Liliane Prata o diario de debora by b7kYW3

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									id-238238840ords64407s1l1g Liliane Prata
O Diário de Débora
Confidencial!
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2003 Liliane Prata
Direitos desta edição reservados à
AMPUB Comercial Ltda.
(Marco Zero é um selo editorial da AMPUB Comercial Ltda.)
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Coordenação editorial: Maria Elisa Bifano
Assistente editorial: Elvira Castañon
Produção gráfica e composição: Vivian Valli
Assistente de produção: Heloisa Avilez
Revisão: Ana Maria Herrera Soares e Maria Aparecida Amaral
Capa e ilustrações: Nik
Impressão: PROL Editora Gráfica Ltda.
3ª reimpressão: 2004
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Prata, Liliane
O diário de Débora / Liliane Prata. - São Paulo : Marco Zero, 2003.
                         d3212911 ISBN       85-279-0351-2



1. Adolescentes - Comportamento sexual 2. Adolescentes (Meninas) - Conduta de vida I.
   Título
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03-2015                                                CDD-869.9803
Índice para catálogo sistemático:
1. Diários ficcionais : Adolescentes (Meninas) :
Literatura brasileira 869.9803

Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Apresentação
Estudar para a prova de matemática, ligar para o Pedro ou escolher uma roupa para a
balada? Esse tipo de conflito faz da vida de Débora uma coisinha atormentada. “Mas boa
demais de viver”, diria Liliane Prata, autora deste Diário, com um sotaque mineiro
delicioso. É desse jeito que ela fala - e desse jeito ela escreve. Gostoso, como se fosse uma
conversa da gente com a gente mesma. O modo como ela conta o dia-a-dia de Débora é tão
natural e espontâneo que eu fico pensando se a Liliane não mentiu para mim quando disse
que não, o livro não era autobiográfico (tá, eu entendo, pegaria mal abrir suas memórias
para tanta gente).
Mas que importância tem isso? Escritora das boas, Liliane é capaz de prender a atenção da
gente com uma história, seja ela verdadeira ou de mentirinha. Foi o que aconteceu comigo
há um ano, quando, por acaso, abri um e-mail desta jornalista de 22 anos. Era um texto
curto, de 50 linhas, e eu me apaixonei. Tinha tudo a ver com a garota que lia a Capricho,
parecia que eu estava ouvindo o depoimento de uma jovem brasileira de 15 anos às voltas
com suas aventuras, preocupações e alegrias. Devorei, mostrei para o Tato Coutinho,
redator-chefe da revista, puxando a sardinha para o meu lado: “Acho que descobri um
talento”. Liguei para a Liliane, conversamos, pedi mais textos e foi assim que entrei em
contato com este livro - ele estava praticamente pronto, esperando para ser editado.
De lá para cá, muita coisa aconteceu. Liliane, que ainda estava na faculdade, se formou,
veio fazer um estágio na Editora Abril, que publica a
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Capricho, e passou a assinar, na revista, a coluna “Quase Nada”. Junto com a coluna do
Antonio Prata (ei, eles não são irmãos, primos ou marido e mulher, como muita gente
pensa), a da Liliane se transformou em uma das preferidas das leitoras.
Bom, chega de falação. Abra logo o Diário e descubra, com todas as primeiras vezes
(primeira paixão de verdade, primeira decepção, primeira traição...) de Débora, por que a
adolescência é muito mais vibrante do que os adultos gostam de fazer acreditar. Inveja
deles.
Brenda Fucuta
Diretora de Redação da revista Capricho
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Minha Ficha
Nome: Débora.
Idade: quinze anos.
Profissão: nenhuma. Quer dizer, eu estudo, né?
Família: meus pais são separados, mas me dou bem com os dois (na medida do possível).
Tenho uma irmã de dez anos, a Bárbara, que é até legal, coitada. Não vou me estender mais
no assunto, porque este é o meu diário, e não o deles.
Altura: 1,61 m (espero crescer no mínimo nove centímetros. Quem sabe posso ser
modelo?).
Peso: segredo de estado.
Personalidade: sou agitada, um pouco histérica, amo sair com as amigas, gosto de dançar,
não adoro, mas também não odeio estudar, adoro ouvir música, falar ao telefone, sou uma
pessoa sincera, amiga e leal.
O que eu amo: sinceridade.
O que eu odeio: falsidade.
Beleza: é claro que eu poderia ser bem mais bonita, mas prefiro pensar que eu poderia ser
muito mais feia. Meu cabelo é cacheado e depende muito do dia. Preferiria que fosse liso.
Também queria não ter celulite nem espinhas.
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Melhores amigas: a Bia, que é do meu colégio, e a Lu, que mudou de escola porque a
família dela alegou motivos financeiros (leia- se: a mãe dela mandou e pronto).
Sonho: conhecer a Disney. Meu pai disse que eu iria quando fizesse quinze anos, mas até
agora nada.
Primeira menstruação: dois anos atrás.
Primeiro beijo: dois anos atrás, também.
Estado civil: solteiríssima. Nunca namorei sério, e não vejo a hora.
Com quantos meninos já fiquei: dez. Não importa se é muito ou pouco, o que importa é que
eu sou seletiva.
Virgindade: sim, sou virgem. Por enquanto.
Ídolo: toda hora muda.
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                                d3212911 JANEIRO




Desenho de uma moça vendo os fogos estourarem com uma taça na mão e do lado uma
garrafa com a anotação Guaraná.
02/01 Segunda-feira, +- 21h
Por motivos óbvios, não escrevi ontem. Certo, não são tão óbvios assim - mas a verdade é
que ninguém, em sã consciência, escreve no primeiro dia do ano. Ainda mais quando o
réveillon foi desastroso como o meu. Não gosto nem de lembrar, mas vamos lá...
Foi no sítio da família da Bia. Até aí, tudo bem, poderia ter sido divertido. Principalmente
porque a Bia tem uns primos lindos, lindos mesmo, e, se eu passei horas me arrumando e
tentando domar meu cabelo foi por eles. Bem, primeira decepção da noite: eles não foram.
Claro, deviam ter algo mais interessante para fazer do que conhecer a encalhada aqui - hoje
faz exatamente duas semanas que eu não fico com ninguém! Talvez dê para perceber só de
olhar, sei lá.
Mas, tudo bem, a festa tinha outros atrativos. A piscina, por exemplo. Combinei com a Bia
que à meia-noite nós pularíamos, e o que acontece? Quinze para meia-noite, minha mãe
liga para lá, pedindo aos pais da Bia que me vigiassem PARA EU NÃO PULAR NA
PISCINA. É incrível, faz duas semanas que eu já sarei da garganta inflamada e minha mãe
ainda se lembra. Não estou falando com ela até agora.
No domingo de manhã deu o maior sol e nadamos muito. Almoçamos lá mesmo e voltamos
à tardinha. O pai da Bia me deixou aqui. Eu queria ter dormido na casa dela, mas minha
mãe falou que eu já estava longe de casa há tempo demais. Ela realmente não se esforça
para fazermos as pazes! Bem, ela provavelmente se esqueceu do episódio da piscina, mas
eu não.
Desenho de duas moças sentadas à mesa com a anotação Eu e Bia, no centro da mesa um
refrigerante Light, fogos estourando no céu - Ano Novo -, uma piscina com um x em cima -
sem piscina.
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Estou pensando na Luciana. Ela falou que ia me telefonar hoje, mas nada. Aposto como o
réveillon dela foi perfeito. Ela tem uns parentes que moram em Recife e sempre vai para lá
no fim de ano. E é cheia de amigos lá, até um tal de Marcos, que é muito fofo. Não o
conheço, mas já vi a foto. Estou supercuriosa para saber se eles ficaram, a Lu está a fim
dele há um tempão... Tomara que tenham ficado e...
Voltei. O telefone estava tocando, era ela! E eles ficaram, olha que bom!!! Ela disse que
está apaixonada e vai ver se pode ficar mais uma semana lá. Estou com saudades dela, mas
tudo bem... Nós conversamos pouco porque ela não tinha mais dinheiro para comprar outro
cartão, e ligar do celular ficaria uma fortuna. Não vejo a hora de ela voltar para me contar
os detalhes.
Bem, hoje é só. Estou morrendo de sono; também, não dormi nada no sítio. Ainda bem que
a Bárbara está na casa da minha tia e vou ficar com o quarto só para mim. Pensando
melhor, não vou dormir, não. Vou aproveitar que ela não está aqui para ficar até tarde no
computador. Quem sabe hoje eu não conheço alguém bem interessante em um chat?
Débora
04/01 Quarta-feira, 15h15
A Bia acabou de me ligar, ou melhor, acabou de me acordar, chamando para ir a uma festa
do clube dela, na sexta. Fiquei superempolgada! Ela é sócia de um clube horrível, mas que
dá essa festa uma vez por mês, chamada “Sexta Super”, e a gente sempre combina de ir,
mas nunca vai. Ah, quem sabe eu conheço algum menino bem perfeito? As chances são
consideráveis, já que no clube dela dá muito garoto bonito. E, infelizmente, garotas
também... Mas, tudo bem, ninguém vai ganhar de mim.
Acho que vou com a calça nova que meu pai me deu, alguma blusa bem justinha e salto
alto. Talvez eu faça escova no cabelo, eu morro de vontade e nunca fiz... Minha mãe fica
me enchendo, dizendo que meu cabelo é lindo, é ótimo e blá-blá-blá, mas eu tenho certeza
de que mais caras chegam na Bia porque o cabelo dela é muitíssimo mais bonito do que o
meu. Vou fazer as contas de quantos meninos chegam em mim com o cabelo normal e com
ele de escova. Aí resolvo se vivo bem com ele cacheado ou não.
Falando em menino, segunda-feira na internet não deu em nada, para
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variar. Se bem que encontrei o Guilherme no ICQ. Ele é da minha sala no colégio e
também é sócio do mesmo clube que eu. A gente conversou por um bom tempo, ele até me
chamou para sair neste fim de semana... O.k., estou exagerando, ele só fez um convite bem
vago, do tipo “vamos ver se a gente sai algum fim de semana, Débora...”. Será que ele está
dando em cima de mim? Espero que não. O Gui é bem legal, mas não me sinto nem um
pouco atraída por ele. Só como amigo, mesmo. Ele até que é bonitinho, mas é muito
galinha e metido, sabe... nada a ver comigo, não dá. Bom, mas também pode ser só
imaginação da minha parte, e ele pode estar querendo sair só como amigo.
Ah, quer saber? Vou convidar o Guilherme para ir ao cinema comigo hoje (só como amigo,
claro!). A mamãe ficou de me levar ao shopping com a Bárbara mais tarde, mas vai ser
meio sem graça ir só com ela, e a Bia vai ao aniversário de um tio... Vou chamá-lo e pronto.
Acho que tenho o telefone dele em algum lugar. Amanhã eu conto como foi!
05/01 Quinta-feira antes do almoço
Nossa, ontem foi um desastre completo! O Guilherme não só não quis ir ao cinema, como
também ficou todo metido no telefone. Acho que ele pensou que eu estava dando em cima
dele. Coitado! Até parece. Nunca mais telefono para ele, e estou pensando seriamente em
tirá-lo da minha lista do ICQ. Eu quase disse, ao telefone, “só estou te chamando como
amigo, tá?”, mas achei melhor não, porque iria parecer que eu estava mentindo. Afinal,
quem avisa uma coisa dessas?
Tudo bem, fui só com a Bárbara mesmo e até que foi divertido. Compramos um sundae
enorme, repleto de calorias. Ainda bem que a raiva que senti da minha mãe no réveillon me
fez esquecer a promessa de emagrecer este ano... Em todo caso, acho melhor eu controlar
meus ímpetos gulosos, senão viro uma baleia e, aí sim, não fico com ninguém. Se a
situação continuar assim, vou esquecer como é beijar na boca! Não vou almoçar nada hoje,
nem comer nada até amanhã para ver se eu perco um quilo até a festa. Quem sabe, né?
Débora
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05/01 Ainda quinta-feira, 22h
Minha mãe brigou muito por eu ter ficado tanto tempo sem comer. Ela descobriu meu plano
de perder um quilo depois de eu ter recusado a torta que ela tinha acabado de comprar.
Tentei mentir, mas estava me sentindo muito fraca e achei até bom ela me obrigar a comer.
O jantar estava ótimo, tinha lasanha... Como não tinha almoçado, repeti duas vezes, ou seja,
voltei à estaca zero.
Anotações - Calorias: 455 + 545 = 1.000 -1.000 = Zero (estaca)
Ela ainda disse que eu não preciso emagrecer nem um grama, que meu corpo está ótimo e
blá-blá-blá. E disse que, em vez de comer menos, eu deveria era me preocupar em tomar
mais água. Ignorei o comentário, mas minutos depois ela veio com uma revista na mão,
com um olhar de vitória. O artigo se chamava “Por que você deve tomar mais água” e,
incrível, estava em uma das minhas revistas! Joguei a revista no chão; eu estava vendo tevê.
Mas, depois que ela foi embora, eu li. Tudo bem, tudo bem, talvez eu passe a tomar mais
água. Mas longe dela, senão ela vai ver e vai ficar toda metida.
Débora
07/01 Sábado, +- 17h
MY FIRST PORRE
Tá bom, tá bom, eu sei que eu não devia... Mas tente entender... Espere, antes de me julgar,
me deixe contar tudo. Mesmo porque, se eu não contar tudo, você não vai saber quem é o
Pedro...
Eu cheguei à casa da Bia às nove da noite, ontem. O pai da Daniela (amiga dela) nos
buscou às dez e fomos para o salão do clube. No carro íamos eu, a Bia, a Daniela e outra
amiga da Bia, a Cecília, que eu ainda não conhecia. Ela é bem legal. Aí a gente chegou,
dançou e tal.
Então, a Bia, a Dani e eu fomos comprar refrigerantes, mas mudamos de idéia no meio do
caminho. Escolhemos um gelado de limão com vodca.
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A mulher que estava no balcão disse que era fraco, então compramos. Fraco? Devia ter
meio litro de vodca naquele troço!
Desenho de uma moça com um copo na mão dentro de uma garrafa fechada com rolha.
Bom, enquanto a Bia e as meninas estavam literalmente pulando e cantando o hino da
França (a Cecília é francesa e tentava ensiná-lo para a gente), uma gracinha de menino
chegou em mim. Nessa hora eu não estava passando muito bem, e não escutei quando ele
disse que se chamava Pedro. Ficamos conversando meia hora, e eu sem saber o nome dele...
até que criei coragem e perguntei. Ele riu... Na verdade, ele riu durante metade da conversa,
perguntando se eu era maluca como minhas amigas estavam parecendo (eu tentei dizer que
não as conhecia, mas nessa hora a Bia me deu um tchauzinho de longe).
Eu senti alguma coisa diferente... Gosto de meninos iguais ao Pedro, que chegam
devagarzinho, de um jeito carinhoso. Odeio aqueles que já vão passando a mão no seu
cabelo, pegando na cintura... Não acredito em amor à primeira vista, mas paixão, quem
sabe... Bem, o caso é que nos beijamos muito. Aliás, o jeitinho fofo dele me deixou
benevolente e eu até deixei ele fazer mais coisas além de beijar... Transar não, claro!!! Aí já
é demais. Tem que ser com um namorado de quem eu goste muito. Então talvez demore,
porque eu nunca namorei. Mas quem sabe ele acabe sendo meu primeiro namorado...
Chegamos às quatro da manhã na casa da Bia. As outras meninas foram embora e eu dormi
lá, como tínhamos combinado. Fui dormir pensando no Pedro... Nós trocamos telefone,
mas ele não me ligou até agora, claro. Eu é que não vou ligar para ele.
Débora
11/01 Quarta à tarde
EEEEiiiii!!!!! Adivinha quem não me ligou até hoje? Quem não deu nem um mísero sinal
de vida? Acertou, o Pedro, lógico (além de todos os meninos da face da Terra).
Fiquei realmente com ódio. Pensei que já tivesse passado da fase de ficar com alguém, me
apaixonar e me iludir, mas vejo que não. Mas achei que ele também tinha gostado! Se ele
realmente gostou, por que não telefona? Que droga!
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Desenho de Débora com uma cara muito zangada ao lado do telefone como quem espera
uma ligação, e ao lado do telefone tem um papel onde está anotado Pedro e o número do
telefone dele.
Bem, acho que já deu para perceber que eu andei chorando. Chorei ontem à noite e hoje de
manhã, mas agora chega. Cansei! O problema é que sempre bate aquela mesma dúvida: e se
ele perdeu meu telefone? E se ele está na casa dele agora, morrendo de tanto chorar, com a
certeza de que nunca mais vamos poder nos falar por culpa dele? Nesse caso, eu deveria
telefonar. Afinal, eu não perdi o número dele. Para falar a verdade, até decorei. Então, por
que eu não ligo? Porque sou uma idiota!
A Bia disse para eu parar de fazer drama e ligar de uma vez. Estou com raiva dela. Eu não
estou fazendo drama, só estou desesperada porque o menino com quem eu mais gostei de
ficar no último mês desapareceu. Ele parecia tão perfeito. Na verdade, acho que não estou
com raiva da Bia, estou é com raiva dele. Mas ele que se dane. Se perdeu meu telefone,
bem feito, é bom que ele sofra para aprender a deixar de ser distraído.
Não fiz nada desde sábado até agora. Só fiquei em casa, ao lado do telefone, esperando ele
ligar. Simplesmente patético. Eu me lembro bem do dia em que fiquei exatamente desse
jeito, mas por causa de outro menino.. que eu conheci em um churrasco (não me lembro do
nome dele agora, mas eu devo ter anotado em algum lugar). Ele ligou? Não. O que eu
ganhei esperando ele ligar? Nada. Eu estou repetindo a mesma burrada? Estou. Então o que
eu sou? Burra!
Ai, que ódio!!!!
Débora
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P.S.: Não fique esperando que eu telefone. Eu não vou telefonar!
13/01 Sexta-feira, não sei que horas da tarde
Antes que me perguntem: não, ele não me ligou. Mas deixa pra lá, estou mais calma.
Nossa, eu estava muito histérica na quarta. Mas nada como um dia depois do outro, não é
mesmo?
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Depois de muita enrolação, a Lu finalmente chega amanhã. Ainda não sabemos direito o
que fazer, mas acho que vamos dar uma pequena reunião na casa dela. Só eu, ela e a Bia.
Nossa, estou morrendo de saudades dela! Era ótimo quando ela estudava no meu colégio.
Fiquei tããão triste quando ela saiu de lá! Mas tudo certo, continuamos amigas. Ela e a Bia
se conheceram há pouco tempo, mas estão se dando bem.
Ela é um ano mais velha do que a gente, o que dá uma diferença enorme em sua
experiência de vida. Olha só: enquanto eu já fiquei com 10 meninos até hoje, e a Bia ficou
com 11, a Lu já ficou com mais de 20 (acho que 22, ou 23). E ela já tinha tomado bebida
alcoólica muito antes da gente (que tomamos na “Sexta Super”, lembra?). Foi a primeira de
nós a menstruar, também (depois fui eu e depois a Bia). Mas eu ganhei um celular
primeiro!
Estou doida para contar para ela da ficada com o Pedro, e também quero ouvir a ficada dela
com o Marcos. Eu queria que a gente se encontrasse no apartamento do meu pai, que é
superespaçoso e tem um quarto só para mim, mas ele acabou de ligar dizendo que começou
a fazer uma reforma no apartamento. Está uma bagunça, cheio de pedreiros passando, com
muito barulho... Para a gente não ficar sem se ver, ele propôs irmos ao cinema hoje, mas eu
não estou muito a fim, sabe? Quero dormir à tarde. Ontem fiquei na internet até três da
manhã, a Bárbara estava boazinha e não ficou reclamando que queria dormir. Eu queria ter
encontrado com o Guilherme, para perguntar por que os homens são todos iguais...
Pensando bem, não ia adiantar nada conversar com ele.
Débora
P.S.: Nossa, acabei de perceber que hoje é sexta-feira 13!!! Talvez o Pedro fosse me
telefonar hoje, mas ficou com medo de dar azar e resolveu esperar até amanhã. Vou acordar
mais cedo!!!
15/01 Domingo, uma hora da tarde
Nossa, acabei de acordar. Ontem foi ótimo, muito legal mesmo. A Bia passou aqui e a
gente foi de ônibus para a casa da Lu, logo depois do almoço. A Lu nem tinha desfeito as
malas ainda, mas estava superanimada, e nós
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ficamos na internet, alugamos um filme hiperengraçado, jogamos Banco Imobiliário (nossa,
fazia ANOS que eu não jogava) e, principalmente, papeamos muito.
Nem acreditei quando vi a Lu: ela tingiu o cabelo de loiro!!! Ela não tinha me contado por
telefone, queria fazer surpresa. Nossa, eu estranhei muito. Fiquei toda sem graça, porque
ela ficava perguntando o que eu tinha achado e nem eu sabia o que eu tinha achado... Aí,
claro, dei a clássica resposta:
- Ah, ficou diferente, né?
Ela não gostou nada do meu comentário e passou a conversar mais com a Bia, que
simplesmente amou o novo visual. Eu achei um saco, então eu não podia não gostar da
mudança? Mas, para o bem de todas, depois de algum tempo eu acabei me acostumando.
Aliás, talvez eu até tinja o meu também. O problema é que como a Lu tem os olhos claros,
ficou supernatural, mas eu não tenho. Então talvez eu passe a usar lentes coloridas também.
Ah, e olha que legal: ela está namorando aquele Marcos. Não sei como vai ser, porque eles
moram em cidades diferentes, mas a Lu disse que também não sabe e mesmo assim está
adorando. Aí eu contei do Pedro, e... elas me encorajaram a ligar para ele. Mas é o tipo da
coisa: e se eu telefonar e ele sair comigo só por causa disso? Pior ainda, e se ele ficar todo
convencido, se achando o máximo? (o.k., o.k., ele é o máximo, mas não precisa saber
disso). Vou ter que pensar muito. Ah, quer saber? Vou telefonar. Eu não vou morrer se fizer
isso, não é? E, além disso, a mamãe e a Bárbara não agüentam mais eu ficar regulando o
telefone, com medo de ele ligar justamente na hora em que elas estão conversando. É isso
mesmo, decidi. Vou telefonar hoje!
Beijos, Débora
17/01 Terça-feira, 17h30
AAAAAAAAhhhhh, ele ligou!!!!! Que felicidade, que felicidade, que felicidade!!!
Acabamos de desligar neste exato momento, ficamos uns vinte minutos no telefone... Ah,
como eu sou uma pessoa feliz!...
Calma, eu explico.
No domingo, depois de almoçar, eu me deitei na minha cama e fiquei pensando no que eu
ia falar com ele ao telefone. Mas aí minha mãe me
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chamou, dizendo que meu pai estava me esperando na sala para a gente sair. Achei um
saco, justo naquela hora... Mas tudo bem, acabou sendo divertido. Agente foi ao shopping,
tomou sorvete, ele me deu uma revista...
Só que, quando ele me trouxe de volta, já passava das nove da noite e eu fiquei com
vergonha de telefonar. Tá, nove horas não é tão tarde assim, mas era a minha primeira
ligação... e vai que o menino é de dormir cedo... Achei melhor esperar segunda-feira.
Eis que segunda-feira chega e o que acontece com a minha coragem? Some!!! Ah, pode
dizer que é frescura, mas eu não consegui. E se ele não estivesse mais a fim? Com que cara
eu ia ficar? Desisti mesmo. Fiquei o dia todo assistindo à tevê e falando com minha prima
Samantha no telefone. Ela acabou de voltar dos Estados Unidos. Como eu não ficava com
sono de jeito nenhum, à meia-noite fui para a cozinha e fiz um bolo. Ele murchou e eu fui
dormir, desiludida da vida.
Bem, mas vamos ao que interessa! Hoje eu acordei às onze e meia, almocei e fui dormir de
novo. Não tinha nada para fazer, mamãe tinha levado a Bárbara ao dentista, eu havia
desistido de telefonar... e então, quando minhas esperanças já não existiam, uma linda voz
masculina me surpreende do outro lado da linha (nossa, essa foi péssima).
- Alô. (Com cara de quem acabou de acordar.)
- Por favor, eu gostaria de falar com a Débora.
- Por dentro eu estava explodindo, mas me controlei. Foi bom ter tomado suco de maracujá
no almoço.
- Sou eu mesma... É o Pedro?
- Que bom que você me reconheceu... Eu estava pensando em você, você disse que ia
telefonar.
Não é lindo? Mas você reparou no detalhe? EU disse que ia telefonar. Que coisa, não? Pena
que eu não possa garantir que ele ficou angustiado todos esses dias, me esperando, como eu
fiquei. Afinal, ele é um menino.
Só sei que estou completamente apaixonada... Ele é tão lindo, tão perfeito. Combinamos de
ir ao cinema depois de amanhã, quando vai estrear um filme ótimo. Mas, mesmo se fosse
péssimo, eu iria... Ah, eu quero conversar com ele, ficar com ele de novo, namorar com ele,
casar com ele, ter filhos com ele e morrer com ele. Eu tenho absoluta certeza de que ele é o
homem da minha vida. Não faço idéia de como vou sobreviver até depois de amanhã, de
tão ansiosa que estou...
Vou fazer escova antes de ir. Aposto que ele prefere cabelo liso. Eu sou louca para fazer
escova, mas sempre fico enrolando, enrolando. Acho que eu
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tenho medo de viciar e aí me tornar escrava de salão de beleza. Não que seja ruim ir ao
salão, mas isso detonaria a minha mesada, que, por sinal, já é uma mixaria.
Desenho de uma nuvem onde Débora está deitada de bruço falando ao telefone, com uns
corações sobre a cabeça e anotado Ele Ligou!!
É simplesmente a primeira vez que eu saio com um menino com quem eu já fiquei - com
todos os outros, eu só fiquei uma vez e tchau. Mas, com o Pedro, é diferente... Tenho
certeza de que a gente vai namorar. Ah, como eu estou feliz! Eu amo o Pedro!!!
Milhões de beijos, Débora!!!!!
20/01 Sexta-feira à noite
O meu cabelo ficou tão lindo com escova! Lisinho, lisinho. E parece que ficou tão mais
hidratado e brilhante! Sem contar que ficou bem mais comprido. Está batendo um dedo
abaixo do final do sutiã. Quando está cacheado, nem encosta lá. Realmente, ficou lindo.
Acho que vou deixar assim para sempre (quer dizer, um dia eu vou lavar, mas aí eu faço
escova de novo, né? O problema é que vou ficar sem dinheiro nenhum).
Ah, a saída com o Pedro? Foi legalzinha. Ah.. sei lá. Não senti aquela coisa que senti na
festa, sabe? A gente se encontrou, ele não viu diferença nenhuma no meu cabelo, vimos o
filme e tal. Rolaram uns beijos no cinema, e depois a gente até saiu de mão dada, mas eu
não senti nada demais. Ele é mais bonito à noite. E é meio sem assunto. Sabe, eu estava
toda empolgada,
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comentando o filme, falando das minhas amigas, e ele só respondia “é...”, “pois é...”. Ah,
ele é muito quietinho. Agente pode até ficar de novo, mas não quero namorar de jeito
nenhum.
O Guilherme me ligou um pouco antes de eu começar a escrever. Eu contei a ele sobre o
Pedro, e acho que ele ficou com ciúmes... Eu começava a falar, e ele mudava de assunto
toda hora. Foi engraçado. Ele perguntou por que eu não tenho ido ao clube, mas nem eu sei!
Acho que é porque ultimamente eu tenho ficado acordada até tarde, e aí dá preguiça de
acordar cedo. Eu disse que vou ver se domingo consigo ir. Vou perguntar para o meu pai se
existe um jeito de eu arranjar convite, assim eu levo a Bia e a Lu, e fica tudo bem mais
divertido.
Acho que vou ouvir um pouco de música, agora. Tomara que o Pedro não me ligue, eu não
sei o que iria falar com ele...
Beijo! Débora
22/01 Domingo +- 18h
EEEiii!!! Nossa, o clube foi ótimo, mas aconteceram muitas coisas estranhas... Coisas que
eu estou tentando entender até agora...
Foi assim: meu pai me pegou às nove da manhã. Ele conseguiu dois convites, mas só a Lu
pôde ir, porque a Bia pegou uma supergripe e está de cama, tadinha. Então passamos na
casa da Lu e fomos.
Chegamos no clube e fomos para o vestiário trocar de roupa. Na hora de pôr o biquíni, levei
o maior sustão: minha celulite aumentou! Tenho certeza de que a culpa é das férias. Estou
ficando mais em casa, tomando refrigerante toda hora... Um horror. Falando nisso, fiquei
chateada com a Lu. Ela fica reclamando de celulite, mas ela não tem nada! Me mostrou a
bunda dela e apertou a coxa, dizendo “aqui, ó. Tá vendo?”. Mas não dá para ver
absolutamente nada. Aí eu apelei e mostrei meu bumbum para ela, e disse: “olha, Lu,
celulite é isto aqui!”, mas ela riu e disse que eu sou uma garota muito feliz, porque não
tenho celulite nenhuma. Tudo bem, ela com a celulite imaginária dela, e eu com a minha de
verdade (é real mesmo, juro!).
Mas chega de falar sobre problemas. Fomos para a piscina e demos de cara com quem?
Guilherme, claro. O clube é grande, estava cheio e eu não esperava me encontrar com ele
tão cedo. Queria ficar um pouco só com a Lu,
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conversando coisas de menina, mas não dava para dispensar o Gui né? Se bem que, no
início, ele estava muito chato e merecia ser dispensado. Ficou implicando com a canga que
eu tinha amarrado na cintura e até tentou tirar... Um saco! Eu quase bati nele.
Aí a gente foi nadar. A Lu só ficou um pouco na piscina, porque estava com medo de que o
cabelo ficasse verde. Meu cabelo já estava sujo, precisando ser lavado, então eu nem me
importei de desistir da escova e cair na água. Resultado: só eu e o Gui fomos nadar,
enquanto a Lu foi jogar vôlei.
Nós dois apostamos corrida de mergulho, ficamos conversando na beira da piscina e eu até
subi no ombro dele, de brincadeira. Foi muito divertido. Mas eu fiquei confusa, será que tá
rolando um clima ou é impressão minha? Eu achava que ele era chato, mas agora mudei de
idéia e até estou achando o Gui bonito. Mas não tenho a menor idéia se ele está a fim de
mim! Quando a gente estava nadando, ele disse que eu fico linda de cabelo molhado e com
o nariz meio vermelho por causa do sol. Mas ele diz tudo meio brincando, fica rindo toda
hora, e aí eu rio também.
O.k., o.k., eu confesso que, por um momento, senti vontade de beijá-lo. Foi quando nós
  dois estávamos com os braços apoiados fora da piscina, bem pertinho um do outro,
  conversando. Nessa hora, eu estava até torcendo para a Lu não voltar logo. Mas depois a
  gente voltou a nadar, e o clima passou. Aliás, nem sei se teve clima. Afinal, a gente só
  estava conversando, e ele nem tentou me beijar, nem nada. Ah, sei lá!
  Bom, depois a Lu voltou e nós saímos da piscina. Almoçamos no restaurante do clube e
  o papai deixou cada um em sua casa (inclusive eu, pois o apartamento dele ainda está em
  reforma) e agora eu estou aqui, com a cabeça toda confusa. A Bárbara pegou um jogo
  muito legal na internet, mas agora eu não estou a fim. Acho que vou ficar ouvindo
  música.
     Sabe o que eu queria, de verdade? Viajar para a Disney. Ontem, eu vi um documentário
     sobre a Disney na tevê e fiquei morrendo de vontade. Mas toda vez que vou falar com
     meu pai, ele só me enrola. Acho que vou acabar indo com trinta anos. Aí, nem vou
     querer mais. Vou é para a Europa, conhecer aqueles museus com quadros malucos, que
     eu não entendo nadinha. Bom, espero que, com trinta anos, eu entenda, né?
   Beijinho, Débora
   21
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24/01 Terça-feira antes do almoço
Ai, estou muito mal... Estou completamente gripada... Mal posso escrever, estou realmente
um lixo. Se eu não fosse uma amiga tão legal, poderia dizer que a culpa é da Bia, pois foi
ela quem me passou a gripe. Também, eu não tinha nada que visitá-la ontem. Mas é que eu
não tinha nada para fazer e, além disso, fiquei com dó por ela estar de cama... e agora estou
aqui, deitada, espirrando, com o nariz entupido, enfim, toda nojenta.
Logo hoje, que é aniversário da minha madrinha e eu queria ir, para ver a Samantha. Ela
disse que trouxe uma blusinha linda para mim, da viagem, e também quer me mostrar as
fotos. Eu disse para a minha mãe que, se eu repousar até a noite, consigo ir, mas ela disse
que eu não vou sair da cama de jeito nenhum. Que saco!
   Melhoras para mim,
   Débora
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26/01 Quinta-feira, 14h17
Estou muito chateada. Acabei de telefonar para a Bia e a mãe dela me disse que ela saiu
com a Luciana. Por que elas não me chamaram? Estou tentando resolver esse enigma até
agora. O que eu fiz de errado? Será que elas estão com raiva de mim? Não é justo. Eu sei
que não fiz nada. Só estou aqui deitada na minha cama, me recuperando da gripe. Que
droga! O que aconteceu? Será que...
Pronto, voltei. Era a Bia no telefone. Ela disse que tinha saído com a Lu para tomar sorvete,
e não me chamou porque eu estava gripada. Aí eu perguntei:
- Ué, Bia, e a sua gripe?
- Ah, eu sarei. De qualquer forma, eu só tomei milk-shake, que é menos gelado.
Desenhos de Débora enrolada numa manta, um termômetro com a anotação 38º de febre,
um milk shake e Lu e Bia dando tchau
Não gostei, não gostei e não gostei. E não sei de onde
22
ela tirou essa idéia maluca de que milk-shake é menos gelado. Mas tudo bem. Eu posso
estar tendo uma crise de ciúme, embora eu ache que elas estão escondendo alguma coisa de
mim. Se elas realmente estiverem fazendo isso, nossa, eu vou ficar muito chateada. Elas são
as pessoas em quem eu mais confio no mundo! Aí eu não vou contar mais nada para elas.
Elas vão ver.
Nossa, como eu estou vingativa! É melhor parar. Talvez isso piore minha gripe, e eu já
estou quase sarando. Aquele chá que minha mãe tem feito é bom mesmo. Acho que vou
pedir mais.
Débora
28/01 Sábado, 19h34
Estou me arrumando. Daqui a pouco vou sair com a Bia e a Lu (dessa vez, elas me
chamaram). A gente vai a um bar bem legal, onde eu já fui uma vez. Lá é cheio de menino
bonito, quase todos mais velhos, e tem muita coisa gostosa para se comer. Minha mãe
encheu um pouco o saco, mas vou dormir na casa da Lu.
Estou um tanto mal-humorada, pois existem dois problemas nessa saída. Primeiro: tenho de
ir bem agasalhada, para não ter uma recaída da gripe, e por isso não posso usar minha
blusinha nova (que é bem decotada nas costas, supersexy). Segundo e mais importante:
tenho quase certeza de que aquelas duas estão escondendo alguma coisa de mim. Vou
perguntar o que está acontecendo e só vou sair daquele bar quando elas responderem!
Tenho que ir, ainda preciso me maquiar. Quando eu fui ao shopping com meu pai, ele me
deu um gloss lindo, da marca que eu queria. Ficou muito bom, realçou minha boca sem
aparecer muito. E aquele rímel marrom que eu comprei no final do ano passado ainda não
acabou, ele fica superbonito. Modéstia à parte, acho que hoje vou arrasar. Estou até
gostando do meu cabelo, ele ficou tão hidratado com o condicionador leave-in que eu
passei! Mas o melhor é que os cachos ficaram mais definidos. Pena que custa tão caro.
Tudo custa caro nesta vida!
   Débora
   23
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29/01 Domingo à noite
Ah, tudo esclarecido! Na hora eu fiquei com raiva, mas agora estou mais calma. No final
das contas, acho até que a nossa amizade ficou fortalecida.
Minha mãe me levou até o bar, e as duas já estavam lá. Nossa, estava lotado, e infelizmente
tinha mais mulher do que homem. Que triste! Mas tudo bem. Sentamos numa mesinha que
ficava do lado de fora, pedimos uma porção de frios e refrigerantes e, antes que eu
começasse com as minhas reclamações, elas explicaram o que estava acontecendo.
Olha só: tanta confusão para me falarem que a Lu estava com vontade de perder a
virgindade com o namorado dela. Fiquei com ódio por ela não confiar em mim! E a
primeira coisa que me passou pela cabeça foi: por que a Bia podia saber e eu não? Afinal,
ela é virgem como eu! Ah, eu me senti tão mal naquela hora. Até pensei em ligar para
minha mãe e dizer que eu não ia mais dormir na casa da Lu. Mas resolvi esperar a
explicação delas que, aliás, foi péssima.
O argumento da Lu foi que ela ficou com medo de eu não entender a vontade dela, já que
eu nunca namorei. A Bia já namorou (um mês, grande coisa) e por isso entenderia melhor.
Achei horrível. Mesmo que eu não concordasse com a decisão dela, eu nunca a julgaria! E
eu não acho que só porque eu nunca namorei eu não respeitaria a vontade dela. Por isso
mesmo, eu disse:
- Lu, eu não acho que só porque eu nunca namorei eu não respeitaria sua vontade.
- Ai, Débora, você tem razão. Desculpa, desculpa!
E ficou me pedindo desculpas um tempão, até eu aceitar. Mas com uma condição, lógico:
que ela jurasse que me contaria tudo quando acontecesse. Ela jurou, e aí ficou tudo bem.
Estou feliz por ela. Deve ser a melhor coisa do mundo transar quando se está apaixonada (o
que nunca vai acontecer comigo, que estou destinada a ficar encalhada eternamente, mas
continuemos). Eu, no lugar dela, esperaria um pouco mais, para conhecer melhor o menino.
Mas ela já conhecia o Marcos bem antes de eles ficarem, já estava a fim dele há um
tempão, por isso, eu nem falei nada. Mas uma coisa eu fiz: disse para não dispensar a
camisinha, de jeito nenhum. Ela disse que vai falar com ele e pedir para ele usar, com
certeza.
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Dormi na casa dela. A gente saiu para comer pizza com os pais dela no almoço e depois
eles me deixaram aqui. Foi bem divertido, só que teve uma coisa: a gente passou a noite
toda falando sobre sexo, antes de dormir, e eu fiquei morrendo de curiosidade (e de
vontade). Parece que é tão bom! Eu até pensei em desistir da minha idéia de transar só com
uma pessoa de quem eu goste de verdade. Mas não tem jeito: eu quero que a minha
primeira vez seja especial, e, para isso, tem que ser com alguém especial. Se eu
desencalhar, claro. Quero que seja super-romântico, sabe? Com alguém que me ame, e não
que só me deseje. Com alguém com quem eu não sinta vergonha de tirar a roupa... Com
alguém que diga “eu te amo” quando tudo acabar e que durma abraçadinho comigo. Ah,
deve ser uma delícia!
Mas fiquei empolgada por ela, mesmo sabendo que a minha primeira vez talvez demore um
pouco. O Marcos mora em Recife, mas tem tios aqui e disse que, logo, logo, vem
especialmente para visitar a Lu. Eles ainda não conversaram sobre sexo e ela disse que ele
não está forçando nem um pouco. Ela quer conversar com ele antes de eles transarem, para
falar sobre camisinha, sobre o que ele sente por ela, essas coisas. Eles estão conversando
dia sim, dia não por telefone, mas eu sugeri que eles falassem sobre isso pessoalmente. É
melhor. Viu? Eu sei dar conselhos sobre sexo!
  Eu prometo, diário, que, quando eu transar, você vai ser o primeiro a saber!
  Mil beijos, Débora
  25
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FEVEREIRO
Desenho de Débora com cara de triste sentada e em sua frente um livro de matemática,
outro de Literatura e um caderno e uma campainha zoando: Triiiiiiiiiimmm
   ½ Quarta-feira, depois de uma coisa estranha
   Acabou de acontecer uma coisa superestranha agora. Eu atendi o telefone e...
   - Oi, meu amor.
   - Hã? Quem é?
   - Nossa, que desprezo, Débora...
   - É você, Pedro?
   - Não, sua desnaturada, aqui é o Guilherme. Quem é esse Pedro aí, hein?
Como o Guilherme é atirado, não é? O pior é que eu quase gostei do que ele fez. Ah, sei lá,
foi engraçadinho, parece que tem alguma coisa entre a gente (mas não tem nada, que fique
bem claro). Acabou que nós conversamos por uns vinte minutos e o papo foi assim,
digamos, meio meloso. Mas tudo bem.
Depois que a gente desligou, fiquei pensando um pouco nele. O Gui é da minha sala e,
apesar de eu só ter admitido agora, é bem bonito (basicamente, moreno, alto e malhado na
medida certa). Mas eu tenho um pouco de antipatia por ele porque ele é simplesmente o
cara mais galinha que eu conheço. Já ficou com metade das meninas no colégio e faz
questão de dar em cima da outra metade. Tudo bem, talvez eu esteja exagerando um
pouco... mas ele realmente já ficou com uma porção, assim como tem uma porção de
meninas apaixonadas por ele.
Mas fique tranqüilo, eu não serei uma a mais na lista dele. Mesmo porque o que eu quero é
um cara sensível, amigo, companheiro, sabe? Eu não vou dizer que gostei desse
telefonema... tá, eu gostei. Mas foi só um telefonema, uma brincadeirinha. Não quero nada
com ele, MESMO. Quero até ver na escola, quando começarem as aulas. Se ele vier cheio
de gracinhas, achando que nós temos alguma coisa, eu sinto muito, mas vou ter que ser
grossa.
Gente, semana que vem é aniversário da Lu. Acabei de me lembrar, que bom. Ah, não,
esquece, é na outra semana. De qualquer forma, preciso comprar uma coisa bem legal para
ela. O problema é dinheiro. Pedi minha mesada para o meu pai hoje, mas ele me enrolou
como sempre. Espero profundamente que ele pare de enrolar na semana que vem, senão
vou ter que pegar dinheiro emprestado com minha mãe (e ela não gosta de me emprestar,
porque eu nunca devolvo).
   Beijo, Débora
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02/02 Quinta-feira à noite
Engraçado, de uma hora para outra, fiquei supernervosa com a volta às aulas. Estou com
medo de agora ser muito difícil, afinal, passei para o primeiro ano do ensino médio. A
oitava série foi tranqüila, apesar do maldito desenho geométrico, que é a matéria que mais
odeio no mundo. Mas agora tudo pode ser diferente... Talvez eu tenha que estudar bastante
e não dê tempo para nada, já pensou? As férias estavam tão boas, mas na próxima segunda-
feira acaba tudo. Como pode acabar rápido assim? Que saco. Amanhã mesmo tenho que ir
ao centro com minha mãe comprar livros, cadernos, etc., além de um par de tênis novo,
porque eu estou precisando.
Mas o pior de tudo é ter que voltar a acordar cedo. Se tem uma coisa que eu AMO é dormir
sem hora para acordar. Agora, aquele despertador irritante vai voltar a encher o saco... Nem
acredito. Aliás, nem quero pensar nisso. Quer saber? Vou é aproveitar esses últimos dias
que me restam e programar um final de semana bem legal. É isso aí, vou telefonar agora
para a Bia e combinar alguma coisa ótima para sábado. E vou ficar com um menino bem
lindo, para compensar o fim das férias!
Mil beijos, Débora
03/02 Sexta-feira, depois de a Lu ligar
AAAhhh, não posso escrever agora! A Lu acabou de me telefonar, e adivinha: ela e o
Marcos transaram (na verdade ela não disse isso, e sim que tinha uma supernovidade para
me contar, mas é claro que é isso). Estou indo para a casa dela agora. Eu tinha combinado ir
ao shopping com a Samantha, mas ela que me desculpe. Nada é mais importante do que
uma de suas melhores amigas ter perdido a virgindade! (Ou melhor, só tem uma coisa mais
importante: quando essa pessoa que perdeu a virgindade for euzinha!!!)
   Fui! Fui! Fui! Débora
   29
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P. S. 1: Não sei se isso vai agradar à Lu, mas depois eu conto tudo, diário! P.S.2: Pensando
   bem, ela não vai saber que eu contei!
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   03/02 Ainda sexta-feira à noite
  Oi! Passei a tarde toda na Lu e voltei agora. Ela me contou tudo: eles realmente
  transaram.
  Ela disse que era para o Marcos vir para cá, ficar na casa dos tios dele, só na semana que
  vem, mas ele resolveu fazer uma surpresa. Apareceu ontem à noite, na casa dela, com
  um buquê de flores (não é lindo?). Depois de terem ido a um barzinho, ela foi para a
  casa dos tais tios, que ficava lá perto. Isso sem os pais dela saberem. Como estava todo
mundo dormindo, já viu... ela disse que rolou supernaturalmente, sem os dois
conversarem a respeito, nem nada. Quando viu, já estava indo.
Ela ficou um pouco convencida e às vezes fez com que eu me sentisse meio pentelha,
mas eu não vou me deixar influenciar por isso. Além disso, eu me lembro direitinho de
quando eu menstruei pela primeira vez: fiquei tratando meio diferente todas as meninas
que ainda não tinham menstruado. Acho que é normal.
Eu também perguntei se o Marcos usou camisinha, e ela respondeu:
- Êêê... claro que sim, né, Débora...
Apesar da grosseria, fiquei feliz. Eu estava preocupada com ela! Hoje os dois vão sair
outra vez, mas a Lu me disse que não sabe se vai querer transar de novo. Disse que não
sabe se está pronta. Confesso que essa eu não entendi. Como ela está pronta para a
primeira e não está para a segunda? Mas eu fingi que entendi essa parte, para ela não
ficar mais convencida ainda.
Um beijo! Débora
04/02 Sábado, 24h15
Ai, estou me sentindo tão sozinha. Posso confessar uma coisa? Estou doida para esse tal
de Marcos ir embora. Graças a ele, a Lu mais uma vez não
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está disponível para sair comigo. Como se não bastasse, a Bia foi para o sítio da tia dela
e só volta amanhã à noite. A Samantha sumiu (ligo para a casa dela e ninguém atende).
Até cogitei telefonar para o Guilherme, mas achei melhor não. Sei lá, sabe? Então.
Já vi que esse final de semana de despedida das férias vai ser horrível. Nada acontece.
Mas sabe o que eu estou pensando? Vou ao clube amanhã com meu pai. Aí eu encontro
o Guilherme, me animo um pouco. É isso mesmo. Vou ligar para o celular do Gui agora,
para combinar tudo.
Débora
05/02 Domingo à noite
Nossa, muito estranho!!! Fiquei com o Guilherme hoje. Não é bizarro? Bem, na verdade,
foram só dois beijos, mas dois beijos bem demorados, e meio escondidos (para o meu
pai não ver). Foi boooom...
Foi assim: eu cheguei no clube às nove da manhã e fui para o vestiário. Constatei que
minha celulite aumentou, mas não fiquei me olhando no espelho por muito tempo. Na
verdade, estava mais preocupada com meu cabelo: estava um lixo! Então o molhei no
chuveiro, para melhorar, e fui para a piscina. Comprei um refrigerante (vai ver que é por
isso que minha celulite só piora), sentei em um banquinho e fiquei esperando que ele
chegasse.
Não demorou muito e ele apareceu. Estava todo simpático e sorridente, como sempre, e
foi logo fazendo um tanto de piadinhas, para variar. O que me irritou foi que ele
perguntou:
- Cadê aquela sua amiga, a Luciana?
  - Ah, a Lu? Não sei. Deve estar com o namorado dela.
  Mas tudo bem. Nadamos muito, tomamos sorvete e fomos jogar sinuca. Foi nessa hora
  que tudo aconteceu...
  A sinuca fica em uma parte isolada do clube, e não tinha ninguém lá, além de nós dois.
  Além disso, é um lugar coberto, sem sol, ou seja, um pouco escuro... (tem luz, mas nós
  não acendemos). Começamos a jogar. Aí o Gui veio com esta:
  - Vamos fazer assim: quem perder paga uma prenda.
  Eu morri de rir, não levei a sério. Jogamos, e eu perdi. Adivinha o que ele quis de
  prenda? Um beijo, lógico!
   - Mas como assim, Gui? Beijo mesmo?
   31
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- Claro, ué. Beijo de verdade.
Aí ele foi chegando pertinho de mim, passou a mão no meu rosto e foi se aproximando.
Nessa hora, é claro, eu já estava completamente arrepiada. Meu coração estava batendo tão
rápido que eu pensei que ia ter um troço. Compreensível, né? Tudo muito inusitado. Sorri
um pouquinho e nos beijamos, um beijo muito bom, nossa... será que eu estaria exagerando
se dissesse que, dos meninos que eu já fiquei, ele é o que beija melhor? Apesar de ele ser
galinha e convencido, tem um beijo meigo e ao mesmo tempo muito sexy. Amei.
Eu fiquei meio sem graça de continuar a jogar, mas ele estava supernormal. Levou
completamente na brincadeira, sabe? Então eu desencanei e voltamos para o jogo. Dessa
vez, eu ganhei. E adivinha o que eu pedi? Acertou. Mas o chato ficou fazendo joguinho,
dizendo que aquilo já estava ficando sério, então eu ri (mas morrendo de ódio) e disse para
deixar para lá. Mas ele acabou vindo, exatamente como na primeira vez, e nos beijamos de
novo. Um beijo demorado, de uns dez minutos. Muuuuito bom. Tesão total, misturado com
nervosismo, estranhamento, tudo.
Aí adivinha o que aconteceu nessa hora? Meu pai chegou dizendo que estava me
procurando... morri de vergonha, mas tenho quase certeza de que ele não viu nada. Fomos
almoçar no restaurante do clube. Chamei o Gui para ir com a gente, mas ele disse que ia
jogar futebol com um amigo dele que tinha aparecido lá, um tal de Astroldo. Apesar do
nome, o menino é muito lindo.
Depois do clube, vim para a casa da minha mãe. E agora estou superconfusa... como será
que vai ser amanhã, na aula? Eu não sei como eu queria que fosse. É estranho ter ficado
com o Gui, e mais estranho ainda eu ter gostado. Não esperava ficar com ele, sério... e,
agora, não tenho a mínima idéia de como vai ser. Vou tentar não pensar nisso. Uma coisa é
certa: não vou me apaixonar. Quem estuda naquele colégio sabe muito bem quantos
corações aquele garoto já partiu (é brega, mas é verdade) e eu vou pôr na minha cabeça que
foi só uma ficada, nada mais do que isso. Aliás, uma ficada de brincadeira. E só.
  Acho melhor ir dormir, pois amanhã a rotina de acordar cedo volta...
  Beijinho, Débora
  32
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06/02 Segunda-feira depois do almoço
Credo, como estou cansada! Estou morrendo de sono e, por isso, vou escrever apenas
durante o tempo em que o pudim que minha mãe está fazendo não fica pronto. Depois de
comer uns três pedaços e me arrepender de não ter comido menos, vou dormir a tarde
inteira.
O primeiro dia de aula até que foi legal. Aquela coisa de sempre, sabe: professores que
parecem ser hiper-legais, mas que na verdade só estão escondendo sua verdadeira
personalidade (até nós descobrirmos como eles são de fato, daqui a mais ou menos um
mês), uma turma que parece ser perfeita (mas aí eu me lembro de como aquela menina é
chata e como aquele garoto irrita) e, claro, uma aluna novata, que é superbonita e parece ser
muito simpática (mas que logo, logo se revelará uma metida como algumas insuportáveis
da sala).
Desenhos dos livros de Física, Química, Matemática e História com a anotação: Começam
as aulas!!
O bom é que fiquei na sala da Bia. Aproveitei e revi a Juliana, uma amiga nossa que
desapareceu nas férias. Conversamos muito, e acabei confessando que fiquei com o
Guilherme. Falando nisso, aquele chato não foi à aula. Dei uma olhada nas outras salas,
quando bateu o sinal do intervalo, para ver se ele tinha ficado em outra turma. Mas nada.
Faltou, mesmo. Folgado, né? Mas tudo bem, foi bom porque não tive que me preocupar em
como seria quando nos encontrássemos. Pensando bem, isso não é grande coisa, pois vou
ter que me preocupar amanhã.
Finalmente vou ter biologia, física e química. Vamos ver logo como são essas matérias tão
famosas. Ah, e olha que fantástico: vou deixar de ter desenho geométrico. Não sabia que
essa matéria era só da sétima e da oitava série, e fiquei realmente feliz. Eu quase peguei
recuperação no ano passado por causa dela.
   Ah, o pudim ficou pronto! Minha mãe tá chamando!
   Um beijão, Débora
   33
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08/02 Quarta-feira à tardinha
Estou muito preocupada. Na verdade, estou preocupadíssima. Eu estava vendo televisão
quando a campainha tocou. Era a Lu. Achei estranho ela aparecer de repente, sem avisar
nem nada, e já abri o portão preocupada. Quando ela subiu, confirmei que alguma coisa
estava errada: ela estava chorando. Nem acreditei quando ela me contou. Ela acha que está
GRÁVIDA. Disse que a menstruação está muito, muito atrasada e que isso nunca havia
acontecido. Quase chorei junto com ela. Imagina, a Lu grávida?! Ela é só um ano mais
velha do que eu. Deve ser horrível! Ao mesmo tempo, não entendi. A camisinha tinha
estourado?
   - Não, Débora, a gente não usou camisinha.
   - Mas você tinha falado que...
- Pois é. Eu fiquei com vergonha. Mas a verdade é que a gente foi sem mesmo.
Então a Lu é mais pirada do que eu pensava. Ela realmente pode estar gravidíssima. Fiquei
sem ação, não sabia o que falar para que ela se acalmasse. Acabou que eu tomei uma
atitude e sugeri que a gente fosse à farmácia, comprar um daqueles testes de gravidez e tirar
essa dúvida. Fomos. Chegando lá, adivinha? Nem eu nem ela tínhamos dinheiro (culpa do
meu pai, que não me deu minha mesada até hoje). A essa altura, eu também estava
desesperada. Ela começou a chorar no meio da farmácia e o homem do balcão desconfiou,
disse que nós poderíamos levar o teste e pagar depois. Legal ele, né?
Só que ela não quis fazer o teste aqui em casa. Disse que queria ir para a casa dela, se
acalmar e se preparar para saber a verdade. Ela deve ter chegado há pouco tempo, já que
saiu daqui há mais ou menos meia hora. Eu pedi para ela me telefonar assim que fizer o
teste. Tomara que dê tudo certo.
09/02 Quinta-feira à noite
Tadinha da Lu. O clima na casa dela está péssimo. Ela só me ligou hoje à tarde, quando a
situação aliviou um pouco. Provavelmente, ela vai ficar
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sem poder sair por um bom tempo. A boa notícia é que ela não está grávida. (que ótimo,
não é? Tomara que ela crie juízo agora (nossa, estou falando igualzinho à minha mãe). A
má notícia é que a mãe dela sacou tudo. Ela encontrou o teste no armário da Lu, antes
mesmo de ela fazer, e deu a maior bronca. Perguntou com quem ela tinha transado, onde e
como, e quase matou a Lu por ela não ter se prevenido. O maior interrogatório. Isso no
carro, enquanto a levava para o médico. A Lu falou que não tinha onde enfiar a cara. De
vergonha, de medo, de tudo... Não parava de chorar, a coitadinha. Aliás, até agora ela está
chorando.
O pai dela ficou tão bravo que simplesmente a proibiu de falar com o Marcos, seja
pessoalmente seja por telefone. Fiquei com dó dela, acho que não precisava tanto. Aliás, se
a situação na casa dela continuar horrível assim, acho que vou dar um pulo lá para
conversar com a mãe dela.
Liguei agora para a Bia, e ela já estava sabendo. Combinamos que nós duas iremos juntas
conversar com a mãe dela, caso o clima não melhore. Acho que duas amigas vão ajudar
mais do que uma.
Bem, agora que o susto já passou, vamos mudar de assunto. O Guilherme está insuportável.
Só apareceu no colégio ontem, nem conversou comigo direito. Se me cumprimentou, foi
muito. Fiquei com ódio. Se ele quer ser só meu amigo e ignorar a nossa ficada, problema
dele. Mas o menino não precisa ser grosso, né? Praticamente me ignorou. E descobri que
vamos ficar na mesma sala, olha que ótimo! Eu mereço!
Débora
10/02 Sexta-feira, não sei que hora
Hoje o dia foi até legal. Conversei muito com o Gui na aula, mas está cada vez mais claro
que não vai rolar mais nada entre a gente. Em compensação, estamos mais amigos. Parece
que a ficada aproximou nós dois... É bem legal ter um amigo homem. Apesar de ele ser só
amigo, conversar com ele e com outra menina não é a mesma coisa. Não é que seja mais ou
menos divertido, mas é diferente. Estou adorando isso.
Acho que hoje à noite não vou fazer nada. A Lu, obviamente, não está em clima de sair
(mesmo porque ela está meio de castigo), a Bia está com diarréia (isso mesmo, diarréia), a
Samantha disse que só vai sair amanhã e a Juliana não está em casa. Quem sabe eu poderia
chamar o Guilherme?
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Afinal, somos amigos. Mas, pensando bem, é melhor não. A mamãe vai encher o saco se eu
arrumar um programa agora, já está anoitecendo. Vou ficar em casa mesmo, jogando
alguma coisa no computador com a Bárbara. Além disso, tenho que dar uma estudada. A
professora de matemática já passou um quilo de dever. Ai, que preguiiiiiça...
Débora
   12/02 Domingo depois do almoço
   Novidades! Novidades! Novidades!
Você se lembra do Astroldo? Aquele que de feio só tem o nome? Amigo do Gui, que eu vi
no clube, na última vez que eu fui lá, lembra? Então. Eu estava conversando com o Gui no
telefone, ontem, há mais ou menos uma hora, quando ele tocou no assunto Astroldo. Como
é um nome muito feio, chamemos o garoto de A. Pois é. O Gui me contou que, naquele dia
no clube, o A disse a ele que me acha simplesmente LINDA e que está bem a fim de mim.
Fiquei empolgada e concordei quando o Gui sugeriu que ele dissesse para o A, sutilmente,
que eu também estou meio a fim. Ele vai falar com o garoto hoje mesmo e me dá retorno na
aula.
Mudando de assunto, ontem à noite fui ao teatro com a Samantha, e depois nós fomos a
uma pizzaria, que fica ao lado do teatro. Adivinha uma coisa? Ela me contou que agora é
modelo. Eu quase ri, mas ela jurou que é verdade. Não é estranho? Eu sempre me achei
mais bonita do que ela. Quer dizer, ela tem um cabelo lindo, as sobrancelhas naturalmente
perfeitas e os olhos amendoados, mas é muito magra, não tem nada de peito nem de bunda.
Ei, vai ver que é por isso que ela virou modelo.
Desenho de Samantha sem seios e perna fina
Desenho de Débora com uma coroa na cabeça com a anotação Isso é que é top!!
(Euzinha!!!!)
Eu sei que pode parecer inveja, mas não é nada isso. A questão é que eu sou muito mais eu
do que ela, entende? Sei lá, ela é tão sem sal. O.k., eu tenho celulite, mas pelo menos uso
sutiã 42, enquanto ela não usa nada, com certeza. Mas tudo bem. O que eu acho é que
queria
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ganhar meu próprio dinheiro, fazendo alguma coisa de que eu goste. Aí, quem sabe, eu
finalmente viajaria para a Disney!
Ela vive de mesada, como eu, mas agora pode contar com o dinheiro das fotos. Ela disse
que a agência arranjou uma seleção para o encarte de uma marca e, se for escolhida, vai
embolsar trezentos reais. Já pensou? Tudo o que ela vai ter que fazer é ficar posando por
algumas horas, com umas roupas bem legais, além de ser maquiada e penteada por
profissionais e sair em uma revista que todo mundo lê, vai ganhar trezentos reais.
Tudo bem, eu estou com inveja. E tudo bem, ela é mais bonita do que eu. Tudo bem, tudo
bem, MUITO mais bonita! Que droga! Eu sei que não se deve mentir para um diário, mas o
que mais eu tenho que admitir?
Débora
14/02 Terça-feira, cinco e meia da tarde
Oi! Só estou escrevendo hoje porque o Guilherme só me deu o retorno do A hoje de manhã,
na aula. Quer saber por quê? Porque ontem estava impossível conversar com ele. Claro, a
Carol deu em cima dele a aula inteirinha, e ele ficou todo convencido, andando com ela
para lá e para cá. Ai, eu acho a Carol muuuito chata. Ela é completamente oferecida, já
ficou com todos os meninos da sala, inclusive com o Guilherme.
Tudo bem, vamos às novidades! O Gui deu o meu telefone para o A, e ele disse que vai me
telefonar amanhã. Ótimo, né? Contei para a Bia e para a Ju, e elas também ficaram
superansiosas. Tomara que amanhã chegue logo. Legal ter amigos homens, né? Eles
apresentam homens para você.
Semana que vem vai ter aula só na quinta e na sexta, por causa do carnaval. Ótimo, né? Só
que eu não vou viajar nem nada, porque quero ficar aqui bem quietinha, esperando o A
ligar. Além disso, estou completamente sem dinheiro. Se der para eu pular em algum lugar,
bem, se não der, amém.
Ah, quase me esqueço de contar uma coisa! Hoje na aula, a Patrícia, professora de história,
me pegou escrevendo umas fórmulas de física na carteira. Com compasso, ainda por cima,
e não com a grafite, mas com a ponta seca dele! Resultado: bilhete de suspensão.
Conversei, insisti, expliquei, e ela rasgou o bilhete. Eu só fiz isso porque fiquei muito
desesperada quando soube que ia ter um exercício de física. valendo ponto, no próximo
horário.
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Quer dizer, era um exercício-surpresa, mas estava todo mundo meio desconfiado, já que a
outra turma teve o exercício e contou para a gente na hora do intervalo. Acabou que não
teve nada, e a queimação de filme foi total. Mas tudo bem.
Beijinho, Débora
15/02 Quarta-feira, 19h57
“Se amar é viver entre nuvens, eu quero morar no subterrâneo. 1s”
Débora
P.S.: Não sei de quem é essa frase, mas não é minha.
16/02 Quarta-feira à tardinha
OOOOiiiii!!!! O A me ligou agora há pouco, e foi ótimo. Eu havia esperado a ligação dele
durante a quarta-feira inteirinha (daí aquela frase deprimente). Daí o menino me liga hoje à
tarde, quando eu estava sozinha em casa e já tinha perdido as esperanças.
O A é assim: tem dezoito anos, cabelos e olhos castanhos. É, simplesmente, um GATO.
Usa óculos, tem um corpo de tirar o fôlego de qualquer mortal... e um olhar carente, mas
também muito sedutor.
Conversamos durante uma hora e meia. Ele está fazendo cursinho, vai prestar vestibular
este ano para odontologia. E olha que legal: ele toca violão. Já pensou, ele compondo
músicas para mim? Ia ser muito lindo.
NÃO CONSIGO PARAR DE PENSAR NO A!
Mas não estou apaixonada porque prometi para mim mesma que não me apaixonarei até
julho.
   Débora
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18/02 Sábado de manhã
Ontem à tardinha, liguei para o A. Ele não estava lá e eu fiquei p. da vida. À noite, mesma
coisa: liguei, ele não estava. Fiquei tão triste, mas tão triste, que pensei em desistir dele.
Daí, quem me ligou hoje, e me acordou? O A. AAAAhhhh, que bom que ele ligou. De um
orelhão, por sinal, porque ele estava no centro. Conversamos por vinte unidades e
combinamos ir ao cinema amanhã. Olha que bom, ele odeia carnaval! Não que eu odeie,
mas fiquei feliz porque, se ele gostasse, provavelmente estaria viajando. A sortuda da
Samantha foi para Tiradentes com duas amigas. No começo eu até queria ir e cheguei a
pedir para minha mãe (que disse “não”) e tudo, mas depois eu desisti. Quero sair com o A
no feriado inteirinho!
Falando nele... Nossa, eu penso no A o dia inteiro. Eu gosto muito mais dele do que do
Pedro, nem se compara. O Pedro era uma preocupação, o A é um alívio.
Estou totalmente grudada no Gui. Ontem a gente conversou no colégio e ainda se falou pelo
telefone à noite por um tempão. Eu liguei e:
   - Alô.
   - Oi, Gui!
   - Oi, Deby!
   - Eu estava com saudade, resolvi ligar.
Eu odeio quando ele me chama de Deby, mas é a vida. Ultimamente ele anda com uns
problemas com a família, e, então, eu tento acalmá-lo e fico conversando com ele.
Beijo, Débora
P.S.: Hoje à noite vai ser ótimo. Logo depois do A, a Lu ligou e disse que já pode sair. Não
sabemos o que vamos fazer ainda, mas vai ser ótimo.
19/02 Domingo de madrugada
Estou aqui na casa do meu pai, acabei de chegar. A noitada foi bem
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light, em uma cafeteria nova que abriu no lugar daquele barzinho que faliu (nossa, que
triste! Pelo menos, rimou). Eu e a Lu conversamos tanto, mas tanto, que nem deu muito
tempo de olhar para os lados e ver se tinha muito menino gato.
Ah, mas aconteceu uma coisa: dois meninos simplesmente patéticos chegaram na gente.
Além de feios, eles só sabiam falar “pois é”. Desanimador, eu sei, mas mesmo assim eu vou
reproduzir o diálogo.
- Oooii, meniiinas... eu e o meu amigo podemos nos sentar aqui? Fizemos uma cara de não,
mas eles se sentaram.
  - Seu nome?
  - Débora.
  - Luciana.
  - O meu é Paulo, o dele é Lucas.
Foi aí que começou o desastre. O tal de Lucas disse:
- Pois é, né?
E o Paulo:
- Pois é.
E o Lucas:
- É a primeira vez que vocês vêm aqui?
Eu:
- É.
O Lucas:
- Pois é, gente.
E o Paulo:
- Pois é.
Eu entrei no clima:
   - Sabia que você é muito bonita?
   - Pois é.
   - Pois é, né...
Aaaaarrrghh!!! Acabou que a Lu me puxou, e nós fomos ao banheiro. Quando a gente
voltou, eles tinham sumido, que bom! Ninguém mais incomodou e a gente pôde falar
bastante sobre o A e o Marcos. Eles continuam namorando, olha que fofo! Estão meio que
escondidos, eu achei tão bonitinho... e também combinaram que, depois daquele problema,
só vão transar de novo daqui a algum tempo.
Nossa, estou morrendo de ansiedade para meu encontro com o A... É por isso que ainda não
fui para a cama, não estou conseguindo dormir. Meu pai é que vai me levar ao cinema
amanhã. Eu não disse que vou com
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um menino, lógico, senão ele ia me encher o saco. A mamãe implicou um pouco, perguntou
quem era esse A, e tal, mas tudo bem. Contei tudo sobre ele, menos o nome, é claro. Aliás,
a Lu me pediu a noite inteira para revelar a “identidade secreta” dele. Não, não e não!
Bom, deixa eu ir para a cama logo, senão vou acordar cheia de olheiras e ele não vai me
achar mais linda. Pois é, né?
Beijos, Débora
20/02 Segunda de manhã
Já é quase meio-dia e eu acabei de acordar. Isso é que é feriado! Ainda não inventaram
nada melhor do que dormir até tarde!
O A é um verdadeiro gentleman. Acredita que ele não me deixou pagar nada? Pagou o
cinema, me deu pipoca, pagou o lanche no McDonald’s... Segurou meu casaco, abriu as
portas para mim e me trouxe de carro até aqui na casa do meu pai (essa parte nem mamãe
nem papai podem saber! Eu disse que voltei de ônibus). É estranho, nunca conheci um
menino assim. Acho que é porque ele é mais velho. Vou ficar mais com meninos mais
velhos.
Bem, no balanço geral, foi ótimo. Mas é claro que tinha que ter uma parte ruim: o beijo. Eu
não queria admitir, mas a verdade é que ele beija pessimamente. Eu não acreditei que um
garoto tão mais velho pudesse beijar tão mal. Para começar, procurei, procurei, e não achei
a língua dele. Ela roçou levemente na minha, mas não a ponto que eu pudesse senti-la de
fato. Sem contar que ele não tem a menor noção de ritmo. Tinha hora que ele beijava super-
rápido, e eu nem conseguia acompanhar, e, sem mais nem menos, ele diminuía o ritmo.
Será que eu fui a primeira menina com quem ele ficou? Tomara que não.
Mas o pior mesmo foi o mico que eu paguei assim que a gente se encontrou. Ele já estava lá
quando eu cheguei, e adivinhe qual foi a primeira frase que eu disse...
   - Oi,A!!!
   - A?!
Fui tentar corrigir, mas de tanto chamar o menino de A, esqueci aquele nome horroroso
dele.
   - Posso te chamar de A? É bonitinho.
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- Pode... é bom, assim você não precisa ficar dizendo o meu nome feio.
- Que é isso!!! Seu nome não é feio. Mas A é tão fofinho!
Ah, até que colou, né? Hoje, antes de começar a escrever no diário, folheei as páginas para
ver o nome dele. Já vi. É horrível mesmo.
Bem, então os dois problemas básicos dele são esses: o nome e o fato de ele não saber
beijar. Mas, para não dizer que eu não sou boazinha, vou dar uma segunda chance a ele.
Afinal, tirando o beijo, tudo foi ótimo, me diverti muito e fui muito mimada. Mas o beijo é
uma parte fundamental, né? Assunto resolvido: segunda chance e só.
Débora
22/02 Quarta-feira à noite
O A me ligou hoje, acredita? Achei meio grudento. Conversamos um pouco e eu disse que
tinha que desligar. Parece maldade, mas eu tinha mesmo. Estou cheia de dever de física
para fazer. Fiquei a tarde toda fazendo e ainda não consegui terminar. Eu simplesmente
odeio física! Eu já odiava matemática, e como posso gostar de uma matéria que precisa da
matemática? Que saco. Além disso, só um professor que tem problemas é capaz de dar
dever para fazer no carnaval. Mas agora parei para descansar um pouco.
A Bia também ligou, perguntando se a gente pode ir amanhã ao shopping, para comprar o
presente da Lu. O aniversário dela vai ser no sábado, adorei. Quem está meio sumido é o
Gui. Faz um tempão que ele não me liga, e a gente não tem muito tempo para conversar na
aula. Quer dizer, a gente conversa, mas sempre com mais gente, nunca ficamos só nós dois.
Aposto que o A ainda vai me ligar esta semana querendo marcar outro encontro. Sei lá. Eu
sei que ia dar uma segunda chance, mas desanimei, sabe? É triste sair com alguém e não
sentir tesão quando se beija. Falando abertamente: não senti nada, tesão nenhum, aquele
beijo só me irritou. Acho meio difícil o beijo dele ficar bom de repente.
   Débora
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   23/02 Quinta-feira à noite
   Vou escrever rápido, estou morrendo de sono.
O A ligou de novo, e combinamos sair sábado, no aniversário da Lu. Provavelmente, vai
ser em uma boate. Ele disse que não gosta muito de boates, mas eu disse que eu ia de
qualquer jeito, porque era aniversário de uma amiga minha. Aí ele disse:
- Ah, então tá... qualquer lugar em que você estiver comigo vai ser ótimo.
Grudento, né? Mas, já que eu resolvi dar uma segunda chance mesmo, vamos nessa.
Fui ao shopping com a Bia e compramos o presente. Cada uma ia dar o seu, mas vimos
uma blusinha linda, que é a cara da Lu, mas carésima, então dividimos. Compramos
também só um cartão, e nós duas escrevemos nele. Ela vai amar.
Tchau! Débora
25/02 Sábado depois do almoço
Tô aqui na casa do meu pai. Acabei de chegar do clube. O Gui me ligou ontem, me
chamando para ir ao clube domingo, mas eu disse que não ia rolar acordar cedo depois de
uma noitada. Então fomos hoje. Graças a Deus, não vi o A (já basta ter que encontrar com
ele à noite, né?) e pude me divertir só com o Gui. Nem adianta perguntar se rolou alguma
coisa... somos só amigos MESMO. Eu sei disso, ele sabe disso. Quer dizer, ficamos
fazendo brincadeiras carinhosas, como passar a mão no cabelo um do outro, elogiar o corpo
do outro, já que eu estava de biquíni e ele, de sunga... mas só. Coisa de amigo mesmo. E foi
ótimo, me diverti muito, muito, muito.
Bem, vou indo. Não sei ainda como vou fazer à noite: o A quer passar aqui para me pegar,
mas, se eu for com ele, vou ter que mentir para o papai. Eu poderia pedir para a mãe da Bia
passar aqui, mas vai dar trabalho para ela, né? Ela nem me ofereceu, nem nada. O A
ofereceu. E, acho que vou com ele.
   Débora
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26/02 Domingo à tardinha
Nossa, eu estava tããão linda, ontem! Até eu me achei linda. Fui com uma saia preta que a
Bárbara me emprestou e uma blusinha vermelha muito fofa. Ficou lindo com a sandália de
salto alto que o meu pai me deu.
Foi assim: lá pelas nove da noite, o A buzinou (eu pedi para ele não tocar a campainha).
Dei um beijinho no papai, falei que a mãe da Bia tinha chegado e desci. O A, claro, estava
superlindo, e foi logo me elogiando.
Quando a gente chegou à boate, levei um sustão: a Lu estava com o cabelo pretinho! Ficou
muito bonito, mas ficou estranho. Acho que tenho que me acostumar. A Bia já estava lá,
elas foram juntas e a Bia acabou dando o presente na casa dela. Não gostei muito, mas
parece que a Lu entendeu bem que eu também tinha dado o presente, porque foi logo me
agradecendo. Eu queria ter dado junto com a Bia, mas realmente ia ficar difícil entregar o
embrulho na boate.
Bom, aí a gente foi dançar. Tinha muita gente na nossa mesa (eu só conhecia a Bia, o A e
uma prima da Lu). O A estava meio deslocado, não tinha homem nenhum. Aí a gente
dançou muito, e a essa altura eu já tinha me arrependido completamente de ter ido
acompanhada: quando o A foi ao banheiro, vários meninos lindos chegaram em mim, e eu
não pude ficar com nenhum por causa dele. Sem contar o fato de eu não ter conversado
com minhas amigas o tanto que eu queria, porque o A toda hora ficava me puxando.
Desenhos da Bia sentada sozinha à mesa com cara de triste, Débora sentada próxima
fugindo do beijo de um rapaz que deve ser A e no fundo dois rapazes olhando, com a
anotação Gatos
Mas, agora, vamos à parte triste da coisa: o beijo dele não melhorou nada. Nosso primeiro
beijo rolou longe das meninas, quando nós dois saímos da pista e fomos tomar alguma
coisa. Quando finalmente ele me beijou, foi horrível. Sem língua, sem tesão, sem ritmo,
sem nada.
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Resultado: acabou. Desisti completamente. Não falei isso para ele ainda, prefiro falar por
telefone. Ele é muito sem sal, sem atitude, sem nada, credo! E sabe o que é pior? Parece
que ele está apaixonado por mim.
- Você é diferente, Débora. Você é doce, meiga, e ao mesmo tempo esperta, inteligente.
Isso sem contar que é linda. Quando a gente tá longe, eu fico pensando em você o tempo
inteiro. Queria ter conhecido você antes.
- Você também é ótimo, A.
Como eu não agüentava mais a cara dele, perguntei à Bia se podia voltar com ela. Ela disse
que podia e, quando eu contei para o A que não ia voltar com ele, ele ficou todo triste.
Bem-feito. Ele me irrita!
Mudando de assunto, acredita que o professor de física deu outro dever gigante? Vou fazer
tudo malfeito. Tô morrendo de preguiça.
Débora
28/02 Terça-feira, 14h46
Socorro! Não estou entendendo nada da matéria nova de física. Não estou exagerando. É
grego para mim. E o pior é que parece que a sala inteira entende grego. Eu, não. Sou
normal.
O pior é que vai ter prova de física na semana que vem. Doze pontos! Horrível. Estou
desesperada. A Juliana me acalmou um pouco hoje na aula, ela é ótima em física e se
ofereceu para me ajudar. Vamos estudar amanhã na biblioteca. A Bia vai também, ela não
está entendendo direito, mas está melhor do que eu.
Desenho de uma Débora horrível parece uma bruxa, com uma espinha gigante!!! E prova
de física Aaaahaaaaa!!!!
O dia hoje está horrível mesmo. Além do problema de física, apareceu um ponto vermelho
exatamente na ponta do meu nariz. Tomara que não vire uma espinha, que seja só um
cravo. Já pensou? Uma espinha bem amarela na ponta do meu nariz? Não tem lugar pior.
Não quero nem pensar. O resto da minha pele está bom. Mas, se esse negócio virar uma
espinha, ninguém vai reparar no resto.
   Débora
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28/02 Ainda terça-feira, 20h32
Passei a tarde inteira sem olhar no espelho, mas olhei agora. Realmente é uma espinha. Já
está amarela, e não só está horrível como também está dolorida. Não quero nem ver
amanhã. Só não vou espremê-la por dois motivos básicos:
   1) Se eu espremer, minha mãe vai encher minha paciência. Vai vir com aquele discurso:
      não pode espremer, senão inflama, pode marcar sua pele para sempre, e você pode até
      pegar uma infecção e morrer, blá-blá-blá.
   2) Esse negócio de morrer eu não sei, mas que marca, marca. Ainda tenho a marca no
      queixo da última que eu espremi. Acho que vai sumir, mas é chato porque está aí há
      um tempão.
Conclusão: não vou ter que ouvir bronca da minha mãe, não vou ficar com marca, mas vou
desfilar por aí com essa coisa ridícula e amarela no nariz por alguns dias.
29/02
Hoje o dia foi péssimo. Eu só dei vexame. Estou me sentindo mal até agora. E estou com
ódio daquele nojento chamado Guilherme! Mas tudo bem, a culpa foi um pouco minha. Eu
tinha que ir à aula de band-aid? Burra, mil vezes burra.
Foi assim: levantei às seis, como sempre, fui ao banheiro e lá estava ela. Amarela,
reluzente, imensa e exatamente na ponta do meu nariz. Infinitamente maior do que estava
ontem. Quase chorei. Estava cogitando espremê-la, quando dei de cara com uma caixinha
de band-aid dentro do armarinho. Aí a pamonha aqui colou um bem em cima da maldita e
saiu.
A mamãe, no carro, já comentou que eu devia tirar aquele troço. Eu ouvi? Não. Cheguei no
colégio. Primeira pessoa que encontro: Guilherme.
  - Que é isso, Débora?
  - Isso o quê?
  - Esse negócio no seu nariz.
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-Ah, machuquei, Guilherme. Tchau.
- Machucou a ponta do nariz? Ah, Débora, você pensa que eu sou idiota, menina? Debaixo
desse band-aid tem uma espinha bem nojenta, aposto.
- E se for, hein, seu chato? Tchau.
- Tira isso, Débora. Assim tá pior. Espinha é normal.
“Espinha é normal”! Que ódio! Ele pensa o quê? Que tem trinta anos e passa as horas vagas
acalmando adolescentes espinhentas? Ele devia olhar mais para o rosto dele. Além disso,
ele é muito grosso. Não dava para ignorar o curativo? Mas não, ele tem que comentar.
Fiquei me sentindo a menina mais horrorosa da face da Terra. Muita gente comentou,
inclusive a Bia. Fiquei triste e irritada e acabei tirando o band-aid no intervalo. Aí tive que
ouvir pérolas como:
   - Nossa, Débora, que espinhosa, hein? Coitada!
   - Ué, não era machucado?
   - Ah, eu preferia com o band-aid.
Não importa o que minha mãe disser: me recuso a ir à aula amanhã e depois de amanhã.
Essa espinha deve sumir só lá para domingo e, até lá, eu simplesmente não saio mais de
casa. É bom porque aí eu fico estudando física. Aliás, acabou que eu convenci a Bia e a Ju a
estudarem comigo aqui em casa, em vez de na biblioteca. Não agüentava mais sair em
público desse jeito. E essa porcaria só cresce.
Ah, por falar em física, continuo sem entender muito a matéria, e qualquer nota acima de
zero na prova vai ser bom. Estou me sentindo completamente estúpida. Tudo o que a Ju
explicava precisava repetir umas três vezes para eu entender. Na hora eu acabei
entendendo, mas, depois que elas foram embora, fui tentar resolver os exercícios sozinha e
não consegui. Fiquei com tanta raiva da espinha, da física, de tudo, que arremessei o
caderno e comecei a chorar.
  Nossa, hoje o dia foi realmente péssimo. Meus pêsames para mim.
  Débora
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MARÇO
Desenho de Débora de biquíni e óculos escuros no sol.
01/03 Quinta-feira, 18h10
O A acabou de me ligar e, finalmente, eu pus um ponto final na nossa história. Imagina que
o coitado estava pensando que a gente estava namorando! Que viagem! Bem que eu
desconfiei. Ele é certinho demais para ficar com alguém sem compromisso nem nada. Aí eu
falei:
-A , deixa eu perguntar uma coisa. O que você acha que a gente é? Tipo, o que a gente é um
do outro?
- Ué, é... namorado.
- Sabe o que é, A? É que nesse exato momento da minha vida, eu não tô a fim de namorar.
Posso sair com você algumas vezes, ficar de vez em quando.
- (Suspiro) Entendi.
- Não fica assim não, tá? Agente continua amigo.
Perfeito, não é? Eu acho que vou escrever um livro, o “mil maneiras de uma garota dar um
fora”. Fui educada e rígida na medida certa, ele entendeu a mensagem e ninguém brigou.
Muito bom.
Agora, sabe o que eu quero? Passar um tempo sozinha, sem ficar com ninguém. Essa fase
começou hoje, depois do telefonema do A e eu estou. sinceramente, adorando.
Descompromisso, coração aberto, amigos, tevê, livros, enfim, uma cuca mais fresca, sem
pensar em meus rolos. Preciso estudar mais também, não quero ir mal na prova de física.
Ah! Chega de confusão! Quero casa e tranqüilidade. Chega de homem para infernizar
minha vida.
Débora
P.S.: Para a minha felicidade, a espinha chegou ao seu ápice hoje de manhã e agora parece
que está diminuindo. Matei aula hoje, mas amanhã acho que já dá para ir.
03/03 Sábado, 14h18
Ei! Nossa, ontem foi muuuito bizarro. Mas foi ótimo. Sabe aquela fase que eu estava
falando na quinta-feira? Então. Ela acabou. Assim como a vontade de estudar física. Fiquei
com o Guilherme de novo.
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Eu sei, eu sei que a gente é só amigo. Mas tente entender... ele é lindo, sexy, gostoso,
divertido... eu estava carente, ele também... foi só por isso que rolou. A gente até se definiu
como “amigos que ficam”. Combinamos ficar nas fases carentes, sem compromisso. Só uns
beijos, amassos e tchau, somos amigos de novo.
Mas deixa eu contar como foi. Na sexta à tardinha, eu estava quietinha no meu canto,
estudando física (eu ainda estava naquela fase). Aí, o telefone toca. Era ele. Conversamos
um tempão e comentamos o fato de não ter nada para fazer à noite. Eu, porque ia estudar.
Ele, porque estava cansado por causa do futebol. Aí a gente chegou à conclusão de que
estávamos parecidos com dois velhinhos, em casa numa sexta à noite, se lamentando.
Conseqüência imediata: combinamos sair. Nada de mais, só um cineminha. Mas aí nos
lembramos de uma boate que - olha que coincidência - nem eu nem ele íamos há um
tempão. Combinamos nos encontrar na frente do banheiro feminino da boate, às dez.
Mamãe me levou, meio a contragosto. Disse que eu precisava estudar e coisa e tal, mas eu
garanti a ela que estudaria no sábado e no domingo.
Assim que entrei lá, vi o Guilherme. Claro que meu coração estava batendo fortão. Afinal,
a situação era estranha, eu meio que sabia que a gente ia ficar. Afinal, dois amigos, às dez
da noite, numa boate? Ele estava muito lindo, todo de preto, meio bad boy, nossa... Aliás, é
isso que ele é. Mas tudo bem. Dançamos muito e acabamos dando um beijo maravilhoso...
não tem lugar melhor para beijar do que uma pista de dança. É fantástico, parece que a
música vai envolvendo, deixando a gente tão empolgada, tão sem pensar... só dá para sentir
uma coisa boa, que não tem muita explicação. Beijar nesse clima é mágico...
Depois fomos para o bar, lá na boate mesmo e tivemos aquela conversa sobre “amigos que
ficam”. Também conversamos muito sobre a vida um do outro, contamos segredos... por
exemplo, eu não sabia que ele já tinha sido apaixonado pela Carol. Ele me contou que, no
ano passado, ficou
Desenhos Pista de dança + Guilherme + beijo perfeito = simplesmente TUDO!!!
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completamente de quatro por ela. Chorou por ela e tudo. Mas o lance deles acabou e ele
disse que não quer saber de uma coisa mais séria com ninguém, agora. Achei tão legal,
porque eu também não estou querendo nada sério.
Lá pelas três horas a gente foi embora. Pegamos um táxi e ele me deixou aqui, antes de ir
para a casa dele.
Bom, acho que essa foi a melhor ficada do ano. Foi profunda, cheia de conversas
interessantes e com beijos maravilhosos... bem legal. O Guilherme é uma pessoa tão legal,
eu espero que a gente seja sempre amigo. Quero ficar velhinha e ainda ser amiga dele,
quero apresentá-lo ao meu marido, quero conhecer a esposa dele... bem, acho que eu tô
começando a viajar um pouco, né? Mas tudo bem.
Beijinho, Débora
05/03 Segunda-feira depois do almoço
Tenho que escrever rápido. Aprova é amanhã e eu ainda não terminei a matéria, apesar de
ter passado o sábado e o domingo estudando. Não pus um pé fora de casa. Mesmo assim,
acho que hoje eu vou ter que dormir bem tarde, para terminar.
Fiquei triste, porque a Bia foi tomar sorvete com a Ju depois da aula e eu tive que voltar
para casa, para estudar. Fiquei morrendo de vontade. Mas tudo bem, amanhã eu finalmente
faço essa bendita prova e posso voltar à vida.
Beijo, Débora
06/03 Terça-feira, 18h
Nossa, ontem eu disse “voltar à vida”? Só se viver for dormir. Eu cheguei da aula tão
cansada, mas tão cansada, que nem almocei. Fui direto para a cama, e só acordei agora.
Mas olha só que boa notícia: acho que fui bem na prova! Vale doze pontos e acho que vou
tirar no mínimo dez.
Acho que mais tarde vou ligar para o Gui. Deu saudade, afinal, ele é meu melhor amigo.
Quer dizer, melhor amigo homem. Acho que hoje eu vou dormir tarde, para ficar na
internet. Dormi a tarde inteira mesmo. Tem
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um tempão que não fico na internet, porque não gosto de dormir tarde e acordar cedo para a
aula, e no fim de semana eu saio... e, se eu conecto antes da meia-noite, mamãe enche o
saco.
Bom, acho que vou indo. Estou sem nada interessante para contar, porque desde sábado eu
só estudo!
Débora
07/03 Quarta, 15h45
Novidade! Novidade! Novidade! Aconteceu uma coisa sensacional ontem, eu tenho que
contar.
Depois que eu terminei de escrever, fiquei vendo televisão com a Bárbara até meia-noite e
aí fui para a internet. Adivinha? Conheci um menino lindo... quer dizer, não sei se ele é
lindo (a gente não trocou foto), mas ele é tão legal, parece ser tão fofo. Nós conversamos
simplesmente até três da manhã. Hoje, para acordar para o colégio, foi um custo... mas
valeu muito a pena, nossa.
O nick dele é Gui, mas o nome é Mateus. Pensei que ele se chamasse Guilherme, mas não.
Ele usa esse nick porque o cachorrinho dele se chama Gui. Não é lindo ele ter um
cachorrinho? Ele tem 17 anos. Amei a idade, não é nem muito mais velho, nem mais novo
(se ele fosse mais novo do que eu, estaria fora de cogitação).
Gostei tanto de conversar com ele... ele é tão sensível, nós falamos de vários assuntos
profundos. Ele acha que fidelidade é tudo, assim como eu acho. Ele quer gostar de alguém
de verdade, nunca namorou sério porque não achou a menina certa ainda... e disse que está
procurando. Olha que fofo! Amei.
Contei para a Bia, na aula, e ela ficou toda empolgada. Disse que eu devia marcar um
encontro. Mas eu vou esperar mais, sabe? Tá uma delícia conhecer ele assim, aos
pouquinhos. Mais tarde vou mandar um e-mail para ele, porque acho que hoje não vai dar
para me conectar depois de meia-noite. Tô morrendo de sono... pensando bem, vou fazer
diferente: vou dormir agora e colocar o despertador para mais tarde. Aí eu posso conversar
com ele um tempão, igual a ontem!
   Beijo, Débora
   53
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08/03 Quinta-feira depois do almoço
Ai, ontem foi óóótimo!!! Eu e o Mateus conversamos um tempão. Foi ainda melhor que
anteontem. Fui dormir às quatro da manhã, mas tudo bem. Eu tinha dormido a tarde
inteirinha. Mamãe não gostou nada. Ela disse que esse meu horário maluco vai acabar com
o meu organismo. A Bárbara gostou menos ainda: custou a dormir, coitada, porque eu não
parava de digitar. Mas foi ótimo. A gente conversou só nós dois, porque ficamos no ICQ.
Fiquei invisível para todo mundo, para conversar só com ele...
Ah, quase que me esqueço de contar o mais legal. Hoje, na aula, eu comentei com o Gui
sobre o Mateus e ele ficou morrendo de ciúme.
- Ah, Débora, conhecer alguém pela internet? Que bobeira.
- Ele é tão perfeito, Gui. Acho até que estou me apaixonando...
- Ele deve ser gay, isso sim. Por que não vai arrumar mulher ao vivo?
Incrível, né? Qualquer coisa é desculpa para um menino falar que o outro é gay. Ele se
veste bem? É gay. É educado? Gay. Que saco! Menino é muito invejoso, credo. Nenhuma
menina sai por aí falando que a Britney Spears é lésbica, que a Sandy é sapatão. Agora,
praticamente todos os meninos dizem que o Tom Cruise e o Brad Pitt são gays. Que coisa!
Beijo, Débora
08/03 Ainda quinta, 19h32
Olha que legal: a Ju acabou de me ligar, me chamando para ir ao sítio dela no fim de
semana. ótimo, né? Já pedi à mamãe e ela deixou. Vai a família da Ju, a Ju (lógico), eu, a
Bia e mais duas meninas da sala que a Ju chamou. Patrícia e Leila. Amei muito! Nós vamos
sábado de manhã, de ônibus. Os pais dela vão deixar a gente na rodoviária e vão de carro, e
ai pegam a gente quando chegarmos lá. Vai ser tããão legal! O único problema é que eu vou
passar o final de semana inteiro sem falar com o Mateus, mas tudo bem.
Vou pedir ao papai um biquíni novo amanhã. Vou voltar de lá moreninha... aposto que o
Gui vai ficar todo ciumento, de novo!
   Débora
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12/03 Segunda-feira, 16h
Oi! Nossa, tudo muito complexo. O fim de semana foi bom e ruim, nem dá para saber o que
predominou.
O lado bom: piscina, claro, conversar com as amigas, churrasco, jogar vôlei... agora, o lado
ruim: a Carol foi. Dá para acreditar? Fiquei com ódio. Ela foi de última hora, porque a
Patrícia não pôde ir. Eu já achava ela chata antes, agora acho insuportável.
Para começar, a menina é uma perua. Fez o maior escândalo no ônibus, cantou, mexeu com
uns meninos que estavam lá... um mico. E chegou no sítio como se fosse a dona do lugar.
Sem contar as roupas dela! No sábado, ela colocou uma blusa que tinha um decote tão
grande que eu me assustava cada vez que via. Como é que alguém pode ter coragem de usar
um troço daqueles? E o assunto preferido dela foi o Guilherme, claro. Perguntou se a gente
estava ficando.
   - Não, Carol. A gente é só amigo.
   - Mas vocês já ficaram, não é?
   - É, já ficamos duas vezes (adorei falar isso).
- Aqui, Débora, não é por nada não, mas ele é meu, tá bom? A gente está passando por uma
fase, entende.... mas ele sempre vai ser meu.
Ai, que ÓDIO!!!!! Quem ela pensa que é? Está escrito o nome do Guilherme na testa dela,
por acaso? Aquela menina é muito metida. Eu quero é que ela se dane. Ela pensa que ele
adora ela, que fica pensando nela o tempo todo, coitada. Ele não
Desenhos com a anotação enquanto isso, no sítio... Ju, Bia duas amigas da Ju e Leila
jogavam vôlei e Eu (Débora) e Carol se alfinetavam.
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está pensando em ninguém, ele não quer ninguém, mas ela não entende isso. É muito
irritante passar mais do que cinco minutos com ela.
Bom, tirando esse clima que ficou entre nós duas, o resto do fim de semana foi ótimo. Os
pais da Ju fizeram um churrasco divino, e eu comi até. Agora estou mais gorda, mas olha
que bom: voltei moreninha, do jeito que eu queria. Passei filtro solar, mas deu para pegar
uma cor bem bonita.
E hoje, na aula, foi bem normal. O Gui não foi, e eu achei péssimo, porque eu queria
mostrar para a Carol como a gente é amigo. Mas tudo bem. Aquela metida ainda vai ver o
que é bom.
O Mateus já não me empolga tanto, mas vou ver se hoje dá para a gente conversar. Acho
que eu queria marcar um encontro logo, logo. Não que se conhecer pela internet seja ruim...
mas é porque eu não estou mais agüentando dormir tarde e ainda receber bronca da mamãe
e reclamação da Bá.
Tchauzinho... Débora
14/03 Quarta-feira, 17h28
Recebi a nota da prova de física! Tirei onze, valendo doze, olha que bom! Fiquei superfeliz.
Liguei para a mamãe depois da aula e falei que eu ia almoçar no shopping com as meninas
para comemorar. Fomos eu, a Bia e a Ju. Eu liguei para a Lu, chamando, porque ela está
meio sumida... mas ela disse que não dava, porque estava cheia de coisas para fazer, e que
me ligava mais tarde. Não ligou até agora. Ela está tão estranha, será que aconteceu alguma
coisa?
O shopping foi superdivertido. Encontramos com o Gui lá, mas ele nem deu muita bola
para mim. Falou que estava com pressa e só. Ai, eu tenho um ódio do Guilherme às vezes!
Estava todo apressado, com cara amarrada. Vai entender!
Combinei com as meninas sair no sábado. Não estou muito a fim de ir para boate, mas até
sábado tudo pode mudar. Tem um lugar muito legal. aonde nunca fui, que tem vários
ambientes. Tem bar, boate, sofazinho e até sinuca e pingue-pongue! Ele se chama Bunny e
eu vou ligar para lá, para ver se menor de idade entra.
   Débora
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16/03 Sexta-feira depois do almoço
Depressão total. O Gui e a Carol voltaram a namorar. Ele me ligou agora, todo feliz,
contando.
- Não é ótimo, Débora? Lembra quando eu disse que gostava muito dela?
- É, mas eu pensei que você já tivesse esquecido...
- Ah, a gente nunca se esquece de quem gosta de verdade, né? Tô tão feliz, cara!
Triste, né? Eu disse que estava feliz, mas achei um saco. Não é ciúme nem nada, eu só não
gosto dela nem um pouco. Pensando bem, talvez seja ciúme sim, mas ciúme de amigo.
Afinal, quero o melhor para ele. Aquela Carol não é boa namorada para ninguém. Ela é
uma chata, metida, perua...
Bom, mas o Guilherme que cuide da vida dele. Afinal, já está bem grandinho. O problema é
dele. Daqui a pouco, vem chorar no meu ombro, aposto. Tomara que, quando ele vier, eu
esteja bem feliz, namorando alguém bem legal. E aí, ele que vá chorar no ombro de outra
pessoa!
Débora
17/03 Sábado à tarde
Daqui a pouco vou me arrumar. Não estou nem um pouco a fim de sair, mas eu já tinha
combinado com a Ju e a Bia. Ah, a gente vai a um barzinho, mesmo. Na Bunny, só maior
de dezoito.
A Lu me ligou hoje, finalmente. Ela está toda triste, porque ela e o Marcos estão brigando
muito. Péssimo, né? Ela disse que eles estão se falando por telefone dia sim, dia não, e que
em quase todos os telefonemas estão brigando. Perguntei se ela queria sair com a gente
hoje, mas ela disse que está bem desanimada e não ia rolar.
Eu também estou bem desanimada. Agora vou ter que ver o casal de Pombinhos todo dia
no colégio. Que saco, o Gui tinha que voltar para a Carol? Eu JURO que não é ciúme. Se
fosse outra menina, eu nem ligava. O problema é que agora ela está completamente
convencida, se achando a
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tal. E o pior é que ela está se achando superior a mim, aposto. Ela disse que ele era dela, e
sabe o que parece? Que eu abaixei a cabeça, disse “tá bom, Carol”, e aceitei a volta dos
dois. Como se eu tivesse perdido, entende? Só que eu nem queria ele. Essa é que é a
verdade.
Bom, vou sair hoje, me distrair. Não falo com o Mateus desde quarta. Ele me mandou um
cartão lindo, e está louco para a gente se conhecer. Eu quero muito ver uma foto dele, mas
fico meio sem graça de pedir. Ah, acabei de ter uma ótima idéia: vou mandar uma foto
minha para ele, sem pedir nada. Ele vai me entender, e aí manda a dele. Esperta, né?
Tchau-tchau! Débora
19/03 Segunda-feira à tarde
Nossa, o sábado foi péssimo... nem tive ânimo para escrever domingo. Foi ruim, mesmo.
Eu quase chorei. Me deu uma coisa, sabe? Uma tristeza... estou tão confusa. Não sei de
mais nada.
Encontrei o Gui no barzinho. Ele estava sozinho, e nós conversamos muito. Foi ótimo, meu
dia melhorou mil por cento depois que nos vimos. Conversamos sobre a vida, sobre
relacionamentos, sobre tudo. Ele disse que simplesmente me adora, que nunca conheceu
ninguém igual a mim. Pensei que ele estava se declarando, mas aí ele veio com esta:
- Você é minha melhor amiga, sabia?
Fiquei acabada. Não adianta mais tentar me enganar: eu estou gostando dele. Gostando
muito, de verdade. Nunca gostei de alguém assim. Eu amo o Guilherme, amo com todas as
minhas forças. Como eu não percebi isso antes? Não consigo parar de pensar nele, quero
estar com ele o tempo todo... até agora não estou acreditando que ele está com a Carol. E
quer saber? Não importa que seja a Carol. Se fosse qualquer outra, eu odiaria,
simplesmente porque sou eu quem tem que estar com o Gui, e mais ninguém!
Não sei quando isso começou. Eu sei que, um dia, eu realmente estava feliz sendo só amiga
dele. Não sei quando as coisas mudaram. Estou tão confusa! E agora, como vai ser? Não
quero o Mateus, não quero ninguém. Só quero o Gui. Eu fico com os olhos molhados só de
pensar nele beijando a Carol, eu não quero que ele beije ninguém...
Estou realmente chateada. O resto da noite foi péssimo, porque a Carol chegou e eles
foram, só os dois, para uma mesa isolada. Eu não tinha
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mais clima para conversar com a Bia. Acabei me abrindo com ela, e tive que me segurar
para não chorar em público... a Bia disse que não acredita que eu estou gostando dele, que
eu não posso fazer isso. Ela disse que ele é um cachorro, que fica com todo mundo, que dá
esperança para toda menina... doeu demais ela ter falado isso. Eu sei que ele não é assim.
Ele seria o namorado mais perfeito do mundo se encontrasse a menina certa. E EU sou essa
menina, tenho certeza. Só falta ele saber.
Ai, Gui, Gui... por que a gente não pode ficar junto? Por que você não percebe que eu te
amo?
Débora
20/03 Terça-feira 18h30
Estou me sentindo muito mal. Nunca gostei de alguém como estou gostando do Gui. É
horrível! Só penso nele, só falo dele. Ele é o menino mais lindo, mais meigo, mais tudo de
bom que existe.
Hoje, conversamos muito na aula. A Carol não foi ao colégio, e a gente passou o intervalo
juntinho, papeando. Naquela hora, eu não estava do jeito que estou agora. Eu estava feliz,
sorridente, tagarela. Estar com ele é a melhor coisa do mundo, e eu só estou admitindo isso
para mim agora. Fiquei me lembrando daquele dia na boate... foi tão bom...
Agora que ele está superbem com a Carol, não está com um pingo de ciúme do Mateus. Eu
até tentei provocar, falando que as nossas conversas estão cada vez mais picantes... falei até
que a gente fez sexo on-line! Tudo mentira. E o pior é que não adiantou nada, porque,
quanto mais eu falava do Mateus, mais ele falava da Carol. Péssimo... e para ele está tudo
muito bem, ele está feliz com ela e me tem como amiga.
Que droga! O que eu faço? Débora
21/03 Quarta-feira. Hora de dormir
Hoje eu abri meu coração para o Mateus. Mandei um e-mail pedindo para ele se conectar às
oito, porque eu estaria lá, e ele se conectou. Fiquei
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umas duas horas conversando com ele. Sorte que a mamãe tinha ido para a casa da minha
vó. Ah, eu precisava, né? Queria desabafar com um homem, pedir uma opinião masculina.
Sabe o que ele disse? Que não pode opinar, porque está apaixonado por mim. Que coisa,
né? Ele apaixonado por mim, e eu apaixonada pelo Gui. Se bem que eu achei um pouco
estranho ele sentir uma coisa tão forte, já que nós nem nos conhecemos pessoalmente ainda.
Falando em pessoalmente, ele recebeu minha foto e disse que me achou superlinda. O
problema é que ele não tem câmera digital nem scanner.
Desenho de Débora com cara de assustada sentada a frente do computador e na tela tem
escrito ICQ Mateus: Eu te amo Débora!
Ah, mas agora eu tenho certeza de que quero o Mateus só como amigo. Fui sincera com ele,
afinal, não quero ficar enganando ninguém. Mas ele disse que prefere ser meu amigo do
que não ser nada meu, e que, por ele, podemos continuar conversando pela internet. Eu
disse que tudo bem. Afinal, conversando com ele, quem sabe eu até esqueça o Gui mais
rápido... se bem que:
   1) Eu acho que não vou esquecê-lo nunca.
   2) Eu nem sei se quero esquecer.
Rápida explicação do item número 2: e se ele também quiser ficar comigo? E se fosse
melhor eu ficar um tempo dando em cima dele até ele se tocar? Ou, quem sabe, eu posso
até me declarar? Não sei ainda. Enquanto não sei, vou continuar amiga dele, é claro... ele
pode contar comigo para qualquer coisa, seja para conversar, seja para se abrir, para contar
os problemas... para beijar, para namorar, para ficar junto para sempre...
Ai, ai! Débora
25/03 Domingo de manhã
Não fiz nada o fim de semana inteiro. Fiquei só em casa, conversando com o Mateus e
vendo tevê. Estou deprimida. Não consigo parar de pensar no Gui. E o pior é que, quando
penso nele, penso nela também. Penso em
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como os dois estão felizes. E em como eu estou aqui, sobrando. A vida é tão triste.
Todo mundo sumiu neste fim de semana. Ninguém me ligou, nem nada. Só o Mateus está
me dando atenção. Ele conversa comigo, diz que a vida é assim mesmo, fala sobre a ex-
namorada dele, que ele custou a esquecer... aí eu...
Voltei! O telefone estava tocando! Adivinhe quem era... o Gui!!! Ai, ele é tão fofo! Disse
que está morrendo de saudades, que eu sumi, que eu não telefono mais para ele... não é uma
gracinha? Só que aí veio a parte ruim: chamei ele para ir ao cinema, e ele disse NÃO. Quer
dizer, ele disse supereducadamente, mas foi péssimo. Disse que só ligou para matar a
saudade mesmo, porque ele estava saindo para ir até a casa da Carol.
   Ai, não tem jeito. Eu amo esse menino!
   Débora
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26/03 Segunda-feira, 17h40
Hoje foi normal. Na aula, não deu para conversar muito com o Gui, para variar. Ele só
ficou com aquela chata. Sabe qual é o problema? Se a Carol sai para ir ao banheiro, para
comprar lanche ou para qualquer outra coisa, ele vem conversar comigo e me trata
superbem. Comenta como eu estou bonita, diz que me adora, enfim, as coisas de sempre. O
problema é que é só a Carol voltar e ele me ignora completamente. Eu sei que eles são
namorados e que, teoricamente, ele precisa dar atenção a ela, mas não precisa me ignorar,
né? Que ódio.
Depois da aula, fui almoçar na casa da Bia. Ela disse que eu preciso ficar esperta, porque o
Gui é muito galinha e fica me usando, me dando esperanças só para eu ficar apaixonada por
ele. Defendi o Gui na hora. Afinal, por que ele faria isso? Eu sei que sou uma pessoa muito
importante na vida dele, que ele gosta de ser meu amigo, de conversar comigo. Eu sei que
não sou qualquer menina para ele. Mas a Bia não entende isso.
Bem, mas até que ela disse uma coisa boa: sugeriu que eu marcasse um encontro com o
Mateus, só para ver no que dá. Na hora eu não dei muita atenção, porque estava
concentrada, pensando no Gui, mas agora até que estou cogitando a hipótese. Afinal, mal
não vai fazer, né?
Bom, mas eu vou pensar mais. Talvez eu possa até usar o Mateus um
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pouco, para o Gui ficar com ciúme... nossa, eu escrevi isso? Claro que eu não vou fazer
isso. Seria horrível da minha parte.
Vou pensar no caso. Conhecer o Mateus ao vivo até que pode ser legal. E é bom que eu tiro
um pouco o Gui da cabeça. Agora eu tenho que ir, vou ver se estudo um pouco. Eu devia
pensar menos nos meus rolos e estudar mais, estou cheia de matéria acumulada!
Beijo, Débora
27/03 Terça-feira depois do almoço
Combinei um encontro com o Mateus no sábado!!! A gente vai ao cinema, no shopping.
Achei melhor esse programa do que sair à noite com ele, afinal, eu nem conheço o garoto
ainda... além disso, vai que ele é feio e chato? Conversar com ele pela internet é ótimo, mas
ao vivo, tudo pode mudar!
Contei para a mamãe e ela não gostou nada, nada. Disse que esse menino pode ser um
ladrão, um tarado... disse até que pode ter o triplo da minha idade. Eu:
- Bom, mãe, se isso acontecer, eu saio correndo, né?
- Nada disso, mocinha. Ele pode te seguir. Se acontecer qualquer coisa, você telefona aqui
para casa, ouviu? Pensando bem, eu vou ficar no carro. Quando você encontrar com ele,
liga para o meu celular para dizer se está tudo bem.
Que esquema de segurança, hein? Que paranóia, isso sim. Mas tudo bem, eu sei que mãe é
mãe (apesar de eu achar que pai também é pai, vó é vó, etc.).
Falando no meu pai, tem um tempão que eu não vou lá! O Gui parou de ir ao clube porque
aquela enjoada não é sócia, e aí eu desanimei também. Além do mais, posso encontrar com
aquele chato do A... Já imaginou, ficar com o A no clube?
- Quer refrigerante, Débora? Quer nadar? Quer jogar sinuca? Você fica tão linda jogando
sinuca... E um beijinho, você quer?
   Credo!
   Beijinho, Débora
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29/03 Quinta-feira, 16h30
Ódio total. Ontem eu quis fazer ciúme no Gui, contando do Mateus, mas ele matou aula,
para variar. Aí eu deixei para contar hoje. Mostrei como eu estava transbordando de
felicidade por ter marcado um encontro com ele. Aí sabe o que aquele nojento do
Guilherme disse?
- Que legal, Débora, vai nessa! É tão bom gostar de alguém, né?
Que raiva!!! E ele ainda emendou:
- Mas cuidado, tá? Vai que o cara é um estúpido...
Estúpido é ele! Além de não sentir o mínimo ciúme, fica querendo cuidar de mim. Mas
tudo bem. Não posso descartar a hipótese de o encontro ser mesmo legal e de eu ficar a fim
do Mateus realmente. Tomara que isso aconteça. Aí, aquele Guilherme vai ver o que é bom.
Débora
30/03 Sexta-feira à noite
Aaahh... que deprê... eu estou ao lado do telefone o tempo todo esperando aquele idiota
ligar e dizer:
- Deby do meu coração, terminei com a Carol... eu gosto mesmo é de você...
Não ia ser ótimo? Quais as chances de isso acontecer? Ai, que droga, eu não quero o
Mateus, eu quero é o Gui!!! Gui, por que você não é meu? Será que a Carol não quer fazer
uma troca? Eu dou o Mateus para ela, e ela me dá o Gui... O Mateus é legal, Carol!...
Ah, deixa eu ir, que a situação já está ficando preocupante.
Débora
30/03 Ainda sexta-feira, mais à noite ainda
Nooossa... ele ligou... nem acredito... valeu a pena esperar...
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Tivemos um papo tão gostoso, tão meloso... ele ligou porque pensou que o encontro com o
Mateus tinha sido hoje, olha que bonitinho! Eu falei que vai ser amanhã, e aí a gente ficou
conversando.
- Você é tão legal, Débora! Adoro ser seu amigo, sabia?
- Eu também, Gui... mas você não é só meu amigo. É o meu melhor amigo...
- Você também é minha melhor amiga... e é uma amiga bem gatinha, também. Nossa, hoje
na aula você estava sensacional com aquela calça.
Olha só! Quase morri! Hoje eu tinha ido com uma calça bem justinha, que me cai
hiperbem. Nem notei que ele tinha reparado! Fiquei meio sem graça, mas superfeliz.
- Nossa, Gui. Já pensou se a Carol ouve você falando isso?
- Ah, o que é que tem? Todo mundo sabe que você é a maior gata. É bem mais bonita que a
Carol, sabia?
Por que ele fala esse tipo de coisa? Ou melhor, por que ele não termina com a Carol e fica
comigo? Mas o diálogo não acabou ainda.
- Acho que a gente ia se dar superbem namorando, sabia?
- Sabe que eu também?
- Mas eu gosto da Carol, você sabe, né... e você tá a fim do Mateus. Eu não entendo por que
eu gosto da Carol. Ela é tão chatinha às vezes.
Eu queria falar que eu também não entendo, mas fiquei calada. Depois disso, o papo voltou
ao normal, sem maiores intimidades. Que coisa, né? A gente não conversa como amigo,
mas também não somos namorados, nem estamos ficando, nem nada. E o pior é que falar
assim com ele, nesse clima bizarro, acaba comigo. Eu fico cheia de esperança, e mais cedo
ou mais tarde, ele vem com um superbalde de água fria. Quando a gente ia desligar. eu
arrisquei:
- Então tá, Gui... sonha comigo.
Aí, sabe o que ele respondeu? Ele riu e disse:
- Até parece, né? Vou sonhar com aquela gracinha que é a Carol... nossa, ela me tira do
sério... que droga que não deu para a gente sair hoje! Ela teve que ir até a casa da vó dela,
um saco.
- Nossa, que saco.
Quase paguei um micão. Ainda bem que ele levou na brincadeira. Mas nem precisa dizer
que eu estava falando sério... ah, como a vida é triste.
Bem, mas não posso negar que essa conversa me deu até um pouco de ânimo para ir ao
encontro amanhã. Apesar de, ao mesmo tempo, acabar comigo. Estranho, né? Mas é que
conversar com o Guilherme faz bem para
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mim, levanta minha auto-estima, me faz sentir mais bonita, mais mulher, sei lá... não dá
para explicar. Só sei que é bom conversar com ele, mesmo sem saber direito o que ele quer.
Beijo, Débora
31/03 Sábado à noite
Oi... hoje foi bem legal. O Mateus é uma gracinha!
Cheguei antes dele e sentei na frente do McDonald’s, como a gente tinha combinado. Disse
a ele a roupa que eu estaria usando e fiquei esperando. Comecei a ficar meio nervosa...
Olhei para o relógio. Era exatamente a hora que a gente combinou: três em ponto. E aí ele
chegou, com um buquê de flores na mão. Juro! Eu nunca tinha recebido flores antes. Fiquei
tão emocionada! Aí ele se sentou, e a gente conversou um pouco. Ele é bem bonitinho.
Quero dizer, não é lindo, mas também não é feio, de jeito nenhum. O problema é que eu
fiquei meio sem graça. Geralmente, eu sou tão falante, mas fiquei com uma falta de assunto
terrível! Acho que essa foi a única coisa ruim.
Até esqueci de ligar para minha mãe. Meu celular tocou, era ela, e eu disse que estava tudo
bem. Combinamos que ela me pegaria às sete.
Fomos ao cinema, e não rolou nem um beijinho. Ele disse que só gostaria de ficar comigo
no dia em que eu estivesse com o coração totalmente aberto para ele, sem pensar no
Guilherme. Nessa hora, eu fiquei bem triste. Fiquei imaginando como seria bom se o Gui
estivesse lá comigo, em vez do Mateus. Mas tudo bem, o programa estava legal e eu me
distraí um pouco. Achei legal essa atitude dele. Mostra que ele é paciente e não é nem um
pouco galinha. Mais um menino para minha coleção de amigos estranhos.
Bem, foi até melhor do que eu esperava. É claro que não deu o click entre a gente, já que eu
estou apaixonada pelo Gui, mas o Mateus é uma gracinha e espero que a gente saia mais.
Se bem que é um pouco triste, porque eu tenho certeza de que, se não estivesse apaixonada
pelo Gui, eu sentiria alguma coisa pelo Mateus. Ele é bonito, legal, romântico... mamãe
amou o buquê, já colocou na água. Eu poderia usar isso para fazer ciúme no Gui, mas já
desisti. Ele não ia sentir nada mesmo.
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Bom, meu sábado acabou. Daqui a pouco vou dormir. Ninguém vai sair hoje, nem a Bia,
nem a Ju, nem a Lu... e a mamãe me avisou que eu já saí demais por hoje.
  Vou ouvir um pouco de música e pensar em quem, adivinha?
  Débora
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ABRIL
Desenho de Débora toda sorridente falando ao telefone
02/04 Segunda-feira, tipo 18h
Hoje o dia foi um tédio. A única coisa que se salvou foi a aula de educação física. Eu nunca
gostei muito dessa aula, mas hoje foi ótima. A professora disse que a gente poderia fazer o
que quisesse, então eu, a Ju, a Bia e a Patrícia fomos jogar peteca. Eu nem me lembrava da
última vez que tínhamos jogado. Foi superdivertido.
Desenho de três mocinhas sorridentes jogando peteca
A única coisa que eu acho chata nas aulas de educação física é ter que voltar toda suada e
descabelada para a aula, mas descobri que peteca é um jogo que não deixa a gente tão suada
assim. Pelo menos, não do jeito que a gente estava jogando (rindo mais do que qualquer
outra coisa).
Ah, aquele menino? Está lá. Quer dizer, está lá com ela, porque é super-raro ele estar
sozinho. No intervalo, ele veio conversar comigo, perguntando como foi o encontro. De
mão dada com ela, é claro. Tentei parecer bem animada, mas acho que não consegui. Falei
que o Mateus é uma gracinha, contei das flores, a Carol disse “que lindo!” e os dois
pareciam superfelizes por mim.
Acho que a Carol está com ciúme de mim. Ela ficou tão, mas tão feliz quando eu falei sobre
o Mateus! Bem-feito. Tomara que ela tenha um ataque de ciúme, dê o maior vexame e o
Gui dê um fora monumental nela.
Assim que cheguei em casa, avisei minha mãe que, se o Guilherme me telefonasse, era para
dizer que eu não estava. Se for o Mateus, eu morri. Não sei por que fui dar meu telefone
para ele.
Essa minha vida sentimental confusa está acabando comigo. Minha memória, por exemplo,
está completamente deteriorada (hum, que palavra difícil, hein?). Mas é sério, olha só: eu
esqueci completamente que não vai ter aula nem na quinta nem na sexta, por causa da
Semana Santa. Se eu pensasse menos nos meus rolos, teria me tocado e planejado alguma
viagem, sei lá. O problema de pedir as coisas de última hora para minha mãe é que ela
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nunca me deixa fazer nada. Isso é porque ela não sabe o tanto de coisa que eu tenho para
pensar! Se a minha vida fosse simples, era só planejar as coisas com antecedência. Mas ela
é simples? Não. Então, eu sobro. Bem-feito para
   mim!
   Débora
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04/04 Quarta-feira depois do almoço
Cheguei a uma conclusão interessante no caso Guilherme. Depois de rever todos os meus
sentimentos, passar a limpo o que aconteceu entre a gente e o que vem acontecendo, reler
páginas e mais páginas deste diário, encontrei a solução: vou nadar.
É isso aí. Telefonei para o papai hoje, perguntando se ele me paga aulas de natação. Ele
disse que sim, e eu fiquei superfeliz. Vou ligar à tarde para algumas escolas de natação aqui
perto de casa e algumas perto do colégio, ver os preços e os horários e me matricular.
Mamãe adorou a idéia e talvez a Bárbara faça também.
Cheguei a essa conclusão depois de ter lido em uma revista, ontem, que fazer exercícios
acalma, melhora o humor e deixa a mente mais leve. E eu já tinha ouvido falar que, quando
a gente está muito bitolada em alguma coisa, como eu estou no Guilherme, é bom se manter
ocupada para espairecer. Mesmo cheia de coisa para estudar, sobra muito tempo livre nas
minhas tardes, e eu uso esse tempo para pensar no Gui. Agora, vou usar esse tempo para
nadar. Simples, né?
Ali, fui superbem na prova de matemática, obrigada.
Beijo, Débora
P.S.1: O Mateus sumiu. Quer dizer, eu sumi, porque não abro meu e-mail desde domingo.
Mas ele não deve ter mandado nada, porque, se quisesse falar comigo, poderia ter
telefonado. Melhor assim.
P.S. 2: Mesmo tendo certeza de que ouviria um “não”, falei para minha mãe que viajar
agora seria muito bom para mim. Preciso dizer a resposta?
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   05/04 Quinta-feira, cinco da tarde
   Estou superanimada!
Para começar, já vi as escolas de natação e começo semana que vem. Além disso,
aproveitei que não tinha aula e fui ao shopping com a Bia e a Lu, e foi uma delícia. Lá, eu
comprei um creme fantástico para meu cabelo, à base de silicone, e estou doida para
experimentar.
Desenhos do rosto e cabelos de Débora, um pote de creme, tesoura e o rosto e os cabelos da
Lu, em cima dos desenhos tem escrito: Cabelos cabeluda descabelado
Falando em cabelo, a Lu cortou o dela no ombro. Ficou uma gracinha! Falando na Lu, olha
que droga: parece que ela e o Marcos vão terminar. Digo “parece” porque nem ela sabe
direito. Eles não se falam pelo telefone faz uma semana (antes, falavam sempre) e ela está
desconfiada de que ele está gostando de uma tal de Júlia, da cidade dele, que vive dando em
cima do garoto. Horrível. né? Mas a Lu está ótima. Quer dizer, não está completamente
normal, mas está quase normal. Será que eles vão terminar assim, sem deixar isso claro?
Deve ser péssimo. Acho que o certo é chegar um para o outro e dizer “olha, eu quero
terminar, tá bom? É por causa disso, disso e disso”. Agora, parar de telefonar,
simplesmente, para mim é covardia. Esse Marcos é um cachorro!
Bom, não combinamos nada para o fim de semana, até porque domingo é Páscoa. Espero
que a minha mãe me dê um ovo maior do que o do ano passado, que não durou nem dois
dias. Acho que vou falar sobre isso com ela agora. Afinal, eu já estou gorda mesmo, né?
Um ovo a mais, um ovo a menos não vai fazer muita diferença!
Débora
06/04 Sexta-feira à noite
Hoje foi normal. Meu pai me pegou aqui em casa para a gente almoçar junto, e até que foi
divertido. O restaurante é muito bom, comi tanto! Só
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não comi carne vermelha, porque hoje é Sexta-Feira da Paixão e não pode. E, de
sobremesa, tomei sorvete de queijo recheado com goiabada. Parecia estranho, mas é uma
delícia.
Depois, ele me deixou aqui em casa. Aproveitei e pedi minha mesada, olha que ótimo! Ele
me deu e agora tenho dinheiro para sair este fim de semana. Nossa, tem tanto tempo que eu
não saio à noite na sexta! Só fico em casa, vendo tevê, esperando o Guilherme ligar ou fico
navegando depois da meia-noite.
Ah, olha só que bom: meu pai arranjou convite para a Bia e para a Lu irem ao clube
amanhã. Vai ser tão legal! E talvez eu veja o Gui, o que seria realmente perfeito.
Bom, tchau. Débora
07/04 Sábado, tipo 19h30
Estou aqui na casa do meu pai. Hoje foi ótimo! Encontrei o amor da minha vida no clube,
foi tão bom...
Acordei cedo, e meu pai me pegou lá em casa. Passamos na casa da Bia e da Lu, e fomos.
Quando a gente chegou lá no clube, eu me lembrei de um detalhe importantíssimo: o A
poderia estar lá. Como é que isso nem tinha passado pela minha cabeça? Fomos para a
sauna, e eu combinei com elas que, se a gente visse o A, íamos dar um jeito de ele não nos
ver.
Bom, aí a gente tomou sauna e foi nadar. Nadamos um tempão e depois resolvemos comer
alguma coisa. Adivinha quem estava na lanchonete? O A conversando com o Gui!
Foi péssimo! Eu não queria que o A me visse, mas desejava com todas as minhas forças
conversar com o Guilherme. Na verdade, eu quase tive um ataque quando vi que era ele. E
o melhor, parecia que a Carol não estava lá!
Então, nós resolvemos seguir os dois, até o Gui ficar sozinho. Tivemos que ser bem
discretas. Aonde eles iam, a gente ia atrás. Eles foram jogar futebol, depois comeram e
finalmente se despediram. Aí, eu fui conversar com o Guilherme.
Nossa, ele foi tão legal, tão simpático... Parecia que estávamos nos velhos tempos, quando
ele não estava namorando e a gente podia ficar a qualquer momento. A única coisa ruim é
que o galinha ficou todo assanhado com a Lu, e até disse que ela é linda, na minha frente.
Não agüentei:
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- É, Guilherme, e a Carol, hein?
- Credo, Débora, eu só elogiei sua amiga, não posso?
Todo mundo deu uma risadinha, menos eu. Que saco.
Bom, mesmo não tendo ficado a sós com o Gui, foi simplesmente maravilhoso ter passado
o tempo com ele. É impressionante como o dia melhora quando vemos a pessoa que
amamos. Tudo fica mais feliz, a gente se sente mais bonita...
   Ai... é o amor...
   Débora
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08/04 Domingo, 22h10
Não fui dormir ainda, porque fiquei na internet até agora. Adivinhe: o Mateus mandou uma
tonelada de mensagens! Mandou e-mail, off-line no ICQ, cartão... Disse que eu sou linda,
que adorou me conhecer, perguntou se eu já tirei o Guilherme da cabeça, se a gente pode se
encontrar de novo... Arrasei, hein!
Ele disse que estaria no ICQ hoje, então resolvi esperar. Ele ficou tão feliz de me encontrar,
que eu me senti até honrada. Batemos papo um tempão, mas só coisa de amigo, porque eu
deixei bem claro para ele que EU AINDA AMO O GUILHERME E ELE É TUDO PARA
MIM. E que ainda não decidi o que eu faço com esse amor: se me declaro, se ignoro, se dou
em cima, se tento esquecer, enfim... o mesmo dilema de sempre. Enquanto decido, vou
nadando (contei a ele que começo na semana que vem) e empurrando essa relação maluca
com a barriga.
Mudando de assunto, minha mãe me deu tanto chocolate que eu me arrependi de ter pedido.
Vou engordar horrores! Isso, fora as espinhas. Ah.. mas quer saber? Não estou nem aí.
Chocolate é a melhor coisa do mundo! Isso é, a segunda, porque a primeira é beijar. Hum,
beijar um menino bem gato e de preferência alguém de quem você esteja bem a fim... Isso,
sim, é o paraíso! Mas chocolate não fica muito longe.
   Beijinho...
   Débora
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ngnp1046
09/04 Segunda-feira, 14h50
Acho que decidi o que fazer em relação ao Gui: vou passar a dar em cima dele. Ah, tenho o
direito, né? Não vou amar alguém e ficar sem lutar por essa pessoa. Já pensou se eu sou a
pessoa certa para ele, e ele é a pessoa certa para mim? Eu não posso deixar a gente
separado por causa da Carol. Eu sei que ele gosta dela, mas os dois vivem brigando.
Eu decidi isso hoje, no colégio. O pessoal do grêmio foi lá na sala avisar que estava
organizando uma festa nesse sábado. Vai ser um festão, vários colégios vão estar vendendo
o convite... Então, quando eles disseram isso, o certo seria eu ter ficado superfeliz, né?
Afinal, festa é sempre bom. Mas o que aconteceu? Eu fiquei triste e resolvi na hora que não
iria. Tudo por causa do Guilherme. Eu não queria ficar a festa inteira dando de cara com ele
e a Carol se agarrando. Ia ser deprimente. Foi nessa hora que eu percebi o quanto esse amor
não correspondido está acabando com a minha vida. E vi que ou eu passava a lutar pelo
meu amor, ou tentaria esquecer o Gui de vez. Escolhi a primeira opção, porque eu não vou
desistir sem ao menos ter tentado. O Guilherme é tudo para mim. Eu acordo pensando nele,
como pensando nele, durmo pensando nele. Eu mereço ficar com ele!
Meu plano tem duas etapas: antes da festa e durante a festa (depois da festa, só Deus sabe).
Antes da festa, eu vou dar uma de difícil. Mal vou conversar com o Gui no colégio, não vou
telefonar para ele e, o mais difícil de tudo, não vou atender os seus telefonemas. Aí ele vai
ficar muito, muitíssimo a fim de mim, vai se sentir perdido, sem entender o que está
acontecendo. E durante a festa? Eu vou com a roupa mais bonita, o cabelo mais perfeito, a
maquiagem mais maravilhosa e vou arrasar! Vou mostrar para ele o que ele está perdendo
ficando com aquela menina. E vou jogar tanto charme para ele, que ele vai ficar de quatro!
Festa, me aguarde!
Débora
10/04 Terça-feira, 16h
Nossa, a natação foi ótima’. Hoje eu fiz minha primeira aula e amei. O
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professor, infelizmente, não é nada bonito. Bom, eu nadei 700 m, e ele falou que está
excelente para o primeiro dia. Disse que no final do mês eu já devo estar nadando 1.100 m
por aula. Eu queria perguntar a ele se a minha celulite vai diminuir, mas fiquei com
vergonha. Mas a minha barriga vai ficar mais bonita, tenho certeza. Sei disso porque todos
os alunos têm uma barriga linda. Menos eu, claro.
Desenho de Débora em frente à piscina onde estão dois rapazes com as anotações: gatos e
Nadei 700 metros (na primeira aula)
Bom, essa foi a única coisa boa do dia. O idiota do Guilherme não foi à aula, e a professora
de matemática ainda marcou uma prova. Pensei em ligar para o Gui, para avisar sobre a
prova, mas a Carol já deve ter feito isso. Aliás, eu fui perguntar a ela por que ele faltou, e
ela não gostou nadinha. A Bia disse que, depois que eu virei, a Carol fez uma cara horrível.
Acabou que ela enrolou e não explicou por que ele tinha faltado, mas deve ter sido à toa.
Ele é o maior malandro! Nunca vai ao colégio!
Débora
11/04 Quarta-feira antes do jantar
Adivinha quem perguntou se eu vou à festa? O Gui (é, ele foi à aula hoje). A Carol tinha
ido ao banheiro e, como acontece nessas horas, ele veio conversar comigo. Se ele me
perguntasse isso antes daquela resolução que eu tomei, eu teria respondido simplesmente:
- Vou, Guilherme. Porquê?
Ou então:
- Não, Guilherme. Por quê?
Mas, de acordo com minha nova fase, eu devo ser sexy, fazer tipo,
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enfim, deixar ele doidinho por mim. Então, mesmo tendo certeza de que vou, respondi:
   - Talvez.
   - Ah, vai, Débora. Vai ser legal.
   - Será? Não sei. Além disso, ainda é quarta-feira! Tem tempo para resolver.
Não é legal? Agora, aposto que ele vai ficar aflito, pensando se eu vou ou não. E na festa,
eu vou linda e maravilhosa, além de chegar bem tarde. Aí, ele vai ficar todo ansioso, me
esperando. E, quando eu chegar lá... olha, eu não vou ser eu. Vou me jogar para cima dele!
Ele vai ver!
Ah, eu quase me esqueço de contar: a Lu e o Marcos terminaram. Horrível, né? Ela me
ligou assim que eu cheguei do colégio. Estava chorando até, tadinha. É por isso que eu vou
até a casa dela mais tarde. Estou só esperando minha mãe sair do banho, ela vai me levar.
Eu tive que insistir um pouco com a minha mãe, mas é que a Lu precisa de mim agora. O
cachorro do Marcos está namorando aquela tal de Júlia, e telefonou para a Lu avisando.
Isso é jeito de terminar um namoro? Achei ridículo!
Ah, tenho que ir, minha mãe já saiu do banho. Vou animar a Lu e aproveito para chamá-la
para a festa do colégio.
Débora
13/04 Sexta-feira de tardinha
Estou chateada. O plano não está dando muito certo. Eu não ia atender os telefonemas do
Guilherme, mas nem precisei disso: ele não me ligou nem uma única vez! E parece que ele
não está nem aí para o fato de eu não estar mais conversando com ele no colégio. Fica lá
com a namoradinha dele ou então conversando com os amigos. Que saco! Estou quase
desistindo de amanhã. Estou com medo de dar uma de ridícula naquela festa e pagar o
maior mico. Eu deixei para comprar a roupa amanhã, mas acho que não vou comprar mais
nada.
Ontem eu já estava chateada e por isso não escrevi. Hoje não teve colégio, porque é feriado
de não sei o quê. O final da tarde foi péssimo. Eu fiquei com esperanças de que hoje o Gui
ia ligar, perguntando como eu fui
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de feriado, mas nada! Ele não deu a menor bola para mim. Eu sou uma idiota mesmo. Ele
nunca vai largar a Carol para ficar comigo. Acho que já resolvi. Não vou nessa porcaria de
festa coisa nenhuma. A Bia e a Lu podem até ficar com raiva de mim, pois a gente já tinha
combinado e tudo, mas não posso fazer nada.
Não vou sair hoje, não vou estudar, não vou fazer nada. Só uma coisa: vou me conectar à
internet mais tarde para desabafar com o Mateus. Eu preciso conversar com algum homem
que não seja o Gui, sabe?
Vou arranjar alguma coisa para amanhã à noite que não seja essa festa estúpida. Nossa,
Gui, você acaba comigo!
Débora
15/04 Domingo de madrugada
AAAAAAAAAAHHHHH!!!! Fiquei com o Guilherme! Foi maravilhoso! Divino! Perfeito!
Estou tão feliz! Nunca tive um dia tão bom na minha vida! Se felicidade matasse, eu já
estava morta e enterrada!
Nem estou conseguindo me concentrar direito! Acabei de chegar em casa, ele me trouxe
aqui, de táxi. Tão romântico... nós nos despedimos com um beijo de cinema. E ele disse que
quer ficar é comigo, e não com a Carol! Ai! Eu amo aquele menino! Eu estou custando a
acreditar, porque parece um sonho!!
Bom, vamos lá! Primeiro, eu resolvi ir à festa. No sábado de manhã, eu liguei para Bia toda
desanimada, explicando que eu não iria mais, só que ela acabou me convencendo. Disse
que era uma bobeira deixar de ir por causa de homem, que eu não podia me entregar assim,
etc. Então, mesmo triste, eu resolvi ir.
Estava tão desanimada que nem quis sair para comprar roupa nova. Como eu não tinha
nada muito sexy no meu armário, o plano de arrasar na festa foi por água abaixo. Mas tudo
bem. Minha mãe sugeriu que eu marcasse uma hora no salão, porque meu cabelo ontem
realmente estava um horror. Marquei, mesmo morrendo de preguiça. Valeu a pena. No
salão, me deu a louca e eu fiz hidratação e baby-liss. Ficou supersexy.
Cheguei na festa com a Lu, e nos encontramos com a Bia lá. Nessa hora, eu estava mais
animada. O som estava ótimo, tinha muita gente legal... mas aí eu vi o Guilherme. Ele
estava sozinho. Nossa, eu quase desmaiei, sério
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mesmo. Ele estava simplesmente lindo. Tinha cortado o cabelo, estava todo charmoso... As
meninas disseram que era melhor eu me controlar, não puxar papo com ele, deixar ele para
lá. Eu até quis tentar esse método, mas quem disse que eu consegui? Abandonei as meninas
e fui lá conversar com ele.
Surpresa: ele estava super-receptivo comigo e foi muito carinhoso. Disse que eu estava
linda e até passou a mão no meu cabelo... eu perguntei sobre a Carol e aí ele começou a
falar que os dois estavam cheios de problemas, que ela resolveu não ir à festa, que ele
estava pensando em terminar o namoro. Ficamos um tempão conversando, só nós dois. Ele
ficou desabafando e quase chorou. Morri de dó.
Claro, enquanto eu dava conselhos e acalmava o Gui, aproveitei para jogar charme, passar a
mão no rosto dele e tal. Bom, aí algumas pessoas da nossa sala que estavam passando
ficaram olhando demais para a gente, e começou a pegar mal. Estava rolando o maior
clima, mas não dava para a gente ficar ali, né? Ele perguntou se dava para eu ir até a casa
dele, eu disse que dava. Eu disse com toda a segurança do mundo, mas estava supernervosa
por dentro. Eu não estava acreditando que a gente ia ficar.
A gente combinou ir separado, para não dar na cara. Ele foi primeiro. Eu sabia o endereço e
iria de táxi, tipo uma hora depois. As meninas tentaram me convencer a não ir. A Bia
insiste na idéia de que o Guilherme é um cachorro. Elas acharam estranho o encontro ser na
casa dele, e não em um bar ou coisa do tipo, mas eu achei até melhor, sabe? Na casa dele,
ninguém ia me ver. Eu não queria ficar com fama de quem acaba namoro, né?
Elas também perguntaram se eu ia transar com ele, mas eu disse que só quando a gente
fosse namorado mesmo. Não dá para negar que eu estava adorando tudo, mas mesmo assim
me sentia um pouco “a outra”, sabe...
Bom, aí eu fiquei enrolando por uma hora, peguei um táxi e fui para lá. Estava
superansiosa. Se a minha mãe soubesse que eu não estava na festa do colégio, me matava!
Também estava com medo de acabar transando e me arrepender depois. Ao mesmo tempo,
eu queria ficar com ele mais do que qualquer coisa na vida.
Mas, no final das contas, deu tudo supercerto! Nós ficamos conversando mais do que
qualquer outra coisa. E demos muitos, muitos beijos, deitadinhos na cama dele, abraçados...
fiquei sem blusa, mas não transamos nem nada. Ficamos só nos amassos mesmo. Ele até
sugeriu, mas eu expliquei a ele como me sentia. Ele ficou insistindo um pouco, mas acabou
sendo bem compreensivo... nossa, nos beijamos muito mesmo, e fizemos tanto carinho um
no outro. Sem dúvida, foi a vez em que eu mais fiquei com tesão na vida!
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Os pais do Gui tinham saído, e a gente ficou completamente à vontade. Foi ótimo!
Depois, fomos para a cozinha, tomamos refrigerante e fizemos sanduíche. No maior estilo
casal. Conversamos muito. Ele disse que ia ser perfeito se nós fôssemos namorados, e aí eu
arrisquei:
   - Então, por que não somos?
   - Verdade... eu tô de saco cheio da Carol...
Conversamos mais, e ele disse que tcham, tcham, tcham, tchaaam... vai terminar com ela na
segunda-feira! Disfarcei minha felicidade, mas não totalmente. Acabou que eu consegui ser
até bem sutil. Sorri e disse:
- Nossa, Guilherme, isso é tudo o que eu queria na vida!
Voltei de lá mais ou menos às quatro da manhã, e aqui estou... totalmente feliz. Amei o dia
de hoje. E eu, que estava toda desanimada ontem! Não vejo a hora de telefonar para as
meninas e mostrar para elas como estavam enganadas. O Gui realmente gosta de mim. Se
não gostasse.. por que teria ficado comigo?
Bom, vou dormir! Tenho que aproveitar que a minha mãe não viu que eu cheguei tão tarde,
ou melhor, tão cedo! Geralmente, ela escuta quando eu entro, mas hoje eu entrei
devagarzinho e ela não acordou. Hoje, realmente. deu tudo certo!
   Beijos! Beijos! Beijos!
   Débora
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15/04 Ainda domingo à noite
Só estou escrevendo para dizer que estou morrendo de ansiedade para que chegue amanhã.
Já conversei com a Bia e com a Lu, e elas não estão muito otimistas, mas estão torcendo
por mim. Já eu estou superotimista. Finalmente o Gui percebeu que a gente foi feito um
para o outro. Menino é tão lerdo às vezes, né? A gente tem que mostrar tudo!
     Boa sorte para mim!
     Débora
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17/04 Terça-feira
Ontem foi o pior dia da minha vida. Nem consegui escrever. Cheguei do colégio e fui direto
para a cama, e dormi a tarde inteira. Depois, jantei e voltei para a cama. Só chorando. E
dormindo. Acordava, chorava. E voltava a dormir. O dia todo assim. E hoje nem consegui
ir à natação. Não estou conseguindo nem pensar nele, que choro, choro, choro.
Sabe o que aconteceu? Aconteceu que o Guilherme é um monstro. Ontem, eu cheguei no
colégio toda feliz, doida para a gente se encontrar e sair por aí de mãos dadas, sem pensar
na Carol, em nada. Mas, quando eu entro na sala, adivinha o que eu vejo? Os dois se
beijando, no maior amor. Não acreditei. O Guilherme é um mentiroso. Os dois estão
superbem, e ele só me usou! Eu fui só mais uma! Aposto que ele fala que vai terminar o
namoro para todo mundo com quem ele fica! Ah, não agüento mais escrever! Vou chorar
em paz! Não fui ao colégio hoje, nem vou amanhã, nem nunca mais!
Débora
18/04 Quarta-feira à tarde
Estou mais calma. Eu tinha acabado de chegar do colégio quando escrevi ontem, e não
agüentei. Ninguém sabe quanto eu estou sofrendo. Ver o Guilherme beijando e paparicando
aquela menina, e me ignorando completamente, foi a pior coisa que já me aconteceu. Eu
passei o intervalo todo chorando, com a Bia me consolando... Um monte de gente
perguntou o que eu tinha, e eu inventei que estava com uns problemas em casa. Foi
horrível. Para completar, o Guilherme manteve a maior distância de mim na aula, nem
chegou perto perguntando o que eu tinha. Afinal, ele sabe muito bem o que eu tenho! E o
pior é que ele nem me ligou para me dar uma explicação, nem nada. Fiquei a tarde inteira
esperando o telefone tocar. Nada.
Não fui à aula ontem nem hoje. O pior é que a minha mãe já me avisou que amanhã eu não
falto de jeito nenhum. Eu não disse para ela o que tinha acontecido, porque eu já sei o que
iria escutar: “Nossa, Débora, que drama
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por causa de um menino!”, ou então: “Ah, deixa de ser boba, você só tem quinze anos!”.
Não adianta. Ela nunca entenderia.
Ainda não liguei para a Lu para contar o que aconteceu. Ela me telefonou ontem e eu pedi
para a minha mãe dizer que eu não estava. Me senti péssima por ter feito isso, mas ontem
eu estava na pior. Não que eu tenha melhorado muito de ontem para hoje, mas pelo menos
já estou conseguindo escrever.
Não sei o que vai ser da minha vida amanhã no colégio. Não sei se faço um escândalo,
conto para a Carol que o namorado dela é um galinha, xingo o Guilherme na frente de todo
mundo... ou se eu ignoro, deixo tudo como está, trato o Guilherme como se nada tivesse
acontecido. O que eu não quero é ficar chorando na frente de todo mundo, como na
segunda-feira. É por isso que eu queria faltar pelo menos esta semana inteira no colégio,
para me refazer.
Débora
19/04 Quinta-feira
Estou morrendo. Não quero mais falar nem escrever nada. Minha vida acabou.
Débora
20/04 Sexta, não sei que horas
Minha vida continua acabada. Não consigo parar de chorar. Chorei na aula ontem e hoje, e
tudo piorou quando o monstro do Guilherme me telefonou ontem à tarde. Não quero
escrever sobre isso.
Débora
22/04 Domingo depois do almoço
Estou aqui na casa da minha vó. Estou um pouco melhor. Não queria vir para cá, mas
minha mãe ficou me enchendo o saco, para variar.
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Esta semana foi uma verdadeira negação para a minha saúde psicológica. Só chorei. Acho
até difícil voltar a ser aquela menina alegre e feliz que eu era. Só estou de cara amarrada,
não fui à natação, não combinei nada com as meninas no sábado nem na sexta. A Lu já sabe
de tudo, a Bia contou para ela (eu deixei). Elas bem que tentaram me dar uma força, me
animar para sair no fim de semana, mas não deu mesmo.
Bom, deixa eu falar sobre o telefonema daquele estúpido. Ele ligou na quinta-feira, quando
eu estava vendo televisão, com os olhos vermelhos, é claro. Veio todo simpático, dizendo
que estava com saudades e tal... cortei na hora. Então ele faz aquilo e ainda tem a cara-de-
pau de dar em cima de mim? Ódio mortal. Falei que estava chateada, que me decepcionei
completamente com ele... e sabe o que ele disse? Que não tinha me prometido nada. Quase
bati o telefone na cara dele!
E o pior é que ele nem percebeu como foi idiota. Falou que as coisas mudam, que eu não
posso levar tudo a sério, que foi só uma ficada. E o que mais doeu: que gosta muito da
Carol. Disse assim mesmo. Com esse muito no meio.
Para completar disse que , me adora, me acha uma menina superlegal e pediu que eu não
ficasse com raiva. Não podia ter sido mais clichê. Falei que ia pensar no caso e me despedi
secamente, tipo “vou ver o que eu faço, agora morra” (não falei isso, claro, mas ele viu que
eu estava com raiva).
Desenho de Débora chorando em frente ao telefone e ao lado um coração com o rosto de
Guilherme dentro todo riscado e escrito Mentiroso!! Galinha!!
Ainda estou bem triste. Foi só me lembrar do telefonema para ficar com os olhos molhados
de novo. Ainda não sei o que vou fazer da vida. Acho até que nem tem o que fazer. Vou
fazer um escândalo para quê? Não vou ter ele de volta mesmo. Aliás, eu nem quero ele de
volta. Acho que só agora estou descobrindo que ele não era nada do que eu imaginava. Me
apaixonei por uma ilusão, é isso.
A única coisa que posso fazer é tentar esquecer tudo: o amor que eu sentia (e que ainda
sinto, não sei), as esperanças que eu tive e principalmente o papel de idiota que eu fiz. Só
sei que o Guilherme, para mim, morreu. Ainda estou sofrendo muito, mas ele morreu.
Acabou tudo entre a gente. Se é que, algum dia, existiu alguma coisa.
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23/04 Segunda-feira à tardinha
Xô, baixo-astral! Chega de choro! De tristeza! De idéias mórbidas! Quero viver! Quero ser
feliz! Conhecer alguém que me ame, que eu ame! Alguém que goste de mim de verdade!
Como diz a minha mãe, quem não me ama não me merece! É isso aí!!!
Minha mãe me deu uma blusa superfofa! Estou me sentindo superbonita! Comprei um
creme ótimo para o cabelo, estou de toalha na cabeça. agora, dando banho de creme e
ouvindo música! Quero ficar linda! Quero viver! Quero ser muito, muito, muito feliz!!!
Débora
25/04 Quarta-feira, 18h32
Oi! Hoje o dia até que foi bom. Ah, não repara no ataque histérico de segunda-feira. Acho
que é uma reação típica de quem está saindo de uma depressão. Depois do choro, é a vez
dos ataques de felicidade! São ótimos. me dão energia, mas duram pouco. Agora, já estou
normal. Ontem fui à natação, o professor me deu uma bronca pelas minhas faltas, mas tudo
bem.
Não conversei com o Guilherme na aula, muito menos com a Carol. e tentei não olhar
muito para os dois. Ainda dói, é claro, mas quando a aula acaba eu já me animo mais um
pouco. No começo, ficava triste antes, durante e depois da aula. Agora, basicamente, estou
triste só durante a aula. Mesmo assim, só triste, sem chorar. Às vezes me pego olhando para
ele, e aí volto a prestar atenção no professor. Também saio da sala assim que o sinal toca
para o intervalo, para não correr o risco de ele vir falar comigo. Longe dele. eu fico bem
melhor.
Depois da aula, encontrei com a Samantha, no shopping, e almoçamos juntas. Não foi
muito bom, não. Ela só ficou falando sobre a sua carreira de modelo, que tirar fotos é isso,
que o cachê é aquilo, e coisa e tal. A vantagem é que ela está sabendo muita coisa sobre
moda e beleza e me deu um monte de dicas. Até me chamou para fazer um curso de
automaquiagem com ela. Acho que quero fazer.
Achei o preço meio alto, mas ela disse que é um maquiador famosíssimo,
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que só dá esse curso uma vez na vida e outra na morte, etc., etc., etc. Não sei se esses
argumentos vão convencer minha mãe, mas eu vou pedir assim que ela sair do banho. Já
pensou? Eu poderia me maquiar como um profissional toda vez que eu fosse sair.
Ah, minha mãe saiu. Peraí que eu vou lá perguntar. Já volto.
Pronto. Minha mãe disse que é para eu pedir ao meu pai. Que saco. Ele só vai chegar mais
tarde, depois eu telefono para ele. Mas, como eu estava dizendo, eu posso não só me
maquiar, como maquiar a Bia e a Lu. Elas iam amar. Também vou poder esconder minhas
espinhas e minhas olheiras. Eu sempre quis fazer isso. Maquiagem, para mim, se resume a
um batom ou um gloss, rímel e, no máximo, um lápis no olho.
  Ai, eu tenho que fazer esse curso!
  Débora
ngnp1046
26/04 Quinta-feira, tipo 17h
Hoje a natação foi ótima! Meu professor até me elogiou. Olhei minha bunda no espelho e
acho até que a celulite diminuiu. Fantástico, né? Mas também pode ser impressão minha.
Meu pai vai pagar o curso de maquiagem, olha que bom! São só dois dias: este sábado e no
sábado que vem. Mas é bem intensivo, porque são quatro horas por sábado. Estou doida
para ir. Já falei para a Samantha e tudo.
Estou lotada de dever de casa. Eu deixei um pouco a escola de lado nos últimos dias e olha
o que sobrou para mim agora: dever de matemática, trabalho de geografia, prova de
história. Tudo acumulado, um horror. Daqui a pouco começam as provas bimestrais e eu
estou aqui, cheia de coisa para estudar. Mas não quero nem saber: vou sair no sábado à
noite. Faz anos que eu não saio! Tudo por causa daquele Guilherme.
Vou telefonar agora para as meninas, para combinar com antecedência um lugar bem legal.
Vou aproveitar e combinar com a Bia para estudar no domingo aqui em casa. Aí, dá mais
ânimo. Dá pena passar o domingo estudando, mas eu não vou lá naquele clube nunca mais
mesmo. Além disso, estudar com amiga não é tão ruim assim.
   Beijinho! Débora
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ngnp1046
29/04 Domingo depois do almoço
Nossa, estou muito desanimada. Um pouco por estar cansada, um pouco por estar triste.
Meu sábado foi uma correria só. O curso foi muito legal, mas depois vim para casa
correndo, para me arrumar e sair com as meninas.
Fomos a um show e não foi muito bom, não. Tinha um menino lá que era a cara do
Guilherme. Eu pensei que fosse ele e levei o maior susto. Péssimo. Quando vi que era só
parecido, não sei se fiquei triste ou feliz. Só sei que foi o suficiente para acabar com a
minha noite. Parei de dançar, fiquei pensando nele...
A Bia e a Lu tentaram me animar, disseram que foi muito melhor ter dado errado e eu ter
“me libertado” do Gui. Mas quem disse que eu me libertei? Fico triste só de ver um garoto
parecido com ele! Além disso, não consegui ficar com ninguém. Tinha uns meninos bem
bonitinhos lá, mas não rolou. Não deu vontade, não tinha clima, não tinha nada.
Queria saber até quando os outros meninos vão ficar em preto-e-branco para mim. É duro
admitir, mas no meu coração ainda só existe o Gui. Fico lembrando do sorriso dele, do jeito
de falar, de andar, de beijar...
Bom, tenho que ir. A Bia vai chegar daqui a pouco e eu ainda estou de camisola. Tem
quilos de coisas para estudar, acho que ela vai acabar dormindo aqui. É bom para eu me
distrair do Guilherme. Se bem que eu ache que nada vai me distrair dele. É a vida!
  Débora
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MAIO
Desenho de Débora jogando peteca
01/05 Terça-feira, não sei que hora
Parece que eu tive uma recaída. No domingo eu já estava bem deprê, mas ontem foi o auge
do meu desespero. Chorei a tarde inteirinha. O tanto de dever em cima da mesa me deixou
mais nervosa do que eu já estava, minha mãe implicou comigo... explodi. Não agüento mais
gostar do Guilherme! O que eu faço para deixar de gostar daquele menino? Para voltar a ser
o que eu era? Que ódio!
E o problema não é só isso. A questão é se não existir nenhum homem para mim na face da
Terra. Eu não dou certo com ninguém! Ou a pessoa gosta de mim e eu não gosto dela, ou
eu gosto dela e ela não gosta de mim. É um desencontro completo. Por que isso acontece
comigo? Por que todo mundo é feliz, menos eu?
Ontem eu estava triste, mas hoje eu apelei. Afinal, hoje é feriado e está todo mundo se
divertindo, menos eu. Se há duas coisas que não combinam, são tristeza e feriado. Se eu
tivesse ido à aula, conversado com a Bia e ido à natação depois, talvez eu estivesse melhor
agora. Mas não: já estou hipertriste e é só eu olhar pela janela que vejo as lojas fechadas, a
rua parada, tudo morto... Depressão total. A vida conspira contra mim, é incrível.
Vou me isolar da vida afetiva, não vou mais gostar de ninguém nem querer que gostem de
mim. Só não vou virar freira porque ontem eu resolvi que quero ser psicóloga. Mas, tirando
isso, vou viver como se fosse uma. Quando eu sair à noite, não vou mais ficar com
ninguém, para não me decepcionar depois. Afinal, por que eu preciso ficar com alguém?
Posso passar a noite dançando e conversando com minhas amigas, certo? Aliás, posso
passar a minha vida inteira assim. Sem homem para atrapalhar. Talvez eu até vire lésbica.
Débora
P. S.: Pensando bem, não vou virar lésbica, não.
ngnp1046
03/05 Quinta-feira de tardinha
Depois que eu virei freira, minha vida melhorou muito. Hoje eu vi o
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Gui e a Carol no maior amor, mas não liguei. Já que eu não vou mais ficar com ninguém,
eles que aproveitem a vida pecaminosa, pobres mortais. Além disso, ontem eu recebi um e-
mail lamentável do Mateus. Ele disse que eu só sei falar do Guilherme e que se cansou de
mim. Não fiquei triste nem me dei ao trabalho de responder. Afinal, não vou mais ficar com
ele mesmo.
E hoje, na natação, eu só me concentrei em nadar. Senti a água no meu corpo, procurei
fazer todos os movimentos corretamente... nada de olhares para alunos bonitos ou coisas do
gênero.
E o que eu vou fazer agora, depois de terminar de escrever? Ficar pensando no Guilherme?
Nananinanão. Vou estudar para a prova de biologia da semana que vem. Semana que vem,
hein? Olha como eu estou adiantada!
Essa mudança foi boa. Simplificou minha vida. Agora, tudo ficou mais prático.
Recomendo.
Débora
04/05 Sexta-feira
Oi! Estou bem animada. A aula foi ótima, a professora entregou o trabalho de geografia e
eu tirei total. E, depois do colégio, fui ao shopping com a Bia e a gente almoçou pizza e
tomou sorvete. Eu queria ir ao cinema, mas não estava passando nada de bom. Cheguei em
casa agora.
Estou doida para ir ao curso amanhã. Pena que é o último dia. Na semana passada, a gente
aprendeu a fazer um “rosto básico”. Ou seja, a preparar o rosto para receber cor, como disse
o professor. Ele ensinou a passar base, corretivo e pó facial. E legal porque, além de ensinar
como passar, ele ensina os tons indicados para cada pele, os truques para disfarçar
defeitos...
Cheguei à conclusão de que, se eu quiser esconder todos os meus defeitos, eu ia precisar de
um quilo de maquiagem, mas tudo bem.
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Ainda não pude colocar meus conhecimentos em prática, porque eu não tenho dinheiro para
comprar maquiagem. Na aula, a gente usa estojos descartáveis com um pouquinho de cada
coisa. Estou doida para comprar um monte de produtos e montar meu próprio kit. Mas, para
isso, meu pai vai precisar colaborar.
Viu como eu melhorei? É o jeito freira de ser. Depois que você pega o jeito, é fácil. Acho
que vou até patentear esse método. Afinal, ele é meu.
Beijos, Débora
06/05 Domingo
Tadinha da minha mãe! Eu tinha me esquecido completamente de que hoje era o dia das
mães. Dei a velha desculpa que esse dia não passa de uma data comercial, mas espero que
ela não faça o mesmo comigo no Natal.
Meu fim de semana foi bem light. Típico de uma freira. Ontem fui ao curso e foi ótimo,
aprendi a usar sombra, lápis, blush... sem contar que o professor ensinou as tendências para
o próximo inverno. Ou seja, além da minha maquiagem ficar perfeita, vai estar super na
moda. E à noite, fui para a casa da Lu e dormi lá. A gente alugou um vídeo, fez pipoca,
navegou na internet. Foi ótimo. Meu pai me buscou hoje de manhã (estou aqui na casa dele,
agora).
Bem, vamos falar de assuntos financeiros. Estou pensando seriamente em arranjar um meio
de ganhar dinheiro. Meu pai está me dando uma mixaria de mesada e minha mãe nunca me
dá nada. Sempre falta dinheiro para sair à noite e para gastar no shopping. Para a
maquiagem que eu estou precisando, então, nem se fala.
Pensei em fazer uma greve aqui em casa, mas lembrei que eu fiz isso quando eu tinha doze
anos e não deu certo. Seria perfeito se eu fosse modelo. como a Samantha, mas eu não
tenho nem altura nem beleza para isso (é triste, eu sei). Pensei em trabalhar como
vendedora em alguma loja de roupas, mas minha mãe já disse que nem em sonho. Disse
que vai atrapalhar meus estudos, e ainda tem a natação, e blá-blá-blá. Até entendo a
preocupação dela, mas, se ela se preocupa mesmo, por que não me dá mais dinheiro?
Eu sei que esse apego aos bens materiais não é muito adequado para uma freira, mas fazer o
quê? Já basta eu não estar pensando em namorar, ficar, etc. Dá um trabalho danado.
   Débora
   88
ngnp1046
08/05 Terça-feira, 22h17
Minha vida de freira foi por água abaixo. Hoje, quando eu estava voltando do colégio, um
menino lindo mexeu comigo e eu não só ri para ele como fiquei pensando no dito-cujo
durante a natação inteirinha. Mas tudo bem. Pelo menos, acho que deu para esquecer o
Guilherme por um momento.
Não estou mais conversando com ele e nem ele comigo; afinal, não somos nem mais
amigos. Agora, ele é só um menino da minha sala. Não um menino qualquer, claro. É
alguém que já foi muito, mas muito especial para mim. E é um menino que está empacando
minha vida amorosa, porque não estou completamente curada da “síndrome do Gui”, ainda.
Mas estou chegando lá. Acho que já o esqueci cerca de 60%. Os outros 40%, acho que só
quando me apaixonar por outra pessoa. Se isso acontecer, é claro. Pode ser que eu não me
apaixone por mais ninguém e termine meus dias sozinha, mas não vamos pensar nisso.
Débora
09/05 Quarta-feira, 15h30
Hoje a aula foi horrível. A professora de matemática estava um saco e quase me mandou
para fora da sala. Eu estava conversando com a Bia, eu sei, mas muita gente também estava
falando e ela só brigou comigo. Foi o maior mico.
Mas como nem tudo é ruim, olha só: já consegui um jeito de ganhar dinheiro. É um método
temporário e não vai render muito, mas já vai dar para eu sair mais e economizar para
comprar a maquiagem. Bom, o que eu vou fazer é passar a cobrar pelos serviços, antes
gratuitos, que eu faço aqui em casa. Colocar lixo fora, ir à padaria, etc. Agora, minha mãe
vai ter que pagar tudo. E outra coisa: não procuro mais coisas na internet de graça. Meu pai
não tem computador na casa dele e vive me pedindo, e minha mãe não sabe mexer e me
pede toda hora também. Em compensação, também estou oferecendo serviços de digitação
para a minha família, coisa que eu não fazia antes, nem morta. Ah, e não acabou: também
estou oferecendo faxina na
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casa inteira, tanto para meu pai como para minha mãe, além de lavagem de carro para os
dois.
Minha mãe não gostou nada, nada de eu cobrar para ir à padaria e mexer na internet, mas
acabou aceitando. Afinal, estou praticando um preço bem razoável. Mas ela gostou da idéia
da faxina e da lavagem de carro. Até me encomendou uma faxina para amanhã à tarde.
Débora
11/05 Sexta-feira, 19h54
Nossa, ontem o dia foi um saco! Nem tive ânimo para escrever. Também, fiquei fazendo
faxina o dia inteiro! Minhas pernas estão doendo até agora. Eu pensava que este
apartamento fosse pequeno, mas ontem vi que é enorme. Na hora de lavar o banheiro,
então, quase morri. Nunca tinha lavado um banheiro na vida e não recomendo. E eu ainda
precisei guardar tudo o que estava fora do lugar, varrer e lavar o chão, lavar vasilha, lustrar
os móveis, pôr a roupa suja na máquina de lavar...
Desenho de Débora cansada com um esfragão na mão FFF!! Faxina...
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Bom, pelo menos minha mãe me deu o dinheiro que a gente tinha combinado. Não é muita
coisa, mas já ajuda. De qualquer forma, foi a primeira e última vez que ofereci esse serviço.
Não compensa. Cansei até, não estudei, não estou em condições de sair hoje (a Samantha
me chamou para ir a um caraoquê), me sujei toda... vou pensar em alguma outra coisa que
dê menos trabalho. Ah, mas o dinheiro para ir à padaria, consultar a internet e digitar ainda
está valendo.
Não tenho nada programado para o fim de semana. A Bia viajou, foi para o sítio da família
dela (eu não fui porque as primas dela foram também, e não sobraria quarto) e a Lu marcou
um cinema com um menino da sala dela. No clube eu não vou, de jeito nenhum. Ainda não
estou preparada para me encontrar com o Guilherme lá.
Bom, acho que o jeito vai ser passar o sábado e o domingo estudando e trabalhando. Vou
insistir para minha mãe me dar alguma coisa para digitar, quem sabe?
Débora
12/05 Sábado depois do jantar
Briga feia com minha mãe. Sinceramente, acho que a culpa foi dela. Mas tudo bem, vamos
relatar os fatos de maneira imparcial.
Eu estava calma e tranqüila lendo minha revista enquanto minha mãe estava fazendo o
jantar. A Bárbara tinha saído com o papai (eu não quis ir). Então, minha mãe pediu para eu
ver o horário de cinema para ela, na internet, porque ela queria sair com uma amiga. Eu
abandonei minha revista e fui lá ver. Veja bem a disponibilidade que eu tive: larguei o que
estava fazendo e fui. Imprimi os horários no maior capricho e entreguei para ela,
juntamente com a conta.
Aí, sabe o que aconteceu? Ela ficou superbrava. Disse que era um absurdo eu cobrar por
um favor, que eu não posso fazer isso, etc. Que raiva! A gente tinha combinado!
Tentei explicar minhas razões para ela, e ela me ouviu com toda a atenção. Eu pensei que
ela estava me entendendo e ia concordar em me pagar. Mas o que ela disse? Falou que sim,
iria pagar. Fiquei feliz por alguns segundos, até ela me dizer que também vai cobrar para
fazer minha comida e lavar minha roupa.
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Fiquei com ódio. Não achei nem um pouco justa a atitude dela. No fim das contas, ela não
me pagou nada e disse que da próxima vez não vai pedir para eu olhar nada na internet. Vai
mandar. Minha mãe é assim mesmo, autoritária.
Tenho que achar um jeito de ganhar mais dinheiro. É incrível, minhas possibilidades ficam
mais restritas a cada dia que passa! Primeiro, percebi que fazer faxina está além do meu
alcance, e agora minha mãe não deixa eu cobrar pelos meus favores. Mas tudo bem.
Vou aproveitar que estou com tempo neste fim de semana e pensar em alguma coisa.
Débora
14/05 Segunda-feira, +- 17h
Nossa, não fiz nada no domingo inteiro. Fiquei só na casa do meu pai vendo televisão.
Acabou que eu não estudei quase nada, e minha mãe não pediu que eu digitasse nem um
parágrafo. Pelo menos, achei um jeito de melhorar minhas finanças: vou ampliar meu
serviço de digitação para o colégio.
Esperta, né? Os professores sempre preferem trabalhos digitados e, às vezes, até exigem.
Vou cobrar um precinho camarada e vai ser o maior sucesso, aposto! Pensando bem, não
tão camarada assim, senão vou ganhar uma mixaria. E digitar dá um trabalhão,
principalmente no meu caso, que só uso dois dedos. E se aquele nojento do Guilherme
encomendar alguma coisa, vou cobrar mais caro!
Bom, agora vamos conversar sobre outras coisas. Acho que me desapaixonei pelo Gui. Se
ainda resta algum sentimento, é bem pouquinho, quase nada. O que interessa é que eu acho
que estou pronta para amar novamente. Mesmo que eu sofra, acho que vai ser bem legal se
eu arranjar alguém. Não agüento mais ficar sozinha. Além disso, quero perder minha
virgindade algum dia!
A Lu está quase namorando de novo. Ela disse que o menino com quem ela saiu no sábado
é uma gracinha e está doidinho por ela. Por que será que a Lu dá sorte assim, hein? Será
que é porque ela muda o cabelo toda hora? Que droga! Falando em cabelo. o meu está um
horror. Só não penso
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em cortar porque tenho certeza de que vai piorar. Mas tenho que tomar alguma atitude. Ele
está ressecado, sem brilho, sem nada. Só estou andando com ele preso. Assim não arranjo
ninguém mesmo.
Débora
15/05 Terça-feira não sei a hora
Estou atrasada para a natação. Só escrevo para contar que coloquei os cartazes no colégio.
A chata da Carol perguntou se eu estou passando por problemas financeiros e ofereceu
ajuda, bem cínica. Eu disse que acho melhor passar por problemas financeiros do que ter
um namorado galinha que nem o dela.
   Mentira, eu não disse nada.
   Débora
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16/05 Quarta-feira, 14h17
Descobri por que o meu cabelo está um lixo. É por causa da natação. Descobri isso ontem,
quando ele piorou consideravelmente depois da aula. Péssimo, não? Por um lado, a celulite
diminui. Por outro, meu cabelo vira uma palha! Que inferno!
Ah, não repara, estou meio histérica. Primeiro, porque eu coloquei o cartaz ontem e até
agora ninguém telefonou. Segundo, estou de TPM. Terceiro, percebi que estou sem uma
calça jeans decente, mas meus pais não se comovem. O quarto motivo é o de sempre: estou
sozinha, triste e desamparada nesse mundo de Deus. Nem uma boquinha para beijar. Nem
uma mãozinha para fazer um cafuné. Que sina a minha!
O pior é que eu não quero ficar com ninguém, eu quero é namorar. Cansei de sair à noite,
ficar com um varinha e ele sumir (ou melhor, às vezes sou eu que sumo). Já amadureci,
quero um compromisso sério com alguém.., daqui a pouco faço dezesseis anos, dezessete,
vinte... credo! Vinte anos e sem ninguém? Isola!
   Débora
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ngnp1046
P.S.: Quinto motivo: semana que vem é semana de prova e eu estou totalmente sem cabeça
para estudar! Não agüento mais estudar! Não agüento!
18/05 Sexta-feira depois do almoço
Olha que milagre, vou sair hoje! Vou à “Sexta Super” com a Bia. A gente combinou hoje
de manhã, no colégio. Foi superlegal, porque a gente combinou na frente do Gui e ele ficou
todo irritadinho, querendo saber aonde eu ia, a que hora... Não que eu queira que o Gui
tenha ciúme de mim, lógico. Eu já passei por essa fase, quero mais é que ele se dane. Mas
que foi legal, foi...
Para completar minha felicidade, meu cabelo ta lindo. Também, hoje eu gastei um
dinheirão no salão: cortei as pontas estragadas, fiz hidratação e escova. Quer dizer, quem
gastou foi a minha mãe, que pagou. Ela recebeu um aumento no trabalho e me deu o
tratamento de presente.
Bom, eu sei que ontem eu disse que não estava a fim de ficar com ninguém. mas já mudei
de idéia. Afinal, se eu não ficar com ninguém, não vou namorar ninguém, certo? É uma
questão de lógica. Agora, vou tomar duas precauções:
  1) Se o candidato for parecido com o Guilherme, dou o fora na mesma hora. Não quero
      correr o risco de passar a noite com dor-de-cotovelo, lembrando do Gui. Não quero
      ninguém que se pareça fisicamente com ele, ou que fale parecido com ele, qualquer
      coisa.
  2) Não vou dar meu telefone a ninguém. Só vou pegar telefones. E, aí, eu faço essa
      pessoa sofrer muito, esperando que eu ligue para ela. Ah, mas talvez eu nem fique
      com ninguém e só dance a noite inteira, o que é bem provável. Estou doida para
      dançar bastante e fofocar muito com a Bia. Pena que a Lu não vai. Ela vai sair com
      aquele menino de novo.
Beijinho, Débora
19/05 Sábado à tarde
Ai, que ódio que eu estou! Que ódio, que ódio, que ódio! Já dormi, tomei banho para esfriar
a cabeça, mas a raiva não passa!
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Mas vamos lá, deixa eu compartilhar meu ódio. Quando a gente chegou “Sexta Super”,
ontem, estava ótimo. Tinha muita gente, a música era ótima e eu estava me sentindo linda.
Sabe aqueles dias em que você se sente Superanimada, de bem com a vida? Então. Eu
estava assim.
Só que aí um tal de Lucas chegou em mim (ai, que ódio!). Ele era bem bonitinho e eu topei
conversar com ele, apesar de ele estar para lá de bêbado. Fui tão idiota! Como eu fui ficar
com alguém tão bêbado? O garoto era insuportável! O problema foi que, quando eu vi isso,
já era tarde. A gente já tinha ido a um lugar mais reservado e o menino não se contentava
em me beijar, queria passar a mão em tudo, na maior grosseria, e falou até em transar!
Voltei para a pista de dança, mas minha noite já tinha acabado. Ele ficou a noite inteira me
perseguindo, perguntando por que eu tinha parado de ficar com ele. Um saco! O pior é que,
nessa hora, a Bia tinha sumido com um menino e eu fiquei lá, sozinha, aturando o
nojentinho. Isso que dá sair só com uma amiga. Tinha hora que eu ficava sem graça, tinha
hora que eu queria dar um soco nele. Quando ele finalmente desencanou e me deixou em
paz, eu estava superirritada e fiquei sozinha, sentada em um canto, esperando a Bia querer
ir embora.
Dormi na casa dela e, depois do almoço, a minha mãe me pegou. E, agora, eu preciso
estudar, mas estou sem cabeça para isso, para variar. Só estou enrolando e por isso não vai
dar para sair à noite. Também, acho que não ia ter ninguém para sair comigo. A Bia deu tão
certo com o menino com quem ela ficou, que eles já combinaram sair hoje.
É incrível. Todo mundo dá certo com alguém, menos eu.
Débora
P.S.: Ao que tudo indica, eu ainda estou de TPM.
21/05 Segunda-feira antes do almoço
Sábado fiquei enrolando o tempo todo e domingo estudei só um pouco, mas dei sorte. A
prova foi bem fácil. O único problema é que estava bem grande. Cansei até. Estou com
medo é de quarta-feira. A prova vai ser de matemática. Não sei o que é pior, matemática ou
física.
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Já deu para perceber que hoje eu vou estudar a tarde inteira, né? Depois da aula, eu morri
de vontade de dar uma passadinha no shopping, mas resisti bravamente. É que quem
termina a prova pode ir embora, e eu terminei cedinho. Mas acabei vindo para casa, para
estudar. Já estudei por uma hora e agora dei uma paradinha para o almoço que, aliás, não
fica pronto nunca. Acho que vou virar a noite estudando. Estou realmente com medo dessa
prova. Por que é que existe prova, hein?
Débora
23/05 Quarta-feira depois do almoço
Nossa, me dei mal na prova. Tinha uma parte de questões abertas e outra de múltipla
escolha. Na de questões abertas, eu deixei duas em branco, e na outra quase nenhuma
resposta bateu com as da Bia.
Estou morrendo de medo. Ainda bem que estamos no primeiro semestre e dá para recuperar
minhas notas no segundo. Mas nem quero falar nisso. E olha que sexta tem a prova de
física.
Anotação: Quero férias!!
Mas sabe o que é pior? Ontem uma menina da sétima série me ligou querendo que eu
digitasse um trabalho dela, e eu tive que recusar, para estudar. Ela disse que tinha umas
doze páginas, eu ia ganhar um dinheirão!
Tenho que arrumar mais tempo para o colégio, credo. O problema é essa minha vida
amorosa, que nunca dá em nada. Se eu tivesse um namorado, acho que eu ia viver de um
jeito mais tranqüilo, sabe, mais calmo. Não ia ter tanta coisa na minha cabeça para eu me
preocupar. Mas do jeito que eu estou, saindo para arrumar alguém, ou ficando em casa
pensando que eu poderia estar com alguém, não tem jeito de estudar. Mas tudo bem, vou
tentar melhorar. Mesmo porque, se eu não der um jeito nas minhas notas, daqui a pouco
minha mãe e meu pai vão começar a encher o saco.
Ai, chega de falar de escola! Está na hora de começar a pensar o que eu vou fazer nas férias
de julho. Claro que o ideal seria ir para a Disney, vai estar
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um calorão lá... mas nem vou pedir ao papai de novo, não adianta. No ano passado, eu
passei as férias inteirinhas no sítio da Bia. Foi legal, mas foi meio monótono. Não tinha
nenhum lugar para ir à noite. Se ela me chamar de novo, não sei se vai rolar. Ah, ficar um
fim de semana no sítio é perfeito, mas as férias inteiras? No final, eu e a Bia estávamos tão
entediadas que até começamos a brigar uma com a outra.
Débora
25/05 Sexta-feira à tardinha
Não fiz uma ótima prova, mas acho que vai dar pelo menos para pegar média.
Minha mãe encheu o saco porque eu faltei na natação ontem também. Se eu tiro nota ruim
porque não deu para estudar, ela reclama. Se eu mato a natação para estudar, ela também
reclama. Que coisa!
Bom, fora as provas e a bronca da minha mãe, nenhuma novidade. Semana que vem tem
aula normal de novo, e eu ainda não tenho nada programado para amanhã. Hoje à noite não
vai dar para sair, com certeza, porque estou sem dinheiro. Vou poder sair só amanhã e olhe
lá.
Estou pensando em ir a um lugar mais light, sem clima para ficar, sabe? Estou começando a
achar que, quando saio doida para ficar com alguém, eu me dou mal. Tem que ser uma
coisa mais natural, sem forçar. Quando saio para caçar, fico muito ansiosa e acabo ficando
com qualquer um, como no fim de semana passado... não gosto nem de lembrar.
Só que tenho que convencer a Bia a querer uma saída assim também. Ela está mais
desesperada do que eu, porque o menino que ela tinha conhecido na semana passada sumiu.
Foi péssimo, porque ela estava realmente a fim dele. Bom, amanhã eu decido o que faço da
vida. Só sei que hoje eu vou me conectar, quer a Bárbara deixe, quer não. Faz um século
que eu não entro num chat. Vou mudar meu nick para o Mateus não me reconhecer, se ele
estiver lá. Deixa eu ver... que tal “Cindy”? Ah, é meio perua, mas vai esse mesmo.
  Beijo, Débora
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ngnp1046
27/05 Domingo, tipo 16h
Nossa, sem comentários. Levei um tombão hoje de manhã, na escada do prédio, machuquei
meu pé e minha mãe me levou para o hospital. Sorte que não quebrou, foi só uma entorse.
Mas vou ter que ficar com o pé enfaixado até quarta-feira e tomar antiinflamatório.
Bom, mas vamos falar de coisas boas. Ontem a saída foi bem melhor que a da semana
passada. Eu e a Bia fomos jogar boliche com duas primas dela, e tomamos sorvete lá
mesmo. Light, não? E olha, foi superdivertido. Havia alguns garotos lá, mas todo mundo
estava indo para jogar. Ninguém ficou com ninguém, e a gente fofocou muito, jogou, riu
até... foi ótimo. Uma das primas da Bia simplesmente se apaixonou pelo meu cabelo, disse
que ele é lindo, maravilhoso e que ela queria que o dela fosse desse jeito. Pode? Eu é que
queria que o meu fosse do jeito do dela, todo lisinho.
Bom, pelo jeito, hoje vou ficar aqui em casa mesmo, à toa. Eu até queria dar uma passada
no clube, hoje à tarde, mas não deu, por causa do pé. Quem sabe foi um sinal? Eu queria ir
à tarde para não encontrar o Guilherme (ele costuma ir de manhã, igual a todo mundo), mas
quem sabe ele não resolveu ir à tarde hoje? Pensando melhor, foi até bom ter machucado o
pé.
Ai, acabei de lembrar que, por causa do meu pé, não vai dar para ir à natação na terça.
Dessa vez, minha mãe nem pode brigar comigo. Mas eu queria ir, sabe? Eu sinto que a
minha celulite está aumentando. Estou sedentária faz mais de uma semana! Se bem que
boliche conta, não conta? Bom, de qualquer forma, na quinta eu vou nadar em dobro.
Débora
   29/05 Terça-feira, hora da felicidade
   AAAAHHHHH!!!!!
Não acredito! Até agora não estou acreditando direito! Vou ter um ataque de felicidade!
Nossa, como eu sou feliz! Eu nunca fui tão feliz em toda a minha vida! É fantástico se
sentir assim!
Sabe o que aconteceu? Sabe? Sabe? Aconteceu que eu vou para a Disney nas férias de
julho!!!! Nem posso acreditar! Meu pai vai me dar a
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viagem de presente, eu vou passar quinze dias na Disney! Isto é, se eu não morrer de
felicidade até lá!
Nossa, não estou nem conseguindo escrever direito! Meu pai me deu a notícia não faz nem
dez minutos. Ele ligou para cá e disse que olhou os preços da viagem, e que em julho eu
posso ir! Já pensou? Eu no Epcot Center, no Magic Kingdom, nos parques aquáticos, nas
montanhas-russas do Bush Garden... parece um sonho!
Desenho de Débora sentada em um sofá com um chapéu do Mickey na cabeça, um folheto
da Disney na mão, o pé em cima do braço do sofá com a nota: Pé machucado e outra nota:
Eu vou! !!!
Um monte de gente da minha sala já foi e disse que é perfeito. Não vejo a hora! Ah, e sem
contar que serão quinze dias de liberdade, sem minha família por perto. A Bárbara vai
chorar até, mas o papai me disse que ela só vai quando for mais velha. Estou doida para
contar para a mamãe quando ela chegar do trabalho. E também estou doida para contar para
a Bia e para a Lu, vou ligar para elas agora!
Beijos! Beijos! Beijos! Débora
29/05 Ainda terça à noite
Já contei para todo mundo! A mamãe já ficou toda preocupada de eu ir sozinha, já ligou
para o papai e tal, mas adorou. E a Bárbara, tadinha, realmente chorou e implorou para ir
também. Mas não vou negar que eu gostei de ela não ir. É bem melhor ir sozinha! Se eu
fosse com ela, ia acabar tendo que ficar tomando conta. E, depois, se eu esperei até ter
quinze anos, por que ela não pode esperar também? Mas fiquei com dó dela.
Ai, vai ser tão bom! Vou no comecinho de julho, assim que entrar de férias. Meu pai disse
que esse é meu presente de aniversário, e que ainda vai me dar mil dólares para gastar em
Miami. Vou comprar um monte de coisa. Principalmente roupa. E vou aproveitar para fazer
dieta lá, porque aí sobra mais dinheiro para eu gastar. Até já comecei a fazer a lista:
aparelho de som, roupa, perfume, presentes... também preciso fazer uma lista do
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que eu preciso comprar para levar. Minha mãe não gostou dessa idéia, mas eu preciso no
mínimo de um maiô (dizem que nos parques aquáticos não é bom ir de biquíni, porque ele
fica saindo. Já pensou o mico?), shortinho e algumas blusinhas, porque lá vai estar o maior
calor.
Ah, meu pé vai bem, obrigada. Fiquei tão empolgada que até me esqueci de tomar o
remédio, mas ele já está bem melhor. Preciso tomar cuidado para não cair de novo. Já
pensou se eu vou para a Disney de pé quebrado? Deus me livre!
Beijinho, Débora
30/05 Quarta à tarde
Olha que injustiça: a Bárbara não está falando mais comigo! Ela disse que eu tenho que
convencer o papai a deixar ela ir, que eu sou egoísta... no final das contas, ela conseguiu
fazer com que eu me sentisse mal. Mas o papai não quer deixar mesmo! Não tem nada que
eu possa fazer. Eu sei que é péssimo para ela, mas um dia ela vai.
A aula foi ótima! Também, estou superanimada. Não entregaram as provas ainda, o que é
muito bom, porque aí minha felicidade dura mais. Acho que, quando receber, nem vou
mostrar para o papai. Já pensou se ele resolve não me dar mais a viagem? Aí, eu nunca
mais falo com ele!
  Débora
  100
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JUNHO
Desenho de Débora com uma tesoura na mão
01/06 Sexta depois do almoço
Bomba! Tirei quinze na prova de matemática. Detalhe: valia trinta. Ninguém aqui de casa
sabe ainda, e nem vai saber. Só sei que vou começar a estudar muito, muito, muito agora,
porque aí, se algum dia eles descobrirem, minhas notas já vão estar boas. Na prova de física
não fui superbem, mas foi muito melhor: vinte e um. Nas outras, minhas notas foram
tranqüilas.
É claro que minha mãe perguntou como fui nas provas, mas eu estou insistindo na idéia de
que eles ainda não entregaram. Sei que não posso enrolar para sempre, mas tenho esperança
de que ela esqueça o assunto e nem pergunte mais. Além disso, posso inventar alguma
desculpa. Posso dizer que o colégio mudou as regras, por exemplo, e agora ninguém mais
recebe as notas das provas, para o resultado no fim do ano ser surpresa. Ou posso mentir
que tirei, digamos, vinte e quatro (se eu disser uma nota muito alta, ela pode ficar
desconfiada).
Bom, ainda não sei o que vou fazer. Tenho que estudar mais de qualquer jeito. Vou
começar na segunda-feira, sem falta. Todos os dias, quando eu chegar do colégio, vou rever
o que os professores ensinaram naquele dia tenha ou não dever para fazer. E não vou ter
mais vergonha de perguntar o que eu não entender na aula (eu tenho).
Débora
02/06 Sábado de manhã
Nossa, ontem à noite eu vi umas fotos supernojentas em um site pornográfico! Fui parar lá
sem querer, juro. Argh, nunca mais.
Não sei o que vou fazer hoje. Estou meio desanimada, sabe? Estou pensando na Disney.
Pena que falta mais de um mês para a viagem chegar e, até lá, muuuita coisa para estudar.
Não quero correr o risco de o papai mudar de idéia.
Não estou conseguindo falar nem com a Bia nem com a Lu. Espero que elas me liguem
para a gente combinar alguma coisa. Do jeito que estou desanimada, não consigo ter
nenhuma idéia de onde ir.
   Beijos, Débora
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ngnp1046
03/06 Domingo à noite
Credo! Não fiz nada esse fim de semana, nem tive o que escrever! Não saí no sábado à
noite, acordei às duas da tarde hoje e fiquei vendo tevê o dia inteiro. Estou um lixo! Não
quero nem saber: no fim de semana que vem, vou fazer uma coisa bem legal para
compensar.
A Bárbara chegou da casa do papai há uma hora. Não teve jeito, ele não deixou mesmo.
Disse que ela é muito pequena e que pagar duas viagens de uma vez não é fácil. Bem, não
posso fazer nada.
Desenho de Débora na frente do computador sentada na cadeira toda jogada pensando que
está lindona (com pomada na cara) e na tela do computador está escrito ICQ Engraçadinho
Nossa, no estado em que estou, nem a Disney está me animando. Estou do jeito que eu
estava na sexta à noite, quando eu conversava no chat com um tal de “Engraçadinho”. Ou
seja: com pomada nas espinhas, moletom, cabelo preso em um coque e chinelo com meia.
O mais legal é que, quando ele perguntou como eu estava vestida, eu disse que estava com
um vestidinho lindo e o cabelo solto. Tadinho! Ele nem imaginava a “monstra” com quem
ele estava falando!
Beijinho, Débora
04/06 Segunda-feira, intervalo da novela
Nossa, estou supercansada! Estudei durante três horas e quarenta minutos direto. Parei para
ver novela e vou continuar quando acabar. Só que teve um problema: a minha mãe ficou
superdesconfiada por eu estar estudando tanto. Ela perguntou por que eu estou assim, já que
as provas acabaram, e perguntou de novo se já entregaram as notas. Me enrolei toda para
responder, mas acabei falando que não, porque os professores são muito lerdos, a prova é
grande, etc. Aposto que daqui a pouco ela vai começar a duvidar de mim. Tenho que pensar
rápido. É uma questão de sobrevivência.
   Débora
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ngnp1046
05/06 Terça-feira depois da natação
Oi! Já cheguei e já vou estudar. Estou escrevendo só para falar que a viagem para a Disney
já está marcada, olha que bom! Vai ser no dia 16 de julho. Outra coisa: o coquetel da
empresa de viagem também já está marcado, vai ser no fim deste mês. Lá, eles vão falar
sobre a viagem, passar fitas no telão com grupos que já foram e entregar nosso kit Disney
(não tenho a menor idéia de que kit é esse). Amei!
Bom, vou estudar. É a vida, né? Já decidi o que vou falar com a minha mãe: vou mentir que
tirei vinte e quatro. Ela não vai vasculhar as minhas coisas mesmo!
Débora
06/06 Quarta-feira à tarde
Horrível! Minha mãe vasculhou as minhas coisas! Até agora não estou acreditando como
ela pôde fazer isso comigo! Ela mexeu na minha mochila e viu a maldita prova com a
maldita nota! Eu não tinha tirado a prova de lá ainda porque achei que lá era justamente o
lugar mais seguro! Que droga!
Ah, deixa eu me acalmar um pouco. Estou supernervosa! Além de ela ter mexido, veio me
xingar e tomar satisfação da nota. Eu avisei que não falaria nada, porque como ela não tem
o direito de mexer nas minhas coisas, tecnicamente ela não descobriu nada. Mas ela não
parava de berrar e disse que vai conversar com o meu pai. Fiquei tão brava que comecei a
chorar.
Para não dizerem que eu sou injusta, vou contar a versão dela: ela disse que não estava
vasculhando nada e só foi limpar minha mochila. Aí, ela teria encontrado um papel
amassado e o abriu para ver se podia jogar fora. Então, viu a nota e veio falar comigo.
Tem desculpa mais esfarrapada do que essa? Foi exatamente o que a mãe da Lu disse
quando mexeu no diário dela. Disse que estava limpando a casa quando viu um caderno
aberto e resolveu dar uma olhada, para ver se podia jogar fora. O problema é que a página
era justamente sobre o dia em que a Lu tinha ficado bêbada em uma festa. Levou a maior
bronca.
Agora, voltando ao meu drama. Sabe o que é pior? Minha mãe falou
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que o problema não foi só eu ter tirado nota ruim. Ela disse que essas coisas acontecem, e
que o x da questão foi eu ficar enrolando e omitindo a verdade. Como se ela não enrolasse
para me dar dinheiro. Ou como se ela não omitisse quando sai com algum cara do trabalho
dela! Eu acho até bom que minha mãe namore, afinal, ela é humana. Mas que ela omite,
omite.
Mas como eu não quis criar confusão (não é bom criar confusão quando você está prestes a
ir para a Disney e precisa da autorização e do dinheiro dos seus pais), depois de chorar eu
pedi desculpas e mostrei quanto eu tenho estudado, além de prometer que não vou mais
esconder minhas notas. E claro, implorei para ela não contar para o papai. Ela disse que vai
pensar no caso. Ai, ai.
Débora
08/06 Sexta-feira, tipo 21h30
Acabei de chegar do shopping. Fui com a minha mãe e a Bárbara comprar umas coisinhas
(só ganhei um brinco, com muito esforço), passear e comer pizza. Minha mãe está com
peninha da Bárbara, por causa da viagem, e deu um tantão de coisa para ela. Mas as coisas
de que eu preciso para a viagem, que é o que interessa, ela não quis comprar ainda.
Bom, vamos parar de reclamar. Está chegando o aniversário da mamãe e eu preciso
comprar alguma coisa para ela. Ainda mais porque ela foi legal comigo: me disse, hoje de
manhã, que não vai contar nada para o meu pai. Fiquei tão aliviada! Eu queria dar um
superpresente para ela, então vou pedir dinheiro para o meu pai. Se eu fosse comprar com a
minha mesada, coitada, ela iria ganhar algo como um sorvete (como no ano retrasado,
quando o meu pai não colaborou).
Débora
10/06 Domingo, depois do café
Ontem à noite foi ótimo: fui a um rodízio de pizza com a Bia e a Ju. A gente apostou quem
comeria mais fatias e eu quase ganhei. Tenho certeza de
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que ganharia se não tivesse tomado tanto refrigerante. No final das contas, consegui comer
só 6 fatias, igual à Bia, e a gulosa da Ju comeu 11.
Desenhos de Débora, Bia e Ju e das pizzas de mozarela, portuguesa, calabresa, atum, 4
queijos, marguerita, chocolate (??!!)
Débora
13/06 Quarta-feira de manhã
Oi! Estou aqui em casa. Tive que matar aula, porque acordei não me sentindo muito bem.
Deve ter sido alguma coisa que comi. Ainda bem que comprei o presente da mamãe ontem,
com meu pai. Nós escolhemos uma bolsa linda e carésima. Ela vai amar. E a vantagem
extra é que eu posso pegar emprestada. Mas só depois de mais ou menos um mês, para ela
não achar que eu comprei pensando em mim (não foi, juro!).
A Bia me ligou na hora do intervalo. Apesar de ela ter me acordado. achei tão lindo! Ela
disse que o professor do terceiro horário tinha faltado. E incrível. Os professores só faltam
quando eu não vou. Parece um complô.
Se eu não melhorar amanhã, nada de natação. Só que eu descobri que dá para repor aulas
perdidas, então nem liguei muito. Semana que vem, eu faço três vezes. Bom, né? Minha
celulite agradece.
Eu queria até estudar hoje, mas não vai dar mesmo. Estou me sentindo bem fraquinha. E,
além do mais, eu tinha combinado comigo que estudaria todos os dias a matéria ensinada
naquele dia. Como eu não fui à aula hoje, não tem nada para estudar. Simples, não? Minha
consciência nem pode falar nada.
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Nossa! Acabei de perceber que, seguindo esse raciocínio, estou terminantemente proibida
de estudar no sábado e no domingo. Que pena, não é? Por mais que eu queira, nada de
livros nos fins de semana. Afinal, eu tenho que manter a minha palavra.
Beijinho, Débora
14/06 Quinta-feira depois do almoço
Minha mãe amou o presente! Fiquei superfeliz. Hoje é o aniversário dela e eu dei a bolsa
assim que eu acordei. Mais tarde, minha vó e minhas tias vão dar uma passada aqui em
casa, para a gente comer alguma coisa e comemorar. É bom que eu vejo a Samantha.
Desenho de uma bolsa com a anotação: A bolsa da mãe! Presente de ..... anos (acha que eu
vou contar?)
Estou melhor do enjôo, mas não deu para ir ao colégio hoje. Eu não estava a fim de perder
aula de novo, mas minha mãe me convenceu de que era melhor eu faltar outra vez do que
ter uma recaída. Amanhã eu vou.
Beijos, Débora
15/06 Sexta depois do almoço
Ontem, eu conversei bastante com a Samantha, pelo telefone, e adivinha... ela está
namorando. Sortuda, não? O problema é que quase a nossa conversa inteira foi sobre o
namorado dela. Super-repetitivo. Eu tentei mudar de assunto, mas ela só sabia falar disso.
Tudo bem. Quando eu tiver o meu, vou ficar um nojo, de tanto falar sobre ele para todo
mundo.
Acabou a mamata: fui ao colégio hoje. Perdi algumas matérias e vou dar uma estudada à
tarde. Ainda não estou totalmente curada, mas já estou bem melhor. Acho que consigo sair
amanhã à noite normalmente.
Dá para acreditar que eu já estou pensando com que roupa eu vou ao coquetel da Disney?
Que coisa mais paty! Mas é que é importante. Afinal, lá vai estar todo mundo da viagem, e
eu quero deixar uma boa impressão, né?
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Vou aproveitar e conferir a quantidade de meninos bonitos e, infelizmente, de meninas
bonitas também. Por outro lado, não posso ir muito perua, porque aí eles vão me achar um
saco. Mas, se eu for simples demais, ninguém vai nem notar a minha presença.
   Ai, o que eu faço?
   Débora
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16/06 Sábado, hora do tédio
Nossa! Hoje o dia está um tédio completo! Absolutamente nada para fazer. Um horror. Em
compensação, já recuperei minha sã consciência e não estou mais pensando na roupa que
vou usar no coquetel (estou pensando no cabelo, mas tudo bem).
Acho que vou ao clube amanhã. Afinal, não tem por que eu ter medo de encontrar com o
Guilherme. Vários motivos me fizeram tomar essa decisão.
  1) Já me desapaixonei. Sério. Juro. Sem chance de recaída.
  2) Eu adoro o clube. Agora está frio, mas lá tem outras coisas para fazer além de nadar.
      Posso tomar sauna, jogar sinuca, jogar vôlei, observar minha celulite de biquíni. E o
      principal:
  3) Eu já vejo o Guilherme todo dia no colégio mesmo.
Bom, então eu vou e pronto. Decidi. Estou ficando muito fresca, tenho que parar com isso.
Ah, já ia me despedindo sem contar a novidade: a Bárbara cortou o cabelo. Ficou horrível.
Tudo bem, não ficou tão ruim assim. Eu posso estar com inveja. Mas é que o cabelo da
Bárbara é perfeito, liso como um quiabo (não que eu ache que quiabo seja liso, mas essa
expressão existe, fazer o quê?) e dá o maior dó cortar.
Eu, sim, queria cortar o meu, para ver se ele melhora. Mas acho que vai piorar. Cabelo
cacheado não pode ser curto, fica horrível. Nunca cortei, mas imagino que fique. Acho
melhor deixar do jeito que está. Eu queria ser como a Lu, que tem coragem de mudar a toda
hora. Às vezes, quando vou até a casa dela, levo um susto, porque ela está completamente
diferente da última vez que a gente se viu. Mas sei lá, acho que é arriscar demais. Muitas
vezes, o resultado fica legal, mas a gente leva décadas para se acostumar.
Além disso, as pessoas, quando me vêem na rua, não pensam coisas do tipo “Como será
que aquela menina ficaria com o cabelo ruivo?”. Elas simplesmente me acham bonita ou
não, e não ficam analisando. Acho que
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é por isso que só a gente fica insatisfeita com a gente mesma, enquanto os outros não estão
nem aí.
Ah, sei lá. Já me acostumei comigo assim e não quero mudar.
Débora
17/06 Domingo à tarde
Pintei o cabelo de loiro! Ficou horrível! Não sei como eu pude fazer isso comigo!
Eu estava no clube, sorridente e feliz, quando fui marcar uma escova no salão que tem no
vestiário. Mas vi uma menina tingindo o cabelo de loiro e não resisti. Perguntei à
cabeleireira se ela achava que ficaria bom, ela disse que achava. Fui enganada! Eu exijo os
meus direitos!
Ninguém viu ainda, porque ainda estou aqui no clube. Faz mais ou menos uma hora que eu
fiz essa burrada e estou chorando até agora. Quando eu pedi para desfazer, a mulher disse
que não tinha horário disponível. Eu sou uma estúpida mesmo! E agora? Como vou à aula
amanhã?
Débora
   18/06 Segunda-feira
   Não quero falar sobre o assunto.
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   19/06 Terça-feira
   Ainda não estou preparada.
Desenho de Débora com a mão no cabelo e assustada com as anotações: que horror!! E
loira??!!
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20/06 Quarta-feira à noite
Estou um pouco melhor. Mas segunda-feira foi um pesadelo. Em casa, todo mundo odiou.
Minha mãe até brigou comigo, disse que eu não tenho juízo, etc. No colégio, só faltou o
povo gargalhar. Fui com o cabelo preso, mas não adiantou muito. Até a Bia disse que não
ficou bom. Não briguei com ela. afinal, ela estava sendo sincera. Mas foi péssimo. O
Guilherme veio com as piadinhas dele, é claro, e a Carol não perdeu a chance de falar que
eu fiz uma besteira.
Quando cheguei da aula, fui correndo para o telefone marcar hora no salão, mas aí eu me
toquei de que ele não abre na segunda. Tive que ir novamente com o cabelo horrível ontem.
O pessoal já tinha parado de encher a paciência, mas mesmo assim eu estava me sentindo
um lixo. A Bia disse uma coisa certa: a minha pele não é branca o bastante para eu parecer
loira natural, e ao mesmo tempo não é morena o suficiente para o resultado ser um loiro
com estilo.
Ontem, finalmente, consegui marcar hora no salão. Só que o meu cabelo continua horrível.
Afinal, agora ele está na cor natural, mas depois de tanta tintura ficou super-ressecado.
Uma palha mesmo. Ainda mais porque eu tive que descolorir os fios antes de tingir de
loiro, porque o meu cabelo é escuro. Só depois de descolorir, veio a tinta cor de ovo. E
ontem, mais tinta.
Fiz tudo errado. Minha auto-estima está a zero. Eu só queria saber como é ser loira, se os
meninos iam me olhar mais... não sabia que ia ser tão desastroso. E o pior é que eu não
queria cortar, mas agora não tem mais jeito. As pontas estão completamente quebradas.
Minha mãe falou que me dá dinheiro para cortar e fazer um tratamento no salão. Eu devo ir
lá na sexta. Hoje não, porque estou cheia de coisa para estudar.
Débora
22/06 Sexta-feira à tarde
Nossa, eu nunca vi meu cabelo tão maravilhoso na vida. Acho que nunca mais vou implicar
com ele. Sério, está perfeito. Além do tratamento,
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eu cortei curtinho! Nunca imaginei que fosse ficar bom, mas na hora me deu a louca. Ele
está um pouco acima do ombro, todo repicado. Eu sempre tinha usado corte reto, e não
sabia que repicado diminuiria o volume assim! Nossa, agora eu sou uma pessoa muito feliz.
Todo mundo aqui em casa amou, estou doida para ver o que o pessoal do colégio vai falar!
Desenho do rosto de Débora toda feliz com a anotação: novo corte, cabelo novo, vida
nova!!
O que está me animando mais ainda é o coquetel da Disney. Vai ser na semana que vem.
Estou tão feliz com o meu cabelo perfeito, que nem estou me preocupando mais com a
roupa. Além disso, hoje à noite vou ao cinema com a Bia e um primo dela, que é bem
interessante. Ela me garantiu que não quer nada com ele, que ficar com primo é um nojo, e
que, portanto, eu não vou segurar vela. Bom, mas eu não disse nada sobre ela não segurar
vela, né?
Beijos, Débora
24/06 Domingo depois do almoço
Acabei de chegar da casa da minha madrinha. Meu fim de semana está todo light. Ontem eu
passei o dia inteiro na casa da Lu, dormi lá e tal. A gente pediu pizza, passou a madrugada
toda na internet e falou uma porção de bobagens. Minha mãe me buscou hoje, e a gente foi
direto para a casa da minha madrinha almoçar lá.
Agora, na sexta... a Bia acabou ficando com o primo dela, no cinema. Só não fiquei com
mais ódio porque sei que no mês que vem estarei na Disney (sem contar que todo mundo,
da minha madrinha à Bia, amou meu corte de cabelo). Mas na hora, dei o maior gelo na
Bia. Ela me garantiu que não ia rolar nada! E o que é pior, eu fui cheia de esperança para
conhecer o garoto direito, trocar telefone, ICQ, o que fosse.
Quando eu cheguei em casa, ela me ligou para pedir desculpas. Eu comecei a dar uma
bronca nela, mas aí ela começou a chorar. Eu disse que ela estava exagerando e que não era
para tanto, mas ela confessou que estava chorando porque se sentia culpada por ter ficado
com o próprio primo. Aí eu fiquei com uma superpena dela e parei de brigar.
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Ela perguntou se eu acho errado ficar com primo, e eu falei que não sabia. E não sei
mesmo. O problema é que eu não tenho nenhum primo bonito, então nem consigo pensar
na hipótese. Bom, errado eu não sei, mas que deve ser estranho, deve. Imagina a cena!
- Amor, amanhã não vai dar para a gente sair, porque é aniversário minha tia.
- Ah, eu sei! Ela é minha tia também, lembra?
Bizarro, né? Mas eu acabei falando para a Bia que, se ela está a fim mesmo, deve ir fundo.
E torcer para ninguém ficar sabendo, porque acho que a família dela não daria esse
conselho que eu dei! Já até falei com ela: qualquer coisa, eu não sei de nada, não vi nada e
muito menos aconselhei nada!
Débora
26/06 Terça-feira à noite
Ontem à noite teve o coquetel da Disney e foi ótimo! Eu fui com a minha mãe, meu pai e a
Bárbara. Fiquei morrendo de sem graça, porque um menino superlindo não parava de me
olhar. Se meus pais não estivessem lá, tudo bem, mas com minha família todinha lá, até
parece! Ignorei-o solenemente. Tadinho. Espero que na viagem a gente fique e eu possa
esclarecer tudo.
A gente recebeu o Kit Disney, com camiseta, boné, panfletos dos parques, caneta,
bloquinhos, etiquetas para usar nas malas, etc. Fiquei meio decepcionada com a tal
camiseta. Não sabia que a gente teria que usar uniforme lá. Já basta o colégio! Mas a
camisa até que não é horrorosa, não. E, além disso, se todo mundo vai usar, ninguém vai
reparar em mim, né?
Desenho de Débora no Super-coquetel Disney, mostrando o que ganhou no kit: boné,
camiseta, caneta e bloco.
A aula hoje foi bem sem graça. A Bia faltou, porque o despertador da casa dela não tocou
(que sorte a dela), e parece que os professores estavam morrendo de preguiça. Uma aula
mais enjoada
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que a outra. Ontem tinha sido mais legal, porque todo mundo elogiou meu cabelo, inclusive
o Gui, que fez o maior escândalo. Ai, o Guilherme é tão escandaloso, credo.
A natação foi um horror. Quase morri afogada no nado de costas. Aquela piscina grande
não acabava nunca, e eu batia minha mão na raia toda hora. O professor me corrigia o
tempo todo, mas como eu podia enxergar a raia se estava de costas?
Estou doida para entrar de férias. Ainda mais agora, que estou indo ao colégio praticamente
à toa. As provas foram bem antes do fim do semestre, depois teve a revisão e agora está
pura enrolação.
No ano passado, eles foram mais espertos e deram as provas mais tarde, e o último dia de
provas foi o primeiro de férias. Este ano está a maior confusão. Os professores cismaram de
dar trabalhos em vez de provas e só tivemos uma bateria de bimestrais, em vez de duas. No
semestre que vem, deve mudar. Ainda bem. Eu detesto fazer trabalho. A vantagem de prova
é que o problema já é liquidado na mesma hora, você faz a prova e pronto. Trabalho
demora anos, tem que se reunir com o grupo, apresentar lá na frente, uma chatice.
   Ai! Chega de falar de escola!
   Débora
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29/06 Sexta-feira à tardinha
Estou aqui na casa do meu pai me preparando para dormir. E olha que coisa: três meninos
não saem da minha cabeça!
Acho melhor explicar direito, né? É que tem três meninos que ficam rebatendo bola aqui na
rua do meu pai. Acho que são vizinhos, não sei, devem ser. Não é a primeira vez que eles
rebatem nem a primeira vez que eu os vejo, mas hoje não sei por que fiquei reparando da
janela do apartamento. Eles parecem ser tão legais (e são tão fofinhos!).
Bom, por enquanto não conheço os meninos e eles não me conhecem. Aliás, não conheço
nenhum vizinho daqui da casa do meu pai, porque só costumo vir nos fins de semana e só
fico em casa. Vim hoje porque almocei com o papai depois do colégio e ele me trouxe para
cá.
Fiquei morrendo de vontade de me apresentar a eles, mas cadê a coragem? Eu queria ficar
lá, rebatendo também. Ia ser superlegal! Sempre
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quis ter amigos vizinhos, é tão prático! Já pensou? Eu chego do colégio, tomo banho e
desço para jogar bola? Quando eu era criança, fazia isso todos os dias. Era o máximo!
Sem contar que, depois da fase Guilherme, eu não tenho mais amigos homens. Acho que
faz falta. Eles são ótimos para a gente pedir opinião sobre roupa, por exemplo, porque
sempre falam a verdade.
Acho que eles ainda estão jogando. Vou olhar mais um pouquinho.
Débora
30/06 Sábado, tipo 16h
Hoje o dia foi bem light. Acordei cedo, fui ao clube com a Bia e almocei na casa dela. A
Bia está com um corpo lindo, eu até elogiei. Mas o meu corpo também não está nada mal.
Ainda mais agora, que eu estou nadando como uma louca para arrasar na Disney. Também
estou evitando carne vermelha, eu contei? Agora é só frango ou peixe. Eu queria peru, mas
minha mãe disse que só no Natal.
Ainda estou na casa do meu pai, mas não vi os meninos hoje. Triste, não? O pior é que eu
nem sei onde eles moram. Quer dizer, pelo menos um tem que morar aqui, senão não teria
sentido eles rebaterem justamente nesta rua. Mas pode ser que os outros dois sejam apenas
amigos. Isso significa que eles só vão rebater de vez em quando, quando os amigos vierem
para uma visitinha. Por que eles não dormem na casa do amigo que mora aqui e rebatem
todos os dias, então? Que coisa!
Ah, olha só que coisa: encontrei o Guilherme no clube. Viu? Essa foi a prova de que eu não
estou mais a fim dele, porque falei sobre um tanto de coisa e só agora me lembrei de contar
que ele foi! Agente se cumprimentou e só. Não ficamos conversando. Percebi que já não
me incomodo com a presença dele, e aproveitei o clube normalmente, com a Bia. Legal,
né? Parabéns para mim!
  Débora
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JULHO
Desenho de Débora com o chapéu do Mickey na cabeça
01/07 Domingo à noite
Hoje os meninos rebateram de novo! Isso quase prova que os três são meus vizinhos
mesmo. Afinal, não é possível que eles morem longe e venham aqui todos os dias.
Fiquei um tempão olhando. Acho que eles perceberam e até comentaram a meu respeito!
Meu pai mora no terceiro andar, ou seja, posso vê-los perfeitamente, mas não fica tão na
cara. E eles não podem me ver com tanta precisão, porque eu coloco a cabeça um pouco
para dentro do quarto e deixo a luz apagada. Faço isso porque eu iria morrer de vergonha se
eles gritassem alguma coisa para mim do tipo “pára de olhar!”. Acho que eles não fariam
isso, mas sei lá, né?
Hoje, eu quase criei coragem de me apresentar a eles. Acabei ficando com vergonha. Eles
são tão bonitinhos! É difícil não olhar. O ideal seria que eles puxassem assunto comigo,
mas eles mal podem me ver direito. Acho que eles não vão conversar comigo nunca! Mas
eu tenho vergonha de escancarar minha cara na janela, né? Não quero que eles fiquem
achando que eu estou babando por eles nem nada.
   Ai! Que complicação!
   Débora
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02/07 Segunda-feira, tipo 19h
Hoje o dia foi perfeito! Criei coragem e me apresentei aos meninos. Eles foram super-
receptivos, e a gente rebateu a tarde inteira!
Agora, estou na casa da minha mãe. Mas antes, estava na do meu pai, porque eu quis
dormir lá de domingo para segunda (adivinha o motivo!). Só que ele ia sair à noite e me
trouxe para a minha casa, porque ele não gosta que eu fique lá sozinha. Uma frescura. Ele
não gostou nada, nada de eu ter ficado na rua com os meninos.
Mas me deixa contar como foi! Eu estava chegando do colégio, de ônibus, quando vi que
eles estavam na rua, rebatendo. Fiquei tão feliz! Aí eu fui andando em direção ao meu
prédio. Eles, me olhando discretamente. Aí,
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não sei o que me deu (adoro quando me dá essas coisas!), cheguei para eles e disse:
- Oi! Meu nome é Débora. Como vocês se chamam?
Aí eles se apresentaram: Alexandre, Felipe e Gabriel. O Felipe é o mais lindo. O Alexandre
tem dezessete anos, o Felipe é irmão dele e tem dezesseis e o Gabriel é amigo dos dois e
tem quinze. Os três moram no prédio do meu pai, olha que coisa! O Alexandre e o Felipe
com a família deles e o Gabriel com a dele. Fantástico, não?
Desenho de Débora na janela do apartamento do pai dela olhando para a rua onde três
rapazes jogam bola, com as anotações: olha eu aqui, Alexandre, Felipe (o + lindo) e Gabriel
Bom, aí eu falei que ia almoçar e depois desceria para rebater com eles. Então, eu subi,
cumprimentei meu pai, almocei e disse a ele que ia descer. Pronto: começou a implicância.
Meu pai disse que só havia meninos lá embaixo, que ia pegar mal, e um tanto de bobagem.
Aí, eu telefonei para a minha mãe, contei o caso e ela disse que não via problema algum.
Meu pai ficou de cara amarrada, mas acabou não discutindo, e eu desci, feliz da vida. Eu, o
Alexandre, o Felipe e o Gabriel rebatemos e conversamos a tarde inteira. Depois minha
mãe me buscou, e aqui estou eu.
Já falei que amanhã é meu último dia de aula? Perfeito, né! Mais perfeito ainda porque eu
vou tentar passar as férias inteiras na casa do meu pai, até a minha viagem Assim, posso
ficar mais perto dos meninos. Mas
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meu pai tem que parar com esse negócio de eu não poder ficar lá sozinha. Aqui em casa eu
fico, sem problemas! Será que ele tem medo de que eu esteja ficando com alguém e leve
esse alguém para o apartamento? Como meu pai é paranóico, credo!
Beijinho, Débora
03/07 Terça-feira à noite
Férias! Férias! Férias! Nada mais perfeito do que isso!
Hoje, depois da aula, fui ao shopping com a turma inteira da minha sala para comemorar. A
gente fez a maior bagunça. Metade do shopping era de gente do colégio! Tomamos sorvete,
etc., e depois o pessoal foi ao cinema. mas eu não quis ir. Eu tinha natação e depois queria
vir para a casa do meu pai, onde estou agora. Mas foi a maior decepção: os meninos não
estavam na rua. Morri de ódio! Eu queria tanto rebater e conversar com eles! Passei a tarde
inteira indo da televisão para a janela, para ver se eles já estavam lá embaixo, mas nada.
Eles desapareceram.
O pior é que a burra aqui não sabe em que apartamento eles moram. Eu devia ter
perguntado! Eles, pelo menos, sabem que eu moro no terceiro andar e podiam muito bem
me procurar. Mas esse prédio tem milhões de andares e não dá para eu sair tocando em
todos os apartamentos, né? Que droga! Por que a gente não mora em um prédio menor?
Bom, deixe-me recuperar o bom humor que eu estava na primeira linha. Afinal, estou de
férias! Amanhã eles aparecem. Além disso, é bom passar mais tempo com meu pai. Só
estou sentindo falta do computador, mas tudo bem.
Débora
04/07 Quarta, no intervalo da novela
Você acredita que eles não apareceram de novo? Eu fico pendurada nessa porcaria de janela
o dia inteiro e nada. Que ódio! Onde eles se meteram? Não fiz nada o dia inteiro!
   Débora
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05/07 Quinta-feira, meia-noite
Ah! Hoje eles apareceram! Graças a quem, adivinha? A mim, claro, que apelei, peguei o
catálogo telefônico e saí ligando para os apartamentos, procurando por Felipe. Lá pelo
décimo número que eu disquei, uma mulher atendeu dizendo que lá tinha um Felipe, sim.
Aí eu pedi para falar com ele e, quando ele atendeu, perguntei se ele não queria rebater. Em
cinco minutos, os três estavam lá embaixo. Maravilha!
Rebatemos o dia inteiro, e já combinamos que amanhã acordamos cedo e a gente se
encontra lá embaixo às oito e meia da manhã. Legal, né? Assim, com as coisas combinadas,
eu durmo mais tranqüila. É muito divertido ficar lá com eles. Eles são uma gracinha, e eu
nem vejo o tempo passar!
Débora
06/07 Sexta-feira de tardinha
Estou aqui na casa da minha mãe, ai que ódio! Tive que vir porque o papai disse que ia sair.
Foi bom para matar a saudade da internet, mas foi péssimo porque estou longe dos
meninos. Bom, pelo menos, nós ficamos juntos a manhã inteira.
Foi assim: eu acordei, ainda na casa do meu pai, olhei da janela e eles ainda não estavam lá
(ainda bem, porque eu estava toda descabelada). Aí eu me arrumei, tomei café da manhã e
ouvi um “psiu”. Fui até a janela e eram eles, fiquei tão feliz! Falei para o meu pai que ia
jogar com eles e desci correndo.
Nós rebatemos até a hora do almoço mais ou menos, porque minha mãe foi me buscar para
gente ir ao shopping comprar algumas coisas para a viagem. Eu queria ir para a casa do
meu pai, na volta, mas ele veio com aquele blá-blá-blá de que ia sair e eu tive que vir para
cá mesmo. Eu queria ir para lá de manhã, mas meu pai vai estar no clube. Eu devo ir depois
do almoço.
Os meninos não têm internet, olha que droga! Se tivessem, a gente podia ficar papeando no
ICQ. Telefonar para eles eu não vou, porque tenho vergonha. Acho que vou telefonar é para
a Bia, contar dos meninos e tal.
   Beijinho, Débora
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   08/07 Domingo à noite
   Nossa, meu fim de semana foi ótimo!
No sábado, eu fui para a casa do meu pai depois do almoço e fiquei a tarde inteirinha na rua
com os meninos. Teve uma hora que eu fiquei só com o Felipe, porque o Alexandre e o
Gabriel foram jogar computador na casa de não sei quem. O Felipe não quis ir e a gente
ficou rebatendo, e depois ficamos sentados no meio-fio só conversando. Ficamos assim até
umas oito da noite, quando o meu pai pagou o mico de me chamar da janela.
Hoje de manhã eu fui ao clube com meu pai e a Bia, e foi ótimo. Na verdade, eu queria
ficar com os meninos, mas meu pai ia mandar eu ir para minha casa se não quisesse ir ao
clube. Mas foi muito legal. Eu e a Bia nadamos, tomamos sauna...
Na volta do clube, os meninos estavam na rua e eu apresentei a Bia a eles. Fiquei morrendo
de ciúmes e me arrependi de ter levado a Bia porque todo mundo se deu superbem. Ela e o
Felipe não pararam de conversar. Aí eu inventei uma desculpa e subi com ela. Ela disse que
achou o Felipe simplesmente maravilhoso, e nessa hora eu não gostei nada, nada. Mas aí
ela disse que acha que ele está interessado em mim, pelo jeito que ele me olha. Ai, será?
Acho que ela inventou isso porque viu que eu fiquei meio com raiva.
O chato foi que, quando ela foi embora, eu olhei pela janela e vi que eles não estavam mais
lá. Mas foi até melhor, porque era tarde e meu pai ia encher o saco. O problema é que nós
acabamos não combinando nada para amanhã. Eu odeio olhar pela janela e ver que eles não
estão lá! Fico tão decepcionada!
Débora
10/07 Terça-feira à tarde
Estou aqui na casa da minha mãe porque meu pai viajou, olha que coisa! Só volta sexta-
feira! Não sei por que eu não posso ficar lá sozinha! Não sei! Pelo menos, ontem eu fiquei
um tempão com os meninos. Mais com o Felipe, porque o Alexandre estava gripado e o
Gabriel tinha saído e só voltou à tarde.
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Nossa, o Felipe é muito legal. E é tão, tão bonito! Eu já contei como ele é? Ele é uns quinze
centímetros mais alto do que eu, tem os olhos cor de mel (são perfeitos, tem hora que eles
ficam mais verdes, tem hora que eles ficam castanhos) e o cabelo lisinho, da cor dos olhos,
com umas mechas meio loiras. O corpo dele é perfeito! Afinal, ele é alto e pratica muito
esporte. Tem os músculos superdefinidos, nem de mais, nem de menos. Se eu estivesse a
fim dele, diria que ele é um deus grego, mas, como não estou, vou falar que ele é só bem
bonito. Mas o mais fofinho nele é como ele é tímido. Nem olha nos olhos da gente quando
fala, tão engraçadinho! É um dos poucos meninos bonitos que parecem não ter consciência
da beleza, porque ele não é nem um pouco metido. E não parece ser galinha, também.
Eu falei com o Felipe e disse que, se eu não fosse para lá amanhã, telefonaria para ele (eu
ainda não sabia que o papai só voltaria na sexta).
Ai! Será que eu estou ficando apaixonada? Tomara que não!
Débora
P.S.: Você acredita que eu tinha esquecido completamente que vou para a Disney?
12/07 Quinta-feira, tipo 17h30
Faz mais ou menos uma hora que eu telefonei para o meu amor, o Felipe. Ficamos uns
vinte minutos no telefone, mas a conversa teria rendido mais se a minha mãe não tivesse
feito o favor de me interromper porque queria telefonar.
Ai, ele é uma gracinha. É a primeira vez que ligo para ele (além daquela vez que eu estava
revoltada porque os meninos tinham desaparecido) e ele nunca me ligou simplesmente
porque não tem o meu telefone. Quer dizer, não tinha, porque eu acabei dando o meu
número para ele. Ai, fui muito fácil, né? Mas isso não fica assim: eu vou fazer o jogo do
Hot Cold com ele, ele que me aguarde! Daqui a pouco eu explico o que é isso, me deixe
contar o diálogo primeiro, senão eu vou acabar esquecendo.
- Felipe, da próxima vez que a gente se encontrar, eu tenho uma pergunta para te fazer, viu?
   - Ah, então faça agora.
   121
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- Não senhor, pelo telefone, não. O que você imagina que seja?
- Não sei, ué! Dê uma dica! O que você acha que eu vou responder?
- Não sei!
Mentira! É lógico que eu sei. A pergunta é “eu posso dar um beijo em você?”, e a resposta
vai ser “pode” ou “é claro” ou “lógico” ou similares. Brincadeira, né? Na verdade, quando
eu comecei com esse negócio de que eu tinha que fazer uma pergunta para ele, eu nem
sabia ainda que pergunta seria. Quer dizer, eu não tinha certeza, sabe?
Mas, agora, eu tenho. Percebi que, se não estou apaixonada, estou em vias de ficar. Estou
pensando muito nele, e não estou mais me concentrando direito quando a gente joga. Eu
não quero me apaixonar, não quero, porque não quero sofrer como sofri pelo Guilherme.
Por isso, vou tentar dar um beijo nele para ver logo no que essa história dá. Se ele me der o
fora ou se a nossa ficada não for boa, tchau, eu não perco mais meu tempo.
Só não sei o que vou fazer se ele me pedir em namoro. Acho que não estou preparada
ainda, estou com muito medo de sofrer. Acho que estou naquela fase de só ficar, de novo.
No máximo, enrolar.
Logo depois de ter conversado com o Felipe, liguei para a Lu e contei a história para ela.
Ela disse que eu sou louca, mas me deu a maior força!
Bom, agora eu vou indo, porque cansei de escrever. Depois eu explico o negócio do Hot
Cold.
Viejos, Débora
13/07 Sexta-feira antes do almoço
Acordei cedo, hoje! Estou superansiosa para ir à casa do meu pai. Estou morrendo de
vontade de ver a reação do Felipe quando eu der um beijo nele... Acho que ele vai morrer
do coração, tadinho! Ele é tão tímido!
Desenhos do rosto do Felipe e de um Deus grego com a anotação: Felipe um quase Deus
grego
Bom, vou explicar o jogo do Hot Cold rápido, porque o almoço já está quase na mesa. Na
verdade, eu acho que aprendi esse jogo com o Guilherme, porque ele fazia comigo. O
negócio consiste em às vezes tratar
122
a pessoa mal, às vezes nem dar sinal de vida e às vezes tratar como se fosse um deus.
É claro que algumas coisas do Hot Cold são muito difíceis, mas funcionam, como:
     isttabSua mãe avisa que ele ligou enquanto você estava no banho. VOCÊ NÃO
      LIGA DE VOLTA.
    Você atende alguns telefonemas dele superbem, chamando-o de “meu bem” e tudo
      mais. Mas em outros telefonemas, você atende mal, tipo “ah, é você?”.
    Você diz que talvez vá ao lugar tal. Não dá para entregar o ouro, dizendo que você
      vai COM CERTEZA.
Enfim, o jogo se baseia em fazer hora com a cara dele, mas sem que ele perceba. Ele fica
doidinho, correndo atrás de você, querendo entender qual é a sua. Eu nunca tinha agido
assim e vou testar com o Felipe. Ele vai morrer!
Quem diria, não? Quinze anos e tão esperta! Também, estou quase fazendo dezesseis!
Débora
14/07 Sábado, mais ou menos 22h
Ai, que ódio que eu estou do Felipe! Deu tudo, absolutamente tudo errado. E foi tudo culpa
dele! Não me conformo!
Eu cheguei à casa do meu pai à tardinha. Vi os meninos na rua, cumprimentei e subi. Não
fiquei nem dez minutos no apartamento e desci. Fiquei conversando com os três um
tempão, até umas sete e meia da noite, quando meu pai pediu da janela para eu levar uns
filmes à locadora para ele. Aí eu peguei os tais filmes e perguntei ao Felipe e ao Alexandre
se eles não queriam ir comigo (o Gabriel tinha ido jantar). Eles queriam, e então nós fomos.
Aí a gente chegou na locadora, que fica a uns cinco quarteirões da casa do meu pai, e eu
percebi que não ia ficar sozinha com o Felipe nunca. O máximo era aquilo, com o
Alexandre distraído, olhando os filmes. Então, resolvi colocar o plano do beijo em ação ali
mesmo.
   - Felipe, o que é isso na sua boca?
   - Onde?
   123
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   - Aqui, olha.
   - Onde? Cadê?
   - Aqui!
E tasquei um beijo na boca dele! Ele ficou todo sem graça, rindo, perguntando o que tinha
me dado. Até aí, tudo bem. Claro que o beijo tinha sido selinho, porque a gente estava ali
com o Alexandre no meio da locadora e não tinha jeito. Mas eu planejava dar o beijo de
verdade logo em seguida. Chamei o menino para fora da locadora e perguntei se ele não
queria me dar um beijo (eu estou atrevida, ultimamente, não?). Mas ele entrou em pânico.
   - Aqui? No meio da rua?
   - É, por que não?
   - Ah, eu tenho vergonha. E meu irmão está aqui também. Depois eu dou.
   - Ah, dá agora.
   - Não. Só depois.
Eu fiquei superchateada. Pô, era timidez ou ele não queria me beijar? Tentei agir como se
nada tivesse acontecido, e a gente voltou para nossa rua. Eu esperava que, quando a gente
chegasse lá, ele me levasse para dentro do prédio, já que ele tem tanta vergonha, e tomasse
uma atitude. Afinal, eu já tinha dado muito mole, né? Só que, assim que a gente chegou, o
pai dele apareceu lá embaixo com uma vara de pescar na mão e uma bolsa na outra. E,
enquanto colocava as coisas no carro, disse para o Felipe e para o Alexandre que já estava
na hora do acampamento. Eu:
- Ué, vocês vão viajar?
Os dois responderam que sim, me deram tchau e entraram no carro. Pode? Fiquei com tanta
raiva! O Felipe nem mencionou o beijo, não disse quando volta, nem nada! Fiquei parada
na rua igual a uma idiota, enquanto o carro ia embora e os dois acenavam. É incrível! Eu
não podia ter escolhido um dia pior para executar meu plano!
Bom, é melhor esquecer essa história, porque segunda-feira cedinho eu vou viajar. Que
arrependimento de ter contado ao Felipe que eu ia para a Disney! Se eu não tivesse
contado, ele ia ficar igual a um bobo, me telefonando e me procurando. Mas não, a estúpida
aqui não consegue ficar calada! Tudo eu tenho que contar! Pior que eu nem posso ficar aqui
esperando que ele volte! Tenho que ir para casa arrumar a porcaria da minha mala!
Ah, maldita idéia a minha de dar aquele beijo! Maldita a hora que meu pai me deu essa
viagem para a Disney! Agora eu não queria ir! Queria ficar para dar um soco naquele
menino!
   Débora
   124
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16/07 Segunda-feira, hora de ir para a Disney
Estou aqui no avião! Dá para acreditar? É a primeira vez na vida que viajo de avião e estou
amando!! É tudo tão emocionante! Na verdade, não faz nem cinco minutos que ele decolou.
Mas eu não agüentei esperar e peguei logo o diário.
As coisas estavam meio chatas no aeroporto, sabe? Mala para cá, bolsa para lá, preencher
isso, guardar aquilo... Um saco. A mamãe estava quase tendo um acesso histérico, tadinha,
porque ficou morrendo de preocupação comigo. Disse que estava com medo de que eu me
perdesse lá, pediu que eu telefonasse todo dia. Até parece! Vou ligar uma ou duas vezes, no
máximo.
Na hora de entrar no avião foi dez! É tudo do jeitinho que eu pensava que era. Ah, tudo
não. A comida é horrível. A única coisa que se salvou foi um bolo de chocolate
industrializado, mas era minúsculo. Sorte que a menina que sentava atrás de mim era
hipoglicêmica e me deu o dela.
Desenho de Débora sentada na poltrona do avião com um bolo na mão, na poltrona de sua
frente está Gerusa e na poltrona de trás está Isabela e tem também um desenho de um avião
pequeno chegando no E.U.A. (Disney!!)
Falando em menina, já fiz duas amigas, olha que bom! A gente estava conversando até
agora. Uma se chama Isabela e a outra, Gerusa. Tomara que a gente fique no mesmo
quarto. Vão ser quatro meninas por quarto, mas não é a gente que escolhe.
Quanto aos meninos, parece que não tem grande coisa, não. Aqueles bonitinhos do coquetel
sumiram. Vai ver que eles eram parentes de algum feioso que veio. Também, não quero
nada com ninguém. Infelizmente, eu tenho que admitir que o Felipe não sai da minha
cabeça.Vim sem me despedir dele, porque no domingo ele ainda estava pescando, ou
acampando, sei lá. Só me despedi da Lu e da Bia, a gente foi ao cinema.
   Débora
   125
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P.S. 1: Pode tirar o cavalinho da chuva, não vou me apaixonar por ele. Eu prometi para
mim mesma que não vou me apaixonar até o final do ano, lembra?
P. S. 2: Se você não se lembra, tudo bem. Eu fiz essa promessa agora.
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  17/07 Terça-feira à noite
  Estou aqui no quarto do hotel. Estou morta de cansada e acho que não vou conseguir
  escrever muito. Acabei de voltar do jantar, antes eu tinha ido nadar na piscina do hotel
  com as meninas da excursão. Passamos o dia inteiro no Universal Studio, foi ótimo! Eu
  amei! O brinquedo de que eu mais gostei foi o do filme De volta para o futuro, é muito
  bom. Andamos muito, muito mesmo, no maior sol, e é por isso que estou tão acabada.
  Ontem, na hora da chegada, foi a maior confusão. Chegamos à noite, e cada um recebeu
  as chaves. Eu não fiquei no quarto das meninas que eu conheci no avião, mas sim de
  umas meninas supernojentas! Acabei pedindo para trocar, na maior cara-de-pau. Vim
  para o quarto da Isabela, Gerusa e mais duas: a Cláudia e a Jussara. Ficou meio apertado,
  eu pedi para o hotel uma cama extra, e acabou dando.
  Bom, ontem foi só isso. E, hoje, eu levei o maior susto: a hora de acordar é seis e meia
  da manhã! Igual a um dia de aula! Os guias da excursão ligam para todos os quartos
  acordando o pessoal. Mas tudo bem, eu me animei rapidinho. Afinal, estou na Disney!
  Aí, a gente foi para o restaurante do hotel tomar um café da manhã bem reforçado, típico
  dos Estados Unidos. Depois de todo mundo ter comido, a gente entrou no ônibus da
  excursão e foi para o parque.
  Eu vacilei e fui sem filtro solar. Só não fiquei mais vermelha porque tive a inteligência
  de usar boné. Está fazendo um calor que eu pensava que só existisse no Brasil! Aliás,
  está mais quente do que lá. Nunca vi um calor assim, nem quando eu viajo para a praia.
  Bem, vou descansar mais um pouquinho e depois ir lá para fora conversar com o
  pessoal. Acho que eles vão jogar sinuca.
Beijinho, Débora
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19/07 Quinta-feira depois do jantar
Hoje me deu uma raiva!
Eu fui a uma lojinha aqui do hotel comprar uns óculos que meu pai tinha pedido. Aí, eu
fiquei meia hora explicando para o homem, em inglês, como eram os óculos. Deu o maior
trabalho, eu errei mil vezes, ele ria, eu explicava de novo. Aí, quando eu finalmente
terminei de falar, ele me respondeu:
- Ah, nós temos sim. Peraí que eu vou pegar.
Assim mesmo, em português! Que ódio que eu fiquei! Por que ele não disse que sabia
português? Os óculos eram do jeitinho que o papai tinha pedido, mas eu não comprei, só de
raiva. Vou deixar para comprar em Miami, é até melhor.
Bom, o dia hoje foi ótimo, assim como ontem e como todos os dias da viagem vão ser. Não
me canso de repetir para mim mesma: Débora, você está na Disney! Pensando bem, ontem
nós fomos ao Epcot Center, que é bem chato. Para aproveitar a maioria das atrações, é
preciso entender inglês muito bem. Mas, mesmo assim, foi divertido. Rir com o pessoal da
excursão, comer um monte de coisa gostosa, andar para lá e para cá...
Hoje, o parque deu de mil a zero. A gente foi ao Magic Kingdom, que é a Disney com que
eu sempre sonhei. Aquela do Mickey e do Pateta, do castelo da Cinderela, enfim, de toda
aquela fantasia... Fui na Splash Mountain, que é tipo uma minimontanha-russa na água, e
adorei! Aproveitei o calor e me molhei até.
Mudando de assunto, a Cláudia, do meu quarto, está me deixando louca. Ela simplesmente
não consegue dormir sem roncar de cinco em cinco minutos! É insuportável! Hoje eu virei
para um lado, virei para o outro, e só peguei no sono depois de umas duas horas. O pior é
que acordar cedo depois de uma noite assim é fogo! Eu não quero implicar com ninguém
nem nada, mas acho que, se ela dormisse virada para o lado, o ronco diminuiria. Mas a
menina cisma de dormir de barriga para cima, com as mãos no peito, igual a uma defunta!
Desse jeito, até eu ronco.
Eu falei com a Jussara e ela disse que também não agüenta mais. A gente combinou falar
com a Cláudia hoje. Ela tem duas opções: ou passa a dormir de lado, para ver se melhora,
ou dorme no banheiro com a porta fechada (brincadeira, é só a primeira opção, apesar de a
segunda ser a
127
ideal). Claro, vamos falar isso educadamente, para ela não ficar magoada, mas a gente vai
falar. Estamos esperando a Gerusa e a Isabela chegarem para perguntar se elas vão falar
com a gente. Só que elas têm que chegar rápido, para a gente combinar o melhor jeito de
falar enquanto a Cláudia está no banho (ela acabou de entrar).
Débora
20/07 Sexta-feira antes de dormir
A gente falou com a Cláudia ontem, mas parece que ela não levou muito na boa, não.
Primeiro, ela não acreditou quando a gente disse que ela ronca. Ela garantiu que dorme
muda como uma porta. Deu uma raiva! Por que a gente ia inventar uma coisa dessas?
Quando a gente finalmente a convenceu de que ela roncava um pouquinho (na verdade, um
tantão), ela ficou toda emburrada e disse que, a partir daquele momento, ia esperar “as
princesas” dormirem antes de ela dormir. Ela falou assim mesmo, desse jeito. Péssimo,
não?
Hoje, na hora de acordar, ficou um clima bem ruim. Ela se arrumou em um minuto e foi
para o restaurante sem esperar nenhuma de nós (no fim, todas nós falamos). A gente ficou
supermal, olhando uma para a cara da outra. Eu me senti tão culpada! Aliás, todo mundo se
sentiu. Por outro lado, não dava para dormir com aquela barulhada toda. Mas, pensando
bem, ninguém tem culpa de roncar, né? Até eu posso roncar e não saber disso (mas eu não
ronco, senão, elas reclamariam não só com a Cláudia, mas comigo também, né?).
Bom, já vou indo. Já estou pronta para dormir, só falta escovar os dentes. A Jussara está
morrendo de ansiedade e precisa da minha ajuda amanhã. Ela está muitíssimo a fim de um
menino aqui da excursão, até bonitinho, chamado Fabiano. Só que ela é tímida de morrer e
me pediu para puxar papo com ele, ficar um pouco amiga, e aí apresentar os dois.
Engraçado, né? Se eu estivesse a fim dele, eu morreria de vergonha de puxar assunto assim,
sem mais, nem menos. Mas, como é para arrumar o garoto para ela, eu não estou nem aí!
Beijos, Débora
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21/07 Sábado à noite
Hoje eu paguei o maior mico da minha vida, nossa!
Eu estava calma e tranqüila na fila de um brinquedo do parque aquático. Só de maiô, assim
como todo mundo. Estava conversando com a Jussara sobre o tal menino de que ela gosta.
De repente, a Ju disse para eu dar uma olhada na minha coxa. Eu olhei, sem nem imaginar
o que estava acontecendo. Aí, eu vi: tinha uma mancha de sangue escorrendo até o meu pé.
Horrível, não? Eu tinha me esquecido completamente que eu estava para menstruar!
Imagina o drama! Eu não tinha toalha, canga, short, nada! Estava tudo no vestiário,
superlonge. A Ju perguntou se eu queria que ela pegasse para mim, mas eu preferi ir eu
mesma. Afinal, se eu estivesse correndo, ninguém ia reparar. Fizemos isso: fomos correndo
para o vestiário. Chegando lá, estava a maior lambança, não gosto nem de lembrar! Ainda
bem que o pessoal do colégio não vai ficar sabendo!
Sorte que a Ju tinha um absorvente interno para me dar. No final, deu tudo certo e a gente
voltou para os brinquedos como se nada tivesse acontecido. Mas foi uma das maiores
vergonhas que eu já passei.
Débora
22/07 Domingo antes de dormir
Nossa, eu estou com ódio da Cláudia! Ela fez uma supersacanagem com a Jussara. Agora,
no nosso quarto, ninguém mais fala com ela.
Foi o seguinte: era a ocasião perfeita para eu me apresentar ao tal Fabiano e puxar papo
com ele. O menino estava sozinho, sentado em um sofá na entrada do hotel e lendo um
livro. Eu estava com a Jussara, que não parava de implorar para eu ir lá. Aí eu fui. Eu mal
cumprimentei o menino, e ele veio com esta:
- Olha, eu não estou interessado na sua amiga Jussara não, tá?
Estranho, né? Aí eu falei:
- Ué, mas como você sabia que era isso?
- Não importa. Eu só sei que tenho motivos suficientes para não querer nada com ela.
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Aí eu continuei conversando com ele para descobrir o que estava acontecendo. Ele acabou
falando que uma tal de Cláudia conversou com ele e contou que eu ia falar com ele sobre a
Jussara, mas que ele não devia ouvir, porque a Jussara não estava a fim nada e a gente só
queria fazer hora com a cara dele. Horrível, né? Eu não quis nem saber: falei que aquilo
tudo era a mais pura mentira e contei a história do ronco para ele. Ele riu até, mas mesmo
assim ficou meio de pé atrás de conhecer a Jussara. A gente achou melhor esquecer tudo.
Se eu já fiquei brava com aquela mentira toda, imagina a Jussara! Quis matar a Cláudia.
Mas eu acalmei a menina e disse que o melhor a fazer era organizar o movimento
SADOQUACLÁ, que é meio difícil de se pronunciar, mas que significa “sai do quarto,
Cláudia”. Ela vai ver! Nós vamos deixar o quarto tão insuportável para ela que ela vai
acabar indo para outro. Já escondemos um monte de roupa dela, misturamos as calcinhas
limpas com as sujas, colocamos o condicionador dela no frasco do xampu e o xampu no
frasco do condicionador... Sem contar que vamos dar um supergelo nela. Vamos evitar
trocar toda e qualquer palavra com ela, não importa o que ela falar, pedir ou implorar.
Eu sei que parece sacanagem, mas ela merece! Onde já se viu queimar o filme da Jussara
daquele jeito? Ela está triste até agora, porque realmente estava a fim do Fabiano. E ele
nem tem culpa de nada, tadinho, afinal, deve ter achado melhor ficar longe da Ju depois de
tanta história estranha no ouvido dele!
Débora
23/07 Segunda-feira de noitão
Hoje o dia foi mil! A gente foi ao Bush Gardens, que é um parque cheio de montanhas-
russas. Fiquei morrendo de medo, mas fui em todas! Foi um dos parques de que eu mais
gostei até agora. Na volta, nadei na piscina do hotel até minhas mãos ficarem
enrugadésimas.
Desenho de uma montanha-russa com Débora e suas colegas de braços pra cima gritando
AAAAAAAA!!! E a anotação: Bush Gardens Nota 10
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Aproveitei e treinei um pouco os nados que eu aprendi nas aulas de natação para não perder
a forma.
Ah, o negócio da Cláudia foi muito sem graça. Ela apareceu no nosso quarto ontem à noite
dizendo que tinha arrumado um quarto muito melhor para ficar, pegou as coisas dela e se
mandou. Havia algumas roupas embaixo da cama e outras no banheiro, mas ela achou todas
rapidinho e nem se importou. Também, como a gente vai esconder as coisas bem
escondidas em um quarto tão pequeno?
Mas que o quarto ficou muito melhor sem ela, ficou.
Débora
24/07 Terça-feira à tardinha
Hoje foi o melhor dia. Nós fomos a outro parque aquático ainda melhor que o primeiro, e
desta vez eu não paguei mico nenhum. Tinha um tobogã de noventa graus fantástico, onde
fui três vezes. Um tanto de gente da excursão não foi nele porque ficou com medo, mas eu
fui mesmo assim! É uma delícia! Comi muito lá, porque ficar nadando dá fome. Comi um
sanduíche imenso e depois fiquei relaxando em um rio lento. Supergostoso.
O melhor de tudo é que estou superbronzeada. Passei filtro direitinho, mas é impossível
ficar no parque aquático sem pegar uma cor. Eu estava com a barriga branca e o resto do
corpo bronzeado, horrível, porque no primeiro parque aquático eu tinha ido de maiô. Mas
hoje eu não quis nem saber e fui de biquíni. O sutiã dele é tipo meia-taça e não sai de jeito
nenhum nos brinquedos. O problema é a calcinha de lacinho, mas depois de ir nos tobogãs
eu dou uma arrumada nela rapidinho e ninguém vê nada.
Débora
25/07 Quarta-feira à tardinha
Está quase na hora de eu me despedir da Disney e viajar para Miami! Vou sentir falta dos
parques, mas estou doida para comprar um monte de coisa. Vou aproveitar e comprar uma
lembrancinha para o Felipe, ele vai amar.
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Hoje a gente foi ao Sea World. Não gostei muito, principalmente porque aquela baleia
imensa de lá me molhou toda. Não sei por que eu cismo de sentar na primeira fileira.
Voltamos cedo e deu tempo de nadar muito na piscina do hotel. O problema é que depois
choveu e eles fecharam a piscina mais cedo. Todo mundo ficou com raiva, afinal, é uma
delícia nadar na chuva! Mas o pessoal do hotel fechou mesmo e não teve conversa.
Hoje eu liguei para a minha mãe e para o meu pai, eles estão morrendo de saudades. Eu
também. A viagem está ótima, mas estou morrendo de vontade de ver o Felipe. Para a gente
definir nossa situação, sabe? Está tudo meio confuso entre nós. Quero muito voltar e beijar
aquele menino de verdade. Mas quero deixar rolar, sem encanar muito. Já disse que não
quero me apaixonar, não disse?
Mas que dá saudade, dá.
Débora
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26/07 Quinta-feira à noite
Nossa, hoje a saudade do Felipe bateu forte. Estou morrendo de vontade de voltar. Pensei
muito nele, naquele rostinho perfeito, naquele riso sem graça que ele tem. Será que ele
ficou com outra menina nesse intervalo? Eu não fiquei com ninguém, você sabe. Não tive a
menor vontade.
É estranho, a gente está longe de namorar, mas sinto que, se ficasse com alguém, estaria
enganando ele. Do mesmo jeito que me sentiria enganada se ele ficasse com alguém. Será
que ele está pensando em mim? Hoje, eu até pensei em telefonar para ele, mas fiquei sem
coragem. Sei lá, ia parecer que estou pensando nele (e estou, eu sei, mas ele não precisa
ficar sabendo).
Amanhã, nós vamos para Miami. Está quase chegando o dia de voltar para casa, e acho que
do aeroporto eu jà vou direto para a casa do meu pai. Só de pensar em chegar lá e ver os
meninos na rua, rebatendo novamente, eu já fico toda arrepiada.
Não, não. Eu não estou me apaixonando.
Débora
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27/07 Sexta-feira à noite
Estou deprimida em plena Miami Beach! Pode? Fiquei pensando no Felipe o dia inteirinho!
Ainda bem que amanhã à noite a gente vai embora! Não agüento mais!
No começo, eu estava até bem. A gente chegou depois do almoço e já saiu para fazer
compras. Eu comprei uns ursinhos, um aparelho de som, um monte de CDs e um perfume.
Tudo para mim. Para a minha mãe, comprei um perfume que ela pediu; para o meu pai, os
óculos que ele pediu; e para a Bárbara, que não pediu nada, fui boazinha e comprei um par
de patins que ela queria. Comprei um ursinho superfofo para a Bia, grandão, e um estojo de
maquiagem que a Lu queria. E para o Felipe, só um boné (superbonito, aliás), porque eu já
tinha comprado um moletom para ele no Hard Rock Cafe.
Desenhos dos presentes: para mim (ursinhos, som, perfume, CDs), para mãe (perfume),
óculos (pai), patins (Bárbara), urso (Bia), maquiagem (Lu), Felipe (boné) e moleton do
Hard (Café) Rock - Felipe?
Aí, depois de ter comprado tudo isso, voltei para o hotel cansadíssima e vim para o quarto.
Comecei a pensar no Felipe e até chorei. Isso já faz umas duas horas e eu estou pensando
nele até agora. A excursão inteira já sabe quem é Felipe, impressionante. Eu contei para
todo mundo. A Jussara nem agüenta mais, coitada. Eu já descrevi o nosso pseudobeijo
milhões de vezes.
Agora me ocorreu uma coisa: será que o Felipe está me enrolando assim porque ele não
sabe beijar? Será que ele nunca ficou com ninguém? Bom, se é isso, ele pode saber que eu
vou ter toda a paciência do mundo. Vou ensinar tão bem que vai ficar perfeito.
Quer saber? Já está na hora de eu admitir para mim mesma. Eu estou apaixonada pelo
Felipe e ninguém tem nada com isso.
Débora
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29/07 Domingo à tardinha
Nossa, estou morrendo de ansiedade! Acabei de acordar. Estou aqui na casa da minha mãe,
porque ela fez a maior chantagem emocional para eu vir para cá. Ela me pegou no
aeroporto de madrugada e a gente veio, eu simplesmente desmaiei de sono e só acordei
agora.
Telefonei para o Felipe faz uns dez minutos, mas deu ocupado. Eu tentei mais umas três
vezes e nada. Mas, no final das contas, achei até melhor não conseguir falar com ele, sabe?
Quero fazer uma surpresa cinematográfica e aparecer lá pessoalmente. Nem vou tocar a
campainha nem nada. Vou esperar pacientemente ele aparecer lá embaixo, quando for
rebater. Ele vai levar um sustão.
As aulas começam sem ser amanhã, na outra segunda, e até lá espero que a nossa situação
já esteja mais definida. Acho que hoje não vai dar para ir até a casa do meu pai, mas
amanhã eu vou sem falta. Minha mãe chamou a minha avó para cá, a Samantha e mais um
monte de parente, e não dá para eu ir embora, né? Eles já devem estar chegando. Vou
aproveitar que esse povão vem aqui e dar os presentes que comprei para a Bia e para a Lu.
Já liguei para elas, com aquela voz de sono, e elas vêm. Apesar do Felipe não sair da minha
cabeça, não posso negar que estou morrendo de saudade das meninas. Também quero
contar a elas que estou louca pelo Felipe, e perguntar o que faço amanhã, afinal! Eu
planejo, planejo, mas não me vem nada de muito original na cabeça.
Estou tão nervosa, credo! Tomara que amanhã chegue logo!
Beijos, Débora
29/07 Ainda domingo, meia-noite e quarenta
Não estou conseguindo dormir. Faz mais de duas horas que todo mundo foi embora e eu
estou aqui, rolando na cama, por dois motivos básicos: um é que dormi a tarde inteira e o
outro é que é só eu fechar os olhos para o rostinho do Felipe grudar na minha mente. Não
consigo parar de pensar nele, é uma coisa! Além disso, estou doida para chegar amanhã!!
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As meninas não foram muito úteis para me acalmar, não. Primeiro, que elas estavam muito
concentradas nos presentes que eu tinha dado, e segundo, elas queriam saber os detalhes da
minha viagem. Elas riram muito com a história da Cláudia e morreram de dó de mim com o
caso da menstruação. Quando finalmente a gente conversou sobre o Lipe, elas ficaram
animadíssimas e falaram que eu deveria simplesmente dar um beijão nele, assim que a
gente se encontrar. Como se fosse fácil! É superdifícil. Primeiro, porque não sei se ele vai
querer e, segundo... nossa, hoje eu estou numerando tudo!
Débora
P.S.: Acabei dando para a Samantha o moletom que eu tinha comprado para o Felipe e só
vou dar o boné para ele. Não sei por que eu estava tão insana na Disney, a ponto de
comprar um moletom superlindo e caro para ele! Ia dar tão na cara que eu estou louca por
ele! É claro que ele iria pensar que eu estou babando por ele, sem conseguir dormir,
ansiosa, etc., o que não é verdade. Certo, é verdade, mas ele nunca saberá disso. Ele iria
ficar muito metido! Primeiro, porque... ah, esquece.
30/07 Segunda-feira, 22h16
Meu Deus, hoje foi o melhor dia da minha vida!! Eu fiquei com o Felipe, e estou mais
apaixonada do que nunca! Ele é lindo e é simplesmente, entre todos os meninos com quem
já fiquei, o que beija melhor!!!
Gente, que beijo! Aquilo não é um beijo, é uma bomba, um terremoto, um furacão! Ele
beija exatamente do jeito que eu mais amo: super-rápido, como se fosse o nosso último
beijo, quase me engolindo, com muita força, muita língua, muito dente. Ah, e beija
longamente também, cada beijo durou um tempão.
Ah, que delícia de beijo! Rápido, violento, ardente, com vontade, entende? Teve hora que
até me machucou, de levinho, claro! É tão bom! Me mordeu até, mordeu minha língua, eu
mordi a dele, uma loucura, nossa... Fora a força com que ele me abraçava durante o beijo!
Em vez de ficar passando a mão em mim, me abraçou tão gostoso, tão quentinho, e tão sexy
ao mesmo tempo... todos os meninos deviam fazer isso!
135
Depois que nos beijamos pela última vez e eu subi para o meu apartamento, ainda fiquei
tremendo meia hora, com o coração batendo como nunca havia batido. Nunca havia
acontecido isso comigo antes! Sério mesmo!
Bom, vou contar como foi!
Eu cheguei na casa do meu pai à tardinha, minha mãe me levou. Vi os meninos na porta do
prédio, cumprimentei e subi. O Felipe pediu que eu não subisse, mas eu quis fazer um
charminho e disse que desceria um pouco depois. Além disso, eu tinha que ver meu pai, né?
Eu tinha acabado de chegar de viagem, praticamente! Além disso, ele queria o troco da
viagem. Ficou horrorizado quando eu devolvi só umas moedas, mas o que eu vou fazer?
Acho que só conversei com meu pai uns dez minutos e já desci.
Conversei com o Felipe, o Alexandre e o Gabriel um tempão. O Felipe perguntou sobre a
minha viagem, eu perguntei da pescaria e o que eles tinham feito, etc., e dei o boné. Ele
adorou, mas foi péssimo, porque eu não tinha comprado nada para o Alexandre e para o
Gabriel. Ah, meu dinheiro não é a casa da sogra, né? Mas o Felipe experimentou o boné,
ficou comentando como tinha gostado e nem percebeu a minha gafe.
Foi escurecendo e a mãe do Felipe e do Alexandre chamou o Alexandre para não sei o quê,
e ele subiu, levando o Gabriel. Eles até chamaram o Felipe, mas ele disse que ia ficar lá
embaixo mesmo. Ficamos só nós dois, sentados no meio-fio da rua.
A gente conversou uns cinco minutos, eu percebi que ele não ia tomar iniciativa nunca e aí
falei:
- Tô esperando.
- O quê?
- O que a gente combinou que ia fazer antes da minha viagem, lembra?
- Ah. Mas agora, não. Alguém vai ver.
Eu quase apelei. Onde esse menino queria me beijar, em um buraco? Peguei a mão dele e
fomos para a portaria do prédio, em um canto mais escondidinho, mas sem entrar. Eu:
- Pode agora?
Ele abaixou a cabeça, riu sem graça e disse que podia. Aí ele levantou a cabeça e olhou nos
meus olhos, eu me inclinei e nos beijamos, um daqueles beijos que eu já comentei. Ele é tão
tímido! Parava o beijo quando escutava algum barulho, olhava para ver se não vinha
ninguém. Depois me pegava pela cintura e voltava a beijar. A gente deve ter se beijado
umas cinco vezes,
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só de lembrar eu fico arrepiada. Até as flores do prédio devem ter ficado arrepiadas com os
nossos beijos! Na hora de ir embora:
- Felipe, eu vou subir, que já escureceu há muito tempo...
- Só mais um...
Quem resiste, né! Eu perguntei se ele sonharia comigo e ele disse “claro” e outro “só mais
um”, o que significa outro beijo, bomba, terremoto...
Como será que vai ser amanhã? Estou completamente apaixonada, uma paixão fulminante,
ardente, quero vê-lo, beijá-lo... Que paixão, credo, nossa! Eu nunca me senti assim! Não
vou conseguir dormir!
Um beijo do tamanho do mundo!
Débora
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AGOSTO
Desenho de Débora abraçada a um coração
01/08 Quarta-feira, hora da depressão
O amor é assim: quando a gente pensa que está por cima, quem está por cima é ele; quando
a gente pensa que está fazendo jogo, quem está fazendo jogo é ele; quando a gente pensa
que está seduzindo, quem está seduzindo é ele. E, quando a gente pensa que ele está
apaixonado, quem está apaixonada é a gente.
Débora
02/08 Quinta-feira à noite
Oi! Estou combinando ir a uma festa superlegal com a Lu. É uma festa de quinze anos de
uma prima dela, que vai ser em um salão chiquérrimo. Fiquei superfeliz de ela ter arranjado
convite para mim, porque a tal da menina nem me conhece. Estou doida para ir. Acho que
nunca fui a uma festa de quinze anos.
Bom, mas vamos ao que interessa, que o assunto é outro: Felipe. Eu estou alucinada com
ele, apaixonadíssima. Mas não rola, vou sair dessa, vou dar um jeito de me desapaixonar.
Por quê? Porque ele não é apaixonado por mim, porque eu tenho que fazer TUDO por nós
dois, ele não move uma palha. Dá para ver que ele adora me beijar, mas sou eu que tenho
que implorar para a gente ir para um lugar mais reservado e começar a ficar. Depois disso,
a coisa deslancha, mas até chegar a esse ponto é uma novela.
Tá certo que sou cara-de-pau, mas tenho meu orgulho, né? Ficar insistindo para um menino
dar um beijo, esperar ficar sozinha com ele (o que demora um século) para insistir de novo
e ainda parar de beijar toda vez que ele escuta o barulho de alguém... Que saco! Mas o pior
mesmo é falar que eu quero um beijo e ter que esperar por isso, parece que só eu estou
querendo. E acho que isso não é verdade. Quer dizer, às vezes acho que ele me quer,
quando a gente se beija, mas ele é tão misterioso, tão na dele. Não dá em cima de mim
descaradamente, entende? Não sei se ele está realmente gostando de ficar comigo.
Olha: depois que a gente ficou na segunda, a gente ficou na terça à tarde, que foi melhor
ainda. Aí eu pirei de vez... Estávamos dentro do prédio,
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e não no portão. Foi ótimo, a gente ficou durante mais de uma hora. Cada beijo... Só que a
gente só ficou porque eu insisti muito para ele parar de jogar vôlei na rua e entrar no prédio
comigo. Esse é o problema.
Agora, a novela:, eu acordei e não vi ninguém lá embaixo. Almocei e ainda não tinha
ninguém, o que é bem raro. Concluí que ele estava morrendo de vergonha e toquei no
apartamento dele, com a desculpa de que eu queria tirar algumas fotos, porque tinha
sobrado filme na máquina, da viagem. Aí, ele desceu com os outros dois, em vez de descer
sozinho. Tirei as fotos e ficamos rebatendo. Eu dei várias indiretas para ficarmos sozinhos,
tipo “vamos lá dentro do prédio comigo, Felipe”, etc., mas ele nunca entendia e dizia que
preferia ficar rebatendo lá fora. Quando todo mundo já tinha subido, ele disse tchau e já ia
subir também. Mas, assim que a gente entrou no prédio, dei um beijo nele, e aí a gente
começou a ficar.
Viu que trabalhão? Cadê o meu orgulho, né? Ah, não. Eu não posso me apaixonar pelo
garoto menos romântico da face da Terra e que não faz o menor esforço para ficar comigo.
Eu nunca tinha ficado com alguém como ele, que não toma iniciativa nenhuma. Pelo
contrário, eu sempre fiquei com meninos atirados, que não têm vergonha de nada e que no
primeiro dia já vão passando a mão. Acabei desabafando com a minha mãe, e ela disse que
eu preciso ter um pouco mais de paciência, coisa que definitivamente eu NÃO tenho.
O problema é que eu já estou apaixonada, alucinada e penso nele o dia inteiro. E a voz dele,
eu já contei? É a voz mais macia, mais gostosa, mais envolvente que eu já ouvi. No
telefone, então, é uma coisa!
Bom, hoje eu não fui à casa do meu pai, e acho que não vou amanhã, não. Quero esquecê-
lo. Quando nos encontrarmos, vou rebater e conversar, mas nem de longe vou dar a
entender que quero ficar com ele. Chega de correr atrás. Não quero nem saber. Não vou dar
o braço a torcer se ele não demonstrar interesse por mim. Afinal, ele já está bem grandinho.
Se ele quiser ficar comigo de verdade, vai ter que correr atrás de mim, agora. E tenho dito!
Débora
04/08 Sábado, +- 21h15
Ai... Eu estou no céu... Completamente apaixonada pela gracinha
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do Felipe! Eu nem acreditei quando atendi o telefone, há quarenta e cinco minutos, e era
ele...
Eu não fui para a casa do meu pai hoje, porque eu queria saber se ele ia me ligar sem a
gente ter combinado nada. Fiquei o dia inteiro esperando, até a minha mãe se pendurar no
telefone. Fiquei com ódio! Alguma coisa me dizia que ele ia ligar! E não deu outra: assim
que mamãe desligou, o telefone tocou e era ele.
Nosso papo foi tão romântico... Ele disse que está morrendo de saudade de mim, que eu
preciso ir para lá amanhã de qualquer jeito, que ele pensou em mim o dia inteiro... Retiro
tudo o que eu disse antes, eu precisava dar aquele empurrãozinho.
Nossa, que paixão que eu estou! Nem estou acreditando como é possível se apaixonar desse
jeito!
Débora
05/08 Domingo à noite
Hoje eu fiquei com o Felipe e foi ótimo! É que eu fui até a casa do meu pai na hora do
almoço, mas já voltei, infelizmente.
Hoje, o meu pai pegou no meu pé, que foi uma coisa. Eu estava no sofá da entrada do
prédio no bem-bom com o Felipe, já fazia umas duas horas. Aí, de repente, a Bárbara, que
estava na casa do meu pai, desce e diz que estava me procurando, que o papai tinha
acordado (ele estava dormindo quando eu desci) e não sabia onde eu estava... Morri de
vergonha, porque ela foi falando tudo na frente do Felipe.
Eu tinha avisado a Bárbara que eu ia descer, mas ela não me ouviu. Tá, eu reconheço que
errei, que em vez de berrar lá da cozinha que eu estava descendo e bater a porta, eu devia
ter ido ao quarto da menina e pedido a ela que desse o recado ao papai. Mas ele exagerou
na bronca! Quando eu subi, ele disse que quando eu descesse, era para ficar lá fora, “com a
turma”, e não dentro do prédio, “com alguém”. Disse ainda que ia falar com a minha mãe,
que eu não podia ficar “sumindo” assim.
Acontece que minha mãe já sabe de tudo e não vê problema algum. Só pediu que eu não
ficasse escondendo do meu pai.
Já que não é para esconder nada, eu já decidi que, da próxima vez que eu descer, vou ser
bem explícita com meu pai. Vou falar:
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- Ou eu vou estar na rua com os meninos, conversando e rebatendo, ou eu vou estar aqui no
prédio, com o Felipe, tá?
Pô, eu tenho quinze anos e namoro se eu quiser, né? Quer dizer, não estou namorando, mas,
na linguagem do meu pai, rolo e namoro deve ser a mesma coisa. Para mim, é bem
diferente, apesar de eu não estar querendo ficar com ninguém no momento, a não ser o
Felipe. Mas, se eu quiser, eu posso.
Débora
07/08 Terça-feira depois da natação
Estou aqui na casa da minha mãe, mas à noite eu vou para a casa do meu pai, olha que
bom! Só estou escrevendo para contar que as aulas começaram e está tudo bem. E que eu
estou morrendo de saudade do Felipe, e estou contando os minutos para ir para lá!
Beijos! Débora
Desenho de Débora sentada na carteira da escola com o pensamento no Felipe e a anotação:
Aulas...
P.S.: Tadinhas da Lu e da Bia. As duas me ligaram hoje, indignadas, porque eu só estou
interessada no Felipe e em mais nada. Também não é assim, né? Ah, é assim, sim.
08/08 Quarta-feira depois da novela
Nossa, ontem a noite foi ótima! Fiquei com o Felipe e acho que foi a melhor vez. Ele estava
tão carinhoso! Deitava a cabeça no meu colo toda hora, me abraçava, ficava abraçadinho
comigo mesmo quando estávamos só conversando... Estava perfeito.
O problema foi o mico! Meu pai está ficando cada dia pior, sério. É que ontem eu desci e
falei com o meu pai daquele jeito que eu tinha planejado.
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Ele fez uma cara horrível, falou que já ia escurecer, que a garagem está em reforma, que eu
tinha aula no outro dia e mais um monte de coisas que não tinham nada a ver. Mas até aí,
tudo bem.
O problema foi na volta. Subi às 22h42. Ele estava acordado, me esperando.
- Você falou que não ia demorar.
Bom, primeiro que eu não sei a definição dele de “demora” e, segundo, que eu falei que não
ia demorar porque ele me mandou não demorar. Aí eu tive que falar “tá, eu não demoro”,
né?
- Ah, pai, mas é porque eu não via o Felipe desde domingo.
- E o que é que tem isso?
- Ué, eu queria me encontrar com ele, né!
- Você está namorando esse Felipe?
Aí eu pensei: “Ih, pronto”.
- Ah... Mais ou menos.
- Como “mais ou menos”?
- Aaahh... Não sei... Não é exatamente namoro...
- Mas você não está de intimidade de namorado com esse menino não, né?
Morri de vergonha.
- Intimidade, como?
- Ah, Débora, você sabe muito bem.
- Tipo, beijar? Bom, beijar a gente beija.
- Então é namorado.
- Não é, papai, é rolo.
- Não, isso você não pode, não. Ou namora, ou não namora. Essa história de ficar hoje com
um, amanhã com outro, o que é isso?
- Ah, pai, talvez a gente seja namorado então, tá bom assim?
Mas ele não parava! Começou a fazer o maior discurso. Disse que eu estava muito nova,
que eu tinha que me concentrar nos estudos, etc., etc., etc. Eu:
- Mas quanto tempo você queria que eu ficasse sozinha?
- Mas quantos anos você acha que tem?
Eu tenho quinze anos, já menstruei, já posso ter um filho, estou no segundo grau, sei usar o
microondas, já li Dom Casmurro, não jogo lixo na rua, o Felipe está longe de ser o primeiro
menino com quem eu fiquei, amo meu país e sou muito bem informada sobre métodos
anticoncepcionais.
- Ué, quinze.
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Mas será que quinze anos é tão pouco assim como meu pai pensa? Quer dizer, eu ainda não
transei pela primeira vez, ainda não saí do colégio nem moro sozinha, não sei mexer em um
monte de programas do computador e às vezes tiro notas baixas, mas será que é preciso
fazer tanto drama porque estou ficando com um menino?
Débora
P.S.: Mas bem-feito para ele. Ele fez muito mal em brigar comigo perto do dia dos pais.
Agora eu não vou dar nada para ele.
10/08 Sexta-feira depois do almoço
Ai... O Felipe me ligou agora... Estou absolutamente apaixonada!
Ele disse que eu estava muito linda ontem com aquele vestido azul (ontem eu passei no
meu pai rapidinho, de carro com a minha mãe, para pegar umas coisas), que está pensando
muito em mim... Ele perguntou o que a gente era um do outro e eu quis responder que era
namorado, mas falei que não sabia. Eu devia ter falado, que coisa! O problema é que... E se
ele não quiser ser meu namorado? Se não quiser compromisso?
Ah, que saudade... Gente, eu adoro esse menino...
Débora
10/08 Ainda sexta-feira à noite
Estamos namorando! Pronto! Liguei para ele agora e dei um jeito de voltar ao assunto. Eu
mesma perguntei o que a gente era e eu mesma respondi, ou melhor, sugeri:
- Ah, acho que... É... Acho que a gente tá namorando, né?
E ele concordou! Simples, não? Amei! Será que, agora, nosso relacionamento vai ficar mais
público? Quer dizer, até hoje, a gente estava ficando meio clandestinamente, dentro do
prédio, parando quando via alguém. E, quando a gente vai até a padaria ou a locadora, não
andamos de mãos dadas
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nem nada. E, quando eu chego e o vejo, na rua, a gente não se cumprimenta com selinho, só
dá “oi”, de longe. Na verdade, o Gabriel e o Alexandre só sabem que a gente está ficando
porque deduziram, já que a gente “some” de vez em quando, dentro do prédio.
Eu não vou dizer que acho isso normal, porque, quando eu ficava com o Guilherme, por
exemplo, a gente dava as mãos, se beijava na frente de todo mundo (menos das pessoas do
colégio, por causa da Carol). Aliás, acho que com quase todos os meninos com quem eu
fiquei foi assim! Quando eu fui com o A à boate, nós andamos de mãos dadas,
cumprimentamos um ao outro com selinho...
Ai, me deu uma raiva, agora. Se o Felipe pensa que eu vou agüentar esse jeito dele por
muito tempo, ele está muito enganado! Não levo o menor jeito para ensinar alguém a
namorar. Ele que trate de aprender logo, para o bem dele!
Débora
13/08 Segunda-feira, tipo 16h30
Ele me ligou agora... É incrível como a voz dele me faz esquecer de toda a minha bronca...
Ele é tão lindo, a voz, o jeito, é tudo tão lindo! A gente passou o sábado e o domingo juntos
(isso quando ele não estava rebatendo, mas tudo bem).
O amor é muito lindo. E simples. Não sei por que eu complico. No fundo, o Felipe só é
meio moleque ainda, gosta de praticar esporte, conversar com os amigos. Não é um babão
por mim, como o A, nem um tarado que só pensa em transar, como a maioria dos
exemplares do sexo masculino. Vou tentar ser mais cabeça-fria, mais zen, menos ansiosa.
Deixar as coisas rolarem, não ficar pensando demais. Eu admiro essas pessoas que não
esquentam com qualquer coisa, sabe? Eu tenho mania de ficar por aí chorando, tendo
ataques de histeria, de ansiedade quando há algum problema. Fico fazendo tempestade em
copo de água e filosofando sobre as questões existenciais dos relacionamentos.
Eu tenho que parar com isso!
Ah, eu amo o Felipe, já falei?
Débora
146
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16/08 Quinta-feira à noite
Acabei de chorar. Estou cansada de namorar um garoto tão complicado. Ele é tímido ao
extremo, nunca vi. E o pior é que eu gosto demais dele. Só que eu estou sofrendo com isso.
Estou há um tempão sem falar com o Felipe. Desde segunda-feira, para ser mais exata.
Estou aqui na casa da minha mãe, e ele não me telefona nem eu telefono para ele. É bom
porque, quem sabe estando longe de mim, ele não medita um pouco sobre a nossa situação
e chega à conclusão de que me adora, de que deveria dar mais demonstrações de carinho e
de que eu já tenho amigos demais. Portanto, estou sentindo falta mesmo é de um namorado.
Desenho de Débora em pé mostrando que está escrito no quadro-negro: Técnicas
avançadas: como agradar uma garota, e tem um rapaz sentado numa carteira prestando
atenção, que deve ser o Felipe.
Acho que o jeito é este: vou ter que ter paciência e tomar todas as iniciativas desse namoro
até o Felipe se soltar mais. Talvez, no final das contas, não seja tão ruim dar uma de
professora.
Débora
18/08 Sábado, tipo 23h43
Estou feliz da vida! Hoje a ficada com o Felipe foi mil! A melhor até hoje!
Eu cheguei aqui na casa do meu pai logo depois de ele ter vindo do clube. Vi os meninos na
rua e nem subi para o apartamento, para não escutar as chatices do meu pai. O Alexandre e
o Gabriel foram rebater, e eu fiquei sentada no meio-fio, só com o Felipe.
Aí, sem mais nem menos, ele me puxou pela mão e fomos para o prédio. Aí ele me
encostou na pilastra e começou a beijar meu pescoço com tanta vontade, nossa! Quando ele
começou a morder, não acreditei. E ainda beijou
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minha orelha, pôs a mão na minha barriga... e no meu peito, detalhe. Ele faz os carinhos
mais gostosos que eu já vi, e me dá muuuito tesão. Descobri que ele era mais comportado
porque era tímido mesmo, e fica meio assim de me agarrar em pleno prédio. Ou seja, não é
falta de atração por mim e muito menos falta de jeito, porque ele é o máximo no que diz
respeito a dar tesão em uma menina. Sério, sem exagero, foi fantástico!
Fiquei superfeliz. Fazer esse tipo de coisa com um menino legal já é bom, mas com um
menino que você ama nem se compara. Eu subi há quarenta e três minutos, e não paro de
pensar em como foi perfeito. Nem preciso falar que nunca senti tesão daquele jeito. Quase
tive um ataque do coração!
Decidi que vou ter menos pressa. Talvez o Felipe seja meio distante assim só no começo.
Tipo, essa coisa de telefonar, de se declarar... preciso ir mais com calma. Afinal, está dando
certo, cada dia está melhorando.
Beijos, Débora
20/08 Segunda-feira depois do almoço
Já estou aqui na casa da minha mãe, acabei de chegar do colégio. Estou sem um pingo de
fome. Também, o papai me encheu tanto a paciência que eu tive que apelar. Agora, a gente
está meio brigado. Agora que estou com o Felipe, ele não deixa que eu fique lá sozinha
MESMO. Antes, de vez em quando, ele desencanava e deixava. Agora, duvido muito.
Para completar meu mau humor, a Bia está meio com raiva de mim. Também, só sei falar
sobre o Felipe para ela! Aliás, preciso sair mais com as meninas, elas estão certas. Nem
bem comecei a namorar, e já me isolei um pouco.
Débora
21/08 Terça-feira, mais ou menos 14h30
Estou aqui no colégio esperando a Bia. Ela pediu para eu estudar português com ela às três
horas, então daqui a pouco eu vou para a biblioteca, como a gente combinou.
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Matei a natação e minha mãe encheu o saco. Mas eu precisava ajudar a Bia, né? E quem
sabe, assim, ela pára de ficar emburrada comigo por causa do Felipe.
Almocei sozinha no shopping e aproveitei para comprar cera fria na farmácia. Vou tentar
me depilar em casa, sozinha. Eu queria ter comprado cera quente, mas, quando li no rótulo
as instruções, vi que ia fazer a maior meleca. A fria dói mais, mas é bem mais prática.
Desenho de Débora sentada sobre uma toalha fazendo depilação na perna com uma cara de
sofrida e a nota: Depilação!!
Nossa, vou precisar de muita coragem para depilar a frio. Dói demais. Vou me trancar no
meu quarto, ligar o som na maior altura e juntar muita força de vontade. Motivo não falta:
se eu estiver com as pernas lisinhas, vou poder usar uma minissaia no fim de semana e o
Felipe vai babar.
Estou sem relógio, mas tenho quase certeza de que a Bia está atrasada. Se ela não vier, ela
me paga. Afinal, perdi a natação por causa dela. Se a minha celulite aumentar por causa
disso, ela me paga em dobro!
Débora
22/08 Quarta-feira de noitão
Meu pai me telefonou hoje e parece que já está tudo normal entre a gente. Mas acho que,
depois da última briga, ele não volta a se meter nas minhas relações afetivas tão cedo.
Tomara!
Na verdade, fui mais ou menos eu que comecei a briga. Ele veio implicar comigo por causa
do Felipe e eu me tranquei no quarto, gritei e tal. Mas eu fiz isso porque não agüento mais!
O papai está um saco com esse negócio do Felipe! Ele só fala disso! Em casa, ao telefone,
no carro e na rua, TODA HORA!
Mas agora eu acho que isso vai mudar.
Estou morrendo de sono, tchau.
Débora
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24/08 Sexta-feira, tipo 15h30
Estou cheia de dever para fazer, e ainda combinei ir ao cinema com a Lu e a Bia mais tarde.
Decidi que quero conciliar minha vida amorosa com minha vida amizadosa (nossa, essa foi
péssima, mas deu para entender). Então, vou escrever rápido.
Ontem eu percebi que eu sempre reclamo de o Felipe só me telefonar raramente, mas aí me
toquei de que eu nunca telefono para ele. Que coisa, não? Liguei para ele e foi ótimo.
Sabe, o meu lance com o Felipe é muito esquisito. Eu estou apaixonadíssima por ele,
mesmo depois de a gente ter ficado um monte de vezes. Isso nunca tinha me acontecido. Eu
sempre me apaixono por um garoto, fico com ele uma ou duas vezes e pronto, canso.
Com o Felipe é diferente. Eu o adoro cada vez mais. A gente se completa, é muito legal. Eu
quero realmente que seja uma coisa que dure.
Ele é muito misterioso, não fala as coisas abertamente como eu. Ele só olha, e eu tento
decifrar. Adoro esse jeitinho todo inibido dele (ao contrário do jeito aparecido do
Guilherme, por exemplo). É uma fofura!
Ai! Tenho que ir!
Débora
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25/08 Sábado, mais ou menos 21h15
Estou me forçando a escrever. Porque eu não quero escrever, não quero nada. Estou
apodrecendo por dentro. Estou sentindo um vazio, meu coração não está batendo direito.
Parece que eu vou desmaiar, estou fraca...
O Felipe não podia ter feito isso comigo. Eu adoro tanto aquele menino, eu amo. Ele foi um
monstro. Eu nunca mais quero vê-lo.
Vou contar o que aconteceu... Não, eu não consigo. Foi muito ruim. não posso me
lembrar...
Débora
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26/08 Domingo à noite
Oi! Nossa, estou cheia de coisa para estudar. Na sexta eu fui ao cinema com as meninas e
depois fiquei enrolando, como sempre, e hoje passei o dia com o Felipe e só subi para o
apartamento agora. Estou aqui no meu pai.
Estou com tanta dúvida em física e matemática que não gosto nem de lembrar. Mas eu
preciso lembrar, senão não vou estudar nunca! Amanhã mesmo eu começo.
Ah, o melodrama de ontem? Esquece. Foi um mal-entendido entre mim e o Felipe. Ele
disse que ia descer, e eu desci. Só que ele demorou e eu pensei que ele tinha desistido,
então eu subi chorando e escrevi aquilo. Mas depois ele apareceu todo fofo e contou que
tinha demorado porque a avó dele telefonou quando ele estava na porta, e não desligava
nunca.
Hoje foi mil. Meu pai não foi ao clube, então eu pude ficar aqui. Meu amor estava um doce.
Quando eu estava cansada de rebater, ele dizia que, se fosse preciso, me levava para o
apartamento no colo (se bem que não precisa, tem elevador), quando o Gabriel interrompia
o que eu falava, ele xingava.
Mas o mais legal foi o ciclo sem-que-eu-sugerisse. Eu precisava subir para estudar, e ele
insistiu para eu ficar. Fiquei mais um pouco, mas depois eu tive que subir. Aí ele me
acompanhou até o portão sem que eu sugerisse isso. Quando eu ia entrar, ele me pegou pela
cintura e me deu um superbeijo de língua, sem que eu sugerisse. E disse que, se eu fosse
embora, ele me telefonaria. Disse isso sem que eu sugerisse. Olha como ele está evoluindo!
Mas sei lá, sabe? Acho que não gosto mais dele. E estou cheia de coisas no colégio, estou
sem tempo para namorar. Quero algo menos sério, entendeu?
Beijos, Débora
28/08 Terça-feira, tipo 20h
Eram mais ou menos 19h, eu estava bem tranqüila ouvindo música no meu quarto, aqui na
casa da mamãe. De repente, a campainha toca, e eu vou até a janela pensando que deve ser
alguma vizinha pedindo alguma coisa. Mas adivinha quem era? O Felipe! De bicicleta!
Com o Alexandre!
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Desenho de dois rapazes em duas bicicletas com a anotação: Alexandre e Felipe, o pingo da
letra i é um coração.
Nossa! Eu nem imaginava! Que menino bêbado, vem sem avisar, nem nada... Eu nem
lembrava que ele tinha meu endereço! Eu achei tão, mas tão lindo! Levei um sustão, disse
“oi” e desci.
Nós três ficamos papeando um tempão, foi ótimo. Até perguntei se eles queriam subir, mas
ficaram sem graça, porque minha mãe estava lá. O Felipe estava com os olhos verdinhos,
tão lindo... E estava com a camisa do time dele, como sempre. Tão fofo! Eu fiquei feliz
porque eu estava com um short superlindo quando eles tocaram.
E foi surpresa, o que eu achei mais lindo de tudo! Adoro surpresa. Minha mãe ficou
morrendo de curiosidade de conhecê-lo, mas eu já avisei que deve demorar um pouco.
Afinal, ele é tímido e eu não quero forçar a barra. E eu não quero forçar nada, ainda mais
agora, que tudo está indo tão bem.
Um beijo! Débora
P.S.: Ai, eu amo o Felipe!
30/08 Quinta-feira à tarde
Hoje faz um mês que eu e o Felipe ficamos pela primeira vez!! Eu liguei para ele toda feliz,
mas no fundo achava que ele não ia saber do que eu estava falando. Mas acredita que ele
lembrou? Achei a coisa mais fofa do mundo. Só fiquei na dúvida se a gente dava ou não
parabéns um pro outro, e acabei não dando. Em aniversário de namoro tem que dar
parabéns? Será?
Falando em parabéns, agora que reparei uma coisa! Está chegando o meu aniversário! Eu
nem me lembrava. Claro, o Felipe não sai da minha cabeça e não me deixa lembrar de nada.
Tenho que decidir o que faço da vida: se vou dar uma festa enorme, ou só um churrasco na
minha casa, para poucas pessoas... Ou se chamo todo
152
mundo para uma boate... Também tenho que decidir que roupa eu uso. Estou com vontade
de perguntar para o Felipe qual é o tipo de roupa que ele mais gosta em mim, porque aí eu
usava mais. Se ele soubesse como eu amo aquela camisa do time dele, ele não tirava nunca.
Se bem que ele já não tira mesmo. Ué, como é que ele sabe, se eu nunca falei? Isso é
injusto! Ele sabe o meu gosto e eu não faço nem idéia do dele. Ah, mas eu vou descobrir!
Débora
31/08 Sexta-feira depois do almoço
Estou morrendo de ansiedade! Finalmente o Felipe vai conhecer o meu pai, vai visitar
nosso apartamento! Vai ser amanhã, estou tão nervosa! Quem sabe, depois de ver a
gracinha que o Felipe é, meu pai sossega um pouco e pára de implicar comigo?
Vou contar como foi! O telefone tocou, há uns dez minutos, e era o papai. Ele começou
com a história de sempre, sobre o Felipe, e eu tive a brilhante idéia de apresentar os dois.
Conhecendo o garoto e vendo que ele está longe de ser um monstro, sobra menos bronca
para mim, né? Então. Meu pai comprou um computador ontem, porque eu disse que,
quando vou para lá, sinto falta do meu. Só que é um Imac, enquanto lá em casa nós temos
um PC, e eu descobri que não sei mexer nele direito. Mas o Alexandre sabe. Daí...
- Pai, sabe o Alexandre, irmão do Felipe?
- Não, não sei. Você sabe muito bem que eu não conheço esse rapaz nem a família dele.
- Pois é, tá sabendo agora. Ele se chama Alexandre e entende muito de computador.
- E daí?
- Daí que eu pensei que o Felipe e o Alexandre podiam ir aí para me ensinar a mexer nesse
computador maluco que você comprou.
- Tudo bem, Débora, por que não?
Não é ótimo? O Felipe e o Alexandre vão para o apartamento, o Alexandre me ensina a
mexer no computador, o papai conhece o Felipe e todo mundo fica feliz. Só faltava o Felipe
concordar com a idéia. Por isso, logo depois de desligar o telefone, liguei para ele. Ele:
- Mas como assim? Seu pai vai estar lá?
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- lh, Felipe, meu pai não morde.
- É, mas ele tem cara de bravo.
- Foi ele que sugeriu que você subisse.
- Sério? Que coisa. Então, tá.
Estou tão feliz! Estou doida para chegar amanhã! Liguei para a Lu, para ela me dar umas
dicas de como me comportar. Afinal, ela já namorou o Marcos, que chegou a conhecer os
pais dela. Ela disse que é para eu relaxar, deixar umas coisas bem gostosas na geladeira e
não puxar assunto sobre futebol. Já anotei tudo.
Beijos! Débora
SETEMBRO
Desenho de Débora toda feliz de camiseta listrada e quatro sorvetes, dois em cada mão
01/09 Sábado à noite
Nossa, hoje foi simplesmente desastroso. Eu não devia ter chamado os meninos para o
apartamento. Não que a culpa tenha sido deles, eles não fizeram nada. A culpa foi minha.
Acho que, às vezes, eu não tenho noção das coisas!
Eles tocaram a campainha uns vinte minutos depois de eu ter chegado (que pareceram uma
eternidade), e eu abri a porta. O papai estava na sala, lendo o jornal, e foi até simpático com
os meninos. Ofereceu refrigerante, falou sobre o jogo que vai ter amanhã (sei lá que jogo é
esse) e os três ficaram conversando um pouco sobre futebol. Até.aí, eu estava bem otimista.
Mas é claro que a idiota aqui tinha que dar um jeito de estragar tudo.
Fomos para o meu quarto eu, o Alexandre e o Felipe. Eu sabia que o meu pai, apesar de
careta, não ia reclamar de a gente se reunir justamente no meu quarto, porque o computador
estava lá. Então. Tinha duas cadeiras. Falei para os meninos se sentarem. Só que, em vez de
eu pegar uma cadeira extra para mim, resolvi sentar no colo do Felipe! Meu pai quase teve
um ataque do coração quando foi servir o refrigerante. Eu simplesmente não tinha me
tocado de que talvez meu pai fosse horrorizar com isso. Eu sou muito estúpida mesmo!
Logo no dia em que apresentei os dois! Estava indo tudo tão bem!
Pelo menos, meu pai deixou para conversar comigo só depois que todo mundo foi embora.
Disse que achou um absurdo, uma falta de respeito. Eu aproveitei e perguntei se, da
próxima vez, poderia trancar a porta do meu quarto. Meu raciocínio foi lógico, não foi?
Com a porta trancada, eu poderia fazer o que fosse lá dentro que não chocaria ninguém.
Mas meu pai odiou a minha idéia, saiu bufando e foi dormir sem nem dar boa-noite.
Ai, eu admito: estraguei tudo!
Débora
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03/09 Segunda-feira, tipo 20h15
Não escrevi ontem porque não aconteceu nada. O Felipe foi jogar futebol em outra cidade
(isso mesmo, em outra cidade) e eu achei até bom.
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porque aí não tinha motivo para brigar com o meu pai de novo. Aliás, para minha
felicidade, ele já ficou normal comigo. Não perguntei, mas acho que ele gostou do Felipe.
Se não tivesse gostado, teria falado, com certeza. Mas ele só falou da parte do colo.
Hoje foi até bom. Depois da aula, eu ia almoçar no McDonald’s, mas a Juliana mora perto
do colégio e convidou a Bia e eu para almoçar na casa dela. A gente tinha que fazer um
trabalho juntas. Terminamos cedo, eu vim para casa, lanchei e já comecei a fazer o dever,
para não ter que dormir tarde. Estou aplicada, não?
Ah, eu quase me esqueço de contar o mais importante: amanhã vou ver o meu amor, porque
eu, a Bia e a Ju temos que fazer outro trabalho e eu sugeri a casa do meu pai. A biblioteca
está muito cheia ultimamente, ficar no colégio cansa e... Tudo bem, foi só por causa do
Felipe mesmo. O importante é que elas toparam. Amanhã, depois da aula, a gente pega o
ônibus, almoça lá e faz o trabalho.
Débora
04/09 Terça-feira à noite
Hoje o dia foi ótimo! O problema é que eu tinha simplesmente esquecido da natação. Mas,
tirando isso, foi bem legal.
Eu, a Ju e a Bia fomos para a casa do meu pai, depois da aula, e almoçamos lá. Quando a
gente chegou, meu amor ainda não estava na rua. Mas, logo depois de comer, eu insisti para
a gente descer (afinal, antes do trabalho, precisava fazer a digestão, né?) e os meninos
estavam na calçada. Disse a eles para entrarem, para a gente ficar nas mesinhas e cadeiras
do prédio, porque estava fazendo muito sol. Aí, nós ficamos papeando, o Felipe pegou uma
bola e fomos jogar queimada, olha que idéia!
Só teve um problema: eu perguntei para o Felipe, não sei por quê, o que ele acha da Bia.
Sabe o que ele respondeu? Que acha ela MUITO bonita e SUPERLEGAL. De mim ele não
diz nada, mas tudo bem.
Acabei ficando toda ciumenta. Nem deixei os dois conversarem direito. Mas, em
compensação, ela conversou muito com o Gabriel. Quando a gente finalmente subiu para
fazer o trabalho, ela me disse que acha que está a fim dele. Até pediu para eu dar o telefone
dela para o Felipe, e aí o Felipe
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entregaria para ele. Achei ótimo, porque o meu ciúme foi para o espaço. Afinal, se o Felipe
queria alguma coisa com ela, sobrou. Credo, eu estou ciumenta, né?
06/09 Quinta-feira depois da novela
Hoje o Felipe me ligou três vezes, olha que milagre! No primeiro round, eu estava no
banho. Segui os mandamentos do jogo do Hot Cold (que, aliás. eu não sigo nunca) e não
liguei de volta. Assim, lá pelas cinco da tarde, teve o segundo round. O problema é que a
conversa não foi nada boa, porque eu estava com um pouco de ódio do Felipe.
É que ele e o Gabriel fizeram uma coisa horrível com a Bia. O Gabriel ligou para ela hoje, e
o Felipe ficou na extensão ouvindo tudo. Eles tinham combinado. Quando ela descobriu
(pois ouviu um risinho do Felipe), xingou os dois e desligou na cara deles (o.k., ela
exagerou). Que atitude péssima a deles, não? Odiei.
Bom, continuando. A Bia me contou tudo, e eu fiquei brava com o Felipe e o Gabriel.
Depois, o Gabriel me ligou dizendo que estava arrependido. Aí, eu o aconselhei a ligar para
ela. Ele ligou e eles brigaram (bem, se conselho fosse bom ninguém dava, vendia).
Foi depois dessa confusão que o Felipe me ligou. Fui educada com ele, mas fria. Aí ele me
pediu desculpa e jurou que nunca mais faria aquilo. Eu o desculpei e a gente desligou em
seguida, porque ele estava na casa do Gabriel e não podia usar o telefone a vida toda.
Desligamos, e eu liguei para a Bia. Disse a ela para dar um desconto para o Gabriel,
coitado, que ele é bobo assim mesmo, mas é legal. E sugeri que eu ligasse para o Gabriel e
pedisse a ele que ligasse para ela. Ela topou.
Liguei. Ele atendeu, eu expliquei tudo e ele ligou para a Bia. Depois, ele me ligou e disse
que já estava tudo bem entre os dois, e que eles estavam até combinando sair. Disse que o
Felipe queria falar comigo (esse é o terceiro round). Ele estava um doce, disse que estava
com saudades e tal.
Bom, vou indo. Estou cansada de escrever e com um pouco de dor de cabeça de tanto
telefonar. Amanhã é feriado, eu combino pelo telefone com a Bia de a gente sair esse fim
de semana com os meninos. Vai ser tão legal!!
Beijinho, Débora
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P.S.: Pensando bem, eu e a Bia não devíamos ter brigado tanto com os meninos. Ontem,
depois da aula, eu fui até a casa da Bia e ligamos para o Gabriel. Eu conversei com ele e ela
ficou na extensão, ouvindo. Mas que isso fique só entre nós, diário!
08/09 Sábado de madrugada
Nossa, hoje o dia foi ótimo! Eu, a Bia e a Juliana fomos ao shopping com os meninos
assistir a um filme no cinema. Aliás, eu nem vi o filme. Eu e o Felipe estávamos
agarradinhos, fazendo carinho um no outro, nos beijando o tempo todo... Ele fez um curso
em fascículos para aprender a beijar, não é possível! Beija bem demais!
A Bia ficou com o Gabriel!! Como o Felipe e eu, ficaram se beijando durante o filme todo,
e não viram nada.
O único problema foi a marca vermelhona que ficou no meu pescoço. Depois do cinema, o
Alexandre (que também tinha ido e ficou segurando vela, porque não rolou nada entre ele e
a Juliana) perguntou o que era, e eu disse que era alergia à poltrona do cinema. Ridículo!
Tomara que ninguém mais repare. Ou tomara que eu arranje uma desculpa melhor.
Desenho de dois casais agarradinhos e um separado, sentados de frente para a tela do
cinema, e a anotação: Felipe e Eu, Bia e Gabriel, Ju e por último o Alexandre segurando
uma vela acesa.
O Felipe mudou da água para o suco (não gosto de vinho). Nós só andamos de mãos dadas,
ele me abraçou na frente de todo mundo, me beijou a toda hora e ainda disse que eu sou
linda. Estou extrafeliz!
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Ele disse que adorou o shopping, principalmente o cinema. Também... que cinema! Na
minha opinião, é o melhor lugar do mundo para namorar. Quer dizer, no motel deve ser
melhor, mas eu nunca fui a um, né! O cinema é escuro, tem a poltrona macia, estava vazio e
a gente se sentou lá no fundão... Amassos simplesmente o filme inteiro. Teve um beijo que
deve ter durado uns quarenta minutos, sem intervalo. Até cansou! E mãos por todo canto, é
lógico. Ai! Não consigo nem lembrar!
Débora
09/09 Domingo à noite
Adivinha quem foi ao clube comigo hoje? Simplesmente o Felipe, o Alexandre e o Gabriel!
Hoje de manhã, o papai estava se arrumando para ir e disse que eu podia chamar os
meninos, porque ele tinha arrumado convites. Fui correndo ligar para eles. Fiquei tão feliz
quando eles toparam!
Chegando lá, adivinha o que eles foram fazer... Jogar futebol. Esses homens, viu? Quer
dizer, esse homem, porque o que o Alexandre e o Gabriel fazem não me interessa, só o que
o Felipe faz. E ele foi jogar futebol. Ele perguntou se eu ficaria chateada, e eu disse que
não. Eu fiquei foi BESTIFICADA! Como é que ele troca uma menina como eu por uma
bola? Bola murcha, ainda por cima.
Mas tudo bem. Eles foram jogar, eu fui nadar. Depois, dei um pulo na quadra para ver se o
jogo tinha acabado. Tinha.
Aí eu, o Felipe e o Gabriel fomos para a piscina e o Alexandre continuou no futebol. O
Felipe só andava de mão dada comigo, uma gracinha. Ele é uma gracinha, nossa! Ele estava
lindo com a camisa oficial do time dele. Ele é lindo.
A gente nadou, quer dizer, eu e o Gabriel nadamos e o Felipe só ficou olhando. Depois nós
lanchamos, passeamos (só eu e o Felipe, super-romântico) e conversamos muito, muito,
muito.
Detalhe: o Guilherme estava passando e viu. No começo eu achei bom, para ele ver que eu
realmente não estou mais na dele. Mas depois fiquei com medo de ele achar que eu levei
meu namorado ao clube só para deixar ele com ciúme, o que é uma mentira total. Eu nem
tinha me lembrado de que o Guilherme é sócio do clube.
Eu só achei ruim de uma coisa: o Gui veio me cumprimentar justamente
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quando o Felipe tinha ido ao banheiro. Fiquei com ódio! Perdi uma chance incrível de
despertar ciúme no Felipe. Eu queria ver a cara dele...
Agora eu já estou na casa da minha mãe, porque meu pai ia sair, e já estou morrendo de
saudade. Só penso nele o tempo inteiro, é incrível!
Beijos, Débora
11/09 Terça-feira depois da natação
Estou me sentindo o máximo desde que a Bia me contou, hoje de manhã, que o Gabriel
contou para ela que acha que eu fui a primeira menina com quem o Felipe ficou.
Não é legal? Sou eu quem está ensinando, na prática, tudinho ao Felipe! Beijos, passeios,
carícias, enfim, eu estou conduzindo o namoro todo.
Já pensou? Mesmo se, no futuro, a gente não estiver mais junto, ele vai se lembrar de mim
com a maior emoção: “Débora, aquela menina a quem eu dei meu primeiro beijo... minha
primeira namorada!”. Pensando bem, eu também vou me lembrar dele como meu primeiro
namorado. Afinal, ele é mesmo.
A única coisa que eu acho estranha é que ele nasceu sabendo beijar, nossa! Como ele beijou
bem daquele jeito, logo no primeiro dia que a gente ficou? Eu demorei duas ficadas para
beijar igual gente e, mesmo assim, lá pelo quarto ou quinto beijo eu estava me
aperfeiçoando, aprendendo técnicas novas, descobrindo um monte de coisas. Já o Felipe
deu um show logo de primeira. E tem gente que diz que ninguém nasce sabendo!
Débora
12/09 Quarta-feira tipo 19h15
Hoje o dia foi um saco! Fiquei a tarde inteira fazendo um dever gigante de inglês. O
professor deu um texto sobre as invasões celtas na Grã-Bretanha e a origem da língua
anglo-saxônica. Eu gostaria de saber em que hospício esse homem foi criado. Como ele
manda a gente traduzir um texto sobre as invasões celtas na Grã-Bretanha e a origem da
língua anglo-saxônica? Em português isso já é impossível! Que droga!
161
Bom, mas eu tinha conseguido me virar. Fui descansar um pouquinho e comer alguma
coisa, quando o telefone tocou. Era a Lu me dando uma bronca fenomenal. Ela disse que eu
a abandonei completamente depois do Felipe, que uma amiga de verdade não faz uma coisa
dessas, que faz séculos que a gente não sai à noite e blá-blá-blá.
Compreensiva, a Luciana, não? Ela já namorou e até já transou, e eu estou namorando pela
primeira vez. Além disso, o Felipe não gosta de sair, ele já me disse isso. E eu fico
esperando o fim de semana ansiosamente, porque eu posso ir para a casa do papai sem
problemas. E eu vou perder a noite do fim de semana saindo com ela?
Mas, no final das contas, eu me senti culpada. Eu posso muito bem ficar com o Felipe a
tarde inteira e sair com as meninas à noite. Se ele quiser ir, ótimo, se não quiser, não vai. Eu
só tenho medo de ele brigar comigo se eu sair e ele não, de ficar com ciúme... ah, mas se
ele ficar é problema dele, né? Ele que não quis sair com a gente!
É isso aí, vou ligar para a Lu agora. Esse sábado, vou tirar a barriga da miséria e vou sair a
noite inteira. O único problema é que vou estar na casa do meu pai, ele regula meu horário
para voltar muito mais do que a minha mãe. Mas não quero nem saber. Eu não saio faz
tanto tempo, que tenho o direito de voltar na hora em que eu quiser, né?
Débora
14/09 Sexta-feira à noite
Nossa, eu pensei que o dia hoje ia ser horrível, mas foi excelente! Eu tinha pensado isso
porque o inteligentíssimo professor de matemática resolveu repor hoje, em plena sexta-
feira, umas aulas que a gente tinha perdido. A aula estava marcada para as seis horas da
noite. Eu ia ficar direto no colégio até a noite, fazendo um dever de biologia. Mas aí a Bia
teve a idéia de a gente ir para a casa do meu pai. Ele não estaria lá, mas eu achei que, se eu
fosse com ela, não tinha problema. Então fomos!
Chegamos lá e os meninos estavam na rua. Dei um selinho no Felipe, a Bia fez o mesmo
com o Gabriel e ficamos os quatro no portão, conversando (o Alexandre percebeu que ia
segurar vela e subiu). Até a Bia comentou como o Felipe tinha mudado, que estava bem
mais carinhoso e tal.
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Aí, nós duas subimos porque, afinal, tínhamos ido para estudar e não para namorar (pelo
menos teoricamente). Fizemos a maior bagunça na cozinha preparando nossos
hambúrgueres e fazendo uma banana split com o sorvete que tinha no freezer.
Desenhos dos rostos de Bia e Débora, de uma banana split + hambúrguer
Nessa hora, meu pai chegou. Ele até gostou de eu estar lá, não brigou comigo nem nada (se
o Felipe estivesse lá com a gente, no apartamento, ele ia brigar muito). A Bia viu os
meninos da janela e cismou que a gente tinha que descer para fazer a digestão. Eu estava
meio preocupada com o dever, que é enorme, mas fomos. Fiquei com o Felipe na rua, na
frente de todo mundo, e a Bia ficou com o Gabriel. Depois de uns vinte minutos, nós duas
subimos para finalmente estudar.
Ficamos fazendo a lista de exercícios que o professor tinha passado. Eram todos de
múltipla escolha e estavam até fáceis. Eu gosto de biologia. A gente acabou terminando
bem mais cedo do que imaginava: 15h15. A gente tinha combinado que só iria para o
colégio às 17h. O que faríamos até lá? O quê? O quê? Depois de um milésimo de segundo
com essa dúvida cruel, descemos. Estava simplesmente maravilhoso ficar com o Felipe.
Nós nos beijamos tantas e tantas vezes, e ele estava tão carinhoso.
A única coisa ruim é que, quando eu e a Bia chamamos os meninos para sair amanhã, o
Felipe disse que não rolaria. Disse que outro dia, quem sabe, iria. O Gabriel topou, como
toda pessoa normal. Ainda bem que a Lu vai, porque eu é que não ia ficar segurando vela!
Além disso, ela pára de reclamar que a gente não está mais saindo e tal. Chamamos a Ju
também e a Fernanda, uma menina da minha sala, já falei dela?
Bom, eu queria que o Felipe fosse, mas só lamento, não é? A Lu tem razão. Eu não posso
deixar de sair por causa dele. Afinal, EU gosto de sair. E isso acaba me deixando
distanciada da Lu, porque ela não estuda no meu colégio, como a Bia. A Bia só não está
reclamando mais porque a gente passou a conversar ainda mais na aula, para compensar (o
que não vai compensar as minhas notas, mas tudo bem).
Beijos, Débora
P.S.: Meu aniversário fica cada vez mais perto e ainda não pensei em nada.
163
16/09 Domingo, mais ou menos 10h30
Oi! Estou aqui no clube, apesar de ter chegado às cinco da manhã em casa. Mas, se eu não
viesse, meu pai ia descobrir que eu não voltei antes da meia-noite (esse deve ser o horário
dele) e ia me matar. Quando eu cheguei da balada, ele estava dormindo como uma pedra.
Bom, né? Como é perfeito ter a chave de casa! Posso chegar na hora em que eu quiser,
desde que eu tire o sapato quando entrar para não fazer barulho e meu pai não acordar.
Mamãe é mais relaxada com essas coisas, mas eu também prefiro quando chego e ela está
dormindo.
Vou contar como foi. Foi ótimo! O Felipe morreu de ciúme! Aposto que vai passar a sair
mais comigo!
A gente foi para uma boate, e milhões de caras chegaram em mim. Bem que dizem que,
quando a gente está comprometida, fica mais atraente. Tenho certeza de que o Gabriel foi
fazer fofoquinha no ouvido do Felipe, porque hoje, às oito e meia da manhã, ele estava
plantado lá embaixo, com uma cara horrível. Meu pai estava lanchando e eu desci com
aquelas olheiras de balada. O Felipe não admitiu que estava com ciúme, mas olha o
diálogo:
- E aí? Como foi ontem?
- Ótimo! Eu dancei tanto, mas tanto! O DJ era tudo!
- Estava cheio?
- Lotado! Lotadésimo!
- Você bebeu?
- Não, por quê?
- Não, só estou perguntando por perguntar. Que bom que você se divertiu. Só espero que
não tenha feito nenhuma sacanagem comigo.
- Que é isso, Felipinho? Imagina! Não precisa ficar com ciúme, não!
- Ué, quem está com ciúme?
Não é uma gracinha? Ficou lá, de cara amarrada, nem me deu beijo, nem nada. Isso é para
ele aprender a largar essa bobeira de “ai, eu não gosto de sair, nhé, nhé, nhé”. Ele pode até
não gostar, mas ou passa a sair comigo, ou vai ficar em casa, sofrendo. Porque eu percebi
que é um absurdo eu deixar de sair por causa dele.
Um beijo! Débora
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17/09 Segunda-feira, 19h17
Ontem o dia foi ótimo, cheio de surpresas! Fiquei feliz, porque descobri que, se o Felipe
não sai comigo, não é porque ele não está a fim. Eu já estava ficando chateada com essa
história.
Assim que cheguei do clube, vi o Felipe. Ele estava lá embaixo, todo triste. Antes mesmo
que eu começasse a falar alguma coisa, ele me disse que é a mãe dele que enche o saco
quando ele vai sair comigo. Ele disse que adoraria ir aos shows e boates da vida comigo,
mas a mãe enche.
Agora que vem a parte interessante da história. Quando eu perguntei por que a mãe dele
enche o saco, ele respondeu que ela é muito ciumenta e protetora, e que não aceita que ele
saia com a namorada sem que ela tenha sido apresentada para a família. Como o Felipe é
todo na dele, e não gosta de criar caso, toda vez que eu o chamava para sair, ele dizia só
que não dava e pronto. Só me restou a pergunta que não queria calar:
- Ué, então por que você nunca me apresentou à sua família, Lipe?
- Ah, eu não sabia se você ia topar. Fiquei meio com vergonha.
- Olha, por mim, eu vou à sua casa na hora em que você quiser.
- Então eu vou perguntar a minha mãe se você pode jantar lá hoje, tá?
Jantei lá ontem e tudo correu maravilhosamente bem. Os pais dele foram supersimpáticos
comigo. A mãe dele me perguntou onde eu estudo, disse que eu sou muito bonita e tal.
Depois, todo mundo foi para a sala assistir a um filme e a gente foi junto, depois o Felipe
me mostrou o quarto dele, o videogame... Tudo superfamília. Foi bem legal. Eu me senti
mais namorada dele do que nunca.
Só teve um problema nessa história toda: descobri que os pais dele são mais caretas que os
meus e a minha única chance de perder a virgindade em um lugar decente foi para o
espaço!
Beijos, Débora
P.S.: Não que eu esteja pensando em perder a virgindade, viu?
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20/09 Quinta-feira depois do almoço
Decidi o que vou fazer no meu aniversário: uma reunião íntima, para poucas pessoas.
Simplesmente não estou a fim de fazer festa. No ano passado, fiz e tive que passar o dia
seguinte inteiro limpando. Foi péssimo. Só vou dar outra festa no dia em que eu tiver
dinheiro para contratar uma faxineira que limpe tudo para mim.
Ah, fui bem na prova de física. Também, ontem eu estudei o dia inteiro. Mas não vou ficar
me iludindo, porque não tem nada mais chato do que você pensar que vai tirar uma nota
ótima e depois dar de cara com um resultado horrível. Já perdi a conta de quantas vezes já
me aconteceu isso. Ainda bem que o contrário também acontece, às vezes.
Decidi que vou dar a reunião no sábado, já que o meu aniversário mesmo cai na segunda
(isso é dia de aniversário?). Isso mesmo, esse sábado agora. Não vai ter problema em
chamar as pessoas de última hora, porque vou chamar pouca gente e matar quem não for.
As meninas levam um prato de doce e os meninos de salgado, e eu cuido do refrigerante.
Assim eu não tenho que cozinhar e muito menos limpar nada. O problema é que não vai ter
cerveja, aposto. Vou fazer a reunião na casa do meu pai, porque lá é mais espaçoso (e
porque o Felipe não vai ter desculpa para não ir).
Tomara que ninguém goste de beber, porque o meu pai, com certeza. não vai comprar nada
alcoólico. Vai ser uma reunião baseada em comida, vídeo e CD. Vou alugar uns filmes e
falar para todo mundo levar os melhores CDs, porque os meus são péssimos.
Beijos, Débora
21/09 Sexta-feira à tarde
Minha reunião vai ser um sucesso, aposto! Todo mundo que chamei já confirmou que vai.
Olha a minha lista: Felipe (claro, lógico, evidente). Alexandre, Gabriel, Bia, Luciana,
Fernanda, Juliana, Patrícia, Leila (duas meninas da minha sala que foram comigo ao sítio
da Ju aquele dia, lembra?),
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Samantha e o namorado dela. Ah, a minha mãe e a Bárbara, que eu tenho que chamar.
O que será que o Felipe vai me dar, hein? Na semana passada, eu o avisei do meu
aniversário, e ontem à noite eu telefonei para ele para falar da reunião. Espero que ele
compre alguma coisa, né? Não pelo valor material, mas por ele ter se lembrado de mim.
Isso é o mais importante.
Beijos! Débora
23/09 Domingo, tipo 16h30
A reunião foi ótima! Eu me diverti muito e acho que todo mundo gostou. Hoje eu nem vi o
Felipe, porque tive que ficar estudando para as provas dessa semana. É por isso que eu
estou na casa da minha mãe. No meu pai eu não me concentro direito, fico querendo
descer...
Bom, vamos falar da reunião! A primeira a chegar foi a Bia. Depois vieram, juntas, a
Juliana e a Fernanda. Eu já estava sentindo falta da Lu, quando ela chegou. Depois
(finalmente!) os meninos chegaram. A Samantha foi a última a chegar. O namorado dela é
maravilhoso, nossa! As meninas do colégio não pararam de comentar. E a minha mãe ficou
um tempão conversando com o Felipe, e disse que simplesmente o adorou. Legal, né?
O meu pai comprou cerveja, vodca, vinho e até aguardente. Faltou refrigerante e eu tive que
buscar no meio da festa. Ainda bem que o Felipe foi comigo. E a minha mãe levou um bolo
de aniversário, adorei! É tão gostoso soprar velinhas! Só não posso contar o que eu pedi,
porque senão não se realiza.
Ah, se realiza, sim: eu pedi para ficar para sempre com o Felipe. E eu tenho certeza
absoluta de que isso vai acontecer. Nada, nada mesmo, vai separar a gente.
Desenhos de Lu!!, Felipe, Débora em frente ao seu bolo com as velas acesas de 16 anos, da
Bia, do Gabriel e da Ju todos batendo palmas. E a anotação: Viva Eu!!
Agora vamos aos presentes... O Felipe me deu um urso
167
enorme, superfofo, que fala “você é linda” quando eu aperto a barriguinha dele. Eu
preferiria que dissesse “eu te amo”, mas ainda chego lá. A Lu me deu uma blusa preta
linda, que deixa o meu peito superbonito. Vou guardar para ocasiões especiais... A Bia me
deu uma caixa de chocolates de uma marca supercara, a Patrícia me deu outra blusa, a Leila
me deu um colar, a Samantha me deu um estojo de maquiagem, a Juliana me deu um CD, a
Fernanda falou que depois me dá e o Alexandre e o Gabriel não me deram nada. Meu pai
me deu dinheiro para comprar roupa e minha mãe me deu um perfume chiquérrimo que eu
estava querendo há um tempão.
Foi tudo perfeito! A maior vantagem de comemorar o aniversário antes da data é que você
acaba tendo dois aniversários: o do dia da festa e o do dia certo. Pena que na segunda não
vai dar para matar aula, porque tem prova. Mas vou ver se dá para fazer alguma coisa legal
à tarde.
Beijinho e parabéns para mim.
Débora
ngnp1046
24/09 Segunda-feira à noite
Hoje é o meu dia especial, viva! Parabéns para mim! Estou amando ter dezesseis anos. Eu
ainda me sentia meio pirralha com quinze. Com dezesseis, não... Além disso, agora
ninguém mais vai me encher a paciência para entrar em lugares só para maiores de
dezesseis. Eu já entrava na maioria desses lugares antes, mas dá aquele nervosismo. Sempre
rola um medo de eles barrarem você na porta e você ter saído de casa à toa. Agora, não.
Bom, aproveitei que estou quase alcançando a maioridade para passar a tarde fazendo
compras no shopping (como se uma coisa tivesse a ver com a outra, mas ficou legal, não
ficou?). Eu tinha que estudar hoje, mas como é o meu dia, dá licença. Meu pai me deu
muito dinheiro de presente e eu comprei tanta roupa, nossa... Três calças, sete blusinhas,
duas saias, um par de sandálias e dois cintos, para ser mais precisa. Fui com a minha mãe e
a Bárbara, que me ajudaram a escolher, e só voltei agora.
Bom, vou indo. Preciso estudar física, apesar de a prova amanhã ser de biologia. Ai, acabei
de lembrar que quarta-feira eu tenho dentista, que saco.
Débora
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26/09 Quarta-feira, tipo 20h30
Nossa, hoje foi um dia de amassos quentíssimos com o Felipe! Nós estamos evoluindo cada
vez mais. Fizemos coisas que nunca tínhamos feito antes, foi muito, muuuito bom.
Do colégio, eu fui direto para a casa do meu pai, com autorização da minha mãe e dele,
porque o dentista fica lá perto. Quando eu cheguei, o ingrato não estava lá embaixo, embora
eu tivesse telefonado para ele avisando. Desiludida da vida, subi, preparei um hambúrguer
para mim, peguei um refrigerante na geladeira e fui para a cama do meu pai ver televisão
(ele não estava em casa). Quando fui morder o sanduíche, me mexi e derramei o
refrigerante todo, para variar. De dez vezes que eu tomo alguma coisa na cama do meu pai,
oito eu derramo essa coisa. O mais incrível é que eu continuo tomando.
Bom, continuando. Depois do almoço, pensei em telefonar ou até tocar a campainha na
casa do Felipe, mas olhei da janela e ele estava lá embaixo sozinho. Pensei meia hora se eu
o chamava para subir ou não e... chamei. Eu estava doida para saber a sensação de dar uns
amassos com ele na minha cama, a casa vazia... Mas não rolou, não. Ele até subiu, mas eu
fiquei sem coragem, com medo de o meu pai chegar, e a gente ficou vendo televisão e
depois desceu.
Sabe o que eu estava pensando? Desse jeito, eu não vou transar nunca. Eu não posso ficar
sozinha em casa com ele, menor de idade não entra em motel... Onde a gente vai transar?
Eu não queria que fosse lá no prédio mesmo, que horror! Não por causa do desconforto,
mas por causa da falta de privacidade. Quando a pessoa já transou milhões de vezes, não
tem nada de mais transar na escada, no elevador, etc., etc., etc. Mas logo na primeira vez?
Já vou estar supernervosa! Tem que ser um lugar tranqüilo.
Ainda mais agora que eu sei como os pais dele são. Eles nunca vão deixar a gente ficar no
quarto com a porta trancada.
Ah, não que eu esteja pensando em transar, deixemos claro.
Continuando. Depois que a gente desceu, foi para trás do prédio, que a essa hora é bem
vazio. Aliás, lá sempre é vazio. Geralmente, a gente fica em uma parte menos escondida, no
fundo do prédio, mas nós resolvemos ir para lá hoje. É praticamente um beco, ninguém
passa por lá.
Nossa, é um lugar incrível! A gente, tem muito mais privacidade lá.
169
Não tanto quanto eu gostaria para transar, mas, para dar uns amassos, é perfeito! Fizemos
coisas que eu nunca tinha feito antes. Eu fiquei com um pouco de medo, mas acabei tirando
a blusa. Se a gente ouvisse qualquer barulho, dava tempo de vestir de novo.
Deu para fazer MUITA coisa. O bom do Felipe é que ele não força nada. Isso me dá a
maior segurança. Eu sei que ele nunca me obrigaria a nada que eu não quisesse. Acho que o
fato de ele também ser virgem ajuda um pouco. Acho que ir devagar é melhor tanto para
mim como para ele.
O único problema de tudo foi que eu perdi a hora do dentista! Cheguei ao consultório meia
hora atrasada e implorei ao dentista para que ele não contasse a minha mãe. Ele topou e
ficou combinado que a gente diria a ela que era necessário fazer mais uma sessão (o certo
seria ir só hoje para fazer a limpeza, porque eu não estou com nenhuma cárie). Quando ela
chegou, nós falamos isso e ela acreditou. Que bom!
Ah, agora vou indo! Depois dessa novela toda, deu tempo de eu estudar só duas horas, mas
eu quero estudar mais.
Débora
29/09 Quinta-feira
Antes de tudo: adivinhe quem me ligou hoje? O A. Que coisa, não? Disse que estava com
saudades, que eu sumi e coisa e tal. Deu um monte de indiretas, mas eu fingi que não
entendi nenhuma.
Tirando isso, hoje foi um dia supertranqüilo. Teve natação depois da aula e minha mãe me
buscou de carro, o que me deixou muito feliz. Ah, já falei que o professor elogiou meu
nado de peito? Pois é.
Cheguei, almocei, desentupi a pia do banheiro com o desentupidor e uma chave de fenda. É
a maior meleca, mas minha mãe mandou (vai ver que foi por isso que ela me buscou de
carro). Depois, fiz os deveres de matemática e português, lanchei e aqui estou eu,
escrevendo e ouvindo música.
Se eu estivesse agora na casa do meu pai, poderia descer e namorar o Felipe. Mas não, eu
tenho que ficar aqui na minha mãe. Eu queria me mudar para lá, para dinamizar meu
namoro, mas meu pai vive me mandando de volta para cá, toda vez que ele vai sair, e isso é
superchato. Principalmente agora, que eu estou namorando, ele não vai nem à padaria
quando estou lá!
170
Bom, acho que vou voltar a ler o livro que comecei hoje para a aula de português. Eu sei
que já li bastante por hoje, mas é que ele está legal, sabe?
Beijos, Débora
28/09 Sexta-feira depois do almoço
Ele acabou de me ligar e tivemos uma briga horrível! Eu quero morrer! Foi o pior dia do
nosso namoro inteiro! O Felipe não é quem eu pensava que era, ele não me ama!
Vou contar, calma. É que eu já estava de saco cheio dessa história de Aline para cá, Aline
para lá. Ela é uma menina que eu nunca vi na vida, da sala dele. Ele vive fazendo trabalho
com ela, conversando com ela na aula, e faz questão de me contar tudo. “Hoje, a Aline
contou uma coisa superengraçada ”, “Ainda bem que no nosso grupo tinha a Aline, que
sabia tudo”, e blá-blá-blá. Mas hoje foi demais. Ele ligou, eu comecei a falar que o A tinha
ligado (para não ter que ficar escondendo, sabe?), e ele começou a falar que a Aline tinha
ligado para ele mais cedo e eles conversaram um tempão. Eu quase explodi de ciúme.
- Pô, Felipe, você vai ficar falando dessa Aline de novo? Que saco.
- Tá com ciúme?
- Eu, não. Mas que é um saco, é.
- E você que fica falando desse A aí? Isso é que é um saco.
- Não, senhor. O A é que é um saco e nunca vai rolar nada com ele de novo.
- De novo? Como assim, de novo? Vocês já ficaram?
- Ué, eu pensei que você soubesse! Mas faz séculos, não tem nada a ver.
- Então não tem nenhum motivo você ficar com ciúme da Aline. A gente ficou também há
séculos.
- O QUÊ???
Não acreditei no que eu estava ouvindo. Então eu não fui a primeira menina com quem ele
ficou! Galinha!
- Eu pensei que eu fosse a primeira menina com quem você tinha ficado!
- Hã? Por que você pensou isso?
- Mas foi só eu e essa Aline aí, né?
- Não, Débora! Nem você nem a Aline foram a primeira. Já fiquei com umas vinte meninas,
mais ou menos.
171
Comecei a chorar. Eu sei, eu também já fiquei com um punhado de gente, mas eu pensei
que ele não. Ele é tão tímido, tão na dele... Além disso, o Gabriel tinha falado que achava
que eu era a primeira! Que tinha quase certeza! E como ele ficou tantas vezes, se não
costuma sair? Ele disse que saía, sim, antes de a gente namorar, e que só teve aquela
história de ele não sair comigo porque ele nunca tinha namorado e os pais dele encheram o
saco para ele me apresentar para eles! Agora é que eu entendi a história, eu pensava que ele
não saía NUNCA!
Não quis ouvir mais nada. Vai que ele tem até uma ex-namorada de anos e eu não sei! E o
pior é que ele fica com essa Aline mais do que comigo, que não estudo com ele! Eu disse
que ele mentiu para mim, que me fez de boba, e desliguei o telefone chorando!
Nossa! Se ciúme matasse, eu estaria morta! É horrível se sentir assim, eu nunca tinha me
sentido desse jeito antes! Eu odeio o Felipe! Odeio!
Débora
28/09 Ainda sexta-feira, 23h15
Estou deprimida. Eu não devia ter dado aquele escândalo com o Felipe. Mas é que eu perdi
o controle!
Foi a Bia que me abriu os olhos, pelo telefone. Eu liguei para a casa dela com um mau
humor danado e contei a história para ela, cheia de razão. Ela disse que eu estava sendo
superegoísta, que eu não tinha o direito de cobrar dele que eu fosse a primeira. Foi até um
pouco grossa, mas tudo bem. Ela está assim desde que terminou com o Gabriel (ontem,
pelo telefone), porque não estava mais a fim dele. Mas o que mais me fez pensar foi que ela
me perguntou como eu me sentiria se ele ficasse me cobrando assim.
Ela tem razão. Analisando a situação com mais calma, eu percebi que eu não só fui
histérica, mas também boba. Afinal, não importa com quantas meninas ele ficou. O que
interessa é que está comigo agora. Quando eu paro e penso nos meninos com quem eu já
fiquei, vejo que eles não significam nada para mim. Deve ser assim para o Felipe também.
Depois que eu e a Bia desligamos, eu deitei na minha cama e fiquei pensando, pensando,
até agora.
Quando eu desliguei o telefone daquele jeito, pensei até em dizer ao Felipe que ou ele
manteria distância dessa Aline, ou não falava mais comigo.
172
Mas ia ser uma criancice imensa da minha parte fazer isso! Afinal, eu conversei com o A,
pelo telefone, converso com o Guilherme, na aula...
Por outro lado, é a pior coisa do mundo imaginar o meu Felipinho beijando outra menina.
Eu fico péssima, é horrível! Melhor não pensar nisso.
Eu queria telefonar para ele agora, para contar todas as conclusões que eu tirei e para
mostrar a ele que eu não sou uma menina boba e ciumenta, mas está supertarde. A gente vai
poder se falar só amanhã.
Estou tão arrependida!
Débora
ngnp1046
30/09 Domingo de noitão
Nossa, meu fim de semana foi tão bom que quase deu para enjoar do Felipe! Já estamos
superbem um com o outro. Eu estava com medo de ele ter ficado com raiva de mim, mas
não ficou, não. Na verdade, quando eu cheguei lá, depois do clube, parecia que ele nem se
lembrava da briga! Eu sou tão boba, fiquei sofrendo à toa.
Quando eu cheguei na casa do meu pai, os meninos não estavam na rua, mas eu toquei a
campainha na casa do Felipe. Depois de ter almoçado na casa dele e tudo, eu perdi a
vergonha. Os três estavam lá e todos desceram. A gente jogou um pouco e depois fomos só
nós dois para o prédio.
Fomos naquela parte de novo. E eu estava de vestido, olha que coisa! Demos um amasso
fenomenal. Foi muito, muito, muito bom. Acho que, a cada dia que passa, eu sinto mais
tesão por esse garoto, não é possível! Acho que esse jeito todo misterioso dele ajuda, ele
acaba ficando muito sexy... Bom demais!
Dormi na casa do meu pai e adivinha... Hoje de manhã levei o Felipe ao clube! Meu pai só
arranjou um convite e eu adorei, né? Ele ficou meio com vergonha de irmos só nós dois,
mas acabou indo. E foi perfeito! Ele ficou sem jeito de ir jogar futebol e me deixar sozinha,
e nós nadamos um tempão. Só nós dois, tão romântico... Aproveitamos o calor que estava
fazendo e passamos o tempo inteiro na
Desenhos de Débora e Felipe, com os braços na beira da piscina, e cada um chupando um
picolé
173
água. Nem tomei sauna. Também chupamos picolé, tomamos sol... Estava um paraíso.
Só que, na volta, a gente estava tão cansado que cada um foi para sua casa e dormiu. À
noite, minha mãe me pegou, e foi só o tempo de a gente dar um beijinho. Na frente dela,
olha só! A timidez do Felipe só está diminuindo. Minha mãe, no carro, falou superbem
dele.
Estou tão apaixonada! E estou tão feliz que a gente não está mais brigado!
Beijinho, Débora
OUTUBRO
Desenho de Débora sorrindo, piscando de um lado e mostrando o músculo do lado direito
03/10 Quarta-feira à noite
Hoje o dia foi horrível!
Para começar, minha testa estava um depósito de marcas de cravos que a inteligente aqui
espremeu. Teve um que eu espremi tão forte que até ficou um machucado. Assim que eu
entrei no colégio, a Bia:
- Credo! O que aconteceu com a sua testa?
- Foi um cravo que eu espre...
Aí a Juliana chega, para minha felicidade, e:
- Machucou feio a testa, hein?
Ai, paciência. Bateu o sinal, e o Guilherme aparece:
- Caiu da escada, Deby?
Que saco! Fui espremer um cravo, só que ele estava meio histérico e eu tive que apelar com
ele! Foi só isso! Será que ninguém entende? Também, não espremo mais nada. Pode dar
um milhão de cravos na minha testa que eu vou ignorá-los. Que coisa.
Hoje eu ia almoçar no shopping e voltar para o colégio, para fazer um trabalho que um
professor inventou sobre conflitos sociais, mas eu estava me sentindo horrível por causa das
marcas e vim para casa. Estava cansada e de saco cheio, sabe? A gente vai ter que
apresentar uma peça de teatro e não vai valer ponto, não, mas todo mundo está se
empenhando. Eu estou meio por fora. Só sei que vou fazer o papel de uma mulher que
apanha do marido, eu e a Bia. Aliás, ela foi à tal reunião. Depois, ela me conta o que eles
falaram.
Ah, na sexta depois da aula eu vou para a casa do meu pai assistir a um filme que um outro
professor mandou. Não posso ver aqui em casa, porque só tem DVD na casa do papai, e
DVD é bem melhor que o videocassete velho da minha mãe. Então, eu chamei o meu amor
para ir comigo e ele topou. A Bia, a Juliana e a Fernanda também vão. Adorei esse
trabalho! O colégio deveria obrigar a gente a assistir a mais filmes.
Beijos, Débora
05/10 Sexta-feira de noitão
Nossa, a sessão de cinema aqui na casa do meu pai foi perfeita! Foi
176
bom demais! Não vi nada do filme. Ficamos eu e meu amor na rede (tem uma rede na sala
de tevê), no maior amaaaasso. Eu estava de vestido, ele subiu todo, foi uma delícia...
Desenhos do DVD o filme (?), bem na frente Ju e Fernanda, logo atrás no sofá Bia +
Alexandre e mais atrás dentro da rede Eu e o Felipe (altos amassos!!)
Nossos amassos estão avançadíssimos, nossa! Já fizemos de tudo, só falta transar. Acho
que não tem nenhuma parte do meu corpo que o Felipe não tenha pegado e/ou beijado.
Nós na rede, na maior liberdade, a Bia no sofá-cama com o Alexandre (é, o Alexandre),
também na maior liberdade, e a Juliana e a Fernanda sentadas no chão, de costas para a
rede e para o sofá-cama, concentradas no filme. É incrível como nessas horas a gente
simplesmente esquece que existem outras pessoas à nossa volta e fica se agarrando do
mesmo jeito.
Ali, namorar é a melhor coisa do mundo! Estou doida para ter a minha primeira vez. Por
mim, podia ser hoje, agora!
Pensando bem, não sei, não. Será?
Débora
ngnp1046
06/10 Sábado, 23h47
Hoje o dia foi ótimo!
Cheguei do clube e o Felipe estava na rua. Demos um beijinho e subimos para o
apartamento do meu pai para eu guardar as minhas coisas. Daí descemos e ficamos um
pouco no hall do prédio conversando. E aí fomos para o apartamento dele, para almoçar (a
mãe dele tinha me chamado).
Na mesa, eu, ele, o Alexandre e a Marta, minha sogrinha querida.
Aí nós descemos e fomos à locadora pegar um filme de terror. Fomos para o apartamento
do meu pai, que tem dois andares e a gente fica com mais liberdade, colocamos o filme e
nos preparamos para dar aquele amasso.
Só que não foi muito bom, não. Nem se compara ao de ontem. Primeiro, porque a gente
estava fazendo barulho demais e eu fiquei morrendo de medo de o meu pai descobrir.
Segundo, porque meu pai me interrompia toda hora. Primeiro ele gritou, do andar de baixo:
“Débora, que filme você alugou?”.
177
Eu, descabelada e com a respiração ofegante, gritei: “Ah, um filme de terror”, e ele:
“Qual?”, e eu: “Ah... é... como é, Felipe... É... Ah, é Renascido do inferno!”, “Ah, esse
filme é bom”.
Daí ficamos vendo normalmente, eu passei a mão no rosto dele e dei um beijo, daí começou
um beijo ótimo, daqueles que têm tudo para durar mais de quarenta minutos. Mas aí o papai
gritou: “Débora, você me chamou? “Não”, “O quê?”, “Não!”, “Ah. Você quer pipoca?”,
“Não, obrigada”.
Aí eu e o Felipe pensamos “ah, desisto” e passamos o resto do filme bem comportados. Só
vendo e conversando. Quando acabou o filme, descemos. Fomos para o fundo do prédio,
porque eu disse que queria falar alguma coisa supersecreta para ele. Fomos.
E o que eu fiz quando chegamos lá? Empurrei o menino bem forte contra a parede e dei um
beijão. Aí começou o amasso. Só que, dessa vez, a gente realmente foi longe demais:
deitamos no chão!! Minha razão falou mais alto que o meu tesão (que milagre!) e eu disse
para o Felipe que a gente estava arriscando muito. Ele concordou, a gente se levantou e
arrumou nossas roupas. Já estávamos indo para a parte normal do prédio quando eu vejo...
meu pai!
O que ele estava fazendo lá embaixo? Eu não tinha a menor idéia! Saímos de fininho,
porque senão ele iria ver que estávamos atrás do prédio e pegaria supermal. Ainda bem que
o meu pai estava meio distraído. Ele só viu a gente quando estávamos sentados no sofá do
hall, o que não tem problema nenhum.
Bom, aí a gente foi comprar sorvete de brigadeiro na padaria. No meio do caminho de
volta, o Felipe jogou um punhado de sorvete no meu rosto e lambeu para limpar. Eu fiz o
mesmo com ele. E começou a maior guerra de sorvete no meio da rua! Estava tão
engraçada aquela lambança toda! A gente se divertiu muito, foi ótimo.
Foi tudo tão legal, hoje! Adorei! Pena que agora estou na casa da minha mãe, porque eu
tinha esquecido aqui as coisas que vou precisar para estudar amanhã.
Beijinho, Débora
07/10 Domingo antes de dormir
O Felipe falou “eu te amo” para mim, pela primeira vez!!! Foi tão lindo! Aí eu falei
também, claro. Eu queria ter falado antes, mas eu não
178
tinha coragem. E se ele respondesse alguma coisa como “obrigado” ou “que legal”? Eu ia
ficar com a cara no chão. Mas ele falou, eu respondi, e tudo resolvido. Perfeito.
Foi assim: eu acordei cedo para estudar o que eu precisava e às 14h30 eu já tinha acabado
tudo. Daí liguei para o Felipe para ele vir aqui e ele, apesar de estar supercansado por ter
jogado vôlei a manhã inteira num clube, topou na hora e veio, de ônibus. Foi ótimo! A
gente papeou tanto, tomou sorvete e ele foi embora às 20h30. Foi excelente, nós estávamos
tão amigos, conversando tanto.
Quando a gente estava saindo da sorveteria, ele passou a mão no meu rosto e perguntou se
podia me dizer alguma coisa. Eu respondi “claro”, mas não tinha nem idéia do que era. Aí
ele fez uma carinha superfofa e falou:
- Eu te amo.
Eu abri o maior sorriso do mundo, e disse que eu também o amo. Nos demos um abraço
supercarinhoso, no meio da rua, e um beijinho. Na hora de ele ir embora, eu disse primeiro.
E ele respondeu. Tão lindo!
Desenho do rosto de Felipe e a anotação: Ele disse!! Eu te amo, Felipe e em volta vários
corações
É tão bom saber que ele me ama! Já contei para Lu e para a Bia, por telefone. Elas acharam
o máximo. E é, não é? Adorei!
Débora
08/10 Segunda-feira à noite
Hoje, depois da aula, a gente ensaiou a peça e foi um saco. A maior bagunça, e eu
morrendo de fome... O professor disse que era melhor a gente ensaiar antes do almoço
mesmo, porque era coisa rápida e não sei o que mais, e a gente teve que ensaiar. Eu odeio
teatro, nossa. Não sei quem inventou que aluno precisa fazer teatro. Se fosse uma escola de
teatro, tudo bem, mas não é. Eu odeio ficar falando coisas sem sentido em um palco, na
frente de um
179
montão de gente. Morro de vergonha. Ainda bem que me deram um papel minúsculo. Na
verdade, tudo o que eu tenho que fazer é entrar e falar “É uma falta de respeito!” e acabou.
Que mau humor, né? Vou parar, credo!
Débora
ngnp1046
10/10 Quarta-feira à noite
Hoje foi um dia superlegal. Na educação física, a gente teve que se pesar e se medir. De
tempos em tempos um médico vai lá no colégio fazer essa coisa inútil. Então. A Bia disse
que, se ela pesasse menos que 56 quilos, daria uma volta em torno do colégio, correndo. Aí
a Juliana disse que, se medisse menos que 1,67 m, daria a volta, a Fernanda disse que daria
se pesasse menos do que 60 quilos e eu, se medisse mais do que 1,67 m (vai sonhando).
Bom, acabou que nós quatro demos a tal volta, correndo igual doidas pelo colégio.
Depois da aula também foi ótimo. Almocei na casa da Bia e nós fomos para o shopping,
porque tinha inaugurado uma loja superboa. A gente queria ter comido lá mesmo, mas
minha mãe não colaborou financeiramente. Eu tinha alguma coisa da mesada, mas não
queria gastar com comida, né? Comprei um par de brincos lindo na tal loja e a sortuda da
Bia, que estava com muito mais dinheiro, comprou uma blusa maravilhosa. Ela jurou que é
só eu pedir que ela empresta.
Depois, a gente voltou para a casa dela e teve uma idéia superboa: trocar algumas roupas
nossas e destrocar depois. Não é o máximo? Como a gente nunca tinha pensado nisso
antes? Multipliquei meu guarda-roupa. Peguei uma saia dela superfofa, três blusinhas (não
a nova, claaaro), um top, um vestido, um short (que eu vou usar estrategicamente, quando
for rebater com o Felipe na rua) e um vestido mais chique, para sair à noite.
Aí a gente foi de ônibus para minha casa e a Bia também fez a festa com as minhas roupas.
O legal é que ela levou um tanto de coisa minha que eu não gosto nem uso mais. Ela me
disse que eu fiz a mesma coisa.
Bom, depois desse anda para lá e anda para cá o dia inteiro, ficou supertarde e a mãe da Bia
teve que buscá-la aqui em casa. Hoje foi tão divertido, nossa! Fiz tanta coisa! Quer dizer,
menos estudar, claro. Mas está indo tudo bem com o colégio. Está até mais folgado do que
de costume. Ai, por que eu fui falar isso? Aposto que, agora, vai piorar!
180
Aaah, você precisa ver o mico! Eu quase me esqueço de contar a parte ruim do dia. Bom,
como a verdade dói, mas precisa ser dita, vamos lá. Quando a Bia foi embora, eu liguei
para o Felipe.
- Alô.
- Oi, meu amor.
ngnp1046- (...)
- Felipe?
- Aqui é o pai dele, Débora.
Sem comentários! Morri de vergonha!
Mas deixa para lá! Vou pensar nas combinações que eu vou fazer misturando as roupas da
Bia com as minhas. A mamãe adorou a idéia! (claro, eu vou encher menos o saco dela para
me dar roupas novas!)
Débora
11/10 Quinta-feira, tipo 19h15
Hoje foi o dia do sofrimento! Tudo porque eu resolvi parar de enrolar e me depilar com a
cera fria que eu tinha comprado há séculos. Ela estava lá, encostada no armário, porque eu
estava sem um pingo de coragem.
Doeu tanto, nossa! E não ficou muito bom, não. Quer dizer, agora até que está bom, porque
a mamãe terminou de depilar para mim. Se eu deixasse do jeito que estava, ia ficar uma
coisa horrorosa: algumas partes depiladas, outras não. No total, para depilar as pernas, levei
duas horas (mais meia hora da mamãe). Ou seja, fiquei a tarde inteira por conta disso. Mas
agora, finalmente, está tudo lisinho. O Felipe vai amar.
Ah, voltando ao assunto, deixemos claro que eu não andava por aí peluda, viu? Eu costumo
raspar do joelho para baixo com uma lâmina. Quanto à coxa, bem, sim, eu andava com ela
peluda. Mas não uma mata Atlântica, claro. Só tem um pouco de pêlos. De qualquer forma,
agora ficou bem mais bonito.
Minha mãe falou que, da próxima vez, eu posso só descolorir a barriga. Vou aproveitar e
fazer o mesmo com os pêlos do braço e do bumbum, que são fininhos e em pouca
quantidade. Bigode, felizmente, eu não tenho. A Lu é superbigoduda e tira tudo no salão,
com cera. Deve doer tanto!
Débora
181
ngnp1046
12/10 Sexta-feira, tipo 16h
Nossa, estou muito chateada. Acordei ao meio-dia (hoje é feriado), liguei para o Felipe e
nós combinamos que, se eu terminasse de estudar até às 17h, ele viria aqui em casa me ver.
E agora ele me ligou dizendo que vai ao estádio ver o jogo de não sei quem contra não sei
quem. Nem perguntou se eu tinha acabado o estudo. E eu tinha! Mas ele preferiu ir ao jogo
e ficar sem me ver. Ele:
- Não, você sabe que eu gosto mais de você do que do jogo. Mas é que o jogo é uma vez na
vida, outra na morte...
- Então você prefere o jogo, claro, porque eu estou disponível em tempo integral.
- Não pense assim... Se eu pudesse escolher os dois...
- Mas não pode, e você escolheu o jogo!
- Débora, não fique chateada. Pronto, não vou mais ao jogo.
- Assim eu não quero. Não quero que você venha aqui obrigado.
- O que você quer, então?
- O que eu quero não dá mais. Eu queria que você preferisse vir aqui em casa, e não me
trocasse pelo jogo. Agora, pode ir.
- Posso ir, mesmo? Você não vai ficar com raiva, não?
- Eu não.
- Não vai ficar pensando que eu não tenho palavra, não, né?
- Ah, isso eu vou! Você combinou comigo e depois descombinou! Eu tinha até separado a
roupa que eu ia usar para ver você.
- Ah, não, já decidi. Não vou mais ao jogo.
- Eu não quero isso.
Aí sabe o que ele fez? Apelou comigo! Disse que eu não fico satisfeita nem de um jeito,
nem de outro e perguntou se podia ou não ir ao jogo em paz. Eu fiquei emburrada, disse
“então vai” e ele foi.
Eu estava me sentindo cheia de razão, mas depois que eu li o que eu escrevi, sei lá... Eu
estava meio confusa, né? Não soube explicar o que eu queria exatamente. O problema é que
até agora eu não sei o que eu queria!
Acho que o que eu queria mesmo era que ele não gostasse de futebol. Não sei qual é a graça
de um monte de homens bobos correndo atrás de uma bola!
Débora
182
ngnp1046
13/10 Sábado à noite
Hoje o dia foi um saco! Eu estava crente de que o Felipe ia amar o meu visual com a saia
da Bia (que eu não disse que era da Bia, claro), mas ele ficou foi morrendo de ciúme. Tudo
porque eu quis ir ao cinema com a saia. Quis e fui. Falei que quem escolhe as minhas
roupas sou eu. Ele ficou emburrado durante o filme inteiro. O Felipe nunca foi de implicar
com roupa, não sei o que deu nele agora! Ele disse que esta semana está mais ciumento,
porque está cheio de provas no colégio e isso está estressando. Perguntou se eu vou ser
compreensiva com ele esta semana e eu disse que não. Eu argumentei que, se eu fizer o que
ele fica me pedindo só porque ele está estressado, ele vai acabar se acomodando e
implicando comigo cada vez mais. E ele não tem o direito de implicar com a minha roupa,
né?
Mas ele entendeu isso? Não, claro. Eu até liguei para a Lu para saber a opinião dela, mas
ela disse que às vezes eu sou muito cabeça-dura. Fiquei com ódio! Eu não sou cabeça-dura.
Ela é que faz tudo o que o namorado quer. Agora ela não está namorando, mas quando
estava com o Marcos...
Em todo caso, vou tentar explicar o meu ponto de vista com mais calma da próxima vez.
Isto é, se houver uma próxima vez. Porque eu espero que a gente não brigue mais por causa
dessa bobeira.
Beijos, Débora
P.S.: Já notou que eu estou parando com essa mania de “P.S.”?
14/10 Domingo, 23h10
Hoje o dia com o Lipe foi bem melhor. A gente namorou o dia inteiro, como sempre.
Suuupergostoso.
Mudando de assunto, a Bia está toda feliz! Ela saiu na sexta e conheceu um cara superlegal.
Ele se chama André e tem dezoito anos. Ela disse que foi a melhor ficada da vida dela. Ela
tinha me chamado para ir também, mas na sexta eu estava toda triste, lembra? Nem um
pouco a fim de sair. Aí ela foi com a Ju, que ficou sozinha a noite inteira, tadinha. A Ju
sempre sobra.
183
A Lu é outra que está sozinha. Mas ela disse que não está a fim de namorar. Acho que é por
isso que ela não é nem um pouco compreensiva quando eu digo que não quero sair porque
vou ficar em casa com o Felipe. O problema é que, em casa, dá para dar uns amassos bem
mais legais do que na rua. Ainda mais agora, que a gente não está ficando só no prédio, e
sim no apartamento também. Meu pai dorme, vê tevê, etc., e não vê nada, e a gente pode
namorar à vontade. Para a Lu é muito fácil, ela já transou, já fez tudo!
Mas o que eu queria mesmo era poder ficar no meu quarto com o Felipe de porta trancada.
O problema é que eu não tenho coragem de pedir ao meu pai, porque tenho certeza absoluta
de que ele não vai deixar. Triste, né? Mas é a vida.
Beijos, Débora
16/10 Terça-feira, tipo 18h30
Hoje a natação foi ótima! O professor me elogiou na frente de todo mundo. Achei tão legal!
Também, de uns tempos para cá, eu tenho nadado mais do que a turma toda. Quando a aula
termina, eu ainda fico lá nadando por uns dez minutos. Acho que foi por isso que ele falou.
Tirando isso, nada de mais. Todo mundo ficou ensaiando a peça depois da aula, menos eu,
que precisava ir para a natação. O professor veio reclamar no meu ouvido e eu disse que
não preciso ensaiar muito para falar “é uma falta de respeito!”.
Acabei dizendo que a distribuição dos papéis foi injusta e que eu nunca vou chamar os
meus pais para assistirem a uma peça em que eu só falo uma frase. Não era só eu que estava
insatisfeita. Era um monte de gente. Mas, quando o professor veio com aquele papo de que
não existem papéis menores, só atores menores, eu desisti e fui embora.
Tenho dever para fazer e estou enrolando até agora, para variar. É que hoje vai passar um
capítulo superlegal da novela e eu estou superansiosa. Não posso perder por nada.
Débora
184
ngnp1046
17/10 Quarta-feira depois do almoço
Hoje, na aula, foi o maior mico!
Eu e a Bia não parávamos de conversar durante a aula de física. O professor chamou
atenção uma vez, mas a gente não conseguia parar. Afinal, tinha acontecido uma coisa
superlegal! A Bia e o André começaram a namorar! Ela estava me contando as novidades,
como tinha sido, como ele é, etc., e a gente aproveitou para combinar sair no sábado de
casalzinho.
Então, a gente estava nessa animação, o professor chamou a atenção de novo. Ficamos
quietas por uns cinco minutos, mas aí a Bia se lembrou de uma coisa supersecreta sobre o
André e virou para me contar. Ele tem um jabuti em casa, sabia? Eu fiz o maior escândalo e
a gente morreu de rir. Resultado: o professor mandou nós duas para fora da sala. Nós
aproveitamos para comprar picolé na cantina e ficamos papeando sobre os meninos, foi
ótimo! É tão legal a Bia estar namorando também!
Desenhos do professor de Física apontando para Débora e Bia se retirarem da aula muito
aborrecido Blá-blá-blá-blá. E as duas saindo cada uma com um picolé na mão
Débora
18/10 Quinta-feira à tarde
Hoje o Felipe deu uma passada aqui em casa! Adorei!
Eu tinha feito uma ótima prova de história e estava superanimada. A natação também tinha
sido superlegal. Aí eu estava jogando com a Bárbara e ele tocou a campainha. Foi a maior
surpresa! A mamãe estava em casa e conversou um tempão com o Felipe. Ela fez batata
frita para a gente e comprou sorvete e refrigerante. Ficamos os quatro conversando e vendo
tevê, superfamília.
185
Eu já contei que a mamãe e a Bárbara adoram o Felipe? No começo, a Bárbara tinha um
pouco de ciúme, mas agora ela é uma gracinha com ele. Fica contando as coisas que ela fez,
fala sobre o colégio... De vez em quando ela até pega o telefone da minha mão, quando eu
estou falando com ele, só para contar alguma coisa!
Só o meu pai que é meio chato com ele. Mas, no fundo, acho que é só ciúme. Não tem
como não gostar do Felipe! Ele é um anjinho. Lindo, educado, inteligente e safado nas
horas certas (isso só eu sei, claro).
Ai! Eu amo o Felipe, nossa! Acho que a gente vai ficar junto para sempre. Acho não, tenho
certeza. Ele é tudo, tudo para mim.
Um beijo! Débora
20/10 Sábado, meia-noite
Hoje eu e o Felipe brigamos! Que ódio! Não quero nem falar sobre o assunto, de tão
irritada que estou. Só vou adiantando que a culpa foi toda dele. Basicamente, ele queria
jogar futebol antes de namorar e eu queria que ele namorasse primeiro e não jogasse nunca.
Argh! Ele foi jogar, eu apelei e subi. Ah, tenho que apelar mesmo! Para piorar, o Felipe
parece que nunca viu bola! Não gosta só de futebol, mas de vôlei, de rebater, de tudo! Que
saco!
Lanchei, vi tevê e agora estou aqui. Já está muito tarde, e nem ele me procurou, nem eu o
procurei. Só lamento. Se depender de mim, amanhã a gente não se vê. Só perdôo se ele
aparecer aqui em casa com um buquê de flores dizendo que estava errado e agora só não
morre de arrependimento porque quer ficar vivo para ficar comigo para sempre. Contei
tudo para a minha mãe, pelo telefone, e ela disse que eu estou exagerando. Tudo para ela é
exagero, tudo.
Débora
21/10 Domingo, 19h16
Eu e o Felipe já estamos normais um com o outro, olha que bom! No final das contas, eu
acabei me arrependendo de ter feito tanto escândalo.
186
Acordei e o meu pai falou que não ia ao clube. Fiquei superfeliz, porque eu não queria ir de
jeito nenhum. Preferia ficar e resolver as coisas com o Felipe. Eu estava morrendo de
saudades, tinha custado a dormir por causa dele. Fiquei rolando na cama e pensando,
pensando, pensando... Foi péssimo.
Era muito cedo e ele ainda não estava lá embaixo. Fiquei com vergonha de ir à casa dele
àquela hora, mas a família dele costuma acordar cedo. Lanchei bem rápido e fui lá.
A mãe dele atendeu a porta de camisola, fiquei toda sem graça! Quase morri. Mas ela foi
supersimpática comigo, me convidou para tomar café com ela e eu acabei lanchando de
novo. O pai dele não estava lá, ainda bem! Ela disse que o Felipe estava dormindo, mas que
eu podia acordá-lo. Nem pensei duas vezes e corri para o quarto dele.
Ele estava tão fofinho dormindo! Parecia um anjinho! Estava com um pijama azul,
abraçando o travesseiro... Uma gracinha. Dei um beijinho no rosto dele, e mais outro, e
mais outro até ele acordar. Ele olhou para mim com uma carinha tão fofa! Nem perguntou o
que eu estava fazendo lá tão cedo e me deu um abraço. Disse que tinha custado a dormir,
que não tinha ido à minha casa ontem à noite porque pensou que eu não queria falar com
ele... eu pedi desculpas e falei que vou implicar menos com o futebol dele.
Ele estava tão fofinho, e a gente ficou no maior carinho. Ele trocou de roupa, escovou os
dentes e foi lanchar, e eu fui com ele. Mas dessa vez eu não comi nada, senão vou virar
uma baleia! Depois, fomos para o meu apartamento. Ele almoçou lá, depois nós alugamos
um filme, fizemos pipoca, jogamos no computador... E os amassos de sempre, claro! Cada
vez fica mais perfeito. E olha que desta vez foi melhor ainda, porque a gente estava
morrendo de saudade e supercarinhosos um com o outro.
Minha mãe me buscou à noite e agora eu estou aqui, morrendo de saudades do meu
anjinho.
Um beijo! Débora
22/10 Segunda-feira à tarde
Outra vez fiquei conversando com a Bia a aula inteirinha. Como a gente enrolou, enrolou e
não saiu nesse fim de semana, ficamos combinando sair no outro. Ela me contou como foi
com o André, e eu falei da briga com o Felipe. Quase fomos postas para fora da sala de
novo!
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No intervalo, papeamos tanto que chegamos na sala atrasadas. O assunto era aquele que
mais rende em qualquer conversa com amiga: sexo. Ela disse que ainda não está pensando
nisso, porque começou a namorar agora com o André, mas confessou que morre de vontade
e de curiosidade. Eu falei que eu e o Felipe já estamos quase lá, já fizemos de tudo... menos
o sexo propriamente dito. Disse que, por mim, eu já teria transado, mas que tem aquele
problema da falta de lugar. Se bem que, às vezes, acho que está meio cedo...
Recebi a prova de história e tirei total! Aliás, eu e a Bia. Essa que foi a parte chata da
história: o professor olhou meio desconfiado, pensando que a gente tinha colado, mas a
gente não tinha! Juro! O problema é que estudamos meio que juntas. Tiramos um monte de
dúvidas uma com a outra, por telefone, e as respostas ficaram meio parecidas. Fazer o quê,
né? Se o professor acha que a gente colou, problema dele. Eu sei que eu não fiz nada.
Tirando isso, nada de mais... Ah, o Guilherme pôs um piercing na sobrancelha! Primeiro eu
achei ridículo, mas depois admiti que até que ficou bom. Eu queria colocar um na barriga,
mas acho a minha barriga horrorosa! Se ela fosse bonita, tudo bem. O Felipe diz que ela é
perfeita, e a mamãe sempre elogia... Mas eu acho ela tão horrível! Eu como muito! Se eu
fizer dieta, malhar e ela ficar linda, eu ponho.
Bom, agora eu vou ficar aqui à toa, porque não tem nada para estudar. Liguei para o Felipe
perguntando se ele queria vir aqui me visitar, mas ele tem prova amanhã. Triste, né? Vou
ficar ouvindo música e pensando nele. E deixar a dieta para outro dia, porque tem um pavê
delicioso que a minha mãe fez na geladeira. Estou muitíssimo bem-humorada. Ai, por que
eu fui falar isso? Acabei de lembrar que a apresentação da porcaria da peça é amanhã!
Débora
23/10 Terça-feira
A apresentação da peça hoje foi um desastre, como eu pensava. Sorte que o público não foi
muito grande, só os alunos das outras séries. Tentei aumentar a minha fala um pouco, mas
gaguejei e ficou um horror. Ainda bem que acabou.
Nossa, eu já ia me esquecendo de contar o mais estranho!
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O Guilherme, hoje, deu em cima de mim na aula. Praticamente babou em cima de mim,
dizendo que eu estava linda e tal. E o que eu fiz? Dei uma cortada fenomenal nele. Quando
ele veio, logo depois dos elogios, me chamando para sair, eu disse:
- Ué, Guilherme, então você não sabe que eu tenho namorado, não? E o meu namoro não é
igual ao seu, não, porque é de verdade.
Ele fez uma cara, nossa! Algumas pessoas que estavam perto escutaram, e eu fiquei me
sentindo o máximo. Bem-feito para ele! Não sabe perder, pensa que pode ter todas as
meninas que quiser... Bom, ele pode até ter todas. Menos eu.
Um beijo, Débora
Desenho grande de Débora e um de Guilherme pequeno, a cabeça dele bate um pouco
acima do joelho de Débora e a anotação: Poderosa!! Apontando para Débora
P.S.: Poderosa, né?
24/10 Quarta-feira, tipo 19h
Hoje, na aula, paguei o maior mico, para variar. Ainda bem que o Felipe não estuda no meu
colégio, porque aí não precisa ficar sabendo dessas coisas!
Bom, foi assim: a aula de química foi no laboratório. A professora mandou a gente fazer
uma experiência. Havia caixas de madeira com uma lâmpada e dois fios, e os voluntários
de cada grupo fariam a experiência enquanto os outros ficariam olhando.
Claro que a idiota aqui tinha que se oferecer! Eu não consigo ficar calada! Encostei os dois
fios em um ferro, logo após a professora ter dito “não encostem os fios no ferro”, a lâmpada
explodiu e fez um barulhão. A turma ficou no mínimo dez minutos rindo. O pessoal riu
tanto, mas tanto, e eu fiquei tão vermelha! Queria sumir.
Eu gosto de química, mas não levo o menor jeito para fazer experiências! Foi só eu ir lá na
frente para ficar nervosa e não conseguir parar
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de tremer. Eu sou a primeira a me oferecer para tudo, mas na hora de mexer com fios,
tomadas e lâmpadas, sulfato de não sei o que e cloreto de não sei o que lá, eu só passo
vergonha!
O povo ficou me enchendo o saco até a hora de ir embora. Tomara que amanhã ninguém se
lembre dessa história!
Débora
26/10 Sexta-feira à noite
O Guilherme ficou o tempo todo conversando comigo na aula hoje. Foi só eu entrar na sala
que ele veio me dizer como eu estava bonita, como meu cabelo estava brilhante e não sei
mais o quê.
A Bia disse que não há dúvidas: ele está dando em cima de mim descaradamente. A
questão é: por quê? Não foi justamente ele que me abandonou depois de a gente ter ficado?
(que trágico, nossa!).
Não quero nem saber. Não troco o Felipe pelo Gui de jeito nenhum. Eu amo o Felipe
demais, e o nosso relacionamento está perfeito. Pelo Felipe eu não sinto só paixão, como eu
sentia pelo Gui, mas uma porção de coisas: amor, amizade, carinho... Ainda mais agora,
que o Lipe está mais carinhoso do que nunca. Já contei o que ele fez na semana passada?
Ele estava rebatendo e eu estava só olhando, quando entrou um cisco no meu olho. Aí ele
parou de jogar na mesma hora e veio correndo soprar o meu olho.
E ele nem está mais tímido em público. Eu sento perto dele, na rua mesmo, e ele já vai
pegando na minha mão, fazendo cafuné, me abraçando, tudo bem diferente de quando a
gente começou a namorar. Eu sinto que ele gosta cada vez mais de mim.
E eu, preciso falar? Gosto dele cada vez mais, quero perder a virgindade com ele, casar
com ele, ter filhos com ele... Se ele se mudasse agora mesmo para o Japão, eu iria junto, na
mesma hora!!
Débora
P.S.: Pensando bem, eu iria perguntar primeiro por que ele estava se mudando para o Japão.
190
27/10 Sábado à tarde
Daqui a pouco eu vou sair com a Bia, o André e o Felipe... vai ser tão legal!!! Nós vamos
jogar boliche e depois vamos a um barzinho papear. O André tem carro, o que é perfeito, e
vai poder levar a gente para lá e para cá. Acho que o mais legal de ter carro deve ser isto:
poder terminar a noite em um lugar completamente diferente de onde você começou. Já
cansei de ir a um lugar péssimo e não ter como sair dele para ir a outro.
Bom, chega de enrolação. Estou aqui na casa da minha mãe dando banho de creme no meu
cabelo e o Felipe vai vir para cá à noite. Daí, o André também vem para cá, com a Bia,
buzina e a gente desce. Já está tudo combinado. Minha mãe é que não gostou nada, nada
dessa história. Ela odeia quando não é o pai ou a mãe de alguém que vai levar a gente. Que
coisa mais sem sentido! Então, se o André tivesse um filho, poderia levar a gente?
Débora
28/10 Domingo de madrugada
Nossa, o André é insuportável! Eu não entendo como a Bia pode estar namorando um cara
assim! E não fui só eu que achei isso, não. O Felipe também. Ele é um saco!
Quando eu vi o André, achei ele até bonito, nada de mais. Só que o menino é irritante,
nojento e tudo de ruim. Para começar, é um porco. Você precisava ver ele comendo batata
frita no barzinho. Como é que alguém consegue fazer lambança com batata frita? Ele
mastigava de boca aberta, fazendo a maior barulhada, e pôs um litro de um molho nojento
que tinha na mesa...
Sem contar que ele se veste mal, fala superalto, conta piadas sem graça de minuto em
minuto, e ainda por cima cheira mal!!! Ele é simplesmente irritante. Eu não consigo
entender por que a Bia gosta dele.
Falando na Bia, eu pensei que ela tivesse percebido que eu não gostei nada, nada dele.
Afinal, eu ria de um jeito superforçado toda vez que ele contava uma piada, e ainda passei a
noite olhando meio torto para o menino,
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tentando não ver as coisas nojentas ou irritantes que ele fazia. Mas ela não percebeu nada.
Quando a gente foi ao banheiro, ela perguntou, toda animada, se eu tinha gostado dele.
Eu pensei em falar a verdade, mas acabei mentindo, só para agradar. Afinal, se ela não
tivesse gostado do Felipe quando o conheceu, eu não gostaria de saber (mas ela gostou). O
namorado é meu, então sou eu que tenho que gostar dele. Ela deve pensar igual. Mas,
mesmo assim, eu fiquei me sentindo meio culpada, sabe? Minha melhor amiga está
namorando um cara ridículo e eu não falo nada? Tem hora que eu penso que o problema é
dela, e se ela gosta dele assim, tudo bem. Mas me sinto mal em mentir! Ao mesmo tempo,
não quero magoá-la. Ai, que confusão!
Só sei que vou evitar qualquer telefonema hoje, para não correr o risco de ser a Bia. Mas
amanhã não vai ter jeito, porque a gente vai se encontrar no colégio. Eu tenho que decidir
até amanhã o que vou fazer! Confesso ou não que detestei o menino? Ai, podia tanto ser a
Lu em vez da Bia! A Lu não estuda no meu colégio e eu teria a vida toda para pensar (e
fugir dos telefonemas dela). Além disso, a Lu é mais decidida, para não falar cabeça-dura, e
não esquentaria muito com a minha opinião. A Bia faz o gênero meiga, sensível, magoa-se
com facilidade... Mas eu queria ser sincera com ela! O que eu faço? O que eu faço?
Já sei! Vou ligar para a Lu e perguntar. Depois eu ligo para a minha mãe. O Felipe não
conta, porque ele é menino e com certeza não falaria nada. Bom, eu vou fazer isso mesmo.
Mas depois que eu acordar, é claro. São quatro da manhã e eu estou morrendo de sono.
Beijos, Débora
28/10 Ainda domingo à noite
Está decidido: não vou contar nada. Vou falar que gostei dele e pronto. A Lu e a mamãe
decidiram por mim.
Argumento da Lu: não é da minha conta. Quem tem que saber do namorado é a própria
namorada. A gente só deve falar que não gostou dele, se ele faz alguma coisa que possa
prejudicar nossa amiga, como, por exemplo, se a gente descobrir que ele é um galinha. Aí,
a gente tem o dever de contar. Mas uma coisa tão pessoal, como simplesmente não ter
gostado do jeito do menino, não acrescenta nada.
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Argumento da mamãe: nem sempre é bom ser sincera. Uma mentirinha, às vezes, é bem-
vinda, se não prejudicar ninguém e servir para evitar conflitos. Falar a verdade, nesse caso,
só vai servir para deixar a Bia magoada e com raiva de mim.
Bom, dois a zero não se discute, né? Quando a Bia vier com maravilhas sobre o André e
perguntar a minha opinião, vou mentir, dizendo que gostei dele e que ele é um cara legal.
Não vou exagerar, mas vou falar isso e pronto.
Débora
29/10 Segunda-feira depois do almoço
Eu disse à Bia o que eu achava de verdade e foi horrível!!! Ela ficou brava comigo, disse
que eu estou com má vontade com o André e até insinuou que estou com inveja porque o
namorado dela é mais velho e tem carro! Até parece que eu sou assim! Eu falei a verdade,
porque a gente deve ser sincera com as amigas! Que ódio!
Quando cheguei no colégio, eu pensei em dizer que gostei do André e pronto, como a Lu e
a mamãe sugeriram. Mas me deu uma coisa e eu não consegui, sabe? A Bia veio me
perguntar toda feliz, com os olhos brilhando e tudo mais, e eu não podia mentir para ela!
Vou falar que gostei se não gostei? Eu não gostaria que ela fizesse isso comigo!
Brigamos feio, na frente de um monte de gente. Eu até chorei, morrendo de vontade de
voltar no tempo, mas não dava. A Bia passou a pensar um monte de coisas ruins de mim e
isso me machucou bastante. É claro que ia ser ótimo se o Felipe tivesse carro, assim como
seria ótimo se eu mesma tivesse carro, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra! Isso
nem tinha passado pela minha cabeça, eu juro. Eu simplesmente não gostei dele, eu tenho
esse direito!
Do jeito que a Bia falou, parece que eu sou uma amiga tão falsa, e isso eu não sou, de jeito
nenhum! Eu quero o melhor para ela e tenho certeza de que ela quer o melhor para mim
também. Se não fosse assim, não seríamos amigas! Quero que a Bia seja superfeliz, que
tenha um namorado que ela ame... Eu sempre penso nela, sempre a incluo nos meus planos,
não me imagino mais velha sem a amizade dela... Machucou demais ela pensar que eu sou
falsa e fazer um monte de acusações.
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Um monte de gente da sala percebeu que a gente brigou. Também, não é uma coisa difícil:
nós estamos sempre conversando uma com a outra e sentamos lado a lado (ou uma na
frente, e a outra na carteira de trás). Quando os professores apelam e dão aqueles ataques
histéricos, reclamando de quem não cala a boca, eu e a Bia sempre somos as primeiras a
levar bronca.
Mas hoje não. A gente brigou logo antes do primeiro horário e ela foi sentar lá atrás,
superlonge de mim. Também passamos o intervalo separadas, eu fiquei conversando com a
Juliana e mal vi a Bia... Ela passou reto por nós duas e foi para o pátio. Foi horrível. Contei
a história para a Ju e ela disse que agi mal, o que não melhorou em nada o que eu estava
sentindo. Acabei ficando nervosa com a Ju e passei o intervalo sozinha, sentada em um
canto.
Estou com tanta saudade da Bia! Eu sempre soube que gosto muito dela e que ela é a minha
melhor amiga, mas não sabia que era tanto assim! É péssimo estar brigada com ela! Nem
me lembro da última vez que isso aconteceu. A gente precisa conversar, ela precisa parar de
pensar aquelas coisas horríveis sobre mim... E tudo bem, foi um pouco de birra minha, eu
mesma devia ter sido mais legal com o André. Ele também deve ter me achado uma chata!
Acho que o que aconteceu foi que eu fiquei com um pouco de ciúme dele, não estou
acostumada a ver a Bia namorando. Fiquei com medo de ela não me dar aquela atenção...
Ela só sabe falar dele, agora, e isso está me deixando superinsegura!
Nossa, a gente precisa conversar.
Débora
ngnp1046
31/10 Quarta-feira antes da novela
Dia das bruxas!!! Que coisa, né? Só me lembrei disso quando cheguei no colégio. O idiota
do Guilherme estava com um saco de papel na mão, pedindo doces para todo mundo. É
óbvio que ninguém deu, e aí ele deixou de ser bobo.
Já está tudo bem com a Bia, ainda bem! Eu não agüentava mais ficar brigada com ela!
Ontem não escrevi porque o dia foi péssimo e eu estava superdesanimada. A Bia nem olhou
para a minha cara no colégio, e a natação tinha sido um lixo. Dormi a tarde inteira, tentei
falar com a Bia à noite, não consegui e voltei para a cama.
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Hoje, no colégio, eu cheguei decidida a levar uma conversa com ela. Eu praticamente
obriguei a Bia a me ouvir. A gente perdeu uma aula para falar tudo o que precisava.
Eu pedi desculpas pelo negócio do André, disse que era um pouco de birra e falei sobre a
minha insegurança. Também disse que eu estava arrependida, mas também triste com ela,
porque eu não sabia que ela me achava tão interesseira. Ela disse que só falou aquilo
porque estava com raiva, e que não pensa nada daquilo. A prima dela é que tinha
comentado como era bom ter namorado com carro e que as amigas da Bia iriam morrer de
inveja, e ela ficou com aquilo na cabeça.
Daí ela disse que não tem motivo nenhum para eu ficar insegura, porque ela me adora e a
gente sempre vai ser a melhor amiga uma da outra. Demos um abraço tão emocionado!
Combinamos que vamos sair nós quatro, de novo, e dessa vez eu vou me comprometer a
ver os pontos positivos do André e tentar fazer amizade com ele.
No final das contas, foi até bom ter brigado com ela. Sinto que a nossa amizade ficou mais
forte, porque a gente conversou tudo o que precisava, sem meias-palavras. Eu gosto muito
da Bia, muito mesmo, e espero que a gente não brigue nunca mais. E espero também que a
gente seja amiga para sempre!
Beijinho, Débora
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NOVEMBRO
Desenho de Débora sorrindo com uma máquina de fotográfica no rosto - Clic!
01/11 Quinta-feira, tipo 17h30
Hoje teve exercício avaliado de física e eu me dei mal. Mas valia uma miséria: um ponto e
meio. Tirei 0,25 e não estou nem aí. Vou é estudar para a próxima prova, que vale doze
pontos. Não quero nem ver. Para variar, estou com a matéria atrasada e tem quilos de coisas
para estudar.
Hoje eu fiquei pensando como os problemas psicológicos afetam meu rendimento escolar
(nossa, ficou tão chique essa frase!). E aí descobri que é só eu ficar chateada com alguma
coisa e pronto, não consigo fazer nada do colégio. Quando eu gostava do Guilherme, por
exemplo... Nunca perdi tanta média! E na segunda-feira mesmo, quando eu briguei com a
Bia, eu tinha um monte de dever para fazer e não fiz nenhum. Bom, toda essa enrolação foi
para falar que estou morrendo de medo de pegar recuperação em alguma matéria. Minha
situação não está desesperadora, mas preciso ficar esperta, senão vou sobrar. Para tudo
correr bem até o final do ano e eu conseguir os pontos de que preciso, eu não posso me
deixar abalar tão facilmente pelos meus problemas. É isso que eu decidi: tentar isolar a
escola do resto da minha vida, colocando tudo o que se refere a estudo em um pacote e a
minha vida pessoal em outro pacote. Eu preciso me concentrar nos estudos mesmo quando
estou com problemas.
Bom, chega de falar de escola. Logo que cheguei da natação, liguei para o Felipe e ele
estava tão fofinho! Ele disse que desde que acordou está morrendo de saudade e que tem
uma coisinha para me dar. Não é fofinho? Estou na casa da minha mãe e ele vai passar aqui
às sete e meia.
Débora
03/11 Sábado, tipo uma da manhã
O Felipe só saiu daqui da casa do meu pai agora! O papai já tinha ido dormir há séculos e
deu para a gente fazer bastante coisa. Ah, a coisinha que ele me deu foi uma coisona: um
chocolate imenso!
Hoje o dia foi ótimo! De manhã, fui ao clube e nadei até. Depois, a gente foi para a casa do
meu pai, e resolvemos cozinhar. Quer dizer, não cozinhar exatamente, mas comprar uma
daquelas tortas de pacote que não dão trabalho nenhum, sabe?
198
Deu tudo errado! A gente tinha que preparar a musse de chocolate e despejar na fôrma de
papelão que vinha na embalagem, mas a fôrma abriu e caiu tudo no chão! Foi a maior
meleca. Aí a gente pegou um pouco do que tinha restado na fôrma, juntou com a parte de
cima do que tinha caído (a que não tinha tocado o chão) e colocou tudo em copos, com
biscoito picado em cima, e pôs na geladeira. Até que ficou gostoso!
Depois, nós alugarmos um filme. Meu pai cochilou à tarde e eu e o Felipe quase transamos.
Eu é que desisti, a gente estava quase pelado! Já pensou se meu pai acordasse de repente?
Eu já disse mil vezes ao Felipe que assim eu não quero (aliás, ele também não), mas na
hora a gente acaba se empolgando. Acabou que nós fizemos as coisas de sempre, um pouco
mais caprichadas, por causa da privacidade. Segredo: eu tive um orgasmo maravilhoso.
Beijinho, Débora
04/11 Domingo, 20h30
Nossa! Estou supercansada! O meu pai arranjou convite para o Felipe ir ao clube com a
gente e passamos o dia inteiro lá, não só a manhã. Foi perfeito, mas estou quebrada. Eu
queria ter usado o resto do domingo para estudar para a prova de quinta-feira, mas não
rolou. Do clube, fui para a casa da mamãe (onde estou, agora) e já estou de pijama. Essa
semana eu vou estudar todos os dias, o tempo inteiro, nem pensar no Felipe eu vou.
Débora
06/11 Terça-feira depois do almoço
Tesão em altíssimo grau, nossa, nossa, nossa. Felipe e eu passamos da conta, fizemos quase
tudo. Eu estava tão nervosa, porque a gente estava em plena hora do almoço, quando fica
aquele entra-e- sai no prédio... Agente foi naquele lugar lá atrás, que fica supervazio, mas
mesmo assim. Morri de medo. O que não me impediu de aproveitar bastante, claro. No
meio, eu perguntei para ele:
- Felipe, você não acha que a gente tá indo longe demais, não?
-Você quer parar?
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ngnp1046
- Eu, não.
E assim fomos. Eu tinha matado a natação para ir lá, porque não agüentei de saudade. Meu
pai não estava no apartamento e eu fui meio escondida, para ele não me encher o saco.
Bom, continuemos. Por mim, eu ia mais longe ainda, mas o problema era o lugar em que a
gente estava. Sabe como é, se algum vizinho chato do meu pai me visse e contasse para
ele... Não quero nem pensar nisso!
Mas o mais legal de tudo foi que a gente conversou pela primeira vez sobre transar. Fui eu
que puxei o assunto, claro. Mas o Felipe até que conversou bem naturalmente. Como eu
pensava, ele nunca transou na vida (pelo menos isso eu acertei!), e eu disse que eu também
não.
Nós conversamos até e chegamos à conclusão de que é melhor esperar mais um pouco.
Afinal, as coisas estão acontecendo de uma maneira tranqüila, é melhor não apressar nada.
Combinamos também que, quando acontecer, vai ser com camisinha. Achei ótimo a gente
ter combinado isso. Eu acho que, na hora, eu ficaria com vergonha de pedir.
Só não chegamos a nenhuma conclusão quanto ao lugar. Ele disse que no apartamento dele
não rola de jeito nenhum, porque a mãe dele é dona de casa e fica lá o dia inteiro. Quando
sai, é só para ir ao sacolão ou supermercado e volta rapidinho. E nem ele nem eu queremos
fazer nada com pressa, senão vai dar tudo errado!
Eu falei que, se fosse no apartamento do meu pai (quando ele não estivesse lá, é óbvio),
rolaria só se eu tivesse certeza de que meu pai demoraria anos para voltar. O problema é
que eu nunca sei os horários malucos dele. Combinei com o Felipe que vou prestar mais
atenção. Não posso perguntar porque dá na cara, né? De qualquer forma, eu preferiria
mesmo que fosse em outro lugar. No motel, por exemplo. Eu odeio isso de ter que esperar
ter 18 anos para entrar em um. A gente não transa antes mesmo? Então qual é a diferença?
Mas tudo bem. Como a gente combinou de esperar mais um pouco mesmo, dá tempo de
arrumar um lugar melhor. Um lugar em que eu me sinta mais segura, sabe, sem medo de ser
interrompida. Pensei até em conversar com a minha mãe e com o meu pai sobre fechar a
porta do meu quarto quando eu estiver com o Felipe, mas eu acho que vou pedir isso depois
de eu ter transado pela primeira vez. Afinal, não quero que justo na primeira vez eu fique
de porta fechada com todo mundo em casa, fazendo o maior esforço para não fazer barulho
nenhum!
Débora
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08/11 Quinta-feira, 21h27
Arrasei na prova de física! Também, estudei igual a uma condenada. Só para dar uma idéia,
eu virei a noite passada estudando. Minha mãe chama isso de falta de organização, mas eu
chamo de boa vontade. À noite, eu fico muito mais animada para estudar. A casa toda fica
no maior silêncio, o telefone não toca, nem a campainha, nem nada. É uma maravilha.
A Bia é que foi supermal, coitada. Não deu para a gente colar, porque quem aplicou a prova
foi um professor muito mal-humorado do terceiro ano. Ele não dá folga nenhuma, fica o
tempo todo olhando para tudo e todos, e com a maior cara de bravo. Não dava nem para
olhar para o lado. Ainda bem que eu não precisei. Tenho quase certeza de que tirei total.
Para comemorar, passei na casa do Felipe depois da aula, de ônibus. Meu pai não estava em
casa, e por isso eu não falei para minha mãe que estava indo para lá. Se eu falasse, ela ia me
encher até... Almocei na casa dele (com a mãe, o pai, todo mundo lá) e depois... fomos para
o apartamento do meu pai.
Foi divino. Não transamos, claro (precisa falar?), mas fizemos mil coisas. Foi muito, muito,
muito bom. Mas fomos embora rapidinho, porque eu estava morrendo de medo de o meu
pai voltar. Mais medo que eu, só o Felipe. Ele não fica insistindo justamente por causa
disto: nós dois morremos de medo do meu pai. Não quero nem pensar no que ele faria se
visse a gente sozinho!
O problema foi na volta. O Felipe me levou até o ponto e, quando eu cheguei aqui em casa,
minha mãe estava toda desconfiada. Não gostou nada de eu ter faltado à natação (eu estava
com o cabelo seco, ela viu) e fez o maior interrogatório. Eu acabei falando que dei uma
passada na casa do Felipe, mas não falei que subi para o apartamento do meu pai, porque
ela sabia que meu pai não estava lá naquela hora. Para minha surpresa, ela não implicou
muito. Só falou que, da próxima vez, eu tenho que avisar. Quem sabe, da próxima vez, eu
até aviso que subi com ele? Talvez ela nem ligue. Ela está tão compreensiva, ultimamente,
e gosta tanto do Felipe.
Beijos, Débora
201
ngnp1046
09/11 Sexta-feira à noite
Minha sexta foi um tédio! Passei o dia espirrando. Acordei gripada, do nada. Minha mãe
disse que eu devo ter tomado friagem ontem, mas não me lembro de nada. Só sei que tenho
que melhorar até amanhã, para ver o Felipe.
A aula também foi um saco. A Bia faltou, porque tinha dentista (vou começar a marcar meu
dentista de manhã também!). Aí eu passei a aula conversando com a Juliana e a Fernanda,
mas elas estavam superdesanimadas. A Juliana estava triste porque não gostou do seu novo
corte de cabelo (nem eu) e a Fernanda estava entediada, à toa, mesmo.
Estava todo mundo devagar, quase parando, quando o professor de matemática veio com
uma matéria nova superchata. Devia ser proibido dar matéria nova na sexta-feira, quando
está todo mundo acabado! Aliás, na segunda-feira também deveria ser proibido, porque
todo mundo está com preguiça. Mas o meu professor ignora essas normas básicas do ensino
e deu a matéria assim mesmo. E dever, ainda por cima. Um saco.
Desenho de Débora triste sentada na cama toda coberta com as anotações: Paracetanol
(cartela de remédios), 38º!! (termômetro) - GRIPE?
Bom, vou indo. Acho que estou realmente gripada. Não sei o que fiz para merecer isso. Se
eu tivesse tomado banho quente e saído no frio, ou dormido de cabelo molhado, ou
qualquer outra coisa... Mas eu não fiz nada! É isso que me irrita. Se eu não melhorar até
amanhã, vou ficar com tanta raiva!
Débora
11/11 Domingo, tipo 20h30
Agora eu estou melhor, mas ontem eu estava quase morrendo. Fiquei o dia inteirinho de
cama, aqui na casa da minha mãe, com 39,5 graus de febre. Minha mãe até pensou que eu
estava com dengue, mas meu corpo não estava dolorido nem nada. Era gripe mesmo. Passei
o dia dormindo e, quando eu
202
acordava, ficava superentediada, pois tudo o que eu conseguia fazer era espirrar e assoar o
nariz.
Mas à noite foi superbonitinho, porque o Felipe veio aqui me ver. Toda hora que eu
acordava, eu pensava nele, mas eu estava muito fraca para telefonar. Aí ele ligou quando eu
estava dormindo, minha mãe atendeu e falou que eu estava doente. Ele veio na mesma hora,
com chocolate e revistas. Superfofo. Pena que a gente nem conversou direito, porque eu
estava supersonolenta.
Hoje eu acordei me sentindo melhor, mas ainda estou de cama. Minha mãe falou que nem
em sonho eu vou para a casa do meu pai. Ela disse que eu preciso ficar aqui, descansando, e
que só vou à aula amanhã se estiver bem melhor. O Felipe veio à tarde me ver, de bicicleta,
mas eu estava superirritada e chata com ele. Acho que todo mundo que está de cama fica
assim, né? Mas ele foi bem compreensivo.
Beijinho, Débora
12/11 Segunda-feira, logo depois de acordar
Minha mãe não me deixou ir à aula. Eu queria ter ido, porque estava cheia de ficar em casa,
mas não deu. Agora é só esperar ela chegar do trabalho, almoçar e ficar em casa sem fazer
nada a tarde inteira. Até que não é tão ruim assim! Se bem que eu preciso fazer a porcaria
do dever de matemática. Ah, pensando bem, não vou fazer, não. Eu estava doente! O
professor não vai poder falar nada.
Beijinho, Débora
13/11 Terça-feira, meia-noite
Nossa, estou perdida! Estou perdida! Estou perdida!
Amanhã eu vou ter que faltar à aula, de tão perdida que estou. Parece exagero, mas estou
perdida mesmo.
Eu não sabia que amanhã tem prova de matemática. Soube agora, às 23h45, porque a Bia
me telefonou. Vale doze pontos. O professor tinha
203
marcado essa prova há séculos e por isso eu não me lembrava. Não estou sabendo a matéria
direito, não fiz o último dever... Estou perdida. Ainda não passei em matemática. Vou fazer
requerimento para fazer a prova outro dia. Estou perdida.
E, para sexta, tem o trabalho de geografia! Tem que pegar e resumir quatro reportagens
sobre a Suécia! Em vez de eu, a idiota, ter começado a coletar as reportagens três semanas
atrás, fiquei enrolando. Não tenho nenhuma reportagem. E logo da Suécia! Não podia ser
dos Estados Unidos ou da China? Mas não, tem que ser da Suécia. E todo mundo sabe que
na Suécia nunca acontece nada. Para piorar, internet não vale. Não sei por que existem
professores que têm pânico tecnológico. Aposto que eles não sabem nem ligar o
computador.
E português? Estou perdida! Tem prova na sexta e eu não sei nem o nome da matéria que a
professora está dando. Mas isso foi culpa da Bia. A professora marcou a prova ontem,
quando eu faltei, e ela não me falou nada. Falou só agora, no mesmo telefonema em que ela
me comunicou que vai ter a prova de matemática. A Bia também só liga para coisas ruins!
E a minha vida afetiva? Uma porcaria! Já me sinto pronta para perder a virgindade, mas
não tenho oportunidade para isso. Não tem lugar, não tem privacidade, não tem nada.
Antes, eu pensava que bastava querer e pronto, era só transar. Ou seja, o mais complicado
era se sentir preparada e encontrar a pessoa certa. Mas, agora, vejo que não é só isso!
Bom, agora, vamos às soluções, por favor, que eu já estou ficando doida.
1- Amanhã, vou matar aula. Acordarei bem cedo e estudarei matemática.
2- Vou a pé até a casa da minha avó, que assina jornal, procurar notícias sobre a Suécia,
   resumir e colar. (Se eu não achar nada, estou perdida.)
3- Quando a aula do turno da manhã acabar, ligarei para alguma colega e tirarei as minhas
   dúvidas de matemática, que não são poucas. Aí, estudo mais.
4- Português, vou dar uma estudada na quinta, que é feriado. Não sei para que existe
   feriado, em todo feriado eu tenho que me matar estudando! Vale mais a pena ter aula!
5- Vida afetiva: vou para um convento virar freira, porque não tem jeito. Leia-se: vou ter
   paciência e me conformar com meu destino de morrer virgem.
   Definitivamente, estou perdida.
   Débora
   204
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14/11 Quarta-feira à tardinha
Estou escrevendo só para falar que já está tudo sob controle. Pedi à Bia que fizesse o
requerimento para mim e ela fez, de manhã; acordei cedo e estudei matemática; consegui
todas as notícias da Suécia e agora estou descansando. Só não resolvi o problema de
arranjar algum lugar para transar com o Felipe, porque isso não tem jeito.
Beijinho, Débora
15/11 Quinta-feira à noite
Hoje, depois de ter estudado um tempão, liguei para o Felipe e ele não estava lá. Eu não
fazia nem idéia de onde ele estava. Fiquei com ódio, porque eu estava com tanta, mas tanta
saudade! Na verdade, estou ainda, porque até agora não consegui falar com ele. Ele
simplesmente sumiu!
No inglês ele não está, porque ele faz aula segundas e quartas. Além disso, hoje é feriado. E
ele não me disse nada sobre ter que ir fazer trabalho na casa de alguém à tarde ou coisa
parecida. Também não acho que ele vai aparecer aqui em casa de surpresa, senão ele já
teria chegado há muito tempo.
Onde esse menino se meteu, meu Deus? Que coisa! Ele vai ver quando chegar!
Débora
16/11 Sexta-feira depois da novela
Estou supertriste. Ontem, eu e o Felipe brigamos feio.
Ele me ligou de noitão e eu estava supernervosa. Afinal, ele tinha sumido o dia inteiro.
Quando ele me telefonou, fiquei superbrava e comecei a gritar com ele. Ele ficou com tanta
raiva que a gente acabou desligando. Fomos os dois dormir com ódio um do outro.
Ai, hoje, quando eu cheguei da aula, telefonei para ele. Nós conversamos
205
mais civilizadamente. O motivo do sumiço dele é que ele tinha ido jogar futebol em outra
cidade. Explodi de novo. Por que ele não me avisou antes? Se eu fosse sumir o dia inteiro,
avisaria, com certeza. Não é só ciúme ou desconfiança. É preocupação, mesmo!
Desenho de uma bola de futebol com uma faca enfiada nela e a anotação: ODEIO
FUTEBOL (ARG!!)
Ele falou que tinha deixado recado com a mãe dele, o que não adiantou nada, porque,
quando eu liguei, ela não estava lá. Disse que não custava nada ele ter me telefonado, mas
ele disse que, quando os amigos o chamaram para jogar, eu estava na natação. Então ele
não podia deixar uma mensagem no meu celular? (eu deixo o aparelho desligado na
natação). Ele respondeu que não tem celular (como se eu não soubesse), e então eu disse
que ele poderia muito bem ter mandado uma mensagem pela internet, mas ele disse que não
tem internet e eu fiquei sem argumento. Também, o Felipe não tem celular, não tem
internet, não tem nada! Que raiva!
Então ele disse que eu, ultimamente, estou muito possessiva. Eu disse que possessivo é ele,
etc. Enfim, brigamos feio e foi péssimo. O pior é que eu nem sei de quem foi a culpa,
afinal! Acho que dos dois, para variar. Minha, por ser tão histérica e brigar à toa, e dele, por
não ter me avisado, o que não custava nada. Ou talvez a culpa tenha sido só minha. Ou só
dele. Ai, não sei!
Eu também não sei o que a gente vai fazer da vida amanhã. Por que é que a gente sempre
tem que brigar quando chega o fim de semana? Eu fico nessa indecisão, sem saber se eu
vou para lá amanhã, ou se eu fico aqui, esperando que ele me ligue... O que eu faço? O que
eu faço? Mas a dúvida mais crucial mesmo é: por que é que a gente briga tanto se a gente se
ama? Não faz o menor sentido! Que ódio!
Débora
P.S.: Pelo menos, fui bem na prova de português. Como se isso melhorasse o meu humor!
18/11 Domingo de manhã
Ontem o dia foi ótimo!
206
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Para variar, Felipe e eu resolvemos ignorar a briga. Não sei se isso que a gente faz é bom
(mamãe diz que não é), mas eu adoro quando a gente se vê e ele age como se nada tivesse
acontecido. Aí, eu ajo da mesma forma e acaba sendo como se nada tivesse acontecido
mesmo.
Depois de ter ficado na maior indecisão, acabei indo para a casa do meu pai. Ele não estava
lá, mas minha mãe deixou eu ir assim mesmo, porque expliquei que a gente tinha brigado e
ela ficou com pena. Cheguei lá com o coração batendo mais forte do que tudo, e bateu mais
forte ainda quando vi que ele estava lá embaixo. Ele já veio direto me beijar, a gente se
abraçou e ficou no maior carinho. Enfim, tudo maravilhosamente igual.
À tarde, a gente resolveu ir ao cinema, só nós dois. Só que acabamos encontrando a Bia e o
André lá, olha que coincidência! Foi superdivertido. Nós vimos um filme horrível,
tomamos sorvete na praça de alimentação, o Felipe me deu uma pulseira superfofa...
Depois o André levou a gente para a casa do meu pai. A gente já estava se despedindo dos
dois, mas eles acabaram subindo e foi superlegal. Nós acabamos jogando baralho, eu
aprendi a jogar buraco... Foi ótimo!
Desenho dos dois casais sentados à mesa jogando cartas a Débora na frente da Bia e o
Felipe na frente do André e a anotação sobre as cartas da Débora: Canastra!!!
Depois que a Bia e o André foram embora, rolou o maior amasso, é claro. O papai estava
lá, mas deixou a gente na maior liberdade. A cada dia eu sinto mais tesão pelo Felipe, é
impressionante! Eu nunca tinha sentido por outro menino o que sinto por ele. Ele é sexy e
romântico ao mesmo tempo, é tão perfeito...
Agora, eu estou aqui no clube, doida para ir embora e ver o meu Lipe. Já liguei para ele
duas vezes, e ele me mandou uma mensagem no celular (usou a internet do vizinho dele,
olha que meigo!). Ele é tão fofinho, tão atencioso! Ainda bem que eu conheci o Felipe,
nossa! Mesmo quando eu estou me divertindo com as meninas no colégio, mesmo quando
estou fazendo coisas que não têm nada a ver, como a natação, eu sempre estou pensando
nele.
Estou romântica, hoje, né? Essa é a melhor parte de brigar com o namorado: depois, fica
tudo ainda melhor do que já estava!
Beijos, Débora
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19/11 Segunda-feira 13h30
Acho que vou terminar com o Felipe. Sei lá, as coisas não estão boas entre a gente. Estou
me sentindo estranha, sabe? Não estou mais pensando nele com o mesmo carinho que
pensava antes. Hoje, quando cheguei do colégio, não senti a menor vontade de telefonar
para ele. E isso nunca tinha acontecido! Eu sempre chego e vou correndo para o telefone.
Não sei o que está acontecendo... Acho que enjoei dele, não sei. Estamos namorando há um
tempão! Eu não sei se era exatamente isso que eu queria para a minha vida. Eu sou muito
nova, quero conhecer mais gente, namorar outros meninos... Eu e o Felipe somos muito
grudados, parece que a gente não pode viver um sem o outro!
Não sei explicar direito, só sei que estou tão confusa... Como eu não liguei para ele, ele
acabou me ligando e eu dei um jeito de me despedir rapidinho. Ele disse que eu estava
estranha, e eu não sabia o que dizer...
Ai! Que coisa estranha! Não sei o que está acontecendo! Vou tentar pensar sobre o assunto,
refletir. Mas acho que a gente vai terminar mesmo. Não tem jeito. Já deu o que tinha que
dar. É triste, mas toda história tem seu fim.
Débora
20/11 Terça-feira depois da natação
Oi! Sou eu, a Débora, há quanto tempo! Não sei quem pegou o meu diário ontem e
escreveu aquelas bobagens. Acho que vou terminar com o Felipe só no dia de São Nunca.
Eu percebi que toda aquela confusão de ontem foi pura besteira. Acho que é normal chegar
do colégio e não ter vontade de falar com o namorado, não tem nada de mais! Tem um
monte de vezes em que eu chego supercansada e não quero conversar com ninguém, nem
com a Bia, que eu adoro. E tenho certeza de que minhas amigas, às vezes, não estão a fim
de falar comigo! Por que eu não posso não estar a fim de falar com o Felipe? (Mas agora eu
já estou, ficamos uma hora e meia ao telefone.)
208
Quem abriu meus olhos foi a Lu, para variar. Eu liguei para ela ontem à noite, toda confusa,
e ela falou para eu não fazer nenhuma besteira, porque estava passando só por uma fase. E
não é que ela estava supercerta? Quando eu acordei hoje, estava me sentindo supernormal,
sentindo a mesma saudade que eu sempre sinto do Felipe.
Ainda bem, porque eu sei que a gente vai ficar junto para sempre. E aquele negócio que eu
disse sobre ser muito nova, pelo amor de Deus... Eu tenho é muita sorte de ter encontrado o
amor da minha vida nessa idade! Eu nunca fui tão feliz como sou agora com o Felipe. Acho
que o nosso namoro não vai terminar nunca!
Beijos apaixonados, Débora
22/11 Quinta-feira, tipo 17h30
Hoje o dia foi superlegal!
Não sei o que aconteceu comigo na educação física, eu simplesmente arrasei. Não que eu
seja ruim normalmente, mas é que hoje era vôlei e eu nunca fui muito bem nesse esporte.
Aliás, quando a professora fala que é dia de vôlei, eu já vou logo pedindo para jogar outra
coisa...
Mas hoje foi diferente, e até a professora me elogiou! Acho que melhorei de tanto rebater
com os meninos. Meu saque está ótimo, meus reflexos melhoraram, e eu acho que cresci
um pouco, porque consegui bloquear duas bolas. Legal, né? Saí da aula toda suada, mas
valeu a pena. Cheguei na natação louca para pular na água... Hoje o dia foi todo esportivo!
Já recebemos as provas de matemática e de português, e eu fui bem nas duas! Eu não tinha
falado? A Bia também foi superbem. Amanhã eu faço a segunda chamada daquela prova de
matemática que eu tinha perdido. Prova de segunda chamada é sempre mais difícil, mas eu
acho que vai rolar. Essa semana eu nem estudei muito, mas eu tinha estudado bastante para
a da semana passada e a matéria é a mesma. Mesmo assim, vou dar uma olhadinha agora.
Amanhã eu tenho que estudar alguma coisa, sem falta, porque as provas bimestrais
começam na segunda-feira. Estou quase de férias! Nem acredito. Estou pensando em ter
uma conversa séria com meu pai, afinal, ele tem que parar com essa bobeira de eu não
poder ficar lá sozinha. Se ele parar com isso, acho que vou me mudar para lá nas férias.
Assim, eu vejo o
209
meu Felipinho todos os dias! Igual na semana em que a gente se conheceu! Ia ser tão lindo!
Falando no Lipe, ele me telefonou um pouco antes de eu ter começado a escrever, e sabe o
que ele disse? Que eu deveria dar um pulo no colégio dele, só para os amigos dele
morrerem de inveja por ele ter uma namorada tão bonita! Pode? Achei a coisa mais fofa do
mundo. Mas eu não vou dar pulo nenhum lá, não. Vai que eles me acham feia? Eu não! É
melhor ficar aqui
quietinha no meu canto!
Beijos, Débora
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23/11 Sexta-feira à noite
Fiz uma prova péssima de matemática! Não é possível, não fui eu que fiz aquela prova! Foi
uma menina bem burra, coitada. Perdi duas questões por causa de bobeira, falta de atenção!
Quando acabou e eu me toquei, nem acreditei nos erros que tinha cometido. Horrível!
Parabéns para mim!
Bom, vamos melhorar esse humor, porque daqui a pouco vou sair com o Felipe. Estou aqui
na casa da minha mãe, prontinha, mas ele não chega nunca. Vai passar aqui de táxi, e a
gente vai para uma danceteria que inaugurou agora. Se a minha mãe tivesse passado na casa
do Felipe e levado a gente lá, como eu tinha pedido, nós dois íamos economizar um
dinheirão. Mas não, ela disse que está cansada, que andou o dia inteiro, etc., etc., etc. Assim
a minha mesada não dura nem uma semana.
O pai da Bia poderia muito bem ter passado aqui também, mas ele deu uma desculpa
qualquer e não vai rolar. Eu e o Felipe vamos nos encontrar com a Bia, o namorado dela, a
Lu e duas primas dela lá dentro mesmo. Uma dessas primas, por sinal, é chatérrima. A
outra eu não conheço, mas a chatice pode ser de família. Tirando a Lu, é claro.
Nossa, tem certeza de que eu disse “vamos melhorar esse humor”? Também, a culpa é
daquele pastel que eu comi hoje, que...
Felipe chegou! Oba! Tchau!
Débora
210
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24/11 Sábado, 10h36
Adivinha onde estou! No clube, claro. Está fazendo o maior sol e eu vim de boa vontade, ao
contrário da maioria das vezes, quando venho só para ficar mais fácil de ver o Felipe
depois. Tomei dois milk-shakes de coco e, para o meu desespero, minha barriga começou a
inchar, inchar, e agora está um horror. Mas valeu a pena, estava uma delícia. É que abriu
um bar molhado aqui no clube que é tudo de bom, e só vende coisas gostosas. Fica na
piscina que foi reformada, e que agora tem cascata, toboágua...
Desenhos No clube!! de Débora deitada numa cadeira espreguiçadeira, tomando banho de
sol + milk-shake milk-shake
Bom, mas vamos parar de fazer propaganda das instalações do meu clube! Ontem, a noite
foi ótima. O Felipe estava, simplesmente, mais lindo do que em todos os dias do nosso
namoro. O cabelo dele está crescendo (está na altura da orelha), está lindo, lisinho, cor de
mel... E ele estava com a roupa toda preta, a calça e a blusa. Até a Lu comentou como ele
está bonito, e eu já disse a ela para tirar o olho! Brincadeira. (Não diga!).
O problema é que a tal da prima que a Lu levou, que eu nunca tinha visto na vida, é
simplesmente a menina mais linda que eu já vi nos últimos dezesseis anos. Ela é perfeita, é
como toda garota gostaria de ser. O rosto, o cabelo, o corpo, tudo. Não vou negar que
passei a noite com uma pontinha (ou uma pontona) de inveja. Mas o pior mesmo foi a
insegurança. Morri de medo de que o Felipe ficasse babando por ela. Não queria que isso
acontecesse de jeito nenhum.
Mas ele se comportou superbem, como sempre. Claro que deve ter achado a menina
maravilhosa, afinal, qualquer ser humano acharia, mas não tirou os olhos de mim a noite
inteira. A gente dançou, conversou, nos beijamos... Enfim, ele me deu toda a atenção do
mundo. Adoro isso no Felipe. Ele faz com que eu me sinta segura. Quando eu estava a fim
do Guilherme, era completamente diferente. Ele só fazia com que eu me sentisse mal.
211
O engraçado é que, ao mesmo tempo, o Felipe é o menino de quem eu mais senti ciúme até
hoje! Eu sinto ciúme dele por qualquer bobeira. Mas acho que estou melhorando. Pelo
menos, estou tentando melhorar.
Depois, eu e o Felipe voltamos de táxi. Ele foi para o apartamento dele, eu fui para o do
meu pai. Eu queria que ele viesse comigo, mas já eram quatro da manhã. Aliás, só dormi
quatro horas essa noite. É ruim porque eu fico acabada depois. Agora de manhã eu estou até
animada, mas à tarde, você vai ver. Vou acabar desmaiando na cama. Mas tomara que não,
porque quero aproveitar o máximo tempo possível com o Felipe. Fico com saudade durante
a semana inteira, para dormir no fim de semana? Não dá, né?
Débora
25/11 Domingo, tipo 19h15
Passei o domingo inteiro estudando! Esta semana é todinha de provas bimestrais. Preciso
de poucos pontos em física e matemática e nenhum nas outras matérias. Mesmo assim, vou
estudar.
Ontem o dia foi ótimo! Quando cheguei do clube, encontrei o Felipe e a gente alugou um
filme e foi para o apartamento do meu pai. E aí, adivinha o que aconteceu durante a tarde
inteira?
a) Amassos quentíssimos.
b) Papo-cabeça.
c) Briguinha de ciúme.
d) Declarações de amor.
e) Nenhuma das alternativas acima.
Se você optou pela letra e, acertou! Eu passei a tarde inteira dormindo no colinho dele,
enquanto ele via televisão. E foi uma delícia! Eu nunca tinha dormido tão gostoso assim.
Estava tão quentinho, tão aconchegante... Eu até fiquei preocupada, depois, com medo de
ele ter achado ruim, mas ele também amou. Ele disse que eu fico uma gracinha dormindo.
E disse que eu também fico bonitinha babando! Eu nem sabia que eu babava, que nojo!
Deu saudade, agora! Vou telefonar para ele e voltar a estudar. Quero acabar logo, para
dormir cedo. Mesmo tendo dormido ontem no colo dele, meu sono está todo atrasado.
Um beijo, Débora
212
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27/11 Terça-feira depois da natação
Recebi a nota da prova de matemática hoje, e fui realmente péssima. Não vou nem dizer a
nota. Eu sabia que tinha ido mal, mas sempre resta aquela esperança de eu ter me enganado.
Afinal, tem um monte de vezes que a gente pensa que foi mal, e foi superbem ou, pelo
menos, não tão mal assim.
O problema é que agora estou superpreocupada, porque eu vou precisar de mais pontos na
prova de matemática do que pensava. Vai ser na quinta-feira, depois de amanhã, e eu
estudei hoje o dia inteiro. Como é só fazer a prova e ir embora, dá tempo de sobra para
estudar. Pelo menos isso. Estou precisando de dois pontos acima da média.
Dei uma pausa para ir à natação, mas já vou voltar aos livros. Falando em natação, decidi
que vou tirar umas férias dela também. Afinal, minhas férias não vão ser a mesma coisa se
eu ficar cheia de horários, né? Vou ficar tipo até janeiro sem fazer, e aí eu volto.
Ontem, quando eu ainda não tinha recebido a nota ridícula, dei uma passada na casa do
Felipe depois da prova e almocei lá. Mas agora está superapertado. Não vai dar nem para
bater papos mais demorados com ele por telefone. Mas tudo bem. É só até depois de
amanhã. Se eu não escrever até lá, boa sorte para mim!
Débora
29/11 Quinta-feira, 16h10
Não vamos falar de prova, o.k.? Só uma coisa: não tenho certeza se deu para passar direto.
Se eu pegar recuperação, o mundo vai cair, aqui em casa. Sempre passei direto na vida. Não
sei o que me deu este ano. Mas tudo bem, o resultado sai na semana que vem e eu não vou
ficar esquentando a cabeça antes da hora. Minha mãe sempre diz isso.
Amanhã é o último dia de aula! Nem acredito que vou ficar de férias. É a primeira vez na
vida que vou passar as férias namorando, vai ser ótimo! Ainda mais que eu estou confiante,
acho que vai rolar eu me mudar
213
temporariamente para a casa do meu pai. O único problema é se ele viajar. Enquanto ele
estiver fora, com certeza não vai dar para eu ir para lá. Mas é meio difícil o meu pai viajar,
acho que ele vai ficar por aqui mesmo. Ainda bem!
É engraçado, eu sempre fico implorando para minha família viajar, mas este ano eu vou
ficar quietinha. Afinal, quero passar todos os dias com o Felipe! Quando eu quiser nadar e
tomar sol, vou para o clube. De preferência, com ele. Estou mais apaixonada do que nunca!
E a gente tá quase completando quatro meses de namoro. É tão bom namorar alguém que
você ama! É a melhor coisa do mundo!
Falando no Lipe, já combinamos almoçar no shopping amanhã. Acho tão romântico
almoçar junto... Adoro quando ele me chama para comer na casa dele. Às vezes, ele nem
chama, mas eu me convido! Mas ele não acha ruim, não. E a mãe dele me adora (ou, pelo
menos, parece!). Mas a melhor coisa mesmo é que eu me sinto tão namorada dele quando
almoço lá! Me sinto especial, sabe?
Ai, já posso até sentir o gostinho das férias! Nem acredito que amanhã é só fazer prova e
pronto, acabou! Que felicidade! Que felicidade!
Débora
30/11 Sexta, 16h30
O Gui acabou de me telefonar, me chamando para ir ao cinema. Estranho. Muito estranho.
Débora
30/11 Ainda sexta à noite
É claro que eu disse não para o Gui, mas não é esquisito ele ter me chamado? Ele não me
telefonava há séculos, e agora não só telefona, como chama para sair? Eu, hein? Muito
suspeito!
Débora
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DEZEMBRO
Desenho de Débora vestida de Papai Noel, acenando com a mão esquerda
02/12 Domingo de madrugada
Ontem o dia foi ótimo! À tarde, fiquei com o Felipe, no maior amor, como sempre. E, à
noite, fui a um show superlegal com a Bia e a Lu. Foi muito bom, dancei e cantei sem
parar. Meus pés e minha garganta estão doloridos até agora. Estou morrendo de sono, mas
vou escrever rápido.
Não chamei o Felipe, porque era um programa só de amigas (eu tinha combinado com as
meninas). Ele até achou um pouquinho ruim, mas não tinha do que reclamar, porque a
gente passou o dia inteiro junto. Ficamos até a noite no prédio, quando eu tive que subir
para me arrumar.
Aí a mãe da Lu passou lá em casa para levar a gente, e nos encontramos com a Bia na
porta. Foi superdivertido, porque, além de dançar e pular muito, deu para a gente fofocar
bastante. Quando a gente queria conversar, ia para o banheiro. Chegamos a ficar uma hora
lá dentro, só papeando, enquanto o show não começava! Ah, ninguém ficou com ninguém.
Muito menos eu, claro!
É bom o Felipe não ficar com ciúme, porque não tem absolutamente nenhum motivo.
Ninguém nem chegou em nenhuma de nós três. Acho que é porque não estávamos
procurando. Se um cara olha, e a gente não retribui o olhar, ele só vai chegar se for muito
cara-de-pau, né? Se bem que de caras-de-pau, os shows estão cheios.
Bom, mas essa é a única explicação possível, né? Afinal, nós não ficamos feias da noite
para o dia! Tem vezes que milhares de meninos chegam em nós. Ah, que droga! É horrível
quando ninguém chega, mesmo quando você não está querendo! Os meninos deviam saber
disso!
Débora
02/12 Domingo, à noite
Não vi o Felipe hoje, ai, ai... Eu acordei morrendo de sono, e meu pai foi logo me
enxotando para a casa da minha mãe. Disse que ou isso, ou eu iria para o clube. Como eu
estava bêbada de sono, escolhi a mamãe mesmo, para dormir mais.
Bom, aí eu acordei só às 15h e fui correndo ligar para o Lipe. Conversamos
216
um tempão. Lembra que eu e o Felipe combinamos que só vamos transar de camisinha?
Então. Hoje me passou pela cabeça que, se ele não colocar direito, ela pode estourar. E, se
isso acontecer, eu vou morrer do coração! Não me imagino grávida, de jeito nenhum, a não
ser daqui a uns doze anos, no mínimo. Bom, então eu disse para ele, no telefone, que estava
com medo, e ele vai experimentar a camisinha na casa ele, sozinho, quando estiver se
masturbando. Para pegar intimidade com a coisa, sabe? A idéia foi dele e eu achei ótima.
Vou ficar bem mais tranqüila.
Mas, para eu ficar tranqüila mesmo, falta achar o lugar! Eu já disse isso alguma vez?
Imagina, né?
Desenhos e anotações: Débora - como colocar uma camisinha: Aula 1; 1º abra a
embalagem (óbvio...); 2º segurar a ponta e desenrolar...; puxar até embaixo!! Pronto!!
Beijinho, Débora
P.S.: Estou superbronzeada! Passei filtro e tudo, mas fiquei mesmo assim! Não é ótimo?
04/12 Terça-feira
Ontem foi o pior dia da minha vida. Estou juntando forças para escrever hoje, porque eu
nunca estive tão mal. Não como nada desde ontem, não sei que horas são agora, passei o
dia no meu quarto. Eu sou tão estúpida. Eu queria morrer, não vou suportar viver assim.
Eu e o Felipe terminamos. Tudo aconteceu ontem. Como é que as coisas podem mudar
assim? Eu estava tão feliz, meu Deus! Tudo isso é tão injusto!
Débora
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05/12 Quarta à tarde
Eu ainda estou me sentindo horrível, eu não sou mais eu. Tudo está em preto-e-branco,
acho que vai ficar assim para sempre. Estou chorando no meu quarto de cinco em cinco
minutos. Mas vou tentar escrever. Quem sabe eu melhoro.
Tudo aconteceu na segunda-feira. Eu tinha acordado superfeliz e ligado para o Felipe. A
gente teve um papo super-romântico, e ele estava bem carinhoso, como sempre. Eu disse
que estava pensando em ir lá à tarde, para a gente se ver, alugar um filme, essas coisas.
Só que aí, assim que nós desligamos, o telefone tocou. Atendi, crente que era o Felipe de
novo, dizendo que tinha esquecido de falar alguma coisa, mas era o Guilherme. Levei um
sustão. Desde aquele telefonema estranho dele, eu já estava meio assim, pensando por que
ele tinha mudado. Então. Ele começou a falar todo carinhoso comigo, dizendo que estava
com saudades e tal. Eu não sabia o que dizer. Até que ele falou que tinha terminado com a
Carol para ficar comigo.
Você imagina o meu susto? Quase caí da cadeira. Minha cabeça simplesmente virou de
cabeça para baixo. Há um minuto, eu estava bem com meu namorado; no minuto seguinte,
o ex-grande amor da minha vida me liga se declarando! Eu sei que eu amo o Felipe e que já
esqueci o Guilherme há séculos. O problema é que tinha sido uma surpresa muito grande,
enorme. Eu simplesmente tinha ouvido tudo o que eu queria ouvir um tempo atrás. E o
detalhe é que ele não falou que ia terminar com a Carol: ele já tinha terminado. O
Guilherme pode ser enrolado, omitir os fatos, pode ser um tanto de coisa, mas não costuma
ser mentiroso.
Falei com ele do Felipe, e ele disse que, se ele terminou com a Carol, eu poderia terminar
com o Lipe também. O importante era que nós dois ficássemos juntos. Pirei. Simplesmente
não sabia o que dizer! Acabei falando que, acontecesse o que acontecesse, eu não queria
enganar o Felipe. Ou seja: não ia chifrá-lo, de jeito nenhum. Então, mesmo sem ter certeza
de nada, a burra aqui disse que ligaria para o Felipe terminando tudo e me encontraria no
shopping com o Guilherme dali a uma hora.
218
Liguei para o Felipe com o coração a mil. Eu nunca tinha sentido algo parecido na vida: eu
estava fazendo alguma coisa que não queria, mas era como se eu fosse obrigada a querer,
entende? Tipo, o Guilherme se declarar para mim era tudo o que eu queria durante muito
tempo. Nesse tempo, aparece o Felipe. Aí, o Guilherme volta atrás. Parece que faz sentido
eu largar o Felipe e voltar para ele, entende? É difícil explicar. Ficava martelando uma voz
na minha cabeça, que dizia que o Guilherme finalmente era meu e me mandava correr atrás
do meu sonho... apesar de esse nem ser o meu sonho mais!
Disse para o Felipe que uma pessoa de quem eu tinha gostado muito me ligou se
declarando. O Felipe simplesmente não soube o que dizer. E, a cada palavra que eu falava,
uma lágrima minha saía, mas aí eu já não podia voltar atrás! Eu pensava que estava triste
por terminar com ele, mas que, quando eu visse o Guilherme, iria ficar superfeliz. O Felipe
ficou calado e desligou. Dava para ver que ele estava chorando.
Só quando cheguei no shopping e vi o Guilherme é que eu percebi a besteira que eu tinha
feito. Foi só olhar para a cara dele que caiu a ficha definitiva: eu não amo mais aquele
menino. Ele não entendeu nada, porque eu pedi desculpas e saí correndo, chorando.
Eu não podia ter feito isso com o Felipe, nem comigo. Foi um ato tão impensado, eu fui tão
impulsiva... Quer dizer, eu pensei, mas pensei errado. Eu nunca imaginei a gente
terminado! Eu simplesmente não consigo acreditar no que aconteceu. Foi tão de repente. Eu
fui tão burra!
O que eu faço agora? Eu não consigo esquecer o Felipe, nem quero! Ele foi a melhor coisa
que já aconteceu na minha vida! Como é que eu pude estragar tudo? Não me acostumei até
agora, e sei que não vou me acostumar. Hoje, quando acordei, eu não me lembrava de nada,
porque ainda estava meio dormindo. Mas foi só me levantar para lembrar de tudo e aí fiquei
tão triste que voltei para a cama. Sinto um vazio o tempo todo, entende? É horrível. Eu sei
que já fiquei triste muitas vezes, ainda mais por causa de menino, mas dessa vez é
diferente. Não é um menino qualquer, é o Felipe. É o homem da minha vida. Eu nunca
fiquei triste do jeito que estou agora. Nunca.
Para piorar, nem a Bia nem a Lu entenderam por que eu fiz isso, e ficaram me perguntando
um monte de coisas, tentando compreender... Mas nem eu compreendo. Não consegui
contar para minha mãe ainda, apesar de querer o colo dela, agora. E o pior é que ela já
perguntou pelo Felipe duas vezes, querendo saber por que ele não está telefonando. Claro
que ela está estranhando, eu e o Felipe ficamos horas no telefone sempre. Quer dizer,
ficávamos. Nossa, é tão estranho tudo isso.
219
Podia ser um sonho... Eu podia acordar e ver que nada disso aconteceu. Mas não é um
sonho, é real. É claro que eu já tentei falar com o Felipe, ontem e hoje, mas ele não me
atende. Estou com medo de ir lá e ele não querer falar comigo. Agora, à noite, me deu uma
vontade incontrolável de ir lá, mas minha mãe não deixou, falou que é muito tarde. Aí eu
liguei para ele, pela sétima vez hoje, mas a mãe dele falou que ele não estava.
Amanhã, depois de pegar o resultado no colégio, vou lá sem falta. Mesmo morrendo de
medo, eu vou. Eu não posso deixar o Felipe ir embora. Eu vou pedir perdão, nem que seja
de joelhos. Eu não consigo, nem quero viver sem ele, não mesmo.
Débora
06/12 Quinta-feira à noite
O Felipe está viajando. Foi hoje cedinho, a mãe dele me contou. Estou deprimida. Contei
para a minha mãe e para a Bárbara, porque não deu mais para esconder. Meus olhos já
estavam inchados de tanto chorar. Ele viajou com os tios e primos para a praia e deve ficar
lá até o Natal. Eu implorei, mas a mãe dele disse que lá não tem telefone. O Felipe deve
estar realmente me odiando agora, para não ter deixado telefone nem nada. Mas também ele
tem todo o direito de ficar com raiva. Se ele terminasse comigo do nada, eu acho que
também ficaria.
Mesmo assim, eu queria mais uma chance. Não estou conseguindo ficar sem ele. Como vou
ficar sem nem ao menos falar com ele até o Natal? A gente estava planejando passar o
Natal juntos, o réveillon também. A gente ia começar o ano juntos. Agora, o ano nem
acabou e estamos separados.
Meu Deus, meu Deus, será que algum dia eu vou parar de sofrer? Não tenho vontade de
fazer mais nada! Só estou pensando no quanto eu amo o Felipe, na burrada que eu fiz, no
quanto eu o quero de volta... A gente não pode ficar separado, não pode! Não faz nenhum
sentido!
O Guilherme ligou, perguntando o que tinha me dado, mas eu estava me sentindo tão fraca
que mal dei uma explicação para ele. Só falei que eu tinha viajado totalmente, que a gente
não tem mais nada a ver um com o outro. Ele perguntou o que eu tinha, por que eu estava
com a voz tão triste, mas eu não quis falar nada. Eu odeio falar que eu e o Felipe
terminamos.
Odeio.
Anotação: TERMINOU TUDO
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ngnp1046
Não dá mais para escrever. Vou chorar. Na verdade, já estou chorando desde a primeira
linha. Minha mãe tentou falar comigo, as meninas ligaram, mas eu não quero falar com
ninguém. Eu queria sumir! Sumir! Sumir, droga!!!
Débora
07/12 Sexta-feira à tardinha
A Bia e a Lu acabaram de vir aqui em casa. Achei superlegal essa atitude delas. Aproveitei
especialmente para ver a Bia, porque ela vai viajar para a praia logo, logo. Elas chegaram
tão felizes, rindo e contando casos, que eu melhorei um pouco. Mas foi temporário. Assim
que elas foram embora, eu fui para o quarto e comecei a chorar.
Elas me chamaram para sair, mas não rola mesmo. Estou tão cansada de tudo. Também,
estou chorando o dia inteiro, deprimida. Acordo e já fico pensando na hora em que o dia vai
acabar. Eu sei que parece exagero, mas é exatamente assim que eu me sinto.
Minha mãe veio conversar comigo, perguntando detalhes sobre o que aconteceu, mas eu
acabei sendo supergrossa com ela. Ainda bem que ela entendeu. Ela perguntou se eu passei
em matemática, eu disse que sim e pronto, me tranquei no quarto. As meninas chegaram, eu
fui para a sala, e agora voltei para o quarto.
Mamãe disse que eu deveria sair, que ela me dá dinheiro e tudo. Mas eu vou sair com essa
cara, inchada e deprimida? Além disso, tenho medo de ver algum casal feliz e me derreter
de tanto chorar na frente de todo mundo. Ia ser péssimo. Acho melhor ficar em casa
mesmo.
Estou planejando o que dizer quando o Felipe voltar. Acho que vou mandar um buquê de
flores com um cartão para a casa dele, ou então uma cesta de café da manhã, alguma coisa
do tipo. Só para ele ficar mais receptivo e não me atirar nenhuma pedra quando eu for lá!
Vou fazer o cartão mais lindo do mundo, explicando tudo. Depois, vou pessoalmente dizer
a ele como eu me senti durante todo esse tempo que a gente ficou um sem o outro.
Se eu tenho alguma força agora, se alguma coisa me anima, é esse restinho de esperança de
que a gente volte. Mas, se quando ele voltar não quiser mais nada comigo, não sei o que vai
me animar. Acho que, se isso
221
acontecer, não vou conseguir sorrir nem mais uma vez na vida. Nossa, como é horrível me
sentir assim!
Débora
09/12 Madrugada de sábado para domingo
Cheguei na casa do papai agora. Acabou que eu resolvi sair com a Lu e a Bia, de tanto que
elas insistiram. A Bia não levou o namorado, e não falou absolutamente nada sobre ele, só
para não me deixar triste. Achei muito legal da parte dela. A Lu estava animadíssima,
contando mil casos engraçados...
Foi bom ter saído. Acabou que eu ri das bobagens que a gente dizia, e elas acharam que eu
estou até bem. Só que eu não contei para elas que, quando fui ao banheiro, meus olhos se
encheram de água e eu só não chorei porque me controlei muito. Afinal, não queria voltar
para a mesa com os olhos vermelhos.
O problema é que elas ficaram me mostrando os meninos do lugar, perguntando o que eu
achava, sugerindo que eu desse bola... Não rolava mesmo! Eu não sentia a menor atração
por ninguém. Nenhum menino do mundo se compara ao Felipe. Se a gente terminar, uma
coisa eu garanto: vou passar um tempão sem ficar com ninguém. E, quando eu ficar, pode
ter certeza de que eu nunca vou me apaixonar do jeito que me apaixonei pelo Felipe. Acho
que amor assim, só deve ter um na vida. E eu deixei escapar o meu.
Estou chorando. Não quero mais escrever.
Débora
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09/12 Ainda domingo à noite
Ai, que felicidade! Que felicidade! Que felicidade! Nossa, como eu estou feliz! Adivinha o
que aconteceu? O FELIPE ME LIGOU!!!!!!!!!!!!!!!
O problema foi que eu não falei com ele, porque estava no clube. Que ódio que eu fiquei!
Eu tinha ido ao clube para ver se ficava mais animada, porque eu já tinha acordado
chorando. Não queria ficar no apartamento do meu pai sem escutar o barulho da bola lá
embaixo, sabendo que o Felipe e eu
222
não estávamos mais juntos... Achei melhor ir ao clube e pedir ao meu pai que me deixasse
na casa da minha mãe na volta.
Assim que eu cheguei em casa, minha mãe falou que ele tinha ligado. Fiquei tão histérica
que comecei a gritar, querendo saber por que ela não tinha falado para ele ligar no celular.
Mas eu mesma tinha deixado o aparelho desligado, porque estava na sauna. Coitada da
minha mãe, ela me dando a notícia toda feliz, e eu berrando... É que eu estava nervosa.
Depois, pedi desculpas e ficou tudo bem.
Ela disse que o Felipe mandou falar que na casa dele não tem telefone, porque lá fica meio
na roça. E eles não estão em hotel, e sim em uma casa alugada. Ele disse que ligava de
novo quando pudesse.
Nem precisa falar que o telefone está interditado aqui em casa. Ninguém toca nele. A
mamãe e a Bárbara só podem usar o celular delas, e eu falei que até empresto o meu, se elas
quiserem. Mas no telefone ninguém mexe. E, se ele tocar, elas têm cinco segundos para dar
uma desculpa e desligar, senão eu vou lá e desligo! Ainda bem que a minha tristeza é tão
grande e eu estou chorando tanto que elas concordaram. Mamãe está só fazendo a comida
que eu gosto, a Bárbara não está me enchendo o saco...
Não vejo a hora de ele ligar. Primeiro de tudo: não posso me esquecer de falar que eu estou
supertriste. Se eu não falar, ele vai pensar que eu estou ótima, afinal, estava no clube
quando ele ligou. Logo depois, vou falar que o amo mais do que tudo e que ele precisa
voltar, senão eu faço um escândalo, eu... Não, isso não. Vou só falar que eu o amo e que
não faz sentido estarmos separados. Além de pedir desculpas, é lógico.
Será que esse telefone não vai tocar nunca?
Débora
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10/12 Segunda-feira depois do almoço
Descobri que eu não amo o Felipe. Eu sou simplesmente obcecada por ele!!! Acho até que
estou ficando louca. Olha só: como o maldito telefone não tocou até agora, eu não saio da
sala por nada desse mundo. Só vou ao banheiro de porta aberta, para não comprometer a
minha audição, e só deixo ligarem a tevê se for no volume mínimo. Toda vez que a porcaria
toca e não é ele, meu coração quase sai pela boca e eu acho que vou ter um treco. Aí eu
atendo, vejo que não é e desligo sem nem falar “tchau” direito.
223
Não agüento mais isso! Vou acabar pirando! Liga, Felipe, liga! Eu te amo! Você é tudo
para mim! Nós temos que ficar juntos para sempre, senão a vida não vale a pena! Vamos,
vamos logo com isso!
Débora
11/12 Terça-feira à noite
Esse telefone deve estar estragado, não é possível! Será que o Felipe.. desistiu de mim?
Será que ele se arrependeu de ter ligado no domingo e não vai ligar nunca mais? Será que
ele conheceu outra menina lá na praia? Uma menina linda bronzeada... Que ódio!!!
Desisto da vida! Será que tem jeito de eu ir a algum centro tecnológico super-hiper-ultra-
sofisticado, participar como voluntária de um projeto experimental secreto E ME
CONGELAR ATÉ O FELIPE ME TELEFONAR???
Desenho de Débora dentro de um bloco de gelo com a nota: Vou me congelar até que ele
volte...
Débora
12/12 O dia mais feliz de minha vida, a hora mais feliz da minha vida
Eu sou a pessoa mais feliz do mundo!!! Acho que nem mereço tanta felicidade. Eu não paro
de cantar, pular, dançar, gritar... Hoje eu também estou achando que vou ficar maluca, mas
de alegria! Eu nem sabia que era possível se sentir tão bem assim, nossa! Mas é possível, eu
sou o exemplo vivo de que viver vale a pena!!! E vale a pena esperar, vale, vale, vale. Ai,
como é bom tudo isso...
O Felipe não me ligou. Nem hoje, nem ontem. Ele veio aqui. Sério!!! Nem precisa falar que
eu quase morri do coração quando a campainha tocou e... Vamos começar do começo, né?
Pois bem. A campainha tocou. Era o homem do gás (eu disse que ia
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começar do começo). Eu fui até a janela, porque o interfone estava estragado, e disse que
não queria gás. Na verdade, eu queria que ele parasse de me incomodar e fosse cuidar da
vida dele, mas, como eu sou educada, só falei que não queria mesmo.
Aí, eu voltei para o meu posto: o sofá ao lado do telefone. Mas a campainha tocou de novo.
Claro que eu me recusei a atender. Estava sozinha e comecei a reclamar de todas as
companhias de gás do mundo. Mas tocou de novo. Eu também não ia atender quando ouvi
alguém gritando “Débora!”. Não reconheci a voz logo de cara, porque não acreditava que
pudesse ser verdade. Mas, quando ele gritou de novo, eu não tinha dúvida: era o Felipe!
Até gaguejei quando falei da janela que ele podia subir. Eu estava tremendo, sério, e pensei
que eu fosse desmaiar! Sabe quando parece que é sonho, que você está viajando? Era
exatamente assim que eu estava me sentindo. Um sonho!
Ele chegou mais lindo do que nunca, em versão bronzeada... E eu supernervosa, sem saber
o que ia acontecer com a gente, sem saber se ele ainda estava bravo... Era tudo tão
estranho! Se fosse antes de a gente terminar, ia ser tão normal! Ele chegaria, eu daria um
superbeijo e a gente começaria a bater o maior papo. Mas a gente tinha terminado, pelo
menos teoricamente, e eu não sabia como agir, o que fazer... Só sabia que o amava mais do
que nunca e estava doida para a gente resolver tudo de uma vez.
Foi só a gente se sentar e eu abrir a boca para dizer que eu o amava, que eu comecei a
chorar. Não me controlei e abri o maior berreiro mesmo. Ele me abraçou e foi a melhor
sensação do mundo. Eu estava com tanta, mas tanta saudade daquele abraço! Enquanto ele
me abraçava, eu chorava, dizendo que eu tinha me arrependido amargamente de ter
terminado, que eu só amava ele e mais ninguém, que eu tinha deixado o tal menino de
quem eu gostava plantado no shopping, porque tinha saído correndo... Ele só dizia que
estava tudo bem. E eu querendo saber: o que é tudo bem? Sim, porque se “tudo bem” para
ele é sermos amigos, para mim está tudo mal.
Mas aí, logo depois do abraço, ele chegou bem pertinho e a gente se beijou. E aconteceu
tudo de uma vez: eu pedi desculpa por ter terminado sem querer terminar e falei que não
fiquei com o Guilherme, que nem sequer toquei nele; ele pediu desculpa por ter apelado e
ido viajar... Eu falei que ele tinha todo o direito de apelar, que no lugar dele eu também
apelaria. E disse o mais importante: que eu amo só ele e mais ninguém, e que eu só terminei
com ele porque um menino que já tinha sido importante na minha
225
vida voltou, só que a minha burrice não me deixou ver que ele já não era importante para
mim.
Ele disse que, quando eu terminei com ele, ele se sentiu completamente inseguro, sem chão.
Disse que um amor como o nosso tem que ser para sempre, e nessa parte eu voltei a chorar,
mas é que foi lindo! Ele disse que ficou pensando “como é que ela termina uma coisa tão
forte de uma hora para outra? O nosso namoro não significa nada para ela?”. E nessa hora
eu esclareci que o nosso namoro é tudo, mas que eu tinha ficado desesperada na hora... O
Felipe é o melhor namorado do mundo mesmo. Ele me entendeu, e disse que talvez tenha
sido até bom a gente ter se separado, porque aí a gente viu como é importante um para o
outro.
Depois de a gente ter conversado tanto e combinado que tudo ia voltar a ser como era antes
e que nos amamos mais do que tudo, me veio uma coisa na cabeça: e se ele tivesse ficado
com mil meninas lá na praia? Quer dizer, mesmo se ele tivesse ficado só com uma.
Sinceramente, se ele tivesse ficado, é porque não me amava de verdade, e eu não sabia se ia
querer voltar! Quer dizer, sabia, sim: eu NÃO voltaria! Só que, em vez de berrar como de
costume, evitei brigar e perguntei, com calma, se ele tinha ficado com alguém. Ele quase
morreu de rir e me mostrou as fotos, que ele tinha revelado lá mesmo. O lugar era uma
roça! Quase um deserto. Só gente velha na praia, e olhe lá.
Fiquei superaliviada, mas mesmo assim perguntei se, caso o lugar fosse superbadalado e
um punhado de modelos da Elite aparecesse dançando a dança do ventre para ele, ele
ficaria com alguma. Ele disse que achava que isso era muito difícil de acontecer, mas que
ele não ficaria, porque me ama mais do que tudo e não sente vontade de ficar com mais
ninguém!
Nem acredito que tudo está bem de novo! Quando a mamãe chegou, fez pipoca para a
gente, conversou com o Felipe, aí nós alugamos um filme e vimos abraçadinhos... E ele me
deu um colar de conchinhas superbrega, que eu não vou usar nunca, mas que vou guardar
com todo carinho! Nossa, eu amo tanto o Felipe, mas tanto... Minha mãe levou a gente para
a casa do meu pai, onde eu estou agora, e a gente ficou namorando até meia-noite. Quando
eu voltei, meu pai nem reclamou, porque ele tinha percebido que eu estava deprimida!
Eu amo o Felipe! Amo! Amo! Amo mais que tudo, e sempre vou amar! Estou tão, mas tão
feliz, que acho que vou explodir!!!
Débora
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14/12 Sexta-feira à noite
Nossa, eu ainda estou em estado de pura felicidade! Ontem o dia foi tão perfeito, mas não
consegui escrever, porque estava morta de cansaço. Eu e o Felipe fomos ao clube, porque lá
funciona até as dez da noite às quintas-feiras, e ficamos lá até fechar. Foi uma delícia! Nós
nadamos, namoramos no bar molhado, tomamos sauna, jogamos pingue-pongue e tal.
Agora, a parte interessante da história... Nem precisa falar que nós estávamos com o tesão a
mil. Afinal, estávamos separados há um tempão, loucos de saudade, de vontade de se ver,
de se abraçar. Aí, a gente foi jogar sinuca, que fica num cantinho mais isolado do clube
(acho que eu já disse isso umas dez mil vezes!). Juro que fui para lá sem segundas
intenções, mas fazer o quê... A gente se descontrolou completamente! Já tinha escurecido e
não tinha ninguém lá. Foi um amasso completo, que não deveu nada aos que a gente
costuma dar atrás do prédio ou quando meu pai está dormindo... Não consigo nem me
lembrar, foi uma coisa!!!
E hoje nós ficamos o dia inteiro juntos de novo. À tarde nós fomos ao cinema, no shopping,
e depois ficamos vendo tevê na casa dele e jogando banco imobiliário. Aí, fomos para a
casa do meu pai e perdemos o controle de novo... Afinal, para que se controlar? Mas uma
coisa eu garanto: a gente nunca faz nada que eu corra o risco de engravidar, porque eu não
sou louca! Todo cuidado é pouco.
Falando nisso, ele experimentou a camisinha e deu tudo certo. Achei ótimo, porque
problema de lugar a gente já tem.
Beijinho, Débora
15/12 Sábado, tipo 23h30
Hoje eu tive uma briga com o meu pai que foi quase feia. Digo “quase” porque ele quase
apelou, mas acabou não apelando. Acho que tanta calma assim tem um nome: Cláudia, a
namorada dele. Ela é até legal, coitada. O problema é que ela fica tentando me agradar,
dizendo como eu sou bonita, coisa e tal, e isso me irrita. Ela tem que perceber que não
precisa ficar me bajulando. Eu sou bem grandinha para implicar com os namoros do meu
pai.
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O problema é que o meu pai é que não é grandinho e implica com meu namoro! Para variar,
estou enrolando, mas vamos lá: meu pai falou que ia ao clube, mas eu não queria ir. Eu
queria era ficar com o Felipe, que pegou a maior gripe, tadinho. Aí ele veio me encher o
saco, querendo me obrigar a ir, mas dessa vez eu não quis nem saber. Falei que não ia ao
clube e nem na casa da minha mãe. Ele ficou superirritado e foi para o clube todo bufando
de ódio.
Mas tudo bem. Eu fiz uma malinha com biscoitinhos, bombons e revistas e fui lá cuidar do
meu Lipe, que estava (e ainda está) supermal, de cama. A mãe dele estava lá, e eu ajudei a
fazer a sopa, esquentei o leite, peguei remédio, termômetro e tal. Uma verdadeira
enfermeira. O Felipe estava tão fofinho deitado na cama! Ele estava todo fraquinho, morri
de dó. Tinha hora que a gente começava a conversar e ele caía no sono. Aí eu ficava lendo
revista até ele acordar.
Ficamos assim até de noite. Voltei para a casa do meu pai mais ou menos às nove, e ele
estava com aquela cara. Acabamos discutindo, e eu aproveitei para dizer que eu queria
morar com ele e só daria certo se ele não me expulsasse de casa cada vez que ele saísse. Ele
disse que, se eu não estivesse namorando o Felipe, não haveria problema, mas que
namorando não tinha jeito. Disse que não achava certo nós ficarmos sozinhos no
apartamento. Eu gritei que já tenho dezesseis anos, ele gritou que é pouco, enfim, não deu
em nada.
Bom, chega de estresse por hoje. Estou morrendo de sono. E de preguiça de brigar com
meu pai, por isso vou ao clube amanhã. Mas vai ser um inferno (para ele, lógico). Vou ficar
insistindo de cinco em cinco minutos para a gente ir embora. Vou interromper o futebol, a
cervejinha, a sauna, tudo. Ele vai ver.
Débora
16/12 Domingo à noite
Hoje no clube foi superdivertido. Conheci umas meninas lá e a gente jogou basquete.
É tão gostoso eu me divertir no clube sabendo que está tudo bem com meu namoro! Eu fico
me lembrando do Felipe e me dá a maior calma.
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Quando a gente está brigado, eu não consigo fazer nada. Quando a gente terminou, então...
Nossa, não gosto nem de me lembrar. Ainda bem que eu não vivo mais aquele pesadelo de
ficar chorando, sem rumo, pela casa lembrando dos nossos momentos... Argh! Nada é
melhor do que estarmos juntos de novo.
Falando no meu amor, ele está melhor, mas ainda tem que ficar de repouso. Quando
cheguei do clube, ele ainda estava dormindo, tadinho. Eu fiquei fazendo cafuné e olhando
para a carinha dele dormindo. Uma carinha de anjinho! Superfofo!
Quando eu estava indo embora, ele insistiu para vir comigo, mas eu não deixei de jeito
nenhum. Vai que ele piora, né? Eu ia me sentir superculpada!
Nossa, o Natal está chegando! Que rápido! Geralmente, a gente passa o Natal na casa da
minha avó, mãe da minha mãe, e meu pai passa com a mãe dele. Adoro Natal! Essa coisa
de comemorar, comer peru, comprar presentes, viajar... Quer dizer, este ano a última coisa
que eu quero é viajar, para não ficar longe do Lipe. Falando nisso, eu contei que a Bia
viajou? A Lu também deve estar indo para Recife logo, logo.
Beijinho, Débora
18/12 Terça-feira depois do jantar
Hoje o dia foi ótimo! Fui ao shopping com a mamãe aproveitar as liquidações de fim de
ano. Ganhei uma blusa, uma sandália e um vestido que é a coisa mais linda do mundo. Ela
me deu especialmente para a noite de Natal. Amei! Nós aproveitamos para lanchar em um
lugar supergostoso. Ah, eu falei que ela também me deu um par de brincos? Ela me deu um
par de brincos.
Mas o mais legal é que eu aproveitei e comprei o presente para o Felipe. É uma calça linda,
que ele vai amar! Eu tive essa idéia quando ele falou para a mãe dele que estava precisando
de calça, e ela respondeu “agora não”. Comprei uma superlinda, e a mamãe até teve que me
ajudar a pagar, mas valeu a pena. Também comprei um cartão superfofo para ele.
Eu queria ter ido para a casa do meu pai depois do shopping, para encontrar o Felipe, que já
sarou e tudo. Mas a minha mãe ia sair à noite e não queria deixar a Bárbara sozinha.
Amanhã eu vou para lá. Eu insisti para a
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Bárbara deixar de ser chata e ir para a casa do meu pai, mas ela não queria de jeito nenhum
e eu não pude fazer nada. Deve ser complexo, coitada, porque ela faz aniversário
justamente no dia do Natal e acaba ganhando um presente só. Não teve a sorte de ter um
aniversário num dia ótimo como o meu.
Um beijo, Débora
19/12 Quarta-feira, quinze para as dez da noite
Gente, a Bia é doida! É maluca da cabeça. Eu acabei de subir (estava lá -embaixo com o
Felipe) e meu pai me disse que a Bia tinha ligado três vezes da praia. Ele disse que tentou
me chamar pelo interfone, mas eu não ouvi (claro, estava concentrada em outras coisas!).
Eu estava pensando no que poderia ter acontecido quando ela ligou de novo de um orelhão.
Adivinha o que aconteceu: ela transou com um menino que conheceu na praia! Levei o
maior susto! A gente sempre pensou igualzinho essas coisas: tem que ser em um lugar
especial, com calma, etc., etc., etc. Mas ela jogou tudo para o alto e foi assim mesmo.
Pena que não deu para ela me dar todos os detalhes, porque só tinha dois cartões de telefone
e estava sem dinheiro para comprar mais. Nossa, eu fiquei muito pasma. Acho que até fui
meio chata com ela, coitada, fiquei meio que censurando... Eu tenho que perceber que a
vida é da Bia, por mais que a gente seja amiga uma da outra! Além disso, se eu for parar
para pensar, ela tem até mais sorte do que eu. Eu já achei o homem da minha vida e
continuo virgem, ela não achou e já sabe como é!
Não vejo a hora de transar com o Felipe. Eu sei que estou meio chata, falando só nisso, mas
é que estou pensando muito nisso. Eu tenho que escrever o que estou pensando, não é? Se
bem que esse é um diário e eu devo escrever o que acontece. Mas, se eu for escrever só as
coisas que acontecem de fato, eu nunca teria escrito a palavra sexo!
Fazer o quê, né? O fim de ano é uma época de esperanças... Quem sabe, no ano que vem,
eu possa transar com o Felipe do jeito que eu sempre quis? Vai ser um dos meus desejos de
ano-novo. Até já decidi que a calcinha que eu vou usar no réveillon vai ser vermelha, cor da
paixão. Tomara que dê certo!
Falando nisso, onde eu vou passar o réveillon, hein? Ainda não pensei nisso! Não faço a
mínima idéia. Mas tem que ser com o Felipe! A gente já
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combinou que, nem que seja para passar dentro de casa, a gente vai estar juntinho. Isso é o
que interessa, né?
Débora
20/12 Quinta-feira depois do almoço
Tadinho do Felipe, ele foi ao médico! Saiu agora, com a mãe dele. É que ele já sarou da
gripe, mas está com uma dorzinha no peito e vai ver o que é. Tomara que não seja nada.
Falando no Felipe, a gente conversou hoje de manhã (estou aqui na casa do meu pai) a
respeito das festas de fim de ano e decidimos o seguinte: no Natal, cada um fica com a sua
família. Eu vou para a casa da minha avó e ele vai para o sítio de uma tia dele. Mas no
réveillon a gente vai para a praia, só nós dois. Isso mesmo! Não é ótimo? Vai ser uma
verdadeira lua-de-mel. Já posso até imaginar nós dois nadando, tomando sol, namorando,
transando dia e noite... ops! Eu disse isso? Falha nossa! Eu só imagino a gente nadando,
tomando sol e namorando, juro!
Bom, só tem dois problemas nesse nosso plano:
1) Nem eu nem ele temos dinheiro.
2) Ainda não falamos com os nossos pais.
Ah, mas a gente resolve, né? Nesta semana mesmo, eu vou pedir para minha mãe. Ela vai
deixar, eu sei que vai! Todas as pessoas ficam mais compreensivas e generosas no Natal. É
ótimo pedir coisas nesta época do ano!
Vai ser a viagem dos meus sonhos. Melhor até do que a da Disney!!!
Beijinho, Débora
21/12 Sexta-feira, 16h45
Acabei de descobrir uma coisa: minha mãe não quer que eu seja feliz! Sério! Ela nem ouviu
direito o que eu tinha a dizer sobre a viagem. Primeiro, ela achou a maior graça e riu.
Depois, ficou superbrava e disse que eu não tenho noção de nada, e que não existe a menor
possibilidade de eu ir! Fiquei tão nervosa que até chorei! Afinal, por que eu não posso ir?
Que ódio!
231
Eu tinha vindo aqui para a casa dela especialmente para fazer o pedido pessoalmente, mas
não adiantou nada. Acabei de ligar para o Felipe e surpresa: os pais dele falaram que ele
pode ir, mas não vão dar dinheiro. Adianta muita coisa! Não é patético? Eu estava louca
para ir! Agora vou ter que passar o réveillon na rua da amargura, sem praia, sem viagem,
sem nada. Estou com muita raiva da minha mãe. E, se ela não deixou, imagina meu pai!
Débora
P.S.: A dor do Felipe não era nada grave. Ele só vai ter que tomar um antiinflamatório.
Mesmo assim, tadinho!
22/12 Sábado, quase meia-noite
Hoje o dia foi bem meio a meio. No começo, estava péssimo. Eu já acordei brigando com a
minha mãe, porque assim que abri os olhos comecei a fazer a “campanha pró-praia”. Ela
falou que realmente não há a mínima chance e eu fiquei revoltada. Aí a Bárbara começou a
me irritar, falando que agora eu sabia o que ela tinha sentido quando eu fui à Disney, que
era bem-feito para mim e tal, e eu quase bati nela. Aí minha mãe chegou e deu aquela
bronca. Fiquei tão mal-humorada que voltei para a cama para dormir de novo.
Quando o meu pai chegou do clube, eu fui para a casa dele e aí o dia melhorou 100%. O
Felipe percebeu que eu não estava bem e me mimou em tempo integral. Pegou uma flor
para mim, na rua, perguntou se eu queria que ele comprasse sorvete, falou que eu sou a
menina mais linda deste mundo e que me ama muito... É impressionante como ele consegue
mudar meu humor! Nem me irritei mais com a Bárbara, que acabou vindo para a casa do
meu pai também (infelizmente). Nossa, o Felipe é tudo o que eu sempre quis.
Mais tarde, meu pai pediu para eu chamar o Felipe para jantar com a gente, porque ele ia
fazer uma comida especial. Ele fez camarão com creme de leite e eu até comi. A Bárbara
fez um bolo de sobremesa e eu não ia nem provar, só de birra, mas acabei comendo um
pouco com sorvete.
Bom, vou para a cama, que amanhã eu vou ao clube com o papai. Ele falou que dá um jeito
de o Felipe entrar, olha que bom! Ir ao clube com o Lipe é muito mais legal.
Beijos, Débora
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23/12 Domingo, 21h45
Hoje o dia foi tão perfeito! O Felipe acabou de sair daqui da casa do meu pai. Nós
namoramos tanto, mas tanto... Ele estava supercarinhoso, como sempre.
O clube foi ótimo, mas vamos pular para a parte mais interessante. Quando a gente voltou
para casa, eu e o Felipe tivemos um dos melhores amassos do nosso namoro inteiro.
Começou lá embaixo, atrás do prédio, e terminou no sofá-cama do apartamento. Foi tão
perfeito, nossa... Sabe quando a gente não consegue nem lembrar, que já fica toda
arrepiada? Então. Foi simplesmente o máximo.
O problema foi que o meu pai quase pegou a gente! Nós estávamos no bem-bom, no
segundo andar, crentes que o meu pai estava dormindo, bem feliz, lá embaixo. Quando a
gente sabe que ele está dormindo, ficamos bem mais despreocupados e podemos fazer mais
barulho, tirar alguma peça de roupa, etc. Mas, de repente, a gente ouviu o meu pai subindo
a escada correndo, me chamando. Fiquei tão assustada, nossa! Ainda bem que deu tempo
de eu vestir a blusa, mas meu cabelo estava superatrapalhado. Mas acho que meu pai não
percebeu nada.
Ah, e ele só queria que eu olhasse um negócio que ele leu em uma revista. Que saco, né?
Acho que ele faz isso só para interromper a gente.
Nossa, agora que eu me toquei: amanhã já é véspera de Natal! Passou tão rápido! Daqui a
pouco, já é dia 31 e o ano acabou. Esse foi um dos melhores anos da minha vida. No
colégio, foi tudo ótimo, minha amizade com as meninas ficou ainda mais forte, eu viajei
para a Disney e estou namorando pela primeira vez. Acho até que é mais do que isso: estou
amando pela primeira vez. E eu não sabia que era tão bom! É a melhor coisa do mundo.
Beijos, Débora
24/12 Segunda-feira, 19h10
Daqui a pouco, vou me arrumar para a festa de Natal. A família inteira vai estar na casa da
minha avó, como a gente faz todos os anos. É sempre uma delícia. Adoro o Natal! Essa
calma que dá na gente, essa esperança
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que faz parecer que tudo vai melhorar... É muito gostoso. E também é gostoso ganhar
presente, lógico! Este ano, eu resolvi não pedir nada. Quero surpresa.
Eu e o Felipe combinamos que vamos trocar os nossos presentes amanhã, que é o dia de
Natal mesmo. Ele vai almoçar comigo na casa da minha avó, porque a família dele não
costuma se reunir no dia seguinte. Achei ótimo, porque não queria ir sem ele. Estou doida
para saber o que ele vai me dar! Também quero ver o que ele vai achar da calça. Tenho
certeza de que ele vai adorar.
Vou me arrumar! Já tomei banho e fiz escova no salão. Só falta eu pôr o vestido novo que a
mamãe me deu e fazer a maquiagem. A mamãe comprou um lápis-sombra lindo para ela,
cor champanhe, e me emprestou.
Ai, adoro Natal! Um beijo!!!
Débora
ngnp1046
25/12 Terça-feira, 20h40
O Natal foi ótimo! Só não foi melhor porque eu passei a ceia inteira morrendo de saudade
do Felipe. Para completar, eu comi muito tutu de feijão e passei mal. Mas tudo bem, foi
legal do mesmo jeito. Estava a família inteira lá, fazia tempo que eu não via todo mundo...
A Samantha levou o namorado dela e passou o maior tempo conversando com ele. Fiquei
meio chateada, mas aproveitei para conhecer melhor a Júlia, uma prima nossa que nunca
aparece.
Mas bom mesmo foi hoje. O Felipe veio aqui em casa de manhã, para a gente ir junto até a
casa da minha avó, e me encheu de presentes! Ele me deu um arranjo de flores lindo, num
vaso em forma de cesta, um CD que eu queria, uma blusa fofa e um cartão. E ele amou a
calça! Experimentou e ficou ótima, do jeitinho que eu imaginava!
Desenhos de árvore de Natal e as anotações depois do desenho de cada presente - Natal:
Presentes Flores, CD, Blusa, cartão
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Depois, a gente foi para a casa da minha avó. Todo mundo ficou papáricando a Bárbara,
porque é aniversário dela, e ela ficou toda convencida. Mas tudo bem. Apresentei o Felipe
para minha família e todo mundo o adorou, principalmente a minha avó e uma tia minha,
que falaram que ele é muito lindo, educado e tal. O Felipe ficou morrendo de vergonha,
mas adorou. Fiquei tão feliz! É ótimo quando gostam do namorado da gente. Quer dizer, se
eles não tivessem gostado, não ia mudar nada, mas é melhor que gostem, né?
O único problema foi que eu tive que vir aqui na casa da minha mãe, em vez da do meu pai,
por causa do aniversário da Bárbara. Ela não quis ir para lá, para variar, e minha mãe falou
que eu tinha que ficar com ela, para a gente comemorar. Não teve nada de mais: só um bolo
que a minha mãe fez, e cantamos parabéns só nós três mesmo. O Felipe tinha acabado de ir
embora. A Bárbara é tão desanimada, credo! Não quis dar festa, nem chamar as colegas
dela, nem nada. Só uma vizinha nossa, amiga dela, apareceu aqui para dar um “oi”. Elas
ficam brincando o dia inteiro, e é por isso que ela não quer ir até a casa do meu pai nunca.
Um saco.
Agora, o saldo calórico dessa comida toda que eu comi ontem e hoje. Eu devo ter
engordado uns dois quilos, nem quero me pesar na balança do banheiro. Só de doce, olha só
o que eu comi: torta de nozes, pavê de chocolate, torta de sorvete e musse de chocolate
branco, na noite de Natal; tudo isso de novo, no almoço de hoje; e o bolo de aniversário que
a minha mãe fez, umas duas horas atrás. Isso fora o peru, o pernil, o arroz à grega, a farofa,
o maldito tutu...
Bom, pelo menos uma das promessas de fim de ano eu já sei: emagrecer urgentemente!
Vou voltar para a natação o mais rápido possível, porque depois da depressão por causa do
Felipe, a natação ficou completamente esquecida. Ai, ai!
Débora
26/12 Quarta-feira à noite
Meu Deus!!! Estou super-hiper-ultra-ansiosa! Você não imagina o que aconteceu! Talvez
eu perca a virgindade amanhã!!! Talvez, não, é quase certo!!! Só de pensar, já fico
completamente nervosa. Já contei para o Felipe e tudo, ele adorou a idéia, está tudo certo...
Só falta amanhã chegar! Não é desesperador?
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Calma, vou contar! Eu estava lá embaixo (vim para a casa do meu pai de manhã), bem
tranqüila, namorando o Felipe. Aí o pai dele pediu um favor para ele, então ele teve que
subir. Era tipo umas três da tarde. Aí eu disse a ele para me chamar quando acabasse, e subi
para o apartamento do meu pai.
Quando cheguei aqui, o telefone tocou. Era a Lu. A gente ficou conversando um tempão,
porque ela viaja amanhã para Recife, e vai ficar lá praticamente as férias inteiras. Eu já
estou acostumada, porque todo ano ela vai para lá. Aí ela começou a falar do Marcos, que
não sabia como ia agir quando encontrasse com ele, que não sabia se podia rolar alguma
coisa e tal. Aí, vou parar de enrolar! Como ela perdeu a virgindade com ele, o assunto
“sexo”apareceu e começamos a conversar sobre isso. Eu falei que, por mim, só falta o
lugar. E é aí que a história ficou interessante: ela falou que, se eu quiser, ela pode deixar as
chaves do apartamento aqui, comigo, enquanto ela está viajando.
Não é perfeito? Eu mal acreditei! Depois que ela falou isso, ficou meio arrependida, com
medo de que a casa ficasse desarrumada ou alguma coisa quebrasse e os pais dela
percebessem que alguém havia estado ali. Mas eu a tranqüilizei e jurei, por tudo neste
mundo, que eu e o Felipe deixaríamos a casa impecável, do jeitinho que a gente tinha
encontrado. Aí ela fez eu jurar de novo e topou. Eu dei um grito de felicidade! Imagina que
delícia, eu e o Felipe sozinhos, com a casa inteira só para a gente? Fiquei
superempolgada!!!
Já contei para o Felipe e ele amou, também!!! Nossa, acho que nenhum lugar seria mais
perfeito. Se fosse o meu pai que tivesse viajado, mesmo assim eu ficaria supernervosa, com
medo de ele chegar de repente; se fossem os pais do Felipe, acho que ele se sentiria meio
desconfortável. Além disso, se eles viajassem, iriam querer arrastar o Felipe junto, com
certeza. ora, na casa da Lu, eu vou me sentir totalmente à vontade!
Apesar de a própria Lu ter dado a idéia, foi ela que ficou meio assim depois, mas eu não
vou deixar que ela desista! Falou, tá falado! E, além disso, eu realmente vou tomar cuidado
para não tirar nadinha do lugar. E tenho que me lembrar de fechar todas as janelas, coisa e
tal.
A gente vai fazer assim: como eles viajam amanhã à noite, eu vou passar lá à tarde para
pegar a chave. A chave é só da Lu, então os pais dela nem vão perceber. Só não sei ainda se
eu e o Felipe vamos lá à noite mesmo ou esperamos depois de amanhã, à tarde. Se a gente
for à noite, eu posso falar para minha mãe que a gente foi a algum barzinho ou coisa do
tipo. Se for à tarde, eu falo que fui ao shopping. O importante é a gente poder ficar bastante
tempo lá.
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Ai! Não vejo a hora! Isso, sim, é que é final de ano! Como será que eu vou me sentir
depois? Estou com um frio na barriga! Acho que vou me sentir mais mulher, mais adulta,
mais dona de mim... Eu pensava que me sentiria assim quando menstruei pela primeira vez,
quando eu tinha treze anos, mas não mudou muita coisa, não. Agora, eu tenho certeza de
que vai mudar! Ai, que felicidade! Amanhã tem que chegar logo! Vou dormir agora, para
amanhã chegar bem depressa!!!
Débora
27/12 Quinta-feira depois do almoço
Nossa, eu preciso me acalmar. Eu estou muuuuito nervosa. Não dormi quase nada à noite,
só fiquei pensando em como vai ser hoje à noite... É, a gente decidiu que vai ser à noite
mesmo, para ser mais romântico. O Felipe disse que eu estou superdiferente com ele, que
eu estou meio estranha... Expliquei que eu estou nervosa, não dá para controlar. Ele está
mais calmo do que eu, mas também não está no estado normal dele.
Estou tão perdida! Fico pensando no que a gente vai falar quando chegar lá. Será que a
gente vai entrar e ele vai me falar “e aí, vamos transar?” ou coisa parecida? Mas assim é tão
artificial! Eu queria que rolasse naturalmente, mas acho que isso vai ser meio difícil, porque
nós dois sabemos que estamos indo lá para isso. Aí, não sei mesmo como vai ser! Sem
contar que tem hora que eu fico na dúvida, sem saber se estou mesmo preparada. Mas acho
que estou. Bem, eu tenho muita vontade, então eu estou, né? Além disso, vamos pensar na
parte prática da coisa: ele já experimentou a camisinha na casa dele e deu tudo certo. Viu?
Já fiquei mais calma!
Ai! Não fiquei nada!
Débora
ngnp1046
27/12 Ainda quinta-feira à tarde
Acabei de chegar da casa da Lu! Fiquei morrendo de medo de ela ter desistido, mas deu
tudo certo. Ela fez mil recomendações, mas me deu a
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chave. Também falou que é segredo, e que eu não posso contar nem para a Bia. Aí já
complica. Eu posso até não falar para a Bia que foi na casa dela, mas é claro que eu vou
contar que transei, né? Depois eu penso nisso.
Falando nisso, hoje é o aniversário da Bia! Por causa desse negócio todo, eu quase me
esqueci. Mas já liguei para o celular dela (ela está viajando, lembra?). Ficamos um tempão
conversando, e eu falei por alto que talvez eu transe hoje. Ela me deu boa sorte e falou para
depois eu explicar direito.
A família da Lu vai sair às oito horas e lá pelas nove eu e o Felipe saímos daqui. Ai, como
eu estou nervosa! Estou para morrer! Socorro! Não sei se eu quero!
Mas eu quero!
Débora
ngnp1046
28/12 Madrugada de quinta para sexta
Nunca fiquei com tanta raiva de mim assim na vida. Acredita que eu não consegui?
Exatamente, não consegui. Fiquei nervosa, quer dizer, eu já estava nervosa antes, e não quis
nem tirar a roupa. Cheguei à conclusão de que não era a hora.
O Felipe não ficou bravo, não, mas tanto eu como ele ficamos meio decepcionados. Não sei
o que aconteceu comigo, mas eu travei completamente! Não estava conseguindo nem beijar
direito. Achamos melhor tentar outra vez, talvez daqui a alguns meses.
Estou confusa! Não sei por que não consegui. Eu amo o Felipe mais do que tudo e tenho
certeza de que quero que a minha primeira vez seja com ele. Só que, na hora, me deu medo,
sei lá... Eu tenho medo de que seja ruim e ele pare de gostar de mim, tenho medo de que o
nosso namoro mude... E o nosso namoro é tão bom! Não quero que nada mude!
Não sei o que fazer. Eu disse a ele que hoje iria ao clube, apesar de nunca ir lá às sextas, e
ficaria pensando, e à noite eu decidiria. Vamos ver.
Débora
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ngnp1046
29/12 Sábado de manhã
A gente transou. Sério, transamos mesmo. É tão estranho falar isso! Fiquei o ano inteiro
falando “vou transar”, “quero transar”, e agora, pronto, transei. É esquisito... Mas juro que
não é sonho nem nada. Eu realmente TRANSEI! Nossa, vou custar a me acostumar com
isso. Até ontem, eu era virgem. Agora, sou uma não-virgem (qual é o antônimo de
virgem?). E o mais estranho é que eu não estou me sentindo assim tão diferente como eu
pensava que iria me sentir.
Não é como eu imaginava. Acho que eu pensava que fosse uma coisa maior, mais
emocionante... Uma coisa que mudasse o meu jeito de sentir, de ver o mundo. Mas eu estou
vendo o mundo do mesmo jeito. Eu não queria falar, mas acho que me decepcionei um
pouco! Acho que eu sentia mais tesão nos nossos amassos. Nos amassos, eu não ficava
preocupada com o que fazer, o que dizer... Eu simplesmente fazia e dizia. Mas ontem, não.
Eu fiquei toda perdida. Fora o medo de doer.
Ainda bem que o Felipe também se sentiu assim. A gente conversou um pouco, ontem
mesmo, e ele falou que também ficou todo nervoso, sem saber direito como agir. Acabou
que foi meio sem graça, meio morno. Não foi ruim, mas também não foi bom. Eu só
esperava que fosse mais... mais tchan, entende? Mas hoje eu acordei normal, minha mãe
pediu para eu procurar uma coisa na internet para ela, tomei leite no café da manhã, enfim...
Por que é que todo mundo faz tanto alarde em torno disso? Não é uma coisa enorme assim!
E nem é tão bom. Na verdade, doeu um pouco. E eu fiquei longe de ter orgasmo.
Quando a gente chegou lá, eu já tinha decidido que íamos transar. Mas acabou que tudo foi
meio artificial mesmo. Como a gente sabia que, mais cedo ou mais tarde a gente ia transar,
nosso papo não rolou naturalmente. A gente sempre conversa tanto, brinca tanto, mas
ontem ficamos meio sem ação. Hoje, quando eu acordei, liguei para a Lu, lá em Recife, e
ela disse que é assim mesmo. Falou para eu tentar de novo. Mas eu não sei se quero tentar
de novo! Acho que, se eu pudesse, voltava no tempo, para o meu namoro com o Felipe
voltar a ser a mesma coisa. Por exemplo: agora, eu estou aqui, sem saber por que ele não
me liga, por que ainda não tocou a campainha... E antes, não! Antes, quando isso acontecia,
eu só pensava: “Ah, o Felipe ainda deve estar dormindo. Daqui a pouco, ele aparece”.
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Será que alguma coisa vai mudar? Será que a gente vai continuar namorando como sempre?
Será que transar vai ser sempre sem sal assim?
Ah! A campainha!
Débora
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30/12 Domingo de manhã
Adivinha o que estou fazendo? Arrumando as malas! Minha tia, mãe da Samantha, vai
viajar e convidou o Felipe e eu para irmos com ela. Nossos pais deixaram, e a gente vai
hoje à tarde! Não é legal? Não vou viajar sozinha com o Felipe, mas, mesmo assim, vou
estar com ele o dia inteiro, acordar e ir para a praia com ele... Vai ser uma delícia! Estou
doida para a gente ir!
Ah, está percebendo como eu estou mais animada? É que eu descobri que a primeira vez
não é lá essas coisas, mas a segunda é mais ou menos e a terceira já é bem melhor. Como
eu estou experiente, não? É que, ontem, eu resolvi tentar de novo, mas de um jeito
diferente. Quando a gente chegou na casa da Lu, alugamos um filme, pedimos pizza e
depois jogamos o Banco Imobiliário dela. Só fomos transar mais tarde, sem a mínima
pressa. Funcionou porque, quando a gente chegou lá, eu falei que não sabia se ia querer
transar, que a gente podia ver isso mais tarde. E aí, só transamos quando deu vontade, para
não sair nada automático.
Desenho de Felipe e Débora deitados um sobre o outro numa cama cobertos com um lençol
escrito amor em diversas línguas e a anotação: ...adivinha...
Foi bem melhor. Eu e o Felipe estamos nos descobrindo aos poucos, indo com calma... não
tive orgasmo, mas me senti muito, muuuito bem. Desde os primeiros beijinhos até todo o
resto, eu fiquei calma, relaxada e aproveitei bastante. O Lipe é tão carinhoso, e eu o amo
tanto! Fiquei feliz que a minha primeira vez tenha sido com ele. E, se a terceira vez já foi
240
infinitamente melhor, mal posso esperar as outras. Dessa vez não doeu, só senti coisas boas.
Depois, a gente ficou conversando, sem roupa, fazendo carinho um no outro... Comemos a
pizza que sobrou, conversamos mais... E acabamos transando outra vez, que foi ainda
melhor.
Ah, e eu percebi que o nosso namoro não mudou nada. Quer dizer, se mudou, foi para
melhor. Estamos mais íntimos, afinal, compartilhamos algo muito íntimo. Mas, na essência,
tudo continua igual. Ainda bem! Sei lá, eu tinha medo de que eu ficasse com vergonha toda
vez que olhasse para a cara dele, sabe? Ou, pior ainda, que ele ficasse menos carinhoso
comigo, já que a gente já tinha feito tudo... sei lá, é difícil explicar. Só sei que ontem,
quando ele tocou a campainha, eu senti um frio na barriga, mas quando eu vi que ele estava
subindo com um potão de sorvete para a gente tomar e estava com a carinha mais linda do
mundo... percebi que as coisas entre nós continuam ótimas!
Eu também percebi que sempre tem novidade pela frente. Acho que nunca vamos transar
duas vezes do mesmo jeito, sempre vai ter uma posição nova, um beijo diferente, uma
sensação diferente. Que bom!
Mas, voltando à transa em si, mesmo tendo melhorado na terceira vez, o mais gostoso
mesmo foi quando tudo acabou, ele passou a mão na minha cabeça e falou que me amava.
Nós dois sem roupa, fazendo carinho um no outro, conversando... Essa parte foi, realmente,
como se vê nos filmes. Tão romântico! Não sei se me senti mais mulher depois disso, mas o
fato é que eu fiz uma coisa que tinha muita vontade de fazer. E eu tenho certeza de que,
daqui para frente, transar com o Felipe vai ficar cada vez mais gostoso. A gente tem que se
aperfeiçoar, né? Estou até pensando em comprar o Kama Sutra. Se bem que onde eu iria
guardar? Se a minha mãe descobrisse, ia me matar! E, sei lá, lá deve ter umas posições
supercomplexas. Eu não sei nem dar cambalhota direito. Melhor deixar para lá e aprender
naturalmente mesmo... Está dando certo até agora!
Ah! Minha tia chegou! É melhor terminar de arrumar minha mala. Daqui a pouco, o Felipe
chega aqui e a gente vai!
Mil beijos, Débora
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31/12 Segunda-feira, 16h
Estou aqui na praia! Fazia tempo que eu não vinha, é tão bonito! O cheiro de mar, a areia, o
sol, esse céu azulzinho... Nossa, bom demais. Nós chegamos de manhã e só a minha tia fez
questão de dormir. Eu, o Felipe, a Samantha e a Elisa (irmã mais nova da Samantha, que é
mais amiga da Bárbara do que minha) fomos direto para a praia, e nadamos até. Eu me
esqueci de passar o filtro solar novamente, depois de nadar, e meu nariz já está vermelho!
Fiquei com ódio, mas tudo bem. Amanhã, eu passo o dobro.
O bom foi que eu notei vários olhares masculinos dirigidos para mim. Ótimo, né? Sinal de
que a natação funcionou e a minha bunda está atraente. A barriga não está perfeita, mas,
enfim, está aceitável. Barriga é triste, porque a gente tem que ver toda hora. A vantagem da
bunda é que ela fica lá atrás e a gente quase não vê. Em todo o caso, o Felipe não pára de
me elogiar, e ainda não o peguei olhando para a Samantha e aquele corpaço dela. Ótimo,
né? O amor é cego mesmo, ainda bem.
Depois, a gente foi almoçar em um restaurante na beira da praia. Comemos moqueca de
camarão, fazia um tempão que eu não comia! Estava uma delícia, nossa! Mas eu só comi
muito porque é o último dia do ano. No ano que vem, dieta, você vai ver! Depois da
moqueca, todo mundo se entupiu de sorvete, inclusive eu, claro. Uma delícia!
Estou doida para chegar a noite! Passar o réveillon na praia é perfeito. Ainda mais com o
Felipe! Se ele não tivesse vindo, eu ia ficar com tanta, tanta saudade... Falando nele, ele
está tomando banho agora. Daqui a pouco, nós vamos sair para tomar mais sorvete e
comprar algumas coisas. Eu quero comprar uma calcinha nova, para dar sorte na virada do
ano, e a gente também vai comprar lentilhas, uvas e romãs. Se o ano que vem não for bom,
não vai ser por falta de tradição!
Falando em ano que vem, já tenho um pedido para fazer à meia-noite, mas não posso
contar, senão não se realiza! Só posso contar as resoluções de ano-novo que eu tomei .
Escrevi em um papel e vou guardar, para ficar me cobrando o ano todo. Olha só:
1) Conversar com o meu pai para ele me deixar ficar sozinha na casa dele, e poder levar o
   Felipe, de preferência.
2) Apelar menos com a minha mãe, meu pai e com a Bárbara. Tentar entender o ponto de
   vista deles, e não só o meu.
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3) Fazer aula de inglês e nem pensar em faltar à natação.
4) Estudar mais durante o ano, para não passar o aperto que eu passei no final deste.
5) Tentar não morrer de ódio quando o Felipe me trocar pela bola. (Acho meio difícil, mas
   vou tentar!).
6) Não deixar minha vida de lado apesar de eu amar e idolatrar o Felipe e querer ficar com
   ele o tempo todo.
7) Manter o corte milagroso do meu cabelo.
8) Lembrar de falar à minha família, às minhas amigas e ao Felipe quanto eles são
   importantes para mim e, principalmente:
9) SER MUITO, MUITO FELIZ!
   Feliz ano-novo, diário! Foi ótimo ter contado com você o ano inteiro
    Um bilhão de beijos e muitas, muitas felicidades!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Beijos
Até o ano que vem
Débora
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LEIA TAMBÉM
EU E MEUS PAIS
EU E MEUS AMIGOS
EU E MEU CORPO
Lynda e Area Madaras
ngnp1046
É difícil falar com seus pais? Eles estão sempre por fora? Fazem cobranças? Em Eu e meus
pais, as autoras mostram as barras que uma adolescente tem de encarar em casa. o livro
ainda traz dicas para enfrentar várias situações em família.
A melhor amiga, a turma, os garotos... No livro Eu e meus amigos você vai descobrir a
importância da amizade. Os testes, superdivertidos, vão ajudar você a se conhecer melhor,
descobrir o que é e o que não é bom, e fazer suas escolhas.
No livro Eu e meu corpo você vai ter explicações sobre as mudanças que estão acontecendo
em seu corpo. Os exercícios e testes foram criados para avaliar o seu nível de
desenvolvimento, tudo para fazer você se sentir “uma pessoa normal”.
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