A secular história da impressão A secular história da impressão foi muito marcada pela evolução, ora lenta, ora acelerada, dos equipamentos gráficos. É a Johann Gensfleish Guntenberg (1397-1468), nascido na Móguncia (Alemanha), que se deve a criação do processo de impressão com caracteres móveis - "a tipografia". Tanto o seu pai como seu tio eram funcionários da Casa da Moeda do arcebispo de Móguncia, onde provavelmente Johann aprendeu a arte da precisão em trabalhos de metal. Em 1428, Gutenberg parte para Estrasburgo onde fez as primeiras tentativas de impressão com caracteres móveis e passou a divulgar a sua idéia. Nesta cidade teria, em 1442, impresso o primeiro exemplar na sua prensa original - um pedaço de papel com onze linhas. Em 1448 volta para Mogúncia e em 1450 conhece Johann Fust, homem rico que lhe fizera um empréstimo de 800 ducados. Em troca exige-lhe a participação nos lucros da empresa que então formaram e denominaram "Das Werk der Buchei" (Fábrica de Livros). Pouco tempo depois, a sociedade ganha um novo sócio, Pedro Schoffer. Este descobriria o modo de fundir e fabricar caracteres, aliando o chumbo ao antimónio, devendo-se a ele também a criação de uma tinta composta de negro de fumo. Mas é a Gutenberg que a história atribui o mérito principal da invenção da imprensa, não só pela idéia dos tipos móveis mas também pelo aperfeiçoamento da prensa, que até então era utilizada para cunhar moedas, espremer uvas, fazer impressões em tecido e acetinar o papel. Entre os primeiros impressos produzidos estão várias edições do
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"Donato" e bulas de indulgências concedidas pelo Papa Nicolau V. No início da década de 1450, Gutenberg iniciou a impressão da célebre Bíblia de quarenta e duas linhas (em duas colunas). Com cada letra composta à mão e com cada página laboriosamente colocada na impressora, tirada, seca e depois impressa no verso, parece quase impossível que alguém tivesse coragem para começar. Supõe-se que Gutenberg imprimia cerca de trezentas folhas por dia, utilizando seis impressoras. A Bíblia têm 641 páginas e pensa-se que foram produzidas cerca de trezentas cópias, das quais existem cerca de quarenta. Os peritos reconhecem que a Bíblia foi impressa em dez partes, o que significa que Gutenberg deve ter possuído tipos suficientes para imprimir cerca de 130 páginas de cada vez. Em 1455, depois de realizada esta impressão, a sociedade desfez-se por diferenças de interesses e direitos, suscitando-se entre Fust e Gutenberg tal dissidência, necessitando inclusive intervenção judicial. O resultado do julgamento determinou a compensação da dívida. Fust ficou com todo o negócio de Gutenberg: a impressora, os tipos e as Bíblias já completas. Nesse mesmo ano houve a publicação da "Bíblia de quarenta e duas linhas". A tipologia apresentou uma acentuada evolução apenas quatro séculos depois (final do séc. XIX) com a construção do prelo de Stanhope, o primeiro totalmente em ferro. Lord Charles Stanhope (1753-1816), filantropo inglês, concebeu por volta de 1795 um prelo para publicar as suas obras. As suas principais inovações foram a pressão regulável através de um alavanca, as calhas oleadas onde desliza o cofre e a capacidade, dada a sua força de pressão, de imprimir de uma vez só toda a superfície da forma. Devido a um contra-peso no braço (alavanca
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de pressão) regressava automaticamente à sua posição inicial. Com estas melhorias no sistema de prensagem e na entintagem (feita manualmente com as chamadas "balas"), já era possível uma produção de 100 exemplares/hora. A sua difusão no restante continente europeu foi muito rápida. Depois de estar já há algum tempo a serviço do jornal inglês "Times", chega à França em 1814. O escritor e também impressor Honoré de Balzac descreve ao longo das páginas do livro "Ilusões Perdidas", editado em 1837, as transformações e conseqüências da importação para França deste tipo de prelo.
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Apontamentos sobre a história e desenvolvimento da impressão
Jorge Bacelar, Universidade da Beira Interior. Maio 1999 A invenção da imprensa de caracteres móveis é considerada a origem da comunicação de massas por constituir o primeiro método viável de disseminação de idéias e de informação a partir de uma única fonte para um auditório numeroso e disperso. Analisando mais atentamente os fenômenos que constituíram a gênese da impressão com caracteres móveis, verifica-se que esta resulta da confluência de fatores culturais e tecnológicos que se vinham desenvolvendo ao longo dos três séculos precedentes. A cultura da palavra impressa e a tecnologia tipográfica precisaram igualmente de atravessar séculos de mudança após o tempo de Gutenberg até que a massificação se pudesse concretizar plenamente. A história da impressão é longa e complexa. Seria excessivo proclamar a imprensa a causa das mudanças sociais, políticas e psicológicas a que está associada. Mas a ela se deve uma marca indelével em todos os aspectos da cultura européia, ou pelo menos, aceitar-se-á pacificamente que constituiu o instrumento de mudança que permitiu a emergência da ciência, religião, cultura, política e modos de pensares vulgarmente associados à cultura ocidental da era moderna.
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Raízes
tecnológicas
A invenção da imprensa só foi possível pela invenção e refinamento das técnicas de fabrico de papel na China ao longo de vários séculos. Em 105 d.C. os Chineses desenvolveram o papel de farrapos, fabricado com fibras vegetais e trapos velhos, constituindo uma alternativa econômica às pesadas pastas de bambu e cascas de árvores ou ao precioso e dispendioso papel de seda. Os segredos desta técnica foram revelados aos árabes por prisioneiros chineses no século VIII sendo posteriormente introduzidos na Europa nos séculos XII e XIII. Muito antes de Gutenberg, as inovações chinesas nas tintas, impressão xilográfica e impressão com caracteres móveis de argila, tinham já prestado o seu contributo para a divulgação da palavra impressa. Apesar de ter demorado séculos a chegar à Europa, o seu impacto cultural só aqui se fez efetivamente sentir. O uso desta tecnologia de caracteres móveis na escrita chinesa, que emprega milhares de ideogramas, implicava um esforço e um dispêndio de recursos materiais insuportável. Assim, o seu impacto na eficácia da produção só se viria a verificar no ocidente, pela fácil adequação e adaptação dos 26 caracteres do alfabeto latino a esta tecnologia. Algumas teses na historiografia afirmam que o caráter normalizado, seqüencial e linear da tipografia se adaptou admiravelmente ao particularismo ocidental, direcionada para o progresso técnico e para a conquista características que favorecem a mudança rápida e intensiva.
Gutenberg
e
o
momento
histórico
na
Europa
ocidental
As rápidas mudanças culturais que se faziam sentir na Europa desde o
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início do século XV estimularam uma crescente procura (e a necessária produção) de documentos escritos mais baratos. Desde a sua introdução na Europa, no século XII, o papel foi-se afirmando como alternativa viável ao vellum e ao pergaminho, que constituíam à época os meios convencionais de para o registro e transporte da informação escrita. O papel de farrapo foi-se tornando cada vez mais barato e abundante e, simultaneamente, a alfabetização expandia-se. Em parte, os dois processos aceleraram por se estimularem mutuamente. A necessidade de documentação aumentava com o desenvolvimento do comércio, assim como com o aumento da complexidade dos processos de governo e administração política e religiosa. Por seu lado, os processos comerciais mais sofisticados e o número de funcionários necessários para manter em funcionamento as crescentes burocracias políticas, religiosas e comerciais, criaram a necessidade de um sistema de ensino que produzisse esses mesmos funcionários. Para tal era necessária a existência e disponibilidade de material escrito. Durante séculos, os monges copistas garantiram a manutenção e a reprodução dos textos sagrados, mas o mundo secular emergente criou a sua própria versão de copista, surgindo o amanuense profissional. Os novos scriptoria ou lojas de escrita que surgiram, empregariam virtualmente qualquer clérigo letrado que procurasse trabalho. Apesar do seu rápido aumento, os amanuenses não conseguiam dar resposta à crescente procura comercial de livros. Outro potencial campo de negócio era a venda de indulgências, folhas de papel oficial da Igreja, concedendo o perdão pelos pecados cometidos, emitidas a troco de fundos destinados à construção de edifícios e a outros projetos dirigidos para a expansão do seu domínio. De fato, tiragens de 200.000 exemplares já eram vulgares pouco depois das indulgências manuscritas se tornarem obsoletas.
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Gutenberg, ourives na cidade de Mainz, pressentiu o potencial de lucro duma tecnologia que pudesse dar resposta a estes problemas e, para o efeito, contraiu um empréstimo que lhe permitisse desenvolvê-la. Para tal, desenvolveu e adaptou características das tecnologias têxteis, papelaria e de prensagem de uvas já disponíveis na época, mas a inovação mais significativa reside no estabelecimento dos processos de moldagem e fundição de tipos móveis metálicos. Cada letra era gravada no topo de um punção de aço que era posteriormente martelado sobre um bloco de cobre. Essa impressão em cobre era inserida num molde, e uma liga de chumbo, antimônio e bismuto era aí vertida, originando uma imagem invertida da letra que era então montada numa base de chumbo. A largura dessa base variava com a dimensão da letra (por exemplo, a base da letra i não chegaria a metade da largura da base da letra w). Esta característica permitiu enfatizar o impacto visual das palavras e dos conjuntos de palavras, evitando o efeito individualizador das letras, característico do monoespacejamento. Com este princípio estabeleceu-se uma norma de elegância estética e sofisticação para a perfeita e impecável regularidade de uma página impressa. Gutenberg produziu uma Bíblia impressa em latim, que viria a ser o seu trabalho de consagração. Uma tiragem de cerca de 300 exemplares em dois volumes, vendidos a 30 florins cada, ou seja, cerca de três anos do salário de um sacerdote, não foi suficiente, apesar do sucesso da sua invenção, para pagar as dívidas contraídas. A sua oficina foi penhorada, as suas técnicas tornaram-se públicas e para os credores foi transferida a propriedade dos direitos comerciais relativos às Bíblias de Gutenberg. Passadas as resistências iniciais, o clero viu as vantagens do poder da impressão. Indulgências impressas, textos teológicos e mesmo manuais de instruções para a condução de inquisições, tornaram-se instrumentos comuns para a disseminação da influência da Igreja. Mas o reverso da
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moeda também se fez sentir: era muito mais difícil controlar a atividade dos impressores do que tinha sido controlar os copistas, tanto religiosos como seculares, durante séculos. A produção e distribuição de uma variedade explosiva de textos tornaram-se rapidamente impossível de conter. Cópias impressas das teses de Lutero foram rapidamente divulgadas e distribuídas, desencadeando as discussões que viriam a iniciar a oposição à idéia do papel da Igreja como único guardião da verdade espiritual. Bíblias impressas em linguagens vernáculas, em alternativa ao latim, alimentaram as asserções da Reforma Protestante que questionavam a necessidade da Igreja para interpretar as Escrituras - uma relação com Deus podia ser, pelo menos em teoria, direta e pessoal. No plano da fixação das normas da linguagem (ou pelo menos, da escrita) pode-se referir o papel desempenhado por William Caxton, que, em 1476, estabeleceu em Inglaterra a primeira tipografia. Caxton tinha sido um tradutor prolixo, e viu na tecnologia da imprensa de caracteres móveis um excelente veículo para a promoção e divulgação da literatura popular. Verificando que o Inglês padecia de tantas variações regionais que muitas pessoas eram incapazes de comunicar com outras, mesmo dentro do mesmo país, Caxton editou, imprimiu e distribuiu uma variedade de livros, determinando e controlando a soletração e a sintaxe em todos os títulos produzidos na sua oficina, contribuindo assim largamente para a estandardização da língua inglesa, vindo estes procedimentos a ser gradualmente adotados em todos os países onde a tipografia se ia estabelecendo.
A
impressão
e
o
pensamento
moderno
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A revolução científica que viria a questionar as verdades à guarda da Igreja foi igualmente uma conseqüência direta da tecnologia da impressão. O princípio científico da repetibilidade, garantido pela verificação imparcial de resultados experimentais, estabeleceu-se como paradigma, graças à rápida e ampla disseminação, pela imprensa, de reflexões e descobertas científicas. Acelerando a troca de idéias, estimulou a produção de conhecimento científico, contribuindo para o nascimento de uma comunidade científica que funcionasse sem constrangimentos geográficos. Sistematizaram-se assim metodologias e acrescentou-se sofisticação ao pensamento racional. À medida que mais e mais livros se tornavam acessíveis, o corpo de conhecimentos expandiu-se, originando o surgimento de índices e de sistemas de referência cruzada como formas de possibilitar a gestão da informação disponível, bem como para associar criativamente idéias e assuntos aparentemente pensamento filosofia e a distantes que A e sem qualquer o relação. da o Estas inovações no acesso ao conhecimento científico e às estruturas do humano política. acompanharam inovação estabelecimento que caracterizou imprensa na Europa influenciaram igualmente as artes, a literatura, a explosiva Renascimento foi amplificada, e em parte gerada, pela imprensa de caracteres móveis. A rígida estrutura social que determinava o estatuto de cada um em função do seu nascimento e do patrimônio familiar começou a diluir-se, com o surgimento e ascensão de uma classe média intelectual. A possibilidade de modificar o estatuto individual graças à ambição e ao mérito pessoal foi despertando uma incontrolável fome de educação A nos da menos impressão privilegiados desencadeou de uma nascença. revolução nas tecnologia
comunicações que viria a tocar muito fundo nos modos de pensar e nas interações sociais. A impressão, em conjunto com a linguagem falada,
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com a escrita e os meios eletrônicos, é considerada um dos marcos de mudanças fulcrais na história da comunicação e que viriam por sua vez a influenciar as de interação mudanças sociais emotiva e e intelectuais subseqüentes. sensorial. A escrita facilita a A cultura oral passa de geração em geração através de uma atmosfera pessoal interpretação e a reflexão, uma vez que a memorização já não é tão essencial para a comunicação e o processamento das idéias. A história registrada pode ser acrescentada e atualizada ao longo dos tempos. O texto manuscrito originou uma variação nas tradições orais: o hábito comunitário de contar histórias, associando à palavra a expressão corporal, a dança, etc., transforma-se na leitura do texto, por um orador, para o grupo. A impressão, por seu lado, estimulou a procura da privacidade. Livros mais baratos e portáteis levaram à leitura silenciosa e solitária. Esta orientação para a privacidade integra-se num movimento mais amplo de conceptualização e reivindicação de direitos e liberdades individuais, cujo surgimento a imprensa estimulou e contribuiu para divulgar. A impressão impregnou a cultura ocidental com os princípios da estandardização, da verificabilidade e da divulgação de idéias e conhecimentos, a partir de uma fonte, e sua disseminação por muitos receptores dispersos geograficamente. Tal como influenciou profundamente a reforma do pensamento religioso e do método científico, as inovações da imprensa desafiaram igualmente o controlo institucional. A imprensa estimulou a procura e o credo numa verdade fixa e verificável, assim como abriu caminho aos homens para o livre arbítrio e ao direito de escolher individualmente percursos intelectuais e religiosos. Se num primeiro tempo a tipografia constituiu, por si, uma revolução, séculos mais tarde passaria a ser instrumento de revoluções: veja-se
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como exemplo, o papel que a imprensa desempenhou nas colônias inglesas da América, divulgando e defendendo as idéias visionárias que deram forma à Revolução Americana ou, mais tarde ainda, o papel que desempenhou disseminação transformar nos dos aparelhos ideais de o de agitação os e propaganda para a todos movimentos mundo. ideológicos
revolucionários que, a partir de finais do século XIX, se propuseram Até ao século XIX, a tecnologia estabelecida por Gutenberg foi apresentando alguns melhoramentos, mas no essencial mantinha as características dos primitivos prelos do século XV. O fabrico de prelos em aço em vez de madeira, movidos pela energia da máquina a vapor e a alimentação de papel em bobine, em conjunto, contribuíram para o vertiginoso aumento da eficiência da imprensa. Estes avanços tecnológicos permitiram em 1833 a redução para o preço de um penny do jornal diário New York Sun. Para alguns historiadores, esta pennypress constitui o primeiro mass-medium genuíno: nas palavras do seu fundador, Benjamin Day, o seu jornal estava concebido para "apresentar ao público e a um preço acessível a todos, as notícias do dia".
Desenvolvimentos Um grande número
na de
tecnologia inovações
da
palavra
impressa a
tecnológicas
acrescentaram
importância, o caráter e o papel da imprensa na cultura. Monotype e Linotype, métodos mecânicos de fundição e composição de tipos móveis, alternativos à composição manual, foram lançados ainda antes do virar do século (1884 e 1887) e marcaram um salto significativo na velocidade de produção. Os processos de composição passaram por inúmeras transformações com o desenvolvimento da composição
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fotomecânica, que marca o fim da época da composição a quente, ou seja com ligas de metal fundidas, despejadas em moldes para produzir letras, números e sinais, e o início da composição a frio, primeiro pelo recurso à máquina de escrever, que tornou comum e acessível o look da impressão normalizada e, de seguida, à tecnologia fotográfica, depois à eletrônica, ao tubo de raios catódicos e à tecnologia laser. A máquina de fotocópias permitiu finalmente o acesso do documento impresso a todos. Os processadores de texto transformaram as tarefas de edição e trouxeram novas características e flexibilidade aos processos de escrita. A impressão informatizada já percorreu vários degraus evolutivos, desde os primeiros discos de margarida e impressoras de agulhas, até aos atuais e comuns processos de impressão caseiros: jacto de tinta, laser e transferência térmica. Tanto a Internet como as interatividades dos produtos multimídia estão revelando novos métodos para a aplicação e uso da palavra impressa, acrescentando-lhe novas possibilidades culturais. A palavra visível é agora utilizada na interação social em tempo real e para a navegação individualizada em documentos imperativos. É impossível antever o impacto cultural destes novos processos de uso da palavra escrita. A distância histórica é indispensável para uma avaliação dos fenômenos que nos envolvem neste momento, mas é muito provável que este período venha a marcar mais uma transformação radical no uso, importância e caráter da comunicação humana.
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GUTENBERG: A MARAVILHOSA INVENÇÃO Tipos móveis e tinta Um ano após sua volta para Mogúncia, Gutenberg solicita e consegue um empréstimo de 800 florins com Johannes Fust e, muito provavelmente, começa a por em prática, de modo sistemático, a sua invenção. Para a realização do seu projeto, ou seja, a invenção da imprensa com tipos móveis, Gutenberg devia superar três ordens de problemas com relação as três fases nas quais se devia subdividir o processo tipográfico. O êxito do empreendimento dependia da concatenação exata desses três momentos e de seu aperfeiçoamento. E não podemos deixar de ressaltar que na invenção de Gutenberg não havia nada de totalmente novo, já que a descoberta consistia na síntese técnica e no aperfeiçoamento de alguns procedimentos já conhecidos. Tratava-se de inventar um modo eficaz para compor uma página com
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tipos móveis independentes, que é a idéia básica e que se articula, por sua vez, em diversas fases; em seguida era necessário conseguir uma tinta densa que aderisse sem problemas as superfícies metálicas e, finalmente, a colocação de uma prensa de impressão que permitisse abandonar o método do tampão usado nas xilografias. A solução dos dois últimos problemas devia ser, sem dúvida, muito mais simples do que a primeira, que exigia um verdadeiro trabalho de fundição. Michel Clapham descreve do seguinte modo a atividade de uma oficina que poderia ser aquela idealizada por Gutenberg graças ao empréstimo que Fust lhe concedeu: “O trabalho da fundição consistia no preparo dos cunhos, na sua impressão sobre o metal utilizado para as matrizes e no derramamento do metal usado para os tipos de impressão nas próprias matrizes, talvez fabricando antes um determinado número de formas que permitissem a realização de tudo isso. Todas as operações, a exceção do complemento de fundição dos tipos de impressão, deviam ser realizadas antes de se poder compor um tipo, e a primeira delas devia ser a gravação do cunho, cada um colocado na extremidade de uma haste em aço, latão ou cobre de corre retangular. Como naquela época não se dispunha de instrumentos de precisão, devia ser muito grande a dificuldade em se conseguir um alinhamento perfeito dos tipos de impressão com uma série de cunhos gravados a mão e também impressos manualmente nas matrizes, e não dispomos de qualquer tipo de documentação que nos revele como estas dificuldades eram superadas. Contudo, como sabemos que uma matriz devia ser de dimensão e forma idênticas ao do tipo de impressão quando terminado, podemos supor que sobre o cunho, no início liso e esquadrado, fosse traçada, numa de suas extremidades, uma ‘linha’, ou seja, um sulco orientador próximo ao pé da letra. Esta era então desenhada tomandoFabio Velasco – Livros | Apostilas | Video Aulas
se este sulco como base: em volta e dentro de seu perfil, o metal era impresso e retirado com cinzel e lima. Uma vez terminada esta operação, o metal era temperado, e o cunho que dele resultava era idêntico em imagem ao tipo de impressão que se deveria fundir. A etapa seguinte era bater o cunho com um martelo sobre a superfície lisa do metal mais macio usado como matriz. Completada uma série de matrizes, estava realizado o trabalho preliminar da oficina. A operação seguinte consistia na fundição dos tipos de impressão, que depois eram colocados numa vareta para compor. A primeira Fase do trabalho estava concluída quando cada uma das páginas era solidamente bloqueada e uma prova de imprensa era entregue ao corretor ou ao leitor. A prova de imprensa correta era devolvida ao compositor, que afrouxaria os tipos de impressão e faria as correções. A prensa adotada pelos primeiros impressores de Mogúncia não devia ser muito diferente da prensa para a roupa branca. Contudo, por volta de 1450, foi introduzido um importante melhoramento: o ‘tímpano’, um caixilho recoberto de pergaminho, sobre o qual era fixado o papel que se ia imprimir e que era colocado sobre o prelo de forma que o papel descesse exatamente sobre a superfície dos tipos”. A tinta inventada por Gutenberg consistia em um pigmento esmagado e misturado com óleo e linho que tinha a propriedade de aderir perfeitamente as superfícies metálicas, porém é preciso dizer que um preparado do gênero era já usado, há algum tempo, pelos pintores da escola flamenga. Contudo, a complexidade da sua invenção é clara. E embora tivesse absorvido o procedimento de fundição da atividade dos ourives, como ele próprio era, bem como outras etapas do processo, ele tinha sabido coordenar genial e perfeitamente a sua invenção.
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Infelizmente, nenhuma das obras saídas da oficina de Mogúncia leva o nome de Gutenberg no colofão, e isso porque, mais uma vez, está em contenda com seu sócio. “Em 1449 ou 1450 Gutenberg recebeu um empréstimo de 800 florins da parte de Giovanni Fust e deu-lhe em garantia do mesmo a transferência dos seus instrumentos e de sua obra, caso não lhe tivesse restituído a quantia dentro de cinco anos. Após dois anos conseguiu mais 800 florins e, depois, mais 36. Passados os cinco anos, Fust solicitou a restituição dos florins emprestados e mais os respectivos juros, acusando também Gutenberg de ter-se servido de uma parte do dinheiro, ao invés de aplicá-lo no trabalho. Gutenberg defendeu-se, mas defendeu-se mal, alegando ter colocado todo o dinheiro na obra e oferecendo-se para restituir 800 florins sem juros. O juiz reconheceu o direito da reivindicação de Fust. A 6 de novembro de 1455, reiniciada a controvérsia entre Fust e Gutenberg, o tabelião Ulrico Helmasperger, de Bamberg, redigia um ato onde consta o juramento com que Fust, além dos testemunhos em seu favor, reafirma e precisa o seu crédito”. Assim, o empresário que fora o primeiro a investir dinheiro na realização da obra tipográfica livra-se do inventor, talvez por demais incomodo, e associa-se a Pietro Schoffer, que tinha aprendido muito bem com o próprio Gutenberg a nobre arte da impressão, e que, como fundidor, parece ter superado o mestre. Da oficina de Fust e Schoffer saem os primeiros livros produzidos mecanicamente com tipos de impressão móveis; porém, devido ao seu notável grau de perfeição, é certo que o próprio Gutenberg já tivesse concluído várias publicações antes do Saltério (livro dos salmos) e da Bíblia de 42 linhas, com as quais já tinha, de algum modo, saldado o empréstimo feito junto a Fust.
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Antes do Salterio, que é datado de 14 de outubro de 1457, já tinham circulado "pequenos impressos, livretes, opúsculos, folhas volantes, pelo menos é o que se pode julgar através do pouquíssimo que chegou até nós, assim mesmo em frangalhos e fragmentos: o fragmento do Juízo Universal, um pequeno poema; alguns 'Donatos'; a carta de indulgência de Nicolau V; a Bula contra os turcos; o calendário astronômico do ano de 1448”. O mais antigo exemplo de impressão com tipos móveis é sem sombra de dúvida o fragmento do Juízo Universal, atualmente mantido no Museu Gutenberg de Mogúncia, o qual apresenta os mesmos tipos do calendário astronômico e da Bíblia de 36 linhas. Exatamente por este fato, por encontrarmos os mesmos tipos, progressivamente melhorados e aperfeiçoados nestas três obras, é que fosse possível levantar a hipótese da paternidade de Gutenberg, pois não existia nenhum outro artesão em condições de produzi-los. E parece certo sobretudo que a Bíblia de 36 linhas seja o primeiro trabalho em que se empenhou Gutenberg após o litígio com Fust: como esta obra apresenta os mesmos tipos do Juízo Universal, se bem que aperfeiçoados, também o fragmento, que se julga deverá remontar a 1447, deveria ser obra de Gutenberg. Assim está confirmado que as primeiras tentativas de impressão tipográfica tenham sido realizadas por Gutenberg muito cedo, no final de sua permanência em Estrasburgo, ou tão logo tenha chegado de volta a Mogúncia, sua cidade natal. Por este motivo, podemos afirmar que Fust sabia perfeitamente bem em que coisa estava investindo seu dinheiro, tendo já sob os olhos as incríveis possibilidades lucrativas da impressão com tipos móveis. Também existe uma outra série de documentos cuja
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impressão pode ser atribuída a Gutenberg e que se revelam de grande interesse por motivos que vão além do caráter meramente técnico. Trata-se das “Cartas de indulgência” e do “Apelo contra os turcos”: as primeiras consistiam em uma carta com a qual o Papa Nicolau V concedia indulgência a todos aqueles que tivessem ajudado, através de ofertas, na luta contra os turcos que, em 1453, tinham conquistado Constantinopla e causado a queda do Império Romano do Oriente, e a segunda retomava o tema da cruzada e, com toda a possibilidade, foi impressa por Gutenberg autonomamente, por já estar em crise com Fust. Os dois trabalhos (as Cartas de indulgência, datadas exatamente de 1454 e que consistiam de uma folha solta com o espaço em branco para se acrescentar à mão o mês e o dia, e o Apelo contra os turcos com umas doze páginas) revelam-nos como a nova invenção, além do conhecimento que podiam ter aqueles que foram os primeiros a usá-la, endereçou toda a produção livreira rumo a novas perspectivas. A possibilidade de reproduzir um grande número de cópias idênticas de uma mesma obra criou, de imediato, um novo mercado inimaginável para a técnica dos copistas, mercado este previsível através do aproveitamento da xilografia, que era muito cara e trabalhosa. Portanto, a imprensa não se dirigia mais apenas aos estudiosos, a uma elite de amantes do livro ainda muito restrita. Diz Steinberg: “Fazendo preceder e, depois, colocando ao lado da grande aventura da impressão de um livro a edição de indulgências, calendários e opúsculos sobre discussões de interesse efêmero, os prototipógrafos criaram aquilo que hoje é denominado de ‘impresso comercial’ e com ele Gutenberg e Fust lançaram as bases para a moderna publicidade impressa, que está ligada a produção de grandes quantidades de cartas simples, idênticas,
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feitas livremente numa variedade quase que infinita de combinações: exatamente a característica da invenção de Gutenberg”. A Bíblia de 42 linhas, pelo contrário, é o primeiro livro que sai da oficina de Fust e Schoffer, no ano de 1456, porém, com toda a certeza, o próprio Gutenberg devia ter assistido a toda a preparação da obra. Os tipos de impressão da Bíblia de Gutenberg ou Mazarina, como é comumente denominada, já são muito tratados e apresentam características diversas das publicações precedentes. A procura de uma nova qualidade tipográfica deve ter exigido tanto de Gutenberg como de Schoffer um esforço notável e um demorado trabalho, fato facilmente deduzível através das primeiras páginas de prova, nas quais o número das linhas varia de 41 a 43 antes de se estabilizar em 42; ademais, “uma única página da Bíblia de 42 linhas contém cerca de 2.750 letras; e em algum momento de sua preparação deve ter havido, no mínimo, duas páginas de impressão, duas outras em vias de composição ou correção e outras duas para distribuir, isto é, para serem decompostas novamente em tipos simples com o objetivo de recolocá-los nas caixas dos tipos”. Tudo isto nos permite entender a importância do trabalho realizado tanto pelos três sócios como por toda a oficina, a qual devia dispor de várias prensas e de uma quantidade de artesãos já dotados de uma certa especialização. De qualquer forma, o nome de Gutenberg não aparece oficialmente na publicação de sua obra mais famosa, nem naquelas sucessivas a ele atribuídas, como a Bíblia de 36 linhas ou o Cattholicon, produzidos pelo novo sócio, cujo nome era Hummerey. Na verdade, após todas as vicissitudes judiciárias e a controvérsia com Fust devido aos débitos não pagos, devia parecer muito mais aconselhável,
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tanto para Gutenberg como para seu novo financiador, esconder a presença do inventor da imprensa nas realizações de suas novas obras. Durante o saque a Mogúncia, em 1462, Gutenberg sofreu novamente algumas perdas, como aconteceu com a maior parte da população, e até mesmo Fust viu-se obrigado a fugir para Paris, onde faleceu pouco mais tarde. Enquanto isso, a única tipografia realmente eficiente em Mogúncia continuava a ser aquela já de propriedade única de Schoffer, que tinha se casado com a filha de Fust. Gutenberg, sozinho e cansado, recebeu o primeiro e único reconhecimento oficial de sua obra quando, em 1465, o arcebispo eleitor de Mogúncia concedeu-lhe uma pensão como recompensa por ter mantido o nome de sua cidade natal no alto através de uma grande invenção. Mas a serenidade durou muito pouco e, após três anos, em fevereiro de 1468, Gutenberg faleceu, ignora-se de que doença. De qualquer maneira, até mesmo o último episódio de sua atormentada vida é envolto em mistério para nós, de vez que seus restos mortais desapareceram, assim como foi destruída a sua casa, o palácio dos Gutenberg, que durante quase todo o século XVI, serviu como sede de faculdades universitárias. Gutenberg teve assim o destino de muitos homens que, com sua obra, marcaram o progresso da civilização: aquele de se tornarem símbolos, figuras lendárias, cuja vida, quase sempre normal e sofrida, é difícil de se reconstruir.
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