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XX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação
Processo de mudança no Jornalismo Regional
Santos/São Paulo
Setembro de 1997
William Pereira de Araújo
2
Sumário
Resumo/Objetivo..............................................................................................................................pág.1
Introdução........................................................................................................................................pág.1
Surgimento dos jornais.....................................................................................................................pág.2
Estruturas precárias..........................................................................................................................pág.3
Principais mudanças.........................................................................................................................pág.6
Mudanças internas...........................................................................................................................pág.7
Pressão do ambiente externo..........................................................................................................pág.10
Conclusão......................................................................................................................................pág.14
Notas.............................................................................................................................................pág.15
Bibliografia......................................................................................................................................pág.16
3
Cátedra Unesco para o Desenvolvimento Regional
Processo de mudança no jornalismo regional
por: William Pereira de Araújo*
Resumo/Objetivo
O objetivo deste trabalho é identificar como alguns jornais regionais geralmente surgem, quais os
processos de mudanças pelos quais eles passam, bem como quais alterações estas mudanças
provocam na estrutura da empresa. Com isso utilizando-se a técnica exploratória e a exposição
discursiva, pretende-se resgatar aspectos da história desses periódicos, que geralmente são esquecidos
ou ignorados por aqueles que vivem e exercem a prática diária do jornalismo. Neste caso específico
recorreu-se a dois jornais de localidades diversas, instalados em regiões diametralmente opostas de
São Paulo: Diários de Mogi (Zona Leste) e do ABC (Zona Sul).
Introdução
O jornalismo regional no Brasil é um fenômeno que possui várias características, ancoradas em
vários fatores, dentre eles o econômico, o político, o cultural, o educacional. A história da imprensa
no Brasil também mostra que a maioria dos esforços ligados ao surgimento de veículos de
comunicação curiosamente sempre esteve acompanhado de iniciativas pessoais, geralmente eivadas
de idealismo (1). Com o tempo isso foi alterado, principalmente pelo avanço das cidades, o
crescimento dos veículos de comunicação e a tecnologia ligada a esse ramo (2). Juarez Bahia coloca a
década de 30 como uma fase importante para a consolidação do jornalismo. No Rio de Janeiro e em
São Paulo já existiam até agências de publicidade (3). Posteriormente esta fase é reforçada pelo
reaparelhamento gráfico, bem como pela ideologização na prática jornalística. Tais fatores serviram
para mostrar os veículos atrelados a partidos políticos --evidenciando a opção liberal-democrática--,
mas também demonstram o surgimento do jornalismo como empresa que sugere novas práticas e
divisões específicas de trabalho. A partir disso é possível entender as transformações que os jornais
passam a adotar, pois precisam atender a demanda de acontecimentos e de leitores. Estas pistas
históricas podem ser resgatadas geralmente por documentos ou depoimentos, que permitem de certo
modo reconstruir tais trajetórias. Nesse sentido, reconhecendo que os dados históricos
e contextuais
________________________________________
4
(*) William Pereira de Araújo é jornalista e professor de jornalismo na Universidade de Mogi das Cruzes, e integra a Rede de pesquisadores da
Cátedra Unesco
(econômico, político e social) são razoáveis na investigação, resolveu-se escolher para este trabalho
dois jornais com perfis diferentes, ambos pertencentes ao Estado de S. Paulo: O Diário de Mogi das
Cruzes (DM), há 50 quilômetros da capital paulistana (Zona Leste); e o Diário do Grande ABC, de
Santo André, há 30 quilômetros da capital paulistana (Zona Sul).
Para o entendimento deste trabalho cabem esclarecimentos quanto ao conceito de mudanças,
que estará sendo abordado neste trabalho. Entende-se por mudança o fenômeno que faz parte de um
processo maior, que especificamente neste caso se encontra no âmbito do desenvolvimento da
sociedade.
Os estudos relativos à mídia (TUFTE, 1996, 24-25) indicam que a América Latina recebeu
forte influência da teoria do desenvolvimento, que por sua vez possui três vertentes: 1) modernização;
2) teoria da dependência; e 3) teoria da participação popular. O principal teórico da modernização,
Walter Rostow, entendia esse termo como “algo simples, uma estratégia de desenvolvimento ideal e
mecânica”. Para ele, o desenvolvimento “era um processo linear em que o país deve passar por cinco
fases até chegar a ser uma sociedade completamente desenvolvida”. Já no âmbito da política, os
estudos que dizem respeito ao desenvolvimento são encarados como “investigações, através de várias
disciplinas sobre o desenvolvimento da sociedade” (...) e que “geralmente aceitam a teoria de que
desenvolvimento é o fenômeno multidimensional em que os fatores econômicos, políticos,
demográficos, sociais, tecnológicos e culturais se integram” (Roberts, 1972, 73).
Surgimento dos jornais
Os jornais são contemporâneos e começaram suas atividades na década de 50, período em que o
Brasil ingressava na cultura de massa. (4) A maneira como os jornais são criados mostram uma
característica típica da imprensa regionalizada, ou seja: o veículo surge como “empreendimento
individual, que sobrevive como tal até os nossos dias”, e que nessa época desaparece nas grandes
cidades em virtude da ascensão da burguesia (5). Aliado a esta característica está a vocação
liberal-democrática, da qual a imprensa, assim como os outros meios de comunicação jamais
abdicaram. (6) Como em todo empreendimento, os proprietários desses jornais também alimentavam
o desejo de que fossem bem sucedidos economicamente. Vale lembrar que “a história da imprensa é a
própria história do desenvolvimento da sociedade Capitalista”(7).
5
O fundador e atual diretor do Diário de Mogi, Tirreno Dasambiágio, entende que além de
almejar sucesso em termos econômicos (8), também pretendia colocar à disposição da sociedade local
um produto com a qual ela se orgulhasse. Já os proprietários do News Sellers (antecessor direto do
Diário do Grande ABC), em seu início, deixam prevalecer quase que exclusivamente o aspecto
comercial do projeto, possível de ser notado no critério de periodicidade e no sistema de distribuição
--gratuito desde o seu lançamento, em 11 de maio de 1958, até o ano de 1961, quando então foi
implantado o sistema de assinatura.
Estas características (jornalísticas, comerciais, empresariais, ideológicas e de interlocução com a
sociedade) que permeiam o surgimento destes jornais, apesar de estarem diluídas no processo, podem
ser observadas nas variáveis geradas na elaboração do jornal, bem como nas mudanças planejadas ou
impostas pelo meio em que esses veículos estão inseridos.
O Diário de Mogi das Cruzes, por exemplo, saiu praticamente das mãos do então advogado
Tirreno Dasambiágio, que em 1957 trabalhava na área administrativa do jornal Folha de Mogi,
idealizado pelo jornalista e historiador Isaac Grinberg. A Folha era um jornal diário elaborado desde
1947 em mimeógrafo, mas que a partir 1951 passou a ser rodado em máquina plana, em tamanho
standard. Suas atividades no entanto vão somente até o ano de 1954.
Antes disso no entanto ele é adquirido pelo jornal “O Liberal”, semanário que existia desde a
década de 20 e que sempre adotou uma postura de combate sistemático ao poder local. Com a
aquisição, a Folha de Mogi passou a adotar a mesma linha de atuação. Isso desagradou Dasambiágio,
que saiu logo em seguida. Apesar de ser formado em Direito, Dasambiágio e sua namorada Neid
resolveram introduzir na cidade um jornal que procurasse reproduzir os acontecimentos gerados
pela sociedade local. A idéia era interagir permitindo que a região crescesse (9). Na ocasião, apesar
das condições precárias, Dasambiágio, baseado na experiência adquirida, determinou que o jornal
fosse um diário. Eles acreditavam que somente com esta periodicidade é possível exercitar o
jornalismo e traduzir fielmente o que ocorre na sociedade. Para ele, “ter começado como diário valeu
a pena, porque marcou definitivamente o nome e a proposta do veículo”, afirma o proprietário (10).
Estruturas precárias
A insistência em tal projeto --independente das precáriedades-- indica também a convicção e
evidenciam as necessidades apresentadas na época, fatores que de certa forma caracterizam a missão
existente na prática jornalística. O Diário de Mogi, em tamanho standard, possuía oito páginas e
tratava basicamente dos assuntos locais. Sua primeira manchete registrava a preocupação com o
6
desenvolvimento da região: “Revolução nos subúrbios da Central com a utilização dos carros do
elétrico até Mogi.” A conexão com a capital paulistana via transporte ferroviário, introduzido após
1911, iria reduzir o trajeto a 1 hora e 25 minutos. (11)
Já o jornal da região do ABC não surge como diário e tampouco com o nome que possui
atualmente. O embrião do que viria a ser o Diário do Grande ABC é na realidade o jornal semanário
News Seller (tablóide de oito páginas), uma proposta baseada em um projeto piloto iniciado no bairro
da Vila Prudente, que por sinal trazia o mesmo nome. “O projeto não foi concebido com
característica empresarial, ou seja, ele foi implantado de maneira aventureira. Ele não foi planejado
para ser ou ter as características que têm hoje” (12). Segundo seus idealizadores, a proposta era
desenvolver o mesmo jornal em várias localidades --inclusive na Baixada Santista--, onde seria
identificado por uma cor peculiar (13). Este projeto, no entanto, foi abandonado posteriormente,
porque a produção jornalística e a captação de anúncios era feita pelos quatro sócios: Edson Danillo
Dotto, Fausto Polesi, Ângelo Puga e Maury de Campos Dotto.
Para o atual diretor do jornal O Diário do Grande ABC, Alexandre Polesi, pelas características
apresentadas verifica-se que o News Sellers foi introduzido na região do ABC como uma proposta
comercial, servindo como suporte para anunciantes. Seus idealizadores apostaram na potencialidade
industrial e comercial local, que começava a se despontar na produção de automóveis. A indústria
Ford já estava instalada desde agosto de 1930 em São Caetano; com a vinda da Volkswagen, em
1957, a região consolidou-se como “berço da indústria automobilística no Brasil” (14). Esta
característica comercial imposta ao News Seller no seu surgimento tem relação com a própria
formação de seus fundadores. Edson Danillo Dotto atuava em uma agência de publicidade --era o
único ligado à área de Comunicação--, Fausto Polesi era tecelão, Ângelo Puga atuava como
bancário, enquanto Maury de Campos Dotto trabalhava como contato de Vendas na Olivetti do
Brasil. Além disso, o jornal (formato tablóide, com oito páginas) era “simples, pobre e pequeno” (15)
e de início a empresa jornalística Sociedade Civil News Sellers não possuía dinheiro para imprimi-lo
(16). Portanto, o jornal News Seller, lançado em 18 de maio de 1958, “aproveitou o ambiente
favorável e surgiu como uma possibilidade de negócio, já que a região começava a despontar
economicamente.” (17) A repercussão, imediata, demonstrou que a região carecia de um veículo de
comunicação. Como estratégia, o jornal procurou assimilar as características regionais da cidade de
Santo André e do Grande ABC --macro-região que comporta sete municípios--, sobretudo porque na
ocasião a localidade evidenciava suas qualidades urbanas, demográficas e industriais.
7
As características ligadas ao surgimento dos jornais permitem observar que ambos nascem com
propostas diferentes não só na concepção da idéia de veículo, mas também pelas próprias
circunstâncias sociais vigentes, possíveis de serem percebidas pelos dados estatísticos existentes na
época. Mogi das Cruzes crescia vertiginosamente (18) e era considerada a 12ª cidade do Estado. A
região é composta basicamente de granjas e sítios dedicados à criação de aves e à hortifruticultura. A
cidade também conseguiu atrair algumas empresas e com o tempo seu perfil passou a ser um centro
industrial e agrícola. Neste mesmo período Mogi é classificada como o município de maior
população do Vale do Paraíba, enquanto Taubaté e São José dos Campos ocupavam respectivamente
segundo e terceiro lugar. Em 1950 a cidade registrava a existência de 61.553 habitantes, que lhe
colocavam em 14º lugar no Estado. Em 1958 este número estava na casa dos 90 mil habitantes. O
parque industrial instalado na cidade era formado por 200 fábricas. (19) Ao mesmo tempo, a cidade
de Santo André --onde surgiu o News Sellers--, registrava população superior a 150 mil habitantes
que, somados aos moradores de São Caetano (100 mil) e de São Bernardo (mais de 60 mil),
ultrapassava a casa dos 350 mil habitantes. Em maio de 1958, embora ainda não fosse denominada de
Grande ABC, a região era considerada “o triângulo industrial brasileiro.” Santo André ocupava o
terceiro lugar entre os municípios mais populosos do Estado e o oitavo entre os municípios
brasileiros.
Outro ponto interessante a ser observado diz respeito à concepção do veículo. Ambos se baseiam
em experiências anteriores, mas o enfoque é diametralmente oposto. O Diário de Mogi surge a partir
de experiências apresentadas por outros jornais locais que não deram certo (20). Para não incorrer nos
mesmos erros, seu fundador pensa primeiro em conquistar o ferramental necessário à imprensa, no
caso um local de trabalho (alugado) e uma máquina impressora (comprada). Também resolve
dedicar-se exclusivamente a esse ofício, já que havia optado pela periodicidade diária. Já o News
Seller assume um comportamento inverso. Para lançar o veículo, seus fundadores tomam por base o
Shopping News, veículo bem sucedido comercialmente. Além disso, elaboraram pesquisa de campo
que durou 72 dias para ficar pronta (21). O jornal, no entanto, não possuía maquinário ou sede, e por
isso precisava recorrer a terceiros (22). Com relação à prática jornalística, observa-se que os
fundadores do News Sellers dividiam tais tarefas com a profissão que exerciam paralelamente. Numa
análise prévia poderíamos dizer que o Diário de Mogi nasceu com o ideal mais jornalístico do que o
News Seller. É certo dizer também que cada um, a seu modo, conviveram com dificuldades próprias,
geralmente ligadas ao aspecto econômico interno, que serão ajustados posteriormente, à medida em
que consolidam suas estruturas --de identidade e de fixação-- nas respectivas regiões. O Diário de
8
Mogi era feito basicamente pelo proprietário e sua namorada, um linotipista e um impressor (23)
enquanto o News Seller era elaborado e entregue pelos seus proprietários (24) --posteriormente este
trabalho foi realizado por escoteiros mirins. Na visão do diretor do jornal, a característica regional foi
assimilada a partir do momento em que seus idealizadores perceberam que a região e seus moradores
viam o jornal como um referencial possível nesse processo de comunicação. Nesse sentido, foi a
prática diária e a observação do público que estabeleceram este parâmetro de adequação do jornal ao
público (25). Com isso, poder-se-ia dizer, à medida em que a empresa se estrutura e se alicerça, seus
valores e mesmo as relações implícitas no trabalho jornalístico, assumem novos compromissos, que
aos poucos distanciam-se da esfera individual rumo à esfera pública.
Principais mudanças
Antes de identificarmos os pontos de mudança existentes nos jornais, é preciso que se leve em
conta os conceitos de desenvolvimento pertinentes no âmbito social. Para tanto, recorreremos às
idéias de Daniel Lerner (26), sobretudo no que diz respeito às exigências feitas pelo ambiente externo
feitas pela sociedade, e interno, pertinentes à empresa jornalística. Num dado momento ele
questiona: “Que condições determinam se os veículos de massa se disseminam?”. Uma das condições
é a econômica, que entende a informação como uma mercadoria. Inserida nesse sistema, a empresa
jornalística deve observar os critérios estabelecidos, ou seja, a lei da oferta e da procura, que por sua
vez está associada a outros dois fatores: a capacidade de produzir --pertinente à empresa--, e a de
consumir --concernente ao mercado e ao leitor (este normalmente está inserido em um contexto mais
complexo: a sociedade).
Em ambos os jornais estudados pôde-se observar que a capacidade de produzir têm início
bastante comprometedor. A partir disso e do acompanhamento do desenvolvimento histórico é
possível identificar qual a principal mudança realizada pelos jornais, determinando assim o nível de
exigência feito à empresa jornalística, bem como o comprometimento daí decorrente. Antes é preciso
observar que tanto o Diário de Mogi como o News Seller assumem compromisso com seus
respectivos públicos, visando assim obter credibilidade e identidade dos leitores. Este, aliás, é um
pressuposto básico pertinente a esse ramo de atuação e, até o momento, não se tem informação de
nenhum veículo que tenha sobrevivido sem esses ingredientes. O veículo e a empresa, portanto,
precisam ser legitimados pela opinião pública.
Mensagens nesse sentido são emitidas a partir do lançamento do veículo e reforçadas
periodicamente, geralmente expostas em editoriais apresentados em datas comemorativas. Dentre
9
elas, observa-se que O Diário de Mogi se posiciona como um jornal que “cultuou o ideal de defender
a cidade e sua gente” (27), enquanto o Diário do Grande ABC assevera que sempre procurou seguir
a linha de conduta, a intransigência na defesa dos valores morais da sociedade, respeito pelo povo e
transitoriedade no mando, [sem jamais] ...aceitar prepotência dos donos do poder” (28) . Com estes
conceitos, os veículos esperam o sucesso, porque procuram estabelecer fidelidade e fidelidade ao
trabalho, bem como respeito aos valores morais vigentes, princípios considerados básicos no âmbito
do jornalismo. (29).
Com relação às mudanças propriamente ditas, observa-se comparativamente que o Diário de Mogi
sofreu menos alterações que o Diário do Grande ABC. Esta diferença é apresentada por meio de três
variáveis: 1) limitação nas capacidades produtivas na forma de captar, produzir ou distribuir as
informações (30) (essa deficiência no caso mogiano perdurou nos primeiros cinco anos);2)
incapacidade de gerar desenvolvimento a curto prazo; e 3) o que diz respeito ao crescimento da
sociedade local.
Pelo perfil traçado de ambas as regiões, nota-se uma vantagem acentuada no ABC,
determinada por vários fatores: proximidade de São Paulo, localização estratégica, nível de
investimento, perfil industrial --entre outros--, enquanto Mogi despertava suas potencialidades ligadas
ao cultivo da terra. O desenvolvimento dessas cidades, portanto, respeitou ciclos específicos e
diversos simultaneamente. Mogi, na década de 50, também “vivia a incerteza do futuro, determinado
por um fato que àquele tempo configurava uma tragédia: a inauguração da Rodovia Presidente Dutra,
distante de seu centro 20 quilômetros. Isso significava a mudança do traçado iniciado por
Washington Luís Pereira de Souza, quando construiu a ligação São Paulo-Rio, serpenteando as
cidades que se encontravam no caminho, entre elas Mogi das Cruzes. Por este e outros motivos,
lançar um jornal diário traduzia ousadia (31).
Uma característica preocupante no âmbito do desenvolvimento diz respeito à diminuição da
capacidade comercial, aventada em matéria publicada no dia 8 de julho de 1978 (p.8), entitulada
“Comércio local está sendo traído”, ocasião em que os comerciantes afirmam: “os mogianos, por
razão ainda desconhecida, estão sendo traídos pelos consumidores locais, já que os mesmos estão
estimulando o hábito de efetuar suas compras na capital paulistana, ao invés de privilegiar o comércio
local”. Portanto, se num dado momento histórico a falta de contato com a capital era sinal de atraso, o
benefício oferecido pela estrada de ferro a esta altura também representa a diminuição do progresso
do município, bem como a evasão de divisas. (32) Paradoxalmente, neste mesmo período a região é
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convidada a participar do Movimento Exportador, que enviaria alimentos para o Mercado Comum
Europeu, com previsão de fornecimento de 1 milhão de toneladas. (33)
Mudanças internas
No ambiente da empresa jornalística mogiana, a primeira mudança significativa foi de ordem
gráfica, por volta de 1962, com mudança de logotipo e na estrutura interna. “Logo que sentíamos a
necessidade de mudar algo, fazíamos as alterações, dentro das nossas possibilidades e de acordo com
o que surgia em nossas cabeças” (34). As mudanças, na realidade, eram criadas e introduzidas de
maneira gradativa, e, sem planejamento prévio, iam sendo assimiladas pelo pessoal interno, no
dia-a-dia. Não existe levantamento junto aos leitores de que tais mudanças tenham sido bem aceitas.
Este comportamento indica que na realidade as mudanças não eram precedidas de um planejamento
sistemático a médio ou a longo prazo, mas sim empiricamente, na dinâmica da pragmática
jornalística. Exemplo disso pode ser observado também na compra da Rádio Marabá, feita em 1978,
a partir de um entendimento que existia “na minha cabeça”, de que ambos os veículos (impresso e
radiofônico) poderiam se alavancar sucessivamente, dizia Dasambiágio à época. (35)
Entre 1964 e 1965, o ingresso de vários colaboradores, como Francisco Ornellas, Júlio Moreno,
Maurício de Souza, entre outros, deixaram uma marca indelével no produto jornalístico do Diário.
Nesta época o Núcleo Redacional trouxe nova inspiração na maneira como a realidade deveria ser
captada e retratada. Na ocasião o cadastro da empresa registrava a existência de aproximadamente
800 assinantes. O parâmetro utilizado para se efetuar as alterações na empresa e no veículo não se
orientava muito pelas mudanças ocorridas no ambiente externo, mas sim no entendimento que os
profissionais tinham sobre o que deveria ser o veículo. Nesse sentido, Dasambiágio acredita que as
mudanças ocorreram mais de forma instintiva, porque na prática não se fazia pesquisa para
fundamentar as alterações. (36) Na época o profissional, a partir da sua experiência, colocava em
prática as possibilidades de ajuste no produto. Isso indica a ausência de um critério científico e/ou
mercadológico na caracterização das mudanças. Em outras palavras, eram embasadas em improviso,
arte, e expectativa de sucesso comercial.
A segunda mudança, tida como fundamental, diz respeito à aquisição do terreno da nova sede,
em 1972, bem como a efetiva instalação, feita em 5 de outubro de 1974, na Rua Dr. Ricardo Vilela,
568. A ida para o “Palácio das Comunicações”, como era denominada a nova sede, consistia em “um
imperativo de progresso, “que idealizamos e construímos para nosso povo, nossa gente” (37).
Nessa ocasião deixou-se de imprimir em máquina plana, partindo-se para a impressão em uma
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rotoplana que recebia papel em bobina e permitia impressão de oito páginas em até duas cores. Nessa
época a tiragem estava na casa dos quatro mil exemplares. Portanto, a conquista de um espaço
próprio é sinônimo de garantia para os proprietários, funcionários e para o jornal. A partir disso, o
dinheiro das despesas podem ser melhor aproveitados como investimentos.
A última mudança significativa teve início em 1989 e foi consolidada em 1992. Trata-se de um
projeto de modernização que envolveu investimentos --na época-- da ordem de US$ 400 mil, que
alterou a “cara”do jornal. É interessante observar que estas últimas mudanças obedecem uma ordem
cronológica de ações, por mais espaçadas que sejam, o que induzem a considerar um determinado
planejamento. Melhorias de ordem técnica substituíram o velho linotipo pelo sistema nyloprint, e a
composição foi totalmente informatizada. Além disso, criou-se a editoria Nacional, com material
produzido pela Agência Estado e introduziu-se a página Empresas e Negócios, indicando a
consolidação do potencial industrial da cidade, bem como trouxe para suas páginas colunistas
renomados como Alexandre Garcia, Mônica Waldvogel. Leonel da Mata, Carlos Monforte, Boris
Casoy e Alberto Tamer. Esta medida é interessante, pois evidencia a busca de referenciais de
identidade em nível nacional para reforçar a identidade e a credibilidade local. Diz-se isso, porque
estes profissionais atuam em televisão e são bastante conceituados junto à opinião pública. Este
artifício no entanto já vinha sendo adotado por outros jornais à época.
O projeto gráfico foi desenvolvido em seis meses --de outubro de 1991 até março de 1992-- ,
segue a tendência de segmentação por cadernos, impresso em cores --segundo Dasambiágio foi
introduzida antes do Diário do Grande ABC, Campinas e Santos-- implantado pela empresa Atex, a
mesma que informatizou as Redações do The New York Times, The Guardian, Correio Popular
(Campinas), O Estado de São Paulo, National Geografic e Revista Veja (38) . A esta altura o caráter
regional até então acentuado no jornal ganha um redimensionamento, já que a segmentação por
caderno e assuntos de nível nacional também passam a ocupar espaço nas páginas do periódico. Este
detalhe indica, na realidade, uma adequação do produto ao nível informacional apresentado nas
sociedades modernas, que por sua vez são influênciadas por outros fatores: aumento do poder
aquisitivo, acesso a outros níveis de informação, acesso a outras tecnologias etc. Com isso o jornal
ficou mais completo, porque em avaliação posterior “várias pessoas da cidade afirmaram que não
assinariam mais a Folha de S. Paulo nem O Estado de S. Paulo, porque o Diário trazia todas as
informações necessárias.” (39)
Em todo esse processo histórico --cujo relacionamento foi sendo estabelecido às vezes
inconscientemente, às vezes com total envolvimento-- o jornal foi um dos responsáveis pelo
12
desenvolvimento da empresa. Para Dasambiágio, “o jornal é filho da cidade, mas ele a ajudou em seu
crescimento. Nós não apenas interagimos com a cidade como também a acionamos em vários
aspectos.” (40)
Em 91, o parque gráfico do jornal recebe a rotativa Goss Community, financiada pelo Banco
Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), adquirida, na época, por US$ 700 mil. (41)
Nesse período a empresa também estendeu sua estrutura por cidades próximas, instalando várias
sucursais. A iniciativa trazia no seu bojo um misto de arrojo e ação mercadológica, porque data desse
período o avanço feito pelo concorrente Diário de Suzano, popularmente conhecido como “DS”.
Esta estrutura de postos avançados perdurou por algum tempo, mas foram desativados
gradativamente. Em meio a essas mudanças o conceito do jornal também foi estrategicamente
alterado --muito mais no âmbito gráfico--, porque a partir de então seu nome, que era disposto em
uma única linha, começa a ser apresentado apenas como “O Diário”, em letras garrafais, enquanto o
complemento “de Mogi”, é aplicado em tamanho menor, indicando assim uma ligeira alteração
conceitual para poder circular mais livremente pelas cercanias. Atualmente o jornal pratica uma
tiragem em média de 16 mil exemplares e é distribuído nas cidades de Mogi, Suzano,
Itaquaquecetuba, Ferraz de Vasconcelos, Santa Isabel, Arujá, Biritiba Mirim, Salesópolis, Guararema,
Poá e Bertioga. É interessante observar que junto a esta última mudança estão atreladas outras, tais
como a criação de uma holding que agrega sob o denominação de Rede Grande São Paulo de
Comunicação S.A as seguintes empresas: o Diário, a Rádio Diário, a Revista Ato e a gráfica Central
Print, que além de imprimir o jornal, presta serviços para outros clientes”(42).
Consta também desse período também a criação de um setor de pesquisas que geralmente é
acionado para gerar matérias ou para averiguar o comportamento do mercado local (43). Uma mudança
que o Diário de Mogi vem assimilando sem traumas é a transmissão da herança para os herdeiros,
fator que vem ocorrendo há mais de 10 anos. (44) Dasambiágio afirma que “a sucessão o preocupa,
...mas os meus dois filhos (Túlio e Spartaco) estão tomando a rédea do negócio. Eu sempre disse a
eles que fizessem as coisas de acordo com suas vontades.”
Pressão do ambiente externo
O Diário do Grande ABC, em virtude do crescimento acelerado de seus bens patrimoniais,
antecipou esta fase de mudanças ao realizar um ajuste societário, colocando em risco o
funcionamento das empresas que já faziam parte do grupo, como a Rádio Scala FM (freqüência
modulada), uma emissora em AM (ondas médias), uma gráfica e mesmo um canal de TV UHF,
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que não chegou a funcionar. Alexandre Polesi afirma que esta reacomodação da composição
societária praticamente desfez a formação original do grupo, dividindo todo o patrimônio até então
adquirido. (45)
Mas as mudanças mais significativas, na visão do atual diretor, tiveram início no ano de 1968,
quando o jornal, baseado em extenso levantamento, decidiu adotar a periodicidade diária e trocar o
nome de News Seller para Diário do Grande ABC. O espaço de 10 anos para se transformar em
diário, acredita Polesi, foi o tempo necessário para que os fundadores começassem a ver que o
projeto não era mais uma aventura. Além disso, havia uma certa “pressão” (ou expectativa) para que
o veículo assumisse essa identidade.(46). Se isso não ocorresse, poderia ter havido um retrocesso.
Notadamente, tal atitude traria como decorrência outras mudanças. Uma impressora, que seria
ferramental indispensável para se imprimir um jornal diário já havia sido adquirida em 1962. (47) A
partir de 1965, ele passa a ser bissemanal. Ainda nesse ano a empresa adquire uma rotativa MAM de
um jornal de Campinas, que permitia imprimir em cores e em formato standard, medida adotada a
partir de 3 de abril de 1966. Nota-se com isso que as exigências exteriores, tais como ambiente
precário de trabalho (48), aliadas à boa receptividade do veículo faz com que os proprietários cada vez
mais apostem no veículo. Isso vai de encontro ao que pensa Daniel Lerner (49) e que diz respeito à
esperança e à conquista propriamente dita, verificáveis no que ele denomina de mobilidade individual
e estabilidade institucional, que traduzem o equilíbrio da sociedade. Nesse sentido, a empresa
jornalística, na medida em que interage com a sociedade também estimula em maior ou menor grau
seus desejos e suas frustrações. Portanto para a empresa jornalística News Seller o desafio daí para a
frente seria estruturar uma empresa com um perfil que até então não existia. Até o momento,
portanto, fica claro que o distanciamento existente entre as duas regiões (Mogi e ABC) começa a
refletir inclusive nas exigências feitas pelas circuntâncias exteriores.
É interessante observar que na primeira fase do jornal News Seller, os sócios se encarregavam
de todas as tarefas pertinentes à produção e à administração jornalística. Quando o jornal passa a ser
diário, cada um deles assume uma função específica: Fausto Polesi responsabiliza-se pela Redação do
jornal, Edson torna-se o “publisher” do veículo, Maury passa a cuidar da área comercial, enquanto
Ângelo se incumbe da parte administrativa.
A partir dessa decisão o crescimento é acentuado, porque nos anos 70 o jornal/empresa adquire
uma emissora de rádio AM (50) e monta uma gráfica para atender a terceiros. Na década de 80
compra uma emissora FM, a rádio Scala --que em 88 instalou antena na avenida Paulista, e realizou
testes para inaugurar um canal de TV UHF.(51) No final da década de 70 o jornal já ocupava
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importante lugar no contexto da imprensa brasileira. “É o primeiro no interior em número de páginas
e consumo em papel. É o segundo em volume de anúncios no Estado, a 14ª empresa do Brasil (a 4ª
em São Paulo) em patrimônio líquido e está colocada como a terceira empresa jornalística do Brasil
(primeira em São Paulo em percentual de rentabilidade)” (52). Na ocasião, a equipe era formada
por 70 profissionais, divididos em onze editorias; cerca de 1.500 notícias chegavam pelos teletipos e
aproximadamente 300 eram publicadas.
Outra mudança significativa foi a aquisição e inauguração da rotativa off-set Solna (máquina
sueca), em 74, que melhorou significativamente a qualidade do produto.Essa inovação exigiu que se
inaugurasse o prédio novo da Rua Catequese. À esta altura o jornal já está consolidado na região.
Nessa época o jornal precisou enfrentar a ação de outro concorrente, o Correio do Povo, com perfil
bastante parecido ao do Diário do Grande ABC, porém ligado a grupos políticos da região. Para
enfrentá-lo o Diário precisou reforçar seu time de profissionais. Esta concorrência, na realidade,
serviu para profissionalizar ainda mais o jornal. Fato semelhante ocorreu também em 1991, com o
ingresso de uma sucursal da Folha de S. Paulo na região, exigindo do Diário um esforço redobrado
para contê-los.(53). A mudança no perfil gráfico foi feito da noite para o dia: investiu-se
pesadamente na captação de anunciantes, alterou-se a estrutura de trabalho e foram criadas várias
sucursais. Além disso, o jornal começou a circular às segundas-feiras --a exemplo do concorrente,
que atua em nível nacional--, exigindo ampliação de 20% no quadro de profissionais. Esta batalha
durou cerca de três anos. Associando o quadro recessivo apresentado no País e a retirada da
concorrente da região, o Diário do Grande ABC resolveu retomar patamares anteriores de
desenvolvimento. Com isso deixou circular às segundas-feiras, reduziu o quadro de profissionais e
fechou várias sucursais. Paralelamente surgiu um desequilíbrio societário, em dezembro de 1992, que
abalou profundamente a estrutura da organização. Na ocasião, seus fundadores resolveram fazer um
ajuste na sociedade, promovendo a venda e a transferência de vários bens (54).
O setor gráfico continuou existindo, mas hoje é uma empresa independente, sob a direção do
ex-diretor Ângelo Puga. Na época o jornal quase fechou. Nesse período foi necessário uma
reestruturação total da empresa para poder salvá-la. Na ocasião o jornal possuía cerca de 700
funcionários e precisou reduzir o quadro para 600 pessoas. Este período pode ser identificado com o
que diz Lerner, ou seja, que “uma boa sociedade” pode ser o resultado de uma seqüência de
desenvolvimentos feitos em curtos prazos e seguidos de uma certa estabilidade. Para ele, a frustração
surge na sociedade por meio de um desequilíbrio provocado pelo avanço de uma determinada área.
Analogamente, esta crise apresentada no Diário do Grande ABC caracteriza muito mais uma ausência
15
de equilíbrio interno, do que propriamente uma exigência externa. (55) Consoante a isso, Wilbur
Schramm declara que em uma transformação social, denominada de desenvolvimento econômico,
...uma linha jamais pode se adiantar à outra, sob pena de comprometer todo o sistema e impedir o
progresso. (56)
O resgate de algumas empresas da organização, dentre elas o jornal, fez com que a direção do
veículo passasse a se apoiar em dados mais empíricos. Para fugir do monopólio informacional das
agências, o jornal, associado à Tribuna de Santos (jornal) e a um Diário de Campinas, montou uma
agência de notícias. Correspondentes em Brasília e no exterior garantem diversidade e exclusividade
nas informações e com isso o jornal consegue atender um público que se torna cada vez mais
sofisticado e exigente. Estes dados foram apresentados em pesquisas realizadas pelo jornal desde
1990, e indicam que o veículo deve primar pela qualidade e não pela quantidade informacional. Esta
ação indica também que deixou-se de agir apenas em função das emergências e das pressões externas.
Com relação às mudanças feitas no produto, observa-se que em maio de 1993 (57) ocorreu
outra mudança no aspecto gráfico, com lançamentos de cadernos para os jovens, bem como cadernos
temáticos que circulam em datas específicas da semana. Estas mudanças, foram feitas de dentro para
fora, porque os novos dirigentes do jornal queriam sinalizar o compromisso com os leitores. E a
melhor forma foi melhorar o produto. Todas essas mudanças, segundo o diretor, foram bem recebidas
(58). Em 1995 foram realizadas as “últimas mudanças, ou pelo menos as que ainda repercutem no
ambiente interno da empresa: compraram e inauguraram uma nova rotativa, a Unimam 4/2 --de
origem alemã--, que permite rodar 60 mil exemplares por hora, com até 48 páginas. A máquina
possui registro automático, troca bobinas automaticamente e reduziu o tempo e a perda de papel.
Segundo Polesi, as cores foram introduzidas no jornal por volta de 1991, mas não eram aplicadas em
todos os cadernos. As mudanças gráficas e a introdução de novos cadernos (Esporte, Economia,
Dia-a-Dia, Suplemento Moda e Decoração) a partir de 93, também permitiu a ampliação do número
de colaboradores além de ampliar os noticiários das editorias Nacional e Cidades. Nessa época
também foram lançados o caderno de Empregos (semanal) e de Imóveis (diário). Com estas
inovações, a tiragem saltou para os 45 mil exemplares atuais. O jornal, a exemplo do Diário de Mogi
das Cruzes, também está desenvolvendo campanha para conquistar mais assinantes. O Diário de
Mogi pretende sair dos 13 mil atuais para 30 mil assinantes, enquanto o Diário do Grande ABC
pretende engordar a carteira de assinantes com mais 15 mil leitores. Também a exemplo de Mogi das
Cruzes, se bem que de uma maneira mais acentuada, o jornal tem acompanhado os desdobramentos
do fenômeno de desindustrialização da região, provocados pelo esgotamento da capacidade do setor
16
metalúrgico local. Hoje a região apresenta cerca de 2,5 milhões de habitantes e registra uma forte
tendência emigratória.
A migração rumo ao ABCD que ocorreu nos últimos 20 anos está praticamente zerada com a
saída das empresas, segundo constatação feita em pesquisas recentes. Diante disso, a realidade
socio-econômica ganha nuances diferentes daquelas que deram origem ao jornal. Hoje verifica-se a
seguinte tendência: muitos operários que conquistaram melhores padrões de vida se fixaram na
região, porque casaram-se, possuem filhos, e estes preferiram ficar instalados na cidade. Isso de certa
forma explica porque o leitor está mais exigente. É interessante lembrar-se quer há 15 anos as
informações econômicas apresentadas no jornal resumiam-se em negociações ou greves, ao passo que
hoje o leitor quer saber mais sobre investimentos, marketing, informática, franshising, oportunidades
de negócios, qualidade dos serviços, entre outros. Tudo isso passou a ser verificado a partir de 91,
através de várias pesquisas.
Hoje o Diário do Grande ABC não possui concorrentes diretos, a não ser os de grande porte,
como a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo . Uma explicação razoável está no fato da cidade ter
sido praticamente incorporada ao perímetro urbano da capital paulistana. Com isso, os parâmetros
referenciais de qualidade e de concorrência naturalmente passam a ser a grande imprensa. Em 1975,
por exemplo, o jornal já apresentava o número de inserções de anunciantes quase nos mesmos
patamares de o Estado de S. Paulo (1.778.236, sendo 71% classificados e o restante anúncios de
página inteira). Na época 62% do seu conteúdo era destinado aos assuntos regionais. (59) O jornal,
que sempre investiu pesado na captação de anúncios, vê em 1983 as pesquisas indicarem que seus
classificados “são eficientes”. “São nove balcões no ABC e em São Paulo, com 40 profissionais. A
metodologia garante que 99% dos telefonemas são atendidos”. Nesse sentido, “a empresa é a terceira
a adotar os ‘módulos de publicidade’, lançados em janeiro de 82 nos EUA.”
Conclusão
A conclusão obtida desse levantamento é de que ambos os jornais passaram basicamente pelas
mesmas mudanças macroestruturais, tais como local para instalação, aquisição de maquinário
adequado, apresentando apenas ligeiras variações entre uma e outra . Há que se destacar também que
ambos evoluíram dentro das possibilidades disponíveis na região, obedecendo o tipo de estrutura e
administração específicas. A única exceção é feita à fase em que o Diário do Grande ABC sente de
maneira mais acentuada o desequilíbrio gerado por uma redistribuição dos bens e dos poderes
internos da empresa. Tal fenômeno, como foi dito, expressa um desequilíbrio entre o que se desejava
17
e o que se tinha de efetivamente prático. Ou, como diz Lerner, “uma pessoa com altas realizações
pode estar descontente se suas aspirações excederem, de muito, as realizações” (60).
Depreende-se ainda deste estudo o fato de que num dado momento ambos os jornais, como que
pressionados por mudanças ocorridas no ambiente externo, elaboram mudanças mais alicerçadas em
pesquisas, demonstrando, com isso, respeito pela opinião pública e, até certo ponto, ampliando o
nível profissional dos processos de produção. Além disso, nota-se que no surgimento desses veículos
o interesse pela propriedade jornalística e seu produto misturam interesses pessoais, românticos e até
comerciais no processo de desenvolvimento. Posteriormente, no entanto, observa-se que a estrutura
organizacional e de divisão das atividades exigem dos administradores outros níveis de
responsabilidade. Isso caracteriza indiretamente o crescimento da cidade e configura os níveis de
exigências impostas pelo meio social.
No tocante às ações propriamente ditas, observa-se que de um modo geral ambos os veículos
procuraram realizar investimentos periódicos, sempre procurando associar aos mesmos outras
alterações paralelas, geralmente ligadas à melhoria do produto jornalístico. Isso deixa transparecer
também que aos poucos os jornais vão assimilando características e tecnologias adotadas por grandes
empresas jornalísticas, e neles se baseiam comparativamente. É o que indica as melhorias
introduzidas nestes jornais, tais como cores, número de cadernos, suplementos, prestação de serviço,
entre outras.
Fica evidente também que para estes jornais, as pressões externas, quando passageiras levam a
estímulo momentâneo do desenvolvimento, tendendo posteriormente a retomar patamares normais de
evolução.
Notas
(1) Ver Sodré, Nelson Werneck; A História da Imprensa no Brasil; São Paulo; Martins Fontes; 1983; 3ª edição.
(2) Ver Bahia, Juarez; Jornalismo, História e Técnica; São Paulo; Ibrasa; 1972; 3ª edição.
(3) id.ib., p 61
(4) id. ib. p.93 : Dados da Unesco em 1966 mostram que a população brasileira cresceu mais de 10 milhões de pessoas, de 57 a 66, ou seja 5,3
exemplares de jornais; 6,6 aparelhos de rádio; 2,4 receptores de televisão e 2,7 lugares em cinema, para cada 100 brasileiros
(5) Nelson Werneck, op. cit. p.275.
(6) Juarez Bahia, op. cit., p92.
(7) Nelson Werneck, op,cit.p.1
(8) Depoimento concedido pelo diretor de o Diário de Mogi das Cruzes, dia 14 de outubro de 1996. Prova disso é que o Diário de Mogi, desde o início,
conseguiu se sustentar com as vendas de anúncios e com as assinaturas, entregues em bicicletas, bem como por meio das vendas feitas em bancas.
Destaca-se, neste caso, a prática (ou a tentativa) de um modelo, equilibrado das funções atribuídas ao jornal-empresa.
(9) idem: depoimento obtido em entrevista.
(10) idem: depoimento obtido em entrevista com o diretor do jornal.
(11) Em 1911 o poeta Joaquim de Mello Freire procurou o então prefeito Manoel Alves dos Anjos para uma análise dos motivos de atraso da cidade e
eles concordaram que isso ocorria em virtude da falta de condução (O Diário de Mogi, 1 de setembro de 1972, p.25).
(12) Depoimento do diretor do Diário do Grande ABC, Alexandre Polesi, concedido em entrevista no dia 18 de outubro.
(13) Diário do Grande ABC, maio de 1978, p.2
18
(14) A Volks iniciou suas atividades no Brasil em 1953. Ela funcionava na Rua do Manifesto ( Bairro do Ipiranga), em um barracão alugado, onde 12
empregados montavam Kombis e fuscas importados da Alemanha. No novo endereço, a Volks ocupou um terreno de 2.229.807 metros quadrados no
km 23,5 da Via Anchieta (O Diário do Grande ABC, Suplemento Especial, 15 maio de 1988, p.11)
(15) O Diário do Grande ABC, Maio de 1978, p.3
(16) idem. ibidem, p.4 - Tal iniciativa só foi possível porque a loja Sears fez a inserção de três anúncios, permitindo assim a publicação de lançamento.
Só para se ter uma idéia, o restante do dinheiro daria para pagar a segunda edição.
(17) Depoimento do diretor do Diário do Grande ABC.
(18) A edição nº 209 de 1 de setembro de 58 do Diário de Mogi menciona o progresso mas não dá detalhes numéricos
(19) No ano que antecedeu o surgimento do Diário de Mogi, 1956, a produção da cidade --industrial e agrícola-- subiu a Cr$ 1,9 bilhões, bem como
registrava a existência de 30 mil eleitores. Já em 1957, o município apresentava mais de 1 mil chácaras, a maioria cultivada por japoneses e cuja
produção abastecia o Distrito Federal; a produção de ovos provenientes das granjas somavam 12 milhões de dúzias que seguiam para São Paulo e Rio
de Janeiro (Diário, 1 de setembro de 1958 p.8 ).
(20) No editorial do jornal do dia 13 de setembro de 1969, vê-se que “a história do jornalismo em Mogi das Cruzes é toda marcada por
empreendimentos frustados. Jornais surgiram e desapareceram na correnteza das dificuldades financeiras. Quem descobriu as possibilidades da
imprensa diária, estabelecida na base de uma organização comercial foi o jornalista Isaac Grinberg, ao lançar a Folha de Mogi.”
(21) “Os motivos de atraso no lançamento são basicamente a demora nas pesquisas, a não chegada do papel para imprimir, bem como a falta de
dinheiro para rodar na gráfica do Jornal “O Tempo” (O Diário do Grande ABC, maio de 1978, p.4.).
(22) Não obstante o News Seller se apoiar em um jornal comercial, na região existiam os seguintes veículos: A Folha do ABC, Tribuna Popular, Folha
Metropolitana e Jornal de Utinga. O Repórter, um bissemanário que já havia sido diário, deixou de circular em 30 de março de 1975 (O Diário do
Grande ABC, 6 de maio de 1979).
(23) Em entrevista concedida ao jornalista Darwim Valente, Dasambiágio afirma que em 1959 “eu já dividia os serviços com Jair Monsores, Diomar
Ackel Filho, Moura Santos, seguidos de Arístio Serra, Netinho, João do Prado, Keca, Roberto Mongueiro e Alberto Steola, In: Revista Ato, março de
1991, p. 9.
(24) Os quatro sócios acompanharam e ajudaram na distribuição de 5 mil exemplares na região do ABC, dia 11 de maio de 1958, “e só abandonaram o
posto depois que o último exemplar foi entregue” (O Diário do Grande ABC, 11 de maio de 1978)
(25) Depoimento de Polesi.
(26) Ver “Para uma teoria da comunicação no processo de modernização” IN: Comunicação e Desenvolvimento Político”, organizado por Lucian W.
Pye, R.J. Zahar Editores, 1967.
(27) O Diário de Mogi, Suplemento Especial, 27 mar 92, p. 2.
(28) Diário do Grande ABC, 11 de maio de 1977.
(29) Entrevista de Maury Dotto, um dos sócios do jornal, à Revista Marketing, fevereiro de 1977.
(30) Segundo Dasambiágio, ele mesmo captava e produzia as informações para as oito páginas diárias do jornal.
(31) A cidade, no entanto, possuia uma forte característica ligada à lavoura, desenvolvida basicamente pelos imigrantes japoneses e que prevaleceu
forte pelo menos até meados da década de 70. Nesse período o perfil desses trabalhadores começa a ser alterado, principalmente quando se observa que
os filhos dos imigrantes começam a optar por outras profissões. Além disso, a região teve tolhida sua possibilidade de abrigar novas indústrias, uma
vez que tem suas áreas delimitadas pela Lei de Proteção aos Mananciais (O Diário, Suplemento Especial de Aniversário, 13 de dezembro de 1994).
(32) “O êxodo é de pessoas de regular poder aquisitivo. ...O que se lamenta é que as pessoas compram na Capital e não sondam os preços do comércio
local.” As lojas existentes nas ruas 25 de Março, José Paulino e Liberdade são as pricipais concorrentes. ...“Os comerciantes [da região, no entanto]
nunca empreenderam movimento para enfrentar ou reduzir a concorrência. ...O que está faltando é uma campanha de esclarecimento público que
motive a população a comprar em Mogi” (idem ibidem, p.8.)
(33) No dia seguinte, 9 de julho, o vereador Minor Harada mostra que a região está passando por mudanças ao comparar a estagnação do número de
trabalhadores rurais. Segundo os dados obtidos por ele, em 1950 havia 20.669 e em 1972 eram 27.972 agricultores, e isso significava um crescimento
de 35% em 22 anos, ou 1,6% ao ano.
(34) Depoimento de Dasambiágio.
(35) Depoimento de Dasambiágio.
(36) Depoimento de Dasambiágio.
(37) O Diário de Mogi das Cruzes, 5 de outubro de 1974, p.12 - Editorial.
(38) O Diário, Suplemento Especial de Aniversário, 13 de dezembro de 1994, p.8.
(39) Depoimento de Dasambiágio
(40) Depoimento de Dasambiágio ao autor
(41) A máquina é dividida em cinco unidades e tem a capacidade de imprimir de 25 mil a 30 mil jornais por hora, com exemplares de até 20 páginas
em cores (Revista Ato, março de 1991, p12).
(42) Revista Ato, março de 1991, p. 12.
(43) Depoimento de Dasambiágio ao autor.
(44) Entrevista a Darwin Valente (Revista Ato, março de 1991.
(45) Em junho de 83 a Revista Meio e Mensagem, p. 15, trazia as seguintes informações: O jornal é o terceiro mais lido na Grande São Paulo e possui
um capital social de Cr$ 465 milhões e faturamento da ordem de Cr$ 960 milhões. O público leitor é predominantemente masculino (70%) e apresenta
tiragem entre 48mil e 75 mil nos fins de semana
(46) A região exigia [um jornal diário] muito embora, na opinião de muitos se tratasse de grande aventura, já que grandes políticos e homens de
empresa haviam fracassado,...A transformação se tornara inevitável, sob pena de haver total estagnação na empresa.
(47) Nessa ocasião dados do IBGE comprovam que Santo André era considerada a cidade mais populosa do Estado, ocupando o primeiro lugar com
279.610 habitantes, enquanto Mogi está em 11º lugar com 109.712 habitantes (O Diário de Mogi, 1 de setembro de 1965, p.18)
(48) No início, na Redação localizada em uma sala à Rua Coronel Oliveira Lima, 252,O News Seller possuia uma escrivaninha, um armário, uma
mesa e algumas cadeiras. O instrumento de trabalho era uma máquina de escrever portátil Smith Corona e não havia telefone (O Diário do Grande
ABC, 10 de maio de 1987). Isso também ocorria com o Diário de Mogi das Cruzes, que funcionava na Rua Barão de Jaceguai, possuia uma
impressora, os jornais eram dobrados na mão e às vezes Tirreno Dasambiágio levava a única màquina de escrever para a Delegacia de Polícia, onde
redigia várias das matérias que seriam publicadas no dia seguinte.
(49) Daniel Lerner, op.cit. p. 192.
(50) A Rádio AM 1.300 entrou no ar em 1956 como rádio independente. Em 29 de outubro de 1969 a concessão foi transferida para o Diário, que a
remodelou totalmente. A partir de 11 de janeiro de 1970 passou a ser Rádio Diário do Grande ABC e em 1988 é uma das 10 rádios mais ouvidas
(Diário do Grande ABC, dia 15 de maio de 1988)
19
(51) Em 6 de maio de 1988 a Portaria do Ministério das Comunicações, por intermédio do Dentel outorgou à Rádio Diário do Grande ABC a
permissão especial para executar serviço especial de televisão UHF, em Santo André, utilizando o canal 40 (Diário 15 de maio de 1988).
(52) Ver Diário do Grande ABC de 30 de Dezembro de 1979.
(53) Antes disso, porém, há registro de que a empresa, em fase de expansão, investiu US$ 6,5 milhões em seu parque gráfico, quando entraram em
funcionamento 40 terminais de videotexto e de CPUs, bem como uma nova torre da Rádio Diário do Grande ABC FM na avenida Paulista (Diário do
Grande ABC, 10 de maio de 1987).
(54) A rádio AM foi vendida para terceiros, a emissora FM transferida para o antigo presidente do jornal, que a vendeu posteriormente para a igreja
Universal do Reino de Deus.
(55) Daniel Lerner, op.cit., p. 193.
(56) O Desenvolvimemnto das Comunicações e o Processo de Desenvolvimento, In: Comunicações e Desenvolvimento Político, op. cit. p.27.
(57) Nessa época o Diário do Grande ABC ocupa a 14ª posição no ranquing das empresas jornalísticas do País, segundo Balanço Anual da Gazeta
Mercantil, edição 1992. Pelos índices alí apresentados, o Diário é o maior jornal regional do Brasil, superando várias publicações de outras capitais e
Estados, como O Diário de Pernammbuco e o Jornal do Comércio, do Recife, bem como o jornal O Estado do Paraná.
(58) Depoimento de Polesi.
(59) O jornal adquiriu status de jornal de grande porte pela dinâmica de seu conteúdo e pela importância da parte comercial. Em 1976, lidera o número
de inserções na parte de anúncios classificados e só está abaixo do Estado de S. Paulo (Maury de Campos Dotto, em entrevista à Revista Banas,
setembro de 1976).
(60) Lerner, op. cit. p. 194.
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Bibliografia
1972 BAHIA, Juarez; Jornalismo, História e Técnica, Ibrasa, São Paulo, 3ª edição
1973 LERNER, Daniel, Comunicação e Mudança nos Países em Desenvolvimento, Melhoramentos, São Paulo
1972 ROBERTS, Geoffrey K. Civilização Brasileira, RJ. GB
1983 SODRÉ, Nelson Werneck; A História da Imprensa no Brasil, Martins Fontes, São Paulo, 1983; 3ª edição
1996 TUFTE, Thomas; Estudos de Mídia na América Latina,1996, In: O Pensamento Latino Americano em
Comunicação, Comunicação e Sociedade nº 25, IMS, S.B.C, São Paulo
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