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Elementos Paraverbais e N�o Verbais: A Intera��o no olhar Bahktiniano

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Elementos Paraverbais e N�o Verbais: A Intera��o no olhar Bahktiniano Powered By Docstoc
					      Elementos Paraverbais e Não Verbais: A Interação no olhar Bahktiniano
                                                 F. J. Costa dos Santos (Ppgel/UFRN)
                                As conversações são “construções coletivas” feitas de
                                palavras, mas também de silêncios e de entonações, de
                                gestos, de mimicas e de posturas, ou seja, de signos de
                                natureza variada: as conversações exploram diferentes
                                sistemas semióticos para se constituir.
                                                                Kebrat-Orechioni (2006:36)



       A interação humana é considerada uma atividade bastante conhecida pelo fato de
penetrar em várias áreas do conhecimento, propiciando o surgimento de uma visão
multidisciplinar. Para Rector & Trinta (1999, p. 8), interagir é manifestar uma presença
na esfera da vida social. É estar-no-mundo-junto-com-outros.
       Seja qual for a definição adotada para a interação, sabemos que, quando
interagimos, assim o fazemos, com o objetivo principal de transmitir mensagens, que se
constituem unidades do processo comunicativo. Essas mensagens podem ser
transmitidas pelo uso de códigos, que têm suporte físico de maneira diversa,
representado tanto pela palavra “fora” pronunciada pelo juiz para expulsão de um
jogador de campo até o erguer dos braços para indicar, no mesmo campo discursivo, o
término da partida.
       Para Cosnier et Brossard (1984), interação não verbal e verbal merecem um
ponto de destaque, uma vez que antes a linguagem só era vista como um sistema
arbitrário de comunicação, permitindo transmitir representações a outrem, sendo
valorizada apenas em sua realização acústica. No entanto, a interação multicanal tem
sido requerida por etnólogos, antropólogos, sociólogos, psiquiatras, dentre outras
especificidades, o que prova a sua plurifuncionalidade, evidenciando assim laços com o
não verbal realizados dentro de um gênero.
       Buscando compreender a noção de gênero, adentramos ainda mais no
conhecimento de Bakhtin para encontrar base teórica à afirmação de que não há
comunicação e/ou conversação fora de um gênero.
       A riqueza e a diversidade dos gêneros discursivos são ilimitadas, porque as
possibilidades de atividade humana são também inesgotáveis e porque cada esfera de
atividade contém um repertório inteiro de gêneros discursivos que se diferenciam e se
ampliam na mesma proporção que cada esfera particular se desenvolve e se torna cada
vez mais complexa (Bakhtin1986 p. 60).
       Pelas palavras de Bakhtin, somos levados a entender que a Análise da
Conversação (doravante AC) transita nas diversas esferas das atividades humanas
assumindo contornos contextuais próprios e procedimentos que permitem o
estabelecimento de relações de sentidos que vão para além do uso da fala e permitem
observar que as conversações são construtos coletivos, feitos não só de palavras, mas
também de gestos, silêncios e entonações, conforme nos aponta Kerbrat-Orechioni
(1996/2006 p.36) ao afirmar que “as conversações exploram diferentes sistemas
semióticos para se constituir”.
       É pertinente tomar a ideia de que “a visão é natural; criar e compreender
mensagens visuais é natural até certo ponto, mas a eficácia, em ambos os níveis, só
pode ser alcançada através do estudo.” (DONDIS, 1997, p.16). Mesmo sendo uma
“sociedade da imagem”, pouco se observa a busca de tentativas teóricas no sentido de
estruturar e analisar a linguagem visual.
       Tal fato merece atenção, pois a imagem, como linguagem que atende às
necessidades de comunicação do homem, em determinado contexto sócio-histórico, está
marcada por um modo de ser e por uma visão de mundo. “Toda linguagem é
ideológica”. (AGUIAR, 2004, p.75).
       Fundamentada pelo pensamento de Bakhtin/Volochínov (1929/2006), Aguiar
(2004) afirma que:

                        [...] todo signo é ideológico, pois possui um significado e remete a algo fora
                        de si mesmo. Um corpo físico (como uma árvore) vale por si próprio,
                        coincide com sua natureza; um instrumento de produção (como uma foice ou
                        um martelo) possui apenas uma função que é desempenhar um papel na
                        produção, sem um sentido preciso. No entanto, quando usados
                        intencionalmente pelos homens, tanto a árvore como a foice e o martelo
                        passa a ter uma ideologia: a árvore pode estar de propósito no plano
                        ornamental de uma praça, significando um modo de conceber a vida naquele
                        espaço urbano; a foice e o martelo são usados como emblemas da antiga
                        União Soviética, representando o governo comunista. Nos dois casos, esses
                        elementos desprovidos de ideologia, passam a ser tratados ideologicamente.
                        (AGUIAR, 2004, 79-80).

       Ora, se o signo linguístico defendido por Bakhtin está inerente ao processo
interacional ela tem uma carga ideológica que traz imbricada em sí, a interação se
materializa através de gêneros discursivos e, dessa forma, tendo por norte que toda
interação se realiza dentro de um gênero é necessário evocar o filósofo russo Mikhail
Bakhtin, mais uma vez, a partir dos conceitos clássicos de gênero estabelecidos por
Aristóteles e num processo de revisão histórica e literária, Bakhtin e um grupo de
pensadores, entre eles Medvedev e Volochínov que constituem seu Círculo, vão tecendo
a teoria ao longo de várias obras em que discutem a linguagem.

       Em Marxismo e filosofia da linguagem (2006), assinada por Volochínov, mas
cuja autoria é atribuída a Bakhtin, os comentários críticos giram em torno das teorias
existentes na época: a linguística saussuriana e a estilística.

       Entretanto, apesar de não tratar diretamente dos gêneros, observa-se a gestação
dos princípios fundamentais para a elaboração da teoria enunciativo-discursiva, cujo
desenvolvimento em estudos posteriores redundará na conceituação dos gêneros do
discurso, expressa numa de suas obras mais importantes, Estética da criação verbal
(2003), assinada por ele mesmo.

       Os capítulos que tratam da diferença entre tema e significação e da interação
verbal, na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem, são fundamentais para a
estruturação do conceito dos gêneros discursivos que será desenvolvido naquela obra.

       Assim, o princípio dialógico constitutivo de toda a comunicação, discutido em
vários textos ao longo do tempo, é o eixo em torno do qual seu pensamento se estrutura
e fundamenta a teoria dos gêneros discursivos. Apesar de tomar as obras literárias como
objeto de análise e aplicação da teoria, o autor não abandona as produções mais simples
de comunicação na vida diária, como se verifica no texto “Discurso na vida e discurso
na arte” (1926) assinado Voloshínov/Bakhtin, em que os enunciados do cotidiano são
discutidos, entre eles a forma mais elementar, os cumprimentos de cortesia que circulam
na esfera da convivência humana. É a partir dessas fórmulas simples que o autor vai
gestando o conceito de gênero, modelo organizador de toda a interação humana.

       Partindo do princípio de que toda a forma de interação é “um elo na cadeia
discursiva” (BAKHTIN, 2003: 299), porque ao interagirmos usamos palavras alheias
que herdamos de nossos antepassados e as atualizamos em função de nossas
necessidades atuais, projetando-os para os leitores/ouvintes imediatos e futuros, Bakhtin
também afirma que a escolha das palavras que usamos está intrinsecamente ligada à
proposta de interação, que por sua vez determina o modelo genérico que organiza o
enunciado.
       Para o filósofo da linguagem, aprendemos a moldar nosso discurso em formas de
gênero e, quando ouvimos o discurso alheio, já adivinhamos o seu gênero pelas
primeiras palavras, adivinhamos um determinado volume (isto é, uma extensão
aproximada do conjunto do discurso), uma determinada construção composicional,
prevemos o fim, isto é, desde o início temos a sensação do conjunto do discurso que em
seguida apenas se diferencia no processo da fala. Se os gêneros do discurso não
existissem e nós não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no
processo do discurso, de construir livremente e pela primeira vez cada enunciado, a
comunicação discursiva seria quase impossível. (BAKHTIN, 2003: 283).

       Em toda a forma de interação, o enunciador estabelece um diálogo permanente
com um destinatário implícito que tanto pode ser o mais próximo, quanto um possível
leitor distante no tempo e no espaço. Essa constituição interna do sujeito enunciador
determina o tema, a forma de composição e o estilo de sua produção. É justamente essa
relação que constitui os gêneros discursivos que circulam em qualquer esfera de
atividade humana, desde uma simples forma de cumprimento oral, considerada gênero
primário até as formas mais complexas que exigem um processo de elaboração mais
requintado como os literários, jornalísticos ou publicitários (op.cit.: 276 -7). Apesar de
se debruçar mais especificamente sobre enunciados verbais, Bakhtin não descarta a
possibilidade de considerar outras formas de manifestação enunciativa, ou seja, os
outros meios de expressão, conforme afirma:

                        Numa abordagem ampla das relações dialógicas, estas são possíveis também
                        entre outros fenômenos conscientizados desde que estes estejam expressos
                        numa matéria sígnica. Por exemplo, as relações dialógicas são possíveis entre
                        imagens de outras artes, mas essas relações ultrapassam os limites da
                        metalinguística. (BAKHTIN, 2002:184)

       Ao abrir esse espaço para a reflexão sobre novas formas de produção
enunciativa, Bakhtin permite a articulação dos estudos da linguagem numa perspectiva
verbo-visual, como fazem pesquisadores da estirpe de Brait (2005: 98).
       É nessa perspectiva que se inserem os elementos paraverbais e não verbais
realizados em um gênero discursivo e que semanticamente se aliam ao verbal para
consolidar a interação. Esses elementos são evocados pela Análise da Conversação
(doravante AC), que por sua vez, surge dentro da etnometodologia e se volta a
compreender as interações pelo viés da interação dialogada. Para Kerbrat-Orechioni
(1996), as conversações são “construções coletiva” feitas de palavras, porém recheadas
de silêncios e entonações, gestualidades, posturas e que exploram diferentes sistemas da
semiótica para formatar sua constituição.
       A autora vai chamar de material não verbal aquilo que é prosódico e vocal, ou
seja, as unidades que são transmitidas ao canal auditivo, tais como entonações,
particularidades de pronúncia, características da voz, etc., e de material não verbal
aquilo se insere no campo da visualização. Conforme a autora, esses elementos são
classificados como signos estáticos, cinéticos lentos e cinéticos rápidos. Os signos
estáticos vão dar conta da aparência física dos participantes da conversação, enquanto
que os cinéticos lentos apontam para o distanciamento, atitudes e posturas, por fim, os
cinéticos rápidos vão tratar do jogo de olhares, mímicas, gestos, etc.
       Ao falarmos desses elementos é preciso realizar a observação sobre a
importância destes materiais para o processo de análise por isso coloca-se como cabal
observar a coerência do diálogo.
       Parafraseando Kerbrat-Orechioni, podemos dizer que se excluirmos da análise
das conversações todos os elementos não verbais, seremos, em alguns casos, inca pazes
de explicar a coerência do diálogo, já que é nessa esfera de atuação que ocorre a
interveniência sucessiva de atos verbais e não verbais. Continua a autora dizendo que “é
impossível ao analista explicar o funcionamento global da interação, na medida em que
nela intervêm simultaneamente elementos verbais, não verbais e paraverbais” (Kerbrat-
Orechioni, 1996/2006 p. 39).
       De acordo com Kerbrat-Orechioni, (op.cit.), a importância do material
paraverbal e não verbal reside nos seguintes aspectos:
            • Certos comportamentos não verbais são considerados como condições de coerência do
            diálogo;
            • São importantes indicadores de passagens de turnos de fala;
            • Auxiliam a determinar significações implícitas;
            • São indicadores dos estados afetivos dos participantes, pois funcionam como vetores que
            privilegiam a expressão das emoções e indicam também as formas de relação interpessoal;
            • Têm a função de facilitadores cognitivos.


       Ainda buscando beber na fonte da mesma autora, podemos dizer que se
excluirmos da análise das conversações todos os elementos não verbais, seremos, em
alguns casos, incapazes de explicar a coerência do diálogo, já que é nessa esfera de
atuação que ocorre a interveniência sucessiva de atos verbais e não verbais. Continua a
autora dizendo que “é impossível ao analista explicar o funcionamento global da
interação, na medida em que nela intervêm simultaneamente elementos verbais, não
verbais e paraverbais”. (Kerbrat-Orechioni, 1996/2006 p. 39).
       Concluímos retomando Bakhtin e observando que o pesquisador russo jamais
utilizou os termos elementos paraverbais e não verbais na perspectiva que hoje
vislumbramos, contudo, seus estudos nos permitem concluir que mesmo sem utilizar tal
nomenclatura ele contemplou no conjunto de sua obra, olhares que abrem “campo de
suporte” para traçarmos uma linha de convergência para essa área do conhecimento.


Referencias:
AGUIAR, V. T. O verbal e o não verbal. São Paulo: UNESP, 2004.
BAKHTIN, m. m. Estética da criação verbal. Trad.do russo por Paulo Bezerra. 4. ed.
São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BAKHTIN, m.; VOLOCHINOV, V.N. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas
fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Trad. do francês por
Michel Lahude Yara F. vieira. 11. ed. São Paulo: Hucitec, 2004.
BRAIT, Beth; Bakhtin: Conceitos Chaves, Contexto, São Paulo, 2005.
DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da Conversação. São Paulo: Ática, 1986.
KERBRAT-ORECHIONI, C.; Análise da Conversação: Princípios e métodos; Trad.
Carlos Piovezani Filho; Parábola São Paulo SP;

				
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