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Como Gente Grande

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Mat�ria da Gazeta de Alagoas sobre Marketing Infantil.

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11/20/2008
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Gazeta de Alagoas | DOMINGO, 16 DE NOVEMBRO DE 2008 | ECONOMIA | COMO GENTE GRANDE | Consumo infantil movimenta R$ 50 bi PESQUISA REALIZADA PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO MOSTRA QUE MERCADO PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES CRESCE MAIS QUE PARA ADULTOS Maíra Villela | VITÓRIA ALCÂNTARA Editora de Economia Luana, Bruna e Raianna não resistem às roupas e bijuterias. Bianca gosta de maquiagem. Já Briane não esconde o amor pelos sapatos. Amigas, as meninas têm entre 13 e 15 anos e ajudam a engrossar o batalhão de crianças e adolescentes brasileiros que anualmente movimenta cerca de R$ 50 bilhões no consumo de calçados, alimentos, roupas, brinquedos, eletrônicos e propaganda. Um estudo da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), feito em 2006, mostra também que o mercado infantil cresce 14% ao ano no País, o dobro do avanço do mercado adulto. As empresas já descobriram esse filão e há algum tempo têm investindo maciçamente neste mercado. Foi-se o tempo que lojas para crianças eram sinônimo de roupa, calçado ou brinquedo. Hoje, o consumo começa cada vez mais cedo e atinge um maior número de “compradores” que ainda estão na infância, emplacam a pré-adolescência ou já entraram no contestador mundo adolescente propriamente dito. Esses clientes do futuro já são realidade nos balanços de grandes EM ASCENSÃO 14% É o percentual de crescimento anual do consumo infanto-juvenil no Brasil, segundo estudo da USP redes e lojas de varejo. Influenciam os pais na hora da compra e muitos deles já decidem o que querem ou não levar para casa. O consultor de Marketing Infantil, o mineiro Arnaldo Rabelo, 42, diz que apesar da redução da taxa de fecundidade no Brasil e de o adiamento cada vez maior na hora de ter filhos – geralmente após a consolidação da carreira profissional dos pais – houve aumento desse nicho de mercado. “Na década de 40 do século passado, um casal tinha mais de seis filhos. Hoje, a média, segundo o IBGE, é de 2,1 filhos. Era de se imaginar que o mercado de produtos infantis diminuísse, mas não é isso que vem ocorrendo. Hoje, o casal tem filhos mais tarde, quando já avançou na carreira e tem recursos para ter uma vida melhor, com qualidade”, afirmou Rabelo durante entrevista por telefone à Gazeta. O consultor, que já lançou um livro na área e mantém blogs e sites para debater o tema, diz que atualmente os pais estão mais ocupados, a mulher ingressou no mercado de trabalho e está cada vez mais ausente do lar e dos filhos. O que, segundo ele, gera culpa, que por sua vez é compensada com presentes. A professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), de São Paulo, e autora do artigo científico A Interferência de Alterações Socais sobre o Comportamento do Consumidor Infantil, Christiane Coutheux Trindade, 28, diz que “ceder aos pedidos das crianças e oferecer-lhes presentes são soluções aparentes. O presente fora de época é cada vez mais comum; antigamente, as datas comemorativas serviam como ocasião para a compra de brinquedos e roupas”, afirmou por e-mail à reportagem. (Leia principais trechos da entrevista na página A17). Os dois especialistas destacam também o grande número de horas que as crianças e adolescentes ficam expostas aos meios de comunicação, principalmente à televisão. “A exposi- Mundo lúdico dos brinquedos encanta crianças e até pais; indústria deve faturar R$ 2,5 bi ção constante das crianças aos meios de comunicação também favorece o contato direto das empresas com seu público. Além disso, divulgam personagens ca- tivantes que, por meio do licenciamento de marcas, se tornam produtos altamente atrativos”, afirma Trindade. E Rabelo corrobora: “Os pais não assumem a responsabilidade de educar os filhos, acabam deixando as crianças o dia inteiro na frente da tevê, do videogame”. Leia mais nas páginas A14, A15 e A16 A14 ECONOMIA DOMINGO, 16 DE NOVEMBRO DE 2008 Gazeta de Alagoas | COMO GENTE GRANDE | Publicidade para atrair público foi de R$ 209 mi VALORES SÃO DE 2006 E SUPERAM EM QUASE TRÊS VEZES DESEMBOLSO REGISTRADO EM 2003 Maíra Villela | VITÓRIA ALCÂNTARA Editora de Economia Se de um lado há uma omissão dos pais com relação à educação dos filhos, por outro existem as tentadoras e apelativas peças publicitárias voltadas para esse público. De acordo com o consultor em Marketing Infantil Arnaldo Rabelo, em 2003 foram investidos R$ 65 milhões em publicidade destinada a crianças e adolescentes. Número que só cresceu e bateu os R$ 209 milhões em 2006. Para a professora universitária Christiane Coutheux Trindade, por estarem em formação, crianças e adolescentes “não estão plenamente preparados para lidar com certos conteúdos, sentimentos e valores”, afirma e acrescenta: “Se para nós já é difícil controlar impulsos consumistas, para esse público distinguir a necessidade do desejo e mesmo de um interesse fugaz é ainda mais complicado”. Trindade diz ainda que as questões econômicas “exigem um certo tipo de raciocínio mais abstrato, que, para os menores, está fora de alcance”. “Assim, para ela, é difícil entender as alegações do tipo ‘este é muito caro’ ou ‘este mês não dá’. Pergunta-se, convicta de que se trata da má vontade dos pais: ‘mas não é só passar o cartão ou dar o cheque’”, explica. A discussão sobre o que a Setor de vestuário para crianças e adolescentes movimenta anualmente cerca de US$ 2,5 bi publicidade pode ou não fazer quando o alvo é o público infantil chegou ao Congresso Nacional. O Projeto de Lei 5.921 tramita na Câmara desde 2001 e foi aprovado pela Comissão de Defesa do Consumidor da Casa em julho desse ano. A medida determina: “fica proibido qual- quer tipo de publicidade, especialmente as veiculadas por rádio, televisão e internet, de produtos ou serviços dirigidos à criança, no horário compreendido entre 7 e 21 horas”. A nova lei, se aprovada, vai proibir também que comerciais sejam veiculados com apresentadores infantis ou desenhos, que podem atrair a atenção das crianças. Além disso, ficam proibidas as publicidades via correio, e-mail, celular ou telefone fixo para o público infantil. A dose diária de propagandas às quais as crianças estão submetidas é grande. Segundo o InsFRASE “Mas a criança não é boba: perde o interesse quando o produto não corresponde ao da propaganda” Christiane Trindade Professora universitária tituto Brasileiro de Opinião e Pesquisa (Ibope), até os 11 anos, meninos e meninas assistem a cerca de cinco horas de televisão por dia, em média. E é justamente nos horários dos programas infantis que as propagandas para esse público mais aparecem. “Quando a propaganda faz alguma promessa, a criança está pronta a apostar que é assim mesmo. Já imagina seu personagem favorito como companheiro do lanche ou da brincadeira. Mas a criança, embora inocente, não é boba: fica frustrada e se desinteressa quando o produto não corresponde ao da propaganda”, sublinha a professora universitária Christiane Trindade. O consultor em Marketing Infantil Arnaldo Rabelo, considera o projeto de lei injusto. Segundo ele, há uma generalização no texto em tramitação. “É exagerado porque o consumidor tem direito a se informar sobre o produto. A publicidade por si só não pode ser responsabilizada pelo consumismo. Há outros fatores que contribuem para isso. Dentro do capitalismo o consumo é um processo natural para atender às necessidades das pessoas, o excesso é que é prejudicial”, alerta e completa: “Sem falar que há empresas que fazem um trabalho sério voltado para esse público”. Mas o especialista faz ressalvas ao ponderar que algumas empresas precisam ter mais responsabilidade e ética ao lidar com esse público. “Algumas agem de forma equivocada. Podem inclusive causar prejuízos porque, não trabalham com a questão ética e com a responsabilidade social. Precisam pensar no benefício ao consumidor a longo prazo”. Gazeta de Alagoas | COMO GENTE GRANDE | DOMINGO, 16 DE NOVEMBRO DE 2008 ECONOMIA A15 Menina é focada na marca; menino só quer brincar EXPANSÃO DA INDÚSTRIA DE BRINQUEDOS BRASILEIRA DEVE SER DE 12,4% | VITÓRIA ALCÂNTARA Editora de Economia AGENDA ECONÔMICA agendaeconomica@gazetaweb.com Vitória Alcântara Stab em Alagoas Nenhum outro setor remete tanto ao público infantil como o de brinquedos. E no Brasil o segmento vem em franco aquecimento. Dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), fundada em julho de 1985, mostram que em 2006 o faturamento total (produtos nacionais e importados) foi de R$ 1,678 bilhão, passando para R$ 2,234 bilhões em 2007 e com estimativa de chegar a R$ 2,512 bilhões este ano. Um aumento de 12,4%. (Veja tabela abaixo) Os brinquedos evoluíram e cada vez mais acompanham o desenvolvimento infantil. São coloridos, emitem sons e luzes, usam a mais alta tecnologia ou são singelos e conquistam os pequenos pelas inúmeras possibilidades lúdicas que despertam. Bonecas de pano e carrinhos de plástico costumam significar horas de diversão e aprendizado. Foi do desejo de oferecer produtos de qualidade e que acompanhassem o desenvolvimento de sua filha, a pequena Maria Luiza, hoje com cinco anos, que a advogada por formação e empresária por opção Simone Laranjeiras resolveu investir na Bricmania, loja especializada em brinquedos, localizada na Ponta Ver- Empresária diz que são “pouquíssimas” as mães e crianças que compram de forma compulsiva. “Compram em datas comemorativas” de. Com a orientação do Sebrae/AL e tendo a médica Jamille Paiva como sócia, Simone montou o estabelecimento em setembro de 2007. “Sempre fui criteriosa na escolha dos produtos para minha filha, pesquisava fornecedores e queria qualidade. Com a loja é a mesma coisa, procuro ter produtos exclusivos, linhas educativas e com função pedagógica”, afirma. A empresária, que faz questão de entender as fases de desenvolvimento da criança e conta com orientações de uma psicopedagoga, diz que pais escolhem os brinquedos dos filhos com idade de zero a dois anos. “A procura para esse tipo de público é muito grande, os brinquedos são unissex e coloridos”, relata. “Quando as crianças têm entre quatro e sete anos já procuram os produtos que vêem na mídia”, destaca. Segundo Simone, há diferenças no ato de comprar da menina e do menino. “A menina é mais determinada e focada na marca, no produto que aparece na mídia. Já o menino procura o brinquedo pelo prazer de brincar”. Questionada sobre o consumo dos seus pequenos clientes, a empresária diz que são “pouquíssimas” as mães e crianças que compram de forma compulsiva. “Na maioria das vezes os pais só compram mesmo em datas comemorativas ou eventos especiais”. Atendendo um público formado principalmente por clientes das classes A e B, as proprietárias da Bricmania estimam um faturamento de R$ 1,5 milhão para este ano e um acréscimo de 20% em 2009. Segundo a empresária Simone Laranjeiras, a loja ficou em primeiro lugar no ranking nordestino de vendas feito pela indústria de brinquedos Mattel (fabricante da Barbie e Hot Wheels, dentre outros), no primeiro semestre desse ano. Há também planos de abrir uma nova Bricmania em outro ponto da cidade. “Será uma nova loja, com um novo conceito”, explica Simone, que pretende mudar de endereço para atingir um público ainda maior. A loja possui 180 metros quadrados e conta com seis funcionários. Os preços dos brinquedos variam de R$ 4,99 a R$ 799. Os participantes do 9º Congresso Nacional da Sociedade dos Técnicos Açucareiros e Alcooleiros do Brasil (Stab) visitarão a Usina Coruripe na próxima semana. Eles vão conhecer a irrigação de gotejamento, uma experiência trazida de Israel. Os 600 convidados também assistirão ao filme institucional da usina, feito especialmente para o evento. Na programação, palestras sobre responsabilidade socioambiental, tecnologia industrial e debates sobre a crise do setor. ›› QUANDO: 18 de novembro ›› ONDE: Usina Coruripe QUANTO: somente para inscritos. Arquivo GA PETROQUÍMICAS ›› Curso oferecido pela Petrobras procura formar mão-de-obra para trabalhar na área de petróleo e gás natural. Oportunidade As inscrições para o 4º ciclo de qualificação profissional do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp) da Petrobras continuam até dezembro. Há vagas para cursos de níveis básico, médio, técnico e superior. Para Alagoas são ofertadas 96 vagas de nível básico para acoplador, caldeireiro, encanador, lixador e soldador de tubulação. ›› INSCRIÇÕES: até 19 de dezembro ›› ONDE: no site www.prominp.com.br ou nos postos de inscrição credenciados, listados no edital ›› QUANTO: R$ 22 para nível básico, R$ 38 para os níveis médio e técnico e R$ 56 para nível superior ›› INFORMAÇÕES: www.prominp.com.br e www.cesgranrio.org.br. Leilão Aliança O Parque Arthur Filho, em Pilar, recebe em dezembro a quarta edição do Leilão Aliança. O evento terá transmissão ao vivo pelo canal Terra Viva. A Agreste Leilões será a leiloeira do evento. ›› QUANDO: 13 de dezembro ›› ONDE: Parque Arthur Filho, em Pilar ›› HORÁRIO: 14 horas, com transmissão pelo canal Terra Viva INFORMAÇÕES: (82) 3036-7070. Empreendedor global A rede de incubadoras de empresas e parques tecnológicos Incubanet abriu inscrições para a Semana Global de Empreendedorismo, evento mundial de estímulo à ação empreendedora. As ações ocorrem nesta semana. A Semana Global de Em- preendedorismo é um movimento que acontece ao mesmo tempo em cerca de 60 países, tendo como foco principal a ação empreendedora. Surgido na Inglaterra, onde já agrega nove mil empresas e 500 mil pessoas, se alastrou para os Estados Unidos, onde estão envolvidas duas mil instituições e 480 mil pessoas e este ano chega ao Brasil, com perspectiva de envolver meio milhão de pessoas e duas mil entidades. O objetivo é mobilizar, conectar e inspirar o maior número de pessoas possível para a atitude empreendedora. ›› QUANDO: 19 a 21 de novembro ›› ONDE: Sebrae-PE, em Recife ›› HORÁRIO: das 9 às 18 horas INFORMAÇÕES: info@incubanet.org.br ou (81) 3425-4731/4846 Contatos: agendaeconomica@gazetaweb.com | Rua Saldanha da Gama, S/N, Farol - Maceió-AL - Cep.: 57051-090 Fotos: Maíra Villela Simone e a pequena Maria Luiza: filha foi inspiração da empresária na hora de montar loja especializada em brinquedos ESTATÍSTICA DO SETOR DE BRINQUEDOS Fat ament ur o R$ mi/bi Produção Nacional Importações Total Brasil a preço de fábrica 2004 723 2005 808 2006 856,0 2007 867,0 2008 940,0 356,1 1.079,1 507 1.315,0 822,0 1.678,0 1.367,0 2.234,0 1.572,0 2.512,0 Brinquedos coloridos e que emitem sons atraem garotada A16 ECONOMIA | COMO GENTE GRANDE | DOMINGO, 16 DE NOVEMBRO DE 2008 Gazeta de Alagoas Adolescentes seguem moda e amigas GAROTAS CONTAM MOTIVOS QUE AS FAZEM COMPRAR, RECONHECEM QUE SÃO CONSUMISTAS, MAS GARANTEM JUNTAR DINHEIRO QUANDO PRECISAM Fotos: Maíra Villela | VITÓRIA ALCÂNTARA Editora de Economia FRASE Alheias à discussão sobre a publicidade voltada para crianças e adolescentes, as primas Luana Lisboa (15) e Briane Pasini (13) e as amigas Bruna Albuquerque (15), Bianca Melo (14) e Raianna Alécio (14), que abriram essa reportagem, estão mais atentas às tendências da moda, a produtos eletrônicos e celulares. Estudando no mesmo colégio particular, as meninas têm rotinas parecidas e fazem parte do mesmo grupo social. Consumidoras confessas, elas recebem em média R$ 50 de mesada e são capazes de “torrar” tudo em bijuterias, acessórios, maquiagem e todo tipo de quinquilharias “fofas” que apareçam pela frente. Apesar disso, quando querem algo um pouco mais caro, elas garantem que conseguem juntar o dinheiro para comprar. Bianca suou, mas adquiriu o celular que tanto queria juntando daqui e dali os trocados da mesada. Briane sonha com uma máquina fotográfica, que acredita custar cerca de R$ 500 e comemora: “Já tenho uns R$ 250!” Fãs de roupas e calçados, as meninas compram praticamente pelo mesmo motivo: está na moda e as amigas têm. Televisão, internet, revistas e a opinião das colegas contam muito para essa turma, mas as adolescentes fazem questão de afirmar que só compram algo de que realmente gostam. “Compro porque acho fashion, está na moda. Mas só levo mesmo se eu gostar de verdade”, diz Luana. Briane, apaixonada por sapatos, emenda: “Além de gostar, só compro se estiver precisando”. Bruna e Raianna afirmam ainda que apesar de gostar de roupas de marcas famosas, também compram produtos em lojas de “Hoje as meninas chegam na loja já sabendo o que querem. São decididas e procuram a mercadoria pelo nome” Adriana Maffignani Empresária departamento, que não têm marcas em evidência. “Além disso, eu peço desconto”, garante Bruna. As meninas dizem que costumam negociar com os pais quando o dinheiro da mesada acaba. E a maioria afirma não insistir quando a resposta é não. Luana, no entanto, conta que sempre insiste, insiste até “conseguir”. As meninas formam o público-alvo de duas bem-sucedidas lojas “teens” de Maceió: a Donnatella e Melissa, instaladas no shopping Iguatemi e no Hiper Bompreço da Gruta. A proprietária dos estabelecimentos, a empresária pernambucana Adriana Maffignani, 36, está no ramo da moda feminina há nove anos e observa que os adolescentes estão diferentes de antigamente. “Quando eu tinha a idade delas era minha mãe quem comprava minhas roupas. Já chegava em casa com tudo e eu não opinava. Hoje, as meninas chegam na loja já sabendo o que querem. São decididas e procuram a mercadoria pelo nome. Acredito que os filhos ditam o consumo deles e da família. Dão pitaco na marca do carro, do imóvel”, analisa a empresária. A empresária diz que suas clientes costumam adquirir produ- tos nas lojas pelo menos duas vezes ao mês. “Algumas levam duas bolsas, duas sandálias ou um de cada produto”, afirma e conta uma cena que se repetiu algumas vezes quando a loja Donnatella do shopping estava fechada para reforma: “Estava em algumas ocasiões na porta tratando com os operários quando as meninas chegavam e quase chorando perguntavam se a loja tinha fechado. Quando respondia que não, que era apenas uma reforma, elas suspiravam felizes”. Empregando 20 funcionários e comercializando as marcas de vestuário Missbela, Dona Florinda e as cobiçadas Kipling e Melissa, de bolsas e calçados, Adriana espera um incremento de 20% nas vendas deste Natal com relação ao mesmo período do ano passado. Sem revelar o faturamento anual, a empresária diz apenas que o valor tem sido “progressivo”. “Estamos com o estoque para o Natal pronto e esperamos que apesar da alta do dólar a crise não cheguem por aqui até o fim do ano”. De acordo com pesquisa citada pelo consultor de Marketing Infantil Arnaldo Rabelo, o faturamento estimado do mercado de vestuário brasileiro voltado para crianças e adolescentes é de cerca de US$ 2,5 bilhões por ano. Literalmente de olho nos pés dessa galerinha, o grupo paulista Authentic Feet – especializado em tênis, e há 13 anos no mercado nacional, com lojas espalhadas em todo o Brasil, inclusive em Alagoas – percebeu a carência de lojas de calçados infantis e investiu no filão tanto com as lojas já existentes como com a novata Magic Feet, somente para crianças de zero a 12 anos. “Atualmente, 20% do faturamento de nossas lojas estão neste nicho de mercado, e ao longo dos anos captamos com os fornecedores do segmento infantil As amigas Raianna, Bruna, Luana (de pé) e Bianca e Briane mostram seus produtos preferidos uma carência de pontos-de-venda”, afirmou por telefone à Gazeta o gerente de marketing da empresa, Nelson Valente. “As vendas no segmento kids crescem em média 10%, contra 7% do adulto”, diz Adriano Obeid, diretor da rede, por meio da assessoria de comunicação. Outro fator que motivou a entra- da nesse nicho foi a rotatividade de compras. Entre os clientes, 53% adquirem um par de tênis para os filhos a cada seis meses, com tíquete médio de R$ 100. Brinquedos e decoração colorida transformam salão de festas em mundo da fantasia Clarissa mostra convite personalizado: “Filhos são criados dentro do orçamento familiar” Empresários acreditam em potencial de nicho Em Maceió, os investimentos no público infanto-juvenil não ficam restritos a lojas de roupa, calçados, brinquedos e alimentação. A empresária Ana Luiza Porto, 40, apostou em serviços de recreação e há seis anos mantém o Pip Pop. Clarissa Ricardo, 38, deixou a arquitetura de lado há três anos e se debruçou na criação de produtos de papel, dando origem a Personateen. Já os donos da franquia da Imaginarium acreditam na busca pelo diferente que move os adolescentes. Ana Luiza se orgulha das lojas de recreação e do bufê que levam o nome Pip Pop. Dona de uma loja de roupa feminina, ela resolveu mudar de ramo e se dedicar ao segmento que atende crianças e adolescentes. “Tenho amigos em São Paulo que já trabalham no setor, então resolvi montar um bufê”, conta a empresária que há cerca de dois anos abriu o salão Pip Pop na Mangabeiras. Desde então, os investimentos não cessaram. O valor aplicado, segundo a empresária, gira em torno de R$ 1,5 milhão. “É um custo alto e ainda temos uma equipe de 35 funcionários, fora o pessoal de suporte. O retorno é a longo prazo”. Os pacotes oferecidos pelo estabelecimento variam de R$ 1.750 a R$ 6 mil, a depender do número de convidados e do dia da semana. “De segunda a quinta, o preço é mais em conta. Sexta, sábado e domingo um pouco mais elevado”, afirma Ana Luiza. Para 2009 a empresária aposta em novidades e no reforço dos serviços já existentes, como o berçário e o monorreio (espécie de trenzinho que circula com passageiros durante as festas). Haverá também o mambo, onde crianças e adultos que gostam de adrenalina poderão se divertir. “Para o próximo ano, estamos fechando também uma parceria com o Bob’s para fazer o Pip Pop Express. A idéia é utilizar o ônibus climatizado da lanchonete para transportar o aniversariante e seus convidados, das escolas até o salão ou Iguatemi. O tempo de cada festa será de três horas e o pacote mais em conta”, destaca Ana Luiza, já se preparando para uma possível retração de mercado por causa da crise econômica. Clarissa Ricardo viu um nicho de mercado nos serviços oferecidos para quem organiza festas e eventos. Tendo o papel como matéria-prima, Clarissa faz de convites a lembrancinhas como cadernos e agendas. Instalada na loja Blue Balon, ela trabalha no ateliê que leva teen no nome, o “Personateen”. “No início comecei com maior ênfase no público infantil, mas com o tempo a procura aumentou e hoje tenho muitos clientes adolescentes”, conta a designer gráfica que recebe cerca de 50 encomendas por mês. Quando a demanda fica maior, como ocorre no fim de ano, por exemplo, Clarissa contrata mão-de-obra terceirizada. Os convites vão de R$ 2 a R$ 20 e os cadernos saem a partir de R$ 13. Sem recusar pedidos, mesmo para àqueles que desejam apenas uma unidade, Clarissa vem conseguindo uma clientela fiel e já traça com facilidade o perfil de quem contrata seus serviços. “O público infantil idealiza mais, quer uma festa inesquecível. O público feminino vai dos convites às lembrancinhas e quer o que está na moda. Já os meninos têm medo de ‘pagar mico’ com convites, têm medo de parecer coisa de criança”. Ela conta que sempre há negociação entre pais e filhos e são poucas aquelas crianças que conseguem impor sua vontade. “As famílias estão criando os filhos já dentro do orçamento que dispõem”, afirma. Por trabalhar com produtos importados, como tintas e fitas, a designer diz que já sente os efeitos da crise mundial com a alta do dólar. “Estou segurando para não repassar os preços para o cliente, mas acredito que vai melhorar”, disse. Na Imaginarium, os artigos diferentes atraem os adolescentes. “Eles já chegam sabendo exatamente o que querem”, diz a gerente da loja de Maceió, Socorro de Barros. “Os adolescentes compram muito para presentear os amigos de escola. Aí fazem cotinhas e chegam separando as moedas. Quando o produto é para eles geralmente chegam com os pais, que pagam pela mercadoria”, afirma. Segundo Socorro, o preço médio dos produtos na loja é de R$ 75. O mais barato sai por R$ 12,99 e o mais caro por R$ 720. |VA FRASES “No início comecei com maior ênfase no público infantil, mas com o tempo a procura aumentou e hoje tenho muitos clientes adolescentes” Clarissa Ricardo Designer “Os adolescentes compram para presentear os amigos de escola. Fazem cotinhas e chegam com as moedas” Socorro de Barros Gerente de loja Gazeta de Alagoas | COMO GENTE GRANDE | DOMINGO, 16 DE NOVEMBRO DE 2008 ECONOMIA A17 Professora defende geração mais crítica PARA CHRISTIANE TRINDADE, UMA INSERÇÃO BEM ORIENTADA AO UNIVERSO DO CONSUMO PODE SERVIR PARA GERAR PESSOAS MAIS CONSCIENTES Cortesia | VITÓRIA ALCÂNTARA Editora de Economia Graduada em Administração e Pedagogia pela Universidade de São Paulo (USP), a professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing e mestranda em Filosofia pela USP, Christiane Coutheux Trindade falou à Gazeta sobre o crescimento do consumo infantil e adolescente no Brasil, como a publicidade atinge esse público e o que pais podem fazer para evitar um consumismo desenfreado. Leia a seguir os principais trechos da entrevista. GAZETA – O que faz crianças e adolescentes representarem uma fatia tão expressiva no mercado? Ch ist n Tr da – A participar ia e in de pensar isso. Ceder aos pedidos das crianças e oferecer-lhes presentes são soluções aparentes. Você acredita que esse público é mais vulnerável às campanhas publicitárias? Você acha que esse consumo é irreversível? ção expressiva é reflexo da oferta crescente de produtos e serviços especificamente dedicados a esse público. Observamos hoje, em diversos setores, uma tendência cada vez mais acentuada à segmentação, isto é, ao direcionamento focado dos esforços empresariais a grupos reduzidos de consumidores. Alguns se destacam como sendo potencialmente lucrativos; o mercado infantil é um deles. Do lado do consumidor, percebemos uma série de mudanças sociais, que acabam por favorecer o consumo infantil. A já consolidada presença da mulher no mercado de trabalho é uma delas. A ausência no cotidiano dos filhos faz com que muitos pais se sintam culpados e busquem toda sorte de alternativas para com- Em princípio, sim. As crianças e mesmo os adolescentes são seres em formação. Não estão plenamente preparados para lidar com certos conteúdos, sentimentos e valores. Os estudos em psicologia do desenvolvimento indicam que a criança caminha das coisas mais concretas às mais abstratas; das mais simples às mais complexas. Assim, para ela, é difícil entender as alegações do tipo “este é muito caro” ou “este mês não dá”. Quando a propaganda faz alguma promessa, ela está pronta a apostar que é assim mesmo. Mas a criança, embora inocente, não é boba: fica frustrada e se desinteressa quando o produto não corresponde ao da propaganda. Qual o apelo mais forte da mídia com relação à criança e ao adolescente? Não. O mundo de hoje nos força a acreditar que tudo é inexorável, ou seja, que as mudanças estão fora de nosso alcance. Sentimos isso em relação à política, quando nos vemos excluídos das decisões dos rumos de nossa comunidade. O avanço da ciência também parece caminhar de forma autônoma, como se ao homem não coubesse dizer não ou consentir com seu desenvolvimento. Esse fatalismo, tão marcante, toma conta também dos pais, que se vêem sem controle da educação dos próprios filhos. O que os pais podem fazer para evitar que os filhos se tornem consumistas? as antigas brincadeiras, que não exigiam nenhum equipamento sofisticado. Aprender a conviver com o não é igualmente fundamental: a vida não diz sim o tempo todo para nós e nossos pais devem nos ajudar a entender que não temos tudo o que queremos. Lidar bem com as frustrações é condição para a felicidade. Que pontos negativos e positivos podemos citar diante dessa situação? Christiane: “Consumismo representa problemas sociais” Os apelos publicitários se centram no universo lúdico e imaginativo, convidando sempre à diversão. Até mesmo o alimento é apresentado como aventura ou lazer. Confundir as fronteiras entre a fantasia e o real é comum para quem começa a interpretar o mundo. Além disso, no caso dos mais velhos, a influência do grupo é muito importante e as marcas trabalham justamente essa dimensão de pertença e ao mesmo tempo diferenci- ação que um produto supostamente traz a alguém. Assim, a aceitação pelo grupo e a identidade do adolescente podem estar atreladas ao uso de uma marca ou de um produto específico. As empresas não ignoram essa passagem da vida, marcada pela insegurança em relação a si e aos outros. Crianças querem marcas ou produtos com os quais se identificam? Não se trata mais do querer, é mais provável que o mundo em que se inserem estimule tal vontade. Desde antes de aprender a ler, a criança entra em contato com símbolos, logos, personagens. Todo esse entorno a leva a identificar, desde cedo, que existem diferenças entre um produto e outro. Por outro lado, percebemos que nos menores há uma maior flexibilidade a tudo que de novo se apresenta. Por isso, dizer que se identificam com uma marca ou demonstram preferência a ela não implica afirmar que tal tendência deve ser aceita como uma verdade. Se para as empresas é importante se consolidar nas mentes dos consumidores o quanto antes, para a família e a sociedade pode ser igualmente central formar uma geração crítica. Assumir a autoria desse processo, intermediando as relações das crianças com o consumo, é fundamental para que se crie um indivíduo crítico, que saiba operar em um mundo cada vez mais complexo. É provável que essa geração tenha de pensar ainda melhor sobre suas escolhas, dada a escassez crescente dos recursos e a exclusão social. É preciso pensar que a educação não se restringe aos conteúdos escolares, mas que valores e atitudes são partes fundamentais desse aprendizado. Vale lembrar que as crianças aprendem muito pelo exemplo: se a família centrar suas horas de alegria nas compras, naturalmente a criança fará tal associação. Daí cabe apresentar todo um mundo de prazeres gratuitos, como O consumismo representa uma série de problemas pessoais e sociais. Por um lado, temos a promoção de indivíduos que se sentem realizados apenas materialmente, cujos laços afetivos com seus pares ficam diminuídos frente à novidade da prateleira. A sociedade, por sua vez, também paga o preço: os problemas ecológicos associados à cultura do desperdício é um deles. O individualismo exacerbado também estimula uma vida coletiva frágil, que não cuida dos problemas públicos por se ocupar demais com os de sua vida particular. No entanto, o consumo não é o mesmo que consumismo. O consumo é uma dimensão necessária em nossas vidas, pois se trata de satisfazer as nossas necessidades. Uma inserção precoce das crianças no universo do consumo, desde que bem conduzida, pode servir como uma preparação para essa experiência, gerando consumidores mais exigentes, menos deslumbrados e mais conscientes.

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