A preserva��o das identidades e mem�rias das cidades tem sido

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					        DO INDIVIDUAL AO COLETIVO: MEMÓRIAS DA FUNDAÇÃO DA ESTÂNCIA TURÍSTICA
                                     DE PARAGUAÇU PAULISTA

                                                                           Ângela Maria Zanirato Salomão
                                   Docente da Faculdade de Ciências Gerenciais-Facig, Paraguaçu Paulista.
                                                   Especialista em Patrimônio Cultural e Memória Social.1


          Esta comunicação visa analisar as alterações da paisagem da Estância Turística de
Paraguaçu Paulista, privilegiando as transformações decorrentes do advento da ferrovia na
década de 20, ícone de civilidade e progresso. Para tanto, toma como fonte documental a
obra do memorialista Bruno Giovanetti e as crônicas de José Jorge Júnior, depositárias de
memórias individuais partilhadas significativas para a constituição de uma dada memória
coletiva do processo de formação e crescimento da referida cidade, também observada por
meio dos registros fotográficos que captaram flagrantes da transformação da paisagem
urbana naqueles anos.

        Para entendermos esse processo de reconstrução das “identidades perdidas” no
passado, busco analisar as paisagens que se consolidaram após a chegada da Estrada de
Ferro Sorocabana na cidade de Paraguaçu Paulista.

            Nesse sentido, pretende-se apreender, através das leituras dos memorialistas o
processo de transformação do espaço urbano e o surgimento de novas concepções de
desenvolvimento. Sendo assim, vale retomar um relato sobre a fundação da cidade:



                           A história da Estância Turística de Paraguaçu Paulista foi oficialmente redigida
                           por memorialistas, cronistas e articulistas dos jornais locais. Segundo esses
                           registros, as origens da cidade remontam ao distrito de Conceição do Monte
                           Alegre, fundado por José Teodoro de Souza, um lavrador que em 1856 visitou a
                           paróquia de Botucatu e registrou a posse de um lote de terras com dimensões
                           que atingiam 60 quilômetros de frente por 150 quilômetros de fundo. Em 1853,
                           José Teodoro de Souza fez doação de uma área de 193 hectares para a fundação
                           de um patrimônio: Conceição de Monte Alegre. Em 1891, Conceição tornou-se
                           distrito cujo território estendia-se entre os Rios Paranapanema e Rio do Peixe
                           (SANTOS, 2004 p.4)2.



1
  Esse texto integra a monografia de especialização intitulada: “memória e paisagem: um estudo da
ferrovia em Paraguaçu Paulista”, orientada pela Profa. Dra. Sandra C. A. Pelegrini, da Universidade
Estadual de Maringá , pós-doutoranda pelo NEE/UNICAMP.
2
  Esse texto produzido por Valdery Santos fundamentou-se principalmente na seguinte bilbiografia: Amador
Nogueira Cobra, Em Um Recanto do Sertão Paulista,Tipografia Hennie Irmãos .São Paulo.1923; Bruno
        Os primeiros habitantes dessa área instalaram-se nas margens do Ribeirão Alegre e
Rio São Matheus, ocupação que gerou conflitos como os índios instalados naquela região.
        Nos primeiros anos da década de 1910, o loteamento das terras no entorno da
estação ferroviária denominada “Estação de Monte Alegre” deu origem à formação de um
outro povoado que ficou conhecido como “Moita Bonita”, distante seis quilômetros de
Conceição de Monte Alegre. Seis anos depois, o tráfego ferroviário foi aberto e
desencadeou o crescimento do cultivo de café, que se expandia na região, e provocou o
crescimento demográfico e econômico.

        A Vila Paraguaçu foi criada apenas em 18 de dezembro de 1923, quando é elevada a
categoria de distrito de Conceição do Monte Alegre. Um ano depois, (30.12.1924), esta vila
tornou-se unidade político-administrativo independente, sendo elevada à categoria de
município em 12 de março de 1925. A partir de então, a cidade desenvolveu atividades
como: café, algodão, milho, soja, gerando assim um pequeno comércio que aos poucos
passou a ter uma proporção maior nessa região. A vinda de casas bancárias tornou a vida do
lugar mais dinâmica. A cidade vai passando por transformações econômicas sociais e
políticas. O contraste entre o rural e a nascente urbanidade era bem perceptível.E a
paisagem urbana se sobrepôs à paisagem rural aos poucos, em um processo irreversível.
Hoje a cidade tem sua economia voltada para a plantação de cana de açúcar, atividade
absorvida pelas usinas de açúcar e álcool.Em meio à poluição invisível que estas usinas
lançam sobre a região, a cidade busca a sua vocação para inserir-se no rol das cidades
voltadas para a implantação do turismo

        Compreender a imagem desta cidade, sua memória e história implica em enveredar
através de um emaranhado de fios de tempo e espaços distintos. As cidades que temos hoje
são frutos não só de uma leitura linear que fazemos quando olhamos a sua organização, a
construção de sua paisagem. Uma cidade edifica-se através da justaposição de paisagens
que o tempo e a modernização se encarregam de elaborar. Novos contornos, novos
traçados, novos olhares surgem de tempos em tempos. Mas, como destaca Sandra
Pesavento, a cidade se converte em “objeto de múltiplos discursos e olhares que não se


Giovanetti, Esboços Históricos da Alta Sorocabana, Empresa Gráfica ‘Revista dos Tribunais “. S.P.1943;
Pierre Monbeig.Pioneiros e Fazendeiros de São Paulo.Hucitec-Polis SP.1984.
hierarquizam, mas que se justapõe, compõe ou contradizem”. Contudo, segundo a autora,
essa característica não torna tais leituras mais “verdadeiras” ou “importantes” (2004, p.9).

       Neste sentido, Yázigi faz o seguinte apontamento:



                        As cidades se modelam ou se remodelam através de diversas formas, mas sua
                        origem advém de “civilização”, relacionada a civis, cidadão em latim,
                        “estendendo-se para civilidade, cidadão, civismo, cidade e civilização em
                        oposição á barbárie ou selva, estados em que uma série de valores e construções
                        inexistem por falta de cidades” (YÁZIGI, 2003, p.27 – grifos do autor).


       Na tentativa de compreender a cidade enquanto signo da civilização, o presente
estudo visa apreender, por meio de escritos memorialistas de Bruno Giovanetti e José Jorge
Júnior, três momentos distintos da construção da paisagem de Paraguaçu Paulista: antes da
chegada da ferrovia como ícone de “Civilidade” e “Progresso”, durante a permanência do
trânsito ferroviário e a expansão que proporciona a essa cidade, bem como a desativação
que começa com a crise do café em 1929.

       A bibliografia sobre construção de imagens de cidades vista sob a ótica do discurso
de civilidade são contempladas em várias obras, mas Sandra Pesavento dá pistas no sentido
do entendimento deste conceito quando relata:


                        Os discursos sobre a cidade moderna fazem uso recorrente de metáforas, ou do
                        emprego de imagens, que por analogia realizam uma alteração de sentidos.
                        Assim, a própria designação da selva à metrópole leva a atribuir a grande cidade
                        o sentido de selvageria ou brutalidade contido naquela imagem (PESAVENTO,
                        2002, p.48).




       Seria a civilidade imposta menos hostil do que a própria selva devastada para
ferrovia rasgar o sertão? Neste sentido Jorge Luiz Romanello em “Imagens e Visões no
Paraíso no Oeste Paulista: Um Estudo do Imaginário Regional” faz a seguinte abordagem:


                         A ocupação do Vale do Paranapanema, entre meados do século XX,
                        transformada em batalha contra a natureza virgem e indomável e contra o índio,
                        surge freqüentemente como vitória do ‘civilizado’ contra o “selvagem”. O
                        homem domando a terra através de seus esforços, arando e cuidando da lavoura,
                        transformando em um monumento ao trabalho para que possa assumir seu
                         arquétipo papel de “homem e eterno Adão” pois só terá direito a reconquistar
                         seu lugar no paraíso através de seu suor. (ROMANELLO, 1988, p.19 - 20).




       Esta dicotomia, de civilizado/bom e selvagem/ruim foi apropriado pelos que se
encarregam de imprimir as cidades novos símbolos, novos ícones como estandarte de
modernidade. As cidades se pasteurizaram, perderam as suas identidades e suas
características em nome do progresso. As cidades modernas não têm uma feição própria,
são reféns de modelos impostos. Morar ou visitar cidades fabris, fumacentas, ouvir o
burburinho das pessoas, o ronco de motores de carros e aviões, visitar shopping -centers
com todo o seu néon é para muitos como estar no éden. Sendo assim Romanello descreveu
com muita propriedade o novo Adão que para usufruir deste modelo de cidade, cobre-se de
roupagens e novas formas de trabalho para viver no ideal de paraíso moderno, cercado de
muros, grades, cercas elétricas e toda a parafernália exigente para a sua proteção no mundo
civilizado. Sendo assim, é possível descrever o modelo de cidade moderna como sendo
selvagem, hostil, pois embora contemplem elementos diferentes dos da selva, convivem por
condição de ser - civil com elementos que para garantirem a sobrevivência, são elementos
que aprisionam o homem no lugar que ele elegeu como paraíso para viver.

       Neste sentido, Maria Encarnação Beltrão Spósito na Revista Paranaense de
Geografia, nº 1,p.3 revela:


                         O prédio que se ergue na cidade de 80, 200 ou 500 mil habitantes não é muito
                         mais do que o signo do moderno, do que a tentativa de se parecer com a forma
                         vertical que é a “identidade da metrópole”, como definiu Maria Adélia de Souza
                         em ‘ A Identidade da Metrópole: a verticalização de São Paulo (FFCH/USP
                         1989, tese de livre docência) (SPÓSITO, 1996, p.3).




       Uma cidade hoje, para ser moderna, contempla em sua paisagem espaços de
verticalização. Em nome desta modernização, casas antigas, árvores e outros aspectos que
compunham a sua antiga paisagem, as suas características são derrubadas. No entanto, no
início do século XX o grande símbolo da modernidade era horizontal, emitia som,
transpunha florestas, rasgava o sertão, transformava a paisagem em nome do progresso, do
ser-civilizado.A ferrovia não só era o ícone da modernidade enquanto símbolo, mas trazia
consigo outros significados que a civilização propunha. A estrada de ferro adentra o sertão
e com ela outras nuances são dadas a paisagem : casas, escola, hotel, a primeira professora,
loteamento de terras, armazéns .O “Progresso” mudou os sons da Vila Paraguaçu: Quase
não se ouvia mais o ranger dos carros de bois, mas sim o apito do trem que com a sua
velocidade imprimia um outro ritmo, construindo assim uma nova identidade, um outro
espaço.

   Este período de transição da selva à cidade, do sertão desconhecido ao progresso é
também observado no discurso de José Jorge Junior que relata:

                        A estrada de ferro veio perturbar a paciente agricultura da época, até então
                        voltada para as necessidades mínimas de escassa e dispersa população.
                        Substituindo o carro de boi (ia-se de carro de boi a Cerqueira César a negócios
                        em 20 dias de viagem ida e volta) o trem abriu um mundo de possibilidades
                        econômicas a todos que tivesse disposição para o trabalho.
                        Centenas de famílias iam chegando e a mata derrubada cedia lugar aos cafezais e
                        intensas plantações de milho, feijão e arroz que graças à ferrovia podiam ser
                        colocados em mercados distantes. A povoação crescia, e homens dinâmicos e
                        ambiciosos cresciam com ela. Surge, naturalmente a elite interessada na auto
                        determinação de sua área de ocupações comerciais, e movimenta-se no sentido
                        da criação do município de Paraguaçu. (A SEMANA, 12/03/1967).




       Este discurso devotado à modernidade e à autonomia como fruto do advento da
ferrovia também foi contemplado por Bruno Giovanetti através das seguintes palavras:


                        Assim à medida que penetrava a estrada de ferro, iam-se povoando rapidamente
                        as suas margens, de modo que, dentro em breve os sacrifícios da construção
                        serão fartamente compensados por um grande volume de transportes de
                        passageiros e mercadorias. Surgiram, portanto, varias cidades e vilas, células do
                        progresso material e intelectual, nasceram do zero das matas os focos de uma
                        civilização opulenta que glorifica a grandeza do estado (GIOVANETTI,1943,
                        p.33 - 34).


       Como podemos observar, mesmo escrito em temporalidades diferentes e com
formação distinta, os dois memorialistas maximizam através de suas falas e interpretações,
as transformações que a ferrovia trazia para o logradouro. Portanto nota-se certa sincronia
temática entre os dois autores. O “Progresso” dá o tom nessas narrativas e intensifica a
superlatividade nos discursos dos memorialistas.
       Enquanto isso a ferrovia molda, justapõe uma nova paisagem a cidade. É no seu
entorno que surgem casas, povoados, praças, hotel. A estação ferroviária assume uma
“função social” conforme define Sérgio Santos Morais, em sua resenha “Minha
Cidade”.Torna-se o local de chegadas e partidas, de encontros e despedidas, do ócio de
estar lá simplesmente para ver o trem passar, para ver a novidade, para ver os forasteiros
que chegavam, para ver o mundo através de uma nova janela.

       Mas a necessidade de evoluir e de civilizar cada vez mais e mais constrói e destrói.
A modernidade elege outros signos, outros símbolos de sua representação. Se os laços do
homem com a natureza foram rompidos, rompem-se agora os laços do homem com a
estação ferroviária. A estrada de ferro é desativada em nome de um outro modelo de
progresso. No entorno da praça outra paisagem se sobrepõe sem que o homem perceba,
uma transformação lenta, oculta, sutil.

                         A estação aos poucos foi se transformando. O povo ainda vinha, mas a música
                         era outra, dissonante de suas expectativas. O movimento agora era contrário, em
                         sentido oposto aos sentimentos. As paredes foram escurecendo, como uma
                         espécie de luto. Os espaços foram se fechando, não permitindo mais nenhuma
                         confidencia. As portas permanecem cerradas. O mundo não chegava mais
                         através da plataforma. A estação, tal qual um fantasma, devido ao crescente
                         abandono, mantinha sua imponência, segura do que foi um dia. A estação
                         finalmente se transformara em defesa de si mesma. (MORAIS, 2005, p. 2-3).




       Identidades e memórias são conceitos imprescindíveis para a interpretação das
mudanças das paisagens pelas quais a cidade de Paraguaçu Paulista passou com o advento
da ferrovia. Esta nova espacialidade que a cidade adquire passa também pela noção de
territorialidade e neste sentido as experiências coletivas e individuais estão contidas nas
praças, nas casas, nas ruas nas vilas e bairros, acauteladas nas memórias dos agentes sociais
que atuam nas cidades.

       A cidade, maior símbolo da civilização no início do século XX foi uma trama tecida
pelo homem e pelo Estado na busca de conquistar e ocupar o solo em nome do tornar-civil.
Desviar as cidades ou os espaços do estágio de “barbárie” era mudar a rota, era um
encaminhamento ao novo mundo cuja ordem era o “Progresso”.
       As práticas culturais do homem branco se faziam necessárias neste momento para
atender todo um universo que permeava o pensamento de modernidade da época: a
velocidade do trem que rasgando o sertão prometia um novo período, uma nova era.

       O memorialista Bruno Giovanetti descreve a região onde Paraguaçu estava inserida
da seguinte maneira:

                        A vida dentro da mata espessa parecia igual da idade da pedra, entre o glacial e o
                        pós-glacial quando o homem vivia nômade de caverna em caverna, alimentando-
                        se de caça, pesca e frutos silvestres. Os nossos “picadeiros” em falta de cavernas
                        dormiam debaixo das arvores, tendo como companhia o conforto de uma
                        fogueira, e como musica o rugido da onça vagante na obscuridade da noite no
                        meio da solidão da floresta milenar. (GIOVANETTI, 1943, p.58).




       Neste universo, permeado de visões onde os espaços se alternam ora como inferno,
ora como paraíso, “civilizar” era preciso. Urgia a necessidade de símbolos e signos que
remetessem a idéia de modernidade, de “Progresso”. Forjar identidades que dessem ao
estado de São Paulo “ponta de lança do progresso perante o país” (Romanello, 1988, p.20)
a mesma configuração, uma certa homogeneidade, a mesma essência. O nome era
“Progresso” e o grande elemento gerador de identidades igualitárias para todas as cidades e
que se expressasse como o ícone da modernidade eram as ferrovias. Elas agregavam,
transpunham limites territoriais, criavam elos, faziam circular produtos, idéias e
informações.

       Esta tessitura da construção das cidades como signo de ser-civil, de espaço de
atuação do homem foi contemplado pela literatura através de relatos de memorialistas que
junto com imagens fotográficas possibilitam outras interpretações.

       Neste sentido Boris Kossoy em “Fotografia e história”, 1989, vê na fotografia duas
possibilidades: como elemento de recordação, memória, documentação da vida familiar, ou
como elemento de informação e divulgação dos fatos, tornando-se assim elemento
indissociável da experiência humana, onde o instante captado e a memória caminham
paralelamente. Segundo Kossoy:



                         Fotografia é memória e com ela se confunde. Fonte inesgotável de informação e
                        emoção. Memória visual do mundo físico e natural, da vida individual e social.
                        Registro que cristaliza, enquanto dura a imagem-escolhida e refletida -de uma
                        ínfima porção do espaço do mundo anterior. É também a paralisação súbita do
                        incontestável avanço dos ponteiros do relógio: é, pois o documento que retém a
                        imagem fugidia de um instante da vida que flui ininterruptamente. Ela da a
                        noção precisa de um micro espaço e tempo representado, estimulando a mente, a
                        lembrança, a reconstituição, a imaginação é para o historiador, uma
                        possibilidade inconteste de descoberta e interpretação da vida histórica.
                        (KOSSOY,1989,p.101).




       Neste sentido, a utilização da imagem fotográfica, relatos de memórias e das
crônicas dos memorialistas, toda a trama tecida para estabelecer significado pode ser
investigada como estratégia teórico-metodológico, na compreensão do nascimento das
cidades enquanto sinalizadoras de “lugar do homem”. O cruzamento da literatura com as
imagens fotográficas e os relatos sobre a cidade, esta multiplicidade de olhares possibilita a
leitura da proposição sugerida: entender a movimentação da paisagem urbana, as suas
sobreposições e justaposições, a sua representação enquanto “lugar-por-excelência-onde as
coisas acontecem”. (PESAVENTO, 2002, p.3).

       A cidade é o lugar do homem. Casas, fábricas, ruas, praças são elementos que
compõe hoje a configuração urbana do que se convencionou chamar de cidade. O universo
urbano é repleto do homem e seu burburinho. A alma da cidade é o homem. Sem a sua
presença não seria “lugar-por-excelência onde as coisas acontecem”. Os acontecimentos
nas cidades delineiam a sua história, modelam a sua paisagem, dão o contorno a este
desenho tramado por fios do tempo. O homem ao relatar a história de sua cidade, está
contando a história de outros homens e acontecimentos que ficaram na memória que ele
silenciou e guardou.

       E assim a trama vai sendo tecida, por meio de relatos e das memórias de pessoas
que também através da imagem fotográfica, rememoram aquilo que foi silenciosamente
escondido pelo tempo. Neste sentido, buscou-se sustentação teórica em Le Goff que aponta:

                        A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade
                        individual e coletiva. Memória é a própria preservação da identidade coletiva e,
                        ao mesmo tempo, instrumento e objeto de poder. Toda memória é, num
                        momento subseqüente, história. Sua temporalidade rompe com o tempo linear
                        para alcançar o tempo social - a lembrança é a recordação do vivido. É também
                        um tempo revivido que tem seu momento fundamental na consciência do
                        singular. Não é um fenômeno que se esgota no indivíduo ou que tem lugar no
                        vazio social. A lembrança surge num contexto preciso, na relativa estabilidade
                       de uma situação que desenvolve a vida do sujeito. A memória é seletiva, opera
                       com o passado olhando para o futuro, dota a sociedade (incluindo aqui os grupos
                       sociais) de coesão, conferindo-lhe sentido e deve ter visibilidade pública - os
                       "lugares de memória" (LE GOFF, 1998, p.216).




       Ecléa Bosi ao discorrer sobre a memória enquanto depositária de lembranças nas
narrativas sobre tempo e espaços culturalmente produzidos observa:

                        O que me contaram os velhos sobre sua cidade? Cada geração tem, de sua
                       cidade, a memória de acontecimentos que são pontos de amarração de sua
                       história. O caudal de lembranças, correndo sobre o mesmo leito, guarda
                       episódios notáveis que já ouvimos muitas vezes de nossos avós. A passagem do
                       cometa Halley com sua cauda luminosa varrendo o céu paulistano, os mata-
                       mosquitos de Oswaldo Cruz nos bairros varzeanos, a gripe espanhola, as
                       peripécias de Meneghetti, ladrão simpático que roubava dos ricos para dar aos
                       pobres... O vôo do Zeppelin sobre o Viaduto... O Dia da Vitória, o IV Centenário
                       de São Paulo, as festas de São Vito e Nossa Senhora da Aqueropita, os corsos do
                       carnaval na avenida Paulista, os bailes do 1º de Maio no Parque Antártica. Mas a
                       memória rema contra a maré; o meio urbano afasta as pessoas que já não se
                       visitam, faltam os companheiros que sustentavam as lembranças e já se
                       dispersaram. Daí a importância da coletividade no suporte da memória
                       (BÓSI,2006,p.)

       Dentro da balbúrdia urbana, mesmo na pequena cidade, as identidades pulsam nas
esquinas, na rua de terra ou de asfalto, no anonimato dos transeuntes, entre o público e o
privado. Através dos relatos dos memorialistas, dos documentos fotográficos e dos relatos
dos entrevistados: Benedicto Benício, Hélio Pacheco e Maria Mercedes Vilharquides
percebe-se esta migração do olhar para a cidade de um estágio estático ao móvel, porque
quem dá a vida à cidade é o homem ao inserir-se no espaço urbano como ator do
espetáculo.



       Neste sentindo há um apontamento de Kevin Lynch neste desenho do urbano
quando diz:



                        definir as qualidades físicas relacionadas aos atributos de identidade e estrutura
                       na imagem mental. Isso nos leva à definição daquilo que se poderia chamar de
                       imaginabilidade: a característica, num objeto físico, que lhe confere uma alta
                       probabilidade de evocar uma imagem forte em qualquer observador dado. É
                          aquela forma, cor ou disposição que facilita a criação de imagens mentais
                          claramente identificadas, poderosamente estruturadas e extremamente úteis do
                          ambiente. Também poderíamos chamá-la de legibilidade ou, talvez, de
                          visibilidade num sentido mais profundo, em que os objetos não são apenas
                          passíveis de serem vistos, mas também nítida e intensamente presentes aos
                          sentidos (LYNCH 1997, P. 11).




       Lynch chama a atenção no sentido de revalidação da memória dos que contam a
cidade através de sua vivência e de sua atuação de ator do cenário que ele mesmo construiu
ao elaborar seu texto imagético. No caso de Paraguaçu Paulista, podemos perceber também
essas interações.

       Para a coleta de informações sobre a memória da cidade de Paraguaçu Paulista
buscou-se o relato de três entrevistados que residem a muitos anos na cidade e que foram
contatados antecipadamente concordando com a entrevista e sua divulgação em um
trabalho acadêmico. O procedimento das entrevistas baseou-se em um roteiro pré-
estabelecido e que, partindo da escolha e coleta do material fotográfico, efetuou-se a
tomada de depoimentos através da oralidade, preservando a narrativa original dos
depoentes que acompanharam a cidade em suas alterações de paisagens. Desta forma a
compreensão desta justaposição de imagens foi percebida de forma mais concreta quando
os entrevistados depararam-se com as fotos. A partir das observações que os mesmos
faziam em relação às fotografias seus textos foram sendo produzidos, puxados pelo fio da
memória que o tempo encarregou-se de registrar. Foi um voltar ao passado para os
entrevistados, onde muitas vezes percebeu-se que ao deparar-se com determinadas fotos
mergulhavam no tempo revivido, assumindo outros papéis que não o de relator, mas sim de
avaliador de seu tempo.

        Essas fotos foram selecionadas de acordo com o tema em questão.A leitura e
análise das representações fotográficas realizadas por Moreira Leite (2001), Mauad (1996)
e Kossoy (1989) foram de fundamental importância para a compreensão no trato com este
tipo de documento.

                          Mauad e Cardoso (1997) discutem a importância da fotografia como uma marca
                          cultural de um passado trazido à tona, sendo que a mesma é uma fonte histórica
                          que demanda por parte do historiador um novo tipo de crítica. O testemunho
                          passa a ser válido, não implicando se o registro fotográfico foi feito para
                        documentar um fato ou representar estilos de vida. (2005, p.39).




           Deste modo estes autores indicam que:

                       É indiscutível a importância da fotografia como marca cultural de uma época, não
                       só pelo passado a qual nos remete, mas também, e principalmente, pelo passado
                       que ela traz à tona. Um passado que revela, através do olhar fotográfico, um
                       tempo e um espaço que fazem sentido. Um sentido individual que envolve a
                       escolha efetivamente realizada; e outro, coletivo, que remete o sujeito à sua
                       época. A fotografia, assim compreendida, deixa de ser uma imagem retida no
                       tempo para se tornar uma mensagem que se processa através do tempo, tanto
                       como imagem/documento quanto como imagem/monumento (MAUAD e
                       CARDOSO, 1997, p. 406).




       Assim a fotografia pode então, ter duas formas de abordagem: como
imagem/documento, quanto como imagem/monumento. É neste sentido que os relatos dos
entrevistados apontam para estas duas compreensões do documento fotográfico.

       Benedicto Benicio, 91 anos, funcionário público municipal aposentado, prefeito
municipal da cidade de Paraguaçu Paulista no período de 1960-1963, ex-vereador e
morador há 67 anos no município, ao deparar-se com a foto reconhece-a como sendo o
pátio da Estação Ferroviária de Paraguaçu Paulista.
                              foto nº 1. casa e madeiras. Década de 20.




       . Fica em silêncio durante alguns minutos, em um provável exercício de memória e
pergunta:

                       [...] seria a avenida Brasil?... Da rua Bandeirantes até o fim era só toras. Era um
                       depósito de toras para a exportação da madeira pela ferrovia, não tinha como
                       hoje caminhões que levava cinco ou seis toras. Tinha muita mata por aqui. As
                       pessoas colocavam cinqüenta, cem toras aí no pátio e vinham vários
                       fornecedores, por exemplo: Briso, Isidoro Baptista e outros que iam tirar da mata
                       né?(sic) Tinha muita mata por aqui...O Dr. Adalberto, morador do Bairro
                       Brumado comprou muita mata por aqui e pagou dois cruzeiros por tora. Eles iam
                       lá , cortavam, traziam em carros de boi e ficavam negociando a venda. Quando
                       vendidas eram colocadas em gôndolas pedidas para a Sorocabana que
                       viabilizava o embarque. Gôndolas era o vagão sem paredes..... Onde está hoje a
                       fonte luminosa até lá pra (sic) frente era tudo pátio de toras ...Tinha algumas
                       casinhas de empregados que eu desmanchei para deixar a praça limpa, isso eu
                       entreguei em 1960”.
       Benedicto Benício faz duas formas de leitura da foto acima: como administrador
que foi da cidade na década de sessenta e como observador de um tempo vivido, guardado
na memória, onde ao observar o documento faz um retorno ao passado que vivenciou.
Relembra nomes, detalha alguns fatos, como por exemplo, o valor econômico da tora, e um
dado importante na entrevista é a observação ao desmatamento efetuado, embora não faça
nenhum comentário especifico ao assunto, prevalecendo o olhar de quem foi gestor da
cidade durante três anos.



       Maria Mercedes Vilharquides, 76 anos, pensionista do Banco do Brasil e aposentada
do INSS faz o seguinte relato da foto acima:

                        [...] Estas casas eram dos que trabalhavam na Estrada de Ferro Sorocabana, e
                        isto aqui (apontando para a foto) era a “esplanada de toras”. Quando eu entrei na
                        escola já havia estas toras aí , eu via porque vinha do sitio para a escola todos os
                        dias, subia do morro lá do “ rio Burrinho”e passava por estas toras aqui. Depois
                        eu subia na rua Jose´ Salomão e vinha estudar no “Grupão”, aqui onde é hoje a
                        Caixa Econômica.


       A Sra. Mercedes observa a foto e a descreve com os olhos de quem morava no sitio
e vinha na cidade todos os dias para estudar e este caminhar faz dela uma observadora que
registra todas as ”novidade”. O uso do termo “esplanadas das toras” é apenas dela, os
outros entrevistados dão outra denominação a este local, não reconhecem este termo como
sendo de uso das pessoas que moravam na cidade.



       Hélio Silva Pacheco, 82 anos, jornalista aposentado e morador na cidade há 77 anos
ao ver a foto tece o seguinte comentário:

                         [...] tivemos em frente à estação ferroviária um pátio enorme, de 200 ou 300
                        metros ali, ocupando dois ou três quarteirões de toras. Havia muitos madeireiros
                        em Paraguaçu que iam buscar as toras na mata. O nosso mato era rico em
                        árvores frondosas onde se podia tirar muitas toras. A maioria delas eram
                        exportadas pelas gôndolas do trem e seguiam para Santos, São Paulo e até para o
                        Rio de Janeiro. Uma parte delas ficavam em Paraguaçu para serem
                        desmanchadas nas três serrarias que nós tínhamos aqui. Viravam caibros,
                        vigotas, tabuas e em mata-juntas para construir as casas da época. Nesta foto
                        mesmo, a gente vê muitas casas de madeira. As toras era matéria prima
                        necessária para construir as casas do município”.
       Helio Pacheco faz uma análise detalhada da foto, reconhece a importância da mata
para a cidade no sentido de gerar divisas, visto que muitas das toras eram exportadas, e
também em seu relato aponta para a observação do desmatamento , enfatizando a riqueza
das matas. É uma visão de quem observa os dois lados do fato: o desmatamento era um
fato, mas por outro lado gerava divisas para o logradouro, além de ser o único elemento
existente para a fabricação de casas.



       Esta foto pertencente ao museu municipal de Paraguaçu Paulista mostra o instante
em que o fotógrafo capta o monumento do “espetáculo” das toras, visto que elas aparecem
em primeiro plano. O chão que acolhe a madeira é de terra batida, revalidando assim o
testemunho dos relatos de que a foto é da década de vinte, onde o asfalto não existia nas
ruas da cidade. No fundo, em último plano estão as casas, todas de madeira e de arquitetura
diferente umas das outras. No canto direito percebe-se a existência de uma casa comercial
com o nome de “Casa Ideal”. As árvores já não fazem mais parte da paisagem relatada por
Bruno Giovanetti. Agora o cenário já está sobreposto com outras roupagens, outras nuances
que o progresso impôs. Todavia, as falas dos entrevistados parecem evidenciar como eram
realizadas as extrações da madeira e as suas comercializações, fontes de movimentação
financeira na região.



       O senhor Benedicto Benício reconhece, no documento fotográfico o antigo morador
da cidade, Sr. Mario Agostinho, de roupa social na foto. A tora em cima do veículo
segundo o relato era porque vinha de uma distância maior.
              foto nº 2. caminhão, madeira e homens. Final da década de 20.




                         [...] você não podia trazer uma tora da região de Iepê, que era ainda uma
                região coberta de mato num carro de boi”. “[...] você levava uma semana para
                isso” . Em determinado momento exclama: “[...] olha o tamanho da tora, olha!
                Não tinha estradas...levava quase três dias para trazer uma tora da região de Iepê
                até o nosso pátio aqui.. A terra era roxa, lisa “.
                        “[...] o Sr. Mario Agostinho era agente da Ford aqui...não sei se o carro
                é da Ford ou não...Quanto às pessoas em cima da tora no caminhão eram
                curiosos que queriam aparecer na foto, por causa da tora e por causa do
                caminhão.
Observa que a tora encaixa-se no caminhão, que são do mesmo tamanho.

                [...] podia ser mais comprida né (sic)? ... da mata, para ser levada até uma certa
                distância as toras iam de “Carretão”. Carretão era o carro de boi. As toras eram
                vendidas também para as serrarias que já existiam aqui, eram três. A serraria
                comprava a madeira e beneficiava em ripa, caibro e tabua. A cidade aqui só
                tinha casas de madeira ... “[...] quando vinha alguém de São Paulo, de fora,
                ficava na única casa de tijolos que tinha aqui. Era a única casa de alvenaria que
                tinha condições de hospedar gente de São Paulo. Aqui tinha muita madeira, e
                madeira era barato. O Sr. Emiliano de Freitas construiu mais de 45 casas em
                        Paraguaçu, mas isto foi na minha época, nos anos cinqüenta, todas do mesmo
                        modelo, de tabuas, iguaizinhas! Com o aluguel de duas ou três ele construía
                        mais”.



                             Benedicto Benício, faz uma interpretação detalhada da foto,
com uma certa ‘intimidade’ de quem viu todo este movimento de perto. Tem noção da
importância do carro de boi enquanto instrumento de transporte, mas reconhece a novidade
do caminhão para a época. Fica “encantado” com o tamanho da tora, como se tivesse sido
cortada na medida exata para o transporte. Nesse depoimento a memória do Sr. Benício flui
, seus relatos jorram em       detalhes, em explicações minuciosas, e fornece detalhes
importantes, como por exemplo, o numero de casas de madeiras construídas e a forma de
transação econômica nesta prática que gerava lucros e aumentava o número de residências
de madeira . Conta o entrevistado em determinado momento que “nunca mais haveria de se
lembrar desta época especifica se não olhasse a foto”. Nesse sentido Zanirato relata em seu
texto que: “a fotografia funcionava como”prova da verdade” sobre os progressos
manifestos no lugar...” (2006,p.166) .



       Portanto, para o entrevistado, a foto é o testemunho daquilo que a sua memória
congelou no tempo, e que ao deparar-se com o documento, um “dispositivo” aciona a
engenharia das lembranças e detona todo um processo de recordações de forma impetuosa.

        Observa-se nesta foto a necessidade de evidenciar que o caminhão “suporta” o
tamanho da tora, como se fosse um embate entre o antigo e o novo. Podemos dizer que “o
futuro segurava e prendia o passado”. A presença do muro, embora de forma rústica é um
sinal da modernidade.



       A entrevistada Maria Mercedes ao ver essa foto sorri e diz:

                        [...] olha aqui o seu Mario Agostinho! Esse eu conheci, ele era da Ford, onde
                         hoje é a igreja da pastora Jussara. Lá era agência da Ford, ele vendia carros,
                         vendia caminhão, tudo... O Militinho e o José, meus irmãos trabalharam lá, o
                         Chiquinho também, três irmãos meus trabalharam lá, o motorista que esta
                         dirigindo este caminhão é o Tião Carreiro, que antes dirigia carros de boi. Ele
                         virou motorista, o seu Mario Agostinho ia todos os dias no cinema, e morreu no
                         cinema!
       Conclui o depoimento dizendo:


   [...] quem será este de culote aqui né (sic)?


       Maria Mercedes ao relatar sobre a fotografia trás todo um sentimento de
pertencimento, de intimidade, porque reconhece as pessoas focadas pela lente do autor do
documento e também lembra-se de toda uma relação familiar estabelecida com o Sr. Mario
Agostinho. A entrevistada também consegue perceber a questão das ocupações, das funções
das pessoas em determinadas tarefas, onde o motorista do caminhão havia sido
anteriormente condutor de carros de boi.             Este estabelecimento do vivido e sentido pela
entrevistada é analisado por De Decca ao escrever sobre memória e história quando faz a
seguinte afirmação:



                             [...] A memória é a vida, sempre guardada pelos grupos vivos e em seu nome, ela
                             está em evoluções permanente, aberta à dialética da lembrança e do
                             esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todas
                             utilizações e manipulações, suscetível de longas latências e de súbitas
                             revitalizações. A história é reconstrução sempre problemática e incompleta
                             daquilo que já não é mais. A memória é um fenômeno sempre atual, uma ligação
                             do vivido com o eterno presente; a história é uma representação do passado.
                             Porque ela é afetiva e mágica, a memória se acomoda apenas nos detalhes que a
                             conformam; ela se nutre de lembranças vagas, telescópicas, globais ou
                             flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a toda transferência, censura ou
                             projeção”.( DE DECCA, 1992,p.130-131).




       Sobre esta fotografia o senhor Helio Pacheco tece o seguinte comentário


                              [...] aqui nós vemos uma fotografia onde o seu Mário Agostinho aparece.
                             Naturalmente ele mandou bater esta foto, o caminhão é até pequeno, carregando
                             uma enorme tora, de circunferência enorme e ele está aqui ao lado de um senhor
                             que eu não estou reconhecendo, mas deve ter sido uma pessoa bem conhecida.
                             Em cima da tora tem várias pessoas, e até crianças sentadas. Foi uma fotografia
                             tirada para lembrar um tempo, o tempo das madeiras, o tempo das toras”.
       Para o Sr. Pacheco, esta é uma foto intencional, tirada a pedido, conforme o relato
,do Sr. Mario Agostinho, pessoa de pode político e econômico na década de vinte no
logradouro, que teve a intenção de mostrar o “seu” caminhão acolhendo uma tora de
“circunferência enorme”. Houve na foto uma intenção de demonstrar poder, percebida,
mas não verbalizada pelo depoente.



       A referida foto é reconhecida como sendo do final dos anos vinte, e pertence ao
Museu Municipal. A intenção do fotógrafo foi a de ilustrar o caminhão, novidade na época,
com certeza a pedido do Sr. Mario Agostinho, dono da agência Ford, reconhecido como
pessoa importante na vida da cidade para os entrevistados. Mas existe também uma
intenção “oculta” que é a de mostrar o domínio do homem sobre a natureza e o contraste
entre o que era moderno com o “sertão”. As casas de madeira, o chão de terra batido,
chaminé no alto de uma casa ao lado direito da fotografia, e as pessoas de várias idades em
cima do caminhão, evidenciam esta dicotomia de progresso e atraso, e que de certa forma
permaneceu durante muito tempo na construção do conceito idealizado de urbano.




       Para Ecléa Bosi “rememorar é uma função social, não é sonho".(1987, p.371). Neste
sentido uma narrativa de Hélio Pacheco sobre a cidade é de vital importância para o
entendimento da cidade enquanto lugar do homem, local de fruição, onde a memória
costura a história do que foi vivido e apreendido. Neste sentido, ao narrar sobre a cidade de
Paraguaçu, Pacheco faz um “passeio” pelos labirintos de suas lembranças.




                        [...] Paraguaçu Paulista começou na chamada “Barra Funda”, mas bem abaixo,
                        quando ainda não tinha casas. Ali nós tivemos muitas famílias que vieram de
                        Minas Gerais. Estas famílias davam uma pausa na viagem ali na cidade de São
                        Pedro do Turvo e mais tarde vinham para Paraguaçu, e aqui chegando eles
                        paravam lá na “Água das Mortes”, onde tinha um rio famoso e lá eles
                        começaram a viver e a plantar as primeiras roças de milho, mandioca e foram
                        ficando por ali; mas eles sentiam que Paraguaçu tinha um planalto muito bonito
                        mais para cima e eles vieram subindo, subindo e acabaram se instalando
                        verdadeiramente na “Barra Funda” (bairro existente até hoje)
       O entrevistado faz um relato do inicio da formação do núcleo de onde a cidade se
formou até chegar no bairro Barra Funda, local onde a urbanidade começa a se instalar a
partir da chegada dos trilhos nos anos de 1916. José Jorge Junior relatou também este
momento através das seguintes palavras:


                         {...} João Baptista Vieira e Silva chegou ao Ribeirão Alegre em agosto de 1886.
                         Veio de alfenas, Minas Gerais, acompanhado dos filhos Jerônimo, Domingos e
                         Joaquim, do genro José Antonio da Costa Vasconcelos, além de numerosos
                         escravos, tudo formando um grupo de mais de 60 pessoas. Em vários carros de
                         bois, puseram-se a caminho por quase dois meses. À noite dormiam em tendas e
                         sob o toldo do dos carros. As cargas constituíam-se de roupas, ferramentas,
                         alimentos, sementes, armas e indispensáveis objetos de uso doméstico. Bois,
                         cavalos, porcos, carneiros, cães, completavam a pitoresca caravana. Aqui
                         chegados, acamparam no local “Três Barras”, a montante do atual balneário
                         municipal, onde, no Ribeirão Alegre, afluem o Córrego das Mortes e uma outra
                         pequena água . Ali levantaram suas casas e galpões. Umas cobertas de telhas de
                         barro (feitos em uma olaria no São Matheus, de José Dias Paião) e outros com
                         “bicas” de coqueiro (o coqueiro rachado ao meio no sentido do comprimento) ou
                         de taquaras. Construíram chiqueiros e currais e deram início a roçada numa área
                         de 30 alqueires”( Jornal “A Semana”, 9 de novembro de 1967).



       A narrativa de José Jorge Junior é o primeiro documento “oficial” sobre os
percursos da cidade em sua trajetória de sair do meio rural até chegar à urbanidade. Através
de leitura dessa crônica percebe-se importância dada aos pioneiros que aqui chegaram em
busca de terras e o relato das praticas culturais voltadas para a subsistência.

       O relato de Pacheco prossegue sob um viés de contar a cidade, seu crescimento e a
sua rota traçada em uma perspectiva evolutiva:
          :

                         {...}..mais tarde foi criada a parte alta da cidade, então a parte pra baixo da linha
                         de ferro ficou chamada de Barra Funda e ali implantaram um comércio na
                         Avenida São João, que hoje tem outro nome, e a rua José Salomão, naquele
                         tempo chamava-se rua do Comércio. Ali foi instalado verdadeiramente o
                         comércio daqueles tempos, onde nem se pensava em habitar os altos da cidade.
                         Eles se contentavam em habitar aquela região, onde o Sr. Isidoro Baptista
                         implantou uma serraria, o Sr. José Galhardo implantou uma máquina de
                         beneficiar café. Ali havia muito emprego, muito comércio, muito trabalho. Então
                         os fundadores de Paraguaçu se localizaram ali e suas famílias foram crescendo, e
                         seus descendentes achavam por bem residir no mesmo local. A nossa Barra
                         Funda, era um lugar de comércio, movimento e população. A serraria do Sr.
                         Isidoro Baptista, por exemplo, tinha três quarteirões com colônias de casas. A
                         própria serraria construía trinta, quarenta, cinqüenta casas para os seus
                         trabalhadores. Os operários moravam em casas que a serraria cedia. A Barra
                         Funda deixou saudades...Ela teve a sua época de grande crescimento, onde ela
                         foi “a dona” do comércio da cidade”.
       Com a instalação da ferrovia em 1916, um povoado surge em seu entorno e forma-
se assim o primeiro núcleo com características urbanas. O comércio flui a olhos vistos, e a
paisagem começa a ter novos contornos, novas configurações. Helio Pacheco deixa de
forma explícita a importância que este bairro teve para a cidade e o sentimento de
pertencimento que ele trás consigo enquanto referência de um tempo registrado em sua
memória, onde veio a aflorar a partir do seu relato inicial.




                         {...} Os trilhos da Sorocabana dividem a cidade; começou a construir dos trilhos
                         para cima, uma nova cidade com prédios, não mais de madeiras, prédios da
                         “nova civilização”. Mais tarde a cidade foi crescendo e chegou ate onde hoje
                         esta o hospital, depois veio a Praça Nove de Julho, a igreja da matriz e a cidade
                         foi se expandindo para a parte alta até chegar onde temos hoje o final da
                         Avenida Paraguaçu, com mil e duzentos metros, todos com construções de
                         comércio e muitas residências. A cidade cresceu, mas ela começou lá no inicio
                         da Barra Funda, ou melhor, ainda lá na beira do Rio das Mortes, do rio chamado
                         Verdureira e de outro riozinho chamado Burrinho. Ali, entre os três rios,
                         começou a cidade, e ela se expandiu graças a Deus, com o impulso que a
                         ferrovia deu para a nossa cidade”.



       Nessa composição das paisagens citadinas, onde umas se sobrepõe as outras em
tempos e espaços distintos, Pacheco retrata o exaurimento do bairro Barra Funda, o “berço”
da cidade através das seguintes palavras:




                  A Barra Funda deixou saudades...Ela teve a sua época de grande crescimento, onde ela
                  foi “a dona” do comércio da cidade. Os trilhos da Sorocabana dividem a cidade;
                  começou a construir dos trilhos para cima, uma nova cidade com prédios, não mais de
                  madeiras, prédios da “nova civilização”.


       Com a “nova civilização” a cidade de Paraguaçu divide-se em duas partes: “a parte
alta e a parte baixa”, embora estas expressões não sejam de uso cotidiano quando se
referem a estes espaços, mas ela está constituída e construída nas mentalidades dos que
habitam a cidade de Paraguaçu Paulista. A Ferrovia delimitou o espaço urbano, redefiniu
espacialidades. Hoje a “parte baixa”, que foi o grande centro de comércio nos primeiros
anos da cidade, é um bairro com uma grande concentração de pobreza, onde a maioria dos
habitantes trabalham na zona rural ou na construção civil. Muitas mulheres saem deste
bairro para ir trabalhar de doméstica nos “altos da cidade” e, observar na calada da noite o
uso de drogas por adolescentes e adultos não é fato raro. Não raro também é um grau
elevado de violência que se observa nesta bairro, em função da pobreza do local que não
acompanhou o ritmo de crescimento da parte “alta” da cidade . A Barra Funda está situada
atrás de um “cordão de isolamento imaginário” de vários quarteirões onde foram
construídos alguns pontos turísticos-cartões postais da cidade-: o Jardim das Cerejeiras, a
Fonte Luminosa, uma Praça e no ano de 2000 foi criado em um grande espaço que era todo
ajardinado, várias barracas de comércio informal conhecido como “Camelódromo”.
Escondido, detrás de todos estes espaços está o bairro da Barra Funda. .A fala de Pacheco
neste sentido é cheia de significados, quando em um dado momento diz: (...) Eles se
contentavam em habitar aquela região”.

        A evolução urbana elabora uma estratificação social, cria segmentos, rotula,
segrega, estigmatiza lugares.A fruição em determinados espaços, não é exercida por todos
os que a habitam a cidade, ‘lugar do homem’, por excelência. Neste sentido Sandra
Pesavento destaca:



                            (...), mas voltemos aquele olhar especial, que tributamos ao historiador. Em se
                            tratando da cidade, as dimensões do espaço e do tempo se apresentam como um
                            desafio. Principiemos pelo espaço, entendido tanto como território da cidade
                            apropriado e transformado pelo homem –quanto como espaço construído -
                            materialidade edificada-que se veste de forma, junção e significado. Ora, esta
                            dimensão espacial que se oferece ao olhar no contexto urbano, tem marcada
                            sobre si a passagem do tempo, uma vez que se trata de buscar, na cidade, sua
                            História e Memória. E, neste ponto, o historiador precisa ter filigranas no olhar
                            para ver, neste espaço transformado, destruído, desgastado, renovado pelo
                            tempo, a cidade do passado (PESAVENTO, 2005 p.111-112).



        Foi com filigranas no olhar que se apreendeu a emoção dos entrevistados cujas
narrativas foram além das palavras. As emoções estavam presentes nos relatos através dos
gestos, das entonações das vozes que se alternavam do silêncio ao riso, do falar alto, do
sussurrar como se não quisessem expor um passado que lhes eram tão próprios, tão
individuais. Falaram com o corpo e com a alma, e dividiram as memórias cujo
pertencimento era individual. A imagem da cidade nos seus primórdios renasceu através
das vozes dos homens que viveram o local e costuraram a colcha de retalhos que é uma
cidade enquanto representação.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Fotografia e o Controle dos Códigos de representação Social da Classe Dominante, no
Rio de Janeiro, na Primeira Metade do Século XX. 1990. Disponível em
<http://www.historia.uff.br/labhoi/pdf/dssma04.pdf> [Acesso em: 17/04/05].

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembrança dos Velhos. São Paulo, SP. T.A. Editor,
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DECCA, Edgar Salvadori De.Memória e Cidadania. O Direito a Memória. Patrimônio
Histórico e Cidadania. Departamento do Patrimônio Histórico. Secretaria Municipal de
Cultura.1992.

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2003.

KOSSOY, Boris. Fotografia e História. São Paulo, Ática, 1989.

LE GOFF, Jacques. A história nova. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

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MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia e história interfaces. Agosto,
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MAUAD, Ana Maria; CARDOSO, Ciro Flamarion. História e Imagem: os exemplos da
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MORAIS,SergioSantos              MinnhaCidade              disponível            em:
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PESAVENTO, Sandra Jatahy. O imaginário da cidade. Visões Literárias do Urbano -
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SPÓSITO, Maria Encarnação Beltrão. Revista Paranaense de Geografia numero-
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ZANIRATO. Silvia Helena. Lembranças fotográficas: memória e história na cidade
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histórica. Maringá, EDUEM, 2005.

FONTES:

Acervo fotográfico do Museu Municipal da Estância Turística de Paraguaçu Paulista.

Arquivo da Biblioteca Municipal da Estância Turística de Paraguaçu Paulista. (consulta dos
volumes encadernados do Jornal A Semana, décadas de 1950 e 1960).


OBRAS DE MEMORIALISTAS:

GIOVANETTI, Bruno. Esboços Históricos da Alta Sorocabana.São Paulo, Empresa
Gráfica da Revista Tribunais ltda, 1943.

JUNIOR, José Jorge. Crônicas: “Um Pouco de História da Alta Sorocabana”. Jornal “A
Semana”, Paraguaçu Paulista, 1960.

				
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