Práxis da “Africanidade” - a literatura brasileira como o sabor e

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Práxis da “Africanidade” - a literatura brasileira como o sabor e Powered By Docstoc
					Práxis da “Africanidade” - a literatura brasileira como o sabor e axé . A prática do ensino de literatura brasileira, assim como outras práxis metodológicas, no espaço educativo “formal”1, deve ser lida como ideologicamente comprometida, imersa e submersa nas imagens de si e de todos,somos muitos, com várias faces e por isso mesmo, autores de diferentes textos sejam estes expressos por imagens gráficas ou sonoras e na qualidade de produtores, atores, cenógrafos, figurinistas e etc. Possuímos e assumimos como uma tarefa nossa, postura critica que busca o desvelar e o desnudar sem qualquer pudor do fazer poético pela ótica da africanidade. Colocando o dedo na ferida ainda aberta, pelo chicote da escravidão, pois a leitura da africanidade sabe do seu passado de oprimido como também sabe que as adversidades não foram empecilhos para luta, nem para os sonhos de uma sociedade livre. Adotamos esta postura crendo que este é um dos caminhos possíveis e assim estamos colaborando de maneira sistemática para o embate radical as análises e posturas críticas ainda comprometidas com o ideal de branqueamento. Para exemplificar este tipo de postura selecionamos quatro entre os principais títulos
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de obras para o ensino de literatura,

Compreendendo a qualificação como uma restrição semântica na perspectiva dicotômica do significado de dois signos formal versus informal- , sendo este, o informal, circunscrito às possibilidades de aquisição/troca de conhecimento no extra-muros da escola tanto real quanto virtual. NICOLA, José de. Língua, literatura & redação: 2.

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CAMPEDELLI, Samira Youssef. Literatura; história & texto; 2. BENEMANN, J. Milton; CADORE, Luís Agostinho. Estudo dirigido de português: língua e literatura. v. 2 TUFANO, Douglas. Estudos de literatura brasileira

adotados tanto em escolas da rede estatal de ensino, quanto na rede particular. Como não é de nosso interesse de imediato fazer qualquer referência, ao lucrativo mercado editorial deste setor, gostaríamos apenas mencionar, que apesar da existência de um público alvo consumidor de manuais didáticos em permanente e franco crescimento, os investimentos teóricos não primam pela mesma qualidade dos investimentos tecnológicos que propiciam grande qualidade editorial e gráfica chegando inclusive, em algumas áreas do ensino a publicação de títulos em CD. As bases teóricas presentes em alguns manuais de hoje ainda são as mesmas que permitiram a Roger Bastide afirmar que

Foram os escritores brancos que descobriram a poesia da África no Brasil, que cantaram as misérias da senzala, o patético dos navios negreiros, que puseram nos seus versos a canção dos trabalhadores de cor nos campos ou a embriaguez das filhas de santo possuídas por divindades bárbaras. Salvo raras exceções, os poetas de origem africana parecem ter

esquecido seus antepassados e, a julgarmos as suas produções apenas pelos assuntos nela tratados, parecem nada ter de realmente original. Mesmo os poucos que falaram do passado

de sua raça não o fizeram senão tardiamente, depois dos brancos, e sem acrescentar nada de novo ao que os brancos já tinham achado.3.

Nosso interesse neste trabalho e na perspectiva crítica adotada fez com que nos voltássemos para o exame da análise da produção poética de Cruz e Souza, não só por sua importância histórica como também em relação à prática de ensino de literatura brasileira. E também por ser um dos poucos escritores de ascendência africana e, algumas vezes o único, a que os manuais didáticos fazem alguma referência explícita a respeito de sua ascendência. O poeta Cruz e Sousa é enfocado na maioria dos livros didáticos examenados como um homem psicologicamente tomado pela obsessão pela cor branca, fato que os críticos acreditam constatar em seu poema “Antífona”, conduzindo de forma explícita a leitura para uma proposta de branqueamento dos procedimentos poéticos do poeta maior do simbolismo brasileiro, ao sintetizar toda sua obra com o poema “Antífona” e lê-lo pôr uma ótica bastante particularizada, no que tange as suas características biográficas. Essa perspectiva crítica não poderia fazer outra coisa que não fosse atribuir a Cruz e Sousa uma negação da sua origem africana. No sentido, de uma vez pôr todas, assumir nossa identidade, também africana, trazemos para nossa
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BASTIDE, Roger. A poesia afro-brasileira. v. 4.

reflexão outros textos de Cruz e Sousa e outros escritores que sempre estiveram em permanente diálogo com a ascentralidade africana. Precisamos desmascarar o mito de um país de mestiços com ausência de conflitos raciais, pois se, de um lado, ao entendermos uma postura estética de negra como forma de afirmação de uma cultura com bases históricas no continente africano, de outro, podemos ser classificados ou mesmo rotulados de também etnocêntricos, o que não só repudiamos como também temos combatido. Pois a afirmativa da existência de uma cultura branca superior em detrimento das demais culturas existentes nada mais seria, na modernidade, do que a reinvenção das teorias raciais do final do século XIX. Assim, classificar de preconceituosas as análises críticas operadas em alguns manuais didáticos pode parecer exagerado porém qualificá-las de simplistas, não. Como podemos observar comparando os textos abaixo, de dois autores, essencialmente direcionados para os cursos de formação geral de 2º Grau, ambos fazem de forma sintética uma análise crítica de dois poemas de Cruz e Sousa Primeira comunhão e Antífona a fim de exemplificarem a “grande obsessão do poeta pela cor branca.” No livro de José de Nicola destacamos o seguinte trecho

(...) O soneto (Primeira comunhão) trabalha com uma interessante superposição de imagens: à imagem de

adolescentes cobertas de grinaldas e véus brancos no altar para primeira comunhão se superpõe a imagem dessas mesmas moças no mesmo altar para o casamento. Uma parábola,

portanto. Ou seja, “os elementos de uma ação, exposta ao leitor, se referem, ao mesmo tempo , a uma outra série de objetos e processos” (Wolfgang Kayser, em Análise e interpretação de obra literária). Esse soneto, além de enfatizar a temática sexual, nos remete a algumas outras características do poeta, como a obsessão pela cor branca e por tudo aquilo que sugere brancura..4.

Em relação ao poema “Antífona”, a proposição de estudo do texto é também bastante comprometida com a ideologia da democracia racial, observe:

Como foi dito, ”Antífona” é uma espécie de síntese da obra de Cruz e Sousa, principalmente das poesias que formam o livro
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Nicola, obra cit

Broquéis. Nele podemos perceber várias características do poeta. As questões que seguem têm a função de salientar essas características: 1. Transcreva passagens do texto que exemplifiquem a

fixação do poeta pelo branco. (. . . )5. Já no livro de Samira Youssef Campedelli6 a análise pode conduzir o aluno para uma reflexão mais crítica ao apontar para o caráter um tanto simplista da chamada obsessão de Cruz e Sousa, como podemos perceber pelas palavras da autora:

O poema Antífona insiste em imagens bastantes etéreas, a começar pela primeira estrofe onde o poeta parece obcecado pela cor branca. Muitos viram nesse pormenor um

contraponto à cor negra de Cruz e Sousa - daí a sua procura pelo oposto. Em todo caso, essa é uma interpretação muito simplista. O poema vai mais além. Percorre-o uma abstração que caracteriza marcadamente a escola simbolista: sugerir um estado inconsciente e não explicitar.

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Id. Ibid. Campedelli . op. cit .

É bastante significativo observar que as análises críticas da obra de Cruz e Sousa, poeta consagrado nos livros de história da literatura brasileira, não têm negado que entre as principais dificuldades de vida deste poeta expecional, estavam incluídas as suas características étnicas, o que não era obstáculo para Castro Alves, o poeta dos escravos, pois a voz condoreira rebelava-se contra a elite liberal mas conhecia, usufria e desfrutava de suas benesses. Ambos fizeram da palavra arma e forma de expressão de suas apreensões da realidade, ou melhor dizendo, do contexto no qual estavam inseridos. Apesar de que, numa certa medida, poderíamos falar que um produzia suas imagens enquanto homem integrado e socialmente aceito e o outro construía e produzia suas imagens enquanto ser marginalizado. O poema “Meu filho” traduz a consciência do ser que, marginalizado, luta contras as armadilhas sociais que o levariam a negação da ascendência africana: as imagens construídas são um misto de dor e perplexidade frente aos desatinos de uma sociedade escravocrata e racista. Propomos uma

interpretação contextualizada dos poemas de Cruz e Souza, isto é, a partir da realidade do seu tempo, colocando em discussão sua própria postura estética. O poeta maior do simbolismo em nenhum momento negou sua ascentralidade. Assim sendo, reduzir sua “expecionalidade” a um único poema , neste caso “Antífona”, estabelece uma lógica redutora e simplista do homem obcecado

pela cor branca, como se fosse possível, através de único exemplo, termos a noção do conjunto de toda uma obra. Nossa posição é justamente oposta a essa, devemos proporcionar o acesso ao conjunto de uma obra literária sem induções tendenciosas marcadas pela cor do vocabulário. O poema “Meu filho” elege e constrói imagens da alegria do

nascimento de um filho e ao mesmo tempo as angústias frente ao futuro dele dentro de uma sociedade que, com certeza, lhe será antagônica. O poeta mergulha nas emoções do amor paternal e, como um meticuloso e consciente observador, descreve a imagem do filho adormecido, explodindo em genuínas imagens de dor e alegria. A expressão “Ah! quanto sentimento !” em sua repetição demonstra a profusão das sensações que dominam o pai amoroso, o chefe de família, o sujeito também marginalizado por sua origem étnica, que explicitamente desmentem qualquer afirmação de ser o escritor “um homem obcecado pela cor branca” ao contrário desta afirmação, acreditamos, como Tasso da Silveira, que o poema “Meu filho” é, na verdade,“...Significativo da força de ternura e do profundo enlevo com que amou CRUZ E SOUZA a esposa e filhos , desmentindo a insinuação, contida em críticas levianas, de que o poeta se consumiu no desejo da mulher branca impossível”7 A prática de ensino de literatura restrita a manuais didáticos conduz o leitor “iniciante”, caso não seja adotada uma postura crítica, a interpretações
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SILVEIRA, Tasso de. In. Cruz e Sousa..Poesia . p 56.

automatizadas por rotulações estanques, pois define o perfil estético do escritor, na maioria das vezes, a partir, de uma certa unanimidade, a um único e grande exemplo de sua obra, como é caso do poema “Antífona”de Cruz e Sousa, tido por uns como poema síntese do simbolismo brasileiro, e por outros como profissão de fé do movimento simbolista, sendo mesmo o próprio paradigma, não só do seu poeta Cruz e Sousa, como de toda uma apreensão de mundo da época. No livro Literatura; história & texto: 2, de Samira Campedelli, a autora apresenta o poema “Antífona”como paradigma do simbolismo: “(...) O poema Antífona, o primeiro de Broquéis, representa uma espécie de profissão de fé da poesia simbolista de Cruz e Sousa e do próprio Simbolismo que se inaugurava entra nós”8. Este tipo de comentário parece justificar o fato do livro didático, apesar deste apontar o caráter simplista quanto à dita obseção pela cor branca, não ter necessidade de ampliar seus exemplos ou mesmo variá-los9. Por que não apresentar aos, às vezes jovens, leitores outros

exemplos poisa perspectiva reducionista impede a leitura de uma obra profunda e rica em imagens e procedimentos poéticos tão sofisticados quanto de uma beleza ímpar. Ler “Meu filho” com olhos africanizados é viajar no mar de sentimentos e emoções, de um homem em perfeita consonância com
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CAMPEDELI. op. cit. Entre os quatro títulos por nós selecionados, apenas um não cita o referido poema

seu tempo. Sem perder de vista sua humanidade que a todo momento lhe foi negada, Cruz e Sousa explicita de forma particular sua dor e angústia em imagens de um tom forte , marcadas pela totalidade, sem restrições, do seu paternal amor. Destacamos do poema “Meu filho” algumas estrofes a fim de que estas, apesar de nossa arbitrariedade, ilustrem nossa leitura:

Ah! quanto sentimento! ah! quanto sentimento! Sob a guarda piedosa e muda das Esferas Dorme, calmo, embalado pela voz do vento, Frágil e pequenino e tenro como as heras.

Ao mesmo tempo suave e ao mesmo tempo estranho O aspecto do meu filho assim meigo dormindo... Vem dele tal frescura e tal sonho tamanho Que eu nem mesmo já sei tudo que vou sentindo.

Minh’alma fica presa e se debate ansiosa, Em vão soluça e clama, eternamente presa No segredo fatal dessa flor caprichosa, Do meu filho, a dormir, na paz da Natureza.

Minh’alma se debate e vai gemendo aflita No fundo turbilhão de grandes ânsias mudas: Que esse tão pobre ser, de ternura infinita, Mais tarde irá tragar os venenos de Judas!

Dar-lhe eu beijos, apenas, dar-lhe, apenas, beijos, Carinhos dar-lhe sempre, efêmeros, aéreos, O que vale tudo isso para outros desejos, O que vale tudo isso para outros mistérios?!

De sua doce mãe que em prantos o abençoa Com o mais profundo amor, arcangelicamente, De sua doce mãe, tão límpida, tão boa, O que vale esse amor, todo esse amor veemente?!

O longo sacrifício externo que ela faça, As vigílias sem nome, as orações sem termo, Quando as garras cruéis e horríveis de Desgraça De sadio que ele é, fazem-no fraco e enfermo?!

Tudo isso, ah! Tudo isso, ah! quanto vale tudo isso Se outras preocupações mais fundas me laceram, Se a graça de seu riso e a graça do teu viço São as flores mortais que meu tormentos geram?! (. . .) Nesse ambiente de amor onde dormes teu sono Não sentes nem sequer o mais ligeiro espectro... Mas, ah! eu vejo bem, sinistra, sobre o trono, A Dor, a eterna Dor, agitando o seu cetro!10

No caso que nos interessa analisar, como vimos, é possível descrever o agenciamento discursivo de relações de poder, disfarçadas sob as aparências de apresentações isentas em capítulos da literatura brasileira, em livros didáticos de 20 grau. Modos canônicos de controle e poder se reproduzem no espaço da escola e trabalham, através dos discursos de livros didáticos, gerando separações ideológicas que servem ao processo de dominação em suas práticas de identificação de subalternos e das diferentes formas de sua segregação e exclusão. Muitas vezes essas práticas se referem a modos de comunicação poucos evidentes, não explicitados pelos sujeitos que os
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CRUZ E SOUSA. op. cit.

praticam e que, nessa medida, devem ser explicitados através da análise dos discursos em que ocorrem de forma “encoberta” ou “implícita”. O caso de Cruz e Sousa aparece como nítida inversão do modo canônico do discurso poético associado às elites do poder, no âmbito da sociedade da época. Um estudo como o de A. L. Machado Neto, em Estrutura social da República das letras, mostra que a maioria de nossos poetas e escritores no século XIX são provenientes dos estratos hierárquicos considerados superiores da sociedade brasileira.11 O exemplo de Cruz e Sousa rompe a univocidade das práticas poéticas legitimadas pela tradição senhorial e por com ela romper, invertendo-a, parece requerer uma reação reparadora corretiva, ou, no mínimo , esclarecedora dessa “exepcionalidade”. considerado excêntrico Nota-se que o simbolismo brasileiro já foi pelos críticos e historiadores da literatura

contemporânea (por parte dos críticos que reproduzem os valores consagrados pela tradição dominante) e que, nele, muito posteriormente a figura de Cruz e Sousa veio a merecer consideração “especial”. A idéia recorrente na crítica e nos manuais didáticos de que a poesia de Cruz e Sousa, através de itens léxicos da “alvura”, revelaria uma atração por traços étnicos e/ou marcas culturais dos homens brancos, aparece, nitidamente, como uma correção da “inversão”, para muitos inadmissível ou
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Observa-se que Cruz e Sousa não consta da lista de escritores e poeta considerados na obra de Machado Neto.

inaceitável, representada pela presença de um excelente poeta negro como símbolo de sua época. A apresentação do poeta como “atraído” pelos semas de alvura, como um homem sem identidade, necessitando, portando, para preservar sua existência, negar-se é um motivo constante nos diferentes autores de obras didáticas de literatura. É, entretanto, na confrontação com um outro poeta distinto esteticamente (Castro Alves) que podemos observar que, por mais que seja retirada dos descendentes africanos sua humanidade ao transformá-los em coisa ou em animais, estes não se deixam silenciar e gritam conscientes de suas dores sem perderem a essencialidade humana. Ao confrotarmos os

poemas “Litania dos pobres” de Cruz e Sousa e “Navio negreiro” de Castro Alves, podemos observar que os dois poemas são construídos a partir de um mesmo fato, a dor dos pobres, daqueles marginalizados pelo sistema social e que vivem em condições de total abandono. Em “Litania do pobres” o canto de dor do povo traduz-se em um ritmo marcado por imagens de pintor plenamente envolvido capaz, porém, do distanciamento necessário à criação de imagens de tamanho vigor poético, por demonstrarem a clara intenção de traduzir em palavras poéticas a indignação frente ao processo de desumanização, do homem. Esta é, ao nosso ver, a diferença mais explícita entre “Litania dos pobres” e “Navio Negreiro”, pois no discurso poético de

Castro Alves o tom declamatório necessita de imagens grandiloqüentes, apelações explícitas aos ouvidos enebriados dos liberais da época. Assim, fazse necessário ler os poemas lado a lado, para podemos perceber que em ambos “a dor dos desprotegidos” é matéria poética, onde a perspectiva apelativa do fato poetizado é o mais importante e, por isso, as metáforas adquirem uma forma quase corpórea como se desta maneira fosse possível não só comover como convencer aos leitores das barbaridades. Em Cruz e Sousa não temos tom “condoreiro” mas, em contraposição, temos a dor manifesta de forma bem mais profunda por estar colocada no espaço do “não-dito”, o questionamento de suas dores, no sentido de buscar nos sujeitos o domínio de suas existências.

Ó pobres! o vosso bando É tremendo, é formidando!” (...) Parece que em vós há sonho E o vosso bando é risonho. (...) Que por entre os estertores

Sois uns belos sonhadores.12

Em oposição ao homem que mesmo vivendo em condições infames, é capaz de sonhar, temos em Castro Alves o tom declamatório marcado por imagens das atrocidades praticadas contra os africanos escravizados, num processo evidente de animalização de sua existência. O escravo oprimido assume a função de objeto poético a serviço dos ideais liberais da época, e não há, de forma evidente, um mergulho profundo, há, ao invés, uma comoção explícita, bem ao gosto da estética da época (conforme o paradigma de Victor Hugo em sua poesia de temas sociais ou conforme os moldes da evasão poética na qual os jovens entregavam-se aos amores e dores insolúveis). Com o intuito de comentar as representações da poesia social de Castro Alves em que o poeta se apresenta como o vate dos escravos, como o condor que vê do alto e à longa distância a dor dos outros, transcreveremos parte da 4ª seção do poema “O navio negreiro”:

Era um sonho dantesco ... O tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho, Em sangue a se banhar. Tinir de ferros ... estalar do açoite ...
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CRUZ E SOUSA. Litania do pobres, in. Op. cit. p. 60, 62-63.

Legiões de homens negros como a noite Horrendos a dançar ...

Negras mulheres suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães. Outras, moças ... mas nuas, espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas Em ânsia e mágoa vãs

( ...)

Presa nos elos de uma só cadeia A multidão faminta cambaleia E chora e dança ali!... Um de raiva delira, outro enlouquece ... Outro, que de martírios embrutece, Cantando geme e ri

(...)

E ri-se a orquestra irônica, estridente ... E da ronda fanfástica a serpente Faz doudas espirais! ... Qual num sonho dantesco as sombras voam ... Gritos, ais, maldições, preces ressoam E ri-se Satanás! ... 13

Não estamos negando a importância da poética de Castro Alves, porém gostaríamos de questionar o tratamento didático que tradicionalmente vendo sendo dado a sua obra em contraposição a de Cruz e Sousa. Como vimos, em ambos há preocupação de refletir poéticamente a “dor dos pobres”. De forma bastante distinta, em um existe o distaciamento social claro e evidente, e no outro o distanciamento poético a não permitir que a emoção turve a criação ( Cruz e Sousa). A prática de ensino de literatura deve ser uma possibilidade real de ler a sociedade sem rotulações apriorísticas, aprisionadoras do texto, pois como disse Silviano Santiago A cor do vocabulário importa para o folclorista, o antropólogo e o poeta branco. São estes que visam a preservar, através de
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CASTRO, ALVES Navio Negreiro In. TUFANO, Douglas. Estudos de literatura. p. 110.

um discurso condescensente e piedoso, científico e reparador , os crimes e injustiças cometidas pelos próprios brancos contra os negros, e acrescentemos: contra os índios. São eles que insistem em guardar as relíquias da destruição, num desejo de preservação póstuma por parte da cultura branca dominante. (...) A cor da pele é marca indelével que não se apaga com o bons sentimentos humanitários ou patrióticos, nem com a política paternalista dos governantes ou populista de

oposição.14.

Quebranto às vezes sou o policial que me suspeito me peço documentos e mesmo de posse deles me prendo e me dou porrada

às vezes sou o zelador não me deixando entrar em mim mesmo
14

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa., p.122-123.

a não ser pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito o corpo de jurados a punição que vem com o veredito ( . . .)

às vezes as migalhas que me lancei de supetão no espanto depois um imperador deposto a república de conchavos no coração e em seguida uma constituição que me promulgo instante a cada

(. . . )

fecho-me o cerco sendo o gesto que me nego

a pinga que me bebo e me embebedo o dedo que me aponto e denuncio o ponto em que me entrego.

às vezes ! . . .15

A realização poética africanizada é manifestação de um estado de consciência em sintonia com seu tempo presente, a refletir de forma crítica a inserção da perspectiva africana na cultura brasileira. O poeta posiciona-se, nem à margem, nem ao centro: ele busca inserir seu perfil sócio-político e cultural sem rotulações, sem denominações tendenciosas. A palavra poética africanizada, neste aspecto não difere daquela tratada pelos cânones acadêmicos, pois, também revestida de plurissignifição, almeja uma realização literária capaz de gestar em seus leitores uma re-interpretação dos rótulos que estigmatizaram os africanos escravizados no Brasil. Este fazer literário tem por objetivo romper com o silêncio, com a ausência, isto é, com a invisibilização do homem negro e de sua cultura: há aqui, de forma explícita, a inserção deste sujeito cultural, repudiando qualquer tratamento crítico em que sejam qualificados como excepcionais, ou de folclóricos. A palavra revisitada
15

CUTI. Cadernos Negros 5 ,p. 17-18

na poética africanizada despe-se dos rótulos racistas e depreciadores dos seus sujeitos culturais. Assim, trazemos para a vida social, o fato metaforizado, como muito bem realiza Miriam Alves em seu poema “EXUS”. Exus soltos nas matas dos sentimentos

arreliam medos escavam toco seco

procuram verdades escondidas nas encruzilhadas sem despachos16

Nas palavras de Esmeralda Ribeiro, encontramos a história que, apesar de “oficial”, necessita ser lida e escrita por aquele a quem o fato julgou ter beneficiado

FATO Aboliram
16

Escravidão

ALVES, Miriam. “Exus”. In: Cadernos Negros, 9, p. 42.

A não condição17

Portanto a realização poética africanizada traz à tona, as imagens de um passado ainda vivo na memória de muitos, que sabem muito bem que o fogo com o qual Rui Barbosa queimou registros de escravos, não destruiu as cinzas ,e delas não só renascem os atos, como se fortalecem transformando -se em fatos que por sua vez geram a existência de uma literatura africanizada, que não é espetáculo , ou apelo a tolerância dos senhores do presente. A poética africanizada sabe do seu compromisso com os oprimidos, como também sabe que armas e palavras podem se tornar mais do que aliadas, pois são verdadeiras cúmplices na construção de um processo social que visa a transformação radical, um caminho para eliminação da prática do racismo, em nossa sociedade, um caminho sem as armadilhas e enganos algumas vezes incorporados aos procedimentos didáticos no ensino de literatura brasileira. É necessário levar para sala da escola, o que muitas famílias têm levado para as suas salas de visita, isto é, a literatura africanizada pois ela não pede licença para entrar na sala dos seus, e na casa dos outros há que se ter cuidado para não confundir os aplausos como aceitação ou mesmo aprovação, pois, se os senhores não sabem, capoeira nunca foi dança é luta e tática de ataque ( assim
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RIBEIRO,Esmeralda. “FATO”. In. Cadernos Negros, 11, p.30.

também acreditamos, poderão valer como ataque às matrizes racistas etnocêntricas dos textos de nossa literatura numa perspectiva de africanidade à brasileira.).

DANÇANDO NEGRO Quando eu danço atabaques excitados, o meu corpo se esvaindo em desejos de espaço, a minha pele negra dominando o cosmo, envolvendo o infinito, o som criando outros êxtases... Não sou festa para o teu olhos de branco diante de um show! Quando eu danço há infusão dos elementos, sou razão. O meu corpo não é objeto, sou revolução.18
18

ÉLE SEMOG. ’Dançando Negor. In Cadernos Negros, 19, p. 54.

No exame de textos poéticos, de obras de crítica, de historiografia literária e de livros didáticos de ensino de literatura brasileira, verificamos a presença do comprometimento ideológico do discurso com o lugar a partir do qual é enunciado. A contextualização feita dos textos examinados apontou diferentes matrizes presentes tanto na produção literária quanto no âmbito de seus estudos, confirmando o enorme peso que até hoje exerce no Brasil, na avaliação da escrita poética, uma tradição pautada pela ótica etnocêntrica. A leitura criteriosa de textos de crítica literária acadêmica e de obras para uso didático no ensino de literatura brasileira levou-nos à identificação de que a presença de discursos racistas se verifica através de práticas que vão da exclusão e da desvalorização explícita à “folclorização” e a variados procedimentos de “embranquecimento”. Neste sentido, concluímos que a exclusão de poetas como Luís Gama de obras de história da literatura brasileira, isto é de obras que operam como registro da produção literária canonizada, é um procedimento de invisibilização semelhante ao exercido pela crítica acadêmica com relação a autores de ascendência africana com larga produção poética. É conclusão interessante verificar que dentre as inúmeras obras de crítica literária procedente da produção de professores universitários apenas um restrito número consagra estudos a poetas afrodescendentes,

estando entre estes o ensaio de Silviano Santiago sobre Adão Ventura citado neste trabalho. Dentre as inscrições de discursos racistas que atuam como instâncias de exclusão literária há ainda que destacar a desvalorização de produções de poetas afrodescendentes, qualificadas pejorativamente como literatura marginal, assim como também os tratamentos críticos que colocam em relevo a literatura africanizada considerando-a como produto exótico. Uma outra estratégia discursiva foi por nós observada em livros didáticos, relacionada à invisibilização das marcas da etnia africana na produção de poetas canonizados, como é o caso de Cruz e Sousa que, de modo recorrente, é apresentado como obsecado com valores “brancos” a partir de uma leitura simplificadora do léxico cromático presente em alguns de seus poemas como “Antífona”. A observação de todo o material examinado por nós permite concluir que o apagamento de diferenças e a criação de imagens de uma literatura nacional em que não é possível reconhecer a participação das diferentes etnias que integram a formação da cultura brasileira é um grave problema a que reagem em seus textos os autores que integram sua produção com signos de africanidade e que com ela marcam uma identidade própria, determinada pela ótica específica de homem negro em uma sociedade racista. Assim, a polarização que envolve a exclusão e a inclusão da africanidade no discurso

literário foi um veio que nos permitiu identificar por um lado modos dominantes no campo da literatura canonizada e, por outro lado, perspectivas para a reversão crítica dos limites discriminatórios no domínio da produção e dos estudos literários. Neste campo relacionado à poética africanizada nosso estudo tomou como referência central a produção poética publicada em Cadernos Negros, e nela verificamos a memória viva de um passado atuando como elemento essencial num processo de transformação radical e tática estrutural no sentido de eliminar da literatura brasileira, em particular, e de nossa cultura, em geral, as práticas do racismo e da discriminação racial.

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