SHARON STONE.separado

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					                                 SHARON STONE
                         UMA ATRIZ DE CORPO E ALMA
                                                           Valter Martins de Paula




     Uma das cenas mais conhecidas do público nos anos 1990 é a protagonizada
por uma linda loura em uma delegacia de polícia, no filme Instinto Selvagem (Basic
Instinct, 1992). Na cena, a principal suspeita de um assassinato, Catherine Tramell,
uma escritora de sucesso, deixa os policiais que a interrogam de queixo caído:
vestida com um modelinho branco inteiriço, ela dá uma demorada cruzada de
pernas, revelando que não está usando calcinha e deixando à mostra suas partes
íntimas. Era a cruzada de pernas que Sharon Stone, a intérprete de Catherine,
precisava para, literalmente, brilhar no mundo cinematográfico e tornar-se um dos
maiores símbolos sexuais de Hollywood.
     Mas muito se engana quem pensa que Sharon Stone iniciou sua carreira de
atriz de Cinema em Instinto Selvagem – o filme, um suspense carregado de erotismo
e tensão, foi um dos maiores sucessos de 1992 e promoveu a ascensão do cineasta
holandês Paul Verhoeven na indústria cinematográfica norte-americana. Nascida em
10 de março de 1958, em Meadville, uma cidade rural do estado da Pensilvânia,
Sharon, que trabalhou inicialmente como modelo, estreou no Cinema em 1980, num
pequeno papel (sem fala) em Memórias, de Woody Allen: ela é a loura sedutora que
aparece no início da fita, dentro de um vagão do metrô.
     Dotada de uma beleza enigmática e de um talento nato (porém, pouco
aproveitado pela indústria cinematográfica), Sharon conseguiu seus primeiros papéis
de destaque entre os meados da década de 1980 e o começo dos anos 1990, em
filmes de qualidade questionável, como: As Minas do Rei Salomão, um clássico das
“sessões da tarde”, uma besteira protagonizada por um sempre caricato Richard
Chamberlain; Loucademia de Polícia 4: O Cidadão se Defende, uma comédia tola; e
O Vingador do Futuro, um dos maiores vexames de sua vida, em que teve de
contracenar com o atual governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger.
     A sorte de Sharon Stone mudou quando, ao lado de Michael Douglas,
protagonizou Instinto Selvagem, um filme que fez fama devido principalmente às
suas quase explícitas cenas de sexo. A fita foi a responsável pela fama instantânea
da atriz, mas também sepultou todo o seu potencial dramático em filmes posteriores.
A maior prova disto são os papéis equivocados que Sharon Stone escolheu
interpretar, mesmo trabalhando com diretores acima de quaisquer suspeitas, como
Sam Raimi (no filme de faroeste Rápida e Mortal, uma das maiores bombas de
1995) e Phillip Noyce (no suspense Invasão de Privacidade, cuja história é baseada
no livro Madison, 1300/Sliver, escrito pelo mesmo autor de O Bebê de Rosemary, Ira
Levin). Sua maior chance de calar a boca de muitos de seus detratores veio com o
papel da mulher de Robert De Niro em Cassino, uma obra-prima de Martin
Scorsese. Ela ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática por essa
interpretação e recebeu também uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Atriz
(perdeu para a sempre competente Frances McDormand).
    Após o fugaz reconhecimento por parte da crítica e o respeito inconteste do
público – que sempre a lembraria como “a assassina do furador de gelo de Instinto
Selvagem” –, a simpática atriz foi discreta nas escolhas dos filmes em que iria
trabalhar, preferindo se afastar dos holofotes e do sempre efêmero mundo das
celebridades. E, hoje, trabalha em filmes nos quais possa, porventura, demonstrar
aos interessados seu enorme potencial como atriz séria e respeitável. O maior
exemplo disto talvez seja sua presença iluminada em Alpha Dog, um belíssimo
drama dirigido por Nick Cassavetes e que, por motivos de péssima distribuição e
divulgação, passou despercebido do público brasileiro. No filme, Sharon (ela
interpreta a mãe de um jovem viciado), se despe de qualquer vaidade e dá o melhor
de si (sem dúvida alguma, a melhor atuação na fita é a dela). Graças à sua garra e
seu talento, o papel não correu o risco de cair em uma caricatura desmedida. Outro
grande momento da atriz é no filme (fracassado, embora muito interessante) Bobby,
em que o diretor Emilio Esteves tenta desvendar a vida de pessoas comuns no
prédio onde, em 5 de junho de 1968, o senador Robert Kennedy foi assassinado.
    Agora, não se sinta culpado se sua memória cinematográfica o impede de
lembrar de Sharon Stone em outros filmes que não seja Instinto Selvagem (esqueça
Instinto Selvagem 2, a seqüência picareta lançada há três anos). Sua interpretação
da sexy escritora Catherine Tramell continua sendo a maior contribuição de Sharon
para o Cinema e para o inconsciente coletivo, embora sua fase de musa e de
“mulher fatal” tenha minguado há muito. Também não cometa o erro de relegar a
atriz ao impiedoso nicho de atrizes de um sucesso só. E, se permitir conhecer sua
carreira a fundo, conhecerá uma artista que, antes de tudo, não tem medo de ousar
e que, por mais que o tempo tente provar o contrário, ainda consegue se sustentar
pelo talento, e não somente pelo corpo.


“Minha vontade foi o que me fez famosa, não foi meu talento, nem meu charme.
Aliás, vontade e inteligência fazem você ir a qualquer lugar aonde queira ir. A
questão mais importante é saber aonde você quer ir.”
Sharon Stone




                       SHARON STONE – FILMOGRAFIA PARCIAL




Memórias (Stardust Memoires, 1980)
Roteiro e Direção: Woody Allen
Elenco: Woody Allen, Charlotte Rampling, Jessica Harper, Marie-Christine Barrault,
    Tony Roberts, Daniel Stern, Amy Wright, Helen Hanft, John Rothman, Anne
    DeSalvo, Joan Neuman, Ken Chapin, Leonard Cimino, Eli Mintz, David Lipman,
    Robert Munk, Sharon Stone, Jack Rollins, Howard Kissel, Judith Crist, Louise
    Lasser, John Doumanian


As Minas do Rei Salomão (King Solomon’s Mines, 1985)
Direção: J. Lee Thompson
Roteiro: Gene Quintano & James R. Silke, baseando-se no romance homônimo de
    H. Rider Haggard
Elenco: Richard Chamberlain, Sharon Stone, Herbert Lom, John Rhys-Davies, Ken
    Gampu


Allan Quatermain e a Cidade do Ouro Perdido (Allan Quatermain and the Lost City of
    Gold, 1987)
Direção: Gray Nelson
Direção (cenas adicionais): Newt Arnold
Roteiro: Gene Quintano, baseando-se em romance de H. Rider Haggard
Elenco: Richard Chamberlain, Sharon Stone, James Earl Jones, Henry Silva, Robert
    Donner, Doghmi Larbi, Cassandra Peterson
Loucademia de Polícia 4: O Cidadão se Defende (Police Academy 4: Citizens on
     Patrol, 1987)
Direção: Jim Drake
Roteiro: Gene Quintano
Elenco: Steve Guttenberg, Bubba Smith, Michael Winslow, David Graf, Tim
     Kazurinsky, Sharon Stone, Marion Ramsey, Lance Kinsey, Leslie Easterbrook,
     Colleen Camp, G. W. Bailey, George Gaynes, Shawn Weatherly


Nico – Acima da Lei (Nico – Above the Law, 1988)
Direção: Andrew Davis
Roteiro: Steven Pressfield, Ronald Shusett e Andrew Davis, a partir de uma história
     de Andrew Davis & Steven Seagal
Elenco: Steven Seagal, Pam Grier, Sharon Stone, Daniel Faraldo, Henry Silva


O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Ronald Shusett, Dan O’Bannon & Gary Goldman, baseando-se no conto
     “We Can Remember It for You Wholesale”, de Philip K. Dick
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Rachel Ticotin, Sharon Stone, Ronny Cox, Michael
     Ironside, Marshall Bell, Mel Johnson Jr.


Enigma do Passado (Scissors, 1991)
Direção: Frank De Felitta
Roteiro: Frank De Felitta, baseando-se numa história de Joyce Selznick
Elenco: Sharon Stone, Steve Railsback, Ronny Cox, Michelle Phillips


Dominada pelo Medo (Diary of a Hitman, 1992)
Direção: Roy London
Roteiro: Kenneth Pressman, baseando-se em sua peça Insider’s Price
Elenco: Forest Whitaker, Sherilyn Fenn, John Bedford-Lloyd, James Belushi, Lois
     Chiles, Sharon Stone, Seymour Cassel, Lewis Smith


Instinto Selvagem (Basic Instinct, 1992)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Joe Eszterhas
Elenco: Michael Douglas, Sharon Stone, George Dzundza, Jeanne Tripplehorn,
     Denis Arndt, Leilani Sarelle, Bruce A. Young, Chelcie Ross, Dorothy Malone,
     Wayne Knight, Stephen Tobolowsky


Invasão de Privacidade (Sliver, 1993)
Direção: Phillip Noyce
Roteiro: Joe Eszterhas, baseando-se no romance homônimo de Ira Levin
Elenco: Sharon Stone, William Baldwin, Tom Berenger, Polly Walker, Colleen Camp,
     Amanda Forman, Martin Landau, Nina Foch, Keene Curtis, Nicolas Pryor


O Especialista (The Specialist, 1994)
Direção: Luis Llosa
Roteiro: Alexandra Seros
Elenco: Sylvester Stallone, Sharon Stone, James Woods, Rod Steiger, Eric Roberts,
     Mario Ernesto Sanchez


Cassino (Casino, 1995)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Nicholas Pileggi & Martin Scorsese, baseando-se em livro de Nicholas
     Pileggi
Elenco: Robert De Niro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Wood, Don Rickles, Alan
     King, Kevin Pollak, L. Q. Jones, Dick Smothers, Frank Vincent, Melissa Prophet


Rápida e Mortal (The Quick and the Dead, 1995)
Direção: Sam Raimi
Roteiro: Simon Moore
Elenco: Sharon Stone, Gene Hackman, Russell Crowe, Roberts Blossom, Kevin
     Conway, Lance Henriksen, Pat Hingle, Gary Sinise, Leonard DiCaprio, Tobin
     Bell, Keith David, Olivia Burnette, Fay Masterson, Bruce Campbell


Diabolique (Diabolique, 1996)
Direção: Jeremiah Chechik
Roteiro: Don Roos, baseando-se em romance de Pierre Boileau & Thomas Narcejac
Elenco: Sharon Stone, Isabelle Adjani, Chazz Palminteri, Kathy Bates, Spalding
     Gray, Shirley Knight, O’Neal Compton, Allen Garfield, Adam Hann-Byrd, Donal
     Logue, Jeffrey Abrams, Diane Bellamy, Clea Lewis


Esfera (Sphere, 1998)
Direção: Barry Levinson
Roteiro: Stephen Hauser & Paul Attanasio, baseando-se em romance de Michael
     Crichton
Elenco: Dustin Hoffman, Sharon Stone, Samuel L. Jackson, Peter Coyote, Liev
     Schreiber, Queen Latifah


Sempre Amigos (The Mighty, 1998)
Direção: Peter Chelsom
Roteiro: Charles Leavitt, baseando-se no romance Freak the Mighty, de Rodman
     Philbrick
Elenco: Sharon Stone, Gena Rowlands, Harry Dean Stanton, Kieran Culkin, Elden
     Henson, Gillian Anderson, James Gandolfini


Glória (Gloria, 1999)
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Steven Antin
Elenco: Sharon Stone, Jean-Luke Figueroa, Jeremy Northam, George C. Scott,
     Cathy Moriarty, Bonnie Bedelia, Mike Starr


A Musa (The Muse, 1999)
Direção: Albert Brooks
Roteiro: Albert Brooks & Monica Johnson
Música: Elton John
Elenco: Albert Brooks, Sharon Stone, Andie MacDowell, Jeff Bridges, Mark
     Feuerstein, Steven Wright, Bradley Whitford


Garganta do Diabo (Cold Creek Manor, 2003)
Direção: Mike Figgis
Roteiro: Richard Jefferies
Elenco: Dennis Quaid, Sharon Stone, Stephen Dorff, Juliette Lewis, Kristen Stewart,
     Ryan Wilson, Dana Eskelson, Christopher Plummer


Questão de Lealdade (A Different Loyalty, 2003)
Direção: Marek Kanievska
Roteiro: Jim Piddock
Elenco: Sharon Stone, Rupert Everett, Julian Wadham, Mimi Kuzik, Joss Ackland


Mulher-Gato (Catwoman, 2005)
Direção: Pitof
Roteiro: John Brancato, Michael Ferris & John Rogers, a partir de uma história de
     Theresa Rebeck, John Brancato & Michael Ferris, inspirando-se nos
     personagens criados pelo quadrinhista Bob Kane
Elenco: Halle Berry, Sharon Stone, Benjamin Bratt, Lambert Wilson, Frances Conroy


Alpha Dog (Alpha Dog, 2006)
Roteiro e Direção: Nick Cassavetes
Elenco: Ben Foster, Shawn Hatosy, Emile Hirsch, Christopher Marquette, Sharon
     Stone, Justin Timberlake, Anton Yelchin, Bruce Willis


Bobby (Bobby, 2006)
Roteiro e direção: Emilio Estevez
Elenco: Anthony Hopkins, Demi Moore, Sharon Stone, Laurence Fishburne, Harry
     Belafonte, Emilio Estevez, Heather Graham, Helen Hunt, Lindsey Lohan,
     William H. Macy, Martin Sheen, Christian Slater


Instinto Selvagem 2 (Basic Instinct 2, 2006)
Direção: Michael Caton-Jones
Roteiro: Leora Barish & Henry Bean
Elenco: Sharon Stone, David Morrissey, Charlotte Rampling, David Thewlis, Hugh
     Dancy, Flora Montgomery, Indira Varma, Heather Williams


Austodestruição (When a Man Fall in the Forest, 2007
Roteiro e Direção: Ryan Eslinger
Elenco: Sharon Stone, Timothy Hutton, Dylan Baker, Stacy Bono, Pruitt Taylor, Vince
     David Williams


Ruas de Sangue (Streets of Blood, 2008)
Direção: Charles Winkler
Roteiro: Eugene Hess, baseando-se numa história sua e de Dennis Fanning
Elenco: Val Kilmer, Curtis “50 Cent” Jackson, Sharon Stone, Brian Presley, Michael
     Biehn


“Eu acho que a última estrela de grande dimensão, vinda de Hollywood, foi Sharon
Stone, com o estonteante Instinto Selvagem.”
Camille Paglia




Valter Martins de Paula é jornalista e historiador
GENTE QUE FAZ CINEMA


                               JULIANNE MOORE
UMA ATRIZ INCANSÁVEL E GARANTIA DE INTENSIDADE EM CENA – PARTE 1
                                                           João Rodolfo Franzoni




    Em 1993, O Fugitivo (The Fugitive), dirigido por Andrew Davis, despontava
como um dos grandes sucessos de bilheteria do ano. Harrison Ford, o eterno
Indiana Jones, selava, então, sua condição de astro num thriller empolgante e bem
dirigido. Mas alguns poucos espectadores atentaram para uma atriz com
pouquíssimos minutos em cena... Sim, ela aparecia muito pouco em cena; porém,
durante todo o seu tempo na tela, roubou a cena do protagonista e garantiu a
apreensão num instante crucial da fita. O nome dessa atriz? Julianne Moore (o nome
verdadeiro dela é Julie Anne Smith). Ela surgia numa ponta, como uma médica
aturdida pelos afazeres de um hospital lotado e que, ao confiar a transferência de
um paciente a um dos serventes – na verdade, o personagem principal, num de
seus disfarces – descobre sua verdadeira identidade de médico, já que ele contraria
uma ordem sua e encaminha um menino enfermo para o diagnóstico adequado. É
uma cena muito curta, na qual a atriz monopoliza as atenções. E chamou a atenção
de Steven Spielberg, que declarou ter sido esse trabalho que o convencera a escalar
a atriz para a seqüência de Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros (Jurassic
Park, 1933), O Mundo Perdido: Jurassic Park (The Lost World: Jurassic Park),
realizada em 1997. No entanto, não foi só esse o grande momento de Julianne
Moore em 1993: uma das cenas mais comentadas no ano foi uma passagem bem
desinibida protagonizada pela atriz, dessa vez sob a direção de Robert Altman na
obra-prima Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts), uma adaptação de nove contos
e de um poema em prosa do escritor norte-americano Raymond Carver (1939-1988).
Tratava-se de uma discussão trocada entre a personagem de Julianne Moore e o
marido, um médico interpretado por Matthew Modine. A discussão progride de forma
violenta, já que o despojamento da mulher como pintora passou a incomodar seu
companheiro. De repente, ela suja a saia acidentalmente, retira-a sem a menor
cerimônia, revelando-se inteiramente nua da cintura para baixo (a câmara não
desvia de sua cintura, deixando o sexo da atriz bem explícito), e prossegue com a
discussão nessa condição, limpando a roupa, até o marido levantar a voz e reclamar
daquela liberdade toda. Um registro verdadeiro memorável de toda a intensidade do
cotidiano. Uma típica cena de um filme de Robert Altman, com o adendo de uma
atriz apaixonante em estado de graça.
     Pode-se afirmar, portanto, que está registrado nessas cenas o ingresso de
Julianne Moore para o time das grandes atrizes norte-americanas em atividade.
     Nascida em 3 de dezembro de 1960 (de acordo com a revista Premiere,
algumas fontes asseguram que o ano de seu nascimento é 1961), em Fayeteville, no
estado de Carolina do Norte, Julianne Moore é uma ruiva alta com um sorriso
cativante (certa vez, o cineasta Bart Freundlich afirmou: “Quando Julianne sorri, o
seu rosto transforma-se por completo.”), rosto sardento e versatilidade indiscutível. É
filha de um juiz do Corpo Geral de Juízes das Forças Armadas dos Estados Unidos
e de uma psiquiatra escocesa devotada à assistência social. Na adolescência, viveu
no Alasca, Alemanha e França. Formou-se em Arte Dramática em Boston, em 1983,
e mudou-se para Nova York, onde começou a trabalhar em teatro e em algumas
produções feitas para a televisão. Estreou nas telas cinematográficas numa fita
inexpressiva, Slaughterhouse 2 (1983), sob a direção de Michael D. Weldon, e
chamou a atenção pela primeira vez em A Mão Que Balança o Berço (The Hand
That Rocks the Cradle, 1992), um suspense dirigido por Curtis Hanson – para quem
não se lembra, nesse filme ela vivia a melhor amiga da protagonista (Annabella
Sciorra) e tinha uma morte horrível ao ser degolada pelos vidros de uma estufa,
numa das armações da babá diabólica e psicótica interpretada por Rebecca
DeMornay. Em seguida, interpretou papéis menores, seja na comédia Um Perigo de
Mulher (The Gun in Betty Lou’s Handbag, 1992), estrelada por Penelope Ann Miller,
ou no catastrófico Corpo em Evidência (Body of Evidence, 1993), um veículo de puro
exibicionismo para a cantora Madonna, não despertando maiores interesses. Já em
1994, quando começava a firmar seu nome, foi saudada pela crítica, a ponto de ser
eleita a melhor atriz do ano pelos críticos de Boston, ao encarnar a personagem
Yelena em Tio Vânia em Nova York (Vanya on 42nd Street), a versão
cinematográfica de Louis Malle (1932-1995) para um texto do dramaturgo russo
Anton Tchekhov (1860-1904). Exercício experimental do diretor francês (Malle já
havia tentado uma experiência semelhante com My Dinner with Andre, de 1981,
inédito no Brasil), esse teatro filmado pode arregimentar tanto detratores quanto
admiradores; mas é impossível não prestar atenção ao mimetismo de Julianne em
cena, sobretudo nos momentos em que sua personagem descobre-se no papel de
catalisadorea do caos familiar que vai sendo instaurado. Yelena é casada com um
sujeito mais velho (George Gaynes), que assumiu os negócios familiares da falecida
esposa rica e, por isso, é encarado como aproveitador pelo restante do clã. Numa
tentativa de convencer a enteada (Brooke Smith) da sinceridade de seu afeto,
Yelena decide promover uma união entre a moça desiludida com o médico da
família (Larry Pine). Porém, o alvo de interesse do doutor é a própria Yelena. Vale
destacar que, quando Malle cede o espaço para Julianne Moore brilhar, o filme
ganha uma aura especial, a ponto de reduzir a opressão de seu registro, revelando
assim uma atriz movida principalmente pela sinceridade (aliás, o verdadeiro ator é
aquele que interpreta com sinceridade, com alma).
     Em 1995, Julianne Moore marcou presença na simpática comédia dramática
Dupla Sem Par (Roommates), aparecendo ao lado dos veteranos Peter Falk e Ellen
Burstyn, e em duas superproduções que poderiam ter contribuído para torná-la um
rosto conhecido do público: a comédia Nove Meses (Nine Months) foi beneficiada
muito mais por causa do escândalo envolvendo seu parceiro de cena, Hugh Grant,
flagrado recorrendo aos serviços de uma prostituta, do que por suas qualidades
como filme; e a fita de ação Assassinos (Assassins), apresentando um Sylvester
Stallone (numa parceria desastrosa com Antonio Banderas) com visíveis sinais de
saturação. Mas foi novamente num filme acolhido pela crítica que a atriz conseguiu
destaque em 1995: A Salvo (Safe), dirigido por Todd Haynes. Ao interpretar uma
dona-de-casa que se descobre alérgica a produtos de limpeza e uso diário, Julianne
pôde demonstrar todo seu talento como atriz – certamente, ela foi a grande
responsável pela legitimidade dessa crítica aguda à sociedade de consumo,
sobretudo quando sua personagem recorre a um rol interminável de ajudas
espirituais, procurando se curar de seu mal.
     Já em 1996, Julianne Moore apareceu apenas em Os Amores de Picasso
(Surviving Picasso), pretensiosa e aborrecida abordagem que James Ivory fez da
vida amorosa do artista plástico espanhol Pablo Picasso (interpretado por Anthony
Hopkins). No filme Julianne interpreta a pintora Dora Maar (1907-1997), que serviu
de modelo para vários quadros de Picasso e foi uma de suas amantes.
     1997   foi   um   ano   de   significativa   realização   para   Julianne   Moore.
Primeiramente, marcou presença ao lado de dinossauros criados digitalmente num
dos grandes sucessos de bilheteria do ano, o já citado O Mundo Perdido: Jurassic
Park. Apesar da extrema pobreza do roteiro e da direção preguiçosa de Spielberg, a
atriz garante atenção, principalmente na melhor cena do filme: quando fica de cara
com um penhasco, enquanto o vidro do carro que a protege vai lentamente se
espatifando. O drama O Mito das Digitais (The Myth of Fingerprints), enfocando
relações familiares tumultuadas, trouxe-a no papel da filha revoltada de Roy
Scheider e Blythe Danner. No entanto, foi Boogie Nights – Prazer sem Limites
(Boogie Nights), segundo longa-metragem do diretor Paul Thomas Anderson e um
dos únicos mergulhos do cinema convencional no mundo pornô de Hollywood, que
ensaiou sua consagração. Um minuto em cena de Julianne como uma veterana e
errante atriz de filmes pornográficos (o papel foi inspirado num dos ícones do pornô
norte-americano, Marilyn Chambers, a estrela do clássico Atrás da Porta
Verde/Behind the Green Door), que tenta servir de alicerce para os colegas de
profissão (mesmo estando proibida de visitar o filho e sendo uma viciada em
drogas), é suficiente para despertar no espectador uma compaixão irrecusável, além
de um carinho que só mesmo uma intérprete dedicada seria capaz. Indicada ao
Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel, merecia ter ganho a estatueta, caso
o lobby naquele ano não estivesse tão forte para o retorno de Kim Basinger em Los
Angeles – Cidade Proibida (L.A. Confidential). Doze anos é tempo suficiente para se
enxergar tamanha injustiça! Mas, enfim, são as injustiças do Oscar.




João Rodolfo Franzoni é jornalista

				
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