A insuportável leveza de Jobs by vaj19048

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									                        A insuportável leveza de Jobs
 A cada nova apresentação do criador da Apple, os competidores apostam que, dessa vez, Steve Jobs
vai chutar para fora ou mandar na trave. Mas o zen-paranóico continua com uma taxa de acerto de 100%
                               ao lançar produtos que voam no mercado


                                                  Carlos Rydlewski


                                                        VEJA
                                                    Edição 2044
                                                23 de janeiro de 2008


                                            Jochen Siegle/Polaris/Other Image




                               MacBook Air, o mais leve e mais delgado: quando Jobs
                                                     vai errar?



"Oi, eu sou um PC."
                                                                                             VEJA TAMBÉM
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"Oi, eu sou um Mac."                                                              • Quadro: Os números e as cabeças de
                                                                                                  Jobs

Essas duas apresentações são seguidas de diálogos fulminantes em que o certinho PC, representando todos os
computadores pessoais não-Mac do mercado, é trucidado pelo maneiríssimo Mac. Elas fazem parte de uma das
campanhas publicitárias mais funcionais da história da propaganda. As peças retratam com precisão o
terremoto que a Apple está promovendo no mundo dos computadores, especialmente entre os jovens
consumidores. Foi com um desses hilariantes jograis que Steve Jobs, o homem do renascimento da indústria de
alta tecnologia e chefão da Apple, abriu no Macworld 2008, em São Francisco, na semana passada, mais uma
de suas já lendárias keynotes, palavra inglesa que designa discursos que dão o tom e sintetizam a mensagem
principal de um evento. No filminho de abertura, o personagem PC diz que teve um ano passado terrível, mas
que estava cheio de esperanças para 2008. Ao que o personagem Mac responde: "Ah, sei, então você vai copiar
tudo o que nós fizemos em 2007". Corta. Gargalhadas na platéia. O foco, então, se concentra na figura de
camiseta preta de mangas compridas arregaçadas, controle remoto na mão, óculos redondos e calça jeans. Ao
lado de um Mac no palco, a infalível garrafa de água mineral. Clássico Jobs.



                                         O Blu-Ray venceu

                                              Toshifumi Kitamura/AFP
                                    O Blu-ray faz com o HDTV o que o VHS fez com
                                                      o Betamax



  O Blu-ray, da Sony, da qual a Apple é adepta, venceu a disputa pelo padrão de vídeo de alta definição que
vai suceder ao DVD. A Warner Brothers anunciou a adesão a esse formato de disco, que já conta com o apoio
 da Disney, 20th Century Fox, MGM e Lionsgate. A parada está decidida. Ao sistema concorrente, o HD-DVD,
sobra o prêmio de consolação de talvez se firmar como o mais eficiente sistema de estocagem de dados para
    computadores pessoais. O desfecho da luta lembra o nocaute de tempos pré-históricos, quando ainda
            existiam videocassetes e o sistema VHS mandou o Betamax mais cedo para o museu.




Desde que Steve Jobs, fundador da Apple, voltou à companhia em 1997, depois de um exílio involuntário de
quase doze anos, suas keynotes têm sido o evento mais esperado do instável e paranóico mercado de
tecnologia digital americano. A esperança dos competidores é sempre a mesma. Agora ele vai errar. Mas Jobs
continua acertando. Há anos ele dita o ritmo e o rumo das inovações. A série de acertos não tem paralelo na
indústria.


Primeiro foram os Macs coloridos, em seguida o inefável Cube                          Apple/Getty Images
(um computador em forma de cubo, sem ventoinhas barulhentas,
com base de acrílico transparente e que parecia flutuar no ar) e
depois a série invicta de iPod, que abriu caminho para o iPhone.
Todos eles se tornaram objeto de culto. Na semana passada foi a
vez do MacBook Air, o mais delgado, leve e irresistível
computador portátil da história (1,9 centímetro de espessura e
1,3 quilo). Seu modelo mais caro custa 3 100 dólares (preço bem
mais alto do que o de laptops de especificações equivalentes) e
carrega uma inovação tentadora para a fiel vanguarda da
tecnologia de consumo. Os saudosistas devem se lembrar de que,
quando os rádios a válvula começaram a ser substituídos por
aparelhos com transistores nos anos 50, os novos modelos
traziam uma inscrição gravada que dava orgulho ao possuidor:
solid state. Pois o MacBook Air dá essa mesma sensação de
progresso, de estar pari passu com o que existe de mais novo no
mercado. Uma versão do aparelho não tem disco rígido, que foi
substituído por um "solid-state drive". Traduzindo, sai uma
engrenagem móvel pesada e consumidora de energia, entra uma
peça única, sólida e silenciosa. Mais um clássico Jobs.


Bem, o leitor que chegou até aqui pode se intrigar com o fato de
que a reportagem não se diferenciou muito do que seria uma          O Mac Cube: parecia flutuar no ar, mas não durou
propaganda da Apple. Ou seja, só foram listadas coisas positivas                         muito
sobre Jobs e seus produtos. Não é difícil encontrar defeitos em
ambos. Jobs é arrogante, explode com freqüência e destrata seus funcionários com o despudor de um senhor
de escravos. O iPod, o iPhone os Macs e agora o Air são produtos que, característica por característica, podem
ser batidos por concorrentes melhores e mais baratos disponíveis no mercado. O que não se pode negar, no
entanto, é que cada vez mais os consumidores desprezam essas comparações tópicas e entram na fila das lojas
Mac nos Estados Unidos e na Europa para desfrutar a experiência de ter um iPod ou um iPhone. A revista
inglesa The Economist escreveu no ano passado que o iPhone estava sendo chamado na blogosfera de "Jesus
Phone"! Pichações em muros na Califórnia dão conta de que "Jobs is God" ("Jobs é Deus"). Blasfêmias. No
entanto, são vendidos com sucesso na internet kits de roupas e adereços que permitem a qualquer um se vestir
como Steve Jobs. "Pena que não adianta aos outros chefões do Vale do Silício comprar o kit. Eles não podem
ser Jobs", diz Larry Ellison, dono da Oracle, amigo do guru da Apple e ele próprio uma lenda viva do mundo
digital.


Mas o que faz de Jobs Jobs? "Na Apple, quando as pessoas têm a visão de um bom projeto, elas o perseguem
sem medir esforços", disse a VEJA o diretor de design da Philips, Oscar Peña. Outro especialista, Mark Rolston,
da californiana Frog Design, complementa: "Na grande maioria das empresas não é isso o que ocorre. Em geral,
um produto é definido a partir do que é mais barato ou, pior, com base no que é mais conveniente". Em uma
de suas raras entrevistas, concedida à revista Time, Steve Jobs resume o seu segredo e o da Apple: "Todo
fabricante de automóveis gosta de exibir seu ‘carro-conceito’, que deixa a imprensa e os consumidores de
queixo caído. O problema é que, quando ele finalmente é lançado, quatro anos depois o carro é um lixo. O que
acontece? Ora, o designer tem uma peça maravilhosa nas mãos, mas os engenheiros simplesmente não
conseguem fabricá-la em série. Na Apple, nós conseguimos". Como? Não tente o truque em sua própria
empresa. "Os engenheiros vêm com 38 razões para matar nossas melhores idéias, e eu digo a eles que não
aceito ‘nãos’ porque eu sou o chefe e sei que aquilo pode ser feito como eu quero", disse Jobs na mesma
entrevista. Talvez seu conselho mais sábio tenha sido o que circula em vídeo no YouTube, dito aos formandos
da Universidade Stanford em 2005: "Stay hungry; stay foolish". Como entender a mensagem? Antes um pouco
de contexto. Jobs, de 52 anos, é um filho adotivo que abandonou a universidade no 2º ano e foi hippie.
Continua zen, adepto da meditação e confiante em seu instinto. Para isso funcionar é preciso "continuar
faminto e meio louco".


Mas é bom lembrar que nesse mercado "só os paranóicos sobrevivem", na máxima de Andy Grove, fundador da
Intel, a maior fabricante de chips de computadores. Jobs é descrito como o mais paranóico de todos. O certo é
que funciona essa mistura de zen com paranóia, foco e objetividade. Empresa mais inovadora do planeta, a
Apple figura no modestíssimo 130º lugar no ranking das companhias que mais investem em pesquisa e
desenvolvimento feito pela consultoria Booz Allen. Ela coloca 710 milhões de dólares por ano no
desenvolvimento de novidades. Em recursos, perde de longe para marcas como a Toyota (primeiro lugar, com
gastos anuais de 7,7 bilhões de dólares), a Ford (terceiro, com 7,2 bilhões de dólares) e a Microsoft (oitavo,
com 6,5 bilhões de dólares). Mas em resultado... Bem, basta lembrar o comercial do PC x Mac. A vida é injusta
principalmente com a Ford e a Microsoft, que gastam tanto e não colhem um décimo dos triunfos inovadores da
Apple. A empresa de Jobs se organizou de maneira que contraria a sabedoria convencional do capitalismo e do
Vale do Silício, o centro do sistema solar das inovações digitais, que manda concentrar-se apenas em um ou
dois setores. A Apple desenha e fabrica seus aparelhos, desenvolve o sistema operacional e os programas dos
computadores – e vende ela mesma na internet as músicas e os filmes pela iTunes Store. ("O que é isso, a
Rússia soviética?", pergunta a revista Time.) Em seu número da semana passada, outra revista, Business -
Week, publica uma reportagem em que famosos designers de produtos dos Estados Unidos foram desafiados a
imaginar como ficariam diversos objetos de uso comum caso fossem projetados pela Apple. Dois exemplos: o
carro teria painel "sensível ao toque". A câmera de vídeo obedeceria a comandos de voz e mandaria os filmes
direto para o YouTube. Se mantiver a taxa de acerto por mais alguns anos, Jobs poderá ampliar o escopo de
sua campanha publicitária para alguma coisa assim: "Oi, eu sou convencional". "Oi, eu sou um Mac".




                                   Ataque ao império do Itunes

                                                  Frank Micelotta / Getty




                       Images

                                  Os Stones, fora da EMI: inferno para as gravadoras



Na semana em que roubou a cena mais uma vez, com o MacBook Air, Steve Jobs também teve uma má notícia.
   A Amazon anunciou que no mês que vem lançará um serviço próprio de venda de arquivos musicais pela
   internet. Com isso, a maior livraria virtual do mundo, que desde setembro mantinha uma parceria com o
iTunes, passará a ser sua concorrente direta. E que concorrente: com 72 milhões de clientes, a empresa de Jeff
    Bezos é tida como a única capaz de fazer frente à loja da Apple. O novo serviço virá com uma promoção
 pesada: será oferecido nada menos do que 1 bilhão de downloads gratuitos. Na Amazon, as músicas custarão
 10 centavos menos que as do iTunes (que cobra 99 centavos). A livraria fez ainda acordos importantes com as
 grandes gravadoras, que, surpreendentemente, concordaram em disponibilizar seus títulos sem um dispositivo
   de proteção de direitos autorais. Essa era uma idéia defendida por Jobs, mas que a maioria das gravadoras
 rechaçava. Se deram o braço a torcer é porque já não têm como lutar contra a realidade. Em 2007, as vendas
      de CDs caíram 19% só nos Estados Unidos. As gravadoras também enfrentam um êxodo de artistas
importantes. Madonna saiu da Warner no fim do ano passado. Na última semana, foi a vez de os Rolling Stones
 deixarem a EMI – que se prepara para demitir 2 000 funcionários. O inferno das gravadoras não tem fim. Mas,
 para elas, é preferível um mercado de distribuição de música digital em que haja concorrência, e não apenas o
                     colosso Apple. Atualmente, o iTunes é detentor de 80% desse mercado.

								
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