PICASSO , FEMININO E ARTE MODERNA- A representao do corpo feminino by vts15196

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									 PICASSO, FEMININO E ARTE MODERNA-A REPRESENTAÇÃO DO FEMININO
              EM ALGUNS QUADROS DE PABLO PICASSO.

                                                                        Thassia Souza Emidio
                                                      Dra Maria Luísa Louro de Castro Valente
                                                                Dr Fernando Teixeira da Silva


Resumo: Este trabalho tem a proposta de estudar a representação do feminino através de
algumas obras de Pablo Picasso. No intuito de fazer a conexão da arte com a psicanálise
resolvemos aliar a questão do feminino, da representação da mulher, a teoria psicanalítica e a
Teoria de Gênero e Sexualidade, e ver assim, que fruto nasce da mistura de todas essas
sementes, regada pela “água santa” que são as maravilhosas obras de Pablo Picasso.


       Introdução


        Este trabalho tem a proposta de refletir sobre a representação do feminino nas pinturas
de Pablo Picasso. A partir da teoria de gênero e sexualidade, e utilizando os recurso da
Psicanálise, pretendemos pensar a representação do feminino na pintura moderna e relacionar
assim, a posição que este ocupa na sociedade, uma vez que as representações artísticas
refletem, além do inconsciente do autor e a sua visão, a realidade da época.
       Os filmes, tal como a literatura, a música, as artes em geral e todas as expressões
culturais de uma determinada época revelam a mentalidade prevalente da mesma e dão
coerência ao mundo.
        Segundo Mezan (1998), não é pretensão da Psicanálise dar conta da totalidade dos
fenômenos humanos, mas ela tem sempre palavras a dizer sobre muitos deles. Um deles é a
complexidade da organização psíquica e dos determinantes de comportamento que só podem
ser estudados através de casos singulares, sejam pessoas de carne e osso ou personagens da
ficção. Esses estudos nos trazem a possibilidade de compreender como se estruturam certos
modos de sentir, agir, pensar, sem rotulações, mas percorrendo os dados disponíveis e
inferindo o jogo de forças que origina um comportamento ou uma obra.
       Os estudos psicanalíticos das expressões artísticas entram na categoria que Mezan
(2002) coloca como categoria extramuros: em que a diferença entre o que faz analista, sentado
em sua poltrona, e o analista, sentado à mesa, é que, no primeiro caso, a atividade pretende a
elucidação e também a transformação do que ocorre na relação analista-paciente e, no segundo
caso, a situação prática se mostra ausente, estando presente somente o pesquisador e seu objeto
de estudo a ser construído a partir de dados empíricos. Nesses casos, a ilustração do argumento
é feita através da análise destas obras, dos quadros de Pablo Picasso.
       Desde a época de Freud e da criação da Psicanálise, podemos observar a presença dos
artistas e de suas criações; a literatura, assim como a pintura, a música, o cinema, a escultura e
também outras expressões artísticas são para a Psicanálise aliados no desenvolvimento,
ilustração e até mesmo fonte de inspiração de idéias e teorias.
       Freud(1907), em seu estudo sobre a Gradiva de Jensen, afirma:
                                 Os poetas são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser
                                 levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama
                                 de coisas entre o céu e a terra com as quais o nosso saber escolar
                                 ainda não nos deixou sonhar. Estão bem adiante de nós, gente
                                 comum, no conhecimento da psique, já que nutrem em fontes que
                                 ainda não tornamos acessíveis à ciência (FREUD,1996, v. IX, p.20)

       Observando os textos de Freud, percebemos como ele tem, nas criações artísticas, um
recurso e as utiliza de diferentes maneiras; uma vez que Psicanálise e arte radicam-se no solo
da leitura do humano.
       Segundo Mezan (1998), em uma criação ou manifestação artística, encontramos a
expressão do inconsciente do artista, uma vez que ela se organiza e se estrutura a partir de
elementos que escapam à consciência do indivíduo e, freqüentemente, estão em conflito com
sua parte consciente e racional da personalidade.
        É importante, então, pensarmos no valor que as obras de arte têm para a ciência, para a
Psicanálise e para a civilização, uma vez que são frutos do inconsciente de um indivíduo, sendo
reveladoras de características específicas. Isso pode ser entendido levando em conta duas
dimensões: a individual e a cultural. Na dimensão cultural, a criação é permeada por aspectos
culturais, que espelham o universal do humano, contido no artista singular - a Psicanálise volta-
se para os aspectos psicológicos destas obras e, na dimensão individual, acreditamos que, na
obra de arte, está contido, como já colocamos, o inconsciente do artista. O artista representa
esta cultura e, em sua obra, estão presentes aspectos singulares e universais da cultura.
       Seguindo o caminho da pintura e aliando esta à Psicanálise, como também aos estudos
de Gênero, procuramos, neste trabalho, analisar e refletir sobre a configuração do feminino e a
representação da mulher, nas pinturas de Pablo Picasso, através de algumas de suas obras.


       Sobre o autor – PABLO PICASSO

       Pablo Picasso, o artista mais versátil do século XX, nasceu em Málaga, no sul da
Espanha, em 25 de outubro de 1881. O pai era professor de desenho e seu talento para o
desenho e artes plásticas era algo notável desde sua infância. Portanto, o talento de Picasso foi
reconhecido desde cedo e, aos quinze anos, tinha já o seu próprio ateliê.
       Após um falso início como estudante de arte em Madri e um período de Boêmia em
Barcelona, Picasso fez a sua primeira viagem a Paris em outubro de 1900. A cidade era a
capital artística da Europa e por isso foi escolhida como a nova morada do pintor. Picasso
deixou a Espanha, sua terra natal, seus familiares e foi para Paris, cidade que foi seu
permanente desde abril de 1904.
       Em Paris, Picasso teve maior visibilidade e pode assim construir a sua carreira de
grande pintor e artista plástico de grande notoriedade. Durante todos os anos de trabalho,
Picasso reuniu diversas obras, todas maravilhosas tanto no componente estético como na
interpretação emocional. As obras de Picasso possibilitaram que o artista expressasse os
sentimentos e emoções de cada período de sua vida.
       Suas obras podem ser organizadas em várias fases, de acordo com a valorização de
cores. A fase Azul (1901-1904) foi o período onde predominou os tons de azul e que o artista
dá uma atenção toda especial aos elementos marginalizados pela sociedade. Na Fase Rosa
(1905-1907), predominam as cores rosa e vermelho, e suas obras ganham uma conotação lírica.
       A mudança de estado de espírito, as emoções e sentimentos desencadeavam o início
como também o término de cada fase. A mudança da fase “azul” para a Fase “Rosa” pode ter
se originado ,em parte, pela sua ligação com Fernande Olivier, com quem teve uma relação
intensa.
       Na vida de Picasso, as mulheres e a arte estão inexplicavelmente misturadas, o
surgimento de uma nova mulher freqüentemente sinalizava uma mudança de direção artística.
Picasso representou as mulheres e o feminino em todas as fases de sua obra e de diferentes
maneiras. Em 1907, decidiu, apesar do sucesso comercial de suas obras, abandonar seu estilo
"Rosa", e inspirado pelas esculturas ibérica e africana, pintou Les Demoiselles d'Avignon, um
dos grandes trabalhos liberadores da arte moderna.
       Picasso, junto com o pintor francês Georges Braque, criou o Cubismo, em que o mundo
visível era desconstruído em seus componentes geométricos. Este momento estabeleceu um
dogma fundamental da arte moderna - o de que o trabalho do artista não é cópia nem ilustração
do mundo real, mas um acréscimo novo e autônomo.
       O Cubismo deu aos artistas a liberdade, e uma liberdade também aos materiais, os
meios tradicionais como a pintura e a escultura puderam ser suplementados ou substituídos por
objetos colados nas telas, ou "montagens" de itens construídos ou "achados".
         Picasso nunca chegou a criar uma arte puramente abstrata. Era extremamente versátil, o
que o mantinha um passo à frente de seus admiradores que se surpreenderam quando ele voltou
a pintar figuras mais convencionais e depois, no início da década de 1920, desenvolveu um
estilo neoclássico monumental.
         Coincidentemente ou não, nesta época, mais especificamente em 1918, Picasso se casou
com a bailarina Olga Koklova, e adotou um estilo de vida próspero e respeitável, que ele
achava cada vez mais aborrecido. Nesta fase Picasso teve seu primeiro filho Paul e o artista
passa a fazer várias obras que retratam a figura da mãe com o filho.
         Em 1925, Picasso começou a pintar formas deformadas, violentamente expressivas. A
partir desta época, seus trabalhos se tornaram cada vez mais multiformes, empregando uma
variedade de estilos como nenhum outro artista havia tentado antes. Foi também um escultor
criativo e mais tarde dedicou-se à cerâmica com grande entusiasmo. Em qualquer veículo que
se expressasse, sempre foi imensamente prolífero, criando em toda a sua vida milhares de
obras.
         Em 1927 começou um romance com Marie-Thérèse Walter, uma lolita alta de 17 anos,
que foi sua modelo e a quem Picasso retratou em diversas obras neste período. Em 1935, ela
engravidou e Picasso pediu divórcio à Olga. Um divórcio conturbado e que deixou o artista
bastante angustiado.
         Com o nascimento da menina Maia, Picasso voltou à vida boêmia e se encontrou com
Dora Maar ( fotógrafa ). Elas, as diversas mulheres que Picasso encontrou durante sua vida,
brigavam muito entre si por ele. Dora, porém era temperamental e depressiva e Picasso
retratou-a com violentas distorções. No final da década de 1930, os acontecimentos históricos o
levaram a criar o seu quadro mais famoso: Guernica. Esta obra era uma resposta aos horrores
da Guerra Civil Espanhola.
         Picasso deu seu apoio à República, levantando enormes quantias em prol da causa e
aceitando pintar um grande mural para o pavilhão espanhol na Exposição Internacional de
1937, em Paris. Ainda não havia começado a pintar quando teve a notícia de que em 26 de abril
de 1937, aviões nazistas, enviados por Hitler para ajudar Franco, tinham bombardeado e
arrasado a cidade de Guernica. Picasso iniciou então os esboços de Guernica e depois a pintou
em mais ou menos um mês. Esta obra foi a expressão máxima do sofrimento espanhol e
também do impacto devastador dos armamentos modernos de guerra sobre suas vítimas em
todas as partes do mundo.
         Os republicanos perderam a guerra civil, e Picasso ficou exilado da sua terra natal para
o resto da sua longa vida. Durante a Guerra ficou preso em Paris sem poder fazer exposições e
depois da libertação de Paris, ingressou no Partido Comunista, e durante alguns anos certas
obras suas foram declaradamente políticas.
        Em 1943, Picasso conheceu Françoise Gilot, uma jovem de 21 anos, e Dora sofreu um
colapso nervoso. Picasso separou-se de Dora e passou então a viver com Gilot, com quem o
artista encontrou um pouco de paz e pintou Alegria de Viver. Françoise, porém detestava a
falta de privacidade. Teve com ele dois filhos: Claude e Paloma que não conseguiram unir o
casal e superar suas diferenças. Assim, em 1953, Françoise o abandonou.
        Em seguida ao abandono de Gilot, Picasso apaixonou-se por Jaqueline Roque e casa-se
com ela. Nesta fase, dos anos 50 e 60, as obras já não eram tão inventivas e ele retorna ao
passado estudando Delacroix, Velazques e Manet. Anos mais tarde, uma operação da próstata e
da vesícula, além da visão deficiente, põe fim às suas atividades; ele morre em 8 de Abril de
1973.
        Picasso faz parte do movimento modernista, suas obras são consideradas arte
moderna.Nas correntes modernistas mesclam-se motivos materialistas e espiritualistas, técnico-
científicos e alegóricos-poéticos, humanitários e sociais. A arte moderna foi uma sucessão de
saltos e mudanças bruscas, as tradições do Renascimento eram quebradas a cada surgimento de
um novo artista. Foi uma tradição que se apoiou na descoberta da perspectiva, em uma
representação da realidade que depende, simultaneamente, de uma ordem objetiva e de um
ponto de vista individual. A perspectiva impôs uma visão do mundo que era, ao mesmo tempo,
racional e sensível. Pablo Picasso faz parte da fase modernista da expressão artística.
Para Picasso a arte é uma invenção resoluta da realidade histórica.
                      As intervenções na história são ações e, portanto, o quadro também deve ser
                      uma ação que se realiza; é um empreendimento que se assume e não se sabe
                      como irá terminar. A chamada coerência estilística, pela qual todas as partes de
                      uma obra de arte formam uma totalidade harmônica, é um preconceito a ser
                      eliminado: a arte é realidade e vida, a realidade e a vida não são coerentes. Se as
                      circunstâncias mudam enquanto o artista está compondo um quadro, o quadro
                      há de registrar a mudança, há de terminar de uma maneira diferente de como se
                      iniciara (ARGAN,1992,P.424)

   Podemos então pensar que Picasso, entre todos os grandes criadores da arte moderna foi não
somente o mais universal, mas o mais ardentemente humano. Picasso cria signos que
representam a realidade ao invés de descreve-la e abandona as normas tradicionais da beleza
clássica pela barbarização da figura humana.
   Na pintura moderna, na arte moderna em geral, várias são as representações dadas às
mulheres e ao feminino. Podemos dizer que estas obras refletem: a visão do artista sobre o
feminino, sobre a mulher, o momento social e o posicionamento social das mulheres em cada
época e a relação estabelecida entre o artista e o feminino.
   Dentro das representações da figura humana, Picasso representou especialmente a figura
feminina. Influenciado pelos acontecimentos de sua vida pessoal e principalmente por sua vida
amorosa, intensa e permeada por diversos romances, Picasso pode retratar a mulher, ou melhor,
suas várias mulheres e musas, de diferentes maneiras e de variadas formas.

   Algumas obras do feminino de Picasso: representações do corpo feminino.

   A representação que Picasso dá a figura humana transforma-se em toda a sua obra. Ele
sempre partiu na construção de seus quadros do mundo exterior e da realidade. Picasso pintou
o amor à realidade e o horror de sermos reais. Amor, raiva, impaciência, ciúmes o levam a uma
adoração das formas alternadamente terríveis e desejáveis nas quais a vida se manifesta.
       Picasso irou-se contra a figura humana e a representou muitas vezes de forma
desfigurada. Nas suas agressões contra a figura humana, destaca-se especialmente, a feminina.
Nesses ataques contra a figura feminina ele usa principalmente a linha do desenho, sua arma
que despedaça e dá vida a suas figuras.
       Nas famosas fases Rosa e Azul, o desenho predomina com maestria e autoridade,
elegante, é harmonizado com tons suaves. Seus temas enfocam o casal e o abraço, assim como
o circo. As carícias são delicadas, quase tímidas, repletas de um abandono em um mundo de
miséria. Os sentimentos contidos, do homem e da mulher, não conseguem brotar e os dois se
entregam a um enfrentamento na busca de uma comunicação real que nunca é atingida.
       A obra La vie, pintada em 1903, faz parte do período Azul em que os tons melancólicos
dominam sua obra. Os quadros desta fase expressam o pessimismo social, a desolação e o
desespero. La vie é um resumo da visão do artista naquele tempo. Um homem e uma mulher
nus estão de pé à esquerda de frente para uma mulher vestida, no lado direito da tela segurando
uma criança nas dobras de uma túnica. Entre eles, dois desenhos pairam: um casal
aconchegado no mais sombrio abatimento e uma mulher encolhida. Esta obra é perturbadora,
há uma ausência de esperança de vida, a mulher parece apoiada ao homem pedindo proteção e
aconchego, enquanto a outra, sozinha se encolhe. Parece não haver comunicação entre as
pessoas e é este, um retrato das relações da época. Homem e mulher se apoiavam em relações
em que não existia diálogo e a supremacia do masculino era algo inquestionável, era ao homem
a quem cabia a proteção,era ele o ser supremo da relação. Há também a representação da mãe
com seu filho, sinalizando que a posição social da mulher era ligada a maternidade, ou seja, a
posição social da mãe.
       Em 1904, Picasso pinta o La repasseuse, o que poderíamos chamar de uma pintura de
Gênero. Uma mulher bocejando e passando ferro. A figura se eleva acima da esfera da vida
cotidiana como a imagem de uma santa. Ela simboliza todo o trabalho incessante da mulher, e
retrata também a posição da mulher no contexto familiar e social da época, a quem cabia o
cuidado com a casa, com os filhos, ou seja, os afazeres domésticos. A mulher passando é
encarado como uma mártir da sociedade humana.
       Alguns trabalhos posteriores de Picasso assinalam o final do período Rosa e em 1906
ele pinta Nur sur Fond Rouge em que as formas cheias e ressaltadas dão as pessoas aspectos
esculturais. A desproporção dos corpos maciços marca o abandono da preciosa elegância,
valorizada anteriormente.
       Em 1907 Picasso pinta a obra revolucionária de toda sua carreira, como também da
Arte Moderna, é a criação de um novo estilo, o cubismo. O quadro, Les Deimoselles
d’Avignon, muitas vezes associado à representação de uma cena de bordel, apresenta cinco nus
envolto a uma natureza morta. As formas grandes dos corpos confrontam o observador com
sua força angulosa e concebida de maneira angulosa. As duas prostitutas colocadas à direita
têm traços tão acentuados que parecem estar usando mascaras, as formas do nariz remetem as
mascaras e desenhos africanos.
       Picasso, um adorador do corpo feminino e das mulheres, pinta a representação do nu,
em uma cena de bordel e nos leva a pensar também na representação do corpo e no silêncio em
que vive o corpo feminino. Silêncio que não permite a expressão do prazer, em que o prazer
feminino é negado e muitas vezes associado a “coisas de prostitutas”. O corpo feminino é lugar
apenas de reprodução e toda sua beleza retratada pelas pinturas é algo que deve ser escondido e
silenciado, censurados. Soihet(2003) coloca sobre o silêncio do corpo feminino:

                                 A vida sexual feminina, cuidadosamente diferenciada as
                                 procriação também permanece oculta. O prazer feminino é
                                 negado, até mesmo reprovado: coisa de prostitutas. A noite de
                                 núpcias é a tomada de posse da esposa pelo marido, que mede seu
                                 desempenho pela rapidez da penetração: é preciso forçar as portas
                                 da virgindade com se invade um cidade fechada.
                                 (SOIHET,2003,p.16)

       Em 1913, Picasso pinta Mulher numa poltrona, em que trata a realidade essencial e
uma imagem transformada é apresentada ao expectador. Nesta pintura, ele não está
interessado na aparência exterior das coisas, mas nas qualidades essenciais. È um quadro
com uma visão dramática da realidade em que o Cubismo proporciona um olhar de diversas
perspectivas para a gravura.
       A obra Mulher numa poltrona nos faz dar um salto gigantesco na obra de Picasso e
irmos para 1932, ano em que Picasso iniciou uma série de figuras femininas, em geral nus,
quase todas dormindo serenamente. A modelo destes quadros, Mariè Thèrese, uma lolita de
17 anos, foi amante de Picasso e mãe de sua filha, Maia. Essas obras como: O sonho,
Mulher nu no fundo vermelho, Mulher em frente ao espelho, Nu em fundo preto entre outras
obras, são impregnadas de uma sensualidade vigorosa e ingênua. Esses quadros ostentam
de maneira provocadora as zonas erógenas do corpo das mulheres, às vezes subentendidas,
os seios são destacados, redondos e protuberantes.

       Muitos artistas diziam que Picasso não tratava a mulher como sujeito, mas como
objeto, porém sua ligação com elas sempre esteve presente em toda a sua obra. A forma
como Picasso retrata a mulher se liga ao momento afetivo de sua vida e a forma como
percebe as mulheres.

    Quando Picasso pinta Mulher com Tulipa, em 1932, esta ligação da pintura do feminino
com sua vida afetiva, fica bastante clara. A sua ligação afetiva recente lhe proporciona um
equilíbrio sensível tanto na associação do rosto da mulher amada com flores quanto na alegria
das cores.
     Em 1935, pinta La musa, como antídoto à pressão que o aflige, pois não consegue se
separa de sua mulher Olga e Maria Thèrese, a lolita modelo, está grávida de sua filha Maia.
Picasso, aflito com a situação e com o divórcio conturbado com Olga, pinta uma cena que
descreve duas mulheres fechadas em um aposento com cortinas fechadas. Sob a proteção
tranqüilizadora uma delas dorme, enquanto a outra se entretém em desenhar de frente ao
espelho. A atmosfera é de uma vida calma e tranqüila, que talvez fosse um de seus maiores
desejos naquele momento.
     Retomando a ordem cronológica, que anteriormente estávamos seguindo, em 1921,
Picasso retoma o estudo da plasticidade dos corpos e pinta duas obras em que a corporalidade
majestosa se mostra presente. Três mulheres na fonte e Mãe e filho representam o alívio
experimentado pela humanidade com o fim da Primeira Guerra Mundial e a esperança de
tempos bons.
     O quadro Mãe e filho retrata também algo de sua vida pessoal, após o nascimento de seu
filho Paul, com sua esposa Olga, Picasso retrata a imagem da mãe com o filho envolta a todo
um aspecto mítico. As formas das mulheres são maciças demais para o tamanho da tela e dá
uma noção de dimensão gigantesca. A maternidade é elevada ao mito e a unidade representada
entre a mãe e a criança é emocional e psicológica.
     Picasso sempre elevou a experiência pessoal ao nível da universalidade e objetividade,
assim, o nascimento de seu filho é interpretado pela mitologia perene. Como antes, ele não se
afasta de seu meio ambiente e continua a pintar suas companheiras. Daí surgem inumeráveis
variações do rosto humano, principalmente o feminino e neles podemos encontrar todas as
grandes invenções do pintor: a geometrização dos traços, a exacerbação dos olhos e a
combinação das abordagens de frente e de perfil.
     Em 1937, Picasso pinta Mulher chorando, sob o impacto da notícia do bombardeio de
Guérnica. A obra é inspirada em sua nova companheira, a fotógrafa Dora Maar e é a expressão
da dor de uma mulher, da dor frente às desgraças. A figuração dada ao rosto feminino permite
o olhar sobre diversas perspectivas. Mulher chorando retrata a dor e o sofrimento perante as
tragédias humanas.
      Ele pintou, durante todo seu percurso, de artista fabuloso, várias figuras da mulher.
Todas estas figuras traduzem em uma linguagem de signos recém elaborados a sensibilidade e
a emoção de um artista radical e inspirado diante do teatro humano.
    Para Picasso, a mulher representava suas relações afetivas, e a sexualidade e o corpo eram
representados muitas vezes em figuras desfiguradas e as cenas e situações que ele colocava a
mulher, refletiam muitas vezes, a posição social que esta ocupava na época.
    Passando por algumas obras de Picasso que representam o feminino, de maneira rápida,
um pouco superficial e dentro do que os pequenos conhecimentos de arte me possibilitaram,
pude perceber que o retrato da mulher dentro da História da Arte é reflexo da posição desta na
sociedade. Assim, o caminho da mulher na arte e a representação de seu corpo obedecem ao
caminho histórico que vem sendo construído pelas mulheres no seu reconhecimento como
sujeito, como cidadãs. Para isto, para concluir este trabalho, julgamos importante falar sobre o
feminino e suas configurações na sociedade.


       O feminino – pensando um pouco sobre as configurações atuais.


       Os fatores que envolvem o feminino, o ser mulher na contemporaneidade fazem parte
das inúmeras questões levantadas neste tempo de reflexão. O que constitui o feminino? Quais
são as prioridades? Como se configuram e se figuram o ser mulher na atualidade? Para
pensarmos estas questões é importante buscarmos teóricos que falam sobre o feminino e suas
transformações, sobre o caminho percorrido pelas mulheres em sua existência história, na sua
construção como sujeito na sociedade.
   Na Antiguidade, as mulheres sempre foram associadas à feiticeiras, ao mistério e a questões
obscuras, enigmáticas. A cultura sempre cultuou a mulher e a proclamou de variadas formas:
sendo a colocando na posição da mais pura doçura e delicadeza como também de alguém em
quem não se pode confiar, uma bruxa. Del Priore(1993) coloca:
                                 O medo que a mulher inspiraria ao outro sexo viria deste mistério
                                 profundo,fonte de terrores, tabus e mitos, e que fazia do corpo
                                 feminino o ‘santuário do estranho’ e do singular. A mulher parecia-
                                 se com a ponta de um continente submerso do qual nada se sabia. Ao
                                 mesmo tempo capaz de atrair e seduzir os homens,elas os repelia
                                 através de seu ciclo menstrual,seus cheiros,secreções e sucos,as
                                 expulsões do parto. Semelhantes impurezas cercavam a mulher de
                                 interdições e ritos purificatórios(DEL PRIORE,1993,P.35)

          A figura do feminino está presente na sociedade desde os primórdios da civilização, na
Bíblia, o livro originário da civilização cristã, no Gênesis, capítulo que narra a criação do
mundo, a mulher já tem sua imagem sendo construída como também sua posição no contexto
social.
          No capítulo 2, Gênesis, da Bíblia, versículo 18, coloca-se uma explicação para a
existência, para a criação da mulher : (...) E Deus disse: não é bom que Adão esteja só. Far-lhe-
ei uma adjuvante apropriada. (...) , e assim criou Eva, a mulher, a partir da costela de Adão. A
partir da parte de um homem a mulher foi criada, traçando-se assim o seu primeiro lugar na
sociedade, o de um ‘anexo’ ao homem, alguém que deveria acompanha-lo e não deixar com
que se sentisse sozinho.
     Depois de algum tempo, a mulher passou a ocupar o papel de esposa, de mãe,de dona de
casa e foi construída toda uma imagem que associava toda mulher a uma boa mãe e a imagem
de mãe a de uma doce mulher. Nader(1997) coloca:
                                 (...) por tradição histórica, a mulher teve a sua vida atrelada à família,
                                 o que lhe dava a obrigação de submeter-se ao domínio do homem,
                                 seja seu pai ou esposo. Sua identidade foi sendo construída em torno
                                 do casamento, da maternidade, da vida privada- doméstica e da
                                 natureza à qual foi ligada (NADER, 1997, P. 59)

          Nesse contexto, a mulher ocupou sempre o lugar de obediência ao seu marido e a ela
sempre foi atribuída uma inferioridade com relação ao homem, acreditava-se que a mulher era
incapaz de exercer qualquer tipo de atividade diferente das atividades domésticas e do cuidado
com os filhos, acreditava-se que estas atividades faziam parte da natureza da mulher, estavam
intrínsecas ao ser mulher.Desta forma, legitimava-se a superioridade do homem e se
assegurava o poder dado a este desde a criação do mundo.
          Com o tempo, esse papel de esposa, mãe, companheira submissa ao homem, vai
sofrendo mudanças. No Brasil Colônia, as mulheres ocupavam essa posição, eram criadas para
casar e terem filhos e a única finalidade do casamento era a procriação. Casava-se por acordos
familiares de interesses mútuos e a função do casamento era a de gerar grandes famílias, em
que a mulher era responsável por toda a organização.
        As mudanças do mundo e as mudanças na sociedade trouxeram a possibilidade de
questionarem seu papel e de se posicionarem como um sujeito com desejos e necessidades,
uma pessoa em sua subjetividade. Assim, foi se desconstruindo uma imagem da mulher
delicada e doce sempre submissa e a espera de seu marido. Aos poucos as mulheres foram
traçando novos caminhos e dando novas configurações ao seu papel, ao ser mulher.
        Com o tempo foi se desconstruindo a ligação biológica, sexo feminino/mulher/sexo
frágil e com os estudos de Gênero, e o uso político do termo para as lutas contra as
desigualdades sociais e desnaturalização das verdades, as mulheres puderam se engajar na luta
por uma identidade desvinculada de verdades pré-construídas.
       Nesta luta, as mulheres passaram a buscar fora da proteção do lar novos sentidos para a
sua vida. Começaram a exercer a atividade profissional e a buscar seus direitos como cidadãs.
O trabalho feminino foi conquistado fora do contexto doméstico e as mulheres passaram por
uma evolução no seu papel social.
       Com o advento do Capitalismo (séc XVIII –XIX), surgiram as primeiras fábricas e as
mulheres passaram a ter representatividade como força de trabalho e assim a viver uma dupla
jornada, pois sua entrada no mundo do trabalho não anulou as atividades domésticas e nem os
papéis de mãe, de esposa, destinados a ela.
       Elas também passaram a lutar por seus direitos, pela regulamentação das leis
trabalhistas e segundo Del Priore(1997), após várias lutas elas conseguiram alguns direitos
como : o salário, o direito a licença maternidade, melhores condições de trabalho, o voto e o
reconhecimento como cidadãs.
       A onda feminista dos anos 60 contribuiu para o surgimento de pesquisas históricas
sobre mulheres, havendo portanto contribuições recíprocas entre a história de mulheres e o
movimento feminista, que foi o precursor da busca pela independência feminina e pela busca
de seu lugar na sociedade. Esses movimentos possibilitaram às mulheres mostrarem suas
capacidades e potencialidades antes reservadas ao contexto doméstico, Nader(1997) coloca:
                                (...) se antes o espaço doméstico era tido como naturalmente
                                feminino e a mulher sustentada pelo homem, agora são as mulheres
                                que detêm grande parte do controle sobre os recursos familiares e
                                desempenham um papel fundamental na vida econômica da
                                família(...) o tratamento dado ao trabalho fora de casa passou a ser
                                para       a      mulher    o      sinal    concreto     de      sua
                                emancipação.(NADER,1997,p.132)
           Nesse mesmo contexto histórico, ocorre uma revolução sexual, a sexualidade feminina
passa a ser reconhecida. O prazer feminino tem sua existência reconhecida com o romantismo
e com as transformações dele advinda. O tabu social da virgindade cai e um novo tipo de casal
passa a surgir, com uma sexualidade aceita e trabalhada, em que o homem passa a ficar mais
atento à sua mulher e se coloca a questão da sexualidade como exigência para continuidade da
relação.
       A descoberta da pílula anticoncepcional, na segunda metade do séc XX, marcou o fim
do controle masculino sobre a sexualidade feminina. As mulheres descobriram o prazer do
sexo e como Badinter(1986) coloca, a confiança recíproca passou a substituir o controle e a
repressão.
       A sexualidade se separa então da procriação e as mulheres passam a uma posição de
sujeito desejante com necessidades a serem satisfeitas.
       A mulher, em épocas anteriores, precisava da união conjugal como uma forma de se
estabelecer e se sentir realizada, pois o casamento representava a segurança e a
respeitabilidade, o casamento lhe conferia identidade.
       Com o romantismo, o casamento passa então a se firmar na escolha mútua; deve –se
casar com quem se entenda bem. Surgem as declarações de amor entre os casais e o afeto passa
a ser expresso pelas pessoas. Pode-se vivenciar o prazer e falar de sexo com tranqüilidade,
linguagem e consciência vão se libertando.A partir disso Badinter(1986) coloca:
                                 (...) posse do mundo exterior, as mulheres põem fim a divisão sexual
                                 dos papéis, e à oposição milenar entre a vida no lar que outrora lhes
                                 era reservada, e a vida profissional que pertencia obrigatoriamente
                                 aos homens. Enquanto que na sociedade patriarcal, a mulher é mãe
                                 em primeiro lugar, responsável pelas tarefas de sobrevivência e pelo
                                 poder doméstico, a nova sociedade, ao embaralhar os papéis da
                                 mulher, atenta contra uma das mais antigas características
                                 masculinas.(BADINTER,1986, p.193/4)
                                  (...)as certezas não faltavam. Ela dava a vida e ele a protegia. Ela
                                 cuidava das crianças e do lar. Ele partia para a conquista do mundo e
                                 guerreava quando necessário. Essa divisão das muitas tarefas tinha o
                                 mérito de desenvolver em cada um características diferentes, que
                                 contribuíram, com muita força, para formar o sentimento de
                                 identidade (BADINTER,1986, p.13)

       A partir disso, podemos compreender a formação da identidade feminina, que se deu de
forma negativa, em um papel de subordinação ao homem. Esta identidade foi construída por
muito tempo e de diversos pontos de vista, seja do ponto de vista cultural que definiu um
campo específico para sua atividade, seja do ponto de vista religioso que diz que esta foi criada
a partir da costela de Adão e assim a identifica como um subproduto do homem, ou da visão
biológica que a define como inferior por sua força física, todas estas visões submeteram a
mulher por muito tempo a esse papel de subordinada e a fizeram aceitar a posição de
inferioridade na sociedade. Sobre a identidade da mulher, Carneiro(1994) coloca:
                                 (...)um projeto em construção que passa(...) pela montagem destes
                                 modelos introjetados de rainha do lar, do destino inexorável da
                                 maternidade, da restrição ao espaço doméstico familiar e o resgate de
                                 potencialidade, abafado ao longo de séculos de domínio da ideologia
                                 machista e patriarcal.(CARNEIRO,1994,p.188)

       É importante ressaltar que as mudanças no papel da mulher e na construção de sua
identidade ocorrerem a partir de um processo, em que a mudança de valores está atrelada a
uma mudança nos papéis, na família, na feminilidade e na masculinidade. Mudanças políticas
que possibilitam um novo olhar sobre as relações de gênero e sobre as construções de
identidade na nossa sociedade.
       Este processo é lento e angustiante e não linear em todos os aspectos, o passado não é
totalmente deixado para trás e é ele que concretiza o presente e dá alicerce para o futuro. Estas
mudanças refletem em todos os setores da sociedade e assim também na arte, na visão que os
artistas tem sobre as mulheres e na representação do feminino para os artistas de cada época,
como pudemos perceber nas maravilhosas obras de Pablo Picasso.
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