PARA UMA VIS�O DIAL�TICA DE CULTURA by HC120622032927

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									               INCUBADORA DE EMPREENDIMENTOS POPULARES
                             INCUBES – UFPB – JOÃO PESSOA


                              CULTURA – uma visão dialética


É sempre uma dificuldade discutir o conceito de cultura, mesmo entre os
profissionais vinculados a esse campo de atividade. O que existe mesmo é
um cipoal de concepções que mais expressam um “ninho de casaca de
couro”, na acepção viva de Jackson do Pandeiro1.                                         Apesar desse
elemento complicador, tido por outros como elemento alimentador de
perspectivas culturais, mister se faz a apresentação de uma visão que
retoma o movimento como uma categoria teórica norteadora da
tentativa de um conceito de cultura.

Pode-se observar, ainda, que a multiplicidade conceitual de cultura
também traduz e revela, do ponto de vista político, a visão alicerçada nas
bases explicativas e dominantes da sociedade, em seus variados modos
de produção. Entre os gregos, pode-se destacar que cultura e religião
estiveram interligados, expressando explicações da natureza, porém,
cheias de atributos religiosos.                 Essa visão de cultura é idealizada já em
Homero, tornando a beleza o ideal educativo e dominante daquela
cultura, presente até os dias de hoje. Contudo, é Hesíodo, outro poeta
grego, que, sem negar o ideal homérico, apresenta uma outra perspectiva
de educação. Elege o trabalho como referência para a educação grega
do homem e da mulher. Entretanto, verifica-se entre os sofistas2,
pensadores gregos, a separação entre a religião e a cultura. Apesar dessa

1   Casaca de Couro – pássaro que faz o seu ninho de espinhos. Esta expressão foi utilizada pelo cantor e
    compositor paraibano, tido como um dos nomes da trilogia da música nordestina, juntamente com Luiz
    Gonzaga e Luiz Vieira.
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    Pensadores gregos que desenvolveram, com destaques, a retórica, a eloqüência e a linguagem.
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separação, todavia, só tem significado de totalidade ao assumir como
cultura e como conteúdo da cultura, também, o mundo da cultura
espiritual: “o mundo em que nasce o homem individual, pelo simples fato
de pertencer ao seu povo ou a um círculo social determinado” (Paidéia,
1995: 354). Tudo isto, entretanto, expressa visões idealizadas sobre cultura
de diferenciados setores dominantes da sociedade, em suas épocas.

Mas, o que se pretende é a retomada da perspectiva conceitual de
cultura, embalada pela categoria teórica movimento e fruto inerente a
cada modo de produção. Isto é, a perspectiva do conceito de cultura nos
marcos da produção, expressa na visão de Álvaro Vieira Pinto3.                                                              A
produção que se manifesta como expressivo parâmetro de universalidade,
considerando a sua presença em todos os tipos de grupos sociais,
presentes nos mais diferenciados rincões e em qualquer tempo da história
humana. E aí, como produto do processo produtivo, cultura é criação do
próprio homem. É resultante, portanto, das diferenciadas formas de
tentativas do humano no trato com a natureza material, na medida em
que está sempre em luta pela própria sobrevivência. As capacidades
intelectiva e manual humanas possibilitaram um maior crescimento e
intensidade desses fazeres para a sobrevivência. Os produtos daí gerados
constituem-se como produtos culturais. Dessa capacidade, foram criados
os instrumentos de sobrevivência e todos os tipos de expressão espiritual e,
posteriormente, as religiões. Tudo isso foi sendo transmitido e conservado
de geração para geração.

O início da cultura não é datado, mas coincide com o processo de
hominização. “A criação da cultura e a criação do homem são na
verdade duas faces de um só e mesmo processo, que passa de
principalmente orgânico na primeira fase para principalmente social na

3   Filósofo brasileiro. Ver: Ciência e Existência – problemas filosóficos da pesquisa científica. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
    1979.
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segunda, sem contudo, em qualquer momento, deixarem de estar
presentes os dois aspectos e de se condicionarem reciprocamente” (Pinto,
1979: 122). Como se vê, as dimensões culturais presentes nos gregos estão
mais ampliadas com esta perspectiva. Os produtos culturais são aqueles
gerados dos mecanismos nos mais variados processos produtivos e
aqueles, também culturais, gerados da dimensão social presente nas
relações humanas. Nesse sentido, torna-se ente cultural o museu, o quadro
de famoso e do não famoso pintor, as esculturas de famosos e não
famosos escultores... São expressões culturais os óculos que se usam no
cotidiano, a caneta, a ferramenta de trabalho, o computador, uma peça
teatral, um trator, um ‘software’, as técnicas educativas de organização
social, o processo de produção de conhecimento e a tecnologia. Todos
estes entes são frutos do processo produtivo e resultantes da dimensão
manual e da dimensão intelectiva da espécie humana.

A cultura, na perspectiva apresentada, isto é, como produto do processo
produtivo, adquire a sua dupla natureza. Cultura, traduzida pelo bem
produzido, torna-se bem de consumo, enquanto resultado expresso em
coisas e artefatos e subjetivado em idéias gerais do mecanismo produtivo.
Cultura se converte, ainda, em bem de produção, subjugando a realidade
e submetendo-a às suas reflexões, gerando novos produtos e novas
técnicas de exploração do mundo, dando-lhes, pelas idéias, significados e
finalidades para as suas ações.

Dessa perspectiva conceitual de cultura, resultam dois fenômenos, sendo
mais explicitados no atual modo de produção – o capitalismo. O primeiro
diz respeito ao acervo cultural que é cheio de máquinas e entes
tecnologizados,   além   das      tantas   idéias   geradoras   dos   processos
produtivos. Não se produz sem idéias. Os setores dominantes, por sua vez,
valorizam mais a segunda dimensão, considerando que já controlam os
aspectos materializados. Há, então, a exaltação às posses das idéias e
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desvalorização do trabalho próprio da produção daqueles entes materiais.
O segundo resultado é o apoderamento dos bens materiais produzidos,
frutos das idéias geradoras dos bens culturais. Assim, é que o trabalhador
ou o produtor cultural, além de ter perdido os bens materiais produzidos
por ele mesmo, também, está excluído dos bens ideais geradores dos
produtos culturais.

A partir dessa visão, pautada no marco da produção, torna-se possível
dessacralizar as marcas ideológicas de outras perspectivas de cultura,
quaisquer que sejam, imputando aos mais aquinhoados o ter cultura e
convencendo os “excluídos” de que têm cultura aqueles que estiveram
na escola, pura e simplesmente. Numa sociedade de pouco acesso aos
tantos meios de socialização do conhecimento, certas visões só
aprofundam a “apartação social”, alimentando os mecanismos de
exclusão e fortalecendo a dominação dessas elites.

Assim, cabe aos que produzem os entes culturais - bens materiais e bens
ideais - o resgate da posse de seu próprio processo de se tornarem
humanas(os), edificando os vetores das lutas por trabalho, igualdade,
liberdade e de sua felicidade mesma.


Referências


JAEGER, Werner. PAIDÉIA – a formação do homem grego. Tradução de
Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
PINTO, Álvaro Vieira. Ciência e existência – problemas filosóficos da
pesquisa científica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

								
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