ESPAÇO, MOVIMENTO E METÁFORA EM AMONDAWA ANÁLISE DE TEXTOS

Document Sample
ESPAÇO, MOVIMENTO E METÁFORA EM AMONDAWA ANÁLISE DE TEXTOS Powered By Docstoc
					                    ESPAÇO, MOVIMENTO E METÁFORA EM AMONDAWA: 
                                  ANÁLISE DE TEXTOS NARRATIVOS 




                                                                                                                  1 
                                                                                          Valdilane Cor r eia Lima 
                                                                                                               2 
                                                                                              Dra. Wany Sampaio 




RESUMO – Neste trabalho apresentamos uma análise de construções metafóricas presentes em dois textos 
amondawa: Yrerua/taboca e Tapyia/maloca, com o objetivo de abordar a metáfora conceitual, fundamentada 
pelos  teóricos  Lakoff  e  Johnson  (1980),  assim  como  Almeida  (1999)  e  Ferrarezi  (2002)  dando  ênfase  aos 
eventos de tempo, espaço e movimento, por meio da demonstração das metáforas de contentores, sob aspecto 
de esquemas imagéticos. Também abordamos aqui os eventos de funcionalidade dessas metáforas cognitivas 
do cotidiano. 




PALAVRA­CHAVE: Espaço, Tempo e Movimento – Metáfora conceitual do cotidiano – Eventos de 
movimento ir e vir/dentro e fora – Língua amondawa. 




INTRODUÇÃO 


           Lakoff e Johnson (1980) afirmam que: “(...) a metáfora está infiltrada na vida cotidiana, não somente 
na  linguagem,  mas  também  no  pensamento  e  na  ação.  Nosso  sistema  conceptual  ordinário,  em  termos  do 
qual  não  só  pensamos,  mas  também  agimos,  é  fundamentalmente  metafórico  por  natureza”.  (p.  45).  A 
metáfora não ocorre apenas  na linguagem,  mas  também  na  cognição,  é um processo cotidiano  e freqüente, 
embora muitas vezes inconsciente, devido a freqüência e a naturalidade em que ocorrem. 
           Almeida enfatiza a percepção da metáfora principalmente pelo aspecto do contentor, demonstrando 
por  meio  de  esquemas  imagéticos.  Esse  contentor  é  experienciado  e  determinado  a  partir  dos  limites  do 
nosso  corpo,  enquanto  Ferrarezi  prioriza  a  funcionalidade  dessas  metáforas  para  cada  cultura,  já  que 
qualquer cultura por mais primitiva que seja manifesta tais ocorrências. 


1 
     Bolsista PIBIC/CNPq 
2 
     Orientador
                                                                                                                 2 



        Assim,  considerando  freqüentes  afirmações  de  que  metáforas  são  desvios  da  linguagem  usual, 
resultando  em  recursos  poéticos  ou  teóricos,  procuramos  desenvolver  um  estudo  sobre  as  metáforas  do 
cotidiano  na  língua  Amondawa,  fundamentados  pelos  teóricos  George  Lakoff  e  Mark  Jonhson  através  do 
livro  “Metáforas  da  vida  cotidiana”(1980),  relatórios  e  artigos  produzidos  pelos  membros  do  projeto  de 
pesquisa:  “Tempo,  Espaço  e  Movimento  em  Amondawa”,  pelo  artigo  de  Maria  Clotilde  Almeida  “Estudo 
inter­lingüístico  índole  cognitiva  Português­Alemão”(1999)  e  o  texto  de  Celso  Ferrarezi  “Da  metáfora 
funcional e algumas implicações”(2002). 


PROCEDIMENTOS 


        Em virtude do objetivo do projeto ser descrever e analisar construções  lingüísticas  metafóricas nos 
domínios  do  tempo,  espaço  e  movimento  na  língua  amondawa,  selecionamos,  dentre  os  dados  coletados, 
duas narrativas: yrerua/taboca e tapyia/maloca produzidas pelos amondawas. 
        As narrativas estudadas foram retiradas da coletânea “Universo amondawa lll” organizada por Osmar 
Marçoli  (2002).  Essas  narrativas  apresentam  construções  lingüísticas  metafóricas  que  foram  estudadas  e 
analisadas  segundo  as  propostas  teóricas  de  Lakoff  e  Johnson(1980),  Maria  Clotilde  Almeida  e  Celso 
Ferrarezi., além da utilização de informações obtidas por outros membros do grupo. 
        Apresentamos a seguir algumas construções metafóricas encontradas nas narrativas analisadas. 
RESULTADOS 


PROCESSO ORIENTACIONAL DENTRO­FORA: 
        Consideremos os seguintes exemplos: 


A)1­ Yr er ua nga oho er ua ype eñonga. 
Yreru­a ngã       o­ho        eru­a                 y           pe         eñoin  nga 
Taboca­nom        eles        3­ir       trazer­ger             água       em         tribo       eles 
Eles (os homens da tribo) vão buscar a taboca dentro do igarapé. 


            Or igem                                  Per cur so                               Destino 
          Aldeia (?)                                                                         Y(água) 


                          Contentor 1                                                            Contentor  2 


                                             Percurso 1 (ho/ir)
                                                                                                                       3 




                                             Percurso 2 (eru/trazer) 
               Contentor  2                                                                          Contentor  1 
             Destino                                    Percurso                          Or igem 
            Aldeia (?)                                                                        Y(água) 


          Na sentença 1 a taboca está dentro do igarapé. Observe que os verbos denotam os movimentos de ida 
( HO / IR) e volta ( ERU/ TRAZER). 
          A sentença (1) é um resumo da narrativa, no qual não se encontra detalhamento apenas uma narração 
geral, com alguns elementos implícitos que serão explicados pelas duas sentenças seguintes. 


B) 2­ Ar amehe nga’hoi er ua yhyawi eapowo ae yr er ua. 
Aramehe ngã          hoi       eru­a                  yhy­a                 wi         eapowo   ae          yreru­a 
Depois      eles      ir       trazer­ger            água­nom               de         separar  gente  taboca­nom 
Depois eles trazem (a taboca) da água e a gente separa a taboca. 




          Destino (contentor  2)                                Or igem (contentor  1) 
           Yhya wi ( ?) fora da água                                       Y(água) 


                                             Per cur so (eru/vir) 




      Através do esquema imagético é possível perceber que o igarapé é o contentor delimitado; as tabocas 
estão contidas no igarapé e são trazidas para fora dele. A direção do movimento é expressa pela partícula WI 
(movimento para fora).
                                                                                                                  4 



        A  sentença  (1)  do  texto  2  apresenta  uma  metáfora  que  merece  destaque,  pois  considera  o  tempo 
como  contentor:    awaipawa  (antigamente)  representa  um  recipiente  que  contém  “a  gente”  e  a  “maloca”, 
porém com o passar do tempo expresso por “antigamente”, esse antigamente é deixado para trás, enquanto “a 
gente” transpõe essa barreira. Vejamos o seguinte esquema imagético: 




A (1).Awaipawa ke awapo tapyia emo. 
Awaipawa              Ki                     o­wapo                tapyi­a               Emõ 
Antigamente           pas.                   3­fazer               casa­nom.             pas. distante. 
Antigamente a gente fazia maloca. 




      Origem                                        Destino 

Contentor  1(Antigamente)                           Contentor  2 (Atualmente) 

                              Trajetor : A gente 


     maloca
                                  Percuso 




        Na sentença anterior  o tempo  foi  concebido  como  um  espaço contentor ; “antigamente”,  enquanto 
uma  referência  espaço­temporal,  continha  “a  gente”  e  a  “maloca”  construída;  contém,  ainda,  a  idéia  de 
construção  da  maloca  tradicional  de  uma  forma  que  não  é  a  mesma  atualmente,  portanto  essa  idéia  está 
contida no passado  e quando alguém se refere a ela  no atualmente,  o faz por meio  da memória da “gente” 
que transpassou a barreira e está em outro contentor  espaço­temporal: o presente. 



B (2) Ywyr ake nga’hoi er ua japowo tapyiamo emo. 

Ywyr­a      ki     Ngã  hoi  eru­a              j­apo­wo  tapyi­a­mo            emõ. 
Pau­nom.  pas.  Eles  ir        Trazer­ger  fazer­ger          casa­nom.­pas  .  pas. distante. 
                                                                                                                    5 



Eles iam buscar pau para fazer a maloca. 




Cont.1 (Aldeia)             Tr ajetor : eles         Cont.2 (Fora da aldeia) 



                                        Per cur so 1 




   Per curso 2 



           Cont.2 (fora da aldeia)                           Cont.1 (aldeia) 



        Na sentença (2), os homens da aldeia (eles) saíam do contentor  aldeia em direção a um espaço não 
delimitado fora da aldeia (supostamente a floresta) e trazem (para a aldeia) o pau utilizado na construção da 
maloca , o que significa que existem dois percursos:  o de ida e o de volta, no qual o trajetor, na sentença, é 
“eles” (os homens habitantes da aldeia). 

        Na  versão  para  o  português,  para  uma  ação  desse  tipo,  utilizamos  a  expressão  “ir  buscar”,  mas, 
segundo a lógica do pensamento amondawa, a ação se configura lexicalmente por “ir trazer”. Isto significa 
que eles saíram da aldeia para buscar pau e trazer o pau para fazer a maloca. Quando alguém, em amondawa, 
“foi  trazer  algo”,  significa  que  esse  alguém  sabia  previamente  onde  estava  o  objeto,  pegou  e  o  trouxe. 
Verifica­se  aqui  a  objetividade  da  língua  amondawa  e  pode­se  aplicar  o  conceito  de  metáfora  segundo 
Ferrarezi (2002) que explica a funcionalidade da metáfora, ou seja, as informações fornecidas aos ouvintes. 

        De acordo com os estudos de Celso Ferrarezi (2002), a metáfora se define como “... uma metáfora é 
um tipo de construção lingüística que permite a atribuição de um sentido construído dentro de um paradigma
                                                                                                                   6 



cultural  definido  a  outra  palavra  (ou  construção  multivocabular)  que,  literalmente,  pertencia  a  outro 
paradigma cultural estabelecido”.(pp. 2) 



CONSIDERAÇÕES FINAIS 


        De origem grega a palavra metáfor a (metaphor a) significa transporte  ou transposição.  Em nossos 
estudos, baseados nas teorias de análise cognitiva de LAKOFF e JOHNSON (1980), interessa­nos pesquisar 
como  essa  tr ansposição  de  sentidos  ocorre  na  mente  e  se  evidencia  na  língua,  por  meio  da  análise  de 
metáforas  encontradas  em  narrativas  amondawa.  Desta  vez  nosso  foco,  foram  às  metáforas  ontológicas 
RECIPIENTES  (também  conhecidas  por  metáforas  de  CONTENTORES),  encontradas  nos  textos 
Yrerua/Taboca e Tapyia/Maloca. 
        Foi  devido  à  constatação  de  que  a  maioria  das  concepções  filosóficas  tradicionais  atribuíam  à 
metáfora um papel pequeno e às vezes insignificante, na compreensão do mundo e dos seres humanos que os 
autores citados acima se uniram para discutir e publicar seus estudos, divergentes da tradição filosófica. 


BIBLIOGRAFIA DE APOIO 


    ALMEIDA,  M.  C.  A  Arte  de  Ser  Metáfora:  Estudo  Interlingüístico  Português­Alemão  de  Índole 
    Cognitiva. Lisboa: Colibri, 1999. 


    ANASTASSIOY, Cristiane. PINTO,  Lívia. Espaço, Movimento e Metáfora em Amondawa: análise  de 
    sentenças complexas. PIBIC/UNIR/CNPq. Orientador: Dra. Wany Sampaio, (Relatório Parcial) 2007. 


    BEZERRA, Joeliza. Espaço, Movimento e Metáfora em Amondawa: Sub­projeto II: A metáfora literária 
    e do cotidiano em textos narrativos amondawa. PIBIC/UNIR/CNPq. Orientador: Ms.Ana Maria Aguilar, 
    (Relatório Parcial) 2007. 


    CHAVES, Janaina; LIMA, Valdilane. Espaço, Movimento e Metáfora em Amondawa: análise de Textos 
    Narrativos PIBIC/UNIR/CNPq. Orientador: Dra. Wany Sampaio, (Relatório Parcial) 2007. 


    FERRAREZI, Celso. Da metáfora funcional e algumas implicações. Primeira Versão. Edufro. Porto 
    Velho, 2002.
                                                                                                         7 



JANAINA,  K.  L.  Espaço,  Movimento  e  Metáfora  em  Amondawa:  análise  de  Textos  Narrativos 
PIBIC/UNIR/CNPq. Orientador: Dra. Wany Sampaio, (Relatório Final) 2006. 


LAKOFF, George; JOHNSON, Mark.  Metáforas  da vida cotidiana. Campinas, SP: Mercado de Letras; 
Educ, 2002. (Coleção As Faces da Lingüística Aplicada). 


MARÇOLI, Osmar. Mande Matera Ikatu (Apostila organizada com textos produzidos por alunos e 
Professores indígenas, Amondawa). Edição CIMI­RO, 2002 

SAMPAIO,  W.  et al. Estudo  descritivo/analítico  dos  eventos  de  movimento  na língua  uru­eu­uau­uau, 
dialeto amondawa. UNIR: PIBIC/UNIR/CNPq, (Relatório do Grupo). 2003/2004.