OC astanheiro em Festa by yH3oXX

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									O Castanheiro em Festa
Marvão
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Este ano vamos ter, no fim-de-semana do S. Martinho (11 e 12 de Novembro), a XXIII
Festa da Castanha de Marvão. Nunca será de mais falar-se desta festa cujas raízes
mergulham nas brumas do tempo e andam associadas às manifestações populares em
torno            das             últimas              colheitas           do             ano.
Porque o tempo ‘do castanho ao cerejo’ era de míngua ou não, conforme a bolota e a
castanha eram em abundância ou não. Havia toda a necessidade de implorar as boas
graças divinas para as colheitas e até para a purificação das almas dos que partiram.
Do que peregrinei pelo Portugal fora, em busca de Festas e Feiras da Castanha e do
Castanheiro, nenhuma é tão antiga como a de Marvão. Tão antiga e tão bem organizada
pelo município, apenas a Festa da Castanha de Curral das Freiras, humilde e generosa
aldeia da ilha da Madeira, conserva as tradições etnográficas com um cunho sem par,
registando                     a                      mesma                     antiguidade.
A Festa do Castanheiro de Marvão aproxima-se da perfeição do que deve ser uma Feira
ou     Festa   temática:     semear      para    colher    durante    o   resto   do     ano.
Ao contrário, as demais do país vêem na feira temática uma ocasião para ‘esfolar’ os
feireiros e turistas que as procuram, que dê para o resto do ano.
Foi em Marvão e no distrito de Portalegre que eu mudei a minha opinião sobre o pior
que se diz sobre o Alentejo e se aplica a expressão bíblica e popular, aos demais
portugueses: vêem mais facilmente o argueiro no olho dos outros do que a trave no seu.
O êxito da Festa do Castanheiro de Marvão assenta numa longa experiência do
município nesta organização em colaboração com a Cooperativa Agrícola de Porto de
Espada, no querer dos seus elencos autárquicos, no bom profissionalismo dos
funcionários      municipais      e       na      vontade        dos    seus     munícipes.
É nesta dualidade de posições e na inexcedível forma de receber os visitantes que eu
abri um sentido capítulo do meu livro, ‘Castanea – uma dádiva dos deuses’ sobre o que
melhor       se        faz      neste        rincão       do       Nordeste      alentejano:
“(…) a castanha é a popular rainha, (…) os magustos sucedem-se desde as portas da
vila até à parte mais alta e em qualquer momento ou local se podem comer castanhas
assadas (reservam-se cerca de cinco toneladas) e beber uma caneca (2.000 litros de
vinho), basta adquirir uma senha num posto de venda e depois deixar-se guiar pelos
sentidos. O pedagógico cartuxo das castanhas assadas que se recebe tem duas bolsas:
uma divisão cheia delas quentinhas e cheirosas e outra vazia, para receber as cascas.
Marvão durante ou no fim da Festa apresenta sempre um aspecto limpo e asseado, bem
ao                 jeito                  do                 povo                alentejano.
Nesta Festa nada parece ser deixado ao acaso e (…) todos “vestem a camisola
municipal” para bem receberem e servirem os cerca de 20.000 visitantes. Ficamos com
a sensação, ao contrário da maioria das Festas e Feiras temáticas, que em Marvão
semeia-se na Festa do Castanheiro para se colher durante todo o ano. Os 14
restaurantes e casas de pasto aderentes a esta Festa têm ao dispor dos visitantes os
mais deliciosos pratos e sobremesas com castanhas. Além disso, esta é a melhor e mais
antiga Festa temática da Castanha, que conhecemos em Portugal, conjuntamente com a
congénere de Curral das Freiras, e que vale bem a pena visitar, condimentada com
artesanato (os belíssimos bordados com casca de castanha são únicos em Portugal),
animação                        cultural                       e                    musical.
(…) Fascina-me esta pérola e farol avançado do Alto Alentejo pela aposta de todos os
que trabalham para o município, não se poupando a esforços, (…) Tudo o que se pode
fazer com os funcionários, desde a gastronomia aos magustos, é obra das suas mãos
mágicas, voluntariosas e empreendedoras. Marvão aparece como um Paraíso na Terra,
que                        todos                        podemos                        gozar.
Sobre Marvão, e estou certo que Miguel Torga também aqui comeu castanhas,
transcrevemos              o           excerto              do          Diário            III:
“Marvão, 20 de Novembro de 1943 – Das muralhas destes velhos castelos nacionais é
que se vê bem o sonho que é preciso ter para criar uma obra. É necessário calcorrear
muitas léguas, vencer muito moiro, para fazer drapejar em toda a sua beleza, no alto da
nossa ilusão, a bandeira dum triunfo! Mas deve ser bonito, depois, debruçar-se a gente
nas ameias, onde muitas vezes o corpo se espetou em angústias de luta, e olhar o
longe... Ver os caminhos andados já sem atoleiros e sem cascalho, e deixar a alma,
serena, sair do peito e voar feliz por cima dos milhafres e dos sobreiros”.
Tudo o mais que possa dizer sobre a Festa do Castanheiro de Marvão saberá sempre a
pouco, porque Marvão não se escreve, foi escrito em suor e querer ao longo dos séculos.
Marvão         vê-se         e       goza-se         em         toda       a      plenitude.
Vá meu caro romeiro e ‘devoto’ da Castanha e do Castanheiro viver um dia ou um fim
de                                     semana                                      diferente.
jorgelage@portugalmail.com

Distrito de Portalegre - Regional | Jorge Lage| 02/11/2006

								
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