O Romantismo em Portugal by erx19762

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									                             O Romantismo em Portugal

        Estamos além dos meados do século XVIII. O mundo sofrera enormes
transformações. Monarquias parlamentaristas e repúblicas substituem os regimes
absolutistas. A Itália e a Alemanha caminham em busca da unificação. As colônias latin o-
americanas, aos poucos, vão-se tornando politicamente independentes. O nacionalismo
avança. A busca de uma identidade própria vai tornando o lugar da pura e simples
importação de correntes de pensamento.
        Com isso, muda a produção literária mundial.
        Ao universalismo racional se opõe o individualismo sentimental. O caráter
impessoal do modelo greco-romano cede lugar a uma expressão menos formal e mais
despreocupada.
        Uma leitura subjetiva do mundo e da vida ocupa o lugar do racionalismo árcade. O
homem enquanto indivíduo vai se sobrepondo ao homem-em-geral. Nasce a estética
romântica. As produções filosóficas e literárias da Alemanha (Kant, Hegel, Goethe...), da
Inglaterra (Byron e Walter Scott), e da França (Rousseau, Victor Hugo e Musset) nesse
período conduziam o homem à introspecção, a uma volta para dentro de si mesmo.
        Todo esse volume de reflexão e de produção de texto explode num momento
histórico de grande receptividade aos direitos do homem como cidadão. Somos filhos da
Revolução Francesa. Assim sendo, nossa literatura não podia deixar de refletir
transformações embutidas no lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade que, décadas
antes, impulsionara o movimento que inaugurou a Idade Contemporânea.
        Tudo favorece o surgimento de textos onde predominam temas nacionais,
sentimentos muito pessoais e uma enorme liberdade de expressão. Por isso, o que era
valorizado no classicismo e nas correntes que o seguiram cede espaço a seu oposto:

                           Classicismo               Romantismo
                    1. razão                   sentimento
                    2. equilíbrio              desequilíbrio
                    3. formalismo              Libertação
                    4. universalismo           individualismo
                    5. raciocínio              Imaginação
                    6. objetivismo             subjetivismo
                    7. realidade               sonho
                    8. senso de proporção      tendência ao exagero
                    9. linguagem erudita       linguagem culta
                    10. materialismo           religiosidade
                    11. paganismo              Cristianismo
                    12. antiguidade clássica   Idade Média

        Os supostos pastores do Neoclassicismo viviam uma coisa e escreviam outra. Os
mesmos escritores que pregavam a renúncia ao poder e a volta à vida campestre
ocuparam altos cargos, tinham ricas propriedades e, no Brasil, alguns chegaram a
participar da Conjuração Mineira. Sua arte não espelhava a vida que levavam.
        Já no Romantismo, o escritor é alguém que vive a fundo sua época, sua produção
literária, com os sonhos e os exageros que ela espelha e alimenta. O relativismo dos
valores, seja da vida pessoal seja da sociedade como um todo, leva boa parte dos
escritores ao pessimismo, à decisão de viver em intensidade os prazeres e as loucuras
que, numa vida sempre curta demais, seria impossível praticar. Envolvido nas lutas do
momento, o romântico é o precursor do que chamamos hoje literatura engajada. Essa
literatura está integrada no momento histórico-social em que seus autores vivem e
escrevem.
       A conseqüência é uma atitude de liberdade que respeita a originalidade de cada
escritor. Composta de textos amorosos, filosóficos, ideológicos ou religiosos, a produção
romântica está imbuída de forte lirismo. Existem quase tantos romantismos quantos
autores românticos pudermos enumerar.
       Além do verso, essa estética nos legou o romance. Ele é o melhor meio de retorno
ao passado, um trampolim para afirmar no presente a originalidade e individualidade de
cada nação. Daí, o romance histórico.
       Do amor à natureza, nasce o romance paisagístico.
       Da tendência ao exagero, provém o romance de aventuras.
       Satisfazendo a tantos anseios ao mesmo tempo, o romance foi o tipo de narrativa
mais cultivado por essa estética literária.
       Desprezando a concepção antiga de tragédia e comédia, o romântico criou o
drama, misto de trágico e cômico. Nele o verso, forma literária predominante no teatro
clássico, se viu substituído pela prosa.
       Cientes do esforço feito nessa época para libertar o Brasil da influência que
Portugal continuava exercendo sobre ele, é bom vermos os grandes nomes do
Romantismo português antes de estudarmos nossos românticos.

                                O Romantismo português

       Em Portugal, o primeiro grito romântico é dado em 1825, por Almeida Garrett com
o poema Camões. Apesar de ser clássico na sua estrutura, nele está presente o essencial
do romantismo: emoção, imaginação, paisagem local e patriotismo.
       Participando, por herança familiar, da vida política conturbada de Portugal no
século da invasão napoleônica, da fuga de D. João VI para o Brasil, e tendo tomado
posição em face do conflito entre D. Miguel e D. Pedro IV de Portugal (D. Pedro I do
Brasil), Garrett viu-se fora do país por várias vezes. Especialmente na Inglaterra, sofreu
diretamente a influência dos românticos que se encontravam no auge de sua produção.
       Foi grande na prosa e no verso. Em prosa, deixou-nos: O Arco de Santana e
Viagens na Minha Terra. No gênero dramático, merece citação Frei Luís de Sousa. Nesta
obra, seu romantismo é bem nacionalista, fazendo a platéia reviver o mito de D.
Sebastião, cujo retorno muitos portugueses, inclusive Vieira, aguardavam como o grande
redentor do reino de Portugal.
       Mas é em Flores sem Fruto (1845) e em Folhas Caídas (1853) que melhor se
revela o romântico Garrett.

              Alexandre Herculano participa das lutas liberais para afastar D. Miguel do
trono. Contemporâneo de Garret, se torna historiador, mas não abandona a ficção. Ao
lado de História de Portugal (1846) em quatro volumes e História da Origem e
Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854), lança romances de ficção histórica,
todos situados em momentos bem definidos da formação de seu país. Os principais são:
O Bobo (1843), Euríco, o Presbítero (1844) e O Monge de Cister (1848). Genial na prosa,
é menos inspirado na poesia, que sempre sai bem realizada na forma e pobre na
sensibilidade. Nela faltam a emoção e o sentimento que tornam mais poético um texto.
        Em sua obra sobressai Eurico, o Presbítero, romance histórico que narra a
prolongada luta de Reconquista (cristãos/muçulmanos) na Península Ibérica. Além disso,
critica duramente a promessa de não se casar feita pelos membros do clero católico.
Declara-se cristão, mas rejeita o fanatismo e a hipocrisia entre os quais oscila, no seu ver,
a maioria dos cristãos de sua época.
       Camilo Castelo Branco foi um dos primeiros escritores profissionais de língua
portuguesa. Isso talvez explique o fato de ter sobrado um reduzido número de suas mais
de duzentas obras. Seu forte foi o romance passional: Amor de Perdição (1863), Amor de
Salvação (1864), Carlota Ângela ((1818), A Doida do Candal (1861) e O Retrato de
Ricardina (1868).
       O terror e o mistério também se tornaram atraentes em seus romances . Os
Mistérios de Lisboa (1865), Livro Negro de Padre Dinis (1865).
       Romances bem situados historicamente, no rastro dos que escreveu Herculano
são: O Judeu (1867), O Santo da Montanha (1866), O Regicida (1874), A Filha do
Regicida (1875) e A Caveira da Mártir (1876).
       Romances de costumes, com um tom fortemente satírico: A Queda de um Anjo
(1866), Coração, Cabeça e Estômago (1862), A Corja (1879) e A Brasileira de Prazins
(1883).
       Grande parte de seus romances eram publicados em jornais, como também
ocorreria com nossos românticos. Os folhetins, cujos capítulos possuíam fortes apelos
para o leitor se sentir atraído a adquirir o capítulo seguinte. Era a novela da época.
       Muito da tragicidade de seus romances tem a ver com sua vida: órfão ainda na
infância, teve dois casamentos problemáticos, passou por graves privações materiais,
ficou quase completamente cego, interrompendo a vida através do suicídio.

								
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