Universidade de St.Kliment Ohridski Filologia Portuguesa by kellena88

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									      Universidade de St.Kliment Ohridski
           Filologia Portuguesa




           Identidades em trânsito
“Vozes Anoitecidas”; “Cada homem é uma raça”
                de Mia Couto




                                  Ani Antonova,
                                  Tel: 0898538640
                                  Correio electrónico:
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Identidades em trânsito


Quando comecei a pensar sobre este tópico surgiram tantas perguntas sobre a
identidade: se é necessário existir, para quem é necessário, a identidade é externa
ou interna à pessoa ou ambas, se as crianças se identificam, se o verbo identificar-se
é o melhor para expressar um processo, qual é o papel da política no momento do
diálogo intercultural e outras....agora em 5 páginas vou tentar “pescar” palavras e
conceitos que “escapam escorregados entre as mãos do pensamento”.
Interessava-me a identidade como aquela necessidade do homem, da pessoa de
pertencer, de encaixar-se em, envolver-se em algum grupo por pequeno que seja.
A identidade tem o seu início na família, depois na escola (dizer somos duma escola,
duma turma, dum bairro, depois da cidade de Yavorov ou de Boiko Borissov), duma
nação etc., A identidade está relacionada com o contexto social (flexível, variável,
externo) e como tal é também “multicamada”, alternada, corrente, inconstante,
não fixa e mais um processo do que situação imposta.
Cada um escolhe sozinho que monte vai “defender” que etiqueta vai pôr a se
mesmo. “Eu sou assim” é escolha própria de uma posição mas muitas vezes as
posições são alturas temporárias, amanhã teria que defender a posição totalmente
contrária, então ou se procura uma justificação, uma desculpa, ou passa-se por
uma “crise de personalidade” ou, ainda, procura-se segurança detrás da posição
velha, que já viveu o seu tempo.
 Quando era pequena perguntei a minha mãe: ”Mamo, Snejana e vegetariana.
Nós somos vegetarianos também? O que significa isto?”
Ela respondeu: “Sim, quase somos” então a minha irmã, que tinha três anos,
interrompeu: “Somos vegetarianos?! Eu pensava que somos búlgaros”.
Hoje algumas das perguntas possíveis poderão ser; sou uma vegetariana búlgara ou
uma búlgara vegetariana? “Sou um branco moçambicano ou um moçambicano
branco? Sou um indiano africano ou um africano indiano? Sou um muçulmano
moçambicano ou vice-versa? Parece a mesma coisa mas nem sempre o é.” Temos
muitas identidades e podemos usar como primária alguma delas para o melhor
diálogo e encontrar a ponte com O OUTRO.” Podemos ser diversas coisas. O erro é
quando queremos ser apenas uma. O erro é quando queremos negar que somos
diversas coisas ao mesmo tempo.”




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Quando lia os livros de Mia Couto lembrei-me da história eslávo-búlgara de Paisii
Hilendarski, uma mensagem a toda a nação para não se vender por pequenas
moedas ou aparências falsas, de não se envergonhar de procurar o que é, para
provocar uma revolução silenciosa/suave/, dentro das almas para criar identidades,
não só na base dos arquivos da colonização que são reinventados pela “Zentropa”,
ou copiar modelos de outrora, mas ao fazer uma casa cómoda e viva com os
instrumentos possíveis.
Nos seus contos Mia Couto, como um mestre cozinheiro, mistura o português com as
línguas africanas, o conto da oralidade moçambicana com o conto literário,
reinventa-se a si mesmo ao tecer um tecido africano com panos e linhas europeias
e afirma que nesta altura, esses valores iniciais de nacionalidade já pouco importam
porque entre o colonizado e o colonizador nascem novos conceitos estéticos, a
partir de uma construção transcultural, uma identidade complexa e mestiça. E isto e
indispensável.
O projeito de Mia Couto, de transformar o modo de pensar através da literatura, é
uma tarefa bastante difícil, a sua obra deve saltar o preconceito que um espaço da
oralidade não pode ser parte do puzzle escrito.
No que diz respeito à música lá as coisas são diferentes.
Quando os dois músicos de Mali, Amadou & Miriam editaram o seu primeiro disco
com música de Mali utilizaram a língua francesa para fazer um espaço criativo da
identidade mestiça, do conceito de fronteira como lugar de dar e receber, eles
venderam 500,000 cópias e mostraram que a África merece também a sua
“modernidade”. E, como disse a minha avó, visando Balashevitch, “uma musica
pode transformar-te em metade servia.”
Em “Vozes anoitecidas” ou em “Cada homem é uma raça” o maravilhoso, próprio
da mitologia africana, entra no absurdo do quotidiano e cria belas metáforas como:
“Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque
dentro de mim não sou sozinho. Sou muitos.” ou “Minha raça sou eu mesmo. A
pessoa é uma única humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor
polícia”. Os personagens dos seus contos são como uma velha bota militar que
parece escapar do seu tamanho, quase sem fronteira de si e sem par. E enquanto
se descobrem se anoitecem.
Toda a linguagem simbólica retorna ao conceito de mestiçagem (a água, a
relação homem-animal, os pássaros bem presentes em muitos contos). O mar



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apresenta-se como um lugar híbrido, oferecendo paz e riqueza, mas igualmente a
violência e a morte. Talvez podem ser encontrados pontes, não formais, entre os
contos de Mia Couto e os de Kafka, um homem pequeno está numa situação
absurdista imposta pelo tempolugar e tem que encontrar as suas identidades nesta
“rapsódia em branco”. “A pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguem
segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutaveis homens.”
      Um texto muito bom, relacionado com o tópico da identidade em trânsito é
do teórico cultural, nascido na Jamaica, Stuart Hall “Cultural Identity and Diaspora”.
Ele representa a situação presente da diáspora Africana, povos espalhados pelos
processos da colonização e a escravatura na América e na Europa, e comprova
que as políticas, os meios de comunicação e a história semeam perconceitos e
sedimentam racismo, medo, vergonha, incerteza na gente, o sentimento de uma
identidade perdida, e o que é pior, violam a pessoa, fazendo-a ver-se e
experienciar-se como Outro. (“They had the power to make us see and experience
ourselves as 'Other'. Every regime of representation is a regime of power formed”). A
canção “Turning point” de Nina Simone é um bom exemplo de como este sentido
de “alteridade” não dialogável entra na cabeça duma criança.
   A identidade, segundo ele, é uma constante transformação e não estatuto ou
situação. Não é alguma coisa que já existe, passando pelo tempo, lugar, história e
cultura. As identidades culturais provêm de algo, têem história e como cada coisa
histórica, sofrem constante mudança. Elas são não-fixas numa essência passada,
elas são sujeito dum jogo constante entre a história, a cultura e o poder.
    Outra tese defende o cientista político Samuel P. Huntington na sua obra que
provocou muitos debates no mundo “Clash of civilizations”. Huntington define
civilização como “o mais alto agrupamento cultural de pessoas e o mais amplo
nível de identidade cultural que as pessoas têm além daquilo que distingue os seres
humanos das demais espécies”. Usando tal conceito, distingue como principais: a
sínica ou confuciana, japonesa, hindu, islâmica, ortodoxa, ocidental, latino-
americana e africana (que Huntington hesita em considerar uma civilização própria
ou dividi-la em islâmica – ao norte – e uma cultura européia fragmentada). Ele faz
tal “simplificação necessária” da realidade social ignorando a dinâmica e a
pluralidade internas de cada civilização. Ele propõe que, no mundo pós-Guerra Fria,
“as distinções mais importantes entre os povos não são ideológicas, políticas ou
econômicas. Eles são culturais” e a essa tradição cultural devem-se os conflitos



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étnico-religiosos. Dessa maneira divide finamente o mundo em duas forças o bom e
o mau, o cristianismo e o islãm.
É fácil estar num gabinete na universidade e declarar e generalizar que tods os
muçulmanos são radicais e que têm a mesma cultura os muçulmanos senegaleses,
indonésios, árabes e sul-asiáticos. É fácil criar hierarquias de identidades,
menosprezando alguns, de que não gosta, criar identidades-refúgio, identidades
que nascem da negação da identidade dos outros com a sua máscara branca da
democracia.
Para ser mais fácil de explicar as situações sociais e poíticas, ele faz uma esquema
simples do um mundo que não é nada de simples. As culturas e as identidades não
são puras e em particularidade depois da escravatura e a colonização. E ao opor
Stuart Hall disse: “ A experiencia diaspórica não e definida pela essência ou pureza,
mas pela necessária heterogeneidade e diversidade, o conceito de “identidade”
vive com e mediante, mas não apesar da diversidade, por meio do hibridismo”.
Tinha um amigo que era orfão e cigano que estudava na minha classe. Um dia uma
família americana passou pela cidade e adoptou Vulcho, assim se chamava. Duas
semanas depois vimos na televisão uma reportagem com crianças adoptadas.
Vulcho era uma deles. Ele não queria falar búlgaro nem confessava que era
búlgaro, dizia sou americano, sou americano, “My name is Johnatan”; como é que
não vai mudar o seu nome quando ele significa “lobo”e ele sofria de “boca de
lobo”?
A gente prefere identificar-se com o “bom”, não acho que Vulcho tinha visto
alguma coisa “boa” na sua vida cá. Um factor importante para a identificacao é o
reconhecimento por parte dos demais, da gente ao redor, por conseguinte a
identidade é interior mas tambem exterior de certa forma.
Há três anos fizeram uma campanha nas escolas para as crianças se identificarem
com a nacionalidade ou “ethnos”. Uma professora não compreendeu a tarefa e
identificou todos no seguinte sistema “ele tem uma pele mais preta deve ser cigano,
ela parece turca e o seu nome, hmm, sim turca, etc”. A identidade pode ser
externa mas nem essa professora, nem Samuel Huntington são os que decidem se
eu sou ortodoxa ou não segundo os seus esuqemas de facilidade.
A semana passada li um jornal onde contavam a história de uma família dos somali-
bantu (gente que tinha sido extraída de Somalia na altura da escravatura) que,
graças ao projeito das Nações Unidas para os Refugiados, agora mora nos Estados



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Unidos. O pai da família tinha que mudar muito para integrar-se e viver tranquilo
porque na tradição dele o pai tem que saber mais mas nessa nova situação o seu
filho de três anos aprendia muito e facilmente   ensinava o pai. Depois de tres anos
trabalhando como responsável para a integração das novas famílias bantus, os
colegas deles decidiram votar para um novo empregado, ele não podia
compreender porque é que querem votar. Tinha que mudar muito o seu modo de
pensar: agora ele identifica-se como um afro-americano. A sua filha casou com um
americano e assim fazem-se as mestiçagens, assim vive-se numa fronteira “não-
fronteira”. Acho que a gente simples pode viver com essa ideia e enquanto os
políticos e os “medias”, e gente como Samuel Huntington, usando a palavra
democracia fazem uma grande ferida à democracia. Mas como disse Mia Couto
nos “Pensatempos”:
“O certo é que a afirmação do que somos está baseada em inúmeros equívocos”
E como a evolução na natureza estimula-se pela diversidade e não pela pureza, a
fecundidade de uma língua não é a uniformidade, mas antes a plurifomidade (ex.
Sonolentidão (sonolento+lentidão), Ladrepiar (ladrar+e+piar)-Cada homem é uma
raça). Por isso podemos inventar um novo verbo para criar e reinventar identidade
carregado da ideia dum processo de dar e receber: identidar,identidascer




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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Cada homem é uma raça/ estórias..................................... Mia Couto
Vozes Anoitecidas……………………………………………….. Mia Couto
O conto moçambicano..........................................................Maria Fernanda Afonso
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Clash of civilizations..................................................................Samuel Huntington
Identity and diaspora...............................................................Stuart Hall




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