Empreendedorismo no ensino fundamental

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            Empreendedorismo no ensino fundamental: a
             experiência de uma escola privada brasileira
                                                                                                                1
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                                                                                                        2
                                                                                  Janaína Renata Garcia
                                                                                                        3
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                                                                                                        4
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Resumo
O presente artigo tem como objetivo descrever a experiência de elaboração e implantação da
disciplina de Empreendedorismo no quinto, sexto e sétimo anos do ensino fundamental de uma escola
privada que possui atualmente dezoito unidades no sul e sudeste do Brasil. Adotou-se a metodologia
de natureza qualitativa, objetiva, descritiva e exploratória, e os dados foram obtidos através da
experiência do Laboratório de Empreendedorismo da Universidade Federal de Santa Catarina, na
estruturação, elaboração metodológica e acompanhamento do projeto. O Projeto Empreendedorismo
– Ensino Fundamental visa desenvolver habilidades empreendedoras e disseminar o espírito
empreendedor nos alunos e possui como base o comportamento empreendedor e as quatro
características fundamentais do perfil do indivíduo: necessidades, conhecimentos, habilidades e
valores. Esta metodologia de ensino possibilitou a interdisciplinaridade com as disciplinas regulares
ditadas pela Lei de Diretrizes e Bases, e atingiu desde a sua implantação em 2005 mais de 8.000
alunos.

Palavras-chave: Empreendedorismo; Competências; Ensino fundamental.

Abstract
This article aims to describe the experience of the elaboration and implementation of the discipline
“Entrepreneurship” in the fifth, sixth, and seventh grades in elementary and middle school in a private
school, which currently has eighteen units in southern and southeastern Brazil. A qualitative, objective,
descriptive, and exploratory methodology was adopted for the research. The data were gathered from
the experience of the Entrepreneurship Research Group at the Federal University of Santa Catarina in
structuring the project, elaborating its methodology and monitoring it. The project’s purpose is to
promote the development of entrepreneurial skills and to foster the entrepreneurial spirit in the
students, based on the entrepreneurial behavior and on the four essential characteristics of the
individual: needs, knowledge, skills, and values. This teaching methodology has enabled
interdisciplinarity with regular subjects that are stipulated by the Brazilian Law on Education. Since its
implementation in 2005, the project has reached over 8.000 students.

Keywords: Entrepreneurship; Competences; Elementary and middle school.

1
  Doctor Ingeniero Industrial pela Universidad Politécnica de Madrid. Professor do Departamento de Engenharia
  de Produção e Sistemas - Universidade Federal de Santa Catarina.
2
  Doutoranda em Engenharia de Produção - Universidade Federal de Santa Catarina.
3
    Doutora em Engenharia de Produção – SEBRAE/SC.
4
    Doutoranda em Engenharia de Produção - Universidade Federal de Santa Catarina.



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1 INTRODUÇÃO

         O mercado de trabalho do século XXI exige pessoas criativas, ousadas,
inovadoras e imaginativas, capazes de transformar a sociedade. É essencial,
portanto, que desde a mais tenra idade, no ensino fundamental, as crianças sejam
incutidas do espírito empreendedor, que poderá ser aplicado em diversos aspectos
da sua vida. Para isto, devem receber uma formação que contemple a articulação
entre conceitos da área de empreendedorismo e aspectos relacionados ao
desenvolvimento do indivíduo – mais especificamente, as características
comportamentais dos empreendedores.
         Não obstante, o ensino do empreendedorismo na educação formal,
especialmente no Brasil, só recentemente alcançou o ensino fundamental, após
muitos anos restritos ao ensino superior, sobretudo aos cursos de Engenharia e
Administração e, posteriormente, também ao ensino médio, em que fora inserido
com a finalidade de “despertar o interesse dos jovens para o mundo dos negócios”
(PEDRO, 2007, p. 67). Há algumas tentativas, por parte de escolas brasileiras, de
trabalhar o tema com seus alunos até a oitava – agora nona – série, porém são
poucas as que realmente o integram em seu currículo, como relata Pedro (2007).
         Este artigo tem como objetivo descrever a experiência de elaboração e
implantação da disciplina de Empreendedorismo no quinto, sexto e sétimo anos do
ensino fundamental de uma escola privada que possui atualmente dezoito
unidades no sul e sudeste do Brasil. A contribuição deste trabalho reside no fato de
que a experiência aqui relatada pode servir tanto como base para futuras pesquisas
que visem desenvolver e aprimorar metodologias para a disseminação do espírito
empreendedor e o desenvolvimento de competências empreendedoras, quanto
como estímulo às demais instituições de ensino.
         A segunda seção deste artigo consiste em uma fundamentação teórica a
respeito do comportamento empreendedor, em que se baseia a metodologia de
ensino elaborada, e do ensino do Empreendedorismo no ensino fundamental. A
terceira seção trata da metodologia de pesquisa utilizada. A quarta seção descreve
a já referida experiência de elaboração e implantação da disciplina de
Empreendedorismo, com foco no plano de ensino proposto, na implantação da
disciplina e nos resultados obtidos. A quinta seção, por fim, apresenta as
considerações finais do trabalho.

2 COMPORTAMENTO EMPREENDEDOR

        O empreendedorismo e o sucesso do empreendedor, segundo Morris et al.
(2001), são resultado da interação de variáveis como: o processo, o ambiente, o
negócio, os recursos, o contexto organizacional e o próprio empreendedor.
        Este indivíduo geralmente é descrito como proativo, protagonista de



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mudanças, visionário (SANTOS, 2004b, p. 200) e inovador. É um líder
(SCHUMPETER, 1982), aquele que identifica e avalia oportunidades (LEZANA, 2005),
assume riscos (TAN; WILLIAM; TAN, 2005) e é capaz de implementar suas ideias
(PEDRO, 2007). Para Pedro (2007), os empreendedores se distinguem dos não-
empreendedores por suas características psicológicas, sobretudo, conforme Lezana
e Tonelli (2004), por suas necessidades, conhecimentos, habilidades e valores, que
determinam seu comportamento:
        a) Necessidade, segundo o Serviço Social da Indústria (2006, p. 21), “é
             um déficit ou a manifestação de um desequilíbrio interno do
             indivíduo”, que causa tensão, insatisfação e desconforto, e que pode
             ser satisfeita, frustrada (permanecer no organismo) ou compensada
             (transferida para outro objeto). Conforme Lezana e Tonelli (2004),
             diferentes necessidades, com diferentes níveis de predominância, se
             manifestam ao longo da vida.
        b) De acordo com Davenport e Prusak (1998), o conhecimento, que tem
             origem e é aplicado na mente dos conhecedores, é uma mistura fluida
             de experiência condensada, valores, informação contextual e insight
             experimentado, a qual proporciona uma estrutura para a avaliação e
             incorporação de novas experiências e informações. Além de facilitar e
             agilizar a tomada de decisão (SHEPHERD; DeTIENNE, 2005), diminuir os
             riscos (SUN, 2004) e tornar o indivíduo confiante para tomar as
             decisões (CLERCQ; ARENIUS, 2006), também estimula a criatividade
             (SHEPHERD; DeTIENNE, 2005) e permite a identificação de
             oportunidades inovadoras (DRUCKER, 1987).
        c) As habilidades, segundo Lezana e Tonelli (2004, p. 53), são as
             “facilidades para utilizar as capacidades físicas e intelectuais”. Elas
             transformam conhecimento em ação – ou, em outras palavras, o
             conhecimento é a base de informação para se desempenhar uma
             habilidade (GUILBERT apud SUN, 2004).
        d) Valores são um “conjunto de crenças, preferências, aversões,
             predisposições internas e julgamentos que caracterizam a visão de
             mundo do indivíduo” (LEZANA; TONELLI, 1998, p.23), conduzindo suas
             ideias ao que é certo, bom ou desejável. (ROBBINS, 1999). Atuam
             como filtros de informação (STERN; DIETZ, 1994), servem para avaliar
             situações, orientam atrações e repulsões interpessoais (PERRON,
             1987), influenciam nossos objetivos (DILIBERTO, 2006), percepções,
             atitudes e comportamentos (ROBBINS, 1999) e, ainda, mobilizam e
             guiam a forma como tomamos decisões e os tipos de decisões que
             tomamos (GINI apud ALAS; ENNULO; TÜRNPUU, 2006), em conjunto
             com as “forças sociais e contingências ambientais” (ZIMBARDO apud
             WATSON; TEAGUE; PAPAMARCOS, 2004, p. 23).


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      As principais necessidades, conhecimentos, habilidades e valores dos
empreendedores são apresentados no quadro 1, conforme Lezana e Tonelli (2004).

             Quadro 1 - Principais características de personalidade do empreendedor

      Necessidades            Conhecimentos               Habilidades                 Valores
                            Aspectos técnicos do        Identificação de
        Aprovação                                                                   Existenciais
                                  negócio             novas oportunidades
                                                          Valoração de
                             Experiência na área
      Independência                                     oportunidades e              Estéticos
                                 comercial
                                                      pensamento criativo
     Desenvolvimento                                     Comunicação
                                Escolaridade                                        Intelectuais
         pessoal                                           persuasiva
                               Experiência em
        Segurança                                          Negociação                  Morais
                                 empresas
                                 Formação                  Aquisição de
      Autorrealização                                                                Religiosos
                               complementar                informações
                           Vivência com situações          Resolução de
             -                                                                            -
                                    novas                   problemas
   Fonte: Lezana e Tonelli, 2004.

        As quatro características de personalidade acima descritas –
conhecimentos, habilidades, valores e necessidades –, em conjunto, têm forte
conexão com o conceito de competência. Competência pode ser definida como
“um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes relacionados” (LUCIA;
LEPSINGER apud ÖZÇELIK; FERMAN, 2006, p. 74), que “quando utilizados [...] em
várias combinações, resultam em um desempenho bem-sucedido” (DUBOIS apud
TEODORESCU, 2006, p. 28), e que podem ser medidos e comparados a padrões
aceitos (LUCIA; LEPSINGER apud ÖZÇELIK; FERMAN, 2006). Auto-realização
        Muitas das competências empreendedoras podem ser desenvolvidas,
conforme Dolabela (1999), embora Pyysiäinen et al. (2006) alertem sobre a
dificuldade de ensinar certas habilidades e conhecimentos, uma vez que estes são,
em geral, adquiridos com a prática. O mesmo ocorre com os valores, que são
continuamente construídos e reavaliados à medida que surgem crises e novos
desafios, apesar de relativamente estáveis e duradouros (KOTTER; HESKETT, 1994).
É preciso ter em mente, entretanto, que embora o desenvolvimento de
competências seja possível, a aprendizagem empreendedora, de acordo com Politis
(2005), é um processo contínuo. O empreendedor nunca estará totalmente pronto
(CHRISMAN; MCMULLAN, 2004), nem mesmo os bem-sucedidos (SUN, 2004).

2.1 EMPREENDEDORISMO NO ENSINO FUNDAMENTAL

       O ensino fundamental, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB) de 1996 n. 9.394 (BRASIL, 1996), tem como objetivo


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“desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação indispensável para o exercício
da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos
posteriores”, o que lhe permitirá contribuir para a sociedade. Para isto, segundo a
Secretaria de Educação Básica do Ministério de Educação e Cultura (2006), a escola
deve promover o desenvolvimento pessoal do aluno, a fim de torná-lo “um sujeito
crítico, capaz de solucionar problemas e tomar decisões” ao longo de sua vida, o
que exige uma aprendizagem por competências, que tenha o professor como
agente de transformação e que estimule e prepare os alunos a enfrentarem
desafios futuros, tanto no mercado de trabalho quanto na vida pessoal
(EMPREENDEDOR apud PEDRO, 2007).
         A Secretaria de Educação Fundamental (BRASIL, 1998) determina uma
estrutura específica para o Ensino Fundamental, com as áreas de ensino
necessárias para o desenvolvimento das competências, como língua portuguesa,
matemática, ciências naturais, história, geografia, arte e educação física,
acompanhadas de temas transversais como, por exemplo, ética, meio ambiente e
trabalho. Pedro (2007), no entanto, comenta sobre a possibilidade e a necessidade
de inclusão novos conteúdos, com vistas ao desenvolvimento de novas
competências. Entre eles está o Empreendedorismo.
         O empreendedorismo, segundo Dolabela (2007, p. 1), deve “ser
introduzido na educação formal da pré-escola à universidade”, sobretudo pela
essencialidade da presença do empreendedor em todas as áreas para o
desenvolvimento humano, social e econômico, e por a capacidade empreendedora,
no seu sentido amplo, ser “um requisito [...] para qualquer atividade e sob
qualquer relação de trabalho: empregador, empregado, autoempregado,
voluntário, cidadão”. De acordo com Santos (2004a, p. 55), crianças já “exalam em
sua curiosidade, criatividade, ousadia, determinação e persuasão a essência do
espírito empreendedor”, e o desenvolvimento de competências empreendedoras
por meio de uma proposta pedagógica no Ensino Fundamental poderá auxiliar os
alunos no entendimento da atividade empreendedora e em suas atividades
profissionais e pessoais (PEDRO, 2007; KUAZAQUI apud AQUINO, 2008), embora,
como afirma Pedro (2007), não necessariamente transforme todos em
empreendedores de sucesso.
         Pedro (2007) comenta que o ensino de empreendedorismo nas escolas
pode se dar como uma atividade de extensão ou uma disciplina formal. Seja qual
for a forma, ela deve ressaltar a formação do caráter, as habilidades (HASHIMOTO,
2008) e os conhecimentos empreendedores (COPE, 2005), isto é, o comportamento
empreendedor (FRIEDLAENDER, 2004, p. 70). Segundo Cope (2005), a
aprendizagem do empreendedor envolve: (i) auto conhecimento: compreensão de
suas forças e fraquezas, o papel da mudança nos negócios; necessidades e
objetivos pessoais e familiares; desenvolvimento pessoal; interesses e motivações
pessoais; (ii) conhecimento do negócio: forças e fraquezas; oportunidades e


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ameaças; necessidades internas do negócio; exigências para o crescimento;
conhecimento do staff e visão de futuro; (iii) conhecimento do meio e networks:
aprendizagem como administrar relacionamentos com clientes, fornecedores e
concorrentes; (iv) conhecimento da administração do pequeno negócio: como
controlar os negócios, incluindo procedimentos e sistemas como recrutamento,
salários e recompensas; e (v) conhecimento da natureza e administração dos
relacionamentos internos e externos à empresa, elemento que integra as demais
áreas.
        Diversos métodos e técnicas de ensino podem ser combinados para
promover esta aprendizagem, como mostra o quadro 2:

                            Quadro 2 - Métodos e técnicas de ensino
      Métodos                   Estratégias                              Técnicas
    Método prático           Aprender fazendo             Estágios; entrevistas
                                                          Debates; explanação do instrutor;
        Método
                            Aprender pela teoria          explanação dos alunos; apresentação;
       conceitual
                                                          material impresso
        Método                                            Jogos e exercícios; dramatizações;
                       Aprender imitando a realidade
       simulado                                           jogos de empresa; estudos de caso
        Método                                            Dinâmicas de grupo; vivências;
                        Desenvolvimento psicológico
    comportamental                                        autoanálise
  Fonte: Bíscaro, 1994 (apud TONELLI, 1997).

         Clouse et al. (2003) destacam a importância da aprendizagem por
“tentativa e erro”, do desenvolvimento da criatividade e da independência, do
estabelecimento de um processo em que os empreendedores consigam resultados
e sucesso, e do aumento da autoestima dos alunos para que tenha segurança para
assumir riscos e fazer escolhas, lista que Pedro (2007) complementa com o
desenvolvimento de liderança e iniciativa. Como afirma Freire (1996), aprender não
é simplesmente adquirir informações repassadas; é preciso aprender a pensar e
aprender a aprender. A participação individual, conforme Hashimoto (2008), “deve
ser enfatizada como forma de desenvolver o espírito crítico e participativo, a
inserção no grupo e o significado pessoal dado ao conteúdo aprendido”. Diante
disto, e visto que, conforme Cope (2005, p. 378), “a preparação do empreendedor
como um processo de aprendizagem envolve um conceito forte de socialização
antecipada, incluindo as experiências e conhecimentos [...]”, a contextualização,
para Pedro (2007, p. 64), é “um trunfo no ensino que o docente não poderá
dispensar”, pelo significado que traz para o aluno.
         Guimarães (2005) comenta, ainda, sobre a necessidade de se respeitar o
nível de maturidade cognitiva e psicológica dos alunos e, Zagury (apud BARROS,
2008), sobre a importância de o aprendizado, nesta etapa escolar, ser leve e lúdico.
Por fim, Azanha (2000, p. 24) reforça que é essencial não somente “ensinar



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eficazmente uma disciplina”, mas também “integrar esse ensino aos ideais
educativos da escola”, pois todas as relações escolares são “potencialmente
educativas ou deseducativas”.

3 METODOLOGIA DE PESQUISA

        Esta pesquisa possui natureza qualitativa, objetiva, descritiva e
exploratória, e com dados provenientes da descrição da experiência do Laboratório
de Empreendedorismo do Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas da
Universidade Federal de Santa Catarina, na estruturação, elaboração metodológica
e acompanhamento do projeto, bem como por uma pesquisa bibliográfica e
documental.

4 DESCRIÇÃO DO PROJETO EMPREENDEDORISMO – ENSINO FUNDAMENTAL

         O Projeto de Empreendedorismo – Ensino Fundamental, utilizado pela
instituição de ensino em questão desde 2005 em todas as suas unidades,
localizadas nos estados de Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, visa
desenvolver competências empreendedoras em alunos do ensino fundamental. As
linhas de ação estabelecidas para o Ensino Fundamental preveem a articulação
entre conceitos da área de empreendedorismo e aspectos relacionados ao
desenvolvimento do indivíduo. Assim, a base da proposta foi o comportamento
empreendedor e as quatro características fundamentais do perfil do indivíduo:
necessidades, conhecimentos, habilidades e valores, conforme apresentado na
figura 1. A cada aula, uma dessas características é evidenciada, trabalhando-se, em
alguns momentos, com mais de uma delas simultaneamente.




                      Figura 1 - Características do indivíduo

       Para tal, os planos de ensino consideraram os seguintes recursos de
aprendizagem: a abordagem pedagógica, os métodos, as estratégias e as técnicas


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motivacionais. Todos os métodos e estratégias de ensino mencionados
anteriormente no quadro 2 foram utilizados, mas a ênfase foi dada aos métodos
práticos (“aprender fazendo”) e simulado (“aprender imitando a realidade”),
formas pelas quais as competências empreendedoras são geralmente aprendidas.
Quanto às técnicas, buscaram-se linguagem e dinâmicas apropriadas para a faixa
etária dos alunos, com o intuito de respeitar seu desenvolvimento cognitivo e
psicológico e tornar o aprendizado leve e lúdico. Como exemplos de atividades, os
alunos buscaram informações sobre a geografia local e a cultura dos possíveis
consumidores, praticaram a comunicação oral e escrita, realizaram cálculos e
análises matemáticas e passeios com professores de ciências sobre temas
relacionados.
        O projeto foi desenvolvido ao longo do ano de 2004, em quatro etapas: (1)
levantamento das ações similares e avaliação diagnóstica das características do
público-alvo; (2) elaboração do material da disciplina proposta para cada série; (3)
seleção e capacitação dos professores; (4) acompanhamento da implantação e
avaliação processual do projeto.

4.1 PLANO DE ENSINO

         À época da estruturação do projeto, o conteúdo foi distribuído em uma
disciplina para cada um dos três anos iniciais do segundo grau (5ª, 6ª e 7ª séries),
hoje ensino fundamental (6º, 7º e 8º anos), considerando as características e as
fases de desenvolvimento dos alunos. Desta forma na 5ª série o foco está no
indivíduo e o eixo temático divide-se em: formação do indivíduo, o homem e sua
relação com o meio ambiente; na 6ª série o foco está no empreendedor e o eixo
divide-se em: o empreendedor, habilidades empreendedoras e atitude
empreendedora; na 7ª série o foco está no empreendimento e o eixo foi dividido
em: mundo das ideias, busca de informação e planejando para a ação.
         As aulas foram estruturadas de acordo com o objetivo do trimestre e o
desenvolvimento de conhecimento e habilidades para cada tema de estudo. Para
tal um roteiro foi elaborado com o objetivo de manter o foco no eixo norteador.
Este roteiro constitui-se de: síntese da aula, assunto, objetivo, método, atividade e
foco da aula. A seguir será apresentado o resumo do conteúdo do plano de ensino
de cada série.

4.1.1 PLANO DE ENSINO 5ª SÉRIE

        O plano de ensino da 5ª série tem o seguinte tema geral:
Empreendedorismo com foco no indivíduo. O objetivo geral da disciplina nesta
série é proporcionar a compreensão do comportamento humano e conscientizar o
aluno sobre características (necessidades, habilidades, conhecimento e valores)
que vêm a influenciar o comportamento empreendedor.


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         A figura 2 representa um esquema dos temas abordados em cada trimestre
letivo. No primeiro deles os objetivos são: compreender o comportamento humano
por meio do autoconhecimento; compreender as necessidades humanas, por meio
da identificação e análise das possíveis estratégias para a satisfação das mesmas;
compreender como as diferenças individuais interferem no processo de
desenvolvimento. No segundo trimestre os objetivos são: compreender os
relacionamentos a partir do núcleo familiar, identificando elementos formadores
do comportamento; os relacionamentos a partir das relações sociais, identificando
os elementos que influenciam a construção de redes; compreender os valores, as
regras e as normas sociais que determinam a conduta individual, e compreender
como as diferenças individuais interferem no processo de desenvolvimento. Já no
terceiro trimestre os objetivos são: reconhecer os valores e a cultura local nos
espaços em que se vive; conhecer a pluralidade cultural nas diversas regiões do
Estado/País e desenvolver o respeito pelas diferenças étnicas e culturais; exercitar
a cidadania, por meio da atuação direta nos ambientes de convivência; e
compreender a importância do papel social do empreendedor.




   Figura 2 - Considerações do Plano de ensino da quinta série

4.1.2 PLANO DE ENSINO 6ª SÉRIE

       O tema geral da disciplina na 6ª série é: Empreendedorismo com foco no
desenvolvimento das competências do empreendedor. A disciplina apresenta como



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objetivo geral compreender como o comportamento do empreendedor, tendo
como base as suas características (necessidades, habilidades, conhecimento e
valores), acabam definindo a prática empreendedora.
        De acordo com o tema geral para cada trimestre, representados na figura
3, os objetivos para o primeiro trimestre são: conhecer os empreendedores, quem
são e quais as suas motivações e ações; compreender as motivações dos
empreendedores de sucesso; associar o conteúdo aprendido na educação formal
com os conhecimentos necessários ao empreendedor. No segundo tri os objetivos
são: desenvolver a percepção para estimular a criatividade e a inovação;
compreender a importância do papel do líder e a utilização da comunicação nas
relações interpessoais; e compreender a relação entre o saber negociar e a tomada
de decisão. O terceiro trimestre está estruturado para atingir os seguintes
objetivos: analisar os valores que norteiam o comportamento do empreendedor de
sucesso; ampliar o processo perceptivo do indivíduo, buscando a identificação de
novas oportunidades, no intuito de facilitar a prática empreendedora; e
desenvolver as competências empreendedoras, gerando responsabilidade e
comprometimento.




   Figura 3 - Considerações do plano de ensino da sexta série




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4.1.3 PLANO DE ENSINO 7ª SÉRIE

         A disciplina na 7ª série apresenta como tema geral: Empreendedorismo –
Ideia. O principal objetivo da disciplina é compreender o contexto, como acontece
o processo empresarial e as ações empreendedoras.
         Na figura 4 estão representados o tema geral para cada trimestre da 7ª.
Série (atual 8º ano do ensino fundamental). No primeiro trimestre o objetivo
consiste em: identificar os diferentes tipos de empresas existentes, e a sua forma
de atuação; compreender os aspectos importantes no processo de criação de
ideias. Identificação de nichos; e refletir buscando a criação e geração de ideias.
Comprovar preliminarmente a viabilidade da ideia gerada. No segundo trimestre:
buscar informações para a avaliação e validação do produto/serviço; pesquisar os
diferentes tipos de mercados; e identificar e analisar os aspectos técnicos inerentes
ao negócio e à gestão de pessoas. No terceiro o objetivo envolve: organizar e
analisar informações relacionadas a questões técnicas do negócio; compreender as
principais ferramentas para a gestão financeira necessárias para execução do
negócio; e avaliar e finalizar os Planos de Negócios.




 Figura 4 - Considerações do plano de ensino da sétima série




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4.2 IMPLANTAÇÃO

        Após o desenvolvimento do projeto, foram elaboradas apostilas destinadas
aos professores de cada disciplina. Paralelamente foram escolhidos os professores
com perfil para ministrar o ensino de empreendedorismo, que receberam uma
capacitação presencial e a distância.
        Em 2005 o projeto começou a ser aplicado com alunos do ensino
fundamental em uma disciplina optativa. Devido ao sucesso do mesmo, a disciplina
tornou-se obrigatória.

5. RESULTADOS

        A disciplina foi ministrada em todas as unidades da instituição, e desde sua
implantação, que ocorreu no ano de 2005, mais de 8 mil crianças já receberam
conhecimentos e desenvolveram as habilidades propostas pelo projeto, por meio
de diferentes atividades práticas, como por exemplo: elaboração de jornal
informativo, elaboração de maquetes de produtos e elaboração de planos de
negócios. Além disto, as escolas implantaram espaço específico para as aulas de
empreendedorismo.
        Somente em 2007, o projeto atingiu, nas três séries, um total de 4.197
alunos, como mostra a tabela 1.

                           TABELA 1 – Alunos atingidos pelo projeto em 2007

                    Dados Gerais                                 Alunos - Histórico 2007
      Estado            Número de unidades              5ª S.              6ª S.               7ª S.
      Paraná                       08                   874                 970                955
   Rio de Janeiro                  01                   105                 78                  70
  Santa Catarina                   06                   402                 359                269
     São Paulo                     01                    31                 34                  50
      TOTAL                        16                   1412               1441               1344


        Transcorridos três anos de implantação da disciplina, os professores da
mesma já acumulavam uma experiência importante na matéria, e manifestaram,
na avaliação qualitativa preliminar realizada, a necessidade de um processo de
atualização do material produzido, no sentido de corrigir imperfeições e incorporar
adaptações oriundas da realidade em sala de aula.




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6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

         Este artigo descreveu a experiência de elaboração e implantação da
disciplina de Empreendedorismo no quinto, sexto e sétimo anos do ensino
fundamental de uma escola privada que possui atualmente dezoito unidades no sul
e sudeste do Brasil. A experiência bem-sucedida do Projeto de Empreendedorismo
– Ensino Fundamental, que promove o desenvolvimento de competências
empreendedoras nos alunos com base nas características de personalidade do
empreendedor, mostra que as competências empreendedoras podem e devem ser
desenvolvidas desde cedo na vida dos indivíduos. O objetivo não é transformar
todos em empreendedores de sucesso, mas estimular o espírito empreendedor, ou
seja, o espírito crítico e a capacidade de solucionar problemas e tornar decisões,
que são essenciais para se enfrentar desafios na vida pessoal e profissional.
         O uso desta metodologia de ensino do empreendedorismo possibilitou a
interdisciplinaridade com as disciplinas regulares ditadas pela Lei de Diretrizes e
Base, uma vez que os alunos buscaram informações sobre a geografia local, a
cultura dos possíveis consumidores, praticaram a comunicação oral e escrita,
realizaram cálculos e análises matemáticas, passeios com professores de ciências
sobre temas relacionados, etc. Os aspectos diferenciados das aulas, com atividades
lúdicas e práticas que tornam o aprendizado leve e respeitam os limites do
aprendiz, foram fundamentais para que os alunos se interessassem pela disciplina.
No entanto, a prática mostrou que é necessária a modificação de algumas
atividades para adaptá-las à realidade da sala de aula.

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