      e
maneira dur´vel (Griaule, Leenhardt) ou transit´ria (L´vi-Strauss). Pois a
                e
etnografia, que ´ fundadora da etnologia e da antropologia – a tal ponto que
alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em
Boas) consideram que toda s´        e
                             ıntese ´ sempre prematura, e que alguns ainda
                                    o                            a
hoje preferem qualificar-se de ”etn´grafos”(J. Favret, 1977) – n˜o consiste
                          e         e
apenas em coletar, atrav´s de um m´todo estritamente indutivo, uma grande
                        c˜
quantidade de informa¸oes, mas em impregnar-se dos temas obsessionais de
                                           u             o     e
uma sociedade, de seus ideais, de suas ang´stias. O etn´grafo ´ aquele que
                                           e
deve ser capaz de viver nele mesmo a tendˆncia principal da cultura que es-
                                                  co                    o
tuda. Se, por exemplo, a sociedade tem preocupa¸˜es religiosas, ele pr´prio
                      o                                            e
deve rezar com seus h´spedes. Para poder compreender o candombl´, ”foi-me
                                                 o
preciso mudar completamente minhas categorias l´gicas”, escreve Roger Bas-
                                                           a          o
tide (1978), acrescentando: ”Eu procurava uma compreens˜o mineral´gica e,
               a               co                 o
mais ainda, an´loga a organiza¸˜es vegetais, a cip´s vivos”.


                                    121
122                CAP´                            ´
                      ITULO 12. UMA RUPTURA METODOLOGICA:

                     e                e                   a
Assim, a etnografia ´ antes a experiˆncia de uma imers˜o total, consistindo
                              c˜
em uma verdadeira acultura¸ao invertida, na qual, longe de compreender
                                           c˜
uma sociedade apenas em suas manifesta¸oes ”exteriores”(Durkheim), devo
          a                co              o
interioriz´-la nas significa¸˜es que os pr´prios indiv´ ıduos atribuem a seus
                                    e                              ca
comportamentos. Quanto a isso, ´ significativo que, em sua Li¸˜o Inaugu-
             e
ral no Coll`ge de France, o autor da Antropologia Estrutural comece sua
       c˜
exposi¸ao por uma ”homenagem”ao ”pensamento supersticioso”, proclame
                  o                                     ´
que, ”contra o te´rico, o observador deve ficar com a ultima palavra; e con-
tra o observador, o ind´ıgena”, e termine seu discurso insistindo sobre tudo o
que deve a esses ´ındios do Brasil, de quem se considera um ”aluno”.

              a                           e
Essa apreens˜o da sociedade tal como ´ percebida de dentro pelos atores
                                          ca                    a
sociais com os quais mantenho uma rela¸˜o direta (apreens˜o esta, que n˜o    a
e                                           ca
´ de forma alguma exclusiva da evidencia¸˜o daquilo que lhes escapa, mas
                a
que, pelo contr´rio, abre o caminho para essa etapa ulterior da pesquisa), ´   e
                                   a           o           a
que distingue essencialmente a pr´tica etnol´gica – pr´tica do campo – da
                          o
do historiador ou do soci´logo. O historiador, de fato, se procura, como o
   o
etn´logo, dar conta o mais cientificamente poss´                        `
                                                    ıvel da alteridade a qual ´e
confrontado, nunca entra em contato direto com os homens e mulheres das
sociedades que estuda. Recolhe e analisa os testemunhos. Nunca encon-
                                 a a
tra testemunhas vivas. Quanto ` pr´tica da sociologia, pelo menos em suas
                e       a        a
principais tendˆncias cl´ssicas v´rias caracter´                          a
                                                ısticas a distinguem da pr´tica
     o                        a               e
etnol´gica considerada sob o ˆngulo que det´m aqui nossa aten¸˜o.  ca

                                        ca
1) Comporta um distanciamento em rela¸˜o a seu objeto, e algo frio, e ”de-
                       e
sencarnado”, como diz L´vi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano.

2) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado, parece ser capaz
                           ca                 c˜               a
de encontrar uma explica¸˜o e fornecer solu¸oes. Objetar-se-´ que pode, ´    e
                        o                   c      e                       c
claro, ser o caso do etn´logo. Com a diferen¸a, por´m, de que este se esfor¸a,
        o            o
por raz˜es metodol´gicas (e evidentemente afetivas), em co-colar-se o mais
            ıvel        e
perto poss´ do que ´ vivido por homens de carne e osso, arriscando-se a
                                                   a
perder em algum momento sua identidade e a n˜o voltar totalmente ileso
              e
dessa experiˆncia.

          o             a                                        e
3) O etn´logo evita, n˜o apenas por temperamento mas tamb´m em con-
    ue
seq¨ˆncia da especificidade do modo de conhecimento que persegue, uma
           c˜                                                 c˜
programa¸ao estrita de sua pesquisa, bem como a utiliza¸ao de protoco-
     ıgidos, de que a sociologia cl´ssica pensou poder tirar tantos benef´
los r´                             a                                     ıcios
cient´                      a               a
      ıficos. A busca etnogr´fica, pelo contr´rio, tem algo de errante. As ten-
tativas abordadas, os erros cometidos no campo, constituem informa¸˜es   co
                                                                        123

                                                    e
que o pesquisador deve levar em conta. Como tamb´m o encontro que
          u                                                        a
surge freq¨entemente com o imprevisto, o evento que ocorre quando n˜o
     a
esper´vamos.

  a                       e          a
N˜o nos enganemos, por´m, quanto `s virtudes do campo. Da mesma forma
                        c
que o fato de ter alcan¸ado uma cura anal´         a                 e
                                            ıtica n˜o garante que vocˆ possa
                                           u
um dia se tornar psicanalista, um grande n´mero de temporadas passadas em
                                                           a
contato com uma sociedade que se procura compreender n˜o o transformar´    a
                      o                  e            c˜        a
ipso jacto em um etn´logo. Trata-se por´m de condi¸oes necess´rias. Pois a
  a             o       o                                        a        e
pr´tica antropol´gica s´ pode se dar com uma descoberta etnogr´fica, isto ´,
                e
com uma experiˆncia que comporta uma parte de aventura pessoal.
124   CAP´                            ´
         ITULO 12. UMA RUPTURA METODOLOGICA:
   ıtulo 13
Cap´

          a     a
Uma Invers˜o Tem´tica:

o estudo do infinitamente pequeno e do
cotidiano
       o                   a       a                               a     `
A hist´ria, a sociologia cl´ssica d˜o uma prioridade quase sistem´tica a socie-
                         `
dade global, bem como as formas de atividades institu´   ıdas. Assim, por exem-
                                   c˜          a
plo, quando estudam as associa¸oes volunt´rias, privilegiam nitidamente as
grandes, suscet´ıveis de influenciar diretamente a (grande) pol´  ıtica: os parti-
                                                    co
dos, os sindicatos. . . em detrimento das associa¸˜es de menor importˆncia a
     e                       c˜
num´rica, como as associa¸oes religiosas, e sobretudo as formas menos or-
                                            c˜
ganizadas de socialidade. Nessas condi¸oes, a vida cotidiana dos homens
                   e
torna-se uma esp´cie de res´            o        a
                              ıduo irris´rio, a n˜o ser em se tratando (para o
                                                      o                 a
historiador) da vida dos ”grandes homens”. Os fenˆmenos sociais n˜o escri-
       a                  a                            e
tos, n˜o formalizados, n˜o institucionalizados (isto ´, na realidade, a maior
                      e       a       a
parte de nossa existˆncia) s˜o ent˜o rejeitados para o registro inconsistente
do ”folclore”.

                     o                                            c˜
A abordagem etnol´gica consiste precisamente em dar uma aten¸ao toda
especial a esses materiais residuais que foram durante muito tempo con-
                                            a
siderados como indignos de uma atividade t˜o nobre quanto a atividade ci-
          ´
   ıfica.1 E uma abordagem claramente microsso´ol´gica, que privilegia dessa
ent´                                            a o
            e                       a
vez o que ´ aparentemente secund´rio em nossos comportamentos sociais.
Disso resulta um deslocamento radical dos centros de interesse tradicionais
      e
das ciˆncias sociais, para o que chamarei de infinitamente pequeno e cotidi-
   1
                                                  e
    Trata-se evidentemente menos, no caso, da ciˆncia, do que de uma de suas vestimentas
     o                                                        e             e
ideol´gicas que escolhe os fatos estudados de acordo com crit´rios e pertinˆncias estranhas
                     ca
a qualquer preocupa¸˜o cient´                            o                               ca
                               ıfica, e os batiza de ”hist´ricos”, a partir da representa¸˜o
mestra do .acesso progressivo das sociedades humanas a um maior bem-estar, consciˆncia e
     a
e raz˜o.


                                           125
126                         CAP´                   ˜     ´
                               ITULO 13. UMA INVERSAO TEMATICA:

                               c˜                        co
ano. As doutrinas, as constru¸oes intelectuais,as produ¸˜es do pensamento
              o         o
erudito (filos´fico, teol´gico, cient´             a
                                     ıfico. . .) s˜o, nessa perspectiva, con-
sideradas menos como iluminadoras do que como devendo ser iluminadas.
              ca
Assim, a aten¸˜o do pesquisador passa a interessar-se para as condutas mais
                     e             u                         o
habituais e, em aparˆncia, mais f´teis: os gestos,as express˜es corporais, os
  a                                       c˜      ıdos da cidade e dos ru´
h´bitos alimentares, e higiene, a percep¸ao dos ru´                      ıdos
dos campos. . .

Embora o objeto emp´                          a
                         ırico da etnologia n˜o se confunda com o campo aberto
               ca                 co            o
pela coloniza¸˜o, as preocupa¸˜es dos etn´logos me parecem indefectivelni-
                              u             e
ente ligadas a um certo n´mero de crit´rios, que permitem definir as socie-
                                                                       a
dades nas quais nossa disciplina nasceu: grupos de pequena dimens˜o, nos
               c˜                                          a
quais as rela¸oes (exclusiva ou essencialmente orais) s˜o personalizadas no
                                    e                e
extremo. 0 problema que se vˆ aqui colocado ´ evidentemente o seguinte:
          a        o
como far´ o etn´logo quando se ver confrontado a sociedades gigantescas,
                         c˜                                    o
nas quais a comunica¸ao aparece como cada vez mais anˆnima? Resposta:
                                                                     a
ele vai em primeiro lugar procurar, dentro dessas sociedades, se n˜o encon-
tra objetos emp´   ıricos capazes de lembrar-lhe os bons tempos da etnologia
  a            e                       a
cl´ssica. E, ´ um fato, voltar-se-´ em primeiro lugar para a comunidade
                  a                                        ılia
camponesa (e n˜o para a cidade industrial), para a fam´ tradicional (e n˜o  a
            ılia
para a fam´ desmembrada), para as pequenas confrarias religiosas (e n˜o     a
                              co
para as grandes organiza¸˜es sindicais), e, em seguida, para as popula¸oesc˜
                      a
desenraizadas (e n˜o para a burguesia decadente). Em suma, seus objetos
           c˜       a
de predile¸ao ser˜o os grupos sociais que se situam mais no exterior da soci-
edade global do observador: os que qualificamos de marginais: camponeses
bret˜es, feiticeiros do Berry, adeptos de seitas religiosas. . 2
     o

                e                      a                    o
Dito isso, conv´m distinguir (mas n˜o dissociar) as quest˜es de fato e as
                               o
de direito. Se, de fato, o etn´logo tende a estudar as formas de comporta-
                                                c˜ a
mento e sociabilidade mais excentradas em rela¸ao ` ideologia dominante da
                  a                  a a
sociedade global ` qual pertence, n˜o h´, de direito, propriamente nenhum
      o                               c
territ´rio da etnologia. E as diferen¸as entre os modos de vida e de pensa-
         a a          a
mento s˜o t˜o localiz´veis nas nossas sociedades (constitu´         u
                                                           ıdas de m´ltiplos
                                                       a
subgrupos extremamente diversificados, e nos quais v´rias ideologias est˜o a
            e
em concorrˆncia) quanto nas sociedades qualificadas de ”tradicionais”. ”Se
      o                       e
o etn´logo”, como escreve L´vi-Strauss (1958), ”interessa-se sobretudo por
              a e                  e
aquilo que n˜o ´ escrito”(e tamb´m, acrescentaremos, por aquilo que n˜o   a
   2
                ca                            e                           a
    Essa predile¸˜o pelos abandonados (”laiss´s-pour-compte”) (ou advers´rios) do pro-
                                                     ıgenas – parece claramente na ´rea
gresso – o estudo dos indigentes sucedendo ao dos ind´                             a
 a     o                                        a         ca
n˜o ex´tica da antropologia americana, que d´ uma aten¸˜o toda especial aos guetos
negros ou portorriquenhos dos Estados Unidos.
                                                                           127

e                                      a e
´ formalizado e institucionalizado), ”n˜o ´ tanto porque os povos que es-
      a                                                           e
tuda s˜o incapazes de escrever, mas porque aquilo que o interesse ´ diferente
de tudo que os homens pensam habitualmente em fixar na pedra e no papel”.

     e                                                     c˜
Conv´m, portanto, deixar de colocar o problema das rela¸oes da sociologia e
da etnologia sobre as bases emp´  ıricas das ”sociedades industriais”e das ”so-
ciedades tradicionais”(mesmo incluindo-se os lados ”tradicionais”existentes
                                           a                           o
dentro das primeiras), pois a etnologia n˜o tem objeto que lhe seja pr´prio (e
                                                  a
que poderia ser-lhe ipso jacto designado pelo car´ter ”primitivo”ou ”tradicio-
nal”das sociedades estudadas), e sim uma abordagem, um enfoque particular,
                                         ´                    e
um olhar, ao meu ver, absolutamente unico no campo das ciˆncias humanas,
      ıvel
e pass´ de ser aplicado a toda realidade social.

                                                       e
O que me parece importante sublinhar, finalmente, ´ que grande parte da
        c˜        e                         a
renova¸ao das ciˆncias humanas contemporˆneas deve-se incontestavelmente
a sua abertura para nossa disciplina, que as influenciou (direta ou indireta-
                                                     c˜
mente) designando-lhes novos terrenos de investiga¸ao e convencendo-as de
      a                   a         ıfica, objeto tabu. Assim, as ciˆncias das
que n˜o deve haver, na pr´tica cient´                              e
      o    a                                         ıvel
religi˜es n˜o consideram mais o cristianismo ”ao n´ das doutrinas e dos
                          o      o
doutores, e sim das multid˜es anˆnimas”, como escreve Ean Delumeau. A ar-
                c
quitetura come¸a a perceber que o estudo dos monumentos ”de estilo”forma
apenas uma parte ´             a
                    ınfima do h´bitat, e a reabilitar todo esse ”recalcado”da
                       e            a
cultura material que ´, no caso, o h´bitat popular. Um deslocamento abso-
              a                                          ´
lutamente an´logo pode ser encontrado em qualquer area: ”a arqueologia,
                  a                           a                 u
por exemplo, est´ passando do estudo dos pal´cios, templos e t´mulos impe-
                                                ıdo,
riais para o conjunto do meio ambiente constru´ inclusive o mais humilde,
                     a
sendo este a express˜o de uma cultura que se procura compreender nos seus
m´ınimos detalhes.

      e                  o
Mas ´ sobretudo na hist´ria, ao meu ver, que assistimos a um deslocamento
                                                     u
radical do campo da curiosidade. Trata-se de ir do p´blico para o privado,
                                                                   o
do Estado para o parentesco, dos ”grandes homens”para os atores anˆnimos,
                                                        e
e dos grandes eventos para a vida cotidiana. Sob a influˆncia da escola dos
                o               a                        c
Annales, a hist´ria contemporˆnea, pelo menos na Fran¸a, tornou-se uma
    o             o          e          o
hist´ria antropol´gica, isto ´, uma hist´ria das mentalidades e sensibilida-
              o
des, uma hist´ria da cotidianidade material.
128   CAP´                   ˜     ´
         ITULO 13. UMA INVERSAO TEMATICA:
   ıtulo 14
Cap´

        e
Uma Exigˆncia:

o estudo da totalidade
Uma das caracter´                                    o    e            c
                    ısticas da abordagem antropol´gica ´ que se esfor¸a em
                              e
levar tudo em conta, isto ´, de estar atenta para que nada lhe tenha es-
capado. No campo, tudo deve ser observado, anotado, vivido, mesmo que
  a
n˜o diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. De um
                   o
lado, o menor fenˆmeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas di-
      o                                                        o
mens˜es (todo comportamento humano tem um aspecto econˆmico, pol´        ıtico,
      o                                           o                 c˜
psicol´gico, social, cultural. . .). De outro, s´ adquire significa¸ao antro-
    o                          `
pol´gica sendo relacionado a sociedade como um todo na qual se inscreve e
dentro da qual constitui um sistema complexo. Como escreve Mauss (1960),
            e
”o homem ´ indivis´                                 e
                      ıvel”e ”o estudo do concreto”´ ”o estudo do completo”.

´       a
E a raz˜o pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimental-
                 a                                     o
mente objetos n˜o cabe no modo de conhecimento pr´prio da antropologia,
                                  e    o
pois o que esta pretende estudar ´ o pr´prio contexto no qual se situam esses
         e                        c˜
objetos, ´ a rede densa das intera¸oes que estas constituem com a totalidade
social em movimento.

              ca
A especializa¸˜o cient´      e              a                      o
                        ıfica ´ mais problem´tica para o antrop´logo do que
                                        e
para qualquer outro pesquisador em ciˆncias humanas. O antrop´logo n˜o o        a
                                               e                             a
pode, de fato, se tornar um especialista, isto ´, um perito de tal ou tal ´rea
                 o              a
particular (econˆmica, demogr´fica, jur´ ıdica. . .) sem correr o risco de abolir
      e               o                             a            e
o que ´ a base da pr´pria especificidade de sua pr´tica. As ciˆncias pol´    ıticas
    a                           c˜
se d˜o por objeto de investiga¸ao um certo aspecto do real: as institui¸oes   c˜
                   c˜                 e            o
que regem as rela¸oes do poder; as ciˆncias econˆmicas, um outro: os siste-
               c˜                       e
mas de produ¸ao e troca de bens; as ciˆncias jur´                          e
                                                   ıdicas, o direito; as ciˆncias

                                       129
130                                       CAP´                 ˆ
                                             ITULO 14. UMA EXIGENCIA:

      o                                                e
psicol´gicas, os processos cognitivos e afetivos; as ciˆncias religiosas, os sis-
                c                          a                  o
temas de cren¸a. . . Mas todos estes s˜o para o antrop´logo fenˆmenos   o
               e         c˜          ca                a
parciais, isto ´, abstra¸oes em rela¸˜o ao enfoque n˜o parcelar que orienta
sua abordagem. O parcelamento disciplinar comporta, de fato, no horizonte
     ıfico contemporˆneo, um risco essencial: o de um desmantelamento do
cient´                a
                                         a
homem em produtor, consumidor, cidad˜o, parente. . . Assim, por exemplo,
                   o        a                                           o
a pesquisa sociol´gica est´ cada vez mais especializada: estuda fenˆmenos
                        ue                           o
particulares: a delinq¨ˆncia, a criminalidade, o div´rcio, o alcoolismo. . . e
o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: soci-
ologia dos lazeres, do esporte, das condutas suicidas. . .

      o                   e        e     u
A pr´pria antropologia, ´ claro, ´ freq¨entemente levada a participar desse
                                                 ca
processo que pode causar uma verdadeira mutila¸˜o do ser humano, de que se
procura, em um segundo tempo (a pluridisciplinaridade), costurar de novo os
                                                                 c
retalhos recortados. Mas permanece, a meu ver, dentro do espa¸o da cultura
cient´         a                                                      o
      ıfica (e n˜o da cultura humanista, como pode ser a cultura filos´fica ou
     a
liter´ria), um lugar privilegiado a partir do qual ainda se pode perceber que
         a                              e               ca
toda pr´tica hiperespecializada, atrav´s da fragmenta¸˜o e do desmembra-
                 o                                 o
mento que imp˜e ao real, acaba destruindo o pr´prio objeto que pretendia
estudar.

Pessoalmente, a antropologia me parece ser o ant´         a      o
                                                   ıdoto n˜o filos´fico de uma
       c˜
concep¸ao tayloriana da pesquisa, que consiste em: 1) cumprir sempre a
                                           ´     a
mesma tarefa, ser o especialista de uma unica ´rea; 2) tentar, de uma ma-
            a                       e                   o
neira pragm´tica, modificar, ou at´ transformar os fenˆmenos que se estuda.
               e                           a     e
O drama das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ a fratura entre uma atitude
extremamente reflexiva (a da filosofia ou da moral) mas que corre o risco de
                                                                       c˜
cair no vazio, dada a fraca positividade de seus objetos de investiga¸ao, e
uma cientificidade extremamente positiva, mas pouco reflexiva, por estar ba-
                                 o
seada no parcelamento de territ´rios e, voltaremos a isso, sobre uma forma
de objetividade que as pr´prias ciˆncias exatas descartaram h´ muito tempo.1
                         o        e                           a

                c˜
Essa preocupa¸ao que tem a antropologia de dar conta, a partir de um
   o
fenˆmeno concreto singular, do multidimensionamento de seus aspectos e da
                                                              c˜
totalidade complexa na qual se inscreve e adquire sua significa¸ao inconsci-
         a             `                                   a          o
ente, est´ relacionada a abordagem menos diretiva e program´tica da pr´pria
  a             a
pr´tica etnogr´fica, comparada a outros modos de coleta de informa¸oes:c˜

   1
     a
    N˜o posso deixar de recomendar particularmente, a respeito desse aspecto, a leitura
                   o
da obra de um soci´logo, Edgar Morin (1974), e em especial do cap´ıtulo intitulado ”Da
         ca        e
pauperiza¸˜o das id´ias gerais em um meio especializado”
                                                                         131

                         o     e                       a
trata-se, de fato, para n´s, al´m de todos os question´rios, por mais aper-
   c                                                         u
fei¸oados que sejam, de fazer surgir um questionamento m´tuo. Tal preo-
     c˜                    e                  `
cupa¸ao diz respeito tamb´m, mais uma vez, a natureza das sociedades nas
                                                                      e
quais se desenvolveu nossa disciplina: conjuntos relativamente homogˆneos,
                         a                                  a
nos quais as atividades s˜o pouco especializadas, e que se d˜o uma ideologia
                      o
mestra (de tipo mitol´gico) dando conta da totalidade social.

      a
A pr´tica da antropologia finalmente, baseada sobre uma extrema proxi-
                                              o        e
midade da realidade social estudada, sup˜e tamb´m, paradoxalmente, um
                                  c˜ `
grande distanciamento (em rela¸ao a sociedade que procuro compreender,
        ca `             `              c     ´      a
em rela¸˜o a sociedade a qual perten¸o). E a raz˜o pela qual somos prova-
                           o
velmente, enquanto antrop´logos, mais tocados do que outros, e, em primeiro
                                           c˜      o
lugar, mais surpreendidos, pela dis-, jun¸ao hist´rica absolutamente singular
´        e       o                                   o
unica at´ na hist´ria da humanidade, que nossa pr´pria cultura realizou entre
    e                    e               a       e
a ciˆncia e a moral, a ciˆncia e a religi˜o, a ciˆncia e a filosofia.

                                  ´                  a e
Se olharmos de mais perto, esta ultima disciplina n˜o ´ mais hoje um pen-
                                                                   u
samento da totalidade dando-se como objetivo compreender os m´ltiplos as-
                                    e                    e
pectos do homem. Como escreve L´vi-Strauss, apenas trˆs formas de pensa-
          a                      a
mento s˜o, no mundo contemporˆneo, capazes de responder a essa defini¸˜o:  ca
                                                                o
o islamismo, o marxismo e a antropologia. O projeto antropol´gico retoma,
                                                              a
a meu ver, hoje, mas sobre bases completamente diversas (n˜o mais a espe-
     c˜
cula¸ao sobre as categorias do esp´                             ca
                                   ırito humano, mas a observa¸˜o direta de
            c˜                                              a        ´      a
suas produ¸oes concretas), o projeto que foi o da filosofia cl´ssica. E a raz˜o
                        o
pela qual muitos entre n´s se recusam a entrar nas vias de uma hiperespeci-
      c˜
aliza¸ao, podendo tornar-se, como mostrou Husserl, antagonista da reflex˜o, a
              e                                                         o
e podendo at´, como sugere hoje em dia Laborit, chegar a impedir o pr´prio
       ıcio
exerc´ do pensamento.
132   CAP´                 ˆ
         ITULO 14. UMA EXIGENCIA:
   ıtulo 15
Cap´

Uma Abordagem:

    a
a an´lise comparativa
    a        a          a                                   e
Est´ ligada ` problem´tica maior de nossa disciplina que ´ a da diferen¸a, c
                            c˜               ca `
implicando uma descentra¸ao radical em rela¸˜o a sociedade de que faz parte
                   e
o observador, isto ´, uma ruptura com qualquer forma, dissimulada ou delibe-
rada, de etnocentrismo. Pois, apenas o que percebemos (em estado manifesto
                                                                   a
ou latente) em uma outra sociedade nos permite visualizar o que est´ em jogo
                      a          a                e
na nossa, mas que n˜o suspeit´vamos. Essa experiˆncia de arrancamento de
      o
si pr´prio age, na realidade, como um verdadeiro revelador de si. Cada um
 a                                   c
j´ notou que, quando uma crian¸a nasce, os parentes e amigos da fam´       ılia
        c
endere¸am seus cumprimentos ao novo pai. Esse costume aparentemente
                                                          a
insignificante ganha todo seu significado se o olharmos ` luz da couvade,
                               ´                               e
praticada, por exemplo, na Africa, e que se encontrava tamb´m na Fran¸a,   c
                                 e     ıcio  e
notadamente na Borgonha, at´ o in´ do s´culo. Tudo se passa como se a
              a                    a       o
parturiente n˜o fosse outra sen˜o o pr´prio pai. Participando efetivamente
                          c
do nascimento da crian¸a, o marido recupera seus direitos de paternidade
                                                           o     e
(nas sociedades, notadamente, nas quais o parentesco biol´gico ´ dissociado
                               e                              o
da paternidade social), se vˆ totalmente integrado a sua pr´pria fam´  ılia, e
adquire com isso um estatuto de perfeito genitor.

         o
Todos n´s participamos, pelo menos uma vez na vida, da inaugura¸ao de c˜
um edif´ıcio; amigos nos convidaram para festejar a entrada em uma nova
                                                                e
casa ou em um novo apartamento. Ora, esse cerimonial, tamb´m bastante
                                                  ıvel    a
insignificante, permanece totalmente incompreens´ se n˜o o relacionarmos
`        o               ca         c
as cerimˆnias de apropria¸˜o do espa¸o que, nas sociedades tradicionais, con-
                 ıcio                            ca     ´
sistem no sacrif´ de um animal ou numa liba¸˜o de alcool aos esp´      ıritos.
               a
O mesmo se d´ quando nos interessamos para a defesa de uma tese de dou-

                                     133
134                                     CAP´
                                           ITULO 15. UMA ABORDAGEM:

torado, que adquire todo o seu significado a partir do momento em que a
                                   c˜
confrontamos com os ritos de inicia¸ao e passagem que pudemos observar em
outras sociedades.1 Poder´ıamos multiplicar os exemplos: o estudo dos jovens
de Samoa que permite a Margaret Mead dar conta dos comportamentos de
                                             c                   e        a
crise dos adolescentes americanos; o da feiti¸aria entre os Azand´ do Sud˜o
que permite a Evans-Pritchard compreender alguns aspectos do comunismo
    e                                       a
sovi´tico. Este mestre da antropologia britˆnica recomendava a seus alunos
o estudo de duas sociedades a fim de evitar, dizia ele, o que aconteceu a
                                                        ca        ´
Malinowski: ”pensar durante toda a sua vida em fun¸˜o de um unico tipo
de sociedade”, no caso, os Trobriandeses.

                                                o                a e
Ora, temos de reconhecer que a maioria dos etn´logos de hoje n˜o ´ de
       o                                                            e
antrop´logos. Suas pesquisas tratam de uma cultura particular, ou at´ de
                                                            o
um segmento, de um aspecto desta cultura, na melhor das hip´teses de al-
gumas variedades de culturas, mas quase nunca do estudo dos processos de
variabilidade da cultura.

                                                        o
A abordagem comparativa – que se confunde com a pr´pria antropologia
  e                                           a
– ´ uma das mais ambiciosas e exigentes que h´. Mas antes de examinar os
                                                          e
problemas que coloca e as dificuldades que encontra, conv´m lembrar algu-
                c˜                     o
mas grandes posi¸oes que balizam a hist´ria de nossa disciplina.

A primeira forma de comparatismo – o evolucionismo – ordena os fatos co-
                                                       o
lhidos dentro de um discurso que se apresenta como hist´rico. Confrontando
essencialmente costumes (cf. especialmente Frazer), procura reconstituir
            ca       e
uma evolu¸˜o hipot´tica das sociedades humanas (de todas as sociedades)
        e                      o                   c˜               co
na ausˆncia de documentos hist´ricos. As extrapola¸oes e generaliza¸˜es que
operam os pesquisadores eruditos desse per´      a
                                           ıodo v˜o aparecendo aos poucos
         a
como t˜o abusivas que, praticamente, toda a etnologia posterior (a ruptura
           o
epistemol´gica introduzida nos anos 1910-1920 por Boas e Malinowski) ir´  a
                 ca
adotar uma posi¸˜o radicalmente anticomparativa. Com o funcionalismo,
                                                 a
a sociedade estudada adquire uma autonomia n˜o apenas emp´       ırica, mas
      e      o      a
tamb´m te´rica. N˜o se trata mais de comparar as sociedades entre si, mas
                  e                                           ca
de mostrar, atrav´s de monografias, como se realiza a integra¸˜o das dife-
                                                 2
    c       c˜
ren¸as fun¸oes em jogo em uma mesma sociedade.
   1ˆ
                                                     o
     E nessa perspectiva que Maurice Leenhardt, ap´s ter trabalhado durante mais de 20
                    o                  ´                   ´
anos na Nova Caledˆnia e ter estado na Africa, escreve: ”A Africa me ensinou muito sobre
a Oceania”.
   2
                        o                                                         o
     O que leva o antrop´logo americano Murdock a dizer que a maioria dos antrop´logos
    a                                              c                  co     a e
britˆnicos, deixando de lado o estudo das diferen¸as entre as civiliza¸˜es, n˜o ´ de an-
     o                   o
trop´logos, e sim de soci´logos.
                                                                           135


                                          e
Se o projeto da antropologia cultural ´, de fato, o de confrontar os com-
                                                        ´         a
portamentos humanos os mais diversificados, de uma area geogr´fica para
          a                            c˜                     e
outra – n˜o mais por uma ”periodiza¸ao”no tempo, como na ´poca de Mor-
                                                a          c
gan, mas, preferencialmente, por uma extens˜o no espa¸o –, o postulado
                                                             o
da irredutibilidade de cada cultura termina impedindo o pr´prio empreen-
                      c˜                                          e
dimento da compara¸ao. Detenhamo-nos sobre esse ponto que ´, ao meu
                        a          c˜                                   a
ver, essencial. Claro, s˜o as varia¸oes que interessam em primeira instˆncia
          o                                                          a
ao antrop´logo: mas, para serem estudadas antropologicamente, e n˜o mais
                                      c˜
apenas etnograficamente, essas varia¸oes devem ser relacionadas a um certo
 u                            e
n´mero de invariantes, pois ´ precisamente o estabelecimento dessa rela¸aoc˜
                      o                             c˜   a
que fundamenta a pr´pria abordagem da compara¸ao, t˜o caracter´     ıstica de
nossa disciplina.

O empreendimento gigantesco dos Human Relations Area Files, elaborado
                                                      e
por Murdock e seus colaboradores a partir de 1937 ´, a esse respeito, repre-
                                                     ıvel
sentativo. Visa estudar o leque mais completo poss´ dos comportamentos
          c˜                                c˜                      u
e institui¸oes humanos, a partir de correla¸oes entre um grande n´mero de
    a           e                 `            c˜
vari´veis (das t´cnicas materiais as representa¸oes religiosas) em 75 culturas
                                                 o               c˜
diferentes. Mas esse programa, devido a sua pr´pria preocupa¸ao de exaus-
                                                             co
tividade, coloca, na realidade, mais problemas do que solu¸˜es.

                                              ca
Esses exemplos mostram que, entre a tenta¸˜o de um comparatismo sis-
    a
tem´tico (como no evolucionismo) e o ceticismo geral dos que consideram
                     a
prematuro, quando n˜o imposs´ ıvel, qualquer empreendimento de compara¸ao c˜
 e       c˜                      e                           o
(´ a posi¸ao de Boas), o caminho ´ dos mais estreitos. O pr´prio empreendi-
                                      o                           ca
mento que orienta a antropologia sup˜e a tomada em considera¸˜o de uma
                                                    o              a
humanidade ”plural”. Mas como dar conta de fenˆmenos que n˜o perten-
     `                         a
cem as mesmas sociedades e n˜o se inscrevem no mesmo contexto. Como
conceber ao mesmo tempo, sem arriscar-se a ultrapassar os limites de uma
abordagem que se quer cient´                 co      ıticas dos habitantes da
                            ıfica, as institui¸˜es pol´
      o
Patagˆnia e as dos groen-landeses, os ritos religiosos dos bantos e os dos
ındios da Amazˆnia?
´               o

                                           a                   a e
Lembremos em primeiro lugar que a an´lise comparativa n˜o ´ a primeira
                       o
abordagem do antrop´logo. Este deve passar pelo caminho lento e traba-
                                           c˜          a     `
lhoso que conduz da coleta e impregna¸ao etnogr´fica a compreens˜o da     a
 o       o
l´gica pr´pria da sociedade estudada (etnologia). Em seguida apenas, po-
   a                        o              co
der´ interrogar-se sobre a l´gica das varia¸˜es da cultura (antropologia). Vale
                                              e              a
dizer que o pesquisador deve ter uma prudˆncia consider´vel. Antes de se-
rem confrontados uns aos outros, os materiais recolhidos devem ser meti-
136                                       CAP´
                                             ITULO 15. UMA ABORDAGEM:

                                       c
culosamente criticados. Pois, se come¸armos comparando os costumes de
          ca                                       e
tal popula¸˜o africana com os de tal outra europ´ia, chegaremos apenas a
                                      a
evidenciar algumas analogias. Mas ent˜o, como diz Kroeber, as ”universali-
                                                           ca
dades”encontradas poderiam muito bem ser apenas a proje¸˜o de ”categorias
 o        o
l´gicas”pr´prias somente da sociedade do observador. Assim o evolucionismo
comparava o que via (ou, na maior parte das vezes, o que outros se encarre-
                          c˜
gavam de ver por procura¸ao) nas sociedades ”primitivas”, com o que sabia
                                         o
(ou melhor, supunha saber) de nossa pr´pria sociedade. Disso decorrem as
                a
analogias que n˜o faltaram entre os abor´ ıgines australianos e os habitantes
                              3
da Europa na Idade da Pedra.

                               a    e a
Se a antropologia contemporˆnea ´ t˜o comparativa quanto no passado, n˜o     a
                  `                                                o
deve mais nada a abordagem do comparatismo dos primeiros etn´logos. N˜o      a
                             e         a
utiliza mais os mesmos m´todos e n˜o tem mais o mesmo objeto. O que se
                 a                                       c˜    a
compara hoje s˜o costumes, comportamentos, institui¸oes, n˜o mais isola-
                                                      a
dos de seus contextos, e sim fazendo parte destes; s˜o sistemas de rela¸˜o.ca
                          c˜                                    a
A partir de uma descri¸ao (etnografia), e depois, de uma an´lise (etnolo-
                    ca
gia) de tal institui¸˜o, tal costume, tal comportamento, procura-se descobrir
                            e
progressivamente o que L´vi-Strauss chama de ”estrutura inconsciente”, que
pode ser encontrado na forma de um arranjo diferente em uma outra insti-
   c˜
tui¸ao, um outro costume, um outro comportamento. Ou seja, os termos da
compara¸ao n˜o podem ser a realidade dos fatos emp´
         c˜ a                                         ıricos em si,4 mas siste-
             c˜                             o               o            o
mas de rela¸oes que o pesquisador constr´i, enquanto hip´teses operat´rias,
                                            c        a           a
a partir destes fatos. Em suma as diferen¸as nunca s˜o dadas, s˜o recolhidas
         o                                                        e
pelo etn´logo, confrontadas umas com as outras, e aquilo que ´ finalmente
comparado ´ o sistema das diferen¸as, isto ´, dos conjuntos estruturados. 5
             e                       c        e



   3
      ”Se postulamos apressadamente a homogeneidade do campo social e nos confortamos
        a                e                       a
na ilus˜o de que este ´ imediatamente compar´vel era todos os seus aspectos e n´      ıveis,
                                                                                a
deixaremos escapar o essencial. Desconheceremos que as coordenadas necess´rias para
                 o                                              a a
definir dois fenˆmenos aparentemente muito semelhantes, n˜o s˜o sempre as mesmas,
         a                      u
nem est˜o sempre em mesmo n´mero; e pensaremos estar formulando as leis da natureza
social, quando estaremos nos limitando a descrever propriedades superficiais ou a enunciar
                        e
tautologias”, escreve L´vi-Strauss (1973).
    4
            o               a    e
      O etn´logo contemporˆneo ´ infinitamente mais modesto que seus predecessores. Ele
  a                                               a
n˜o procura atingir a natureza da arte, da religi˜o, do parentesco, nem em geral e. nem
mesmo, em particular.
    5
        o e                                                     co    e
      ”S´ ´ estruturado um arranjo que preencha duas condi¸˜es: ´ um sistema regido
               a                     a        e            ıvel a       ca
por uma coes˜o interna; e essa coes˜o – que ´ impercept´ ` observa¸˜o de um sistema
                                            co       c a
isolado – se revela no estudo das transforma¸˜es, gra¸as `s quais descobrimos propriedades
                                                             e
similares em sistemas aparentemente diferentes”, escreve L´vi-Strauss (1973).
   ıtulo 16
Cap´

         c˜          ca
As Condi¸oes De Produ¸˜o
Social Do Discurso
         o
Antropol´gico

                                                        e
A antropologia nunca existe em estado puro. Seria ingˆnuo, sobretudo da
                    o         a              o
parte de um antrop´logo, isol´-la de seu pr´prio contexto. Seria paradoxal,
                       a                                e
sobretudo para uma pr´tica da qual um dos objetivos ´ situar os compor-
                                                                        c˜
tamentos dos que ela estuda em uma cultura, classe social, Estado, na¸ao,
                     o                            o
ou momento da hist´ria deixar de aplicar a si pr´prio o mesmo tratamento.
                 e                                a
Como escreve L´vi-Strauss, ”se a sociedade est´ na antropologia, a antro-
                       a
pologia por sua vez est´ na sociedade”(1973). Seu atestado de nascimento
                                 e
inscreve-se em uma determinada ´poca e cultura. Em seguida, transforma-se,
                                   c
em contato com as grandes mudan¸as sociais que se produzem, e se torna, um
 e
s´culo depois, praticamente irreconhec´            e
                                       ıvel. Conv´m, portanto, interrogar-se
         a                           o                       e
agora, n˜o mais sobre o saber etnol´gico em si, que nunca ´ um produto
                                c˜             c˜
acabado, mas sobre suas condi¸oes de produ¸ao; pois o estudo dos textos
     o
etnol´gicos nos informa tanto sobre a sociedade do observador quanto sobre
a do observado.

Retomemos rapidamente aqui, dentro dessa nova perspectiva, alguns exem-
                                                                      o
plos estudados anteriormente. O que interessa a antropologia filos´fica do
 e                                             e
s´culo XVIII nas sociedades da ”natureza”, ´ que estas podem dar ao Oci-
        c˜
dente li¸oes sobre a natureza das sociedades, e permitir fundar um novo ”con-
                                                               a
trato social”, A antropologia evolucionista que lhe sucede est´ estreitamente
       a     a                                   e
ligada `s pr´ticas coloniais conquistadoras da ´poca vitoriana. Sustentada
                        a
pelo ideal de uma miss˜o civilizadora (a certeza que se tem de si), consiste
               c˜
na racionaliza¸ao do expansionismo colonial. O funcionalismo, quanto a si,
                      a a e
empresta seu vocabul´rio `s ciˆncias da natureza que lhes parecem a garantia

                                    137
138CAP´                 ¸˜           ¸˜
      ITULO 16. AS CONDICOES DE PRODUCAO SOCIAL DO DISCURSO ANTROP

                                                  a                    a
da cientificidade. Mas o objeto da antropologia n˜o leva em conta as pr´ticas
                   a
coloniais, ao contr´rio do evolucionismo, que as justificava, e de outras for-
                                               ´
mas de antropologia que as combatem. Um ultimo exemplo nos ser´ dado  a
                                           e
pela antropologia americana em sua tendˆncia culturalista. O ”relativismo
                                         e
cultural”, termo forjado por Herskovitz, ´ qualificado por este de ”resultado
      e                           a                       a         o
das ciˆncias humanas”. Mas est´, na realidade, ligado ` crise hist´rica do
               o                                                  e
pensamento te´rico do Ocidente confrontado com a alteridade. Al´m disso, o
   a
car´ter nitidamente mais anticolonialista dessa antropologia, comparando-a
                        a
com a antropologia britˆnica ou francesa, explica-se notadamente pelo fato de
                                        o                           e
que os Estados Unidos nunca tiveram colˆnias (mas apenas minorias ´tnicas).
                                                              c˜
Seria conveniente, afinal, perguntar-se por que essa preocupa¸ao pelas ”co-
    c˜
lora¸oes nacionais”de nossos comportamentos, em detrimento do funciona-
                          co                 e a
mento de nossas institui¸˜es, foi (e ainda ´) t˜o forte nos Estados Unidos,
essa sociedade formada de uma pluralidade de culturas.

Esses exemplos bastam para nos convencer de que a antropologia ´ o es-  e
                          c˜        o
tudo do social em condi¸oes hist´ricas e culturais determinadas. A pr´priao
         ca          e
observa¸˜o nunca ´ efetuada em qualquer momento e por qualquer pessoa.
       a                  ca          a                       a
A distˆncia ou participa¸˜o etnogr´fica maior ou menor est´ eminentemente
                                                a               a      e
ligada ao contexto social no qual se exerce a pr´tica em quest˜o, que ´ neces-
                                                      e
sariamente a de um pesquisador pertencendo a uma ´poca e a uma sociedade.
Quando pensa estar fazendo aparecer a racionalidade imanente ao grupo que
              o                           u                   e
estuda, o etn´logo pode esquecer (freq¨entemente de boa-f´) as condi¸˜es– co
                                   ca
sempre particulares – de produ¸˜o de seu discurso. Mas estas nunca s˜o       a
     o        ıtica, cultural, e socialmente neutras; expressam diferentes for-
hist´rica, pol´
mas da cultura ocidental quando esta encontra os outros de uma maneira
   o
te´rica.

                       o                                  `        c˜
Isso posto, seria irris´rio reduzir a antropologia apenas as condi¸oes de seu
                                    e                     a
surgimento e desenvolvimento. Al´m disso, se se tem raz˜o em insistir sobre
                                                     o        o
o fato de que o pesquisador deve considerar o lugar s´cio-hist´rico a partir do
                                                                     o
qual fala, como parte integrante de seu objeto de estudo, seria errˆneo con-
                                                         ue                c˜
cluir – como faz, por exemplo, Foucault – que, em conseq¨ˆncia das distor¸oes
perceptivas atribu´      a            c˜                       e
                    ıdas ` nossa rela¸ao com o social, ”as ciˆncias humanas
 a            e         a a      e
s˜o falsas Ciˆncias, n˜o s˜o ciˆncias”. Nosso pertencer e nossa implica¸ao  c˜
                                 a
social, longe de serem um obst´culo ao conhecimento cient´   ıfico, podem pelo
      a
contr´rio, a meu ver, ser considerados como um instrumento. Permitem colo-
             o         a                         e
car as quest˜es que n˜o se colocavam em outra ´poca, variar as perspectivas,
estudar objetos novos.
   ıtulo 17
Cap´

O Observador, Parte Integrante
Do Objeto De Estudo:

                  o
Quando o antrop´logo pretende uma neutralidade absoluta, pensa ter reco-
lhido fatos ”objetivos”, elimina dos resultados de sua pesquisa tudo o que
                          ca
contribuiu na sua realiza¸˜o e apaga cuidadosamente as marcas de sua im-
     c˜                                     e
plica¸ao pessoal no objeto de seu estudo, ´ que ele corre o maior risco de
afastar-se do tipo de objetividade (necessariamente aproximada) e do modo
de conhecimento espec´ ıfico de sua disciplina.

               e
Essa auto-suficiˆncia do pesquisador, convencido de ser ”objetivo”ao libertar-
                                       a                 e
se definitivamente de qualquer problem´tica do sujeito, ´ sempre, a meu ver,
       a               e              a
sintom´tica da insuficiˆncia de sua pr´tica. Esquece (na realidade, de uma
            e                             ıpio de totalidade tal como foi ex-
forma estrat´gica e reivindicada) do princ´
                                                       o
posto acima; pois o estudo da totalidade de um fenˆmeno social sup˜e a  o
       ca                      o
integra¸˜o do observador no pr´prio campo de observa¸˜o.ca

    e
Se ´ poss´          e        a
          ıvel, e at´ necess´rio, distinguir aquele que observa daquele que
e                                       c˜          a          a
´ observado, parece-me, em compensa¸ao, impens´vel dissoci´-los. Nunca
somos testemunhas objetivas observando objetos, e sim sujeitos observando
outros sujeitos. Ou seja, nunca observamos os comportamentos de um grupo
                          a       e                                   c˜
tais como se dariam se n˜o estiv´ssemos ou se os sujeitos da observa¸ao fos-
                e                o                                 ca
sem outros. Al´m disso, se o etn´grafo perturba determinada situa¸˜o, e at´  e
               c˜                            c e
cria uma situa¸ao nova, devido a sua presen¸a, ´ por sua vez eminentemente
                           c˜                                             ca
perturbado por essa situa¸ao. Aquilo que o pesquisador vive, em sua rela¸˜o
com seus interlocutores (o que reprime ou sublima, o que detesta ou gosta),
e
´ parte integrante de sua pesquisa. Assim uma verdadeira antropologia ci-
   ıfica deve sempre colocar o problema das motiva¸˜es extracient´
ent´                                                  co             ıficas do
                                    c˜                             e      e
observador e da natureza da intera¸ao em jogo. Pois a antropologia ´ tamb´m

                                     139
140CAP´
      ITULO 17. O OBSERVADOR, PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO

    e                                                      o
a ciˆncia dos observadores capazes de observarem a si pr´prios, e visando a
                c˜           ca
que uma situa¸ao de intera¸˜o (sempre particular) se torne o mais consciente
poss´           e
     ıvel, isso ´ realmente o m´                                   o
                                ınimo que se possa exigir do antrop´logo.

                    a
Alguns anos atr´s, estava realizando, a pedido do CNRS, uma pesquisa no sul
         ısia               o
da Tun´ sobre um fenˆmeno chamado hajba (que significa em arabe: claus-     ´
    c˜                                                                ca
tra¸ao, trancamento) que se inscreve no quadro da prepara¸˜o das jovens ao
casamento. No decorrer de um per´      ıodo variando de algumas semanas a alguns
meses, a noiva permanece rigorosamente separada do mundo exterior, e par-
ticularmente do universo masculino. Passa por um tratamento est´tico cujo     e
            e
objetivo ´ deixar sua pele o mais branca poss´         ıvel, e por um regime alimen-
                       a              a                          ca a
tar que deve engord´-la. Essa pr´tica de superalimenta¸˜o (` -base de ovos,
  c´                     ´                                                 a
a¸ucar, torradas com oleo), aplicada a jovens djerbianas que ser˜o entregues
                    a                   ıcio
a maridos que n˜o conhecem, de in´ repugnava-me. Ora, longe de eliminar
                                                       `          `
a natureza afetiva (mas, com certeza, ligada a cultura a qual perten¸o) de       c
              c˜                   a             a
minha rea¸ao, tive, pelo contr´rio, de lev´-la em conta, de tentar elucid´-la,     a
a fim de controlar, na medida do poss´                          ue
                                              ıvel, as conseq¨ˆncias, perturbadoras
tanto para mim quanto para meus interlocutores que, como todos os interlo-
cutores, nunca se enganam por muito tempo sobre os sentimentos pelos quais
                o
passa o etn´logo. Da mesma forma, o que me marcou muito na ocasi˜o de             a
                        a        o               ıs u
minha primeira miss˜o etnol´gica em pa´ ba´le foi o respeito pelos velhos,
        c
o espa¸o ocupado pelos esp´                                       co
                               ıritos, e a facilidade das rela¸˜es sexuais com as
                                             e
adolescentes. Se isso me surpreendeu, ´ porque essas condutas questionavam
               o
a minha pr´pria cultura; pois era de fato esta que me questionava em alguns
                              u
aspectos da cultura dos ba´les e me questiona quando observo hoje, no Bra-
               a          a          e
sil, a aptid˜o consider´vel que tˆm os homens e as mulheres para entrar em
transe, ou, mais precisamente, serem ”possu´         ıdos”pelos esp´ ıritos ancestrais –
´
ındios, crist˜os, africanos – do grupo. E
                a                            ´ prov´vel que o gato veja no cachorro
                                                     a
           e
uma esp´cie particular de gato, enquanto o cachorro, por sua vez, veja em
                           c
seu dono uma outra ra¸a de cachorro. Se ambos fazem, respectivamente, ca-
                                                               o
nicentrismo e cinomorfismo, importa muito que o etn´logo (isso faz parte da
                                a              a
aprendizagem de sua profiss˜o, e o car´ter cient´          ıfico dos resultados de suas
                                                               u
pesquisas depende disso) controle as armadilhas, freq¨entemente inconscien-
                 c˜
tes, da proje¸ao e do etnocentrismo.

      e                                   o
Conv´m aqui interrogar-se sobre as raz˜es que levam a reprimir a subje-
                                         a
tividade do pesquisador, como se esta n˜o fosse parte da pesquisa. Por que
           o       o                                                     c˜
esses relat´rios anˆnimos, redigidos por ”credores”, e que ignoram a rela¸ao
                                                  a
dos materiais colhidos com a pessoa do coletor j´ que, se ele tiver talento,
                                  o           e     ıvel
pode sempre escrever suas confiss˜es? Como ´ poss´ que tudo o que faz a
                      ca        o                                     c˜
originalidade da situa¸˜o etnol´gica – que nunca consiste na observa¸ao de
                                                                            141

                        c˜
insetos, e sim numa rela¸ao humana envolvendo necessariamente afetividade
                                               a
– possa transformar-se a tal ponto em seu contr´rio? Tornar-se esquecimento
                               ca
ou recalcamento de uma intera¸˜o entre seres vivos, funcionando em muitos
                                                                         a
aspectos como um ritual de exorcismo? Ou seja, por que, segundo a express˜o
                                                                   e
de Edgar Morin, essa ”esquizofrenia profunda e permanente”das ciˆncias do
                    e
homem em sua tendˆncia ortodoxa?

     e                                                 c˜
A id´ia de que se possa construir um objeto de observa¸ao independentemente
       o                      e
do pr´prio observador prov´m na realidade de um modelo ”objetivista”, que
          ısica at´ o final do s´culo XIX, mas que os pr´prios f´
foi o da f´       e            e                       o       ısicos abandona-
        a                ´       c         e    ıvel
ram h´ muito tempo. E a cren¸a de que ´ poss´ recortar objetos, isol´-los, a
e objetivar um campo de estudo do qual o observador estaria ausente, ou
pelo menos substitu´                                                      c˜ e
                       ıvel. Esse modelo de objetividade por objetiva¸ao ´,
        u
sem d´vida, pertinente quando se trata de medir ou pesar (pouco importa,
neste caso, que o observador tenha 25 ou 70 anos, que seja africano ou euro-
                                     a
peu, socialista ou conservador). N˜o pode ser conveniente para compreender
                                                           co
comportamentos humanos que veiculam sempre significa¸˜es, sentimentos e
valores.

                    e            e                            a      e
Ora, uma das tendˆncias das ciˆncias humanas contemporˆneas ´ eliminar
                                            a
duplamente o sujeito: os atores sociais s˜o objetivados, e os observadores
    a                                                        ca
est˜o ausentes ou, pelo menos, dissimulados. Essa elimina¸˜o encontra sem-
                ca       e
pre sua justifica¸˜o na id´ia de que o sujeito seria um res´      a         a
                                                           ıduo n˜o assimil´vel
                                          c           e
a um modo de racionalidade que obede¸a aos crit´rios da ”objetividade”,
               e                             e
ou, como diz L´vi-Strauss, de que a consciˆncia seria ”a inimiga secreta das
  e                                c˜     a        a    a
ciˆncias do homem”. Nessas condi¸oes, n˜o haver´ ent˜o outra escolha sen˜o   a
                                                         a
entre uma cientificidade desumana e um humanismo n˜o cient´       ıfico?

Paradoxalmente, a volta do observador para o campo da observa¸ao n˜o    c˜    a
             e        e
se deu atrav´s das ciˆncias humanas, nem mesmo na filosofia, e sim por in-
     e
term´dio da f´                                      a                   a
              ısica moderna, que reintegra a reflex˜o sobre a problem´tica do
                    c˜                          o
sujeito como condi¸ao de possibilidade da pr´pria atividade cient´   ıfica. Hei-
                        a                         e
senberg mostrou que n˜o se podia observar um el´tron sem criar uma situa¸ao  c˜
que o modifica. Disso tirou (em 1927) seu famoso ”princ´     ıpio de incerteza”,
                              ısico na pr´pria experiˆncia da observa¸˜o f´
que o levou a reintroduzir o f´           o          e                ca ısica.
E foi Devereux quem, em primeiro lugar (em 1938), mostrou o proveito que a
etnologia podia tirar desse princ´ ıpio, comum a toda abordagem cient´   ıfica. A
         c˜            o          o        e              c a
perturba¸ao que o etn´logo imp˜e atrav´s de sua presen¸a `quilo que observa
                          o
e que perturba a ele pr´prio, longe de ser considerada como um obst´culo   a
                                      e
que seria conveniente neutralizar, ´ uma fonte infinitamente fecunda de co-
                          a
nhecimento. Incluir-se n˜o apenas socialmente mas subjetivamente faz parte
142CAP´
      ITULO 17. O OBSERVADOR, PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO

do objeto cient´ıfico que procuramos construir, bem como do modo de conhe-
cimento caracter´                 a        o           a       a
                  ıstico da profiss˜o de etn´logo. A an´lise, n˜o apenas das
   c˜                a        c                e              c˜ a       co
rea¸oes dos outros ` presen¸a deste, mas tamb´m de suas rea¸oes `s rea¸˜es
            e      o                                  `
dos outros, ´ o pr´prio instrumento capaz de fornecer a nossa disciplina van-
            ıficas consider´veis, desde que se saiba aproveit´-lo.
tagens cient´               a                               a
   ıtulo 18
Cap´

Antropologia E Literatura:

                                             e           ıvel. O antrop´logo,
O confronto da antropologia com a literatura ´ imprescind´             o
                       e
que realiza uma experiˆncia nascida do encontro do outro, atuando como
                         e     u
uma metamorfose de si, ´ freq¨entemente levado a procurar formas narra-
                     e                                         a
tivas (romanescas, po´ticas e, mais recentemente, cinematogr´ficas) capazes
                                                  ıvel           e
de expressar e transmitir o mais exatamente poss´ essa experiˆncia.
                                   ***
                                          e
Uma parte importante da literatura mant´m, como a etnologia, uma rela¸ao c˜
                                                            a      a
– por sinal, extremamente complexa – com a viagem. Inumer´veis s˜o os es-
                            o                                        c˜
critores para os quais o pr´prio ato de escrever implica uma situa¸ao de
                                     a
deslocamento. Basta citar O Itiner´rio de Paris a Jerusalem, Atala, Os
Natehez, de Chateaubriand, Viagem no Oriente, de Ner-val, Os Pequenos
Poemas em Prosa, de Baudelaire, Oviri, de Gauguin, Os Tarahumaras, de
                                                              e
Antonin Artaud, Les Nour-ritures Terrestres, de Gide, Aziyad´, de Loti, A
                                  e         o      ´
Viagem para Tombuctu, de Cailli´, Impress˜es da Africa, de Roussel, Bour-
                        a
linguer, de Cendrars, A`ipi, de Melville, Typhon, de Conrad. . . ou, entre
                  a                 c˜
nossos contemporˆneos, A Modifica¸ao, de Michel Butor, A Ilha, de Robert
Merle, Equinoxiais, de Gilles Lapouge, Sexta-Feira ou os Limbos do Pac´ıfico,
                                                       e
de Michel Tournier, A Procura do Ouro, de J. M. le Cl´zio.

Entre as obras que acabamos de citar, algumas se enquadram nessa famosa
                                                 a
literatura de viagem (”oriental”, ”tropical”, oceˆnica. . .) conhecida sob o
                                                                     a
nome de ”exotismo”. Descobrindo novos horizontes, o escritor se d´ conta
                                                     a e ´
(e geralmente aprecia) do fato de que sua cultura n˜o ´ a unica no mundo:
                                                   a
o que o leva a mudar radicalmente no relato o cen´rio tradicional do campo
     a      a           e                                a
liter´rio cl´ssico. Ele ´ tomado pela beleza de um espet´culo que o encanta
              a
e mobiliza n˜o apenas seu olhar, mas o conjunto de seus sentidos: uma na-
                           co                                a           c˜
tureza grandiosa, popula¸˜es projetadas, de qualquer intrus˜o da civiliza¸ao

                                    143
144                CAP´
                      ITULO 18. ANTROPOLOGIA E LITERATURA:

                      c              c
ocidental. Nesse espa¸o fora do espa¸o e nesse tempo fora do tempo, li-
                   c˜                            e
bertado das obriga¸oes da sociedade, faz a experiˆncia de uma felicidade e
                                     a
sobretudo de uma liberdade de que n˜o suspeitava, enquanto se interroga
            o
sobre sua pr´pria identidade.

     e
Conv´m finalmente lembrar que no Ocidente nossos grandes livros de apren-
         a                                      e
dizagem s˜o relatos de viagem: Robinson Cruso´, Moby Dick, A Volta ao
Mundo em Oitenta Dias, Miguel Strogoff, A Viagem de Nils Olgerson, Alice
      ıs
no Pa´ das Maravilhas, O Pequeno Pr´ıncipe. . .

  a                                                               a
N˜o nos enganemos sobre a natureza dessas obras –por sinal, elas s˜o muito
                                               ca          a a
diferentes entre si – nem sobre a nossa inten¸˜o: essas n˜o s˜o, de forma
                                       e
alguma, livros de etnologia. Alguns, at´, nos ensinam apenas muito subsidia
                                                     u
riamente a olhar para os outros, pois o escritor freq¨ente mente sai do seu
                         o        a           e
papel – tentando ser etn´logo –, t˜o grande ´ o seu desejo de resolver seus
   o
pr´prios problemas escapando do Ocidente um instante.

       a                      a          co                e
Isso n˜o impede que a quest˜o das rela¸˜es entre a experiˆncia propriamente
     a               e          o              c             a
liter´ria e a experiˆncia etnol´gica permane¸a colocada, n˜o apenas para os
                                           e            o
autores que acabamos de citar, mas tamb´m para os etn´logos, ou pelo menos
para os que consideram que a descoberta do outro vai junto com a descoberta
            e                        e       e        a
de si: isto ´, para quem a etnologia ´ tamb´m (o que n˜o quer dizer exclusiva-
mente) uma maneira de viver e uma arte de escrever. Estou pensando nesses
numerosos relatos escritos por profissionais de nossa disciplina, geralmente a
                         c˜
margem de suas produ¸oes cient´    ıficas, mas que constituem a meu ver uma
           ca                                                e
contribui¸˜o que seria uma pena deixar de lado, menos, ´ verdade, para a
  e                o
ciˆncia antropol´gica estritamente falando, do que para o conhecimento an-
       o
tropol´gico. Trata-se apenas de alguns exemplos – de Afrique Ambigiie, de
Georges Balandier (1957), Chebika, de Jean Duvignaud (1968), Nous Avons
       e        e
Mang´ la Forˆt (1982) ou L’Exotique Est Quotidien (1977), de Georges Con-
                ıra,
dominas, Ma´ de Darcy Ribeiro (1980), L’Herbe du Diable et la Petite
     e                                     e
Fum´e, de Carlos Castaneda (1982), Forˆt, Femme, Folie, de Jacques Dour-
                       e              e            o
nes (1978). . . Conv´m citar tamb´m essas hist´rias de vida, desenvolvidas
      ıcio                                                     c
de in´ nos Estados Unidos, e, mais recentemente na Fran¸a (cf. a cole¸˜o   ca
”Terre Humaine”, da editora Plon) nas quais se procura compreender o funci-
                        c˜          co                                   ıduos
onamento e a significa¸ao das rela¸˜es sociais a partir do relato de indiv´
                                                 e
singulares: o discurso do velho dogon Ogotemˆlie publicado por Mareei Gri-
                               e
aule (1966), Soleil Hopi, que ´ a autobiografia de um ´ındio pueblo, Os Filhos
     a
de S´nchez, de Oscar Lewis (1963), La Statue de Sei, ed Albert Memmi
                                                                                    145

            1
(1966)...

O limite que separa essa etnologia romanceada, qualificada precisamente de
               o
romance etnol´gico, do romance propriamente dito, a literatura da ciˆnciae
                             e`                        e
(cf. Gilberto Freyre, 1974), ´ as vezes extremamente tˆnue. Estou pensando
                                                      e
principalmente em Victor Segalen, que, em Les Imm´moriaux (reed. 1982),
                                                                  a
procura ”escrever”as pessoas taitianas de uma maneira adequada `quela com
                                 a             o
a qual Gauguin as viu para pint´-las: ”neles pr´prios, e de dentro para fora”.
Em Jean Monod, para quem a etnologia ”foi o prolongamento da experiˆncia e
   e
po´tica”(1972). Em Roger Bastide, que, em Imagens do Nordeste M´         ıstico
em Branco e Preto (1978), se diz ”dividido entre um grande fervor e o de-
                                                               o
sejo de fazer uma pesquisa objetiva”, e considera que ”o soci´logo que quer
compreender o Brasil deve transformar-se em poeta”.

                      o                               o
Mas o ”romance etnol´gico”culmina com Tristes Tr´picos, de Claude L´vi-   e
                                               u
Strauss (que, por outro lado, nos lembra freq¨entemente em sua obra que
se considera como o disc´ıpulo de Jean-Jacques Rousseau, e mais especifica-
                                 o           e            a
mente do Rousseau das Confiss˜es e das Rˆveries, e n˜o do Rousseau do
                                        o
Contrato Social) e com L’Afrique Fantˆme, de Michel Leiris, que distingue
                    a                       o                  e
perfeitamente sua pr´tica profissional de etn´logo e sua experiˆncia de escri-
                                   a                    c˜
tor e poeta, mas indica-nos quais s˜o, para ele, as rela¸oes que as unem:

                                                         a
”Passando de uma atividade quase exclusivamente liter´ria para a pr´ticaa
                                              a
da etnografia, eu pretendia romper com os h´bitos intelectuais que tinham
              e   a
sido meus at´ ent˜o e, no contato de homens de outra cultura e outra ra¸a,c
derrubar as paredes entre as quais me sentia sufocado e ampliar meu ho-
          e
rizonte at´ uma medida verdadeiramente humana. Concebida dessa forma,
                o                               e                a
a etnografia s´ podia me decepcionar: uma ciˆncia humana n˜o deixa de
            e                 ca        a       a                    o
ser uma ciˆncia e a observa¸˜o a distˆncia n˜o poderia, por si s´, levar
                                      ca          a                     ı
ao contato; talvez implique, por defini¸˜o, o contr´rio, a atitude de esp´rito
   o
pr´pria do observador sendo uma objetividade imparcial inimiga de qualquer
     a
efus˜o”(1934).
   1
          e                          ca                u
     Conv´m mencionar aqui a produ¸˜o de um certo n´mero de obras cinematogr´ficas  a
            a          a                              e                     a      a
contemporˆneas – e n˜o apenas obras pertencendo ao gˆnero do filme etnogr´fico cl´ssico
                                  a                               ca
– que constituem, a meu ver, n˜o apenas uma fonte de informa¸˜o, mas um meio de
                                        o
conhecimento verdadeiramente antropol´gico. Estou pensando particularmente em Moi et
                                               e
un Noir, de )ean Rouch (1958) que teve a influˆncia que sabemos sobre o cinema de )ean-
                                                                              ´
Luc Godard (especialmente Picrrot le Fou), e em filmes mais recentes como A Arvore dos
                                                            a
Tamancos, de Ermanno Olmi (1977), Padre Pudrone, dos irm˜os Taviani (1977), Le Christ
         eea
s’est Arrˆt´ ` Eboli, de Francesco Rosi (1979), Fontamara, de Carlos Lizzani (1980), Yol,
                                        a                              e
de Yilmaz Guney (1981), Kaos, dos irm˜os Taviani (1984), Le Pays oii Rˆvent les Fourmis
                                          e   ´
Vertes, de Werner Herzog (1984), La Forˆt d’Eineraude. de —ohn Boorman (19851.
146                CAP´
                      ITULO 18. ANTROPOLOGIA E LITERATURA:


          ı                                               a
”No per´odo de grande permissividade que sucedeu `s hostilidades, o jazz
                      a                      ı
foi um sinal de uni˜o, uma bandeira org´aca, nas cores do momento. Agia de
                 a                         e
uma forma m´gica e seu modo de influˆncia podia ser comparada a uma pos-
    a
sess˜o. Era o melhor elemento para dar a essas festas seu verdadeiro sentido,
                                     a             c
um sentido religioso, uma comunh˜o pela dan¸a, o erotismo latente ou mani-
                                                                ı
festo, e a bebida, o meio mais eficiente de acabar com o desn´vel que separa
         ı                                          e        a
os indiv´duos uns dos outros em qualquer esp´cie de reuni˜o. Mergulhados
                                         o
em rajadas de ar quente vindas dos tr´picos, o jazz trazia restos significativos
             ca                                                     a a
de civiliza¸˜o acabada, de humanidade submetendo-se cegamente ` m´quina,
                   a                           ı              ı
para expressar t˜o totalmente quanto poss´vel o estado de esp´rito de pelo me-
                     o         ca      ı
nos alguns entre n´s: aspira¸˜o impl´cita e uma vida nova na qual um espa¸o  c
mais amplo seria dado a todas as ingenuidade selvagens cujo desejo, embora
                                                       ca
ainda sem forma, nos assolava. Primeira manifesta¸˜o dos negros, mitos dos
e                                        e       ´          e        ´
´dens de cor que deviam me levar at´ a Africa e, para al´m da Africa, at´      e
a etnografia”(1973). O tipo de etnologia no qual estamos aqui convidados
            e
a entrar ´ uma etnologia eminentemente amorosa, na qual o pesquisador-
                             ´                                  e
escritor renuncia a ser o unico sujeito do discurso, mas tamb´m seu objeto,
                                                     c
dentro de uma aventura. Por outro lado, esfor¸a-se por apreender da forma
        o             ıvel
mais pr´xima poss´ a linguagem dos homens da alteridade e em transmiti-
la na nossa l´          a
                ıngua (j´ era um dos objetivos de Mali-nowski).

       c˜                `         a e
A rela¸ao ao outro– e a viagem – n˜o ´ evidentemente a mesma se consi-
                           c˜
derarmos de um lado a rela¸ao de Griaule com os Dogons, de Leenhardt com
os Canaques, de Margaret Mead com as mulheres da Oceania, de Michel
                                                                  a
Leiris ou —ean Rouch com os africanos, de —acques Berque com os ´rabes,
                  ca
e de outro, a rela¸˜o de um Antonin Artaud com os tarahumaras ou de um
                                              e                      o
)ean Paulhan com os malgaxes. Mas quando L´vi-Strauss expressa seu ´dio
                     ıcio           o       e
pelas viagens, no in´ de Tristes Tr´picos, ´ para, como Michaux em Um
  a          ´
B´rbaro na Asia ou em Equador, exigir uma viagem mais radical.
                                     ***
                 c˜
O estudo das rela¸oes entre etnologia e literatura (especialmente o romance)
merece ser levado mais adiante ainda. Suas afinidades deve-se, a meu ver, a
   o                                  e
raz˜es mais fundai mentais. Citarei trˆs delas.

                                                   a
1) A etnologia, pelo menos tal como a concebo, n˜o se contenta com a si-
   c˜                a
tua¸ao, segundo a an´lise por Husserl: essa crise do pensamento ocidental
                                                          `      a
que, por estar cada vez mais especializado, reluta frente a reflex˜o sobre o
homem, e pode caracterizar-se para levar a um ”esquecimento do ser”. A
etnologia e o romance (ambos – voltaremos a isso – nascidos na Europa)
                                                                                    147

visam precisamente (por vias muito diferentes) a explorar de uma maneira
 a                                                     e
n˜o especulativa esse ser do homem esquecido pela tendˆncia cada vez mais
            o        a                e
hiper-tecnol´gica e n˜o reflexiva da ciˆncia.

2) A literatura (e, notadamente, a literatura romanesca) desenvolve um in-
teresse todo especial para o detalhe, e para o detalhe do detalhe, para os
             u
”eventos min´sculos”e os ”pequenos fatos”de que fala Proust. Ora, essa pre-
      c˜               o         a
ocupa¸ao pelo microsc´pico – e n˜o, como diz ainda Proust, pelas ”grandes
       o          o                                                  e
dimens˜es dos fenˆmenos sociais-- vai ao encontro da abordagem que ´ a da
etnologia.

                         e                                  a     e
O que caracteriza tamb´m o modo de conhecimento liter´rio ´ que n˜o se    a
       `                       c˜            e        a            a
reduz a faculdade de observa¸ao. A vida ´ inclus˜o e confus˜o, a arte ´       e
            c˜       c˜
discrimina¸ao e sele¸ao, bem como mostrou Henry James. O que o escritor
         e     a
procura ´ a an´lise dos fatos com o objetivo de tirar leis gerais. explicativas
                                     e
dos comportamentos humanos. Ele ´, segundo o termo de Proust, um ”esca-
                               ca e                 `        c˜
vador de detalhes”. Sua ambi¸˜o ´ nunca se ater as sensa¸oes que ”afetam
                                          ´
sem representar”, e sim, a partir de um unico pequeno fato, se for bem es-
                                                     e
colhido, fazer surgir o ”geral”do ”particular”. Isto ´, chegar a uma lei geral
          a                                                      a
que levar´ a conhecer a verdade sobre os milhares de fatos an´logos, e per-
     a
mitir´, articulada com outras leis, sejam colocadas as bases de uma ”teoria
do conhecimento”.

       e                                       e            a
3) A gˆnese do romance, como a da etnologia, ´ contemporˆnea desse mo-
                      o                           c
mento de nossa hist´ria no qual os valores come¸am a vacilar, no qual ´      e
                                                                      e
questionada uma ordem do mundo legitimada pela divindade. O que ´ ent˜o    a
            a e                                                 e
proposto n˜o ´ nada menos que um descentramento antropocˆn-trico em
    c˜ `                    e `            a
rela¸ao a teologia, mas tamb´m a filosofia cl´ssica, na qual a inteligibilidade
e         ıda     a
´ constitu´ e n˜o constiuinte: a relatividade dos pontos de vista, dos va-
                  c˜                                             e
lores, das concep¸oes do homem e do social, o abandono da id´ia de uma
verdade absoluta situando o bem de um lado, e o mal de outro, comum a
todas as ideologias.2

   o                      o                                          o
A l´gica do romance sup˜e a pluralidade dos personagens, como a l´gica
                 o
da etnologia sup˜e a pluralidade das sociedades, e, em ambos os casos, essa
            e        ıvel ` identidade. Assim, Joseph K. no Processo n˜o
pluralidade ´ irredut´    a                                              a
e
´ nem totalmente culpado nem totalmente inocente. Assim, na Montanha
   2
                      c
    O romance come¸ou como a etnologia: pela perspectiva, aberta pelas viagens, da
aventura ilimitada (Jacques le fataliste, Dom Quixote...). Depois, e em ambos os casos, o
long´                      o       `
    ınquo deixa lugar ao pr´ximo. A medida que o universo conhecido vai sendo explorado,
                  o
volta-se para o pr´ximo e, como em Madame Bovary, explora-se o cotidiano.
148                   CAP´
                         ITULO 18. ANTROPOLOGIA E LITERATURA:

  a                                   a                a      e
M´gica, de Thomas Mann, os pension´rios do Berghof n˜o detˆm a verdade
                       ıcie”, e Hans Castorp n˜o ´ a medida de Settembrini.
dos habitantes da ”plan´                      a e
               a                   c˜                       e
O mesmo se d´ para Zeno em rela¸ao a Augusta, na Consciˆncia de Zeno,
                                      c˜ `
de Svevo, para Leopold Blum em rela¸ao a ”gente de Dublin”, em Ulisses,
                                                                    c˜
de Joyce, para o narrador de Em busca do tempo perdido em rela¸ao aos
Verdurin, etc.3

                     e a              a                             e
Ora, essa abordagem ´ an´loga (o que n˜o significa de modo algum idˆntica)
`                                                       o
a da etnologia. Pode ser apreendida da forma mais pr´xima poss´    ıvel nos
                   o                                           a
trabalhos de um etn´logo como Oscar Lewis. Em Os Filhos de S´nchez, par-
                 a                                      o
ticularmente, n˜o somos mais confrontados com os mon´logos paralelos do
                                                               ´        o
observador do observado, alternadamente considerados como os unicos p´los
           ca
da observa¸˜o, mas aos olhares cruzados (convergentes, divergentes) de uma
            ılia
mesma fam´ mexicana.

Em suma, esses exemplos bastam, me parece, para fazer-nos compreender
                                                      ` e
que no romance tanto quanto na etnologia, renuncia-se a id´ia de que a rea-
lidade possa ser apreendida em si, mas, mais modestamente, sempre a partir
                                                          o
de um certo ponto de vista. Em ambos os casos, para o etn´logo, como para
o romancista, coloca-se o problema dos limites que se deve impor ao olhar.
                               c
Ou seja, o ponto de vista esfor¸a-se em ser total, sem nunca ser absoluto.
                                                 e
Essa abordagem, deliberadamente perspectivista, ´ portanto claramente an-
               4
         a
titotalit´ria.




   3
                                    a
     E mesmo quando o romance est´ totalmente organizado em torno de uma personagem
´                        ca                 e                      ca           e       a
unica, a partir da revolu¸˜o romanesca da d´cada de 1920, revolu¸˜o esta que, ´ claro, n˜o
veio de repente, mas foi gradualmente preparada por escritores como Stendhal, Flaubert,
                                                           ca         o
fames, essa personagem, profundamente dividida em rela¸˜o a si pr´pria, reintroduz no
     c
espa¸o romanesco a multiplicidade dos pontos de vista.
   4
             co                                                   c
     As rela¸˜es (no caso convergentes) que acabamos de esbo¸ar entre o romance e a
                                 ca
antropologia exigiriam uma afina¸˜o. De que romance se trata? E de que antropologia?
                                                      a         ca
Parece-nos por exemplo que a abordagem que visa ` investiga¸˜o mais completa poss´     ıvel
                            e                ca              ca
de um grupo humano atrav´s da documenta¸˜o e da observa¸˜o distanciada da ”realidade
         e        a                              e
social”, ´ comum `s correntes positivistas das ciˆncias humanas e naturalistas do romance.
                                                               a
Da mesma forma, a perspectiva de Balzac, que privilegia o car´ter eminentemente social e
  e o           o             c˜
at´ s´cio-econˆmico das situa¸oes (descritas em sua exterioridade) e das personagens (que,
                                                  ca
na obra de Balzac, con fundem-se com sua fun¸˜o e seu estatuto social), corresponde `     a
     e                                             ca
tendˆncia sociologizante da antropologia. A rela¸˜o entre o afetivo e o social inverte-se
                                         o
quando passamos para o romance psicol´gico ou para a antropologia psicanal´    ıtica.
   ıtulo 19
Cap´

        o
As Tens˜es Constitutivas Da
  a             o
Pr´tica Antropol´gica:

                                             o              u
Encontramos no conjunto do campo antropol´gico um certo n´mero de tens˜es o
                                                    c               a
importantes, opondo a universalidade e as diferen¸as, a compreens˜o ”por
                       a
dentro”e a compreens˜o ”por fora”, o ponto de vista do mesmo e o ponto
                                       o    a
de vista dos outros. . . Mas essas tens˜es s˜o verdadeiramente constitutivas
      o       a                           ´       o      c
da pr´pria pr´tica da antropologia. Esta ultima s´ come¸a a existir a partir
do momento em que o pesquisador se entrega a um confronto entre esses
                                              o       u              e
diversos termos, vive dentro de si essas tens˜es, freq¨entemente polˆmicas,
     c             a
esfor¸a-se em pens´-las e dar conta delas. Correla-tivamente, parece-me que
a antropologia tem todas as chances de engajar-se em um impasse, em um
               c˜
desvio em rela¸ao ao modo de conhecimento que persegue, toda vez que um
      o            a
dos p´los em quest˜o domina o outro.


19.1      O Dentro E O Fora
            c˜
Uma pulsa¸ao bastante espec´                                     o
                              ıfica ritma o trabalho de todo etn´logo. O pri-
               e                         e
meiro tempo ´ o da aprendizagem atrav´s de um conv´            ıduo e de uma
                                                       ıvio ass´
                     c˜
verdadeira impregna¸ao por seu objeto. Trata-se de interpretar a sociedade
estudada utilizando os modos de pensamento dessa sociedade, deixando-se,
                                              a
por assim dizer, naturalizar por ela. O que n˜o tem realmente nada de um
     ıcio                                                              ´
exerc´ intelectual, pois, como diz Georges Balandier a respeito da Africa,
corre-se o risco de voltar ”perdido para o Ocidente”. A abordagem de um
                                                          a           a
fean Rouch, de um Michel Leiris (que escrevia em seu di´rio de miss˜o: ”eu
                    ıdo
preferiria ser possu´ a estudar os possu´  ıdos”), ou de um Roger Bastide,
parece-me particularmente representativa dessa atitude. Roger Bastide es-
creve, por exemplo:

                                    149
150CAP´                ˜                      ´             ´
      ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA:


                         e                                        e e
”Eu abordava o candombl´ com uma mentalidade moldada por trˆs s´culos
                                                                     a
de cartesianismo. Devia deixar-me penetrar por uma cultura que n˜o era
minha. Devia portanto converter-me a uma outra mentalidade A pesquisa
     ı                               e                         ca
cient´fica exigia de mim a passagem pr´via pelo ritual de inicia¸˜o”.

               e    a                           e
Roger Bastide ´ ent˜o entronizado no candombl´, onde lhe revelam que ´    e
            o              a                         e                    a
filho de Xangˆ, deus do trov˜o dos Iorubas, e onde, at´ a sua morte, ocupar´
um lugar na hierarquia sacerdotal.

                               o           a                  a        e
A nosso ver, o pesquisador s´ ultrapassar´ esse primeiro est´gio que ´ o
                      e                 a             a
do encontro, da experiˆncia, e por que n˜o? da convers˜o (pelo menos meto-
   o
dol´gica), e que podemos ilustrar com os trabalhos dos fundadores de nossa
                c
disciplina, come¸ando por Leenhardt e Griaule – se o tiver pelo menos en-
contrado e atravessado.

                                    ca                                  o
Mas passado o tempo da impregna¸˜o, chega inelutavelmente para o etn´logo
          a          e o
o da distˆncia, pois ´ pr´prio da linguagem, e particularmente da linguagem
     ıfica, atuar no sentido de uma separa¸˜o. E sobretudo, a inteligibilidade
cient´                                    ca
             a
procurada n˜o consiste apenas em compreender uma sociedade da forma
                                             e
como seus atores sociais a vivem, mas tamb´m, mas sobretudo, em entender
                      o
o que lhes escapa e s´ pode lhes escapar. De fato, o que vivem os membros
                                    a
de uma determinada sociedade n˜o poderia ser compreendido situando-se
apenas dentro dessa sociedade. O olhar distanciado, exterior, diferente, do
           e                 c˜                ıvel            a       o
estranho, ´ inclusive a condi¸ao que torna poss´ a compreens˜o das l´gicas
                                                                  ıcio
que escapam aos atores sociais. Ao familiarizar-se com o que de in´ parecia
                o
estranho, o etn´logo vai tornar estranho para esses atores o que lhes parecia
familiar.

     e                                                          e
Conv´m portanto insistir aqui sobre a opacidade das estrat´gias sociais.
Parece-nos de fato, que, de um determinado ponto de vista, os camponeses de
            a
Cevennes s˜o os pior situados para compreender os camponeses de Cevennes,
e os professores de filosofia para compreender os professores de filosofia, ou
ainda, os franceses para compreender os franceses;1 pois as significa¸oes pro-
                                                                    c˜
          a
duzidas n˜o residem apenas naquilo que uma cultura ou microcultura afirma,
                   a                          e
mas naquilo que n˜o diz. Nenhuma sociedade ´ de fato perfeitamente trans-
parente a si mesma, nenhuma escapa de suas armadilhas conscientes. Cada
                            e
grupo humano, como tamb´m cada indiv´                         o
                                         ıduo, fornece a si pr´prio e aos ou-

   1
                                                               e
   Cf., sobre esse ponto, os trabalhos de L. Wylie (1968), que ´ americano, ou de Zeldin
           e     e
C983). que ´ inglˆs
19.1. O DENTRO E O FORA                                                  151

                c˜
tros racionaliza¸oes de suas condutas, que consistem em modelos conscientes
          o      a
que o etn´logo n˜o deve cortejar e adaptar, nem contornar e exorcisar, e sim
analisar.

Assim, o risco do primeiro momento (habitualmente designado pela express˜oa
            a                  e                    c˜
”compreens˜o por dentro”) ´, seja uma participa¸ao cega e uma ”empa-
          a                                              ca
tia”que n˜o se consegue mais controlar, seja a retranscri¸˜o, em termos eru-
                                   a
ditos e na forma de uma redundˆncia, do que foi expresso, por exemplo,
             e               a                                    o
pelo camponˆs ou pelo oper´rio em termos populares. Alguns etn´logos tˆm e
     e                                               e
tendˆncia a supervalorizar o discurso do outro, isto ´, a abandonar um mo-
                                                   co
delo de pensamento por outro. Mas em tais condi¸˜es, como diz MarcAug´      e
               o
(1979), ”o etn´logo que tentasse compreender o universo dos bororos e ex-
    a                a                   o
plic´-lo de dentro, n˜o seria mais um etn´logo e sim um bororo”.

                                             a
O risco inverso pode apresentar-se na ocasi˜o do segundo momento do pro-
                     a
cesso (a ”compreens˜o de fora”). Quando o discurso sobre o outro tende
a dominar o discurso do outro, degenera habitualmente em um discurso a      `
revelia do outro, podendo contribuir na morte do outro (e na morte das ci-
      c˜                                                               a
viliza¸oes). O paradoxo merece ser sublinhado. Enquanto nossa profiss˜o de
    o                                                                  e
etn´logo exige que comecemos toda pesquisa pela aprendizagem da mod´stia,
                                e                  a
por uma ruptura cultural, ou at´ por uma ”convers˜o”, deixando-nos ensinar
                        c                 co
e aculturar como crian¸as, nossas produ¸˜es eruditas terminam quase sem-
                                               `
pre tomando as outras sociedades conformes a inteligibilidade que organiza
                      a
a nossa. O risco., n˜o desprez´       e
                                ıvel, ´ de estarmos carregando conosco um
                                                              c˜
modelo de leitura, de sociedade em sociedade, com a convic¸ao de sempre
                    ´
permanecer com a ultima palavra. Se a etnologia conseguir superar a ide-
                  ca                    a             a
ologia da idealiza¸˜o amorosa, da fus˜o e da confus˜o, parece-me que n˜o   a
                                       e
deve ser para voltar ao estatuto etnocˆntrico da racionalidade ocidental, que
e                         o
´ apenas uma forma de l´gica entre tantas outras.

 e                       u                             a
L´vi-Strauss compara freq¨entemente a antropologia ` astronomia. Qualifica
                                e                                       o
a primeira de ”astronomia das ciˆncias sociais”, e diz do olhar antropol´gico
que ´ um ”olhar de astrˆnomo”. E
     e                  o          ´ a proximidade desse olhar sobre soci-
edades long´ınquas que permite notadamente que o pesquisador, de volta a
       o                        a          a         e      a           o
sua pr´pria sociedade, possa olh´-la a distˆncia E ´ o car´ter microsc´pico
de sua abordagem que fundamenta paradoxalmente a natureza telesc´pica   o
                            e                       c˜
de sua abordagem. Existe, ´ claro, uma contradi¸ao aparente nesse olhar
  o
pr´ximo do long´ ınquo que age como um olhar long´                o
                                                      ınquo do pr´ximo; mas
              c˜          o
essa contradi¸ao, todo etn´logo a encontrou pelo menos uma vez na vida.
                                    a
Em suma, parece-nos que essa tens˜o entre pesquisadores, mas sobretudo,
152CAP´                ˜                      ´             ´
      ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA:

em um mesmo pesquisador,2 entre a situa¸ao de outsider e a de insider – que
                                        c˜
e     o            ca           c˜
´ a pr´pria defini¸˜o da ”observa¸ao participante”, essa vontade de ”poder
pensar e sentir alternadamente como um selvagem e como um europeu”(E.
                          e                            a
Evans-Pritchard, 1969) – ´ constitutiva de nossa profiss˜o. Como escrevia,
  a              e                                   o
h´ mais de um s´culo, Tylor, um dos primeiros antrop´logos:

                 e                     e            e
”Existe uma esp´cie de fronteira aqu´m da qual ´ preciso estar para sim-
                         e           e                         a
patizar com o mito, e al´m da qual ´ preciso estar para estud´-lo. Temos a
                                          c                            a a
sorte de viver perto dessa faixa fronteiri¸a e de poder passar e repass´-la `
vontade”.


19.2        A Unidade E A Pluralidade
                   e
Fazer antropologia ´ segurar as duas extremidades da cadeia e afirmar com
            c
a mesma for¸a:
   • existe, como escreve Mauss, uma ”unidade do gˆnero humano”
                                                  e
   • tal costume, tal institui¸ao, tal comportamento, estranhos a minha
                              c˜
                 a
     sociedade, s˜o realmente diferentes
                           o                               e     u
1) Esse descentramento te´rico de si por abertura ao outro ´ freq¨entemente,
      a                         c˜
na pr´tica, apenas uma tradu¸ao de um discurso em outro, de uma mentali-
                            a         ca
dade em outra, uma extens˜o e anexa¸˜o do outro, reduzido a mera figura do
mesmo. E  ´ notadamente o caso do evolucionismo que dissolve a alteridade na
                                           a e
unidade, pois, como vimos, o ”primitivo”n˜o ´ visto como sendo realmente
               o
diferente de n´s. Encarna a forma social ultrapassada do que fomos outrora,
  e                          c˜                 ´
e ´ utilizado como a ilustra¸ao de um processo unico que sempre conduz ao
  e                     e          a            o                e
idˆntico. Mas essa tendˆncia da pr´tica antropol´gica atua tamb´m em abor-
dagens que, no entanto, apresentam-se como radicalmente opostas. E, por´
            a                          ca
exemplo, f´cil encontrar uma contradi¸˜o, na obra de Malinowski, entre, de
                 e                                       c
um lado a experiˆncia pessoal do observador, que se esfor¸a em dar conta da
                      ıvel                                      ca       o
especificidade irredut´ dos insulares trobriandeses, e a convic¸˜o do te´rico
que, no final de sua vida, reflete sobre o funcionamento da humanidade em
                                                   a
geral, pois considera que, finalmente, os homens s˜o em toda parte os mes-
                     a                 o                              c
mos. A abordagem t˜o exigente do etn´grafo, que evidencia as diferen¸as que
                                                      a            ca
observa, termina dis-solvendo-se no dogmatismo unit´rio da fun¸˜o. Com-
preendemos, dentro desse quadro, o questionamento de nossa disciplina, que
   2
    Lembramos, por exemplo, que Malinowski no in´   ıcio de sua carreira, ao estudar os
Trobriandeses (1963), privilegia um modo de conhecimento por ”dentro”, em seguida,
quando elabora sua Teoria Cient´                           a
                                 ıfica da Cultura (1968), d´ prioridade a um mo’do de
conhecimento claramente distanciado.
19.2. A UNIDADE E A PLURALIDADE                                                     153

se expressa notadamente pela voz dos intelectuais do ”terceiro mundo”(cf.
por exemplo Fanon, 1952, Baldwin, 1972, Adotevi, 1972) pedindo o fim da
                      o           u
antropologia, este mon´logo tranq¨ilo do Ocidente consigo mesmo, no qual
  ´
a unica racionalidade presente estaria conferida por um sujeito ativo a um
objeto passivo.

            ca
Essa acusa¸˜o segundo a qual o conhecimento dos outros estaria reduzido
ao Saber verdadeiro por um observador possuindo infalivelmente a verdade
do observado, e procurando menos o advento com os outros daquilo que n˜o     a
                           ca
pensava, do que a verifica¸˜o sobre os outros daquilo que pensava, coloca um
                       ´        e    e
problema essencial: a unica ciˆncia ´ ocidental? e a antropologia teria apenas
                                                 ca
uma modalidade do conhecimento por objetiva¸˜o? Nossa disciplina – pelo
menos tal como a concebo – aspira a uma forma de racionalidade que n˜o       a
e         e
´ a das ciˆncias sociais, tais como a economia, a sociologia ou a demografia,
                               e                  e
as quais ”aceitam sem reticˆncias”, como diz L´vi-Strauss, ”estabelecer-se
                                                                   a
dentro mesmo de suas sociedades”. E, por outro lado, embora n˜o se trate
      e
de ciˆncias, no sentido ocidental do termo, existem, em outras culturas, for-
                              o     a
mas de conhecimento cuja l´gica n˜o tem realmente nada a invejar da nossa:
                       a                                             a
por exemplo, as gram´ticas indianas, os ”saberes sobre o corpo”asi´ticos, ou
                 co
ainda as institui¸˜es familiares tais como foram elaboradas pelos abor´  ıgines
               a
australianos, t˜o complexas que precisamos, no Ocidente, para compreendˆ-    e
                                        a
las, apelar para os recursos das matem´ticas modernas.

          ´                a
2) Esses ultimos coment´rios nos levam a nos voltar para o segundo p´lo o
           a                                       e
dessa tens˜o entre a unidade da cultura (o outro ´ um homem como n´s,   o
                    e
como vemos na trag´dia shakespeariana) e a diversidade das culturas. A par-
                   o
tir desse segundo p´lo, organiza-se toda uma corrente, que encontra uma de
                       o
suas primeiras express˜es em Montaigne (os costumes diferem tanto quanto
            a                e
os trajes, h´ uma verdade al´m dos Pireneus. . .), atravessa o pensamento
         o                 a
antropol´gico contemporˆneo, e consiste dessa vez em considerar as dife-
    c
ren¸as como irredut´ıveis.

O que ´ evidenciado nessa perspectiva3 ´ o car´ter assim´trico da rela¸ao
       e                                  e       a          e            c˜
                                              ca                   ca
entre o observador e o observado, a domina¸˜o que uma civiliza¸˜o estaria
impondo deliberada ou dissimuladamente a todas as outras, e a natureza,
                             e                             ca
considerada repressiva, da ciˆncia, que seria a racionaliza¸˜o desse processo.
                a            c˜       a             a
Preconiza-se ent˜o uma rela¸ao emp´tica, igualit´ria e convivial, que pro-

   3
    Perspectiva ao mesmo tempo antievolucionista. antifuncionalista. antiestruturalista,
antimarxista, mas claramente culturalista, encontrada em autores como Castaneda (1982).
Clastres (1974). Delfendhal (1973), (aulin (1970. 1973).
154CAP´                ˜                      ´             ´
      ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA:

porcionaria a possibilidade de dessolidarizar-se do mundo europeu. E uma´
forma de conhecimento mais humana, que poder´      ıamos qualificar de ”etnolo-
gia mansa”, como falamos de ”medicina mansa”, visando, contra o cosmopo-
                                           o                              e
litismo, a reabilitar a identidade das regi˜es (cf., por exemplo, P. J. H´lias,
           o         a
1975). Op˜e-se ent˜o radicalmente a sabedoria das sociedades tradicionais
`     e         e
a violˆncia fren´tica da sociedade racionalista, da qual a antropologia seria
  u                                              e
c´mplice. Finalmente, considera-se que o que ´ separado pela barreira das
           a                                                      o
culturas n˜o deve ser reunido, nem mesmo pelo pensamento te´rico. Disso
                c˜         o
decorre a oposi¸ao aos pr´prios conceitos de homens e de antropologia, aos
quais se prefere o de povo (no plural) e de etnologia.

                              c˜
Procuremos analisar as implica¸oes de tal atitude.

1) Em primeiro lugar, a inquietude que demonstram esses autores com res-
                           ca
peito a uma homogeneiza¸˜o, pelo Ocidente das diferentes culturas do mundo,
me parece pouco fundamentada. De volta de uma miss˜o cient´a      ıfica no Nor-
                                                        c˜           ıda
deste do Brasil, posso relatar o seguinte: uma popula¸ao constitu´ em sua
maioria de descendentes de europeus, e confrontada hoje a uma conjuntura
     o                              e                          a
econˆmica internacional que lhe ´ eminentemente desfavor´vel, soube criar
                                                         a
formas de sociabilidade plenamente originais, encontr´veis no menor com-
                                          a
portamento da vida cotidiana, e que n˜o se deixam de forma alguma alterar
pelos modelos culturais vigentes em Paris, Londres ou Chicago. Sabemos
de fato que, quanto mais uma sociedade tende a uniformizar-se, mais tende
simultaneamente a diversificar-se. Assim, por exemplo, a hegemonia ariana,
que ia levar ` unifica¸ao da ´
             a        c˜      India, foi acompanhada correlativamente de uma
     a                                                          e
divis˜o da sociedade em castas. Da mesma forma, foi a influˆncia, que pare-
                                            c˜                 e
cia exclusivamente niveladora, da revolu¸ao industrial do s´culo XVIII que
                      ca
permtiiu a radicaliza¸˜o dos diferentes estatutos entre os grupos (as classes
                                               a
sociais). Mais uma vez, o Brasil contemporˆneo me parece particularmente
revelador a esse respeito e nos leva ainda mais adiante. A cultura popular n˜o a
 o                       `                                 e       u
s´ resiste notavelmente a cultura dominante, como tamb´m, freq¨entemente,
                                                                  a
consegue se impor a esta, de uma maneira dificilmente imagin´vel no Oci-
                                  c                            a
dente. Aquilo que Bastide come¸ava a notar, trinta anos atr´s, ao estudar os
cultos afro-brasileiros, acentuou-se e confirmou-se. Encontrei pessoalmente
membros das classes superiores da sociedade brasileira que, no decorrer das
      o                      a
cerimˆnias de umbanda, s˜o sucessivamente ”possu´      ıdos”pelos esp´ ıritos das
divindades dos ´                                                        a
                ındios e dos ancestrais africanos do tempo da escravid˜o. Ora,
         o                                       a           o
esse fenˆmeno pode ser melhor apreendido, n˜o nas regi˜es mais exteriores
        c˜                             o           ıs,
em rela¸ao ao desenvolvimento econˆmico do pa´ como o Nordeste, mas no
                          a               e
Rio de Janeiro ou em S˜o Paulo, que ´ hoje uma das primeiras metr´poles    o
industriais do mundo.
19.2. A UNIDADE E A PLURALIDADE                                                     155


        e                     e
2) A id´ia de que o outro ´ radicalmente outro, de que, por exemplo, o
              e                                        a
Novo Mundo ´ de fato um outro mundo, e de que n˜o se poderia preencher
(e, mesmo se fosse poss´        a               e              c
                        ıvel, n˜o se deveria fazˆ-lo) a diferen¸a absoluta que
              o                                                    a
o separa de n´s, participa de um etnocentrismo invertido que n˜o deixa de
lembrar de Pauw ou Hegel. Para estes, como lembramos, as sociedades selva-
      a                                            o       ´
gens s˜o totalmente diferentes das sociedades hist´ricas. E ”um outro mundo
                                  e                    e
cultural”, diz Hegel, que tamb´m fala em uma ”essˆncia”dos africanos. O
                                                            a
fato de a alteridade ser aqui valorizada, por um agrad´vel movimento de
  e                                                            o      a
pˆndulo ao qual nos acostumou o pensamento para-antropol´gico, n˜o afeta
                          o
em nada a natureza ideol´gica do processo em quest˜o.  a

                ca
3) Essa celebra¸˜o da sabedoria e do conv´                      a          a
                                             ıvio dos outros n˜o resiste ` ob-
     ca                                  c˜
serva¸˜o dos fatos: decorre da constru¸ao de uma alteridade fantasm´tica    a
que se faz passar por realidade. O africano, o ´              a        a
                                                 ındio, o bret˜o. . . s˜o mobi-
                                                  a
lizados mais uma vez como suportes do imagin´rio do ocidental culto, como
objeto-pretexto utilizado aqui com vistas ao protesto moral, como pode sˆ-lo  e
             a     ca    e                 a
com vistas ` emo¸˜o est´tica ou a militˆncia pol´    ıtica. E correlativamente
                 e
dessa vez, atrav´s dessa deontologia do olhar para o outro – o qual acaba
inclusive perdendo-se, pois olha-se para si mesmo dentro do espelho do outro
                 a                                        ca
–, aquele que est´ submetido a um processo de domina¸˜o e humilha¸˜o n˜o ca a
e                                      o                o
´ mais o outro (sadismo), e sim si pr´prio e sua pr´pria sociedade (maso-
quismo). A excelente imagem que se deve ter dos outros acompanha-se de
           a
fato da m´ imagem que se tem de si (cf., por exemplo, Jean Monod, 1972,
                                                      a
que se acusa de ser um ”rico canibal”). Ou seja, h´ uma recusa de assumir
       o                                       a
sua pr´pria identidade, o que tem como corol´rio a culpa ou a difama¸ao dac˜
               4
ocidentalidade. Em suma, tudo se passa como se esse protesto indignado – o
fato de querer devolver sua dignidade aos outros – devesse passar inelutavel-
                                                           o
mente por um processo consistindo em acusar-se a si pr´prio de indignidade.

       e
4) A id´ia de que os que visam compreender racionalmente a alteridade es-
                                              e
tariam se comportando praticamente como Cortˆs com os Astecas, enquanto
            e
que, indo at´ o fim da ruptura com o Ocidente, se poderia talvez chegar,
     e
atrav´s de um conhecimento por assim dizer amoroso, a coincidir com a ver-
                                                           e
dadeira natureza do outro, enquandra-se mais em uma experiˆncia religiosa,
   4
               ca                                              a e
    . A descri¸˜o, por Turnbull (1972), de selvagens que n˜o tˆm realmente nada de
                                          o
”bons selvagens”, e o fato de que o etn´logo. como qualquer ser humano, possa sentir
´dio em rela¸˜o a estes, e escrevˆ-lo, causou escˆndalo entre os etn´logos. Mas que estes
o           ca                   e               a                  o
´         a                                o                               a
ultimos n˜o sejam ”nem santos, nem her´is”, como diz Panoff (1977), ”n˜o impede que
os trobriandeses sejam matrilineares, nem que os Nuers levem uma vida ritmada p las
                                     co            o
necessidades pastorais e pelas condi¸˜es meteorol´gicas”.
156CAP´                ˜                      ´             ´
      ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA:

                 o                                             e
que faria do etn´logo um iniciado ou um eleito, do que na ciˆncia. E al´m   e
disso, tudo nos impele – na esteira dessa para-antropologia que identifica a
                                                           o
abordagem do pesquisador com o ponto de vista dos pr´prios atores, que
             e                  a                                    e
afirma que ´ preciso ser origin´rio de sua cultura para compreendˆ-la real-
mente – a ficar em casa, a permanecer entre si. Apenas o ´    ındio (e, a rigor,
                                    e
aquele que se tornar seu adepto) ´ capaz de compreender o ´    ındio. Apenas
       a e                                      a                   a
o bret˜o ´ capaz de falar corretamente o bret˜o. Apenas o prolet´rio pode
             e              a                         a          c˜
saber o que ´ a classe oper´ria. Apenas a mulher est´ em condi¸oes de com-
                       a                                e        a e e
preender a mulher. J´ passamos por isso. Como vocˆ, que n˜o ´ m´dico,
                                                         e              a
se atreve a falar de medicina? Deixe a medicina aos m´dicos, a religi˜o aos
                                 a                         o
cleros, o proletariado aos prolet´rios, a Bretanha aos bret˜es. . .

               e                     ue               ıpio     a
Se levarmos at´ suas extremas conseq¨ˆncias esse princ´ de n˜o-distancia¸ao c˜
    a        c˜
e n˜o-media¸ao, devemos nos tornar membro efetivo da sociedade que pre-
tend´                        a     a                           a
      ıamos estudar. Mas ent˜o, n˜o se trata mais de estud´-la, e sim de
      a    a
adot´-la, ` maneira desses aventureiros normandos, encontrados por L´ry,  e
que haviam naufragado na costa meridional do Brasil e tinham-se tornado
                                   co
selvagens no contato dessas popula¸˜es, adotando sua l´ ıngua, suas mulheres,
                                   o                                a
seus costumes. Por todas essas raz˜es, ao insistir tanto sobre o car´ter irre-
    ıvel           c            e
dut´ das diferen¸as, essa tendˆncia da etnologia exclui-se por si mesma, a
meu ver, de uma abordagem de pequisa cient´  ıfica.

Acabamos de ver que a uma forma de universalidade que tende para a
      c˜
redu¸ao do outro ao ocidentalismo (o dogmatismo de uma natureza ou de uma
   e                        e
essˆncia humana sempre idˆntica a si mesma) responde uma forma de ma-
     c˜                                                                 e
jora¸ao da alteridade (o dogmatismo da relatividade de culturas heterogˆneas
                 a e a
justapostas). N˜o ´ f´cil, evidentemente, segurar as duas extremidades da
             e           `           a                    `            a
cadeia, isto ´, o acesso a compreens˜o do outro por si e a compreens˜o de
                              c˜                   e
si pelo outro. Se a identifica¸ao integral com este ´, a meu ver, um erro, a
                            e                                      a
antropologia nos engaja por´m nessa aventura que nos ensina que n˜o se deve
                                                   e
identificar integralmente consigo mesmo. O outro ´ uma figura poss´ de  ıvel
                                             u
mim, como eu dele. Esse descentramento m´tuo do observador e do obser-
         a                                    e
vado n˜o pode mais ser, no final dessa experiˆncia, o sujeito transcendental
                                                                     a
do humanismo. Mas nem por isso as identidades de uns e outros est˜o abo-
                                                                 c        e
lidas, passam a ser apreendidas do interior mesmo de sua diferen¸a, isto ´, a
                   c˜
partir de uma rela¸ao.
19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO                                               157

19.3       O Concreto E O Abstrato
                a                         e             c˜
A terceira tens˜o que examinaremos agora ´ a da observa¸ao daquilo que ´  e
                            ıda                          c˜
vivido, e da teoria constru´ para dar conta dessa observa¸ao, ou, se prefe-
                          e
rirmos, do campo e do m´todo.

                a
A incompreens˜o entre os que enfatizam a unidade fundamental da cultura
e os que privilegiam a diversidade, supostamente irredut´   ıvel, das culturas,
                          a
decorre do fato de que n˜o nos situamos, nos dois casos, no mesmo n´ de ıvel
          ca                                     c˜
investiga¸˜o do social. A tomada e’m considera¸ao da variedade cultural me
                            c
leva a perceber que perten¸o a uma cultura entre muitas outras, mas o meu
        e      `        c˜
olhar at´m-se a observa¸ao da realidade emp´                  a        a
                                            ırica. Pelo contr´rio, a an´lise da
                                        a
variabilidade cultural evidencia o que n˜o vejo diretamente quando passo de
                                                                c
uma cultura para outra, mas me permite perceber que perten¸o a uma figura
                                                           ca
particular da cultura. De um lado, portanto, a preocupa¸˜o do concreto, de
             e                                        c˜
outro, a exigˆncia, para dar conta deste, da constru¸ao cient´            e
                                                                ıfica. Vaiv´m a
meu ver ininterrupto que pode ser ilustrado, por exemplo, pelo formalismo
 o               e                   a              e
l´gico de um L´vi-Strauss, o qual n˜o deve, por´m, nos deixar esquecer a
                                                e
especificidade por assim dizer carnal dessa Am´rica ´  ındia dos Nhambiquaras
                                         o
de que tanto gosta o autor de Tristes Tr´picos.

                                                  ca
1) O primeiro risco, que eu qualificaria de tenta¸˜o emp´    ırica, vem da sub-
    a o
miss˜o d´cil ao campo, do registro ficticiamente passivo dos ”fatos”, que d´   a
                       a
ao observador a impress˜o de situar-se do lado das coisas, de estar junto delas.

            ca        `       ca a                                      ıtima.
Essa suspei¸˜o frente a abstra¸˜o e ` teoria parece-me perfeitamente leg´
     u                                               a a
A m´sica, a poesia, a literatura, a pintura, a religi˜o s˜o abordagens muito
mais indicadas do que a antropologia para nos fazer coincidir com os se-
                                                      c˜
res. Proporcionam-nos incontestavelmente mais emo¸oes, mais prazeres- Mas
  a a                      a a                e
n˜o s˜o a antropologia. N˜o h´, de fato, ciˆncia, nem atividade cr´ ıtica nem
                                           c˜        ´
mesmo coleta de fatos sem teoria. A rejei¸ao desta ultima leva inclusive ine-
                                                           a
vitavelmente a adotar a teoria do senso comum, a ”opini˜o”, a ideologia do
                                                                `
momento, a que estiver vigente na sociedade que se estuda ou a qual perten-
                             o       a
cemos. O trabalho do antrop´logo n˜o consiste em fotografar, gravar, anotar,
                        a                             e              ca
mas em decidir quais s˜o os fatos significativos, e, al´m dessa descri¸˜o (mas
                                             a
a partir dela), em buscar uma compreens˜o das sociedades humanas. Ou
                                                o              c˜
seja, trata-se de uma atividade claramente te´rica de constru¸ao de um ob-
           a                                  o
jeto que n˜o existe na realidade, mas que s´ pode ser empreendida a partir
            c˜                                             o
da observa¸ao de uma realidade concreta, realizada por n´s mesmos.

                                               ca
2) O segundo risco pode ser qualificado de tenta¸˜o idealista (ou nomina-
158CAP´                ˜                      ´             ´
      ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA:

                                                                        u
lista). Situamo-nos dessa vez do lado das palavras (ou do lado dos n´meros),
                    a                                 e
mas tomam-se ent˜o as palavras por coisas. No t´rmino do empreendimento
              c˜                       o
de modeliza¸ao que transforma fenˆmenos emp´        ıricos em objetos cient´ıficos,
                               c˜                     o
acaba-se tomando a constru¸ao do objeto pela pr´pria realidade social. Ora,
           c˜                      a
a popula¸ao que estudamos n˜o nos esperou para atribuir significa¸˜es a     co
         a
suas pr´ticas. Por outro lado, uma teoria cient´                   e
                                                       ıfica nunca ´ o reflexo do
                           c˜                            a     a
real, e sim uma constru¸ao do real. Os fatos etnogr´ficos s˜o fatos cientifica-
mente constru´                                  c˜               e
                ıdos, a partir de nossas observa¸oes, mas tamb´m contra nossas
         co                     o                co
observa¸˜es, nossas impress˜es, as interpreta¸˜es dos interessados e nossas
   o                  c˜          a
pr´prias interpreta¸oes espontˆneas. Existe portanto uma inadequa¸ao en-  c˜
                                                          a e
tre, de um lado, a realidade social estudada, que n˜o ´ nem esgotada nem
      a
esgot´vel pela etnologia, e de outro, o objeto que constru´      ımos a partir de
                        ca                 o                   o         c˜
uma determinada op¸˜o disciplinar e te´rica, e da nossa pr´pria rela¸ao com
         o
o psicol´gico e o social.
                                      ***
                           e
O paradoxo, mas tamb´m a especificidade da antropologia no campo das
  e               e       a            e
ciˆncias sociais, ´ que n˜o sendo ”a ciˆncia social, do ponto de vista do obser-
         e             e                                     e    a e
vador”(´ assim que L´vi-Strauss define a sociologia), tamb´m n˜o ´ a ciˆnciae
                                                         a
social do ponto de vista do observado, e sim uma pr´tica que surge em seu
                                    ca                                 c˜
limite, ou melhor, em sua intersec¸˜o. Podemos reduzir a inadequa¸ao entre
os dois pensamentos de que acabamos de falar, traduzindo-a em uma outra
                                         u                a
linguagem. Por exemplo, quando um n´mero consider´vel de indiv´       ıduos que
      o
comp˜em a sociedade brasileira tende a interpretar suas dificuldades (soci-
           o           o
ais, psicol´gicas, biol´gicas) em termos religiosos, podemos dizer que se trata
         a               c˜
de ”ilus˜o”, de ”proje¸ao”, de ”deslocamento”ideal de uma realidade mais
”fundamental”. Da mesma forma, quando o pensamento tradicional clas-
                                       o           ´
sifica as coisas segundo categorias c´smicas (a agua, o ar, a terra, o fogo),
                                     c˜                           o a o
podemos dizer que realiza ”sublima¸oes”cujas ”verdadeiras”raz˜es s˜o s´cio-
     o                         e                             c˜
econˆmicas. Podemos tamb´m compreender essa adequa¸ao atrav´s de um    e
                                           c˜
confronto ininterrupto e de uma articula¸ao entre o pensado e o impensado,
             a
o dito e o n˜o-dito, o manifesto (de minha e da outra sociedade) e o recalcado
(de minha e da outra sociedade).

                     a                                 u
Alguns exemplos v˜o permitir mostrar que um certo n´mero de condutas,
       a                       a
observ´veis em outro lugar, s˜o capazes de agir como reveladores de aspec-
tos culturais inteiros, cuidadosamente dissimulados em nossa cultura, o que
permite afirmar, com Georges Devereux, que o inconsciente de uma cultura
pode ser encontrada no consciente de uma outra.

                             c˜         e            c a
Nossos sistemas de representa¸ao, em mat´ria de doen ¸a, s˜o hoje em grande
19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO                                                       159

           ısticos: a doen¸a ´ considerada como um mal que deve ser esma-
parte exorc´              c e
                                                                       c
gado, e os sintomas, como uma calamidade a ser eliminada; o que tra¸a as
                                o
figuras, bem conhecidas entre n´s, do doente-v´               e
                                              ıtima e do m´di-co-exorcista.
                   c˜
Mas as representa¸oes inversas, chamadas ”adorc´ ısticas”e que correspondem
`                     e                        a                      a
as duas figuras do m´dico-louco e do paciente-or´culo, nem por isso est˜o au-
           a
sentes. Est˜o simplesmente recalcadas, e tornam-se manifestas se passarmos
                                                           a
de uma cultura para outra (dos exorcistas thonga aos xam˜s shongai), ou de
                                                                  a
uma cultura para ela mesma no tempo (da nossa psiquiatria cl´ssica para
                                 o                                 a
a corrente que qualifica a si pr´pria de ”antipsiquiatria”, que n˜o produz
realmente algo novo, mas reatualiza antes algo recalcado).

                                     a
Da mesma forma, os cultos de possess˜o afro-brasilei-ros, tais como os estou
estudando neste momento em uma grande cidade do Nordeste, podem ser
                                                    a
utilizados como reveladores da abordagem antipsiqui´trica inglesa – e parti-
                                       ıvel
cularmente de Laing – que expressa ao n´ do discurso o que os brasileiros
              ıvel
realizam ao n´ do corpo.

Poder´ıamos assim multiplicar os exemplos, e mostrar que o processo, co-
                         o               a
nhecido dos psicossoci´logos, da exclus˜o em um grupo que se quer ho-
    e
mogˆneo, torna-se particularmente claro e ”desocultado”quando nos refe-
       a     c         e           c˜
rimos ` feiti¸aria que ´ uma regula¸ao social estruturalmente universal, etc.

                                                      a e
De tudo isso, resulta que o objetivo da etnologia n˜o ´ o de traduzir a alteri-
                          e
dade nos moldes do que ´, para minha sociedade, conhecido e correto (o que
equivaleria a suprimir essa alteridade); nem o de estender a racionalidade as `
        o                                    a              a
dimens˜es do universo, nos modos mission´rios ou messiˆnicos da conquista
                         e                   e                  c
(pois essa racionalidade ´ provinciana, isto ´, limitada no espa¸o e no tempo).
                        a
A etnologia, pelo contr´rio, abre essa estreiteza monocultural. E no entanto,
               o
para que o pr´prio empreendimento que caracteriza ”nossa disciplina, n˜o      a
                     e                                      e
apenas como experiˆncia e como aventura, mas como ciˆncia, seja poss´       ıvel,
                                      a
algo desse pensamento ocidental ter´ sido utilizado como mediador e como
                a
instrumento: n˜o uma cultura (a nossa) que serviria de referencial absoluto
                     o                            a
e daria sentido a fenˆmenos que inicialmente n˜o tinham, e sim um m´todo, e
            e                             o
ocidental, ´ claro, pela sua origem hist´rica e cultural, mas que subverte a
racionalidade ocidental.5

   5
            a                                                               e
     Seria t˜o absurdo dizer que a antropologia, que nasceu no Ocidente, ´ indefectivel-
                     e                             a                           e     ıfica
mente ocidentalo-cˆntrica, como dizer que a psican´lise, que nasceu em Viena, ´ espec´
                                               e
e exclusivamente vienense. Se a antropologia ´ ”filha do colonialismo”, ”nada seria mais
                        e                                 a           ´               ca
falso”, como escreve L´vi-Strauss (1973), ”do que consider´-la como a ultima reencarna¸˜o
do esp´ırito colonial”.
160CAP´                ˜                      ´             ´
      ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA:

              o                                  c˜            o
Dito isso, a l´gica das condutas e das insttiui¸oes que o etn´logo procura evi-
              e    a                                             c˜       o
denciar tamb´m n˜o se confunde com os sistemas de interpreta¸oes aut´ctones,
                                                    e
com os modelos conscientes, ”feitos em casa”(L´vi-Strauss), com os gˆneros e
     a            co
que s˜o classifica¸˜es ind´ıgenas expl´                              c˜       o
                                      ıcitas. Sistemas de interpreta¸oes aut´ctones,
                           e       a        u                    co
modelos conscientes e gˆneros s˜o freq¨entemente deforma¸˜es e raciona-
    c˜
liza¸oes de estruturas inconscientes (que fornecem no entanto possibilidades
                   ´                e     ıvel
de acesso a estas ultimas), e este ´ o n´ de inteligibilidade que a antropo-
                      c      a
logia pretende alcan¸ar: n˜o o consciente, mas o inconsciente em sua rela¸ao   c˜
                                        c˜           e
com o consciente, o tipo em sua rela¸ao com o gˆnero, etc.

                          o                  co                  a         o
Concluiremos essas reflex˜es com as observa¸˜es seguintes. As pr´ticas simb´licas
e os discursos vividos (que podem ser sistematizados em qualquer lugar, pois
                             o        o       a a
cada sociedade tem seus pr´prios te´ricos) n˜o s˜o interpretados pela antro-
pologia segundo a maneira como seus atores sociais os vivem, nem segundo
                                                             a
a maneira com a qual os observadores os percebem. Isso n˜o significa que o
       o
antrop´logo seja o homem de nenhum lugar, e que a antropologia seja uma
                                            o                         a
metalinguagem. O conhecimento antropol´gico surge do encontro, n˜o ape-
nas de dois discursos expl´ ıcitos, mas de dois inconscientes em espelho, que
                                       ´                           c
espelham uma imagem deformada. E o discurso sobre a diferen¸a (e sobre
               c                       a              c
minha diferen¸a) baseado em uma pr´tica da diferen¸a que trabalha sobre os
limites e as fronteiras.

                                             a e
Tomemos o exemplo de uma conduta que n˜o ´ minha, como a feiti¸aria, ec
                                     a
que pertence seja a uma ”matriz prim´ria”de uma sociedade outra, seja a um
segmento marginal de uma sociedade minha. Seu significado antropol´gico   o
 o
s´ pode ser apreendido relacionando-a aquilo que para minha sociedade tem
                              a          o             c
um sentido, ou aquilo que a pr´tica e a l´gica da feiti¸aria dizem por si mes-
                                                                 ca
mas, nos gestos e discursos dos interessados, mas na sua jun¸˜o e na sua
        ca
intersec¸˜o.

Nesse caso espec´                                    o
                  ıfico, a realidade, para o antrop´logo, constitui-se do con-
fronto de dois discursos interpretativos que se juntam, e constituem, o pri-
meiro, a realidade normalizante do discurso ”erudito”(do psiquiatra, do pa-
                       a
dre, do professor prim´rio. . .), o segundo, a realidade alucinada e desviante,
          e      e              a
mas que ´ tamb´m a express˜o de uma realidade social. A antropologia,
            o      c
portanto, s´ come¸a a adquirir um estatuto cient´   ıfico partir do momento em
                          a
que integra, para analis´-lo, esse envolvimento do pesquisador (ao mesmo
                        o       o      `
tempo psicoafetivo e s´cio-hist´rico) as voltas com a diferen¸a.c

                                          u                 a
Resumiremos da seguinte forma essa ambig¨idade e essa tens˜o (que atua
                                                              co
evidentemente muito mais no estudo dos sistemas de representa¸˜es e valo-
19.3. O CONCRETO E O ABSTRATO                                               161

                                   a
res do que da cultura material). N˜o posso ser ao mesmo tempo eu mesmo e
                                                              e
um outro, e no entanto, para ser totalmente eu, eu devo tamb´m sair de mim
a fim de apreender uma figura recalcada, mas poss´                   a
                                                    ıvel- de mim. N˜o posso
situar-me simultaneamente dentro e fora de minha sociedade, e no entanto,
                                                                o
para compreender minha sociedade no que nunca diz de si pr´pria por que
  a                                e                       ca
n˜o o percebe, devo fazer a experiˆncia de uma descentra¸˜o radical.

                                                        o
Finalmente essa atividade continua interrogando-me na pr´pria atividade
                            a                     ıfico.
pela qual contribuo a fabric´-la como objeto cient´
                                     ***
           ca      o         o
A separa¸˜o teol´gica, filos´fica, e depois cient´  ıfica, do homem e da natu-
                                          e
reza (especialmente os animais, mas tamb´m nossa animalidade), do homem
                               c˜
e de seu semelhante, a separa¸ao do sujeito e do objeto, do sens´      ıvel e do
       ıvel, constituem os termos de uma tens˜o que, a meu ver, n˜o admite
intelig´                                        a                     a
       c˜
resolu¸ao em uma unidade superior como em Hegel. Esses termos, a n˜o ser   a
               c˜      o
em uma solu¸ao fisiol´gica, formam uma complementaridade conflitual, mas
  a             e
n˜o uma ”dial´tica”, conceito para o qual se apela (na verdade, cada vez me-
                                              e
nos) quando se procura uma receita, uma tr´gua poss´     ıvel, e que tem, como
                                  a
diz Jean Grenier, ”uma virtude m´gica infal´         a
                                             ıvel”. S˜o as diferentes dosagens
                                  c˜
realizadas, as diferentes combina¸oes obtidas entre uma compreens˜o ”por a
                          a
dentro”e uma compreens˜o ”por fora”, entre a alteridade e a identidade, a
        c                                                              e
diferen¸a e a unidade, a subjetividade e a objetividade (mas tamb´m a sin-
cronia e a diacronia, a estrutura e o evento) que comandam o pluralismo
          o               e                   o
antropol´gico, mas tamb´m as incompreens˜es, ou mesmo as discordˆncias     a
              o
entre antrop´logos. Se, por exemplo, minimizo a alteridade cultural, arrisco-
                                            ca        e              ca
me a realizar uma atividade de descodifica¸˜o, isto ´, de transcri¸˜o de um
discurso em outro. Mas ao superestimar essa alteridade (ponto de vista do
                                       ıvel            a
culturalismo), torno totalmente imposs´ e impens´vel aquilo que precisa-
                                      o                     c˜
mente fundamenta o projeto antropol´gico: a comunica¸ao dos seres e das
culturas.

                          e
A aposta da antropologia ´ precisamente a de viver esse movimento ininter-
         a                           e
rupto. N˜o pretendo pessoalmente tˆ-lo conseguido profissionalmente. Digo
                             e
apenas que tentei essa experiˆncia. Esse empreendimento, por mais exigente
                                 a
e cheio de armadilhas que seja, n˜o tem nada de imposs´ ıvel. Roger Bastide
entendeu de dentro o que chamava de ”pensamento obscuro e confuso”dos
 ımbolos, e, mais que qualquer um, empenhou-se no pensamento ”claro e
s´
                                                          e
distinto”dos conceitos. Totalmente integrado ao candombl´ brasileiro, ele foi
                  o
totalmente antrop´logo.
162CAP´                ˜                      ´             ´
      ITULO 19. AS TENSOES CONSTITUTIVAS DA PRATICA ANTROPOLOGICA:

       c˜             o                                   c˜          o
A fixa¸ao sobre um p´lo em detrimento de outro, a rejei¸ao dessas tens˜es
                        c˜                          c˜
que constituem contradi¸oes estimuladoras, as solu¸oes de meio-termo e de
compromisso levam inelutavelmente a acabar com a especificidade de nossa
                                                        e
disciplina – que ocupa um lugar todo particular nas ciˆncias humanas – e
               e                    o
a todas as esp´cies de desvios ideol´gicos. Demonstram a recusa ou a im-
                                                  a        e
possibilidade de enfrentar as dificuldades (que s˜o tamb´m chances a ser
                                     a a
aproveitadas e exploradas) inerentes ` pr´ticas da antropologia.

                  Fortaleza (Brasil), setembro de 1984 Lyon, abril de 1985
   ıtulo 20
Cap´

Sobre o autor:

Fran¸ois Laplantine ´ professor de Etnologia na Universidade de Lyon II. E
     c              e                                                      ´
                            ´                                    e
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      c   ´
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                                    163
164   CAP´
         ITULO 20. SOBRE O AUTOR:
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L TEX
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170   BIBLIOGRAFIA

				
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