Genero Textual Noticia by brCDhJj

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									                      SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO
                      DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO BÁSICA
                        EQUIPE DE LÍNGUA PORTUGUESA



           FORMAÇÃO EM AÇÃO – SEGUNDO SEMESTRE/2011


                         Oficina: “Gênero Textual Notícia,
                     uma proposta de intervenção pedagógica”.


Objetivo:
Colaborar com a ação pedagógica do professor em sala de aula, promovendo a análise
de sua prática a partir de uma sugestão de trabalho com o Gênero Notícia. Tomando a
língua em sua concepção dialógica, explorar as práticas discursivas de Leitura, Análise
Lingüística e Produção de Textos.

Argumentação:
Ensinar Língua Portuguesa hoje implica repensar concepções de linguagem e
abordagens metodológicas. Daí o enfoque das Diretrizes Curriculares Estaduais da
disciplina para o trabalho com a língua na perspectiva dos gêneros textuais. A presente
oficina pretende que o trabalho em ambiente escolar com os Gêneros discursivos/textuais
possibilite aos alunos da Educação Básica um maior contato com textos sociais, num
intercâmbio escola e sociedade.

1º MOMENTO: Revisitando os conceitos das DCE

Concepção Teórico-metodológica para Língua Portuguesa, Concepção de linguagem,
Conteúdo Estruturante e Conteúdos Básicos.

2º MOMENTO: gêneros discursivos

Elucidando a base teórica que embasa essa oficina...
Os gêneros discursivos/textuais designam um novo paradigma para o ensino da língua
materna, assunto que foi tratado em formações continuadas anteriores e deve ser objeto
de estudo de todo professor preocupado com a aprendizagem de seus alunos. Segue
abaixo um breve resumo para trazermos à memória o essencial sobre o assunto.

GÊNEROS DO DISCURSO
Sempre relacionados a esferas de atividade, os gêneros do discurso são “modos de dizer”
apropriados para certas atividades e/ou situações, na medida em que permitem responder
adequadamente às demandas de comunicação correspondentes. Segundo Bakhtin, todo
gênero envolve um tema, assume uma forma composicional e define um estilo.
Os gêneros discursivos que circulam na sociedade possuem especificidades, ou seja,
características que os distinguem dos demais: foram produzidos considerando seu
interlocutor (público-alvo); a situação interlocutiva; o momento de produção; apresentam
finalidades, intencionalidades, nem sempre tão explícitas; são influenciados até pelos
suportes que carregam estes textos.

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Suportes Textuais, segundo Marcuschi: suporte de um gênero é um locus físico ou virtual
com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero
materializado como texto. Pode-se dizer que suporte de um gênero é uma superfície física
em formato específico que suporta, fixa e mostra um texto. A idéia aqui expressa
comporta três aspectos: suporte é um lugar físico ou virtual; tem formato específico; serve
para fixar e mostrar o texto.

3º MOMENTO: Exemplo de trabalho com o gênero Notícia

Nessa etapa, serão explorados alguns aspectos das Sequências Didáticas no trabalho
com o gênero textual Notícia. No entanto, [pensando no 4º momento da oficina] buscou-
se, a partir de alguns recortes teóricos com base nas DCE, em Marcuschi, Koch, dentre
outros autores, criar uma sequência de trabalho que possibilite o aprofundamento do
estudo do gênero com atividades que privilegiam as práticas discursivas de Leitura,
Análise Linguística e Produção Escrita.

Ainda que o gênero selecionado para esse momento de formação ofereça tranquilamente
um trabalho específico com a oralidade (pensando na notícia de rádio e/ou televisiva), o
tempo de 4 horas é insuficiente para contemplá-lo também, o que não impede que o
professor faça adaptações na oficina para inserir mais essa prática no trabalho com o
gênero.

Trabalhando com o gênero Notícia:

Apresentação da situação
       Criar uma situação de comunicação mais próxima possível da realidade do aluno,
inclusive levando para a sala de aula textos, cujos temas sejam ao mesmo tempo
vivenciados pelo aluno e instigantes e/ou interessantes para a faixa etária em questão.
instigando a discussão sobre como e por que determinados fatos viram notícia.

     As duas sugestões de atividade a seguir foram retiradas de BARBOSA, J. P. Trabalhando
com os gêneros do discurso: relatar: notícia. São Paulo: FTD, 2001.

        Vamos supor que você seja editor do jornal que mais vende na sua cidade. Um
editor, entre outras coisas, escolhe que notícias serão publicadas, em que página, em que
posição, etc. É exatamente o que você vai precisar fazer agora: seus repórteres
escreveram várias notícias, mas só há espaço para publicar três na edição de amanhã.
Entre os fatos relatados a seguir, escolha os três que devem ser noticiados.

a) Ator da novela das oito quebra o braço ao escorregar da escada durante gravação.
b) Dona de casa quebra o braço após tombo no banheiro.
c) Briga numa escola municipal da Zona Leste na hora da saída ocasiona suspensão de
dois alunos.
d) Dois deputados federais trocam socos e pontapés na porta do Congresso Nacional.
e) Escola da zona rural suspende a merenda por falta de alimentos.

Justifique por que você escolheu esses fatos:
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Reconhecendo notícias e algumas de suas características

        As atividades a seguir têm a intenção de verificar os seus conhecimentos sobre o
gênero notícia, para que seu professor possa organizar o trabalho em classe.
        Sabemos que, independente da escola, você aprende muitas coisas e não seria
legal ficar só repetindo o que você já sabe. Por isso é que pretendemos ver o que você já
conhece, para não ficar chovendo no molhado e, ao mesmo tempo, ajudá-lo a descobrir
mais a respeito do mundo das notícias.
         […]
        Leia os cinco textos que seguem e assinale os que são notícias
    …...............................(atividade impressa em anexo).....................................................

      Para explorar previamente o que o aluno conhece sobre o gênero, deve-se partir
de um tema que se julga interessante para ele. Para essa oficina, selecionamos a notícia
abaixo:




Explorar o que os alunos já conhecem sobre o tema e o gênero a partir dos seguintes
questionamentos:
                 TEMA                                    GÊNERO
 O que você sabe sobre a copa de 2014? O que são “notícias”?
 Onde obteve essas informações?         Onde podemos encontrá-las?
 Quem as produziu e por quê?            Quem as produz?
 Para quem foram produzidas?            Para que tipo de leitor são produzidas?
                                        Com que finalidade são produzidas?

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Modelos de textos do Gênero
O professor deve levar para a sala de aula diferentes notícias, a fim de que os alunos,
além de lê-las, possam manuseá-las, explorando o assunto abordado, sua estrutura,
enfim, sua forma de organização, conforme quadro ilustrativo:

  CONTEXTO DE          FUNÇÃO SOCIAL             CONTEÚDO               TIPOLOGIA
   PRODUÇÃO                                      TEMÁTICO             PREDOMINANTE
  Quem produziu?      Qual o papel social     Qual é o assunto de        Narrativo
                           do autor?           que trata o texto?
       Onde?           Por que os textos                           Descritivo
                      foram produzidos?
      Quando?          Para quem foram                           Argumentativo
                          produzidos?
      Suporte?       Os textos atendem a                           Expositivo
                      qual necessidade?
                        Em que veículo                              Injuntivo
                      circulam os textos?
Características do Gênero
O texto a seguir é uma adaptação do Caderno Pedagógico “Sequência Didática 2”, das
autoras Carmem Teresinha Baumgärtner e Terezinha da Conceição Costa-Hübes e do
Folhas “Nos bastidores da reportagem”, das autoras Rosangela Oro Brocardo e Márcia
Aparecida de Souza Coelho, acerca do gênero notícia.


O QUE É UMA NOTÍCIA?
Notícia é a informação sobre fatos ou acontecimentos reais transmitidos às pessoas.
Cobre apenas um fato. Geralmente começa com o local em que ocorreu o fato que está
sendo divulgado e, em geral, não deve conter opiniões, contando o fato da maneira
mais neutra possível. Notícia é puro registro dos fatos, sem opinião. A exatidão é o
elemento-chave da notícia, mas vários fatos podem ser justapostos de maneira
tendenciosa. Suprimir ou inserir uma informação no texto pode alterar o significado da
notícia.
A notícia consta de três partes: Título – deve sintetizar o tema central e também atrair a
atenção do leitor; Introdução (ou lead) – contém o principal da informação;
Desenvolvimento – apresenta maiores detalhes sobre o assunto, explicando melhor
os fatos.
A notícia deve, necessariamente, responder às seguintes indagações: Quem?,O
que?,Como?,Onde?,Quando?,Por quê?
Alguns autores acham até mesmo desnecessária a existência do lead. Eles entendem
que a noção de lead e as tradicionais perguntas o quê?, quem?, quando?, onde?,
como? e por quê? Não podem se transformar numa “camisa de força”, pois isto pode
prejudicar a criatividade e/ou a intencionalidade do jornalista.
Neste gênero observa-se a predominância da sequência narrativa. A linguagem
jornalística adota o padrão culto da língua, sem contudo perder de vista o universo
vocabular do leitor.
 Na notícia, é muito importante considerar o estilo, que precisa ser claro, correto,
 conciso. Melhor explicando: deve ser construída com frases curtas, linguagem clara,
 objetiva e impessoal.
Seleção de um texto do Gênero
 Resumindo: A notícia caracteriza-se como um gênero textual cuja finalidade é informar
 o leitor sobre acontecimentos recentes, atuais. Como informação tem duas partes    4
 claras: o lide (ou lead) e o corpo. Contudo, atualmente, alguns jornais e revistas
 impressos (e online) utilizam mil maneiras de abrir uma notícia. É importante que seja
 criativa, do contrário, não irá chamar a atenção do leitor.
O professor deverá selecionar um texto do gênero estudado, sobre o qual apresentará
algumas propostas de atividades que poderão ser trabalhadas após leitura atenta. No
caso dessa oficina, optamos por trabalhar com a notícia sobre a copa de 2014 em
Curitiba, veiculada pelo jornal Gazeta do Povo, em 28/04/2011. Grande parte das
atividades de Leitura e Análise Linguística será desenvolvida a partir desse texto.




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4º MOMENTO: Atividades

Uma vez trabalhado o gênero e selecionado o texto, partiremos para as atividades de
Leitura: Compreensão/interpretação, Análise Linguística e Produção Escrita.

A) LEITURA E COMPREENSÃO DO TEXTO

Proceder com a atividade de leitura e compreensão textual, tomando como base a notícia
“Acho que vai ter Copa em Curitiba”, recua secretário.
No livro “Ler e Compreender os sentidos do texto”, as autoras Ingedore Villaça Koch e
Vanda Maria Elias apresentam três diferentes concepções de língua, a partir das quais
pode-se refletir sobre o trabalho com a leitura, no cotidiano das salas de aula. São elas:

      Língua como                    Língua como                 Língua como interação
    representação do                estrutura/código              autor↔texto ↔ leitor
      pensamento

Nessa     concepção,     a    Concepção pela qual a           Concepção         interacional,
leitura é entendida como      leitura é entendida como        dialógica da língua, na qual
mera captação das ideias      uma atividade que exige do      a leitura é uma atividade
do autor, sem levar em        leitor o foco no texto, em      interativa     e     altamente
conta as experiências e o     sua linearidade. Cabe ao        complexa de produção de
conhecimento do leitor. O     leitor o sentido das palavras   sentidos. Nessa concepção
sentido do texto está         e estruturas.                   o texto exige do leitor o foco
centrado      no     autor.                                   no autor↔texto ↔ leitor.
Portanto, essa concepção        Nessa concepção, assim        Assim, O leitor é visto como
exige do leitor o foco no       como na anterior, o leitor    autor/construtor         social
autor.                            realiza atividade de        (sujeito ativo que se constrói
                                    reconhecimento,           e é construído no texto).
                                      reprodução.



Seguem algumas sugestões de atividades que podem ser articuladas segundo a
preferência do professor ou mesmo alteradas uma vez consideradas as necessidades
contextuais do educando em questão.
Após a leitura atenta do texto “Acho que vai ter Copa em Curitiba”, recua secretário,
responda:

1) A notícia parte de um conteúdo temático, que nesse caso é a copa do mundo de 2014,
porém aborda um assunto específico. Qual?

2) Sabendo-se que o lead é o parágrafo inicial onde encontramos resumidamente as
informações principais. Releia o lead do texto e descreva a informação principal nele
contida.

3) A notícia é relatada em terceira pessoa, visando um distanciamento em relação ao fato.
Isso leva à objetividade e favorece a credibilidade da informação. Como se dá esse
distanciamento na notícia em questão?


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4) Nessa notícia, percebe-se uma linguagem expressa em registro culto, no entanto não
excessivamente formal, é o que se chama de linguagem intermediária. Comprove essa
afirmação com elementos do texto.

5) O título é muito importante em uma notícia, pois chama a atenção do leitor, ativa e cria
expectativas, provocando a prosseguir a leitura da matéria. Sendo assim podemos
observar o tamanho das letras e as poucas palavras com informações contundentes e
densas as quais constituem umas das características principais do título. Em geral, o título
serve como indicador prospectivo das idéias. É orientador da leitura.

O que a escolha lexical do título: “Acho que vai ter Copa em Curitiba”, recua secretário
revela?

Espera-se que o aluno perceba que pela escolha lexical do título depreende-se a
possibilidade de não haver Copa em Curitiba. Nesse sentido explorar:
    O verbo “Acho”, indicando dúvida sobre a realização da Copa de 2014 em Curitiba.
    O verbo “recua” indicando que o secretário volta atrás em algum comentário já
      realizado. Qual seria esse comentário?

6) Lead: mostra o assunto ou destaca o fato essencial, respondendo a algumas perguntas
básicas (quem, o que, quando, onde, como e por que).

Quem?         Secretário Estadual Mario Celso Cunha (PSB)
O quê?        acha que terá copa em Curitiba
Quando?       Ontem (27 de abril de 2011)
Onde?         Curitiba
Como?         mostrando-se mais otimista quanto a resolução dos problemas com o
              Atlético
Por quê?      um dia antes admitiu que Curitiba poderia perder a condição de sede da
              Copa do Mundo de 2014.

a) Nesse exercício, pode-se solicitar ao aluno que preencha o quadro.

7) Outras possibilidades de exploração quanto à leitura da notícia: a forma como o texto
foi construído nos permite diferentes leituras do último parágrafo:

7.1) A sequência dos fatos apresentados:
a) Desde o título até o penúltimo parágrafo do texto, o autor demonstra a incerteza de que
haja Copa em Curitiba, o que é possível perceber pelo desenvolvimento dos fatos
apresentados. Quais são esses fatos?
Espera-se que o aluno perceba que os fatos se apresentam na sequência abaixo:
            Existe um risco de não haver Copa em Curitiba,
            Esse risco existe em função de um impasse financeiro,
            O impasse financeiro é motivado pelo dinheiro necessário para a reforma da
             Arena da Baixada, estádio que sediará os jogos.
            Esse custo é elevado devido a novos fatores de ordem econômica e técnica,
            O clube garante que esse acréscimo não saíra de seus cofres
b) Apenas no último parágrafo aparece, pela primeira vez no texto, uma oposição à ideia
de que pode não haver Copa em Curitiba. Comprove essa afirmação com elementos do
texto.

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Espera-se que o aluno perceba que essa oposição se dá pela surpresa que Luiz de
Carvalho demonstra em relação ao colega que suscita a dúvida.

c) Qual a relevância do verbo utilizado na citação do secretário municipal; “Tive” no
pretérito perfeito, modo indicativo?

Espera-se que o aluno perceba que esse tempo e modo verbal indicam uma ação
concluída e concreta e que sua utilização é relevante para “atmosfera positiva” criada a
partir da afirmação de Luiz de Carvalho “Para mim, Curitiba está na Copa”.

7.2) Intencionalidade/Ideologia:

  Embora a objetividade e a impessoalidade caracterizem a notícia, nem sempre isso
  acontece. A verdade expressa nos meios de comunicação é relativa: permeia-os a
  ideologia e os interesses específicos de seus proprietários. Assim, manipulam a
  linguagem de modo a deixar chegar ao público leitor apenas aquilo que lhes interessa
  e com a versão que lhes convém.

  Fonte: Folhas “Nos bastidores da reportagem” das autoras Rosangela Oro Brocardo e
  Márcia Aparecida de Souza Coelho


a) Nesse sentido é importante considerar a intencionalidade do autor ao finalizar a notícia
com a citação: “Para mim, Curitiba está na Copa”. O fato de o autor ter concluído a notícia
com essa citação implica em diferentes leituras. Quais seriam as leituras possíveis, dentro
do texto?
Espera-se que o aluno perceba as seguintes possibilidades de leitura, as quais devem ser
mediadas pelo professor.
           Deixar no ar a sensação boa de que teremos Copa “aqui”
           Permitir a conclusão de que nada corrobora para a certeza de que haverá
            de fato Copa em Curitiba.

b) A utilização da palavra “alheio” possibilita ao autor construir uma certa representação
de si mesmo para o leitor do texto. Qual o efeito de sentido resultante dessa escolha
lexical?

Espera-se que o aluno perceba que, por meio dessa escolha lexical, o autor está dizendo
que não há consenso entre as secretarias estadual e municipal em relação ao assunto. E,
nesse caso, a alienação de Luiz de Carvalho reforça a ideia de que pode não haver Copa
em Curitiba.

Portanto, ao se analisar um texto é imprescindível perguntar-se para quem e por que foi
escrito, quem o escreveu, em que situação/contexto, onde, quando e em que suporte
foi veiculado. Dessa forma fica mais fácil perceber as possíveis intenções do autor e as
entrelinhas do texto.




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B) ANÁLISE LINGUÍSTICA

Novas propostas teórico-metodológicas têm surgido para preencher algumas lacunas no
ensino de Língua Portuguesa. “O termo análise linguística (AL) surgiu para denominar
uma nova perspectiva de reflexão sobre o sistema linguístico e sobre os usos da língua,
com vistas ao tratamento escolar de fenômenos gramaticais, textuais e discursivos. Foi
cunhado por Geraldi em 1984 para se contrapor ao ensino tradicional de gramática, para
firmar um novo espaço, relativo a uma nova prática pedagógica”. (MENDONÇA, 2007)

Numa perspectiva sociointeracionista de língua, a análise linguística constitui um dos três
eixos básicos do ensino de língua materna, ao lado da leitura e produção de textos.
Nesse ponto de vista teórico, os estudos linguísticos com um fim em si mesmos perdem o
sentido, pois se considera que a seleção e o emprego de certos elementos e estratégias
ocorre em consonância com as condições de produção dos textos, ou seja, de acordo
com quem diz o que, para quem, com que propósito, em que gênero, em que suporte etc.
A AL tem como objetivo central refletir sobre os fenômenos linguísticos e sobre estratégias
discursivas, com o foco nos usos da linguagem (MENDONÇA, 2007)

Prática de Análise Linguística X Aula de Gramática: segundo Márcia Mendonça, com a
análise linguística pretende-se substituir o velho e tradicional modelo de ensino de
gramática por práticas que possibilitem a reflexão consciente sobre os fenômenos
gramaticais e textual-discursivos que perpassam os usos linguísticos.

Fiorin afirma que na abordagem do texto podem-se analisar os mecanismos sintáticos e
semânticos responsáveis pela produção de sentido. Por meio de uma análise que
considera os aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos do texto, chegaremos à
compreensão das idéias que nele estão presentes. Nesse sentido não se separa a aula
de “gramática” da aula de “interpretação”, pois conforme sugere Antunes: “Sem gramática
não se faz um texto [e] não se faz um texto apenas com gramática”. (adaptado de
NEVES, Herbertt. Aspectos sintáticos do texto: uma proposta para o trabalho com texto
em sala de aula)


Prática de Análise Linguística

Possibilidades de reflexão sobre a língua nessa notícia:

No primeiro parágrafo (lead), pode-se explorar:
    A construção verbal “pode perder” indicando uma possibilidade.
    O efeito de sentido na expressão “Tratou de mostrar”
    A função dos parênteses em (PSB)
    A função das aspas na abertura do título, indicando uma citação.
    Efeito de sentido que causa no lead a oração “Um dia após admitir que Curitiba
      pode perder a condição de sede da Copa do Mundo de 2014” deslocada de sua
      ordem direta, nesse caso uma expressão adverbial de tempo. Ao iniciar o
      parágrafo, essa oração ressalta que houve algum tipo de pressão ao comentário
      anterior feito pelo Secretário.

Os parágrafos posteriores ao lead (2 ao 5) explicitam as informações mais presentes no
lead, o qual fala de forma breve que a condição de Curitiba ser sede da Copa em 2014
está comprometida. Nota-se que o lead resumiu e situou o leitor quanto aos principais
aspectos da notícia.

                                                                                      9
             Outros aspectos linguísticos a serem explorados na Notícia
                          (Parágrafos posteriores ao lead):
    Citação:
O segundo parágrafo é uma citação, na qual o Secretário explica o porque de sua dúvida
no que diz respeito à realização da Copa em Curitiba. Trabalhar as aspas como sinal
gráfico indicativo de citação direta, o que também já foi enfocado no lead.

    Aposto:
O uso de apostos “Secretário Estadual para assuntos relativos à competição, Mario Celso
Cunha”; “... problemas com o Atlético, proprietário da Arena da Baixada”(§1), “...reafirmou
ontem o presidente atleticano, Marcos Malucelli” (§5) “o secretário municipal para
assuntos da copa, Luiz de Carvalho.” (§6)

    O texto pode ser segmentado em partes:
Entender o texto do ponto de vista dessa segmentação é facilitador, principalmente, para
a compreensão das idéias secundárias do mesmo, que podem levar ao entendimento
global do texto.
1ª parte                      a possibilidade de não haver § 1 e 2
                              copa em Curitiba
2ª parte                      a explicação sobre o que      § 3, 4 e 5
                              motiva essa indefinição
3ª parte                      uma opinião que se            §6
                              contrapõe a essa incerteza

     A escolha dos verbos no texto (tempo, modo, pessoa e aspecto):
Pode-se perceber que não há muitos verbos no texto, o que passa a ideia de que há
pouca ou nenhuma ação sendo desenvolvida no sentido de Curitiba sediar a Copa, de
fato. Dentre os poucos verbos utilizados no texto há verbos como admitir, mostrar, achar,
os quais reforçam a idéia de inatividade, pela qual se arrasta a história em torno do fato
de Curitiba ser ou não sede da Copa de 2014. Os verbos “seria bancado”, “cederiam” (§3)
e “teriam” (§4) no futuro do pretérito, englobam valores semânticos pertinentes ao
contexto, indicando algo que deveria acontecer, mas ainda não aconteceu.

     Coesão e Coerência:
Inseparável da coerência textual, a coesão pode ser entendida como o conjunto de
procedimentos que, articulando as diferentes partes de um texto, colabora para conferir-
lhe unidade de forma e sentido. Recursos como repetições, anáfora, catáfora,
substituições lexicais etc. destinam-se, exatamente, a garantir essa propriedade a um
texto, estabelecendo “o fio da meada”. Em consequência, a coesão textual é decisiva para
a progressão temática.

Dentre as várias formas de coesão textual, esse texto nos permite trabalhar a coesão
pela conexão – recurso coesivo que se opera pelo uso de conectores, os quais
estabelecem diferentes relações semânticas. As conjunções adversativas, por exemplo,
expressam uma relação de oposição, a qual implica um conteúdo que se opõe a algo
explicitado ou implicitado em um enunciador anterior. Na notícia em questão, a conjunção
“contudo” (§4) expressa uma informação que se opõe a outra do parágrafo anterior. Toda
a questão financeira envolvendo Curitiba como uma das sedes da Copa de 2014 estaria
resolvida se não fosse pelas novas exigências da Fifa, pelo aquecimento no mercado da
construção civil e pela inflação.

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Irandé Antunes destaca como fundamental nesse domínio entender que os conectores
não têm apenas a função de ligar partes do texto, mas funcionam, ainda, como elementos
indicadores de relações de sentido e de orientações argumentativas pensadas para o
texto.

A coerência é de natureza semântica e nos remete a um significado global do texto.
Nessa notícia, pode-se observar a progressão como uma forma de coerência textual.
Entende-se por progressão a retomada, no texto, dos elementos conceituais e formais,
acrescentando-se novas informações. Essa afirmação sustenta-se na organização das
informações nos parágrafos:

1º parágrafo “Curitiba pode perder a condição de sede”
2º parágrafo “O risco que existe é por causa do impasse financeiro”
3º parágrafo “A indefinição é motivada pelo dinheiro necessário para a reforma da Arena
             da Baixada”
5º parágrafo “O Clube garante que esse acréscimo não sairá de seus cofres”
6º parágrafo “Alheio aos riscos citados por Cunha...”

C) NEUTRALIDADE SUSPEITA
       Em geral, uma notícia não deve conter opiniões e deve procurar contar os fatos de
maneira mais neutra possível. Mas será que é possível relatar fatos de uma forma
totalmente neutra?
       Vejam o exemplo citado por Clóvis Rossi, no seu livro O que é jornalismo?: A Rede
Globo, ao final de seis meses do governo Collor noticiou o resultado de uma pesquisa
feita pelo IBOPE, a respeito da avaliação que o povo brasileiro fazia do seu governo. O
resultado foi o seguinte:
8% achavam o governo ótimo
27% achavam o governo bom
44% achavam o governo regular
8% achavam o governo ruim
11% achavam o governo péssimo
2% não responderam
A informação dada pela Rede Globo foi: 79% dos entrevistados aprovam o governo
Collor, 19% não aprovam e a2% não responderam.
Você acha que a emissora foi imparcial? Por quê?

Vejamos outros exemplos paea ilustrar o fato de que uma neutralidade absoluta no
relato dos acontecimentos é algo impossível de ser praticado:

1) FATO: Em janeiro de 1998, um prédio desabou na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, por
problemas de construção, causando até a morte de algumas pessoas. A Justiça obrigou a
construtora a indenizar as famílias atingidas e a fornecer uma moradia provisória para
elas. Muitas dessas famílias passaram, então , a morar em hotéis, qté que pudessem ter
suas casas de volta. Em abril de 1998, houve um Congresso no Rio de Janeiro e alguns
hoteis já tinham feito reservas para pessoas que vinham de outras cidades. Como essas
reservas haviam sido solicitadas antes de as famílias se instalarem nos hotéis, estas
tiveram de desocupá-las durante esse período.
Qual dos títulos enfatiza mais a humilhação a que as famílias moradoras do Palace foram
submetidas?
a) Moradores do Palace deixam hotéis (O Estado de São Paulo)

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b) Famílias do Palace I têm de sair de hotéis (Folha de São Paulo)
c) Palace 1: moradores que estavam em apart-hotel são despejados (Jornal da Tarde)

2) FATO: No dia 17 de abril de 1998, aconteceram várias manifestações do MST nas ruas
de São Paulo e de todo o país.
Que título e que chamada a seguir passam uma visão menos negativa do MST?

Militantes tomam as ruas das capitais                      No geral, ato é pacífico
   Dia Internacional da Reforma Agrária                    MST      realiza    protestos
      foi marcado por manifestações                              em 20 estados
        (O Estado de São Paulo)                                (Folha de S. Paulo)


                   MST e polícia entram em choque
                   Conflito ocorreu em São Paulo durante
                   manifestação para lembrar massacre
                          em Eldorado dos Carajás
                                 (Jornal da Tarde)


      Quando alguém vai contar algo, tem que fazer uma série de escolhas: que palavras
vai usar, em que ordem serão escritas, que dados vai utilizar, etc. Ao fazer isso, muitas
vezes, acaba privilegiando um dos lados envolvidos na questão.
      Vamos ver, na prática, como isso pode acontecer: você vai escrever uma notícia
sobre os fatos a seguir, juntamente com um(a) colega:
     Aconteceu um atropelamento na esquina de sua escola, ontem, às 15h40;
     Um carro atropelou duas alunas – Cristina da Silva e Cleide Aparecida Neves;
     Cleide teve ferimentos leves e Maria Cristina quebrou as duas pernas;
     Segundo testemunhas, o carro vinha em alta velocidade;
     Segundo testemunhas, o motorista do carro – o vendedor Mauro Teles – estava
       falando ao celular no momento do acidente;
     Segundo testemuinhas, as meninas estavam conversando distraídas na hora do
       acidente;
     Segundo testemunhas, as meninas estavam atravessando a rua fora da faixa de
       pedestres.

       Atenção! Metade da classe vai escrever a notícia fazendo parecer que o
responsável pelo acidente é o motorista, sem dizer abertamente que ele é o culpado. A
outra metade vai fazer parecer que as culpadas foram as duas alunas, sem dizer
abertamente que a culpa foi delas. Não é preciso colocar na notícia todos os fatos
listados. Coloquem apenas aqueles que vocês consideram favoráveis a seu ponto de
vista.


D) PRODUÇÃO E REESCRITA DE TEXTOS

Essa etapa da oficina traz apenas sugestões de trabalho com a escrita, considerando não
só gênero e suas especificidades, mas também questões linguísticas intrínsecas à
produção escrita. O professor poderá pensar numa produção escrita que atenda às
necessidades de produção dos alunos. Assim, não há necessidade de se produzir um
texto sobre o mesmo tema que foi abordado na oficina, pois, dessa forma, corre-se o risco

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de artificializar a situação de produção. Uma vez que o aluno já conhece o gênero, suas
especificidades e estrutura organizacional, ele poderá produzir um texto noticiando
qualquer fato que considere relevante ou algum acontecimento importante em sua cidade
ou bairro.
O professor poderá proceder, então, da seguinte forma:

PRIMEIRA PRODUÇÃO (rascunho)
Nesse primeiro momento, oriente os alunos para que apresentem um esboço, um
rascunho do texto que pretendem produzir. Quando apresentarem essa etapa concluída,
recolha os textos e guarde-os para serem retomados em outro momento, de preferência
no dia seguinte. Isso fará com que os alunos se distanciem do texto, facilitando, dessa
forma, a reescrita do mesmo.

SEGUNDA PRODUÇÃO (Primeira reescrita): Preparando a edição das notícias
       Ao retornar à atividade, devolva o texto (rascunho) para os alunos e oriente para a
sua leitura. Peça que fiquem atentos às informações essenciais e à escrita: ortografia das
palavras, pontuação, concordância, distribuição no papel etc. (revisão).
       Somente após esse momento de revisão é que deverão iniciar a produção. Esta
deve aproximar-se o máximo possível da versão final. Cada repórter vai ler o roteiro de
avaliação a seguir e ver se precisa mudar
 alguma coisa no que escreveu. Como copidesque, cada um deverá seguir
 o mesmo roteiro para avaliar a notícia que ficou encarregado de revisar.


                                  ROTEIRO DE AVALIAÇÃO
                  Aspectos a serem observados                         Está o.k.   Preciso mudar
A linguagem e o estilo das notícias estão adequados ao     jornal
proposto? (considerar o público leitor)
As manchetes (ou títulos) das notícias são chamativas?
As manchetes (ou títulos) dão destaque a um fato     importante que
faz parte da notícia?
As manchetes (ou títulos) das notícias trazem os verbos no tempo
presente, aproximando, assim, o leitor do fato noticiado?
As notícias trazem um lead no primeiro parágrafo, que é
chamativo, sintetiza informações e desperta o leitor para o
restante da notícia?
O relato dos fatos é feito por ordem de importância?
O relato dos fatos é feito em 3a pessoa?
As notícias não trazem explicitamente a opinião     dos repórteres
que as escreveram?
As notícias trazem dados precisos e/ou falas dos envolvidos que
colaboram para que o leitor confie no relato do fato?
A notícia traz alguma referência sobre como e onde      a pesquisa
relatada foi realizada? (se for o caso )
As notícias relatam os fatos, separando-os em     parágrafos para
facilitar a leitura?
Os gráficos e/ou tabelas acrescentam informações       e ajudam o

                                                                                           13
leitor a visualizar os dados?
As fotos, as ilustrações ou as charges que acompanham      as
notícias têm relação com o fato noticiado?
   Fonte: BARBOSA, J. P. Trabalhando com os gêneros do discurso: relatar: notícia. São Paulo: FTD, 2001

       Terminada a segunda produção, a correção será feita pelo professor, que deverá
orientar para o uso da língua, tendo em vista o gênero selecionado, seu(s) objetivo(s) e
seu(s) destinatário(s).

TERCEIRA PRODUÇÃO (Segunda reescrita)
Consiste na produção final do texto em seu suporte de circulação. Porém, caso algum
aluno não tenha, ainda, adequado a escrita a sua função de uso, deve ser orientado para
uma quarta reescrita. É importante que os alunos compreendam a funcionalidade da
língua e coloquem-se como autores do texto produzido, garantindo-lhe objetividade,
clareza e correção.

CIRCULAÇÃO DO GÊNERO NA SOCIEDADE
É o momento de tornar público o texto produzido. Para isso, o professor pode organizar
um jornal mural na escola para que os alunos exponham as Notícias que produziram.
Pode-se eleger a melhor Notícia visando uma publicação no no jornal da cidade.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras - coesão e coerência. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.
BENASSI, Maria Virginia Brevilheri. O gênero “notícia”: uma proposta de análise e intervenção. In:
CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007, Maringá. Anais...
Maringá, 2009, p. 1791-1799.
BROCARDO, Rosangela Oro & COELHO, Maria Aparecida de Souza. Folhas “Nos bastidores da
reportagem”. Disponível em http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br
KOCH, Ingedore Vilaça & ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 2ª ed.
São Paulo: Contexto, 2006.
MARCUSCHI, Luiz Antonio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo,
Parábola editorial, 2ª edição, 2008.
________________________ A questão do suporte dos gêneros textuais. Disponível em
http://bbs.metalink.com.br
MENDONÇA, Márcia & BUNZEN, Clécio: Português no ensino médio e formação do professor.
Ed. Parábola, São Paulo, 2ª edição: julho de 2007.
MERITH-CLARAS, SONIA. O trabalho docente e a análise linguística: uma nova terminologia ou
uma nova postura na abordagem do ensino da gramática?
In: Anais do 1º CIELLI – COLÓQUIO INTERNACIONAL DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E
LITERÁRIOS e 4º CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS), UEM
(Universidade Estadual de Maringá). 2010, Paraná. 9, 10 e 11 de Junho.
NEVES, Herbertt. Aspectos sintáticos do texto: uma proposta para o trabalho com texto em sala
de aula. In: Revista Ao pé da Letra, Pernambuco, V. 10, n.2, p. 67-86, 2008.
PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Diretrizes Curriculares Estaduais de Língua
Portuguesa. Curitiba, 2008.
BARBOSA, J. P. Trabalhando com os gêneros do discurso: relatar: notícia. São Paulo: FTD, 2001.
PERFEITO, Alba Maria. Concepções de Linguagem e Análise linguística: Diagnóstico para
proposta de Intervenção. Universidade Estadual de Londrina.
FUNDAÇÃO BRADESCO. Oficina sobre gêneros textuais Poema e Notícia. Educação de Jovens
e Adultos. Códigos e Linguagens. Ensino Médio. 2008.
Site pesquisado:
http://www.sitedoescritor.com.br/sitedoescritorprofessorvirtualperguntastextoliterario.html


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