GESTÃO CULTURAL E CAPITAL SOCIAL

GESTÃO CULTURAL E CAPITAL SOCIAL Luiz Augusto F. Rodrigues agosto 2006 OBS.: O a seguir foi retirado de uma apresentação ilustrada, portanto seu conteúdo está incompleto, além de esquematizado pois –no original- seu sentido é acompanhado de falas orais. A GESTÃO CULTURAL é um campo que busca articular Cultura, Economia e Urbanismo. CULTURA como elemento de coesão social e de fortalecimento das noções de pertencimento e de identidade. ECONOMIA como esfera presente em nosso cotidiano no sentido da obtenção e crescimento de condições dignas de vida social. URBANISMO como conhecimento capaz de reforçar a dimensão pública e a sociabilidade, em direção contrária a uma individualização privada. A Gestão Cultural busca articular atores sociais diversificados e operar em temporalidades diversas. Intimamente ligada ao CAPITAL SOCIAL, ou seja, aos níveis de confiança e coesão social interna aos grupos e destes com outros grupos e instituições. O ser ético não é um técnico da ação nem se limita a descrever o mundo que vê. Estamos “diante da exigência de compreender uma sociedade em que o discurso ético parece impotente para iluminar a significação da ação humana”. (Newton Bignotto, p. 114) Esta apresentação está pautada por três preocupações principais como pano de fundo: as concepções de cultura e de desenvolvimento local e a noção de ética. CULTURA será entendida pelo viés da antropologia do imaginário ao considerar a produção material e imaterial dos homens e grupos a partir de seus valores, comportamentos, sentimentos e desejos, conscientes e inconscientes. DESENVOLVIMENTO LOCAL enquanto oposição à falácia do desenvolvimento iluminista, que cunhou sua trajetória baseada nos desenvolvimentos técnico e econômico que nem sempre –ou muito pouco- refletem as necessidades do desenvolvimento do homem em si, seu bem estar enquanto ser essencialmente coletivo. Creio que estas concepções de desenvolvimento e de cultura ocupam lugares cada vez mais privilegiados nas tentativas de se compreender e estimular o comportamento ético da humanidade. ÉTICA, por sua vez, é entendida aqui por sua vinculação ao pleno exercício do Eu em sua busca de felicidade e em consonância com a percepção de que esta plenitude, necessariamente incorpora o Outro.“Os filósofos gregos sempre subordinaram a ética às idéias de felicidade da vida presente e do soberano bem (...). Hoje, a felicidade não é pensada mais nos termos da moral antiga, mas em termos da eficácia técnica, de consumo”.(Adauto Novaes)CAMPO DA GESTÃO CULTURAL O Produtor (Gestor) Cultural faz a mediação entre o fazer e o usufruir. Esta MEDIAÇÃO envolve, ao menos, três esferas fundamentais. PLANEJAMENTO: de políticas, de instituições, de ações, de projetos, de eventos. ARTICULAÇÃO DE DIFERENTES AGENTES SOCIAIS: Governamentais, Nãogovernamentais, do mercado, Comunitários. OPERACIONALIZAÇÃO: material, física, humana, financeira “O ponto de partida da ética discursiva é o mundo vivido: o lugar das relações sociais espontâneas, das certezas pré-reflexivas, dos vínculos que nunca foram postos em dúvida”. (Sérgio Paulo Rouanet)DIMENSÕES DO CAMPO DA CULTURA Para além das dimensões institucionais dadas ao campo da Cultura, e para além das dimensões que articulam a Cultura com as representações/manifestações sociais, busca-se entendê-la segundo a dimensão do imaginário –portanto, ligada á esfera do desejo. As manifestações humanas e culturais –em se seguindo os pensamentos de base lacanianaarticulam três eixos, e os paradoxos que os articulam, permitindo vincular as instituições, o fazer, as práticas e suas significações e a esfera do desejo (perpassando o universo real, o simbólico e o imaginário): O PENSAR, O AGIR, O SENTIR. “Freud não se afasta de Aristóteles ao pensar a questão do bem e do mal, da felicidade e dos prazeres possíveis dentro dos compromissos impostos pela civilização.” (...) “O que a civilização nos oferece – uma longa vida miserável? Como se Freud cobrasse da civilização (...) a retomada de seu duplo compromisso ético: com a preservação da vida em sociedade e com os prazeres.” (Maria Rita Kehl, p. 262-3)EIXOS TEMÁTICOS CULTURA E GESTÃO CULTURAL DO E NO ESPAÇO CAPITAL SOCIAL LUGAR e NÃO-LUGAR GOVERNANÇA LAZER PARTICIPAÇÃO CULTURA E ECONOMIA DA CULTURA LEIS DE INCENTIVO À CULTURA CAPACITAÇÃO SOCIAL INCLUSÃO SOCIAL SUSTENTABILIDADE CULTURA E GLOBALIZAÇÃO MULTICULTURALIDADE INTERCULTURALIDADE TRANSCULTURALIDADE SOCIABILIDADE “Todavia, há de se convir também que o pluralismo e a tolerância que ele implica são os paradigmas éticos potencialmente mais capazes de assegurar uma convivência humana pacífica de bases sólidas. É por meio de ambos que se torna possível reconhecer os contrários sem julgá-los sob a ótica do antagonismo.” (Nelson Levy, p. 168)Segundo Alain Touraine1, por MULTICULTURALIDADE podemos entender a manutenção da unidade social reconhecendo a pluralidade de culturas e tendo-as em permanente intercâmbio entre atores sociais com visões de mundo diferenciadas (algo que está além da mera coexistência ou convivência). Tal noção rechaça a desigualdade entre culturas: superior, avançada, primitiva ou subdesenvolvida e substitui a noção de preservação cultural pela de equiparação entre diversas culturas. Por fim, o conceito correlaciona-se ao reconhecimento do outro sem a obsessão pela própria identidade, isto é, reconhecer em cada cultura ou grupo seus valores próprios e os universais. O conceito de INTERCULTURALIDADE pressupõe aceitar que as diferentes culturas não são fatos isolados nem se produzem espontaneamente; o que ocorre é o inter-relacionamento entre elas. Observa-se neste processo três tendências: . relações de dominação e não de reconhecimento, o que leva ao desaparecimento de fatos originários; . relações de diálogo e interação significativa, levando à interação; . convivência sem simbiose. “Mandar é uma atividade que envolve atos, relações e sentimentos muito complicados, afetando a humanidade de quem manda e de quem obedece.” (Antonio Cândido, p. 87) Pode-se, ainda, pensar um universo TRANSCULTURAL, no qual as contribuições diversas perdem suas identificações individuais e o que se forma é algo sem pregnância. É como se indivíduos ou grupos entrassem em contato com modos culturais diversos sem que destes se tire qualquer percepção essencial. No processo de globalização interagem simultaneamente atividades econômicas e culturais (mensagens, produtos e bens simbólicos consumidos) dispersas e geradas por um sistema de múltiplos centros O que importa não é a origem geográfica e sim a velocidade com que há esta interação. Por outro lado, e em reação a uma homogeneização cultural (de base norte-americana), tem ensejado o fortalecimento de políticas culturais locais e regionais: fortalecer o “local 1 TOURAINE, Alain. Critique de la modernité Paris, Fayard, 1992. globalizado” em substituição ao “global indiferenciado”. Lembrando, como apontou Fernand Braudel, que as fronteiras culturais nem sempre (ou quase nunca) se justapõem às fronteiras políticas. “A realidade [a partir da Modernidade] passa a existir sob o modo da representação (isto é, pelo modo como é apreendida intelectualmente pelas operações do sujeito do conhecimento) e o saber se preocupa cada vez menos em dizer o que as coisas são e cada vez mais em conhecer como operaram e funcionam.” (Marilena Chauí, p. 350)A REALIDADE BRASILEIRA No contexto brasileiro, marcado pelas exclusões e um forte abismo social, há que se supor algumas necessidades: .de fomentar a sociabilidade inclusiva .de estimular a participação coletiva sustentável .criar estratégias de continuidade de políticas (conselhos de cultura; governança) .de reforçar laços de identidade cidadã. Face a essa realidade, os campos de ação do produtor cultural têm que ser norteados por firmes propósitos e conceituações que busquem: .reconhecer a felicidade como conduta moral que faça a mediação do Eu com o Outro (ÉTICA); .desconstruir da idéia de que o Mercado é o novo centro de nossas “feridas narcísicas” e o objeto de nosso desejo (SUSTENTABILIDADE) .valorizar a capacidade imanente aos grupos sociais de desenvolver seus potenciais de transformação, sem que a cultura seja percebida como elemento estranho ao cotidiano do cidadão comum (CAPITAL SOCIAL). Canal privilegiado de comunicação e interação, é através do espaço da CIDADE que potencialmente a consolidação e as trocas culturais se estabelecem. A maneira como a cidade é percebida, ou levada a ser percebida é transpassada por discursos ideológicos que parecem naturalizar práticas culturais hegemônicas e simplificadoras. CAPITAL SOCIAL está ligado à capacidade de interação entre os indivíduos de um grupo, inclusive com novos participantes do grupo, em diferentes situações (no trabalho, na vizinhança, na sociedade). Envolve a circulação de idéias e a (re)formulação de práticas. Pressupõe reconhecer o outro e os comportamentos, as intenções, valores, conhecimentos que compõem o meio social, e a capacidade de interagir em outros meios. Está intrínseco, nestas relações, compreender o papel das instituições nos meios sociais. Enfim, são as relações entre as pessoas e destas com as instituições –mediadoras destas interações- (clubes, igrejas, empresas, governos, famílias, escolas,...). Envolve as implicações da confiança e da aderência às normas que envolvem os indivíduos em associações locais e em redes, tanto as existentes quanto as potenciais; envolve o espírito gregário e de cooperação no interior dos grupos sociais. O capital social, como visto, aponta para a capacidade dos grupos, e dos indivíduos de um grupo, se reconhecerem e confiarem uns nos outros. É, portanto, um elemento fundamental para o desenvolvimento de projetos coletivos. Está, intrinsecamente, articulado à identidade, à ética, à urbanidade e à democracia cultural e política. LUGAR pode ser entendido como expressão da singularidade, com toda a carga identitária (identidade com e do lugar), afetiva e simbólica que este assume. Marc Augé aponta o conceito de ”lugar antropológico” em substituição à idéia de “lugar da memória”, como trabalhado pelo historiador Pierre Nora. O “lugar antropológico” não está referido à memória, mas às práticas que o mantém. GOVERNANÇA é um conceito que vai além da idéia de governabilidade. Enquanto esta última busca suporte político e econômico, a primeira pressupõe a participação da sociedade em gestões compartilhadas. Arranjos políticos e coligações partidárias podem aumentar a governabilidade. A capacidade técnica e o aporte financeiro fornecem importantes instrumentos de governo, mas não são suficientes. É necessário que haja o envolvimento dos diferentes atores sociais nos processos de elaboração de propostas e de execução de ações. É esse o quadro que vem se fortalecendo a partir dos anos 90. Os processos de redemocratização vieram acompanhados da idéia de se fortalecer e reconhecer os micro poderes. Governos locais, movimentos associativos e organizações não-governamentais vêm buscando estratégias para um caminhar conjunto. A criação de Conselhos é uma dessas estratégias. De nada adianta os governos “concederem” o direito à participação social (via Conselhos Comunitários, Orçamento Participativo, e outros), mas não criar condições amplas para o exercício e continuidade deste direito. Algumas metodologias podem ser apontadas: qualificação do quadro técnico, capacitação da população, estruturação dos equipamentos sociais pertinentes, ou seja organizar uma base técnica e material para o funcionamento dos instrumentos participativos. NÃO-LUGAR pode ser entendido pela ausência de referências com uma identidade própria e com a possibilidade de um relacionamento efetivo entre indivíduo e território. O não-lugar se constitui de espaços de fraca apropriação e relações efêmeras entre as pessoas. Tem menos a ver com cenários padronizados do que com seu oposto, com a espetacularização dos espaços.PARTICIPAÇÃO: É do encontro entre esfera pública e esfera privada que se constrói as subjetividades necessárias para a construção da trama social. É no dia-a-dia e no engajamento entre os diversos agentes que se constituem as nossas representações sociais. A vida pública é um elemento intrínseco à plena construção da vida privada.Creio que nosso desafio, hoje, é alcançar formas que -para além de preservar, democratizar e incentivar modos e práticas culturais diversificados- criem estratégias que reforcem o exercício público e político dos diversos atores sociais, onde todos e cada um possa ser protagonista de si mesmo. Creio, firmemente, que nosso desafio é conseguir constituir redes diversificadas de agentes sociais. O próprio conceito de rede reforça a possibilidade de êxito de qualquer proposta. Rede que se estabelece a partir do comprometimento/envolvimento das mais diversas esferas. É este trabalho de “varejo” que pode efetivamente construir novas possibilidades de caminhos conjuntos. Uma ação que se desdobra nos usuários mais diretos e destes com suas redes mais particularizadas que, pouco a pouco, podem se agregar aos “fios” anteriores. Dessa nova trama se irradiará novos fios (que a ela se unem) e por aí vai.“É preciso ter tempo para ver os rostos e a paisagem. Para se evidenciarem a força e a atmosfera que deles emanam. O drama interior das pessoas, a serenidade dos lugares. Tudo aquilo que não se estampa de imediato”. (Nelson Brissac Peixoto, p. 305) O produtor cultural, assim como todo indivíduo, deve perseguir ações que desconstruam a ruptura histórica deste novo milênio, onde –como afirma Marilena Chauí (p. 347)- “o tempo tornou-se sinônimo de velocidade e o espaço, sinônimo da passagem vertiginosa de imagens e sinais”. Tempo e Espaço como focos necessários a nossa leitura de mundo. À busca de novos ritmos na noção do tempo e de novos micro-cosmos na noção do espaço. Centrado nestas reflexões, pode-se buscar tanto nos atributos urbanos quanto em certos movimentos artístico-culturais a possibilidade de se potencializar a prática cidadã. Como “pano de fundo” dos atributos urbanos suscitados tomarei dois referenciais: a diversidade funcional do espaço público e o pleno uso dos espaços coletivos (em contrária direção a uma espécie de “ágora-fobia”). Tomo dois exemplos que estão em desenvolvimento de pesquisa: CONSERVATÓRIA (a música como elemento de vivência no espaço; turismo cultural e economia da música), e a GALERIA AO AR LIVRE (uma proposta de interação da população com as artes plásticas e com o espaço coletivo como locus de acesso espontâneo à cultura). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DAS EPÍGRAFES: - BIGNOTTO, Newton. As fronteiras da ética: Maquiavel. p. 113-125. - CÂNDIDO, Antonio. A culpa dos reis: mando e transgressão no „Ricardo II‟. p. 87-99. - CHAUÍ, Marilena. Público, privado, despotismo. p.345-390. - KEHL, Maria Rita. A mulher e a lei. p.261-274. - LEVY, Nelson. Uma reinvenção da ética socialista. p. 163-190. - NOVAES, Adauto. Cenários. p. 7-15. - PEIXOTO, Nelson Brissac. Ver o invisível: a ética das imagens. p.301-320. - ROUANET, Sergio Paulo. Dilemas da moral iluminista. p.149-162. In: Ética (organização Adauto Novaes). São Paulo: Companhia das Letras: Secretaria Municipal de Cultura, 1992. 395p. LUIZ AUGUSTO FERNANDES RODRIGUES, Arquiteto/urbanista, doutor em História pela UFF. Professor Adjunto do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense e coordenador do Laboratório de Ações Culturais –LABAC- na mesma Instituição. Professor do curso de graduação em Produção Cultural da UFF desde sua criação em 1996, tendo participado das comissões de estruturação e re-estruturação do curso. Coordenou a extensão de turmas do curso de Produção Cultural no Pólo Universitário da UFF em Rio das Ostras/RJ. É autor do livro Universidade e a fantasia moderna (EdUFF, 2001) e de artigos publicados em periódicos e anais de congressos no Brasil e no exterior. Lidera o grupo de pesquisa Planejamento e gestão cultural cadastrado no CNPq. Atuou como consultor/diretor cultural junto ao Centro Cultural Artístico da Região Oceânica, em Niterói/RJ. Dirige o Pólo Universitário da UFF em Rio das Ostras. Contatos: lafrodrigues@vm.uff.br labac@vm.uff.br (21) 9713.7011

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