SIMPLICIDADE SIMPLIFIQUE SIMPLIFIQUE Henry David Thoreau

Document Sample
SIMPLICIDADE SIMPLIFIQUE SIMPLIFIQUE Henry David Thoreau Powered By Docstoc
					               SIMPLIFIQUE! SIMPLIFIQUE! – Henry David Thoreau - SIMPLICIDADE

        Quando escrevi as páginas seguintes, ou melhor, a maior parte delas, vivia sozinho na floresta, a uma
milha de qualquer vizinho, em uma casa que eu mesmo construí nas margens do Poço Walden, em Concord,
Massachusetts, e onde ganhava a vida apenas com o trabalho de minhas mãos. Vivi ali durante dois anos e
dois meses (de 4 de julho de 1845 a 6 de setembro de 1847). Fui para lá obedecendo ao desejo de viver apenas
as verdades essenciais da vida para que, ao morrer, não descobrisse que deixara de viver, pois viver é tão
importante. Queria viver a fundo e sugar o tutano da vida, acuá-la num canto e reduzi-la às suas condições
mais simples. Se ela se revelasse sublime, desejava experimentá-la para poder dar testemunho de seu valor.
        A maioria dos homens vive em silencioso desespero. O que se chama de resignação é puro desespero.
Mas uma característica da sabedoria é nunca desesperar.
        Vivemos mediocremente como formigas. Desperdiçamos a vida com detalhes. O homem honesto
dificilmente precisa contar mais do que os 10 dedos das mãos ou, em caso extremo, acrescentar os dos pés e
descartar o resto.
        Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Reduza seus negócios a dois ou três e não os expanda a 100
ou mil; em vez de um milhão, conte meia dúzia.
        Simplifique, simplifique! Em vez de três refeições por dia, se for necessário faça apenas uma; em vez
de 100 pratos, cinco; e reduza o resto na mesma proporção.
        Por que devemos viver com tanta pressa e desperdício?
        Passemos um dia de forma tão deliberada quanto a da Natureza, sem nos deixarmos desviar por coisa
alguma. Levantemo-nos cedo e rápido, tranqüilos e sem perturbação. Por que devemos ser arrastados pela
corrente? Se o sino toca, por que correr?
        As necessidades essenciais da vida humana podem ser agrupadas em alimento, abrigo, roupa e
combustível. É preciso assegurá-las para então podermos resolver os problemas mais nobres com liberdade e
expectativa de sucesso. Mas a maioria dos luxos e muitos dos chamados confortos da vida não apenas são
dispensáveis como verdadeiros estorvos à elevação da humanidade.
        Nunca desprezei alguém por ter a roupa remendada, mas tenho certeza que as pessoas em geral se
preocupam mais em vestir-se na moda do que em ter a consciência limpa. Eu digo: cuidado com os
empreendimentos que exigem roupas novas em vez de exigirem um novo usuário para as roupas.
         Não posso negar que o abrigo seja hoje uma necessidade. Mas quando penso em meus vizinhos, os
fazendeiros de Concord, descubro que quase todos eles trabalharam 20, 30 ou 40 anos para se tornarem donos
de sua terra — e provavelmente dois terços desse labor destinaram-se ao pagamento só das casas. Buscando
adquirir conforto e independência, montaram uma armadilha que os prendeu.
        Embora a maioria dos homens jamais tenha pensado no que é de fato uma casa, eles se sentem mais
pobres quando comparam as que construíram com as dos vizinhos. Vamos sempre nos empenhar para obter
mais coisas em vez de nos contentarmos com menos? Precisamos ter casas abarrotadas de móveis
empoeirados? Eu prefiro ficar ao ar livre, pois não se acumula poeira na grama.
        Aprendi que se alguém vive simplesmente e come apenas o que plantou, e não mais do que isso, pode
fazer todo o trabalho agrícola com a mão esquerda e assim não estará amarrado a um boi, cavalo ou
companheiro de labuta. Eu era mais independente do que qualquer agricultor de Concord, porque, como não
estava ancorado a uma casa ou fazenda, pude seguir a inclinação do meu gênio.
        Mantive-me apenas com o labor de minhas mãos e descobri que trabalhando cerca de dois meses e
meio por ano podia enfrentar todas as minhas despesas. Durante o inverno e a maior parte do verão fiquei
livre e desimpedido para estudar.
        Em suma, estou convencido, tanto pela fé quanto pela experiência, de que nossa vida na terra deixa de
ser uma dificuldade e torna-se um passatempo se vivermos com simplicidade e sabedoria.
        Por que procuramos tão desesperadamente o sucesso, por que nos metemos com tamanho desespero
em tantos empreendimentos? O homem que não harmoniza seu passo com o dos companheiros talvez esteja
ouvindo um toque de tambor diferente. Deixe-o acompanhar o ritmo da música que ouve, por mais limitada
ou distante que seja.

Duvido que as reflexões de Thoreau façam muita gente sair correndo para ir viver na floresta. Mas acho que
elas despertam a pergunta: “Quais são as coisas que eu posso dispensar?” Há alguns anos, minha família
percorreu a Europa arrastando uma pesada bagagem de um país para outro. No caminho fomos acumulando
pequenas lembranças que nos fariam lembrar dos lugares visitados. A certa altura, um membro da família teve
de voltar para casa e pedimos a ele que levasse algumas caixas cheias de reoupas e de lembranças. Uma vez
aliviados da bagagem extra, nos sentimos por fim livres para desfrutar de fato as paisagens. Assim é com a
vida. Quanto mais nos livramos de coisas desnecessárias, mais ficamos livres para seguir os aspectos mais
importantes de nossas vidas. Mas só quando dizemos um ardente “Sim” para o que realmente importa
podemos dizer, sorridentes e elegres, um “Não” para o que tem menos importância.

873 palavras

				
DOCUMENT INFO
Shared By:
Categories:
Tags:
Stats:
views:0
posted:10/1/2012
language:Portuguese
pages:2