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Fórum Social Mundial(1)

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					                                  É preciso conversar


        Consta na história do futebol o caso pitoresco do treinador que, ao sentir que seu
time iria perder de goleada, gritava aos jogadores “arrecua os arfe pra evitar a catastre!”
(recuar o meio-de-campo para evitar a catástrofe). É isso que está acontecendo no
debate ideológico entre os Movimentos Sociais que compõem o Fórum Social Mundial
e os global players do capitalismo reunidos em Davos. Ao perceberem que sua
afirmação de que “não há alternativa ao mercado” já foi desmentida pela afirmação de
“um outro mundo possível”, os detentores do capital procuram a todo custo esvaziar o
debate.

        O argumento apela para o senso-comum e se difunde pela grande mídia: o FSM
seria um desperdício de tempo e de dinheiro, porque fica só na conversa, sem tomar
qualquer medida de ordem prática. De fato, é isso mesmo: o Fórum – como o próprio
nome indica – é um enorme aparelho de conversa entre pessoas, grupos, movimentos e
instituições que rejeitam a ordem mundial fundada nas leis do mercado e buscam uma
ordem mundial fundada na solidariedade humana e na harmonia ecológica. E por que,
então, não seria importante essa conversa? Se é conversando que a gente se entende, o
entendimento mundial deve, sim, passar por muita conversa. A verdadeira questão está
não na quantidade de tempo tomado pela conversa, mas na sua qualidade. Desperdício é
a fala autolaudatória de quem vem exibir seus sucessos em busca do aplauso, bem como
o seu contrário – a fala autocomplacente que reclama das desgraças que afligem os
pobres do mundo e justifica sua impotência.

        A conversa que partilha criticamente as experiências não é somente necessária,
mas urgente. O FSM deu um grande primeiro passo para a construção de uma nova
ordem mundial, ao proclamar, com credibilidade, que ela é possível. Foi então quebrada
a hegemonia do pensamento único que desde o fim da guerra fria dominava o campo
ideológico mundial. Trata-se, agora, de saber em que bases essa nova ordem poderá ser
construída. Isso requer uma rigorosa avaliação do que já existe, para se distinguir o que
pode ser adaptado e multiplicado em escala planetária, daquilo que é bom para um
grupo específico mas não se aplica a outros. “Agir localmente, pensar globalmente” é
hoje mais importante do que nunca. Mas como pensar globalmente, se não houver
parâmetros globais? Estabelecer parâmetros globais de pensamento, em outras palavras,
um novo paradigma para a ação, é um passo tão importante quanto foi o desmonte do
pensamento único. A isso se opõem os detentores do capital mundial: que os povos do
mundo desenvolvam um paradigma capaz de substituir aquele produzido pelos
intelectuais e mantém seu serviço que se difunde pela mídia.

        Retornando à metáfora do futebol, vemos hoje as forças do capitalismo jogando
na retranca para garantir o empate. É hora, pois, de as forças populares e as
organizações que também desejam um mundo de justiça, paz e harmonia com a
comunidade de vida da Terra, tomarmos a iniciativa no jogo. Isso significa avançar na
abertura ao diálogo, sem medo de rever nossas posições nem fazer cerimônia na hora de
criticar os erros cometidos, pois só assim criaremos um paradigma de pensamento capaz
de assumir a nova consciência planetária e, a partir dela, unir pensamento crítico e
prática transformadora, ciência e arte, mística e política, ética e economia, humanidade
e natureza. O FSM, que hoje se inicia, é um espaço privilegiado para esse diálogo
planetário, principalmente neste momento em que a crise debilitou a ideologia
capitalista.


                                                 Belém do Pará, 27 de janeiro de 2009
                                                         Pedro A. Ribeiro de Oliveira
                                           PPG em Ciências da Religião – PUC - Minas
                                               Membro da Equipe de ISER-Assessoria

				
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posted:10/1/2012
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