VIOLÊNCIA ESCOLAR OUVINDO TODOS OS SEGMENTOS NA ESCOLA ESTADUAL by klutzfu58

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									VIOLÊNCIA ESCOLAR: OUVINDO TODOS OS SEGMENTOS NA ESCOLA
ESTADUAL PROFESSORA MARIA HERMINIA ALVES, CUIABA-MT

                                                           Ormond, Hélia Regina C.1


INTRODUÇÃO-A relevância e a necessidade do estudo desta temática no campo da
educação evidenciam-se na medida em que se constata de que há um considerável índice de
situações envolvendo violência nas escolas com a participação de jovens estudantes. Essa
condição de violência inquieta e preocupa pais, professores, comunidade e autoridades de
segurança pública.
            No contexto escolar percebe-se que há grande perplexidade por parte dos
profissionais que atuam na escola, pois, muitas vezes ficam sem saber como agir para resolver
e prevenir os múltiplos conflitos que surgem no cotidiano escolar.
            A dificuldade de todos (professores, alunos, gestores, funcionários, pais) em lidar
com as situações que envolvem atos de violência na escola, inviabiliza possibilidades em
propiciar ao aluno experiências educativas de interação social construtiva que favoreçam a
sua formação ética e minimizem a violência na escola.
            O discurso atual dos educadores valoriza, cada vez mais, o exercício contínuo da
reflexão do professor sobre as conseqüências de suas ações na prática escolar, contudo,
percebe-se que o mesmo ainda não consegue identificar manifestações de violência geradas
pela sua própria prática enquanto professor.
            Entende-se neste trabalho como violência às várias formas de agressividade
explicita ou implícita, simbólica ou física que ocorrem da/na escola.
            Com base nesse entendimento a intenção deste trabalho é apresentar as
contribuições e relevância do projeto “Violência nas Escolas: Escutando Todos os Atores
Envolvidos – Alunos, Professores, Funcionários e Família”, coordenado pela Profª.Drª Maria
Augusta Rondas Speller no Instituto de Educação – dentro da linha Educação e Psicologia -
Educação, Subjetividade e Psicanálise da Universidade Federal de Mato Grosso que vem
sendo desenvolvido na Escola Estadual Professora Maria Hermínia Alves, durante o período
de 2006 á 2008.


OBJETIVO- Este trabalho tem como objetivo apresentar as contribuições do projeto
“Violência nas Escolas: Escutando Todos os Atores e Envolvidos – Alunos, Professores,
Funcionários e Família”, acerca da violência na Escola Estadual professora Maria Hermínia
Alves, Cuiabá-MT,
JUSTIFICATIVA-A violência sempre esteve presente na história da humanidade.
Atualmente os atos de violência revestem-se de novas formas e atinge todas as pessoas de
uma maneira ou de outra, independente de classe social, raça, gênero, religião ou cultura. O
psicólogo cubano González Rey,(2001,p.12) entende a subjetividade “como o processo e as
formas de organização que caracterizam os processos de significação e sentido do sujeito e
dos diferentes cenários sociais em que este se desenvolve”
            Questionamos que o que nos levam a perceber que estamos imersos em conflitos
pessoais, oprimidos, angustiados tentando “ser” sujeito com identidade própria, mas também,
obrigados a seguir padrões pré-estabelecidos a centenas de anos. Errado e certo amor e ódio
sobre isso aprendem com a experiência do viver, portanto sabe-se que o amor e ódio estão
presentes na vida psíquica, de modo mais ou menos integrado.


1
 Aluna ouvinte no mestrado em Educação, na UFMT, linha de pesquisa Educação e Psicanálise, orientadora
Professora Drª Maria Augusta Rondas Speller. Gestora da Escola Estadual professora Maria Hermínia Alves.
            Segundo Laplanche e Pontalis (1992, p.17) essa ambivalência consiste na
“presença simultânea, na relação com um mesmo objeto, de tendências, de atitudes e de
sentimentos opostos, fundamentalmente o amor e o ódio”. A essa relação questiona-se, como
todos os segmentos da escola compreendem essa ambivalência de sentimentos em ações e
reações de violências no âmbito escolar?
            Chauí (1985:23/62) caracteriza violência como,

                       “[...] uma realização determinada de força tanto em termos de
                       classes sociais quanto em termos interpessoais. Em lugar de
                       tomarmos a violência como uma violação e transgressão de normas,
                       regras e leis, preferimos considerá-la sob dois ângulos. Em primeiro
                       lugar, como uma conversão de uma diferença e de uma assimetria,
                       numa relação hierárquica de desigualdade, com fins de dominação,
                       de exploração e de opressão. Isto é, a conversão dos diferentes em
                       desiguais e a desigualdade em relação entre superior e inferior. Em
                       segundo lugar, como a ação que trata um ser humano não como
                       sujeito, mas como uma coisa. Esta se caracteriza pela inércia, pela
                       passividade e pelo silêncio de modo que, quando a atividade e a fala
                       de outrem são impedidas ou anuladas, há violência..


            Sabe-se que a linguagem é fator intrínseco às relações sociais, sendo assim,
quando ocorrem fatos de violência escolar, pode-se dizer que a linguagem não foi bem
sucedida pelas partes envolvidas. A ausência da linguagem, ou obliteração desta, tem
influência direta nos comportamentos agressivos e nas ocorrências de violência escolar.
            Zaluar (1994, p.28), é categórica ao afirmar que, “a porta de entrada da violência
na cultura, e em conseqüência na educação, foi a negação do diálogo como fonte de
conhecimento e entendimento entre os homens”.
            Abramovay e Ruas (2003,p.10) apontam que um dos fatores que dificulta a
análise da violência escolar é que não existe consenso sobre o significado da violência. A
caracterização da violência pode variar em função do estabelecimento escolar, bem como por
quem é descrita, se por professores, alunos, funcionários, etc, havendo, também, variações em
função da idade e sexo.
            Guimarães (1996, p.77) defende uma compreensão da idade violência/indisciplina
escolar bastante congruente..


                       “[...] a instituição escolar não pode ser vista apenas como
                       reprodutora das experiências de opressão, de violência, de conflitos,
                       advindas do plano macroestrutural. É importante argumentar que,
                       apesar dos mecanismos de reprodução social e cultural, as escolas
                       também produzem sua própria violência e sua própria indisciplinar”.

            Em estudos mais recentes Abramovay, (2003, p.15) assevera que a violência
praticada por adolescentes é uma forma de comunicação, uma linguagem que permite a
comunicação com os demais (colegas, adultos, instituição escolar) e que permite também
“significar” um conjunto diferenciado de estados de espírito. Todos os esforços devem ser
aplicados na tentativa de “ler” essa linguagem e, sobretudo, de compreender os elementos que
estão na sua origem.
            A instituição escolar não pode ser vista apenas como reflexo da opressão, da
violência, dos conflitos que acontecem na sociedade. É importante argumentar que as escolas
também produzem sua própria violência. Para podermos dar conta de algumas formas de
violência que dinamizam a vida cotidiana da escola, é preciso apreender, na ambigüidade
desses fenômenos, seus modos específicos de manifestações.
            A Escola Estadual Professora Maria Hermínia Alves, foi criada em 1989, esta
localizada no Bairro Morada da Serra IV. A Escola Atende crianças na faixa etária de 6 á 25
anos, nas modalidades Ensino Fundamental- I á VIII (Ciclo de Formação) e Ensino Médio –
Educação de Jovens e Adultos, possuindo atualmente 1407 alunos matriculados. Através de
uma pesquisa realizada pelos gestores concluiu-se que 82% da clientela atendida é oriunda
dos bairros periféricos próximos a escola como, 1º de Março, Jardim Brasil, Umuarama, Três
Barras,Nova Conquista, Dr Fabio entre outros, onde o índice de violência é muito alto. A
escola esta inserida no contexto das 32 escolas mais violentas de Cuiabá e Várzea Grande,
sendo contemplada com Programa de Segurança, Disciplina e Qualidade Social nas Escolas,
em parceria com Ministério Publico , Secretaria de Segurança Publica do Estado, Secretaria
Estadual de Educação, Policias Militar e Civil, Programa este lançado pelo Governo do
Estado de Mato Grosso dia 05 de outubro deste ano.
            Em 2005, a escola, foi convidada pela a Profª.Drª Maria Augusta Rondas Speller
do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso – juntamente com mais 4
escolas, sendo 01 particular e 04 estaduais, a participar do Projeto “Violência na escola
segundo crianças e adolescentes”, onde foi construídos um vídeo com depoimentos dos
estudantes financiados pelo Programa de Apoio à Extensão Universitária voltado às Políticas
Públicas. PROEXT/ MEC.
            Em 2006 a Escola Estadual Professora Maria Hermínia Alves, foi convidada a
desenvolver o projeto “Violência nas Escolas: Escutando Todos os Atores e Envolvidos –
Alunos, Professores, Funcionários e Família” no período de 2006/2008, em parceria com a
Universidade Federal de Mato Grosso, inserido no campo de estudo e pesquisa do grupo
coordenado pela Profª.Drª Maria Augusta Rondas Speller no Instituto de Educação – área de
concentração Educação, Cultura e Sociedade dentro da linha de pesquisa Educação e
Psicologia, Grupo de pesquisa Educação, Subjetividade e Psicanálise.
            Este projeto vem pesquisando sobre violência, o amor e as novas configurações
familiares. Para motivar o envolvimento de todos os segmentos – alunos, professores,
funcionários, gestores e pais, a coordenadora Profª.Drª Maria Augusta Rondas Speller
elaborou um programa que contemplou ações permitindo durante as realizações discussões
sobre violência e direitos humanos, possibilitando através da participação de todos,
alternativas nos conflitos decorrentes da violência escolar. O PROEXT/2006 -PROGRAMA
DE APOIO À EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA – foi financiado pelo Departamento de
Modernização e Programas da Educação Superior da Secretaria de Educação Superior do
Ministério da Educação – DEPEM/SESu/MEC.
            As ações realizadas na Escola Estadual Professora. Maria Hermínia Alves,
constituiu-se num ponto de cultura relevante para a comunidade escolar. No presente projeto
foram contempladas oficinas de artesanato, sucatas, teatro, jornal, canto coral, brinquedoteca,
horta escolar, grupos operativos, dança, rádio, palestras sobre a violência de gênero, mostra de
vídeo, filmes, campanhas educativas referentes ao tema e projeto de paisagismo participativo
no espaço livre da escola.
            As oficinas eram realizadas aos sábados e 3 vezes por semana eram desenvolvidos
as oficinas de contos, brinquedoteca, paisagismo participativo e a campanha “Reflexões sobre
a violência de gênero: o olhar da educação”, filmes, horta e os encontros dos grupos de
pesquisa.
            A Horta Escolar tem como objetivo propiciar a todos os atores escolares,
condições concretas, no cotidiano, estimulando comportamentos solidários e em grupo, na
contramão de ações violentas. Compreender, de forma interdisciplinar com o apoio de
professores de várias áreas, o ser humano como parte integrante e transformador do ambiente
em que vive. A horta foi construída de forma coletiva e participativa, recorrendo à entrevista
com os pais, as mães, os responsáveis pelos alunos e outras pessoas da comunidade. Foram
realizadas leituras e discussão, envolvendo alunos e professores. As informações sobre a
importância da educação ambiental foram destacadas em um mural criado pelos alunos e
professores da escola.
            As ações foram realizadas no período de fevereiro á agosto/2007, ressaltando que
o Paisagismo participativo no espaço livre da escola continua em andamento pelos bolsistas e
docentes de Arquitetura da Universidade Federal de Mato Grosso, com a participação de
todos os segmentos da escola.
            Outro fato relevante para a escola foi à visita da gestora da Escola Estadual
Professora Maria Hermínia Alves, à Escola Municipal de Ensino Fundamental
“Desembargador Amorim Lima” em São Paulo, que desenvolve uma metodologia de ensino
inspirada no Projeto “Fazer a Ponte”, desenvolvido numa escola portuguesa, conhecida como
“Escola da Ponte”.
            Com a visita constataram-se a relevância do intercâmbio entre escolas para
implementações de atividades pedagógicas, ampliação da visão de escola e seu papel na vida
dos estudantes. Este intercâmbio possibilitou um novo olhar e um processo reflexivo-critico,
juntamente com a comunidade da Escola Estadual Maria Hermínia Alves.
            Os resultados obtidos com a realização das ações podem ser percebidos no
aumento de interesse dos alunos, pais e professores pelos temas culturais e no desabrochar de
talentos em cada um deles. Nesta perspectiva a Escola foi encorajada a investir no
prosseguimento regular de atividades, através das oficinas, filmes, campanhas e mostras
culturais.
            Para a execução do projeto discentes e bolsistas da Universidade Federal de Mato
Grosso, das áreas de Psicologia, Arquitetura, Comunicação Social, Serviço Social, Pedagogia
e música se tornaram parceiros da escola. Esse envolvimento favoreceu a troca de
conhecimento e experiências, possibilitando vários olhares para questão da violência e
direitos humanos. Esta troca entre profissionais da Universidade e profissionais da Escola
implicou também, quanto às formas de trabalhar em conjunto, de pesquisar, de escutar
atentamente ao outro.
            A pesquisa vem gerando dissertações de mestrado, sendo 01 mestranda para cada
segmento escolar, alunos, pais, gestores e professores/funcionários. As mestrandas realizam,
grupos focais e operativos, com cada segmento escolar, em horário determinado pelo grupo,
respeitando sempre a organização e o espaço escolar.
            A adoção da prática de escuta foi um meio eficaz de dar lugar e voz a todos
envolvidos na escola, de tal maneira que todos puderam se manifestar de forma crítica e
analítica sobre a violência, criando novas formas de lidar com os problemas que surgiam no
cotidiano da instituição.
            Possibilitou o fortalecimento dos laços sociais entre escola e comunidade,
contribuindo para uma educação cidadã. Estimulou a realização de grupos focais e
operacionais sobre violência e direitos humanos com alunos, professores, funcionários,
gestores e famílias.
            O projeto ofereceu a todos os segmentos da escola uma escuta sem interesse, sem
julgamentos moralistas, ouvindo suas subjetividades afetando as possibilidades subjetivas do
aluno. O trabalho possibilitou a todos na medida em que falavam e era escutado, perceberem
em si, em suas histórias, em seus alunos, em suas vidas. “A psicanálise tem razão quando
afirma que o que se recalca, quando retorna, volta sempre, ainda que sob disfarces ilusórios,
com potência destrutiva dobrada”.SPELLER (2007, p.121)
            Todas as ações desenvolvidas pelo programa foram acompanhadas por um
profissional da escola que exerceu a função de observador, permitindo assim a continuidade
das ações após o encerramento do programa.
            As ações do programa de extensão foram desenhadas de tal maneira que
propiciaram a participação da comunidade em sua gestão. A participação nos eventos
escolares permitiu a todos os envolvidos maiores conhecimentos da realidade da escola, da
periferia onde está inserida, dos familiares dos alunos, unindo todos os segmentos
relacionados à escola. O programa, com oficinas abertas à participação da comunidade,
propiciou o conhecimento da vida do bairro. A participação nas reuniões dos professores e
funcionários reforçou esta oportunidade de aproximação da vida acadêmica com o mundo
escolar e da periferia, numa atividade de extensão imprescindível para os alunos e
professores.
            Neste contexto, a escola passou a redefinir o seu papel social, conjuntamente com
a sua comunidade escolar, ficando cada vez mais claro após a realização do programa, que ela
é responsável pela promoção do desenvolvimento do cidadão, no sentido pleno da palavra.
Então, cabe a ela definir-se pelo tipo de cidadão que deseja formar, de acordo com a sua visão
de sociedade. Cabe-lhe também a incumbência de definir as mudanças que julga necessário
fazer nessa sociedade, através das mãos do cidadão que irá formar,e para redefinir a sua
postura, deve trabalhar no sentido de formar cidadãos conscientes, capazes ouvir e ser ouvido
permitindo assim compreender e criticar a realidade, atuando na busca da superação das
desigualdades e do respeito ao ser humano.
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