O Supply Chain Management é um Reflexo de um by elfphabet9

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									n   Documentos Técnico-Científicos



 O Supply Chain Management é um Reflexo
    de um Novo Padrão de Organização
 Industrial ou Apenas um Novo Método de
       Redução do Ciclo do Capital?

Luís Henrique Romani de Campos
Mestrando em Economia (UFPB), especialista em
                                                        Resumo:
Consultoria Econômico Financeira de Empresas
(UEM)                                                         Estuda uma moderna técnica de gestão co-
                                                        nhecida como “Supply Chain Management”
Maria de Fátima Garcia                                  (SCM). Tal técnica consiste em que as empresas
Doutora em Economia (PIMES/UFPE), mestre em             componentes de uma cadeia produtiva unam-se
Economia (IEPE/UFRGS)                                   em alianças estratégicas na busca de redução de
                                                        custos logísticos e de níveis de estoques. A análi-
                                                        se desta abrange dois enfoques teóricos: a) teoria
                                                        da regulação; b) estrutura-conduta-desempenho,
                                                        com as contribuições neoschumpterianas. Busca
                                                        responder a dois questionamentos sobre os impac-
                                                        tos da adoção do SCM na organização industrial: a
                                                        técnica em questão tornar-se-á padrão entre as
                                                        empresas? Os padrões de concorrência podem
                                                        ser afetados pela introdução desta técnica? Con-
                                                        clui que ambas as teorias prescindem de uma ex-
                                                        plicação completa do “Supply Chain Manage-
                                                        ment”.

                                                        Palavras-Chave:
                                                            Cadeia Produtiva; Organização Industrial;
                                                        Teoria   da   Regulação;     Estrutura-conduta-
                                                        desempenho; Economia Política.




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1 - INTRODUÇÃO                                                      Estas duas abordagens teóricas alternativas
                                                               surgem a partir da segunda metade do século XX,
      O presente paper pretende analisar uma téc-              que foi marcado pelo surgimento de grandes cor-
nica gerencial moderna, chamada de Supply Cha-                 porações que tomaram a forma de multinacionais
in Management-SCM. Esta técnica tem assumido                   até a década de 70. A partir desta década, a inter-
importância crescente, principalmente, com sua                 nacionalização destas corporações se intensificou
adoção por grandes companhias de nível mundial.                a tal ponto que estas já são referidas como trans-
Por tratar-se de uma técnica recente, poucos au-               nacionais. GORENDER (1997) destaca esta de-
tores preocuparam-se em aprofundar no seu estu-                nominação de transnacionais por alguns autores,
do e principalmente estudar quais os impactos que              mas discorda de tal qualificação, pois as empresas
a mesma pode trazer para a economia ou setores                 para serem tidas como tal não poderiam ter suas
da economia. Ela é tratada como uma das ferra-                 estratégias ligadas a nenhum Estado Nacional,
mentas de administração que as empresas devem                  coisa que não ocorre.
utilizar para se manterem competitivas em ambi-
entes com concorrência cada vez mais acirrada,                      Desta forma, a grande corporação típica des-
em decorrência da globalização. A bibliografia                 te século é aquela multinacional, que diversificava
versando sobre tal técnica é notadamente voltada               agregando atividades antes ou depois na cadeia de
aos procedimentos para sua implementação e às                  suprimentos. Isto é um comportamento, normal-
vantagens que as empresas que a utilizam incor-                mente, chamado de fordista. Ou seja, aliava pro-
rem.                                                           dução em larga escala, empresas altamente verti-
                                                               calizadas e processo de trabalho em linha de mon-
     Em recente artigo de RIBEIRO & CAMPOS                     tagem. Tal tipo de comportamento da firma é des-
(1999), o enfoque é bem diferente do restante da               crito com grande riqueza de detalhes pela escola
bibliografia sobre este assunto. Adota-se a visão              regulacionista, que está preocupada também com
marxista, que leva à conclusão de que esta técnica             a organização social que permite o funcionamento
é de alto interesse do capital, por propiciar a redu-          desta forma de organização industrial.
ção do ciclo do mesmo, permitindo elevarem-se as
taxas de lucro. Neste artigo são levantados alguns                  Com a crise enfrentada pelo capitalismo na
questionamentos importantes, quais sejam: a) O                 década de 70, a escola regulacionista propõe que
SCM tornar-se-á padrão entre as empresas?; b)                  estaria surgindo um novo sistema de acumulação,
“A adoção desta técnica irá formar grupos de                   baseado em uma nova dinâmica produtiva. E é
concorrência ao contrário da concorrência entre                exatamente nesta década que o Japão apresenta
empresas?” (RIBEIRO & CAMPOS, 1999).                           grandes índices de crescimento econômico. Muito
                                                               deste êxito tem sido creditado a uma nova maneira
     Ao refletirmos sobre estas duas perguntas                 de organizar a produção. Trata-se do ohnoísmo,
veremos que elas nos remetem a duas categorias                 que empregava técnicas até então inéditas, como
de teorias distintas. São elas: “padrão de concor-             o just-in-time, os círculos de qualidade total, a
rência” e “sistema de acumulação”. A noção de                  melhoria contínua, o sistema kan-bam, etc. Den-
padrão de concorrência diz respeito às estruturas              tro destas novas técnicas surge a preocupação de
de mercado, à maneira segundo a qual as empre-                 que a empresa deva cuidar apenas do seu core
sas se organizam para competir. Esta é uma visão               business, deixando de lado toda e qualquer ativi-
típica do enfoque estrutura-conduta-desempenho-                dade que estivesse fora do seu foco.
E-C-D. Já a noção de sistema de acumulação é
bem mais genérica e leva em conta não só a rela-                   O processo de concorrência fez com que
ção entre-firmas, mas também as relações intra-                muito do que era praticado pelas empresas japo-
firmas e de firma com a sociedade, uma aborda-                 nesas fosse absorvido pelas demais empresas do
gem tipicamente regulacionista.                                mundo. Tem origem, então, as técnicas de reen-
                                                               genharia, terceirização, global sourcing, entre


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outras, que eram aplicadas pelas grandes corpora-          tos levantados. Por fim, na quarta parte são levan-
ções para mudar seus processos produtivos ao               tadas considerações finais sobre o assunto.
novo sistema. Mas tais técnicas não trouxeram
todos os resultados esperados. As grandes empre-
sas tornaram-se mais “enxutas”, venderam negó-
cios, passaram a adotar alianças estratégicas com
maior assiduidade. Mesmo assim, existiam ainda
dificuldades para a adoção de algumas técnicas
como just-in-time, pois muitas vezes o que ocorria
era apenas a transferência do estoque da firma
para seu fornecedor, eliminando as vantagens
econômicas do sistema.

     É dentro destas dificuldades de se ajustar a
produção, a partir de empresas com direções dis-
tintas, que surge o Supply Chain Management-
SCM. Esta técnica visa estabelecer alianças es-
tratégicas entre os componentes da cadeia de
suprimentos de maneira a racionalizar a produção.
São largamente utilizadas ferramentas de logística
e repensados alguns processos produtivos na bus-
ca de redução de estoques/custos, maior rapidez
no lançamento/modificação de produtos etc.

     A internacionalização das técnicas japonesas
levam alguns pesquisadores a proporem a existên-
cia de um novo modelo de acumulação. Este mo-
delo é chamado de ohnoísta, ou toyotista, ou ainda
sistema de acumulação flexível. Porém, tal afir-
mação está longe de um consenso, mesmo dentro
da corrente regulacionista. Ao tentarmos respon-
der às duas perguntas destacadas anteriormente,
busca-se dar uma pequena contribuição para esta
discussão teórica.

     O presente artigo terá, além desta introdução,
mais quatro partes. A primeira delas apresenta o
sistema de acumulação fordista, como visto pela
teoria regulacionista, com dois contrapontos bási-
cos: a) a abordagem E-C-D, com as contribuições
neoschumpeterianas recentes; b) as críticas à
teoria regulacionista. Na segunda parte, será apre-
sentado o sistema ohnoísta, também sobre a ótica
regulacionista e seus contrapontos. Já a terceira
parte, será apresentada a técnica de gestão em
estudo, relacionando-a ao modelo de acumulação
ohnoísta e tentando responder aos questionamen-



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2 - O SISTEMA DE ACUMULAÇÃO                                    com vistas ao aumento da sua rotação. Podemos,
    FORDISTA                                                   então, afirmar que a adoção da linha de montagem
                                                               só é possível após a disseminação do taylorismo.
     Constata-se dois possíveis significados para o
                                                                    A adoção da linha de montagem traz algumas
termo fordista: o primeiro, mais usado por autores
                                                               implicações importantes. Para os operários o tra-
de administração de empresas, diz respeito às ca-
                                                               balho torna-se muito mais específico, repetitivo e
racterísticas da maneira de organizar a produção
                                                               com maior intensidade, pois a velocidade da pro-
propostas por Henry Ford no início deste século.
                                                               dução é ditada pelo ritmo da esteira. Desta forma,
Já o segundo, de uso dos autores da teoria da re-
                                                               o trabalhador se desqualifica, pois aprende uma
gulação, extrapola a noção de organização do
                                                               minúscula parte do processo produtivo e suas
processo produtivo. A concepção regulacionista
                                                               habilidades necessárias são reduzidas. Como o
vê o fordismo como uma fase do modo de produ-
                                                               trabalho passa a ser executado em um processo
ção capitalista, com um regime de regulação bem-
                                                               contínuo, o mesmo é coletivizado (ARIENTI,
definido e que propiciou um longo período de
                                                               1997; MULS, 1998; MORAES NETO, 1998).
crescimento econômico.
                                                                    Outra implicação é que a mudança do layout
     O fordismo pode ser caracterizado por várias
                                                               da fábrica permite aos engenheiros que desenvol-
estruturas: a) o processo de produção; b) organi-
                                                               vam máquinas específicas para cada tarefa de
zação do trabalho; c) tipo de relação capital x
                                                               produção, desqualificando ainda mais o trabalho.
trabalho na fábrica; d) organização industrial das
                                                               Isto faz com que os engenheiros passem a deter o
empresas; e) regime macroeconômico de acumu-
                                                               monopólio da concepção e projeção, quer seja do
lação e f) formas de regulação econômica e social
                                                               processo produtivo, quer seja dos produtos. Tal
(ARIENTI, 1997). Para tratar destas várias estru-
                                                               monopólio é encarado por MULS (1998) como um
turas ARIENTI (1997) as agrupa em quatro prin-
                                                               dos limites do sistema fordista à valorização do
cipais enfoques. São eles: i) processo de produ-
                                                               capital.
ção; ii) regulação do trabalho; iii) regime de acu-
mulação e iv) modo de regulação.
                                                                    Para que se consiga intensidade na produção
                                                               em série é importante que os componentes sejam
     O processo de produção fordista foi revolu-
                                                               padronizados. Assim, o trabalhador do posto a
cionário por adotar a linha de montagem, onde
                                                               seguir apenas encaixa a próxima peça, sem se
uma esteira leva o produto em elaboração pelas
                                                               preocupar com ajustes. A padronização dos com-
várias fases do processo. Isto representou ganhos
                                                               ponentes, por sua vez, faz com que a produção
expressivos de produtividade, pois os trabalhado-
                                                               seja necessariamente em grandes volumes, para
res não precisavam deslocar-se para buscar maté-
                                                               gerar economias de escala, o que leva ao surgi-
rias-primas e/ou ferramentas pela fábrica, diminu-
                                                               mento de altas somas em inventários. Além da
indo assim o tempo de trabalho morto (COSTA,
                                                               necessidade da produção em grandes volumes, a
1995). Além dos ganhos com o deslocamento dos
                                                               padronização dos componentes traz a necessidade
trabalhadores, o trabalho pode ser subdividido
                                                               de um rígido controle sobre a cadeia produtiva.
ainda mais e as técnicas tayloristas de decomposi-
ção do trabalho e de determinação da melhor ma-
                                                                    “[...] a necessidade de padronização dos
neira de executá-lo podem ser aplicadas com mais
                                                               componentes implicou em um rígido controle
intensidade e facilidade.
                                                               sobre a cadeia de produção e dependendo da
                                                               estratégia da empresa, proporcionou a inte-
     Segundo MULS (1998), o taylorismo destrói
                                                               gração vertical da produção ou a dominação
os segredos do trabalhador de ofício da base téc-
                                                               econômica dos seus fornecedores, o que era
nica artesanal, permitindo assim expropriar o saber
                                                               uma estratégia de transferência de valor para
operário. É esta expropriação do saber operário
                                                               as empresas dominantes” (ARIENTI, 1997).
que permite ao capital ditar o ritmo do trabalho

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                                                           tes da produção em série. Neste ponto, deve-se
     Além da necessidade do domínio da cadeia              destacar que a velocidade da produção era depen-
produtiva, o sistema fordista também carece da             dente do trabalho vivo, mesmo que de forma mi-
presença de elevados estoques. Isto ocorre como            nimizada (MORAES NETO, 1998), o que leva a
maneira de evitar que problemas em uma máquina             outro limite à valorização do capital destacado por
ou em partes da produção provocassem a inter-              MULS (1998): a resistência física do trabalhador.
rupção da linha de montagem. Os estoques tam-
bém surgem em decorrência de descontinuidades                   O principal incentivo ao trabalhador veio por
técnicas. Desta forma, os estoques podem ser               meio de aumentos salariais, mas que na verdade
considerados como “colchões amortecedores” de              fazia parte da lógica de formar um grande merca-
ineficiência produtiva (MORAES NETO, 1998).                do consumidor. A maneira de garantir que os tra-
                                                           balhadores traduzissem este maior ganho em con-
     Ao analisar a base técnica eletromecânica,            sumo era, segundo proposto por Ford, controlar os
inerente ao processo de produção fordista, MULS            valores da família. Ou em outras palavras, moldar
(1998) destaca quatro limitações à valorização do          um novo tipo de costume. O tipo de controle sobre
capital. Uma delas já foi tratada anteriormente e          a família proposto por Ford não foi disseminado.
diz respeito ao monopólio do conhecimento por
parte dos engenheiros. A Segunda, pode-se consi-                Para a disseminação desta forma de regula-
derar como complementar a esta, ou seja, ao des-           ção do trabalho, baseada em crescente intensifi-
qualificar o trabalhador cria -se uma incapacidade         cação da produção com ganhos da classe operá-
do mesmo e até das gerências intermediárias, em            ria, o papel dos sindicatos é importantíssimo. O
desenvolver sistemas mais eficientes. O autor              fortalecimento da luta sindical propiciou conquistas
ainda destaca, que algumas partes do processo              como: i) redução da jornada de trabalho; ii) segu-
ainda não foram totalmente simplificadas e/ou              rança no emprego; iii) intensificação da previdên-
desenvolvidas máquinas específicas, o que torna o          cia social (ARIENTI, 1997). O autor destaca ain-
processo parcialmente dependente de trabalho               da a importância do consumismo a partir da se-
qualificado.                                               gunda guerra, que possibilitou o equilíbrio e cres-
                                                           cimento econômico, pois não houve nenhum pro-
     Todas estas características do processo de            blema de demanda.
produção fordista levam a uma rigidez do mesmo,
o que faz com que os produtos sejam padronizados                Como vimos, os regulacionistas utilizam a a-
e que haja a necessidade de consumo em massa               nálise dialética da forma e conteúdo, para explicar
por parte dos trabalhadores. Ford pregava que os           as crises. O sistema de acumulação, ditado pelas
trabalhadores ganhassem bem para poderem con-              relações econômicas, é o conteúdo e o sistema de
sumir em grandes quantidades, já na d   écada de           regulação, ditado pelas relações sociais, políticas e
1910. Mas suas sugestões neste campo não se                jurídicas, representam a forma. Como as relações
difundiram de imediato. Desta forma, alguns auto-          econômicas são muito dinâmicas, o sistema de
res regulacionistas, inclusive, vêem a crise de            acumulação tende a se desenvolver de maneira
1930, como o momento no qual o regime de acu-              mais rápida que o sistema de regulação, chegando
mulação já estava preparado para a produção em             a um ponto onde ocorre a crise, uma vez que o
massa, enquanto que o regime de regulação ainda            sistema de regulação não mais corresponderia ao
estava voltado para outra forma de consumo.                sistema de acumulação vigente.

     O segundo enfoque proposto por ARIENTI                    Tal visão da crise do sistema capitalista faz
(1997) é o da regulação do trabalho. O sistema             com que os regulacionistas neguem, de certa for-
fordista tinha métodos de incentivar e ao mesmo            ma, o próprio caráter cíclico do capital, ou seja, o
tempo reprimir o trabalhador, com o objetivo de            processo de crises sucessivas, com baixa intensi-
subordinar o mesmo às condições mais desgastan-            dade é encarado de forma diferente por eles.


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                                                               fortalecimento dos Estados nacionais; iii) expansão
     “Ao historicisar e particularizar o fenô-                 do crédito e iv) internacionalização do capital.
meno das crises, abre-se imediatamente um
espaço teórico para o imponderável e o acaso.                       A relação salarial monopolista é marcada por
Deste ponto em diante não é mais possível pen-                 duas principais contradições. A primeira diz res-
sar-se as crises como o mínimo de uma ondula-                  peito à adoção de técnicas gerenciais tayloris-
ção que se repete infinitamente, à maneira dos                 tas/fordistas, que intensificaram o controle sobre o
fenômenos físicos. Os automatismos econômi-                    trabalhador, de um lado, e a crescente organização
cos são questionados, os determinismos são                     sindical, pressionando por aumentos nas conquis-
relativizados. [...] Mas a dificuldade na carac-               tas e tentativas de diminuir o controle sobre o tra-
terização da noção de ciclicidade advém prin-                  balhador, de outro. A segunda contradição apre-
cipalmente, do conceito de crise utilizado. Na                 senta trabalhadores buscando crescentes aumen-
realidade, os regulacionistas admitem dois                     tos salariais com manutenção do pleno emprego
tipos de crise: uma claramente cíclica e outra                 de um lado e empregadores preocupados em man-
estrutural” (MALAGUTI, 1994).                                  ter elevadas taxas de lucro. Estas duas contradi-
                                                                                                        n
                                                               ções são equilibradas pela constante i termedia-
     Assim, pode-se concluir que as crises de bai-             ção do Estado.
xa intensidade não configuram uma crise nos ter-
mos correntes. Estas têm origem em fatores não-                     O fortalecimento dos Estados nacionais per-
endógenos ao sistema e são controladas por me-                 mitiu que os mesmos aumentassem a oferta de
canismos do sistema de regulação, quais são dis-               infra-estrutura de base, tais como: geração de
cutidos a seguir.                                              energia, construção de estradas e investimentos
                                                               em telecomunicações. Isto tem dupla importância
     O sistema de acumulação fordista é marcado,               para o sistema fordista. Pelo lado da oferta, por
portanto, pela produção em massa, com seu cor-                 propiciar o aumento da produção e, pelo lado do
respondente consumo em massa. Visto de outra                   consumo, por possibilitar o uso dos novos produtos
forma, pela conjunção do processo de produção                  (carros e eletrodomésticos, por exemplo). Os es-
com a regulação do trabalho.                                   tados nacionais foram importantes também por
                                                               adotarem políticas de gerenciamento da demanda,
     Deve-se destacar, ainda, a importância das                como vimos, fato chave para se evitarem crises
políticas econômicas de corte keynesiano e a                   conjunturais. Ainda ficou a cargo do Estado i -m
guerra fria para os sistema de acumulação fordista             plantar políticas de melhoria do bem-estar social,
(ARIENTI, 1997; GORENDER, 1997). Ambos                         tais como: a previdência e o seguro desemprego,
têm como característica os gastos governamen-                  importante para a regulação do trabalho.
tais, que provocam um aumento de demanda,
permitindo que as economias operassem em bons                      A expansão do crédito tem importância para
níveis de ocupação e se evitassem crises conjun-               o equilíbrio do sistema, por permitir a ampliação do
turais de demanda.                                             consumo, principalmente dos bens duráveis.

     Uma vez demonstrado o sistema de acumula-                      “Apesar do círculo virtuoso do fordismo
ção fordista, devemos descrever o modo de acu-                 se referir a economias nacionais relativamente
mulação que permite um longo período de cresci-                autônomas, as economias capitalistas desen-
mento econômico no pós-guerra. Um modo de                      volvidas estavam integradas na economia in-
regulação é a maneira na qual as estruturas eco-               ternacional. A internacionalização do proces-
nômicas e sociais se combinam de sorte a evitar                so produtivo fordista é resultado da vantagem
fatores desestabilizantes no sistema de acumula-               competitiva da economia americana e da vitó-
ção. Pode-se destacar quatro frentes de regula-                ria militar americana na Segunda Guerra
ção. São elas: i) relação salarial monopolista; ii)


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Mundial frente a uma Europa necessitando de                 em massa e consumo em massa dentro de uma
rápida reconstrução” (ARIENTI, 1997).                       economia nacional” (ARIENTI, 1997).

     O sistema de acumulação fordista entra em                   A adoção de políticas econômicas de corte
crise na década de 1970. Como foi demonstrado,              neoclássico a partir dos anos 1970, como forma de
para que a teoria da regulação entenda que esta             tentar sair da crise é apontada por alguns autores
fosse uma crise realmente cíclica do capital, é             regulacionistas como uma forma de destruir o
preciso que o regime de regulação não mais seja             regime de regulação vigente até então e pré-
condizente com o regime de acumulação. Tal fato             requisito para o surgimento de um novo regime de
é apontado como chave para caracterizar a crise             acumulação.
deste período.
                                                            2.1 - Teoria da Estrutura-Conduta-
     Segundo os regulacionistas, a crise de 1970 é                Desempenho
marcada pela queda na taxa de crescimento da
produtividade do trabalho e do capital — portanto,                A teoria regulacionista tem como caracterís-
afetando o sistema de acumulação. Porém, o re-              tica marcante englobar em sua análise uma ampla
gime de regulação mantinha a política de conceder           visão histórica da sociedade. O objetivo dos teóri-
aumentos salariais reais e crescentes gastos go-            cos de extrapolar o “economicismo marxista” é
vernamentais para manter o welfare state (ARI-              perseguido com uma boa dose de êxito. Porém,
ENTI, 1997). Logo, a crise de 1970 apresenta um             mesmo tendo uma visão tão ampla do processo
descompasso entre os regimes de acumulação e                econômico e social, certos aspectos importantes
de regulação.                                               da dinâmica capitalista não são percebidos. Para
                                                            poder demonstrar alguns destes aspectos iremos
     Devemos detalhar um pouco mais a crise dos             utilizar a teoria da E-C-D. Um dos autores desta
anos de 1970 que, ao contrário da dos anos de               corrente é GUIMARÃES (1982), que ao contrário
1930, não é uma crise de depressão, mas sim de              dos regulacionistas, não está preocupado com o
estagnação aliada ao processo inflacionário. Uma            funcionamento geral do sistema capitalista, mas
crise na qual o instrumental keynesiano de políti-          sim com o surgimento e organização das indústrias
cas monetária e fiscal expansivas não surtiu efeito         nos países do terceiro mundo, notadamente na
para debelar.                                               América Latina.

     Um dos fatos que deflagrou esta crise foram                Mesmo com esta profunda diferença de en-
os dois choques do petróleo, que tiveram efeitos            foque, a proposta teórica do autor nos permite
nefastos nos custos das empresas alimentando a              apontar uma lacuna na teoria regulacionista. La-
inflação.                                                   cuna esta importante para a compreensão da ado-
                                                            ção de técnicas gerenciais como o SCM.
     Uma característica do regime de acumulação
fordista é a internacionalização do capital. Tal                Pelas passagens abaixo pode-se dar partida à
internacionalização leva a dois efeitos que intensi-        compreensão da proposta teórica do autor:
ficam a concorrência. O primeiro tem origem no
aumento dos fluxos comerciais, resultantes de                    “O crescimento da firma, no entanto, está
reduções nas tarifas aduaneiras, que levou a uma            limitado por sua capacidade de financiar o
grande convergência tecnológica entre os países             investimento requerido para sua expansão e
desenvolvidos. O segundo na transferência da                pela existência de mercado para sua produção
produção para países com salários menores, práti-           crescente. [...] a firma tem que lutar continua-
ca intensificada depois da crise dos anos de 1970.          damente por escoadouros para sua acumula-
“Do lado macroeconômico, esta estratégia                    ção interna e pela realização de seu potencial
rompe com a correspondência entre produção                  de crescimento” (GUIMARÃES, 1982).


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      Temos, neste trecho, o ponto central da pro-                  “De fato, a integração vertical parece ser
posta teórica do autor. Esta proposta subentende               a forma natural de a firma do oligopólio ho-
descontinuidades de escala. Pois acréscimos na                 mogêneo diversificar-se para além dos limites
capacidade produtiva seriam de tamanho conside-                de sua base tecnológica, tanto porque a maio-
rável e só viáveis com perspectivas de crescimen-              ria dos obstáculos e dificuldades que esta fir-
to do mercado da empresa. Explicitamente, e apa-               ma enfrenta, quando diversificando em outras
recendo com bastante recorrência em todo o tra-                direções, estão ausentes ou podem ser mais
balho do autor, vemos o problema de realização.                facilmente superados nesse caso, quanto por-
Ou seja, se as empresas oligopolistas reinvestirem             que a integração vertical pode contribuir para
os lucros na mesma atividade / mercado, a indús-               fortalecer sua posição em sua indústria de
tria entraria em crise de realização. 1                        origem” (GUIMARÃES, 1982).

      Para o autor, a firma teria os seguintes objeti-              A exportação de produtos é uma saída sem-
vos: i) aumentar a taxa de crescimento de sua                  pre possível para escoar o excesso de produção
demanda; ii) aumentar a participação no mercado                de um determinado país. GUIMARÃES (1982)
e iii) aumentar a linha de produtos. Considerando-             destaca, ao estudar a indústria automobilística, que
se que no oligopólio as firmas raramente compe-                tal estratégia vem sendo adotada desde a década
tem via preços, resta às mesmas as seguintes es-               de 1920, como forma a dar vazão à crescente
tratégias: i) diferenciação de produtos; ii) diversifi-        produção americana.
cação de atividades; iii) exportação de produtos;
iv) exportação do capital e v) esforço de vendas.                    Já a exportação de capital se dá por três fato-
Note-se que estas alternativas não são mutuamen-               res principais. O primeiro está ligado aos entraves
te exclusivas. Portanto, uma firma pode adotar                 ao comércio internacional. Neste ponto, a inter-
várias destas estratégias simultaneamente.                     venção do Estado criando taxas, regulamentações,
                                                               restringindo importações e até mesmo atraindo
     A diferenciação de produtos leva as empre-                capitais estrangeiros precipita o processo de inter-
sas a intensificarem seus gastos em pesquisa e                 nacionalização do capital. Mas a presença da in-
desenvolvimento (P&D), quer seja para lança-                   tervenção estatal não é considerado o único, nem
mento de novos produtos, quer seja para a melho-               o mais importante fator que leva a exportação do
ria da qualidade, ou até mesmo para redução de                 capital. Para o referido autor, a busca por vanta-
custos.                                                        gens competitivas e a pressa por entrar primeiro
                                                               nos mercados mais promissores provoca esta es-
     A diversificação de atividade consiste em a               tratégia do oligopólio.
firma entrar em outros mercados onde não atuava.
Para as empresas com presença em mercados de                        O esforço de vendas, por fim, pode ser consi-
produtos diferenciados, o investimento em P&D                  derado como uma estratégia complementar. Tra-
pode direcionar o caminho da diversificação. Já                ta-se de utilizar ferramentas de marketing e pu-
para as empresas presentes em oligopólios homo-                blicidade para ampliar o mercado consumidor e/ou
gêneos a integração vertical seria um caminho                  conquistar participações de mercado frente aos
mais fácil. Note-se que a firma de oligopólio dife-            concorrentes.
renciado pode adotar também a integração vertical
e a firma de oligopólio homogêneo pode optar por                    Como já foi exposto anteriormente a aborda-
entrar em mercados totalmente diferentes do seu                gem de GUIMARÃES (1982) não vê o sistema
atual.                                                         por completo e nem é este o seu objetivo, mas
                                                               trazuma visão alternativa sobre a integração verti-
1
 Cabe comentar que o autor não faz uso de categorias           cal e a internacionalização do capital. Tanto a
marxistas, mas sua exposição é totalmente compatível           integração vertical, quanto a internacionalização
com esta leitura.

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do capital seriam feitos por fatores preponderan-            para aplicações em carteiras.2 Tal fato não é le-
temente econômicos. Na sua proposta sobre a                  vado em consideração na leitura regulacionista do
integração vertical, não deixa de estar presente a           aumento de capitais concorrendo globalmente.
necessidade da firma de controlar a cadeia produ-
tiva por motivos técnicos, como proposto pela                      Nosso objetivo ao expor a abordagem de
escola regulacionista, mas esta é uma vantagem               GUIMARÃES (1982) foi, em vez de elaborar uma
secundária, um fator a ser considerado no ato da             crítica à teoria da regulação a partir dele, acres-
diversificação. Consideramos possível integrar               centar novos ângulos à abordagem regulacionista.
este tipo de explicação à abordagem regulacionis-            Ângulos estes importantes para a discussão do
ta. Assim, a integração vertic al dar-se-ia por moti-        SCM.
vos tecnológicos inerentes ao processo de acumu-
lação de capital.                                                  Resta tecer uma breve crítica à teoria do re-
                                                             ferido autor. Crítica esta condizente com a teoria
     Também na análise da internacionalização do             da regulação. Sua abordagem não dá importância
capital, a abordagem do autor em discussão não é             ao processo histórico. Dizemos isto, em virtude da
totalmente distante da regulacionista, mas também            metodologia adotada pelo autor. Em seu livro são
nos permite acrescentar novos enfoques à esta.               propostas hipóteses simplificadores da economia
Para os regulacionistas, a internacionalização se            para poder derivar os possíveis comportamentos
dá na busca de vantagens de custos (salários me-             das firmas. Tais hipóteses vão sendo retiradas
nores com sindicatos menos atuantes), ao contrá-             para tornar seu modelo mais realista, o que leva a
rio da referida abordagem que vê a internacionali-           reexaminar os possíveis comportamentos da fir-
zação pela busca da conquista de mercados nas-               ma. Neste processo, praticamente não existem
centes. A incorporação deste aspecto à leitura               referências históricas. É como se a economia
regulacionista da crise dos anos de 1970 dificulta a         sempre tivesse o mesmo funcionamento. Sua a-
análise, pois as empresas que se movem para                  bordagem também não permite vislumbrar o pro-
países do terceiro mundo provocam um cresci-                 cesso de concentração de renda, apesar de tratar
mento nos mercados internos destes países, con-              de fusões e aquisições. Isto porque parte de uma
seguindo manter seus lucros de forma global. As-             divisão já existente para explicar a conduta de
sim, as crises nos países avançados pode ter ori-            empresas. As empresas inseridas em mercados
gem na queda do emprego, em decorrência das                  concorrenciais não teriam folgas de caixa para
saídas de algumas plantas e não no fato de a saída           provocar uma concentração, ficando tal alternativa
das empresas ser conseqüência de uma estagna-                restrita às empresas oligopolistas. O mercado pode
ção interna destes países. Consideramos que am-              concentrar-se, mas a partir de empresas que atu-
bos os fatores tenham ocorrido de forma conjunta,            em em outros mercados já concentrados. Portan-
daí ser interessante ver a internacionalização a             to, sua abordagem, apesar de tentar avançar na
partir destes dois aspectos.                                 busca de um modelo dinâmico, não dá margem a
                                                             uma análise tipicamente dinâmica.
     A internacionalização, na visão de GUIMA-
RÃES (1982), também sofre influência da presen-                  A abordagem de GUIMARÃES (1982) está
ça de estados nacionais utilizando-se de políticas           baseada em uma taxonomia do mercado preocu-
ativas de intervenção na economia. Mas seu enfo-             pada com a estrutura-conduta-desempenho das
que, tipicamente economicista, nos permite extra-            firmas / mercado. Daí sua dificuldade em dar
polar sua análise e tentar dar um motivo para a
existência cada vez maior de massas de recursos              2
                                                               Devemos destacar que tal raciocínio não é exposto
migrando pelo mundo em busca de aplicações                   por GUIMARÃES (1982), nem tem importância central
rentáveis. Uma vez que a exportação de capitais              para este artigo. É apenas um exemplo de uma contribu-
avança por todo mundo, o problema do investi-                ição possível para o entendimento da atual crise. Crise
mento de recursos reaparecerá, dando margem                  esta que a teoria regulacionista ainda não conseguiu
                                                             um consenso em sua explicação.

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dinamismo à sua teoria. MARTINS (1998) enfati-                 ção de produtos e a existência de barreiras à en-
za tal problema: “vale ressaltar que as abordagens             trada ligadas à existência de “marcas”. Neste tipo
orientadas pelos modelos de estrutura-conduta-                 de mercado também há a ocorrência de excessos
desempenho são formuladas em termos ainda                      de capacidade planejada, porém, estes surgem em
essencialmente estáticos” (MARTINS, 1998).                     função da possibilidade de erro na estratégia do
                                                               esforço de venda.
     Tentando incorporar elementos dinâmicos à
taxonomia baseada no modelo de estrutura-                           Esta estrutura de mercado é instável, ou seja,
conduta-desempenho, a partir da incorporação de                o crescimento do mercado tende a divergir do
elementos schumpterianos, temos POSSAS                         crescimento da firma, resultando em flutuações
(1987). Sua classificação dos mercados difere em               nas participações das mesmas. Tal instabilidade
alguns pontos da proposta por GUIMARÃES                        tem origem no ciclo de vida do produto e no ritmo
(1982). Os mercados poderiam ser classificados                 da adoção de inovações. Tem-se aqui uma inser-
em: i) oligopólio concentrado; ii) oligopólio dife-            ção tipicamente schumpeteriana.
renciado; iii) oligopólio diferenciado-concentrado;
iv) oligopólio competitivo; e v) competitivos.                      Já o oligopólio diferenciado-concentrado
                                                               “combina elementos dos dois tipos de oligopólio
      O oligopólio concentrado teria como caracte-             examinados acima” (POSSAS, 1987). O autor
rísticas: i) a ausência da diferenciação do produto;           indica ainda que tal tipo de oligopólio apresenta-se
ii) alta concentração técnica, decorrente da ocor-             na produção de bens de consumo durável. Depen-
rência de economias de escala e/ou descontinui-                dendo da importância do produto e de sua duração
dades técnicas consideráveis, que provocaria ele-              de vida, as inovações tomam um caráter altamen-
vadas barreiras à entrada; iii) não-ocorrência de              te dinamizador.
competição via preços, em decorrência das barrei-
ras à entrada. Tal tipo de mercado teria a compe-                  “No curso deste período, que pode assu-
tição restrita às estratégias de investimento, qual            mir as características de um ciclo longo s-
sejam: introdução de novos processos buscando                  chumpeteriano, ou parte dele, a competição
redução de custos e ampliar a capacidade instala-              por diferenciação tende a concentrar-se em
da antes que o mercado cresça.                                 modificações secundárias no produto, e as
                                                               inovações tecnológicas ou de produto mais
     O dinamismo seria uma função das possibili-               radicais, quando cheguem a se impor, terão
dades de investimento. A empresa que conseguis-                um impacto profundo sobre a economia”
se introdução de novos métodos/tecnologias teriam              (POSSAS, 1987).
condições de ampliar seus lucros ou aumentar sua
participação no mercado reduzindo preços, sem                       O oligopólio competitivo apresenta concor-
reduzir o mark up. Já a empresa que optasse pelo               rência via preços devido à inexistência de econo-
aumento da capacidade teria acréscimos na parti-               mias de escala ou diferenças técnicas importantes,
cipação do mercado, se o mesmo crescer acima                   o que diminui as barreiras à entrada. A diferencia-
do projetado pelas demais.                                     ção do produto é muito pequena por impossibilida-
                                                               des técnicas. Desta forma, o mercado de bens de
     Esta estrutura de mercado dá margem à di-                 consumo tende a apresentar este tipo de estrutura.
versificação e conseqüentemente à integração
vertical, em momentos de recessão, pois o nível de                  Como existem grandes empresas detentoras
ocupação cairia demais, tornando, inviáveis inves-             da maior parcela do mercado ao lado de um gran-
timento no próprio mercado.                                    de número de pequenas empresas com participa-
                                                               ção total importante, a competição via preços é a
      O oligopólio diferenciado tem como caracte-              forma das empresas oligopolistas expulsarem em-
rística a concorrência tipicamente por diferencia-             presas à margem do mercado. É comum também


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a liderança de preços. Esta estrutura de mercado           a impossibilitar a compatibilidade com a teoria da
é compatível com a existência de excesso de ca-            regulação. 3
pacidade instalada, mas esta surge por fatores
diferentes das demais. Surgem em decorrência do                 O próprio BENKO (1996) destaca um ponto
tempo de maturação do investimento. Resta des-             fundamental de divergência entre a abordagem
tacar que esta estrutura apresenta pouco dina-             neoschumpeteriana e a regulacionista. Trata-se do
mismo.                                                     determinismo da corrente schumpeteriana, ou seja,
                                                           as mudanças têm origem nas inovações tecnológi-
     Por fim têm-se os mercados competitivos,              cas. Já a teoria da regulação considera que cada
onde a competição dá-se exclusivamente via pre-            processo de crise tem sua determinação histórica
ços, há total ausência de barreira à entrada (e,           e, portanto, um caminho próprio de superação.
portanto, um grande número de participantes) e a
capacidade instalada evolui em dependência do                  MENDONÇA (1994) explicita melhor esta
comportamento do mercado. Os produtos são                  incompatibilidade nas visões do ciclo:
pouco diferenciados, mas não podem ser conside-
rados homogêneos.

     A junção das teorias não-ortodoxas do oligo-
pólio, notadamente a E-C-D, à visão neoschumpe-
teriana da evolução industrial é apontada por al-
guns autores como um dos caminhos mais promis-
sores para endogeneizar o avanço tecnológico às
estruturas de mercado (MARTINS, 1998).
     Esta junção daria um instrumental para e   n-
tender melhor o dinamismo do capital e conse-
qüentemente, os seus ciclos. A visão schumpete-
riana tradicional entende que o processo de ‘des-
truição criadora’ dar-se-ia de forma automática, o
que gera dificuldades para a compreensão dos
fenômenos mais recentes da economia (BENKO,
1996). Em vista desta dificuldade os avanços des-
ta teoria “sugeriram que no curso das crises há
uma contradição entre os desenvolvimentos tecno-
lógicos e as estruturas institucionais e sociais”
(BENKO, 1996).

     Tendo em vista esta abordagem mais recente
da corrente neoschumpeteriana, BENKO (1996)
destaca que esta estaria muito próxima da teoria
da regulação. Porém, esta conclusão é, no mínimo,
precipitada, uma vez que o sistema de acumula-
ção, apesar de vislumbrar o avanço tecnológico,
não pode ser resumido a este. Muito menos o
sistema de regulação, como descrito pelos regula-          3
                                                             Tender a impossibilitar não significa que tal tarefa não
cionistas, pode ser comparado a ‘estruturas insti-         seja possível ou até mesmo desejável. Porém, para tal
tucionais e sociais’. Desta forma, a junção da E-          feito faz-se necessária revisões em conceitos das três
C-D com a corrente neoschumpeteriana tenderia              correntes. Não é pretensão deste artigo trilhar este
                                                           caminho, mas o mesmo pode lançar luz sobre pontos de
                                                           divergência a serem estudados.

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     “Encontramos nesta posição (a da teoria                   escala e em série, quando do surgimento do for-
da regulação) um elemento de ruptura com as                    dismo.
teses que associam as grandes crises aos ciclos
longos de Kondratieff, na medida que a saída
da crise é colocada em termos da procura de
novas formas institucionais capazes de tradu-
zir os compromissos sociais necessários ao
estabelecimento de um novo princípio de acu-
mulação e não na atuação de um qualquer
mecanismo econômico automático como suge-
rem outras interpretações” (MENDONÇA,
1994).

2.2 - Críticas à Leitura Regulacionista
      do Fordismo

     Apesar de a teoria da regulação representar
uma tentativa de explicar os fenômenos sociais de
maneira completa e abrangente, e de surgir em um
momento onde os principais paradigmas econômi-
cos estavam sendo postos em dúvida (MEN-
DONÇA, 1994), a mesma não está livre de rece-
ber pesadas críticas. Tentaremos a seguir colocar
algumas destas críticas, sem contudo esgotá-las.
De maneira a simplificar a exposição, dividiremos
a crítica ao regulacionismo em duas partes. Nesta
primeira, nos preocuparemos com as críticas ao
método em si e com sua explicação ao fenômeno
fordismo e sua crise. A segunda parte da crítica, a
ser adotada em uma outra seção deste mesmo
trabalho, preocupar-se-á com a leitura regulacio-
nista do fenômeno ohnoísta.

     Um tipo de crítica que é levantado ao regula-
cionismo é quanto ao caráter genérico concedido
ao fordismo quanto ao processo de trabalho. MO-
RAES NETO (1998) destaca que tal tipo de pro-
cesso produtivo não pode ser considerado como
padrão para a indústria do mundo ou dos países
industrializados. Sua afirmação parte da observa-
ção da indústria têxtil e das indústrias de fluxo
contínuo (siderurgia, por exemplo). Para ele, a
indústria têxtil não fez uso de técnicas tayloristas e
nem precisaria, pois já no século XIX havia expro-
priado o “saber fazer” operário. O fordismo muito
menos foi usado por esta indústria, pois sua base
tecnológica já permitia a produção em grande



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     Dada sua natureza tecnológica, a indús-                       Outra crítica possível à escola regulacionista
tria de fluxo contínuo encaminha a organiza-                  diz respeito à importância dada à rigidez da produ-
ção do trabalho no sentido de maior grau de                   ção. Podemos derivar tal crítica a partir de GUI-
polivalência, qualificação técnica e responsa-                MARÃES (1982). Como vimos anteriormente
bilidade dos operadores, de redução dos ní-                   uma forma importante de competição das empre-
veis hierárquicos e incremento da troca de                    sas é a diferenciação de produtos. O autor inclusi-
informações entre eles, de aumento do grau de                 ve classifica a indústria automobilística como dife-
integração vertical e do fortalecimento do tra-               renciada. Ora, já foi demonstrado que o objeto de
balho em grupo (MORAES NETO, 1998).                           estudo regulacionista é esta indústria (MORAES
                                                              NETO, 1998). Portanto, deve-se relativizar a im-
     Assim, o fordismo indica um processo de tra-             portância da classificação do sistema fordista co-
balho específico da indústria metal-mecânica ou               mo rígido. Este deve ser encarado como depen-
que necessite de processos de montagem. Proces-               dente de produção em massa e com uma boa dose
so esse que surgiu do nível de avanço tecnológico             de “inércia” em responder às m    udanças no mer-
baixo desta indústria que fazia com que o ritmo de            cado.
trabalho sujeitasse o ritmo de produção (MORA-
ES NETO, 1998).                                                    Uma dificuldade da teoria da regulação é a
                                                              de tratar as crises cíclicas do capital. Sua forma
     Ora, tal tipo de questionamento ataca um dos             de ver o dinamismo econômico não é condizente
pilares da teoria regulacionista, ou seja, ao colocar         com a visão marxista de onde a mesma deriva.
em dúvida a abstração do processo de trabalho é               Por esta visão as crises seriam inerentes ao capi-
negada a própria existência de um regime de a-                talismo e necessárias para que os capitais menos
cumulação.                                                    produtivos fossem descartados. Os regulacionistas
                                                              explicam o longo ciclo de crescimento de 1945 até
     MORAES NETO (1998) não ataca apenas a                    1970, como resultado da vigência de um regime de
categoria processo de trabalho. O autor critica               acumulação. Mas, como explicar as crises cícli-
também a categoria regulação do trabalho, outro               cas, com ciclo durando em torno de 5 anos, que
dos formadores do regime de acumulação. A pas-                surgem a partir de 1970? Os regulacionistas tra-
sagem onde esta observação é mais explícita se-               tam o atual período como um período de transição,
gue abaixo:                                                   onde um novo regime de acumulação ainda não se
                                                              firmou, logo, passível de crises sucessivas. Mas,
     “[...] é absolutamente despropositado i-                 não seria esta uma transição muito longa?
maginar que Marx pudesse cancelar uma a-
firmação de que, após a introdução da m     a-
quinaria, a eficiência do processo produtivo                  3 – O SISTEMA DE ACUMULAÇÃO
estivesse na dependência do modo dos traba-                      OHNOÍSTA
lhadores viverem, pensarem e sentirem a vida”
(MORAES NETO, 1998).                                               A teoria da regulação, a partir de sua elabo-
                                                              ração, tem buscado, no processo econômico, evi-
    Se retomarmos a relação dialética regime de               dências do surgimento de um novo padrão de a-
acumulação x regime de regulação, veremos que                 cumulação, o qual daria gênese a uma nova estru-
sem a existência de um regime de acumulação                   tura de regulação, inaugurando uma nova fase do
não podemos falar em regime de regulação. Tal-                capitalismo. Tal busca, foi frutífera para a análise
vez por isso o autor não trate do regime de regula-           de diversas experiências internacionais, sem con-
ção em sua crítica.4                                          tudo chegar a um consenso da existência deste
                                                              novo padrão de acumulação. Uma das abordagens
4
 Uma observação com importância menor em seu arti-
go, mas com merecimento de nota, é que o “trabalhador         que, portanto, o fordismo não poderia ser responsável
coletivo” já havia sido percebido e descrito por Marx e       pelo seu surgimento.

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que tem ganho mais força nos últimos anos é a                        O just-in-time e a auto-ativação, para serem
baseada no ohnoísmo ou toyotismo.                              implantados, utilizam-se de um ‘bazar’ de técnicas
                                                               de gestão. Deste bazar, fazem parte, dentre ou-
     Trata-se de referência ao processo produtivo              tros: o kan ban (sistema de estoques simplificado
inaugurado pela Toyota no Japão, a partir das                  que elimina a necessidade de ordens de produção)
idéias do seu engenheiro chefe Ohno. O ohnoísmo                os círculos de controle da qualidade e o kaizen
tem sido considerado como ponto de partida de um               (melhoria contínua do processo). O objetivo destas
novo regime de regulação pela rápida difusão de                técnicas é tornar a produção o mais sincronizada
parte de suas técnicas pelo restante do mundo.                 possível, eliminando-se níveis hierárquicos de con-
Muito desta difusão deve-se ao crescimento vivido              trole, reduzindo os defeitos e flexibilizando a pro-
pelo Japão em uma época que abateu o restante                  dução (CORIAT, 1994).
do mundo.
                                                                    Para conseguir que a produção seja flexível é
     CORIAT (1994) destaca que o ohnoísmo es-                  importante a introdução de novas tecnologias e
tava alicerçado em dois pilares. São eles o just-in-           uma nova forma de ver a mão-de-obra. As novas
time e a auto-ativação da produção. O just-in-                 tecnologias são a introdução de máquinas ferra-
time nada mais é do que a tentativa de tornar a                mentas de controle numérico-MFCN, que nada
produção voltada para o mercado. Fazer com que                 mais são do que máquinas ferramentas universais,
esta seja puxada pelo consumo. Assim, o processo               dotadas de cérebros eletrônicos. Desta forma, um
produtivo tem que ser totalmente repensado para                dos limites à valorização do capital é rompido - o
redução de estoques. Os gargalos e as deficiê n-               restante do processo que dependia de trabalhado-
cias produtivas não são mais escondidos em esto-               res desqualificados é absorvido pela maquinaria.
ques, o que torna urgente as melhorias de proces-              Além da introdução das MFCN, há também a
so.                                                            introdução da troca rápida de ferramentas, para as
                                                               máquinas específicas. Os dispositivos da troca
      O just-in-time é visto também como uma                   rápida são desenvolvidos com o auxílio dos traba-
tentativa de evitar o excesso de investimentos em              lhadores, no processo do kaizen (MULS, 1998).
máquinas, matérias-primas e pessoal. Desta for-
ma, o Japão do pós-guerra, com carência de capi-                     Dentre as mudanças na base tecnológica que
tal e mão-de-obra, aliado à sua exígua extensão                permitem a adoção do ohnoísmo, consta a roboti-
territorial, que torna a matéria -prima escassa, seria         zação de partes da produção. Tal fato é conhecido
o lugar ideal para o surgimento deste tipo de pro-             por linha transfer, ou seja, as atividades mais des-
cesso produtivo (CORIAT, 1994).                                gastantes e/ou arriscadas são transferidas para a
                                                               execução por uma série de robots. Com isso a
     O mercado consumidor japonês também foi                   produção pode ser intensificada sem a limitação
importante para a implantação do just-in-time.                 da capacidade física dos trabalhadores — um
Pequeno e carente de diversidade de produtos,                  novo entrave à valorização é retirado. O uso de
este condicionou a produção das empresas. A                    sistema computacionais também permitem diminu-
flexibilidade da produção é, portanto, pré-requisito           ir a importância do papel dos engenheiros — reti-
para o bom desempenho das empresas japonesas.                  rando os outros dois entraves à valorização do
                                                               capital destacados por MULS (1998).
      A adoção do just-in-time deve ser efetuada
em conjunto com a autoativação da produção.                         A nova forma de ver a mão-de-obra difere da
Esta refere-se ao automatismo do processo produ-               fordista por b uscar que o trabalhador tenha c  o-
tivo, com a possibilidade de parada do mesmo por               nhecimento de várias fases do processo, para ser
qualquer elemento da linha no caso de problemas.               transferido de função rapidamente e ajudar a dotar
                                                               as empresas de flexibilidade na produção. Certos
                                                               autores regulacionistas vêem com otimismo esta


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tendência. Os trabalhadores estariam se qualifi-            grandes fabricantes, com a adoção do just-in-
cando e voltando a ter um conhecimento, antes               time, força seus fornecedores a usarem as mes-
expropriado. Tal raciocínio é reforçado pelo fato           mas técnicas. Caso a empresa fornecedora não
dos trabalhadores passarem a desempenhar papel              utilize um processo just-in-time, terá que elevar
importante no controle de qualidade (MORAES                 seus inventários de produtos elaborados, o que
NETO, 1998).                                                pode levá-las a graves problemas financeiros
                                                            (CORIAT, 1994; HIRATA, 1996).
     O regime de acumulação ohnoísta seria com-
pletado por uma nova regulação do trabalho. Nes-                  O ohnoísmo tem esta característica, de ex-
ta regulação, os ganhos passam a ser intimamente            pandir suas técnicas ao longo da cadeia produtiva.
ligados ao desempenho pessoal do trabalhador e à            Mas, esta expansão se faz com importantes m     u-
sua antiguidade na empresa. Ele difere, portanto,           danças na forma de integração vertical. Ao con-
do fordismo que tinha um contrato de trabalho               trário do fordismo, não é mais necessário o domí-
rígido, igualando os ganhos e condicionando os              nio do capital das empresas fornecedoras. A sin-
aumentos aos acréscimos na produtividade do                 cronia é conseguida com a redução dos fornece-
trabalho (CORIAT, 1994; HIRATA, 1996). Esta                 dores e com a elaboração de uma intrincada rede
regulação afeta também a necessidade de previ-              de alianças / parcerias comerciais formalizadas
dência social, que passa a ter interferência da             em contratos onde se especificam preços, qualida-
empresa.                                                    de, meios logísticos e principalmente os tempos de
                                                            entrega e de alteração de pedidos. No Japão tal
     A regulação salarial ohnoísta só é possível            tipo de rede tem a denominação de keiretsu (CO-
com uma nova postura dos sindicatos, que passa a            RIAT, 1994).
ser de cada empresa, ao contrário de uma catego-
ria como no fordismo. O sindicato por empresa                    A relação das empresas passa, portanto, de
permite que os interesses dessa sejam levados em            ‘distante’ para ‘cooperativa’, ou seja, no fordismo
conta pelo sindicato no momento das negociações             aquelas atividades que não haviam sido integradas
salariais. Faz parte ainda da regulação salarial, o         verticalmente seriam adquiridas pelo critério do
emprego vitalício, ou seja, a alta estabilidade no          melhor preço, mantendo o maior número possível
emprego pregada pelas empresas do Japão (CO-                de fornecedores como forma de pressioná-los, ao
RIAT, 1994; HIRATA, 1996).                                  passo que no ohnoísmo as atividades a      dquiridas
                                                            das empresas são feitos em um regime de ajuda
      HIRATA (1996) destaca que a regulação sa-             mútua (COSTA, 1995).
larial deve ser vista com ressalvas, pois os benefí-
cios de vitalicidade do trabalho e ganhos pela anti-             HIRATA (1996) destaca alguns aspectos a
guidade não são generalizados nem mesmo no                  mais sobre o relacionamento entre as empresas no
Japão. Lá estas vantagens restringem-se aos ho-             modelo japonês. “É um modelo hierarquizador e
mens que sejam empregados nas grandes indús-                dualista, onde a posição de subordinação das pri-
trias. As mulheres e os empregados de pequenas              meiras às segundas é institucionalizada pelo dife-
e médias empresas não têm estas vantagens.                  rencial de salários, por um estatuto de dependên-
                                                            cia e fidelidade em todos os níveis” (HIRATA,
     Assim, como no fordismo, para o perfeito               1996). Este modelo pode apresentar quatro formas
funcionamento do processo produtivo, o ohnoísmo             de ligações: i) kogaisha (empresa filial); ii) kyor-
carece de controle do fabricante sobre a cadeia             yoku gaisha (empresa cooperadora); iii) kankei
produtiva. O enfoque principal muda. Agora a                gaisha (empresa coligada); iv) shitauke gaisha
padronização das peças e a qualidade do produto é           (empresa subcontratada). Portanto, mesmo no
uma pré-condição dos agentes, portanto a preocu-            modelo ohnoísta, há a presença de integração
pação passa a ser com a sincronia do processo               vertical a partir de participação acionária nas em-
produtivo. A eliminação de estoques por parte dos           presas fornecedoras. A autora destaca, ainda, que


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mesmo nas empresas subcontratadas a relação                    diferenciado. Portanto, as empresas japonesas
entre as empresas pode chegar a uma profunda                   para quebrarem as barreiras deste mercado a
dependência da menor, sendo que esta subordina-                nível mundial intensificaram a diferenciação, dan-
se totalmente à sua cliente (HIRATA, 1996).                    do ênfase em nichos não atendidos até então, co-
                                                               mo os carros pequenos e econômicos, marco de
      Com especial importância para o escopo des-              entrada no mercado americano, onde as empresas
te trabalho devemos dar ênfase às mudanças ob-                 preocupavam-se em atender mercados de carros
servadas por HIRATA (1996) nas relações indus-                 grandes e de grande potência.
triais japonesas. Segundo esta autora as empresas
japonesas têm se lançado à diversific ação das                      A adoção dos keiretsu, ao contrário da inte-
atividades, inclusive em ramos bem distintos nos               gração vertical observada nos demais países, pode
quais atuam. Sem muitas dificuldades pode-se dar               ser decorrência da carência de capitais do Japão
exemplos inclusive desta diversific ação com for-              no período subseqüente à Guerra. Ou seja, os
matos de internacionalização do c   apital. Investi-           autores da E-C-D vêem a diversificação de ativi-
mentos efetuados especialmente nos Estados Uni-                dades como uma forma de se buscarem alternati-
dos no final da década de 1980 e início da década              vas de aplicações ao capital, mas tais sobras não
de 1990.                                                       existiam no Japão do pós-guerra. Como o sistema
                                                               de produção de bens duráveis exige grande inte-
3.1 - Interpretação Possível ao Sistema                        gração da cadeia produtiva, a formação dos kei-
      Ohnoísta Pela Visão da E-C-D                             retsus tem caráter de economizar capital.

     Como foi destacado anteriormente, os autores                   Desta forma, a visão E-C-D pode contribuir
da corrente E-C-D não estão preocupados com o                  para completar a visão regulacionista do fenôme-
movimento global do sistema capitalista, mas sim               no do ohnoísmo, principalmente, destacando fato-
com os acontecimentos no âmbito dos setores da                 res econômicos para a adoção de certas medidas
economia. Portanto, sua abordagem não versa                    por parte das empresas japonesas.
sobre um sistema ohnoísta. Podemos contudo, a
partir da contribuição destes autores, buscar uma                   Já a junção da E   -C-D com a visão neos-
compreensão alternativa sobre tal fenômeno.                    chumpeteriana nos traz à tona a questão do avan-
                                                               ço tecnológico. E neste ponto outras contribuições
      O surgimento das técnicas ohnoístas deu-se               podem ser adicionadas à compreensão do fenô-
em um país destruído pela II Guerra e com capa-                meno japonês. A adoção por parte das empresas
cidade competitiva muito baixa. Para poder con-                japonesas de técnicas diferentes de gestão e a
quistar mercados a níveis mundiais sua única pos-              larga utilização de avanços tecnológicos, como as
sibilidade seria apresentando grandes diferenciais             máquinas que permitem a troca rápida de ferra-
de produtos. Desta forma, a diversificação apre-               mentas, as MFCN, a linha transfer, e outras, são
sentada no sistema de produção japonês pode ser                inovações que permitem o rápido desenvolvimento
creditado também à necessidade de atingir nichos               da economia.
do mercado internacional não atendidos pelas em-
presas multinacionais dominantes. Além disto a                      Os avanços tecnológicos e de processo pro-
busca pela qualidade do produto era uma forma de               dutivo ocorreram, principalmente, em mercados de
suplantar as barreiras existentes nos mercados em              consumo durável, classificados por POSSAS
decorrência das marcas das companhias já exis-                 (1987) como de oligopólio diferenciado-
tentes.                                                        concentrado, que se utiliza de diferenciação de
                                                               produtos, da criação de capacidade instalada aci-
     O sistema ohnoísta tem introdução principal               ma da capacidade de crescimento da firma e da
em fábricas de veículos, caracterizadas pelos au-              integração vertical como formas de concorrência.
tores da E-C-D como um mercado de oligopólio                   Assim, a grande capacidade de competir da eco-


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nomia japonesa deve-se também à introdução de
um grande número de inovações, que tiveram um                    O fato de que as relações salariais tidas co-
campo mais fácil de surgir nesta economia, em               mo importantes para o regime de regulação de
contrário de outras onde estas inovações deveriam           trabalho ohnoísta - emprego vitalício, ganhos por
deslocar antigas combinações de recursos.                   antiguidade, ganhos por desempenho próprio - não
                                                            serem generalizadas no próprio Japão, pode ser
3.2 - Críticas à Leitura Regulacionista                     considerada com uma forte limitação da elabora-
      do Ohnoísmo                                           ção da teoria de regulação. Afinal, se apenas uma
                                                            pequena parte dos trabalhadores possuem estas
      MORAES NETO (1998) ao criticar a abor-                vantagens, não podemos considerar viável falar de
dagem regulacionista, utiliza-se de vários enfo-            um regime de regulação do trabalho, dificultando a
ques. O mais contundente é a negação da genera-             visualização de um sistema de acumulação ohnoís-
lização do processo de produção ohnoísta, tal co-           ta, que possa vir a tornar-se como padrão mundial.
mo foi feito com o fordismo em passagem anteri-
or. Assim, como o fordismo, o ohnoísmo é enca-                   Quanto às relações salariais deve-se ainda
rado como um fenômeno típico das indústrias                 destacar:
metal-mecânicas e que necessitem de montagens.
Novamente o pilar da teoria regulacionista é aba-                O ideal fordista de uma grande estabili-
lado.                                                       dade da mão-de-obra é realizado mais pelas
                                                            empresas japonesas do que pelas americanas,
    Outra crítica levantada pelo autor diz respeito         onde a rotatividade é, com raras exceções
à adoção do kaizen para conseguir melhorias                 (Ford, GM), predominante. O salário indexado
marginais na qualidade e produtividade.                     aos preços e a antecipação dos ganhos de
                                                            produtividade do sistema americano é mais
     “No caso das indústrias de processo, e                 distante do ideal fordista de partilha dos lu-
também de indústria têxtil, o aumento da efici-             cros como complemento a um salário fixo do
ência dá-se na verdade por ‘saltos’, na medida              que o sistema japonês de ‘bônus’” (HIRATA,
em que sejam substituídas as máquinas, sendo                1996).
o tamanho do ‘salto’ dependente do grau de
‘integração, interdependência e continuidade’                    Esta é uma das razões que levam alguns au-
do equipamento” (MORAES NETO, 1998).                        tores a verem o sistema ohnoísta como um hiper-
                                                            fordismo, um aprofundamento do sistema fordista.
     Quanto à nova base tecnológica da produção             Tal análise leva em conta, principalmente, o com-
flexível o autor considera a linha transfer como            pleto controle do processo de trabalho por parte da
incapaz de dar ao processo flexibilidade, pois o            gerência (COSTA, 1995). Considerar o sistema
princípio fordista é mantido, retirando-se apenas o         japonês como um hiperfordismo é na verdade
trabalhador. GORENDER (1997) também chama                   negar que este represente um novo padrão de
a atenção para este fato, afirmando inclusive que           organização industrial.
a linha transfer torna o processo ainda mais rígido
que o fordista.                                                  Há grandes discussões acerca da possibilida-
                                                            de de transferir o modelo ohnoísta para outros
     Já a adoção das MFCN, que permite que um               países. Normalmente, chama-se a atenção para os
único trabalhador opere várias máquinas ao mes-             fortes traços culturais que permitem o bom fun-
mo tempo e ainda cuide do controle de qualidade,            cionamento do sistema no Japão. Além disto, as
ao invés de qualificar o trabalhador, cria o ‘traba-        empresas mundiais que têm adotado técnicas oh-
lhador multi-funcional-desqualificado’. O otimismo          noístas, não a fazem por completo. As utilizam
quanto ao emprego é, portanto, indevido (MORA-              conforme suas necessidades momentâneas, quer
ES NETO, 1998).                                             seja para a melhoria da qualidade, quer seja para


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redução de custos, ou até mesmo para redução de                fraldas descartáveis da marca “Pampers”. Estas
estoques. Nestes termos, fica ainda mais difícil               empresas realizaram uma aliança para a redução
conceber que o sistema ohnoísta possa vir a ser                dos estoques de ambos, com entregas em períodos
um novo padrão de organização industrial.                      curtos de quantidades menores, permitindo a redu-
                                                               ção dos preços das fraldas. Tal atitude foi um dos
4 - O SUPPLY CHAIN                                             fatores que contribuiu para o domínio do mercado
                                                               de fraldas pela Proctor & Gamble, e pela rápida
    MANAGEMENT                                                 expansão da Wal Mart no varejo norte-americano.
     O supply chain management-SCM é uma
                                                                     A adoção do SCM provoca, portanto, uma
moderna técnica de gestão que as empresas têm
                                                               mudança funcional, que leva à adoção de novos
adotado nos últimos anos, que visa à integração da
                                                               métodos de controle de custos, o que tem feito
cadeia produtiva através de alianças logísticas-
                                                               com que o custeio baseado em atividades-ABC
estratégicas para conseguir implantar o just-in-
                                                               tenha grande difusão na última década e seja um
time ou o quick-response e ainda comprimir cus-
                                                               dos procedimentos adotados para detectar pontos
tos e agregar serviços aos clientes. O quick-
                                                               de modificação das atividades da empresa. O
response pode ser considerado como um avanço
                                                               sistema de custeio ABC difere do tradic ional,
do just-in-time, pois trata de unir o último a siste-
                                                               principalmente, em seu método de rateio dos cus-
mas de troca de informações entre as empresas.
                                                               tos indiretos.
                                                                     Já as barreiras externas podem decorrer da
  Uma definição para tal técnica é dada por
                                                               distância física dos fornecedores ou do mercado
WOOD (1998):
                                                               consumidor, do tipo de relacionamento da empresa
                                                               com as demais, de interferências governamentais
     “Em linhas gerais, o ‘supply chain
                                                               ou até mesmo de dificuldades de infra-estrutura do
management’ pode ser definido como uma
                                                               país. A distância física das empresas com os
metodologia desenvolvida para alinhar todas
                                                               mercados fornecedores e consumidores, interfe-
as atividades de produção de forma
                                                               rências governamentais e as dificuldades de infra-
sincronizada, visando a reduzir custos,
                                                               estrutura têm sido resolvidas com a adoção de um
minimizar ciclos e maximizar o valor percebido
                                                               terceiro parceiro para realizar os procedimentos
pelo cliente final por meio do rompimento das
                                                               logísticos. Desta forma, as empresas fornecedora
barreiras entre departamentos da cadeia”
                                                               e cliente entram em acordo de qual será este ter-
(WOOD, 1998).
                                                               ceiro parceiro, sua função e remuneração. O ope-
     O SCM é, portanto, uma ferramenta basic a-
                                                               rador logístico pode responsabilizar-se não só pelo
mente de logística, mas com grandes preocupa-
                                                               transporte, mas também por romper barreiras de
ções no marketing da empresa. Seu objetivo é o
                                                               importação/exportação, ou até mesmo realizar
de retirar as barreiras à adoção do just-in-time ou
                                                               parte do processo produtivo.
do quick-response. Estas barreiras podem ser
internas ou externas à empresa. As barreiras i - n
                                                                     Como exemplo deste tipo de contratação te-
ternas podem surgir das divisões hierárquicas, que
                                                               mos a Ford do Brasil. No mês de março de 1999,
moldam processos produtivos. A retirada destas
                                                               esta tentou implantar um novo procedimento de
barreiras passa pela adoção de células multifun-
                                                               distribuição de veículos. Nele um operador logísti-
cionais, envolvendo normalmente funcionários da
                                                               co seria contratado para montar centros de distri-
produção, do marketing, da logística e do desen-
                                                               buição regionais, que ficariam encarregados de
volvimento de produtos.
                                                               fazer a checagem final, a montagem de alguns
                                                               tipos de opcionais e a revisão de entrega. Com
     Esta técnica em estudo teve origem nos Es-
                                                               isso reduzir-se-ia o tempo de entrega, utilizar-se-
tados Unidos, no fim da década de 1980, a partir
                                                               iam menos caminhões no transporte, possibilitaria-
da experiência adotada entre as empresas Proctor
                                                               se a entrega de menos unidades para cada reven-
& Gamble e Wal Mart na comercialização de

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da diminuindo assim seus estoques e economiza-             possibilidade de entrega de produtos “customiza-
ria-se com pessoal de mecânica nas revendas.               dos” com pequeno tempo de delay.
Nesta negociação, estavam presentes além da
Ford, a Associação Brasileira dos Distribuidores                A utilização do SCM leva as empresas a ado-
Ford-ABRADIF (associação dos revendedores) e               tarem alianças estratégicas com seus principais
a Cotia, operadora logística (CAETANO, 1999).              parceiros ou até mesmo prospectar novos parcei-
                                                           ros para realizar os serviços. O tipo de aliança
     O relacionamento entre as empresas com a              estratégica, normalmente, usado não envolve troca
adoção do SCM deixa de ser competitivo e passa             de participações acionárias e portanto os funcio-
a ser cooperativo. A cooperação entre os parcei-           nários das empresas mantêm independência fun-
ros envolve, inclusive, a troca de informações             cional. Conforme, RIBEIRO & CAMPOS (1999)
antes consideradas estratégicas, como o estoque,           estas alianças podem ou não ser formalizadas em
os níveis de venda atuais e as pesquisas em an-            contratos. FRAYER (1995) ao estudar as alianças
damento para desenvolvimento de novos produtos,            deste tipo nos supermercados norte-americanos
que passam inclusive em alguns casos, a serem              destaca que o mais usual é a não ocorrência de
feitos em conjunto. Portanto, o número de parcei-          contratos.
ros deve ser reduzido, quer seja para facilitar a
padronização dos procedimentos logísticos, quer                 CHRISTOPHER (1997) destaca que o uso
seja para reduzir os riscos da disseminação de             do SCM está tomando medidas globais. As em-
informações estratégicas por todo o mercado.               presas devem pensar em logística global, o que
                                                           tem levado a duas principais tendências: o uso das
      VILARDAGA (1999) relata em reportagem                ‘fábricas foco’ e a centralização dos estoques.
no jornal Gazeta Mercantil os procedimentos que a
Wolkswagen tem tomado em relação aos seus                       “A filosofia que fundamenta o conceito de
fornecedores. São enumeradas algumas práticas              fábricas ‘foco’ é simples: a companhia pode
como: a) redução do número de fornecedores de              conseguir economias de escala consideráveis,
650 para 550; b) auxílio aos melhores fornecedo-           limitando a variedade de produtos fabricados
res para a conquista de mercados mundiais, como            num mesmo local. Basicamente os negócios
forma de gerar economias de escala, possibilitando         orientados nacionalmente terão produção pa-
a redução dos custos de aquisição por parte da             ra consumo local, significando que a fábrica
Wolkswagen; c) controle sobre os subfornecedo-             de cada país produzirá toda variedade de
res, ou seja sobre os fornecedores dos fornecedo-          produtos que serão vendidos naquele país.
res; d) aumento de três vezes no número de visi-           Simultaneamente, o negócio global tratará
tas técnicas aos fornecedores; e) desenvolvimento          também do mercado mundial e racionalizará
do novo modelo Gol em conjunto com os principais           sua produção, de tal modo que as fábricas
parceiros, que permitiu a redução do tempo de              produzam menos produtos em volumes capazes
desenvolvimento.                                           de satisfazer, talvez, o mercado inteiro” (C-
                                                           HRISTOPHER, 1997).
     A redução de custos é conseguida não só pe-
la redução dos estoques provocada pelo just-in-                 Já a centralização dos estoques se dá pela
time, mas também pela otimização do processo               redução do número de centros de distribuição e
produtivo. Muitas vezes, algumas partes do pro-            pela dotação dos mesmos de novas funções. Os
cesso de uma firma geram maior trabalho para               mesmos passam a ser responsáveis pelas embala-
seus clientes e podem ser suprimidas, gerando              gens locais ou por adaptações regionais, por e-
economias para ambos.                                      xemplo. Tal tipo de responsabilidade tem origem,
                                                           principalmente, pelo uso de fábricas ‘foco’, pois a
    Já a agregação de serviços ao cliente, faz-se          produção para todo o mundo pode esbarrar em
quer seja pela presteza do atendimento ou pela             necessidades de diferentes tipos de embalagens e


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configurações finais para consumo diferenciadas                enquanto, que a auto-ativação implica em relações
(CHRISTOPHER, 1997).                                           de trabalho.

     A prática do SCM pode, a princípio, nos levar                   Outras divergências devem ser destacadas
a entendê-la como um desdobramento do ohnoís-                  entre o SCM e o ohnoísmo. Uma delas é a pouca
mo, uma vez que estão presentes vários aspectos                utilização da participação acionária da empresa
do mesmo: o uso do just-in-time, a cooperação                  principal sobre as demais. Como foi destacado,
entre as empresas, a terceirização de partes do                mesmo no sistema ohnoísta, há a figura da inte-
processo produtivo, a formação de redes de em-                 gração vertical formal e nas empresas onde há
presas, entre outros. Porém, tal entendimento pode             apenas a relação de parceria, o que ocorre na
ser prematuro.                                                 verdade é a total subordinação da subcontratada à
                                                               cliente. Tal subordinação não faz parte dos precei-
     O SCM não pode ser considerado como um                    tos do SCM. O tipo legal do relacionamento faz
desdobramento do ohnoísmo, primeiro porque seu                 parte desta divergência. No Japão, os contratos
surgimento se dá nos Estado Unidos. Desta forma,               são obrigatórios e o mais completos possíveis,
é mais acertado vê-lo como uma forma de adotar                 enquanto, que no SCM não há a obrigatoriedade
algumas das técnicas do sistema ohnoísta, sem                  do contrato.
que se transplantem as características que o fa-
zem um sistema de regulação. Ou seja, o SCM                          Outra divergência é um dos métodos utiliza-
permitiria a adoção do just-in-time, sem a adoção              dos para a adoção do SCM em nível global - a
da auto-ativação, como proposta pelo sistema                   fábrica ‘foco’. Tal método está totalmente distante
ohnoísta.                                                      do conceito de flexibilidade na produção. Ele está
                                                               muito mais próximo do sistema fordista, com a
     É certo que as relações salariais americanas              utilização de plantas menores ao redor do mundo,
sofreram alterações nos últimos anos, com a pre-               que daria agilidade à administração para poder
miação individual do desempenho, concedida por                 jogar com variáveis como preço da mão-de-obra,
algumas empresas. Mas, a forma de regular o                    resistências sindicais, taxas de câmbio e aduanei-
trabalho compreendendo o emprego vitalício e a                 ras, entre outras. A produção de veículos pode ser
estrutura sindical vinculada à empresa não está                utilizada para exemplificar isto. Os fabricantes que
presente no mercado americano. 5 Ao mesmo                      têm se instalado no Brasil nos últimos anos têm
tempo esta prática tem-se difundido — como vi-                 adotado a implantação de linhas de montagens de
mos já está sendo usada no Brasil — em países                  modelos específicos, que serão exportados para
onde as relações trabalhistas são diferentes tanto             países que não o produzem, enquanto, que a fábri-
no modelo japonês, quanto no modelo americano.                 ca importa das demais plantas os outros modelos.

     Poder-se-ia dizer que, nas empresas do oci-                    Levando estas divergências em consideração,
dente, há a figura da motivação. Os autores que                bem como as críticas à generalidade do sistema
se preocupam com os procedimentos de implanta-                 ohnoísta e seu padrão de organização industrial,
ção do SCM, enfatizam a busca da mesma. Des-                   podemos tentar responder a primeira pergunta
tacam, ainda, como proceder para formar grupos                 deste artigo. Qual seja: ‘O SCM tornar-se-á pa-
que serão responsáveis pela aliança com as d e-                drão entre as empresas?’
mais empresas (CHRISTOPHER, 1997; FRA-
YER, 1995). Mas a motivação está longe da auto-                     Não há evidências teóricas para considerar
ativação. A motivação implica em convencimento,                que o SCM venha a tornar-se padrão entre as
                                                               empresas. Esta técnica deverá se difundir em
5
  Nos EUA, os sindicatos apresentam-se também por              determinados tipos de cadeias produtivas, ou seja,
empresas; porém os mesmos não são subordinados à               as cadeias produtivas com maior número de elos.
direção como CORIAT (1994) demonstrou para o caso              Isto porque é mais fácil de visualizar o processo
Japonês.

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em cadeias curtas e suprimir os procedimentos                    Desta forma, a partir da abordagem E-C-D e
que estejam causando despesas desnecessárias.               das contribuições neoschumpeterianas a resposta
Na indústria automobilística, por exemplo, pode-            à segunda pergunta não é conclusiva.
mos detectar até seis elos na cadeia de suprimen-
tos antes de chegar ao consumidor final. Portanto,          5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
é natural que tal indústria sirva de exemplo para a
adoção do SCM. A cadeia dos supermercados,                       No presente estudo, tentou-se resgatar duas
pode ter até quatro elos, sendo outra que tem utili-        abordagens distintas que pudessem dar suporte
zado-se largamente de tais técnicas.                        para a compreensão da técnica do SCM. Na últi-
                                                            ma seção, pode-se ver que ambas apresentam
     RIBEIRO & CAMPOS (1999), afirmam que                   dificuldades para explicá-la. A teoria da regulação
esta técnica tem como principal característica              não vislumbra o SCM, apesar de descrever alguns
reduzir o ciclo do capital, a partir da compressão          aspectos comuns ao mesmo, como a cooperação
do tempo de circulação. Portanto, pode-se afirmar           entre empresas e a formação de redes. Mesmo
que a difusão do SCM se dará com maior intensi-             assim, a partir da teoria da regulação podemos ver
dade em cadeias mais longas, pois são nestes tipos          que esta técnica pode até virar moda, mas não
que os tempos de circulação apresentam maiores              pode ser tida como uma regra a ser seguida ce-
possibilidades de redução. Ao mesmo tempo tal               gamente pelas empresas. A mesma só trará ga-
redução não é fácil de ser conseguida, pois envol-          nhos a firmas, se estas puderem reduzir o ciclo do
ve o interesse de um grande número de empresas.             capital, diminuindo ainda mais os tempos mortos
                                                            na produção e principalmente o tempo de circula-
     Voltando à discussão para a abordagem E-C-             ção.
D e as contribuições neoschumpeterianas à mes-
ma, veremos que as técnicas do SCM podem ser                    Já a abordagem E-C-D não foi capaz de res-
vistas como uma resposta das empresas do oci-               ponder conclusivamente à segunda pergunta.
dente frente à concorrência imposta pelas empre-
sas japonesas. Tal concorrência não altera o p a-                A partir do exposto antoriormente cabe des-
drão já existente no mercado, visto que a taxono-           tacar que a análise marxiana do SCM, qual seja,
mia de mercado proposta por estas abordagens foi            evidenciando sua importância para a redução do
capaz de dar algumas explicações ao surgimento              ciclo do capital e o relacionamento comércio x
do ohnoísmo. Desta forma, o SCM não poderia                 indústria, parece dar maiores chances de entender
trazer uma nova forma de competição.                        esta técnica do que a escola regulacionista ou a da
                                                            organização industrial. Esta abordagem inclusive
     Porém, tal conclusão parece ser parcial e de-          pode dar suporte para a compreensão do compor-
pendente de maiores qualificações. Isto porque a            tamento dos mercados onde tal técnica for adota-
adoção deste tipo de prática visa elevar as barrei-         da. A reportagem de VILARDAGA (1999) d           e-
ras à entrada, o que de certa forma altera a dinâ-          monstra muito bem como o principal fabricante
mica dos mercados. Além disto, a adoção da ali-             tem condições de impor-se frente aos demais
ança estratégica como padrão de interligação en-            compenentes da cadeia de produção. O SCM
tre empresas, ao contrário da integração vertical           permite a intensificação desta relação de poder e
por participação acionária, pode levar a que as             a torna muito mais perceptível.
empresas da teia formada pelo SCM tomem deci-
sões em conjunto, mesmo que na rede de empre-
sas existam concorrentes diretas. Isto de certa
forma nega a afirmação anterior que as técnicas             Abstract:
de gerenciamento da cadeia de suprimentos não
podem trazer uma nova forma de competição.                      The present article studies a modern
                                                            technique of administration known as “Supply


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Chain Management”. This technique consists in                  6 - BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
that the component companies of a productive
chain join in strategic alliances in the search of             ARIENTI, Wagner Leal. Fordismo e pós-
reduction of logistics costs and stocks levels. The                fordismo: uma abordagem regulacionista.
analysis of this technique is made under two                       ENCONTRO NACIONAL DE ECONO-
focuses: a) the regulation theory; b) structure-                   MIA POLÍTICA, 2., 1997, São Paulo. A-
conduct-acting, with the neoschumpeterian                          nais... São Paulo: PUC, 1997. p. 16-30.
contributions. The regulation theory is exposed in
general, as a counterpoint of the structure-
                                                               BENKO, George. Economia, espaço e globali-
conduct-acting and its main critics. Starting form
                                                                   zação. São Paulo: Hucitec, 1996.
these views it searches answers to two questions
            m
about the i pacts : Will the technique become
                                                               CHRISTOPHER, Martin. Logística e gerenci-
standard among the companies?, Can the
competition patterns be affected by the                            amento da cadeia de suprimentos: estra-
introduction of this technique?. Finally, it                       tégias para a redução e melhoria dos servi-
concluded that both theories need a complete                       ços. São Paulo: Pioneira, 1997.
explanation to the “SCM”.
                                                               CAETANO, José Roberto. A vitória do Brasil
                                                                   velho: a disputa entre cegonheiros e a Ford
Key-Words:                                                         mostra como o país pode ser hostil à
                                                                   competitividade nos negócios. Exame , São
     Capital goods industry; Comparative advanta-                  Paulo, ed. 684, a. 32. n. 6, p. 48-50, mar.
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                                                               COSTA, Achyles Barcelos da. Reestruração
                                                                   produtiva e padrão de organização in-
                                                                   dustrial. Porto Alegre: UFRGS, 1995.
                                                                   (Texto para Discussão, 95/06).

                                                               FRAYER, D. J. The alliance process: an exa-
                                                                   mination of logistics alliances between
                                                                   manufacturers and merchandisers in
                                                                   the grocery industry. Michigan, 1995.
                                                                   Dissertation (Tese de Doutorado) - Michi-
                                                                   gan State University, 1995.

                                                               GORENDER, Jacob. Globalização, tecnologia e
                                                                   relações de trabalho. Estudos Avançados,
                                                                   São Paulo, v. 11, n. 29, p.311-361, jan./abr.
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                                                               GUIMARÃES, Eduardo Augusto. Acumulação e
                                                                   crescimento da firma: um estudo de orga-
                                                                   nização industrial. Rio de Janeiro: Zahar,


Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v. 30, n. Especial 722-742, dezembro 1999                         743
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                                                            dismo e ohnismo: trabalho e tecnologia na
                                                            produção em massa. ENCONTRO NA-
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