MEM�RIAS DA CONDESSA DE MANGUALDE MARIA TERESA DE SOUZA BOTELHO EM ELLO

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					MEMÓRIAS DA CONDESSA DE MANGUALDE



Incursões Monárquicas 1910-1920




MARIA TERESA DE SOUZA BOTELHO E MELLO




QUETZAL EDITORES




Digitalização e Arranjo




Agostinho Costa




Este livro foi digitalizado para ser lido

por Deficientes Visuais




"Memórias da Condessa de MangUalde são um documento inédito, abarcando o período das
Incursões Monárquicas, de 1910 a 1920. Vamos encontrar nestas Memórias as angústias,
incertezas e dificuldades por que passou a mulher de um dos mais convictos opositores
monárquicos que recusara a indiferença e passividade geral perante a proclamação da
República. Exilado, encarcerado ou a monte, Fernando de Albuquerque, Conde de Mangualde,
procurou sempre acompanhar e proteger a sua família, ainda que tal parecesse quase
impossível. Assim o demonstra esta narrativa, escrita por uma mulher consciente e
empenhada na compreensão daqueles conturbados anos. As cartas do jovem casal são o
grande suporte de memória que, pelos seus pormenores quotidianos, atribuem ao texto um
realismo inesperado e, pelas suas descrições, ilustram um período da nossa história ainda por
esclarecer.

Guiado por Maria Teresa de Souza Botelho e Mello, o leitor revive os tempos difíceis da pós-
instauração republicana: "A impressão que se sente no meio de uma revolução é o que há de
mais angustioso: a incerteza do seu desfecho, a sensação de completa impotência perante o
perigo, o silêncio das ruas entrecortado por tiros isolados disparados não se sabe de onde,
nem contra quem, tudo concorre para aumentar essa angústia."




MEMÓRIAS DA CONDESSA DE MANGUALDE




Incursões Monárquicas 1910-1920




MARIA TERESA DE SOUZA BOTELHO E MELLO




Prefácio de Vasco Pulido Valente




QUETZAL EDITORES




Lisboa - 2002



Capa de: Paulo Sousa
(c) Fundação da Casa de Mateus, 2001




Todos os direitos para a publicação reservados por:

Livros Quetzal, S.A.




Rua Anchieta n.o 29, 1.o - 1249-060 Lisboa




Telefone 21 030 55 00



Telefax21 0305563



E-mail: quetzal@ip.pt




Pré-impressão: Multitipo-Artes Gráficas, Lda.




Revisão: Vasco Rosa




Impresso na Tipografia Guerra em Fevereiro de 2002




Índice
Prefácio de Vasco Pulido Valente                            ............. 7

Como conheci o Fernando                       ...................... 37

Primeira Incursão                 ........................... 41

Segunda Incursão                  ........................... 51

Penitenciária         ................................ 77

Cabeço de Bola ............................... 113

Revolução de 14 de Maio ..................... 125

Sidónio Pais          ............................... 143

Monarquia do Norte                .......................... 147

Últimos anos ................................               194

Epílogo ...................................... 198



Anexos ....................................... 199



"O Dia da Revolução em Cascais", texto de

D. Fernando de Albuquerque                    ................ 201




PREFÁCIO




Este prefácio não é uma paráfrase das Memórias da condessa de Mangualde, nem da curta
narrativa do conde sobre o seu "5 de Outubro" e o princípio do movimento monárquico contra
a República. A história que eles nos deixaram não precisa das minhas luzes. Mas suponho que
o leitor moderno precisa de uma explicação do mundo político em que os dois viveram e
agiram. Foi isso o que tentei fazer: uma espécie de mapa por onde se pudesse mais claramente
seguir os nove anos de sacrifício, luta e aventura de um prodigioso casal.




I. A iniciação




Na manhã de 4 de Outubro de 1910, Fernando de Albuquerque, conde de Mangualde, soube
pela criada que corriam boatos de uma revolução em Lisboa. Não acreditou. Fernando de
Albuquerque vivia em Cascais, mas trabalhava em Lisboa, na Direcção-Geral de Estatística. Foi,
portanto, como de costume, apanhar o comboio. No caminho, encontrou um amigo, um tal
Artur Vaz, que lhe confirmou os boatos e ele próprio pôde constatar que os comboios não
circulavam. Oficial do exército, resolveu logo partir para Lisboa, a cavalo ou de carro. A defesa
da monarquia era um dever de honra e ele um militar e um homem honrado. Infelizmente, os
republicanos dominavam o Tejo e a Carbonária vigiava as passagens por terra. À falta de
melhor, e a conselho de Artur Vaz, acabou por se ir apresentar ao comandante das forças
locais, que, em situações de emergência, devia ser, segundo o regulamento,



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aquele que tivesse a patente superior de maior antiguidade. Esse privilegiado - de seu nome
Matos Cordeiro -, quando Mangualde finalmente o conseguiu encontrar, estava tranquilo e
resignado. Não havia nada a fazer, explicou ele. Mangualde que deixasse a morada e ficasse
descansado.

A educação política de Fernando de Albuquerque começou assim. Durante a tarde, no quartel
da Guarda Fiscal, seguiu pelo telefone (um telefone ligado ao Ministério da Fazenda, hoje das
Finanças) o descalabro da guarnição de Lisboa, que lhe chegava em informações obscuras,
confusas, parciais. Só perto da noite - e perante a evidência de que a revolução continuava - o
comandante se lembrou que o Infante D. Afonso também fora apanhado em Cascais e se
recusava a fugir. Com dificuldade, removeu a sua pessoa até à Cidadela. Mangualde, que o
acompanhou, com certeza que nunca imaginara o que viu. A protecção do Infante consistia em
alguns marinheiros de pouca confiança e meia dúzia de voluntários de boas famílias. Matos
Cordeiro declarou imediatamente que nem sequer valia a pena inspeccionar as peças de
artilharia, que serviam para salvas e rigorosamente mais nada. Mas Mangualde com os
voluntários e alguns soldados, que por acaso apareceram, ainda arranjou duas, pelo menos
capazes de dar um tiro - um único tiro. Andava ele neste esforço inglório, quando dois vultos,
um embuçado, se escapuliram da fortaleza. O embuçado era, naturalmente, D. Afonso. O
episódio desanimou os voluntários, que debandaram indignados. Fernando de Albuquerque e
um pequeno grupo de oficiais, incluindo Matos Cordeiro, ainda esperam até de madrugada
notícias do Infante. Não vieram notícias e, de comum acordo, todos voltaram para casa.
Enquanto dormiam, a família real embarcou para o exílio e a guarnição de Lisboa, quase
intacta, permitiu que se proclamasse a República.

Muito se discutiu sobre a natureza do "5 de Outubro": golpe militar? Insurreição civil? As duas
coisas? No fundo, nenhuma delas. A história de Fernando de Albuquerque é - em miniatura -
esclarecedora. O exército não queria combater a revolução e deixou o campo livre à revolução
de sargentos, soldados e civis, organizada e dirigida pela Carbonária. A passividade, a dilação, a
indiferença de Matos Cordeiro simbolizam a atitude geral do corpo de oficiais.

"Vergonha militar", como disse em 1913 Fernando de Albuquerque e provavelmente sentiu
em 1910? De maneira nenhuma. Não agindo, o exército de facto agiu. Abandonar a Monarquia
era o mesmo do que se pronunciar contra ela - o que em calão técnico se chama um
"pronunciamento negativo".

A palavra negativo é aqui importante. Os que não se bateram pelo regime - ou apenas fingiram
que se bateram - não o fizeram por qualquer espécie de amor pela República ou por ódio à
Monarquia. Tinham um profundo desprezo por aquela Monarquia e, num ou noutro caso,
alguma esperança falaz numa República honesta e "regeneradora". Até aqueles que se
bateram ou se tentaram bater contra a revolução, como o conde de Mangualde, obedeciam
sobretudo às regras da dignidade e do dever militar e não ao desejo de conservar um regime,
que achavam irreformável e corrupto. Com o tempo, isto acabou por levar o partido
monárquico a uma sucessão de absurdas aventuras. Mas convém perceber, desde já, que o
vazio político em que, de fracasso em fracasso, as agitou durante quinze anos não nasceu com
o "5 de Outubro". A glorificação da monarquia foi um exercício póstumo.

Fernando de Albuquerque, por exemplo. Em si próprio o advento da República não o
perturbou. Liberal convicto, pensava que o melhor regime seria aquele com a constituição
mais liberal. Quanto à questão do chefe do Estado - hereditário ou eleito - não lhe atribuía
grande importância. As duas soluções tinham quase tantas vantagens como inconvenientes.
Ele confessava a sua preferência pela Monarquia, mas não lhe repugnava viver sob a
República. Apesar disso, hesitou em a reconhecer formalmente, assinando um papelinho no
Ministério da Guerra: mais por causa da humilhação implícita no acto do que por repugnância
política. De qualquer maneira assinou, recusou conspirar e decidiu mesmo concorrer a
deputado, coisa que antes várias vezes recusara.

Depressa se desiludiu. Não compreendera que as discussões teóricas sobre os méritos
relativos da República e da Monarquia não passavam de uma conversa irrelevante. O antigo
ministro e par do Reino, Francisco José de Medeiros, bem o avisara: "Não é a República que
me mete medo, o que me mete medo são os republicanos." Em vão. O conde de Mangualde
presumivelmente supunha que
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numa República toda a gente era republicana. Pura ingenuidade. Para o novo regime, ele era
um adesivo, um suspeito, um bode expiatório, um cidadão de segunda classe - e um oficial
sem futuro. Pior: nem a liberdade lhe restava. Um dia, no Chiado, Mangualde assistiu à
"liberdade" em acção e o episódio mudou para sempre a sua vida: foi o célebre assalto aos
jornais monárquicos (o Correio da Manhã, o Diário Ilustrado e O Liberal) por uma "horda",
obediente e sem entusiasmo, que Álvaro Poppe - um oficial como ele - pouco discretamente
comandava. A República traía as suas promessas e os seus "princípios basilares"? Começava o
despotismo da "rua"? Claro que não. A República só podia ser o despotismo da "rua".

Esta revelação convenceu Fernando de Albuquerque a conspirar. Procurou um amigo, Joaquim
Teles de Vasconcelos, e descobriu rapidamente que os conspiradores de um terrível e
misterioso "comité" (de que muito se falava) não conspiravam. Ele e Joaquim Teles tinham de
pôr tudo em pé. Uma dificuldade menor, comparada com o estado de espírito da oficialidade.
Existiam já dois problemas, que dali em diante invariavelmente envenenariam o movimento
monárquico. Por um lado, ninguém queria restaurar D. Manuel no seu trono perdido. E, por
outro, ninguém queria voltar à Monarquia dos velhos partidos, dos caciques e do rotativismo.
Este beco sem saída merece atenção.

A antipatia por D. Manuel é fácil de perceber. Acusado de sofrer a influência deletéria da mãe;
de ter criado o caos político, depois da morte do pai; e, principalmente, de uma fuga
precipitada e cobarde: para o exército, o rei não merecia o mais leve sacrifício. Mas, como se
queixava Mangualde, não sendo ele, quem? D. Miguel? O infante D. Duarte? Um vaguíssimo
Hohenzolern, que descendia vagamente da infanta Dona Antónia? Sugestões não faltavam. Só
que as potências nunca aceitariam um rei escolhido por um bando de conspiradores
portugueses e que não se podia inaugurar o "ressurgimento da Pátria", rejeitando
ostensivamente a legitimidade dinástica. Até morrer, D. Manuel continuou, por isso, a limitar e
dividir os monárquicos, que por ele, ou apesar dele, resistiam à República. E não se julgue que
a hostilidade à sua real personagem não cresceu com as desventuras do exílio, da Galiza e da
"Monarquia do Norte".



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Quanto a restabelecer o desacreditado reino "do Teixeira de Sousa (último Presidente do
Conselho da Monarquia e chefe do Partido Regenerador), do José Luciano (chefe do outro
partido "histórico", o Progressista) e quejandos", para já não falar da mamã do rei e dos seus
conselheiros privados, a oficialidade monárquica negava qualquer colaboração. Preferia a
República. Depois de longas e laboriosas negociações, Mangualde conseguiu encontrar uma
plataforma susceptível de ser apoiada pelo exército. Os seus termos revelam a bem geral
desconfiança do movimento restauracionista. O exército engolia D. Manuel, mas com quatro
condições: 1) se ele se comprometesse, a convocar imediatamente uma assembleia
constituinte; 2) se a rainha Dona Amélia continuasse a "residir" no estrangeiro, até receber
autorização formal do futuro parlamento para entrar em Portugal; 3) se fossem
compulsivamente impedidos de governar ou de aconselhar o rei os políticos "causadores" ou
"consentidores" da desordem que levara à revolução (isto é, na prática, toda a gente, excepto
João Franco); 4) se a casa militar e civil de D. Manuel fosse completamente substituída. De
acordo com Mangualde, este acordo, que mais tarde levantou grande "celeuma", representava
a opinião "unânime" da oficialidade.

Só que, enquanto ele conspirava, o círculo mais próximo do rei advogava a inércia. Álvaro
Pinheiro Chagas (director do Correio da Manhã, de que atrás se mencionou o fim, e agora
exilado) não achava a ocasião propícia a um manifesto do Senhor D. Manuel ou sequer a uma
"política activa". O antigo camareiro, conde Sabugosa, prevenia de Lisboa: "Não me parece a
situação madura para qualquer esforço tendente a afirmar qualquer pretensão de El-rei; nem
para organizar aqui qualquer bureau politique, cuja acção em vista das circunstâncias seria
nula, se não contraproducente." Ignorando esta atmosfera, Mangualde escreveu a Lavradio
(que retomara em Richmond as funções de secretário particular de D. Manuel), para anunciar
a conspiração que se organizava em Portugal e recomendar o seu emissário, o conde de
Penela, encarregado de obter a aprovação do rei para o programa restauracionista. Nas suas
Memórias, Lavradio descreve o encontro entre o Penela e D. Manuel: "Não me recordo de ter
assistido na minha vida a uma entrevista que tanto me incomodasse e estou vendo o rubor de
indignação que subiu às faces de El-rei e ainda hoje [em 1941] admiro o seu sangue-frio não
pondo o emissário na rua.



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Depois da entrevista, El-rei, com as lágrimas nos olhos, disse-me: "Por este preço, nem todas
as coroas do mundo!". E acrescentou: "Todos entendem que têm direito a impor-me
condições, e condições destas! E se eu não aceitar, é porque não quero voltar!..."".

A distância entre a pequena corte de Richmond e os monárquicos que lutavam no terreno era,
e permaneceria, irremediável. Quase na mesma altura em que D. Manuel chorava de fúria com
a escandalosa proposta daquele seu insubordinado súbdito, os republicanos transferiam o
subversivo Mangualde para a Madeira (na verdade um desterro sine die). Naturalmente,
surgiram imediatamente sarilhos e, quando lhe deram licença para uma breve visita a Lisboa,
Mangualde não hesitou em se demitir do exército (era tenente de artilharia) e passar à Galiza.
Não lhe restava outra alternativa: ou a vida de perseguido em Portugal, ou o combate contra a
República no exílio.
II. A Galiza




Fernando de Albuquerque já conhecia Couceiro, com quem conspirara desde o princípio. E
Couceiro - a seguir a um fútil ultimato ao Governo Provisório, que evidentemente ficou sem
resposta - partira para a Galiza para organizar um levantamento em Portugal. A ideia não se
distinguia pela inteligência política e militar. Politicamente, Couceiro contava com duas coisas.
Supunha, para começar, que o terrorismo "carbonário" e, sobretudo, a Lei da Separação do
Estado e da Igreja tinham virado decisivamente o país contra a República, mesmo se o não
tinham reconvertido à Monarquia. Constantes boatos sobre imaginárias manifestações do
descontentamento popular e notícias de que se preparavam revoltas por aqui e por ali
acabaram por o convencer de que a sua "entrada" faria só por si explodir uma sublevação
universal. Isto equivalia a imaginar que pequenos conflitos dispersos, sem especial gravidade e
normalmente provocados por padres e caciques monárquicos, se podiam de repente fundir
em nome da sua pessoa. E que as formidáveis revoltas que lhe anunciavam - por enviados mais
do que suspeitos



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(de facto, muitas vezes provocadores republicanos) ou por mensagens de origem duvidosa -
iam além de conversas de café ou de bravatas sem consequência.

Couceiro acreditou nesta delirante interpretação do mundo por uma razão essencial: pensava
que a sua simples presença em território português bastaria para paralisar parte do exército e
para que a outra parte se juntasse a ele. Também lhe chegavam em extraordinária abundância
"pressões" de camaradas para que "entrasse" e promessas sem fim de pronunciamentos de
unidades, que só esperavam um "sinal". Couceiro também acreditou nisto, sem nunca lhe
ocorrer que, se a maioria dos militares quisesse realmente remover a República, não precisava
dele. A lógica da "Galiza" assentava num equívoco: Couceiro e as suas tropas esperavam o
apoio do "interior" (do "povo" e do exército); o "interior" esperava tudo, ou quase tudo, de
Couceiro. Cada um dos lados pensava que o outro seria decisivo. Obviamente, nenhum foi.

Existia ainda um segundo equívoco sobre a natureza do movimento. Por causa da óbvia
impopularidade do rei e do descrédito dos partidos dinásticos, Couceiro não se proclamou
defensor da Monarquia, mas representante da "nação real", e não prometeu restaurar D.
Manuel, prometeu um referendo sobre a "questão do regime". De imediato, jurou apenas
proteger a religião, restabelecer a disciplina no exército (sem reparar que, a existir, a
indisciplina anulava os seus planos) e destruir o "quarto Poder do Estado", ou seja, como ele
proclamava num manifesto, "a Bomba e as Sociedades Secretas". O seu movimento seria
neutro e, para sublinhar o facto, o "Paladino" adoptou a bandeira azul e branca, sem a coroa.
Pensava com isto atrair a opinião conservadora, sem alienar os monárquicos militantes. Não
atraiu ninguém e afastou D. Manuel, o que, como se verá, serviu de desculpa a muito boa
gente para não comprometer nem a sua vida, nem a sua bolsa naquela aventura.

Quanto à situação militar do escasso milhar de emigrados da "Galiza", não fez desde o
princípio qualquer sentido. Couceiro nem sequer percebia as necessidades do seu comando.
Não tinha, nem procurou montar, um serviço de informações, com os resultados previsíveis:
nunca pôde verificar o que lhe diziam de Portugal; foi infiltrado e espiado pelos republicanos;
e, pouco a pouco,



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reduzido à impotência pelo governo espanhol, que, num transparente jogo duplo, não o
expulsava, mas também não lhe permitia agir. As comunicações não eram melhores, nem com
as suas tropas (dispersas ao longo da fronteira, porque se as concentrasse implicava
publicamente a Espanha numa agressão contra Portugal), nem com os seus aliados do
"interior", nem com os agentes que na Europa lhe tentavam arranjar dinheiro e armas. Esteve
sempre completamente cego, sem meios de coordenar o seu tão desejado "movimento" (que
dependia de uma exacta coordenação) ou de treinar as suas tropas. Essas próprias tropas
eram, aliás, uma estranha mistura de velhos soldados (que, no "5 de Outubro", serviam na
polícia ou na Guarda Municipal), de padres e de voluntários de "boas famílias". Entre os
soldados, havia uma considerável quantidade de mercenários, pagos por monárquicos do
Norte; e os voluntários de "boas famílias", que iam espairecer para Vigo e gozavam de
ostensivos privilégios, receberam logo a pejorativa alcunha de pinocas. As forças de Couceiro
eram um bando improvisado, sem coesão ou solidez.

Fernando de Albuquerque, oficial de carreira e comandante de um "grupo", não se associou
aos prazeres dos pinocas. Deixara a mulher em Mangualde e, fora uma rara visita a Mondariz -
uma vitória -, passou meses sozinho em aldeias remotas, para iludir a vigilância espanhola.
Quase não lhe chegavam notícias sobre o movimento e as que lhe chegavam vinham
destorcidas pelo rumor e as fantasias do próprio Couceiro. O seu caso é típico. Isolado, longe
da família, vivendo em condições primitivas, acreditou no inacreditável para sustentar a
esperança e quando o mandaram marchou alegremente para o desastre.

Não fazia a mais leve ideia do verdadeiro estado do movimento. À solta, os chefes da
emigração monárquica tinham começado por planos megalómanos e acabado por falhar em
tudo. Apesar da falta de dinheiro, devido à indiferença de D. Manuel, uma autodesignada
"comissão de Paris" resolvera comprar um couraçado inglês - coisa inteiramente dispensável,
se Couceiro de facto acreditava que o país se "levantaria" à sua entrada - e, depois, mais
sóbria, transferira as suas visitas para dois navios, presumivelmente de guerra, que tentou em
vão comprar na Alemanha, por intermédio do cônsul de uma república sul-americana. O mito
dos navios correu pela Galiza



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e, até ao fim, o próprio Mangualde o tomou a sério. Entretanto, a "comissão de Paris", por
uma vez sensata, mandava para Espanha, no vapor Gemma, quatro canhões Krupp, 1000
granadas de mão e 200 caixas de espingardas e 4000 balas. O Gemma ainda conseguiu
desembarcar algum material, mas, como os espiões republicanos conheciam a operação em
pormenor, esse material foi apreendido em Orense pela polícia local. Isto levou Couceiro a
reclamar de novo, e de muito má cara, o couraçado. Queria agora surpreender a República na
costa e não vir pelo Norte incendiar o "barril de pólvora". Sem surpresa, de nada lhe valeu
ameaçar a "comissão de Paris". E, em Outubro, exasperado, atravessou a fronteira com 948
homens e praticamente sem armas: a coluna trazia apenas 147 espingardas de modelos
diferentes, 73 pistolas, 13 baionetas e 11.000 balas sortidas, oferta de uma personagem
extravagante, a infanta miguelista Dona Aldegundes. Dos 948 homens de Couceiro, 100
ficaram desarmados e 750 de mãos vazias.

Couceiro justificou depois a demência da primeira incursão, invocando a necessidade de
responder às "pressões" do "interior". Mentia. A 29 de Setembro, houvera um patético ensaio
de revolução no Porto, que só serviu para desencadear a usual purga "do povo indignado" e
meia dúzia de insurreições no Minho, no Douro e na Beira Alta, logo sufocadas. A 1 de
Outubro, um bando miguelista (30 homens) aparecera em Soutelinho da Raia e matara um
guarda fiscal. Manifestamente, o "barril de pólvora" não explodira. Quando a 3 de Outubro
Couceiro decidiu avançar, não ignorava isto.

A incursão roçou o ridículo. A coluna andou dois dias por Espanha, enganada por um guia
incompetente ou vendido. As tropas estavam exaustas por marchas de 20 horas e
desmoralizadas pelo frio e pela fome. Na madrugada de 5, ocuparam a insignificante aldeia de
Vinhais, onde Couceiro - esquecendo a sua "neutralidade" - proclamou a Monarquia.
Infelizmente, uma pequena unidade republicana (68 homens de infantaria e 10 de cavalaria)
atacou a aldeia, de longe e pela força, e logo Couceiro concluiu que não podia resistir a um
"embate sério" (uma conclusão óbvia, embora póstuma) e decidiu retroceder para a fronteira
(precisamente a dois quilómetros). A 6, um destacamento de cavalaria (51 homens),
comandado pelo tenente "revolucionário" Maia Magalhães, saiu em

perseguição da coluna, que encontrou em Casares. Couceiro ocupava uma oposição
dominante e repeliu o ataque sem dificuldade. Dali em diante, vagueou pela serra, sob o olho
do exército republicano, sem qualquer propósito ou qualquer atenção ao terrível sofrimento
físico que infligia às tropas. A 19 de Outubro desistiu e voltou para Espanha.
O que espanta no episódio não é a vertiginosa inconsciência de Couceiro, é a pertinácia, o
estoicismo e a fidelidade daqueles que o seguiram e, mesmo depois daquela triste exibição, o
continuaram a seguir. As cartas de Mangualde à mulher, de 9 e 17 de Outubro, mostram um
inabalável fervor e uma comovedora credulidade. Dizia, por exemplo, sobre o "combate" de
Vinhais: "matámos o tenente ... [e] dois soldados, ferimos um alferes, um aspirante e mais 16
soldados" (não tinham ferido, nem morto ninguém). As deserções a seguir à retirada de
Vinhais - quatrocentas - longe de o desanimar, serviram para fortalecer a sua confiança na
gente que ficara (houve mais trezentas). No povo descobria sempre um "imenso entusiasmo"
(entusiasmo que o povo repetiu com o regresso dos republicanos). Já em fuga, comentava: "à
primeira reviravolta da sorte que nos permita obter o que precisamos e nos entregue uma
guarnição, o país será nosso [a guarnição de Bragança, que jurara apoiar Couceiro, ia agora
atrás dele]". E sempre, sempre, Mangualde sonhava com o mítico navio: o "nosso navio há-de
aparecer"; "parece que é hoje que o nosso navio... chega ao Porto" e por aí fora.

Mas, mesmo quando soube que a compra dos navios não passava de uma "escroquerie" e que,
apesar de prevenido, Couceiro alimentara o mito, não culpou o seu bem-amado chefe. Pelo
contrário, em resposta à mulher que acusava o "Paladino" de "precipitação", não hesitou em o
defender, engolindo a história da "exigência" do "interior" (na realidade, um quadrado de
papel almaço com cinco palavras: "Marcel já chegou, impossível adiar"). Não vacilou um
instante com o inqualificável comportamento de Couceiro. Porque era estúpido ou fanático?
Não era nem uma coisa, nem outra. Mas não queria apagar a diferença entre a sua absoluta
consagração à causa e a atitude pusilânime e acomodatícia dos monárquicos do "interior" ou
do exílio "elegante", que, do seu conforto, assistiam à tragédia portuguesa. Ele vivia do seu
sacrifício e Couceiro encarnava o sacrifício.



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Marchou, por isso, obedientemente para uma nova "aldeia, perdida no meio dos montes" e
esperou por ordens. Enquanto ele esperava, o falhanço da incursão permitiu aos monárquicos
"moderados" ajustar contas com Couceiro, e o próprio D. Manuel, que o detestava, achou o
momento propício para o liquidar. Numa "Declaração" inspirada e escrita pelo marquês de
Soveral, antigo embaixador e seu principal conselheiro, o rei desautorizou publicamente o
"Paladino". A "Declaração" abria com uma breve homenagem aos combatentes da Galiza,
"empenhados no tão justo e patriótico intuito de restaurar a Monarquia" (restaurar a
Monarquia, convém notar). Posto isto, entrava em matéria: "Vejo, entretanto, que o
movimento reveste um carácter neutral, colaborando nele entidades com ideais
completamente diversos e que alimentam a esperança de os ver conseguidos, se o país assim
o decidir, num futuro plebiscito. Como sei que posso absolutamente contar com a dedicação
de muitos, a estes me dirijo, para lhes declarar que reprovo completamente o carácter
"neutral" do movimento e que repudio igualmente todo o acordo de qualquer espécie que
seja, com o partido miguelista, com o qual nunca tive entendimento algum".
Uma dúzia de linhas bastava a D. Manuel para eliminar qualquer hipótese de restauração.
Nenhum oficial se pronunciaria pela Carta, que ele jurara, e pelo regresso ao regime, que ele
protegera. Pondo a escolha em termos drásticos - ou eu ou a República - o rei, como o futuro
preveria, incitava efectivamente o exército a procurar uma alternativa ao jacobinismo
democrático de Afonso Costa dentro da República. O movimento monárquico terminara, mas
seriam ainda precisos sete anos de luta e amargura antes de os monárquicos perceberem.
Imediatamente, o efeito mais visível da "Declaração" foi a fúria que provocou na Galiza.
Mangualde perguntava a Lavradio: "... em que situação ficamos nós? Defensores de um rei que
nos abandona...". Mas notava com prazer, numa carta à mulher: "o curioso é que tudo
continua na mesma, como se tal declaração não existisse, as pessoas que nos apoiavam
continuam a fazê-lo! Foi um verdadeiro cheque diplomático no tal primeiro político do mundo
[Soveral]. Que grande burro!".

Mangualde não se enganava. Perdido o exército, D. Manuel perdeu também a emigração.
Couceiro pediu a cada oficial



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da Galiza que pessoalmente declarasse por escrito se aceitava ou não o seu comando. Todos
disseram que sim e mandaram a sua declaração ao rei. Isolado e desautorizado, D. Manuel não
teve outro remédio senão negociar com o "Paladino". E, em troca da renúncia à neutralidade
(que não o comprometia a nada e que ele mesmo, aliás, não respeitara), Couceiro conseguiu
que o rei colaborasse no financiamento de uma segunda incursão e se prestasse a um
entendimento com os miguelistas, o chamado "Pacto de Dover", que no essencial não passou
de uma fraude (usando um truque protocolar, os miguelistas nem sequer reconheceram a
legitimidade de D. Manuel), mas que abriu caminho para a colaboração das duas partes na
Galiza.

Mangualde assistia, à distância e sem particular interesse, a estas manobras. Como explicava à
mulher, "... o papel que me distribuí... é perfeitamente passivo, quando precisarem de mim,
encontram-me, quer leve armas, quer não leve, quer leve homens, quer vá sozinho, mas isso e
só isso... Hay que gramar e calar". Conscientemente ou não, reclamava o estatuto de simples
soldado da Monarquia, que dali em diante nunca deixou de ser. Pronto a marchar, quando o
mandavam marchar. Pronto também a sofrer um melancólico inverno em Parada de Ventosa,
preocupado, como qualquer tenente, em extorquir ao comandante uma licença de Natal e em
trazer a família para o pé de si. Não lhe deram a licença de Natal, mas conseguiu no princípio
de Janeiro ir buscar a família a Salamanca. A condessa, com uma coragem surpreendente
numa aristocrata daquela época, não hesitou em se instalar em Ventosa com três filhos
pequenos (o mais velho tinha oito anos) e aguentou meses na serra, imperturbável e bem-
disposta.
A segunda incursão dos paivantes, como os tratavam desdenhosamente os republicanos, foi
preparada com mais cuidado e em circunstâncias mais difíceis. "Constitucionalizada e
reconhecida pelas potências, a República, com o discreto apoio da Inglaterra, exigia o
internamento das forças de Couceiro. O presidente do Conselho espanhol, Canalejas, dividido
entre o medo de uma República na península e a necessidade de cumprir as regras básicas do
direito internacional, fez - segundo Lavradio - um ultimato a Couceiro: "ou ele entrava em
Portugal num curtíssimo espaço de tempo, ou abandonava a Galiza". Em Maio, decretou
mesmo



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a expulsão dos paivantes da província de Orense, embora sem tomar contra eles medidas
drásticas. Mas, de qualquer maneira, o decreto obrigou os "grupos" de Couceiro a grandes
manobras, para esconder a sua existência ou, pelo menos, a sua localização e a identidade dos
seus chefes. A espionagem dos republicanos portugueses, agora com a ajuda dos republicanos
locais, também aumentou. Além disso, os estafetas, que estabeleciam a ligação entre os
"grupos", começaram a ser assaltados. E houve conflitos com a população, provavelmente
provocados, que às vezes degeneravam em cenas de pancadaria ou facada (Mangualde, por
exemplo, chegou a temer um ataque à bomba a Parada de Ventosa). Em 28 de Junho,
Canalejas mandou finalmente internar os portugueses num prazo de dez dias, quando já se
sabia que Couceiro tencionava entrar em Portugal a 6 de Julho, no exacto momento em que o
prazo acabava.

Desta vez, fora a sua "coluna", comparativamente bem armada (450 homens, dois canhões,
duas metralhadoras, 350 espingardas Mauser e 4000 balas), Couceiro levava consigo mais 180
homens de uma "coluna" miguelista, comandada por Sousa Dias e contava no "interior" com
200 homens do tenente Vítor Sepúlveda, cujo incompreensível objectivo consistia em tomar
Valença. Mas, no fundo, apesar de militarmente mais forte, a segunda incursão repetia a
primeira. Couceiro esperava de novo um levantamento popular e pronunciamentos do
exército em Lisboa, Porto, Évora, Elvas, Guimarães, Braga, Almeida, Castelo Branco, Viseu e
Figueira da Foz. Como depois confessou com a sabedoria retrospectiva da derrota, o seu
propósito era de novo servir de "rastilho" ao "barril de pólvora" nacional e servir de "escolta" à
bandeira azul e branca: nem para "outra coisa" podiam servir "meia dúzia de indivíduos", que
se evadiam "furtivamente" de "terra estrangeira", mal instruídos, quase sem armas e "sem
remuniciamento, linhas de comunicação e serviços auxiliares".

De novo, não se percebe que, perante tanta força no "interior", fosse preciso um "rastilho" ou
uma "escolta". Mas, fosse ou não fosse, tudo tornou a correr mal. A guarnição de Valença
repeliu Sepúlveda em menos de oito horas. No Ribatejo, na Estremadura, no Douro, no Minho
e em Trás-os-Montes, "comissões revolucionárias" cortaram postes telegráficos, desmontaram
e obstruíram vias-férreas



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e até dinamitaram meia dúzia de pontes. Também centenas de camponeses perseguiram,
prenderam ou mataram alguns republicanos particularmente odiados. Nada disto, no entanto,
atingiu proporções perigosas. Em dois dias, o exército e os "carbonários" esmagaram sem
esforço os tumultos putativamente monárquicos. E, de norte a sul do país, nenhuma unidade
militar se declarou por Couceiro.

Quando atravessaram a fronteira, Couceiro e Sousa Dias já estavam sozinhos e a incursão sem
destino. As duas colunas não deixaram, por isso, de avançar, um pouco ao acaso. É duvidoso
que Couceiro tivesse a menor ideia do que devia fazer. Infelizmente, no dia 8, verificou que a
incompetência militar republicana lhe abrira o caminho de Chaves e resolveu "cair a fundo"
sobre uma praça que parara Soult, "com uma estocada rápida e directa". Não vale a pena
observar que a ocupação de Chaves não lhe traria qualquer vantagem política ou estratégica.
Viera combater e combateu. O ataque a Chaves, uma pura futilidade, custou caro à coluna -
quase quinze por cento de baixas - e falhou, como era inevitável que falhasse, porque bem
entrincheirados, armados e municiados, os republicanos resistiram com facilidade aos
paivantes. O que não impediu Mangualde, cuja peça de artilharia ocupava o centro da frente
monárquica, de se portar heroicamente. Com os serventes mortos e sob fogo, ele próprio
carregou e disparou a peça durante cinco horas e, na retirada, com o inimigo em perseguição,
por pouco não morreu para a salvar.



III. Insurreições




A segunda incursão liquidou definitivamente a "Galiza". O governo espanhol ainda pronunciou
e prendeu Mangualde. Mas, com a debandada geral dos portugueses, resolveu arquivar o
processo. Mangualde, condenado a 28 anos de prisão pelos tribunais republicanos, partiu para
Inglaterra, e a condessa, com os filhos, veio para Lisboa. Em Inglaterra, Fernando de
Albuquerque frequentou a corte de Richmond, trabalhou no "expediente da Causa" com Luís
de Magalhães e estudou inglês na Berlitz. Actividades de uma ociosidade obrigatória



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e triste. A "Galiza" destruíra a vida dele, como destruíra o movimento monárquico. Que fazer?
Quanto a ele, o exílio perpétuo, perpetuamente longe da família, era intolerável. Quanto ao
movimento monárquico, arrumada a ilusão de um levantamento nacional, só lhe restava
acreditar na ilusão, igualmente absurda, de um "golpe de força". Pelas cartas do marido, a
condessa de Mangualde começou a sentir que o desespero político e pessoal o iriam
fatalmente conduzir a uma aventura suicida.

Não se enganava. Depois de insistir muito para a mulher se encontrar com ele em Salamanca,
em 19 de Setembro, Fernando de Albuquerque anunciou que ia "directamente" para Paris e
dali para um sítio incerto. Esta linguagem críptica confirmou as suspeitas da condessa: o
marido andava, de facto, a conspirar. Numa entrevista que deu nessa altura a Joaquim Leitão,
o cronista quase oficial do movimento, Mangualde explicou porquê. Achava que a "Causa"
estava melhor em 1913 (com o governo Afonso Costa) do que em 1911 ou 1912. No tempo da
Galiza, havia "uma grande corrente" contrária aos monárquicos e uma pequena corrente
favorável, "que receava ser abafada". Agora, havia uma pequena corrente contrária e uma
grande corrente favorável, embora num "estado de irresolução". Era, portanto, necessário
transformar essa irresolução num "resoluto e decidido apoio" e, para isso, "meter muito o
nariz", por outras palavras, correr muitos riscos. Ele, como de costume, estava disposto a
"atirar-se de cabeça", mas tinha o pressentimento que desta vez "deixava lá o canastro".

Fernando de Albuquerque não aprendera nada com a Galiza. Ou, mais precisamente, o
conspirador realista de 1910 tinha sido contaminado na Galiza pelo irrealismo de Couceiro.
Para ele, a verdadeira razão dos desastres do "Paladino" fora a oposição do "interior" (o
dogma do "levantamento nacional", virado do avesso). Felizmente, entretanto, o país mudara
e, tirando alguma natural passividade, agora queria mesmo os monárquicos. Uma sacudidela a
sério (isto é, uma variante do "rastilho") bastava para derrubar a República. Sem perceber,
Mangualde copiava Couceiro.

Estrategicamente, no entanto, existia uma diferença. Couceiro planeara sublevar Portugal da
periferia para o centro (daí a metáfora do rastilho) e a experiência da Galiza provara a
ineficácia do método



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(para não falar no facto que a Espanha não voltaria a tolerar guerrilhas monárquicas contra a
República). Pelo contrário, o "golpe" de 1913, em que Mangualde se envolvera, vinha do
"interior" e, mais precisamente, das grandes cidades e dos quartéis. Esse golpe, dirigido por
João Azevedo Coutinho, e em que entravam alguns republicanos, devia eclodir
simultaneamente em Lisboa, Porto, Braga e Viana do Castelo. Além de civis, as forças de
Azevedo Coutinho incluíam alguns soldados, uma dúzia de marinheiros do cruzador São
Gabriel (ancorado em Viana) e, sobretudo, uma centena de polícias. As coisas começaram em
Lisboa, a 21 de Outubro, numa esquadra de polícia. Em bando, os revoltosos marcharam para
São Bento, onde prenderam os guardas de turno. A seguir, e à medida que chegavam os
grupos civis e uns tantos soldados, atacaram o quartel do Cabeço de Bola e a Escola do
Exército, para fazer "sair" as respectivas guarnições, que evidentemente não "saíram". De
manhã, estavam cercados e dominados - e Azevedo Coutinho fugiu num navio inglês, que o
esperava no Tejo. Em Viana, os marinheiros do São Gabriel dispararam alguns tiros, sem
consequência. No Porto e em Braga, não aconteceu nada, excepto, claro, a usual caça
"carbonária" à "reacção" e à "padraria". O "21 de Outubro" que, para Mangualde, se destinava
a conquistar o "apoio resoluto" do país, não passou de uma arruaça indigna, certamente
infiltrada e provavelmente provocada pela franja terrorista do partido democrático.

A missão de Mangualde, tal como fora planeada, era tomar o comando de um regimento de
Braga, que não se chegou a sublevar. Falhado o golpe, Fernando de Albuquerque resolveu
naturalmente fugir para a Galiza. Mas tinha sido introduzido em Portugal por um provocador,
Homero de Lencastre (mais tarde assassinado), que o entregou a um grupo "carbonário".
Preso no meio da rua e levado primeiro para o Aljube do Porto, acabou por ser transferido, a
30 de Outubro, para a Penitenciária de Lisboa, como condenado a pena

maior.

Felizmente para ele, em Janeiro de 1914 o governo de Afonso Costa caiu, perante a oposição
conjunta dos partidos moderados da República e do próprio Presidente Arriaga. E para
substituir Afonso Costa, Arriaga nomeou Bernardino Machado, com um programa de
"reconciliação nacional". Existiam muitos milhares de exilados



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e mais de um milhar de presos políticos. Sobretudo, o país vivia numa guerra civil larvar, que
tornava impossível qualquer espécie de governo. Com um gesto de boa vontade e para
permitir que se iniciasse uma nova época de tolerância e convivência entre os portugueses,
Bernardino decretou uma amnistia geral para a quase totalidade dos "crimes políticos". Na
prática, só Couceiro e meia dúzia dos chefes mais proeminentes do movimento monárquico
ficaram excluídos. Mangualde, um simples subordinado, saiu da cadeia a 23 de Fevereiro de
1914.

Partiu quase imediatamente para Inglaterra. Queria provavelmente informar o rei sobre o "21
de Outubro" e receber instruções. Se as recebeu ou não, nunca havemos de saber, porque nas
suas "Memórias" a condessa nada diz sobre o assunto. Mas com certeza que Fernando de
Albuquerque e D. Manuel não se entenderam, como o futuro viria a provar (e o silêncio de
Maria Teresa Mangualde claramente indica). De qualquer maneira, quando a Grande Guerra
começou em Agosto, D. Manuel escreveu uma carta pública aos seus partidários, em que
definia com a maior clareza a sua política: "as circunstâncias actuais", declarava ele, "são tão
excepcionalmente críticas, que devemos pôr de lado, enquanto elas subsistam, toda e
qualquer ideia política e pensar única e exclusivamente na nossa Pátria. Devemo-nos unir,
todos os Portugueses, sem distinção de causa ou de cor política e todos trabalhar para manter
a integridade da nossa querida pátria, quer servindo em Portugal para defender o nosso país,
quer combatendo nas fileiras do exército aliado... Por meu lado, ... já me ofereci a S. M. o Rei
de Inglaterra, para tudo o que possa ser útil à tradicional aliança que data de seis séculos". Ou
seja, D. Manuel mandava suspender qualquer tentativa restauracionista até ao fim da guerra e
adoptava, sem qualquer reserva, a política intervencionista do partido democrático de Afonso
Costa, que nem os moderados da República incondicionalmente aprovavam. A tradição
jacobina inventou que os monárquicos se recusaram a obedecer ao Rei, porque eram
germanófilos. Não interessa apurar se o eram ou não eram. Basta perceber que não podiam
aceitar uma ordem que exigia o reconhecimento implícito da legitimidade da República e, em
última análise, os tornava cúmplices de Afonso Costa.



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Mangualde ainda hesitou. Alguns monárquicos pensavam que uma vitória da Alemanha
arrastaria necessariamente a restauração em Portugal. Ele, pelo contrário, pensava que uma
vitória da Alemanha talvez permitisse à Espanha anexar Portugal. Estas fantasias não
obscureciam, no entanto, a realidade portuguesa. Em nome da intervenção, os democráticos
conspiravam contra Bernardino, que se refugiara na ambígua figura da "neutralidade
beligerante". E o país, muito claramente, não queria a guerra. Que melhor altura para derrubar
o regime? Fernando de Albuquerque voltou a conspirar.

Em 20 de Outubro, como de costume, rebentou em Mafra e Bragança uma insurreição, parece
que dirigida por um "comité", cujos membros nunca se conseguiram descobrir. Em Mafra,
depois de proclamar a Monarquia, uma pequena coluna ainda pretendeu marchar para Lisboa,
mas foi logo destroçada por um destacamento do exército e alguns grupos de civis. Em
Bragança, os rebeldes, completamente isolados, desistiram sem luta. Por aqui e por ali, houve
cortes de linhas de telégrafo e de vias-férreas. Nada mais. Fernando de Albuquerque, então
em Mateus, prometera tomar o comando de Infantaria 13, com a ajuda de parte da
oficialidade. Esperou a noite inteira pelo sinal combinado. Em vão. Os carbonários de Vila Real
tinham cercado o quartel e ninguém se mexeu. O que não o salvou de ser preso, por denúncia
local (o filho de um feitor do sogro) ou por um membro do "comité". Levado de Mateus para a
prisão de Cabeço de Bola, saiu a 4 de Dezembro, por falta de provas. Mas Bernardino, muito
atacado por causa da sua amnistia, não o quis pôr pura e simplesmente na rua e, com a sua
típica falta de carácter, acabou por o condenar a um ano de residência fixa em Mangualde, sob
pena de expulsão do país.
O movimento monárquico existia apenas na imaginação de meia dúzia de intransigentes.
Como depressa se verificaria. Em Janeiro de 1915, um golpe de oficiais - o chamado "golpe das
espadas" - removeu o ministério democrático, que entretanto substituíra Bernardino, e com o
apoio de Arriaga instalou um governo militar presidido pelo velho general Pimenta de Castro.
Não é este o lugar para discutir a pseudo-"ditadura" de Pimenta de Castro e as razões do seu
fracasso. O que interessa é explicar por que razão ele marcou publicamente o fim do
movimento monárquico ou, por outras palavras,



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do restauracionismo activo. O exército, que se abstivera sempre de apoiar qualquer tentativa
para restabelecer D. Manuel no trono, não hesitara em se pronunciar contra Afonso Costa,
sem se pronunciar contra a República. Claro que, em parte, fora movido pela ameaça da
guerra (ponto em que notoriamente D. Manuel não lhe dava garantias), só que, no fundo, a
essência do seu programa era liquidar a "demagogia" (o terrorismo "carbonário"), regularizar a
situação da Igreja e criar um regime que não excluísse nem monárquicos nem republicanos.
Por isso, a "ditadura" de Pimenta de Castro se proclamava "nacional".

A maioria da oficialidade talvez fosse sentimentalmente monárquica. Não ignorava, no
entanto, que dividir o exército entre partidários da República e partidários da Monarquia não
equivalia a dividir o exército entre conservadores e jacobinos. E, principalmente, tinha medo
que a restauração levasse a um ajuste de contas, forçosamente feroz, por Portugal inteiro - e
recusava essa odiosa responsabilidade. Pouco a pouco, ser "monárquico" passava assim a não
se distinguir de "ser conservador". Os monárquicos, que não suportavam a República
Democrática de Afonso Costa, não se importariam de viver numa República conservadora. A
condessa de Mangualde, por exemplo, achava o velho general "um excelente homem, recto
[e] bem-intencionado" e o seu governo "puro e honesto". E o próprio rei escrevia a Lavradio:
"As coisas tomaram aí [em Portugal] outro caminho, que sem dúvida alguma, será de grande
bem para o país..., mas é necessária... prudência e não correr a deitar foguetes inúteis".

Para quê, portanto, persistir numa estratégia insurrecional, que iria com certeza prejudicar a
"ditadura" e favorecer os democráticos'? Couceiro, autorizado a voltar a Lisboa, reclamou
inutilmente um plebiscito e ofereceu os seus serviços. Nenhum monárquico o seguiu: mesmo
o fiel Fernando de Albuquerque ficou em Mangualde. Os monárquicos trabalhavam agora à luz
do dia nos seus novos "centros", publicavam em paz meia dúzia de jornais, como o célebre Dia
de Moreira de Almeida, e negociavam lugares no parlamento. Pimenta de Castro autorizava a
esperança de uma República tolerável e, a prazo, até de uma restauração pacífica e quase
legal.



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A revolução de 14 de Maio de 1915 - a mais mortífera da história da República - e o regresso
do Partido Democrático ao poder desfizeram temporariamente esta ilusão. Mas ficou o
precedente. Não valia a pena combater a República em grosso e de frente: a salvação, a vir,
tinha de vir de dentro. Em Agosto desse ano, Mangualde ainda entrou numa conspiração no
Norte, que abortou à nascença e, embora (como em 1914) não chegasse a mexer um dedo,
fugiu uns meses para a Galiza, para escapar a uma terceira prisão. Daí em diante, e até 1919,
nem ele nem os monárquicos se tornaram a levantar em armas contra a República.




IV. A Monarquia do Norte




Com a derrota de Pimenta de Castro, a entrada de Portugal na guerra e a aliança com o Partido
Evolucionista de António José de Almeida, Afonso Costa submeteu o país político à sua
vontade. Nem no exército, nem fora dele, havia forças capazes de lhe resistirem. Só Machado
Santos, em Dezembro de 1916, se tentou insurrecionar e perdeu. Mas, lentamente,
continuando na posse do Estado, o Partido Democrático ficou sobre um vácuo. Em Abril de
1917, António José de Almeida e o Partido Evolucionista abandonaram o governo dito de
"União Sagrada", que levara Portugal à guerra. O Partido Unionista de Brito Camacho estava já
em oposição declarada. A Igreja, que sofria uma nova onda de perseguição, condenara sem
apelo o terror jacobino e o intervencionismo. Nas cidades, a inflação e a "crise de
abastecimentos", ou seja, a falta de géneros alimentares, de combustíveis, de roupa, de
calçado e outros produtos básicos, haviam provocado uma fúria que roçava a revolta. O
exército, expedido para a Flandres, mal armado e mal treinado, atribuía a sua desastrosa
situação à irresponsabilidade e ao interesse privado dos chefes democráticos, que intrigavam
entre si e contra Afonso Costa. Principalmente, Portugal inteiro execrava uma guerra, que não
compreendia. Com um sopro, o edifício da República radical viria a baixo.

Em 5 de Dezembro de 1917, o major Sidónio Paes foi para a Rotunda com os cadetes da Escola
do Exército, um destacamento de Artilharia 1,



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um milhar de soldados de infantaria e cavalaria e três centenas de civis. A 8, apesar de alguma
resistência, o governo caiu. Sidónio prendeu Afonso Costa e expulsou o Presidente da
República, Bernardino Machado, para França. Rompera irremediavelmente com a legalidade
republicana. Apoiado pelos militares que se opunham à intervenção no teatro europeu e não
queriam ir para a frente da Flandres, tentou estabelecer um novo regime, a "República Nova".
Eliminada a demagogia (isto é, o jacobinismo), o princípio básico - que vinha de Pimenta de
Castro - era conciliar sob a sua autoridade as facções conservadoras, tanto republicanas como
monárquicas. Além do exército, Sidónio contava com a benevolência da Igreja (que se aplicou
a seduzir, alterando a Lei da Separação) e com o apoio popular. Em Abril, atropelando a
Constituição, fez-se eleger Presidente da República por sufrágio directo, com muito mais de
metade dos votos possíveis.

Os monárquicos receberam Sidónio como salvador. Basta ler as "Memórias" da condessa de
Mangualde: "A sua figura insinuante, o seu garbo, a sua valentia serena, a simpatia que dele
irradiava, tudo concorreria poderosamente para o prestígio que desde logo exerceu no povo e
em todos os que sinceramente queriam o bem do país. Chegou a inspirar verdadeiras
adorações e os monárquicos eram os que o acolhiam com maior entusiasmo. Sabendo embora
que as suas ideias não eram monárquicas, esperavam que a sua ditadura fosse o primeiro
passo para a restauração da monarquia; era, pelo menos, a morte do domínio da demagogia,
sob o qual a nação gemia há sete anos. O país respirava!... Tinham acabado as violências, as
perseguições, o terror; já todos podiam ter o seu lugar ao sol. Foi um delírio! Tudo quanto se
dizia dele era simpático; diziam-no bondoso, caritativo, amigo das crianças e dos pobres. E
quando passava nas ruas de Lisboa, a cavalo ou de automóvel aberto, todos se descobriam à
sua passagem como se fosse um rei... ou um santo."

Fernando de Albuquerque concordava com a mulher. Por insistência do sogro (antigo chefe do
Partido Progressista de Vila Real), até se deixou eleger para o senado de Sidónio, com uma
política de "apoio incondicional" ao regime, seguindo, aliás, a maioria dos monárquicos e os
conselhos do rei. Mas depressa as coisas se complicaram.



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Para transformar uma insurreição num regime, Sidónio precisava de um Partido. Mais
precisamente, precisava de uma organização que o sustentasse, para além do fervor efémero
produzido pela derrota da demagogia. Em Março, o Partido Unionista, a que ele pertencera,
retirou os seus ministros do governo e, no princípio de Abril, declarando a sua intransigente
oposição à "ditadura", recomendou a abstenção eleitoral como o Partido Evolucionista e o
Partido Democrático. Do lado republicano, sobraram apenas para Sidónio "independentes",
por definição dispersos e quase sempre entre si incompatíveis. Quanto aos monárquicos,
queriam que os defendessem da demagogia, mas não se queriam integrar na "República Nova"
(que, supunham eles, com excessivo optimismo, dependia do seu voto e da sua força),
aderindo a um partido "presidencial". O Centro Católico rejeitava imparcialmente as duas
partes. Como prevenia com dureza uma pastoral do bispo do Algarve: "A Igreja não é feudo de
um partido ou de uma forma de governo..."

Cercado, Sidónio acabou por formar o seu partido, o Partido Nacional Republicano, com os
restos do "centrismo" de Egas Moniz, gente amiga de Machado Santos e algumas centenas de
evolucionistas e camachistas, sem prestígio ou destino. Esta construção artificial não valia
nada, embora viesse a ganhar a maioria no parlamento, pelos métodos do costume e,
ocasionalmente, com a ajuda do voto monárquico e católico. Em última análise, a sua
existência só serviu para prejudicar Sidónio. Em Abril, foram eleitos 105 deputados e 31
senadores do Partido Nacional Republicano, 37 deputados e oito senadores monárquicos, e
cinco deputados e um senador do Centro Católico e cinco independentes. Os monárquicos
nunca desculparam a exiguidade da sua representação e, também eles, começaram a criticar
azedamente o "ditador".

Sidónio tinha ainda o exército e a opinião pública, mas de Maio a Novembro a sua fraqueza foi
crescendo, à medida que, dentro do regime, crescia a hostilidade entre a facção monárquica e
a republicana e, fora do regime, os democráticos (e muitos moderados do "evolucionismo" e
do "camachismo") preparavam a desforra. O fim da guerra em 11 de Novembro de 1918
agravou a situação. O exército já não precisava de Sidónio para evitar a Flandres, e de França
desembarcavam diariamente dezenas de oficiais jacobinos,



de carreira e milicianos, que pretendiam punir a "traição da retaguarda". O único propósito
que unia o regime - agora em absoluta desordem - era o medo da demagogia.

Medo que se transformou em pânico, quando, a 14 de Dezembro, um "carbonário" meio louco
assassinou Sidónio na estação do Rossio. A hipótese fora prevista. O exército constituíra com
antecedência em Lisboa, Porto, Coimbra, Évora e Braga, Juntas Militares, que incluíam - com
poucas excepções - os comandantes de unidades. O artigo 4 das "Bases de Organização" das
Juntas definia sem subterfúgios o seu objectivo: "Na falta, por qualquer circunstância, do
actual chefe do Estado, tomar posse do poder, para impedir que ele vá cair novamente nas
mãos da demagogia..." Segundo certos testemunhos, Sidónio aprovara esta precaução e
escolhera mesmo os membros de um triunvirato, encarregado de assegurar a ordem e formar
um governo militar.

Só que, depois de ele morrer, os civis do regime recusaram taxativamente um governo militar.
Primeiro, o Conselho de Ministros nomeou Presidente o seu decano, o almirante Canto e
Castro; e a 16, voltando à Constituição de 1911, o Congresso da República (isto é, a Câmara
dos Deputados e o Senado em sessão conjunta), sem o voto dos monárquicos, elegeu Canto e
Castro Presidente da República. Mais: para que não houvesse dúvidas, o almirante encarregou
Tamagnini Barbosa, um protegido de Sidónio, estranho às Juntas, de organizar um ministério.
As Juntas - que, entretanto, se tinham fundido em duas, Norte e Sul - protestaram com
veemência. A do Norte acusou os "partidos políticos" de impedirem um governo militar, pediu
que se "jugulasse" a demagogia e ameaçou que, se não fosse ouvida, "assumiria toda a acção
governativa".
Sem surpresa, quando Tamagnini apresentou o seu primeiro governo, houve um
pronunciamento (aliás, falhado) em Lisboa. E, no Porto, a Junta local anunciou que passava a
"gerir" independentemente "os negócios públicos do norte". Esta efectiva divisão do país levou
a negociações entre os militares e Tamagnini, que acabaram num acordo: um novo ministério
em troca da dissolução das Juntas. De certa maneira, Tamagnini ganhara. Mas reinava sobre o
caos. Antes de acabar (oficialmente, porque, na prática, continuou), a Junta do Norte expediu
por sua própria autoridade uma "coluna



28 - 29




militar" para ocupar Vila Real, cuja guarnição era, segundo corria, democrática. Enquanto, por
seu lado, a oficialidade jacobina conspirava e rebentaram revoltas, facilmente sufocadas, em
Lisboa, Alcobaça e Caldas da Rainha. Uma outra, em Santarém, foi um caso mais sério, que
exigiu a mobilização de tropas de Lisboa, Porto e Coimbra.

Os monárquicos militantes - do integralismo a Couceiro -cometeram aqui um erro fatal. Em vez
de se empregarem a conciliar o exército "sidonista" com Tamagnini, para manter o domínio
das forças conservadoras, tentaram aproveitar a confusão em seu benefício. Não perceberam
duas coisas básicas. Em primeiro lugar, que os "sidonistas", fossem eles civis, fossem militares,
sendo contra a demagogia, eram republicanos e não queriam restabelecer a Monarquia: por
ela mesma e pelos riscos de guerra civil que implicava. A sua força vinha, como a de Sidónio,
do seu papel arbitral entre os restauracionistas e os democráticos. No momento em que se
inclinassem para um dos lados, desapareciam de cena.

Em segundo lugar, os monárquicos militantes também não perceberam que, se ameaçassem a
posição dos "sidonistas", os levariam mais tarde ou mais cedo a uma aliança com a demagogia,
isto é, com a única força garantidamente republicana. No princípio de Janeiro, já Tamagnini
substituía oficiais suspeitos de restauracionismo por "gente de confiança" e, pouco a pouco, os
"carbonários" voltavam à rua, muitos deles saídos directamente da cadeia.

Em vão, Aires de Ornelas, o Lugar-Tenente do rei em Portugal, recomendava prudência. No
Porto, Couceiro, com a sua habitual cegueira política, ouvia uma "Juntinha" de oficiais
monárquicos, entre os quais uma dezena de antigos combatentes da Galiza, e deixava que se
organizasse uma insurreição geral no Norte, com o insensato "grito" de "Agora ou nunca".
Entretanto, em Lisboa, os chefes do integralismo pediam a Aires de Ornelas autorização para
um "movimento militar de carácter monárquico". Supondo com certeza - numa interpretação
caridosa - que esse movimento ainda vinha longe, Aires deu solenemente e por escrito a sua
concordância: "Go on, palavras de El-rei".

O movimento do Porto e o de Lisboa, apesar de algumas conversações, não se coordenaram e
presumiram, sem motivo,
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a automática adesão de Coimbra e Aveiro. Como presumiram - um velho vício - que o país se
levantaria por eles e que o exército, excepto naturalmente os democráticos - seguiria
Couceiro. Ainda assim, várias pessoas preveniram o "Paladino", entre as quais António
Sardinha, que existiam dificuldades em Lisboa e que ele devia adiar o pronunciamento do
Porto. Mas Couceiro não se convenceu, argumentando, sem qualquer lógica, que os comandos
militares do Sul continuavam a hesitar e que, de resto, não tardariam a ser substituídos.
Aquela era, portanto, a última oportunidade, "o último minuto", para ele poder "sair". No
fundo, contava só consigo: a sua mera aparição convenceria as tropas de Lisboa, resolveria
tudo. Nove anos de abjectas derrotas não o tinham mudado.

A 19 de Janeiro de 1919, com um milhar de soldados, algumas peças de campanha e o Grupo
de Metralhadoras da Guarda Republicana, Couceiro proclamou a Monarquia no Porto. O Porto
engoliu o facto consumado e houve mesmo algumas manifestações de entusiasmo. Com ou
sem pressão militar, o Minho, Trás-os-Montes (excepto Chaves, Mirandela e Vila Real) e a
parte norte do distrito de Aveiro, também aderiram, ou, pelo menos, não hostilizaram a
restauração. E por aqui se ficou a Monarquia. Para sobreviver precisava literalmente de ocupar
três quartos do território e de esmagar a retaguarda insubmissa de Trás-os-Montes. Sem
tropas, sem armas, sem dinheiro e sem sequer a simpatia do rei e das potências, Couceiro
estava à mercê do pronunciamento de Lisboa porque não quisera esperar.

Doente e deprimido, Fernando de Albuquerque assistiu de Mangualde à "embrulhada" que a
morte de Sidónio provocara e em que ele, confessadamente, não tinha o menor desejo de se
meter. Fora um corte do telégrafo, a interrupção do correio por causa de uma greve e um
trânsito anormal de militares, nada perturbava o "grande sossego" do seu canto do mundo.
Embora preocupado com a possibilidade de uma guerra civil e com a segurança da família em
Lisboa, as cartas que escrevia à mulher até nem mostram um especial interesse pela situação
política. Mas, de repente, a 18 de Janeiro, emergiu no Porto ao lado de Couceiro. É difícil
perceber o que levou àquele despropositado gesto, a não ser a lealdade ao chefe. Como
sempre, o soldado Fernando Mangualde obedecia às ordens



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que ele achava legítimas, sem fazer perguntas, nem medir riscos. Não era responsável pelo
golpe. Não conhecia as forças, nem os planos de Couceiro. Mas foi, porque o chamavam. Não
imaginava com certeza as dimensões do sarilho que o "Paladino" armara.
Oito dias bastaram para o esclarecer. Quando se soube em Lisboa do pronunciamento do
Norte, os comandos da guarnição, depois de negociações sumárias, assinaram um "pacto". Em
nove cláusulas, esse "pacto" condenava Couceiro. As tropas de Lisboa proclamavam a sua
neutralidade (ou seja, a sua hostilidade à restauração) e estabeleciam regras para impedir, ou
dificultar, qualquer iniciativa de unidades "suspeitas" a favor da Monarquia do Norte. A massa
da guarnição respeitou o "pacto" e o governo decretou o estado de sítio, abriu "inscrições"
para oficiais, milicianos ou de carreira, que desejassem "defender a República", e começou a
armar "voluntários civis". Neste clima de histeria, os grupos terroristas (dispersos e
perseguidos durante o "sidonismo") resolveram lançar uma das célebres ofensivas contra a
"reacção". Para salvar a pele, muitos monárquicos conhecidos fugiram para a relativa
segurança do quartel de Cavalaria 2 (ou Lanceiros 2), um regimento com tradições
monárquicas. Aires de Ornelas (que, segundo conta a condessa de Mangualde, nem sequer
fora previamente informado do pronunciamento do Porto) seguiu na onda. Na manhã de 22, o
quartel de Cavalaria 2 transbordava de gente. Além das suas tropas (300 soldados) e dos 100
artilheiros da bateria de Queluz, que também lá tinham procurado protecção, abrira a porta a
centenas de civis. Os civis reclamavam em altos gritos que o regimento "saísse". De facto, o
quartel, ao alcance dos canhões da marinha republicana e cercado por unidades fiéis, para não
falar de uma população hostil (e armada), era uma ratoeira. O coronel de Cavalaria 2, Silveira
Ramos, dividido entre a urgência de "sair" e a fidelidade ao "pacto", perguntou aos colegas se
autorizavam a sua deslocação para a Rotunda ou para o Parque Eduardo VII. Como era de
prever, o comandante da guarnição preveniu Ramos que, se infringisse o "pacto", seria
necessariamente atacado. E o homem, hesitante, decidiu infringir o "pacto" de uma maneira
cordata e cautelosa. Na tarde de 22, marchou para Monsanto, onde mais tarde acabaram por
se lhe ir juntar a Cavalaria 4, a bateria de Belém



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e dois pequenos destacamentos de infantaria. Em conjunto, as forças rebeldes andavam por
600 soldados de cavalaria, 200 de infantaria e 28 peças de artilharia com as respectivas
guarnições.

A escolha de Monsanto (nessa altura, um descampado) suscitaria no futuro uma longa e azeda
polémica. Mas tem uma explicação simples. Em primeiro lugar, os chefes militares não
estavam dispostos a proclamar a Monarquia a preço de um confronto sangrento com a parte
republicana do exército: e escolheram Monsanto, um sítio longe da cidade, na esperança de
negociar sem risco um compromisso qualquer (significativamente a bandeira monárquica só
foi içada, já sob fogo, na manhã de 23). Em segundo lugar, mesmo que por absurdo
resolvessem combater as forças da República, nem a artilharia, nem a cavalaria se podiam usar
nas ruas de Lisboa e a infantaria ficaria em peso do lado do governo. Nestas condições, o
episódio acabou como devia acabar. Os republicanos cercaram e bombardearam Monsanto
(um terreno desfavorável à cavalaria) e, a 24, sem munições (ou comida), os rebeldes
renderam-se.

Esta derrota liquidou o "sidonismo". A 26, Tamagnini demitiu -se e, a 28, o Presidente Canto e
Castro encarregou José Relvas de formar um governo de "unidade" republicana, com
democráticos, para esmagar a Monarquia do Norte, agora isolada. Couceiro ainda tentou
avançar para sul, mas parou em Estarreja e não se aguentou em Lamego. Cada vez se tornava
mais clara a impossibilidade de resistir a uma expedição republicana e, para evitar uma guerra
a sério e sobretudo as represálias que ela fatalmente arrastaria, a guarnição do Porto (cujas
convicções não se distinguiam pela solidez) montou logo uma conspiração contra o "Paladino".
A 13 de Fevereiro, com a maior tranquilidade, as mesmas forças que pouco antes tinham
proclamado a Monarquia, proclamaram a República, acontecimento que o Porto
obedientemente festejou.

Durante vinte e cinco dias, Fernando de Albuquerque serviu Couceiro como governador civil
do Porto, tomando o elementar cuidado de não dirigir a repressão. Não mandou prender, nem
soltar ninguém e, se soube das torturas (largamente míticas) do teatro Éden e das
perseguições dos "trauliteiros", fez como se não soubesse. Depois da derrota, os republicanos
não mostraram nenhum ódio especial por ele (pelo contrário), sinal seguro de que se portara
com brandura e decência.



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Preso e condenado a 18 meses de prisão, foi posto em liberdade em Agosto de 1920. Na
cadeia, não se envolveu nas querelas entre D. Manuel e os próceres do integralismo (a quem
chamava intrigalhistas). Só se ofendeu quando o rei, com o seu incomparável talento de
ofender, insinuou que o "Paladino" não distribuía justamente os fundos de socorro à
emigração política. Mas continuou "manuelista", à falta de outra solução. Como disse à mulher
em Dezembro de 1919, era monárquico por patriotismo, e só por isso: por ver na monarquia
"a melhor esperança de sossego e prosperidade nacional".

Quando o soltaram em 1920, prometeu à mulher: "Esta é a minha última aventura." Prometeu
e cumpriu, quanto mais não fosse porque a vida o obrigou. Em 1920, o republicanismo radical
e o restauracionismo monárquico já pertenciam ao passado. A República, depois de um
período confuso, banira o terrorismo e tendia para a moderação. Os conservadores, com a
ajuda da Igreja, procuravam o caminho que, pouco a pouco, levaria a Salazar. No ano em que
Fernando de Albuquerque morreu - 1932 - "ser monárquico" era uma profissão de fé
sentimental.



Vasco Pulido Valente
***




MEMÓRIAS




Pede-me a minha filha, Maria Teresa, que escreva a história da acção que seu Pai tomou nos
acontecimentos políticos do seu tempo. Vou procurar satisfazer o melhor que souber esse tão
legítimo desejo, ajudando com os documentos que possuo a memória que conservo desses
agitados anos da nossa vida. Foram dez anos de sofrimento; muita gente achará que esse
sofrimento foi inútil. Mas, quando mais não fosse, serviu para pôr em relevo um dos
caracteres mais nobres que tem existido, e então pergunto a mim mesma se, afinal, não valeu

bem a pena tê-los vivido.



Rinchôa, 4 de Julho de 1945




Como conheci o Fernando



Encontrámo-nos pela primeira vez no Domingo magro do ano de 1899, na casa da Rua da
Junqueira, n.o 136, que pertence hoje a João de Macedo Barros. Viviam lá então o Fiel Viterbo
e a mulher, Maria José da Câmara, filha dos Condes da Ribeira Grande. Nessa noite recebiam
máscaras, e numerosos grupos enchiam as salas com o seu barulho infernal.

Numa certa altura notei um dominó que se dirigia a todos que me rodeavam, menos a mim.
Intrigada com o caso, interpelei-o: "E a mim não me dizes nada? - A ti não te conheço"... Ao
que eu, com petulância, respondi: "Isso é uma prova de mau gosto." Indagando, soube depois
quem era esse dominó. O que é o destino! Aquelas simples frases, trocadas por brincadeira na
frivolidade de uma noite de Carnaval, vieram a ser o ponto de partida do rumo que tomaram
as nossas vidas.
Casámos no dia 18 de Julho de 1900 na igreja das Albertas, uma jóia do século XVII, toda em
talha doirada e azulejos, pertencente então a um convento de Carmelitas e hoje incorporada
no Museu de Arte Antiga.

Os nossos primeiros 10 anos de casados não têm história, como se diz dos povos felizes.

A nossa história começou no dia 4 de Outubro de 1910. Estávamos em Cascais. Logo de manhã
começaram a correr os boatos, cada vez mais insistentes, de revolução em Lisboa. Embora não
estivesse em serviço activo - era tenente de artilharia, mas estava em disponibilidade,
colocado na Direcção-Geral de Estatística - o Fernando pensou logo em ir para Lisboa e
apresentar-se no Quartel-General.



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Chegou a mandar aprontar a farda mas, saindo para se informar de como se poderia
transportar até Lisboa, visto que os comboios estavam parados, soube que nem a pé poderia
ir, pois que vários pontos do percurso já estavam nas mãos dos revolucionários. Teve, pois, de
ficar em Cascais, mas para não ficar de braços cruzados, foi à Cidadela, onde estava o infante
D. Afonso, pôr-se à disposição do oficial mais graduado que lá estava, para defender o Infante,
caso fosse necessário.

Possuo a narração desse episódio escrita por ele mesmo.

No dia 5 soubemos, com uma mágoa fácil de calcular, que estava proclamada a república e que
a Família Real tinha embarcado.

O Couceiro, único herói daqueles dias nefastos - pois que ele só no Torel com duas peças ia
fazendo fugir o Machado Santos da rotunda - acolhera-se a Cascais onde estava veraneando
com a família e de lá mandou a sua demissão de oficial do exército. O Fernando não se
manifestou nesse momento pois, como digo, não estava no serviço activo. Saiu da Estatística e
começou a trabalhar na Companhia de Seguros A Nacional, fundada havia pouco tempo e a
cuja direcção pertencia.

Assim se passaram dois ou três meses. Mas desde logo começaram a correr boatos de
conspiração monárquica que traziam os republicanos sobressaltados e desconfiados. Falava-se
no nome do Couceiro como chefe dessa conspiração. Os republicanos temiam-no e o prestígio
que ele tinha adquirido pela sua acção na revolução.

E na realidade conspirava-se. Em casa do Couceiro, que nesse tempo vivia em Algés, havia
reuniões em que o Fernando tomava parte.

Começou por esse motivo a tornar-se suspeito e um belo dia recebeu ordem de marcha para o
Funchal, para fazer serviço na bateria de artilharia.
Partiu no dia 25 de Fevereiro de 1911, no vapor Insulano, tendo recebido a ordem com tão
pouca antecedência, que pouco mais teve que vinte e quatro horas para se preparar.

Como nessa altura já o Couceiro estava trabalhando numa possível restauração monárquica, o
Fernando ia resolvido a aproveitar a primeira oportunidade para voltar. Passados três meses
deu parte de doente, pedindo licença para vir a Lisboa tratar-se. Foi-lhe concedida depois de
algumas dificuldades.



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Entretanto os acontecimentos iam-se precipitando. O Couceiro foi falar com o Correia Barreto,
Ministro da Guerra, declarando-lhe desassombradamente que estava resolvido a sair do país e
a guerrear a república se esta continuasse a mostrar a incompetência que até ali tinha
revelado e a praticar actos que ele considerava nefastos para o País. Retirou-se na certeza de
que o iriam prender mas, nessa altura, ainda os republicanos tinham esperança de obter a sua
adesão, ou receavam a sua popularidade; o que é certo é que nada lhe fizeram e ele pôde
partir livremente do País.

A atmosfera de boatos era de cortar à faca.

Todos se deitavam convencidos de que nessa noite rebentaria a revolução. Esses boatos
chegaram ao Funchal, como a toda a parte, e o Fernando começou a recear que fosse perigosa
a nossa permanência em Lisboa. Escreveu-me então, comunicando-me os seus receios e
indicando-me que no caso de receber um telegrama com certas palavras, partisse
imediatamente com os pequenos para Mangualde. Recebi esse telegrama - não me lembro do
texto exacto - no dia 31 de Março e como acreditei que na realidade alguma coisa estivesse
para acontecer, fiz imediatamente os preparativos de viagem e parti no dia seguinte. Preveni
meu sogro, que por acaso estava em Lisboa, e partimos juntos para Mangualde. Foi um rebate
falso, como tantos houve depois, mas depois de lá estar achei melhor ficar, por saber que o
Fernando o desejava e por me sentir mais tranquila ali do que em Lisboa.

Em Maio o Fernando anunciou a sua volta em telegrama que, por vir deturpado, serviu para o
nome pelo qual passámos a designá-lo quando a família tinha de o mencionar na sua
correspondência. Escreveu que embarcava no Tijuca, mas no telegrama puseram Jucá como
assinatura. Achámos graça e adoptámos o pseudónimo. Tinha esperança que ele se demorasse
algum tempo em Mangualde, mas o Couceiro já estava na Galiza e o Fernando queria ir ter
com ele o mais depressa possível. Não chegou, pois, a estar lá oito dias.

Era difícil a sua saída, porque as fronteiras estavam vigiadas e não podia pensar em sair pelas
vias normais. Lembrou-se então de ir até Portalegre e de arranjar lá alguém que o guiasse por
caminhos escondidos até à fronteira. Serviu-lhe de guia um antigo contrabandista,
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que era então criado do industrial de cortiças inglês, Robinson, e assim atravessou sem
contratempos a fronteira de Portugal. Dirigiu-se a Valência d'Alcantara e daí a Badajoz onde
encontrou meus pais, que para lá tinham emigrado havia pouco. Naqueles primeiros tempos
de república foram muitas as pessoas que saíram do País.

No mesmo dia em que transpôs a fronteira, a sua demissão de oficial do exército foi
apresentada em Lisboa. Vou copiar a carta em que ele me conta a sua saída:




Badajoz, 6 de Junho de 1911



Já estou são e salvo. A minha viagem merecia ser animatografada. Cancelas a abrir-se
cautelosamente pela noite escura, caras espreitando cuidadosamente antes de me deixarem
sair, um passeio a pé através dos campos, montar a cavalo à meia-noite e seguir envolvido
numa capa alentejana, atrás de outro cavaleiro embuçado de pistola acerrada na mão
atravessando no meio de uma noite escuríssima ribeiros, veredas íngremes, etc., sempre em
silêncio e depois de quatro ou cinco horas de marcha deitar o cavalo a carga até à fronteira,
eram decerto dignos de um animatógrafo. Na fronteira pude então falar e tossir e daí segui até
Valência d'Alcantara de onde mandei um telegrama a teu pai pedindo-lhe para te telegrafar a
dizer que todos estávamos bem e dizendo-lhe que tinha chegado bem e que partia para aqui.
Ele supôs que o telegrama era mandado por minha ordem mas não por mim e ficou em
transes por saber que a fronteira neste sítio estava sendo vigiadíssima desde que souberam
que o Couceiro pairava por aqui [...] Na Galiza procuro uma casita pequena onde caibamos [...]
Visto o C. andar pairando por aqui, resolvi descansar aqui mais um dia e sigo depois de
amanhã para o Norte, passando em viagem todo o dia e noite...




O Fernando demorou-se em Badajoz até o dia 9 de Junho à espera da mala e partiu nesse dia
para Vigo, de onde me escreveu ali.



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Primeira Incursão
Poucos dias se demorou o Fernando em Vigo. Seguiu dali para Mondariz onde estavam
reunidos muitos portugueses, entre os quais alguns dos homens que ia comandar. Como diz na
carta que acima transcrevo, o seu ideal era que a família se fosse juntar com ele, mas esse
projecto era de difícil realização, não só pela despesa que acarretava, como pela pouca certeza
que ele tinha da sua permanência em qualquer ponto. Só mais tarde se pôde realizar.

Entretanto meus pais queriam sair de Badajoz e, não querendo voltar para Portugal,
propuseram-me irmo-nos juntar em Salamanca e passarmos aí algum tempo. Não vendo
inconveniente nesse projecto, visto não ser possível pensar em ir ter com o Fernando,
concordei e cheguei a ter o dia marcado para a viagem. Afinal, mais uma vez o homem propôs
e Deus dispôs.

Meu pai adoeceu gravemente com um ataque de albuminúria; a doença prolongou-se e teve
de se pôr completamente de parte o nosso projecto. Meus Pais continuaram em Badajoz e eu
em Mangualde. Recebia com bastante regularidade notícias do Fernando. Escrevia-me todos
os dias e, quando havia alguma coisa importante a dizer, era em cifra que o fazíamos.

Nunca se perdeu nenhuma carta e nunca tive razão para suspeitar que alguma fosse violada;
era preciso, contudo, ter cuidado.

Eu escrevia-lhe sob um nome suposto que ele tinha inventado: Raul Esteves. Mal sabia ele que
já existia alguém com esse nome.



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Também lhe escrevia às vezes por intermédio da Condessa das Antas, que estava então em
Mondariz. As cartas dele eram repassadas de saudades:




Prolonga tu as tuas com notícias desses queridos amores que juntamente contigo me fizeram
ficar aí a maior e melhor parte do meu coração, conta-me pequenos detalhes da tua vida
diária, das graças dos pequenos, de ditos, etc., faze que eu viva um pouco junto de ti em
imaginação enquanto os fados não permitirem que de facto o faça, o que forçosamente hão-
de acabar por fazer, satisfazendo os nossos tão justos e almejados desejos...



Noutra carta:
Distribui como sempre os costumados beijos e saudades, não esquecendo os queridíssimos
amores que tanto, tanto me lembram com tão pungente saudade; o que me consola é a ideia
de que, aconteça o que acontecer, eles hão-de aprovar este meu procedimento e esta
consolação dá força para tudo...




A Galiza estava cheia de espiões portugueses.

E os cônsules faziam também espionagem por sua conta. O governo republicano português
queixava-se ao governo espanhol dos manejos dos couceiristas. O resultado foi uma ordem do
presidente Canalejas (a quem alcunhavam de Canalhejas) para internar os portugueses.

As autoridades espanholas fechavam os olhos e por isso a ordem não foi cumprida a rigor, mas
contudo obrigou os monárquicos a mudarem de terra, embora ficassem na mesma região.

O Fernando foi com os seus homens para Porrino, povoação próxima de Mondariz. Daí me
escreveu a primeira vez a 10 de Julho.

Ali estava mal alojado, mas tratado nas palminhas por toda a gente da terra. E os rapazes que
o acompanhavam faziam destroços nos corações femininos. De vez em quando ia ficar em
Mondariz, onde continuavam a residir muitos portugueses. Em toda a parte para onde ia tinha
o dom de conquistar simpatias e boas-vontades e os primeiros a serem conquistados eram as
autoridades da terra.

Mas não podiam desobedecer claramente às ordens recebidas, nem resistir à pressão vinda
das esferas superiores (Canalejas e C.a)



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e o Alcaide de Porrino comunicou ao Fernando que estava prestes a receber um telegrama
ordenando a expulsão dele e do seu grupo. Ficou combinado que lho faria constar antes de ter
de proceder oficialmente, para lhe dar tempo a sair sem ser forçado. O Fernando escolheu
então a pequena vila de Monforte de Lemos e para lá começou a mandar os seus homens.

Monforte é uma vila pequena, sem interesse, sem vida, numa bonita situação, cuja única
importância provém de ser um entroncamento de linhas férreas, uma das quais segue para
Orense e outra para Lugo. Para lá partiu definitivamente no dia 28 de Julho. Embora a vila
fosse desanimada, sem vida, havia um grupo de raparigas que organizavam festas às quais
convidavam os portugueses e assim se entabolavam namoros, que serviam para os entreter
durante a expectativa enervante da entrada em combate.

Esse dia não vinha longe.

Em carta datada de 22 de Setembro diz-me o Fernando: "Suponho ter de marchar para a
fronteira depois de amanhã, ou no dia seguinte..." Foi só uns dias mais tarde que entraram em
Portugal, creio que já em Outubro, talvez a 5. A primeira carta que encontro escrita durante a
Incursão é a seguinte:




Esculquera 9 de Outubro de 1911



Escrevo-te da fronteira onde nos viemos recolher da chuva e frio da noite, foi a primeira vez
depois que saímos que nos recolhemos debaixo de telha e já esta noite, apesar de continuar
chovendo, prosseguimos a nossa marcha. Saímos de Villanueva de La Sierra (cerca de Lubian,
de onde te escrevi) no dia 3; ali como as armas esperadas ainda não tinham aparecido,
dormimos no monte com imenso frio em volta de uma fogueira.

No dia 4 dormimos noutro monte ainda mais desabrigado, com imensa neblina gelada que
atravessava os ossos, mas já com armas. No dia 4 saímos às 8 da noite e marchámos durante
vinte horas, no fim das quais entrámos estafados em Vinhais, de onde as forças militares
tinham saído à nossa aproximação, recolhendo-se a um monte. Ali descansámos um pouco e
fui comer três ovos estrelados. No fim de comer ouviu-se tiroteio e deitei a correr sabendo que
as forças armadas (porque também as temos em grande número desarmadas) tinham saído da
povoação e estavam combatendo com os tais do monte.



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Algumas balas zuniram. O pânico era grande e eu encontrei-me ser o oficial mais graduado
obrigado a meter aquela gente toda na ordem e dar providências, tomar disposições etc. etc.,
até com o próprio povoado.

Nesse combate matámos o tenente, único oficial republicano declarado, dois soldados,
ferimos um alferes, um aspirante e mais dezasseis soldados, sem que do nosso lado tivesse
havido um único ferimento. Saímos dali para Salgueiros onde o Ferreira, um morgado rico de
lá, que diz ser muito amigo de meu pai, nos encheu de favores. Daí seguimos para Cazares
onde nos seguiu uma força de 200 praças de cavalaria de Chaves, comandada por um tal
tenente Cunha e Costa. Houve recontro, ficando eles com grandes perdas entre as quais o
tenente que ficou com um braço partido que nos informam ter de ser amputado, e nós sem
uma beliscadura. Já me tenho fartado de ouvir o zunido das balas e estou satisfeito comigo.

Conservo o sangue-frio até no meio do pânico. O pior é as noites horríveis de chuva passadas a
marchar com o fato e os pés completamente encharcados e à chegada ao nosso termo
encontrarmos só uma fogueira à chuva para nos secarmos. Tem desertado imensa gente, o
que aumenta a confiança que agora temos na que não fugiu. As povoações portuguesas que
temos atravessado recebem-nos com verdadeiro entusiasmo e muito há que admirar o que
fazemos, sabendo o modo como vamos e que em breve saberás, mas que entendo não dever
confiar ao papel.

O que mais aflige é não ter notícias tuas. De resto, nem o frio nem a fome nem a sede me
fazem mossa. Noutro dia estive até às 2 da tarde com um bocadinho de pão de centeio e
castanhas cruas. A essa hora apareceu-me um rapaz com presunto cru que comi, depois carne
de vaca assada ao lume, depois vinho, depois leitão, depois aguardente, depois maçãs, depois
mais castanhas e nada me fez mal. Já não tenho dores de cabeça e o molhado não me faz
reumatismo. Hoje passamos a noite debaixo de telha e entre lençóis. Logo vamos marchar
debaixo de chuva provavelmente e à primeira reviravolta da sorte que nos permita obter o que
precisamos e nos entregue uma guarnição, o país será nosso. Até lá há muito que sofrer e
perigos por que passar, mas julgo que os que agora se conservam ao nosso lado não nos
abandonarão já, e o povo, o verdadeiro povo, é por nós de alma, vida e coração. O pior é não
se saberem notícias do resto do país. Olha, escreve para Verin para o hotel Salgado, há lá
gente que nos conhece e fará que as cartas me venham parar às mãos e me tira do lombo o
peso de não ter notícias tuas, que é quase insuportável.

É de esperar que Deus nos continue protegendo evitando que sejamos atingidos pelas balas
inimigas, o que é deveras espantoso, admirável,



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inacreditável, nem uma beliscadura sequer! Até um guarda fiscal que numa povoação atirou
sobre nós todos que estávamos em massa, não acertou em ninguém apesar de gastar umas
poucas de balas!

É depois de amanhã que o nosso navio há-de aparecer, vamos a ver o que acontece.

Bem, adeus, vê se me mandas notícias e se beijas muito, muito esses nossos queridos amores
que tanto me lembram. Que chegue breve o dia em que nos reúnamos todos e este mau
tempo seja apenas um assunto de conversa agradável que nos ajude a passar estas noites que
agora passo debaixo de água por caminhos maus...
Era esta carta acompanhada de uma folha em cifra e do "Boletim da Revolução Monárquica
Portuguesa", uma espécie de Ordem do Dia do Movimento, impresso. A carta que o Fernando
me anuncia, escrita no dia 3 de Lubian, não a transcrevo por a não ter encontrado. Não é fácil
de descrever o estado do meu espírito durante aqueles terríveis dias; a falta de notícias,
primeiro, e quando comecei a tê-las, não só o que diziam, mas o que deixavam adivinhar: o
perigo de cada momento, o sofrimento físico, as privações, e no fundo a falta de confiança no
resultado final daquela temerária empresa; tudo isto me aterrava e me causava uma angústia
sem limites.

Só quem tenha sentido uma angústia igual a pode compreender. Embora o Fernando
procurasse animar-me, aparentando uma confiança na vitória que decerto já não tinha, não
conseguia incutir-ma e cada dia que passava mais aumentava a minha tristeza e a minha
descrença.

A segunda carta que encontro é esta:




Sampaio, 27 de Outubro de 1911 Minha querida



Escrevo-te desta pequeníssima povoação da fronteira num pouco de papel que por
providência alguém ainda trazia na algibeira. De saúde continuo esplendidamente, apesar das
brutalíssimas marchas que temos feito.

Se tiveres à mão uma carta da província de Orense e outra de Bragança, e nelas vires o nosso
itinerário, ficas decerto admirada, como admirada ficará de certo a História. Eu, então com o
meu grupo, comecei a minha marcha a pé em Petin, fui parar a Vinhais e estou hoje em frente
do Gerês. Suponho que a ideia do C. é dar tempo ao tempo, esperando que o país espicaçado
por nós acabe por sair. Parece que é hoje que o nosso navio, ou navios, chega ao Porto e se
essa entrada ali provocar o levantamento militar,



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fazemos nós só um passeio até lá. Se tal falhar, nós continuamos apesar de todos os riscos e eu
estou-te escrevendo suponho que na véspera da nossa entrada nas montanhas do Gerês onde
temos a maior facilidade de nos aguentar, resistindo apesar do frio. Efectivamente não lembra
ao diabo ir passar o mês de Novembro às montanhas do Gerês, de onde dizem terem fugido as
forças republicanas em Junho por causa do frio.
As mil peripécias destes dias ficam para conversar ao fogão. As marchas de noite escura numa
linha extensíssima com vozes de alto de vez em quando dos que ficam atrás e perdem de vista
os da frente, essas marchas entrecortadas pelas pragas dos que dão topadas, pelos gracejos e
piadas chulas dos soldados... Há um na minha unidade que começa sempre com voz muito
alegre por dizer: "Cabo de dia, dá licença que conte uma história?" É claro que não há cabo do
dia, nem é preciso licença, e continua: "Era uma vez um príncipe [...] que se não fossem eles
não andávamos nós por aqui; vamos adiante [...] Quem já ouviu diga pronto e eu conto outra
[...] ninguém diz nada? então continuo graças ao Criador dos Melros [...] pois então, como
íamos dizendo, era uma vez um príncipe [...], não, vou contar antes outra, ou fica para a outra
vez..." E assim continua até que a marcha prolongando-se mais e começando o cansaço, cala-
se como os outros e tirando as pragas nada se ouve durante horas e horas através de serras e
caminhos maus. As minhas pernas é que são de aço. Chego a gostar mais de subir que de
descer e não me metem medo marchas de cinquenta quilómetros em doze ou mais horas com
o C. à frente, que não sabe o que é parar e sentar-se. O pior é não saber nada de ti e dos
nossos. Provavelmente ou não recebeste a minha carta ou, como nela te pedia, não me
escreveste para Verin de onde provavelmente ma remeteriam; verdade é que com tanta
demora, que junta à que a minha carta levou a chegar-te às mãos, ainda talvez não houvesse
tempo.

Hoje parece que descansamos aqui apesar do aparato de guardas civis e carabineros, que
estão nesta miserável povoação provavelmente à espera de qualquer gorjeta, conforme o seu
louvável costume...




Por esta carta se vê que ainda havia ilusões. Uma das mais extraordinárias era a que dizia
respeito aos navios, que nunca existiram.

A verdadeira história dessa mistificação contou-ma o Fernando em carta datada de 16 de
Novembro e é a seguinte:




Encontrei lá o Martins de Carvalho [...] Falei com ele que ficou de vir almoçar comigo na
segunda-feira.

É falso que tivesse evitado que o A. Cominho mandasse qualquer telegrama, o que concorreu
foi para ele mandar um dizendo: "affaire manquée" que efectivamente foi recebido. A história
dos navios parece ter sido uma escroquerie de um cônsul de uma república americana que se
prestou a desempenhar o papel de comprador mediante 80 contos e mais 80 mil francos.
Quando se tratou de efectivar o negócio desculpou-se com dificuldades internacionais e ele e
os dois compradores comeram os 80 contos. Diz-se agora que se está tratando de fazer um
negócio sem escrocs. Vamos a ver...
É inacreditável! Outra carta:




San Martin, 20 de Outubro de 1911



Escrevo-te em véspera de partida. Encontro-me de perfeita saúde. Tive ontem a satisfação de
receber a tua carta de 13 com boas notícias da família que muito apreciei. Não sabia que tua
mãe estava aí, dá-lhe saudades minhas, assim como aos queridos pais, etc. Aos nossos amores,
milhões de beijos. Encontrei na carteira essas contas, vê se sabes a que se referem. Vou ver se
te posso escrever mais amiúde. Agora não há perigo, descansa...



As contas a que se refere eram umas palavras cifradas, a que juntei a explicação e que eram as
seguintes:



... entrámos pela primeira vez com cento e quarenta carabinas, munições que não chegavam
para uma hora de fogo; agora resolvemos esperar que venha armamento, cada um vai para
seu lado, só nos reunimos quando o tivermos para entrar outra vez, o que se julga ser dentro
de dez dias.



Não pude deixar de estremecer ao ver a absoluta falta de preparação com que o Couceiro
tinha tentado a entrada em Portugal, falta que de antemão condenava essa aventura a um
inevitável fracasso. Mas quando comuniquei ao Fernando a minha indignada surpresa,
explicou-me o caso de uma forma que, sem absolver completamente o Couceiro, pois era
responsável pela vida dos que o seguiam, mostrava que a maior culpa não era dele, mas sim
daqueles



46 - 47




que dentro do país se tinham comprometido com ele e à última hora faltaram à sua palavra. A
este respeito diz-me na carta de 25 de Novembro:
A razão que com tanto interesse perguntas da... precipitação, vou-ta contar tal como o
António [Couceiro] a contou. A última razão, a tal, que como o último copo é o que produz a
bebedeira, aos bêbados, foi a que originou tudo, vi-a eu: é um pedaço de papel almaço
ordinaríssimo, uma espécie de quadrado com uns oito ou dez centímetros de cada lado, e que
dizia aproximadamente isto: "Marcel já chegou, impossível adiar". Foi o caso que o comité do
Porto, o 14, 13, 14, 21, 5, 20, já se vê, declarou terminantemente que não estava para esperar
mais e que ia agir, vai daí o António entendeu que não podia deixar sacrificarem-se
isoladamente os outros e depois de receber mais três telegramas confirmando o caso, fez o
que sabes...

Traição, a nefanda traição tantas vezes depois repetida e que sempre surtiu efeito, porque o
carácter nobre e leal do Couceiro nunca se pôde convencer de que, entre os portugueses...
houvesse traidores. Até ao fim da vida teve sempre a ingenuidade de julgar os outros por si.



A terceira carta do Fernando, de 22 de Outubro, era já datada de Parada de Ventosa, aldeia
perdida no meio dos montes, onde ele por acaso se fixou e onde mais tarde fui ter com ele. O
nome da terra está em cifra:



22, Outubro 1911



170     50       230

50      20       90

200     140      160

40               230

50               160

50               230

560              30

1.130



Minha querida,

Tenho que aproveitar este papel onde já tinha começado a escrever essas contas por não ter
outro nesta reles aldeia onde já estou há dois dias e onde provavelmente me demorarei dois
dias mais, se não forem 4 ou 6, pois enquanto me deixarem por aqui vou estando. Estou em
casa de um homem que tem uma padaria longe daqui, o que o faz aparecer raramente
por cá. Até agora ainda não lhe pus a vista em cima. Arranjaram-me um quarto com cama à
portuguesa na sala onde, caso para mim já estranho, não há uma pendureza de uvas, nem
prateleiras com maçãs, nem milho a secar, não senhor, coisa asseada, só a minha cama, outra
para o meu ajudante, o lavatório, duas mesas e cadeiras. Se não fossem as saudades levava-se
a vida a rir, mas custa e custa muito esta paragem forçada longe de tantos a quem tanto
quero. Não poder eu aproveitar esta semana, ou o mais que for, aí junto de todos, contar à
noite as partes cómicas e tristes de toda esta aventurosa vida e voltar depois quando a minha
presença fosse útil! Não, a sorte é esta e "hay que gramá-la", segundo uma expressão muito
em uso entre nós em Monforte.

Como vês, novidades não há. Nesta terra ignora-se o correio e o telégrafo, tenho que mandar
longíssimo deitar isto num correio. No meio disto há uma frase que se tem tornado famosa
entre nós, é a de um desgraçado meu antigo condiscípulo que resolveu grandes empenhos
para se incorporar no meu grupo. Acedi. Começou a marcha aos tropeções pela idade e
cansaço e dores nos pés. Lá seguiu como pôde, quase sempre atrás de todos, até que em
Cazares recebemos o ataque da cavalaria de Chaves. Ele logo que avistou a cavalaria deitou a
fugir para Espanha e consta que dizendo: "Quem me mandou a mim ser patriota!".

A frase diz imenso e até o Alexandre de Albuquerque diz que se fizesse agora um livro o
começaria com aquela frase do tal rapaz de quem não digo o nome para o não envergonhar,
coitado! Que triste figura veio fazer! E adeus.

Contei-te isto para te contar alguma coisa, porque o meu pensamento está aí e só em vocês
penso.

A todos mil saudades e milhões de beijos para ti e nossos amores.

Sempre teu F.



Quanta coragem e força de vontade não revela esta carta escrita em tão tristes circunstâncias!
Até mesmo o bom humor nunca o abandonou.

Eu estava mais sossegada porque não acreditava que tão cedo pudessem repetir a aventura,
apesar de ele estar convencido do contrário. Noutra carta diz-me:



Descansa. Não há aqui arrojos suicidas. Todas as seguranças vão ser tomadas, não é como da
primeira vez. Isso obriga a demora que já não deve ser muita e eu desde o dia 20 aqui estou
muito bem recolhido debaixo de telha, numa boa cama, comendo bem e em casa de gente
boa,



48 - 49
que nos trata quase com carinho. Quanto a vires, não é, como vês, esta a melhor ocasião. Le
vin est tire e então, paciência, coragem, esperança e fé, principalmente fé! Aqueles que a não
têm são os que fogem arranjando a linda situação de não poderem ir para aí sem serem presos
e de não poderem vir ter connosco sem serem fuzilados! Não me parece contudo que seja
precisa agora uma fé cega. Não. Pode ser uma fé muito raciocinada. O teu temor e desalento
veio principalmente da leitura dos jornais portugueses. Nem o tal C... é tão feio como o
pintam, nem o seu procedimento ultimamente merece a censura que lhe fazes. Mas manda
notícias; manda-as para Verin, para Madrid, para onde quiseres, mas manda-as que são a
minha única consolação e fala-me dos pequenos, de meus pais, de todos daí. Eu aqui estou
comendo e passeando e dormindo e aqui continuarei não sei por quanto tempo. Talvez por
pouco, talvez por algum. Mandaram-me ontem dinheiro para 5 dias, é de supor por isso que
não passe além e daí talvez passe...



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Segunda Incursão




Desde o momento em que me convenci de que a primeira tentativa tinha falhado e que tão
cedo não seria repetida, o meu primeiro impulso foi ir ter com o Fernando onde ele estivesse.

A essa proposta é que ele responde nesta carta: "quanto a vires, não é, como vês, esta a
melhor ocasião". Fui, pois, esperando, mas sem nunca perder a ideia, que a ele igualmente
sorria.

Na carta de 3 de Novembro diz-me:



[...] com respeito à tua vinda escuso dizer-te quanto a estimaria por todos os motivos...
Quanto a vires para nos encontrarmos, mais difícil é isso.

Tenho a minha gente que não posso nem devo abandonar e então sabendo-te aqui, maior
seria a tortura. Mas não. Em primeiro lugar estava mais descansado e em segundo sempre
havia de arranjar um dia ou dois para te fazer companhia. Ainda que não fosse senão o ir-te
buscar para a minha aldeia e tornar-te a levar...

Naquele momento não lhe parecia possível que eu fosse para lá viver. A ideia dele era que eu
fosse com minha mãe, ou meus sogros, para Vigo, ou para outra terra civilizada. Mas nenhum
deles se resolvia a deixar o país para uma aventura tão incerta, e eu continuei insistindo em ir
para onde ele estivesse. Convencendo-se, por fim, de que haveria uma certa demora antes que
se pudesse realizar a Segunda Incursão, e de que seria possível alojar-nos na aldeia e na casa
que ele habitava, o Fernando acabou por concordar com a minha ideia e até por adoptá-la com
entusiasmo. Outro tanto não sucedeu com a família, que toda ela reprovou energicamente
esse projecto,



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considerando-o uma loucura. Sair do país com três crianças, sem saber por quanto tempo nem
quais as condições em que íamos viver, reduzidos às pequenas mesadas que os nossos pais nos
davam e sujeitos aos azares da vida de campanha, podia na realidade parecer uma loucura. Eu
reconhecia o bem fundado dessas objecções, mas confiava na Providência e sentia em mim a
força que dá o cumprimento do dever. Sem vacilar no meu propósito e sem atender ao que me
diziam, comecei os preparativos da viagem.

Entretanto o Fernando escrevia-me cartas interessantes e punha-me ao facto das intrigas e
dos atritos que surgiam. Estas desinteligências eram em parte devidas a haver duas facções - a
manuelista e a miguelista - tendo cada um os seus chefes; a uma declaração del-Rei D. Manuel
que desagradou bastante aos combatentes; e à infeliz ideia do Couceiro de fazer um
movimento neutro, com a bandeira azul e branca sem coroa, para o país depois escolher o
regime que quisesse. E o que é extraordinário é que, apesar de tudo, persistissem todos na
mesma ideia e se conservassem da mesma forma unidos em volta do Chefe, mesmo os que
não concordavam em absoluto com a sua orientação. O seu prestígio continuava dominando a
todos.

Em carta de 1 de Dezembro diz-me o Fernando:



Perguntas-me se tinha havido qualquer deslealdade por parte de certos sujeitos [miguelistas];
não houve, mas as notícias que me chegam é de que têm sido correctíssimos ultimamente,
destacando com outros procedimentos de que se não pode dizer o mesmo [Rei D. Manuel].

O que eles têm feito agora é procurar aumentar a sua pequena coluna. Como sabes,
arranjaram uma coluna comandada pelo João de Almeida que, creio, nunca chegou a entrar
em Portugal. Encontrámo-la em Espanha à nossa volta; eram dezassete homens apenas que o
maluco do João de Almeida tinha dividido em dois pelotões! Para poderes fazer ideia do efeito
ridículo que isso nos fazia, devo dizer-te que o efectivo médio dos nossos pelotões orça por
cinquenta homens; há-os, alguns, poucos, de quarenta e tantos, mas temos uns poucos, ou
melhor tínhamos (agora estamos em organização) de mais de cem. Imagina o efeito de vermos
o João de Almeida a cavalo com um casaco que o fazia lembrar um general reformado,
mandando avançar um pelotão e a essa voz marcharem 8 homens!...
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A tal declaração del-Rei [de que não tenho o texto] provocou uma resposta assinada pelo
Couceiro e por todos os oficiais, protestando contra ela... O Couceiro mandou todos os oficiais
fazer uma declaração se o continuavam ou não seguindo depois daquela declaração que ele
comunicava... Com o J.C. [João de Azevedo Coutinho] tínhamos combinado, eu e outros off.
que lá estavam, avisar outros off. de que a nossa declaração era dizer-nos manuelistas, mas
que continuávamos seguindo o C. Combinámos também mandar cópias ao declarante [El-Rei]
das cartas que mandássemos ao C. No dia seguinte voltei ao C. com A. C. Ali o Couceiro contou
toda a história com todos os pormenores, alguns interessantes. Esses hão-de ir por doses para
o correio não ficar sabendo tudo de uma vez, apesar de que confiando que as cartas te chegam
intactas, me tenho adiantado de mais.

Na terça-feira, ontem, voltei para cá. No caminho avisaram-me que todos os off. me estavam
esperando e lá fui ter com eles. Todos tinham resolvido como nós sem saberem do que nós
pensávamos, mas tinham medo que o C. não aprovasse tal procedimento.

Ora quando fui ter com A. P. C. [Álvaro Pinheiro Chagas] tinha contado ao C. o que nós
pensávamos fazer e ele tinha aprovado. Mandámos, pois, todos uma carta (todos não, cada
um) ao C. e outra ao declarante com uma cópia da que mandámos ao C. Ao mesmo tempo
mandei uma carta ao Lavradio rezando de várias coisas que tinha ouvido ao C. Uma carta tesa.
Entre outras coisas dizia: "em que situação ficamos nós? Defensores de um R. que nos
(abandona)..." não, é inconveniente dizer isto por carta; se ela não fosse tão grande mandava-
ta por cifra, mas é enorme e contém matéria absolutamente reservada. Vamos a ver o que sai
daqui.

O que é curioso é que tudo continua na mesma como se tal declaração não existisse, as
pessoas que nos apoiavam continuam a fazê-lo! Foi um verdadeiro cheque diplomático no tal
primeiro político do mundo [Marquês de Soveral]! Que grande burro! A minha carta era forte,
vê-se que não tenho jeito para cortesão; em compensação adocei a que acompanha a cópia da
outra... A carta para o L. [Lavradio] foi ontem, amanhã segue a para o declarante e para o C...



Na de 27 de Novembro diz:



Recebi hoje carta de teu pai, a ideia dele é que a direcção deve ser entregue a um grupo,
comissão, ou o que lhe quiserem chamar. A ideia não é má e sob certos pontos de vista é
óptima. Ao que eu acho graça é dirigir-se a mim como se de mim dependesse! Não quero
saber dessas coisas,
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o papel que me distribui aqui é perfeitamente passivo, quando precisarem de mim encontram-
me, quer leve armas, quer não leve, quer leve homens, quer vá sozinho, mas isso e só isso, não
quero saber do resto. Mas ainda que quisesse a oportunidade é das piores. Agora que houve
quem lhe quis tirar, ao António, o seu papel com uma declaração parva e contra a qual
declaração todos nos reunimos protestando, agora falar em distribuir esse papel a qualquer
entidade diferente, era de certo uma ideia mal escolhida e antipolítica. "Hay que gramar" e
calar. Mais tarde se pensará em aperfeiçoar... [Refere-se aqui ao movimento neutro, ideia
absurda do Couceiro, que nem ele nem ninguém aprovava].

A minha carta para Inglaterra deve ter sido recebida hoje e atrás dela as nossas declarações,
vamos a ver o efeito que tudo isto faz. Se algum faz, é salutar; o pior é se não faz nenhum.
Estou com vontade de saber se as minhas cartas te chegam intactas, porque nesse caso
mando-te a tal declaração e verás por ela quanto as nossas respostas devem representar uma
desilusão para o declarante...



Em 1 de Dezembro:

Vamos a ver se o Lavradio me responde à carta de que tanta pena tenho de não te mandar a
cópia. A esta hora já a devem ter lido, assim, como as outras dos outros off. e gostava de lá
estar a ver o efeito. Tens o texto da declaração? Se não o tens dize, porque to mando para
veres o quinau que representam as nossas respostas. Não houve um que respondesse de
maneira diferente!...



Em 6 de Dezembro:



Às vezes parece estarem feitas e que já para tratar de uma questão de detalhe chegou ontem,
ou antes de ontem, a Orense o Salvador.

Antes de ter recebido estas notícias tinha escrito ao António repetindo-lhe a carta de teu pai
para ele tomar conhecimento e dar providências e lembrar-lhe o alvitre de ele arranjar uma
repartição de off. encarregados de se corresponder diariamente com os nossos agentes do
mundo. Ao mesmo tempo dizia-lhe que tu me escreveras dizendo querer passar o Natal
comigo e pedindo-lhe licença para nesse caso ir por essa época para Orense para estar
contigo. [Ainda não estava resolvida nessa altura a minha ida para Parada de Ventosa]. "A
minha carta para o António levava água no bico, queria saber se presumia passar só o Natal, o
que julgo agora não acontecerá. Vamos a ver o que ele responde...
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A 8 de Dezembro:



Foi-nos dado conhecimento oficial de uma carta de D. Afonso em resposta à nossa mensagem,
em que ele agradece as nossas expressões, dizendo que o faz com satisfação, por ele aqui ter
vindo representar o sobrinho e acabando por sentir o não nos poder acompanhar. Como o
António era um dos signatários, suponho que tivesse sido a mensagem a base para as pazes.
Ainda não recebi resposta nem de Orense, nem do António, acerca da tua vinda, assim como a
não recebi ainda do Lavradio...

Para entreter os ócios forçados deste tempo de espera, lembrou-se o Alexandre de
Albuquerque, antigo escritor e jornalista, chefe do grupo de Cavaleiros - o posto mais próximo
de Parada, de que distava uns 4 quilómetros - de escrever uma revista metendo à bulha os
vários oficiais dos vários grupos; era uma brincadeira alegre e sem maldade.

A ideia foi acolhida com entusiasmo. Realizou-se a récita no dia 20 de Dezembro e foi um
sucesso. Os versos dedicados ao Fernando eram alusivos a uns ovos moles que mandou fazer
ao Grillo, misturando-lhe claras e a que chamaram ovos duros. A música era um maxixe:



Chegou esta invenção para De Milhafoles

Fazer com gema e clara Os ovos moles

Ao fazer da receita

Vi-me em apuros

Pois que fiz desta feita

Uns ovos duros

A razão de tudo aquilo

Quem quiser que a sonde

Uns dizem que foi do Grillo

Eu digo que foi do Conde

A culpa é do Grillo

A culpa é do Conde (bis)
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A dificuldade de arranjar dinheiro para a viagem fez com que só pudesse marcar a partida para
depois do Natal, o que muito nos contrariou.

A carta do Fernando desse dia reflecte bem a sua tristeza e as suas saudades.



25 de Dezembro de 1911



Dia de Natal! Cheguei a ter esperança de passar este dia contigo e afinal parece-me já que nem
no dia do Ano Bom posso ter esse prazer! Que ao menos o dia dos anos da Maria Teresa o
passemos juntos! Deus nos permita esse prazer, o que não será muito pedir. Se ao menos esta
carta te encontrasse já em preparativos de partida! É um dia verdadeiramente triste para mim
este. Os rapazes fazem hoje filhós, ontem fizeram rabanadas e procuram relembrar assim os
usos e costumes dessa pátria que tão longe está estando tão perto! Sobre as nossas coisas
nada sei. Ao que parece o António [Couceiro] não foi a Londres, pelo menos directamente. Por
ti soube que ele estivera em Madrid, antes soubera que na noite de 19 para 20 dormiu em St.
Jean de Luz, o que me não parece o mais directo caminho. Se calhar não foi lá e anda tratando
de dinheiro que bem preciso nos é, pois desde o dia 13 não sabemos o que isso é. É tão pouco
o dinheiro preciso, relativamente, que muito me admira a demora. E não te ter eu aqui para
poder desabafar! Porque tudo isto tenho o dever de guardar para mim. O dia hoje apareceu
sem chuva mas muito mais frio que o costume. Agora também ou chuva ou frio, não há que
esperar outra coisa.

Tomara eu ir experimentar se por aí acontece a mesma coisa... No outro dia fui a Mogueimos
saber notícias, estavam todos à espera de dinheiro. Juntam-se lá hoje uns poucos de off. para
passarem este dia juntos, eu entendo porém que o devo passar com aqueles que até agora me
têm acompanhado e assim faço, já que não posso ter o prazer de o passar junto de ti e dos
nossos queridos amores, que todos os dias me lembram e principalmente em dias assim. Vai
muito piegas carta, mas é própria deste dia de Natal em que me sinto tão só!

Se ao menos Mangualde fosse ao pé de Chaves em vez de ser lá tão longe, ainda faria a asneira
de procurar reunir-me a todos os que aí estão, que tão queridos me são. Mandei hoje um
telegrama a meu pai com saudades para todos, não achei caso para desejar boas festas. Mas
felizmente estou óptimo de saúde e também não são más as notícias que me dás do nosso
rancho. Que ao menos isso continue. Adeus, mil milhões de saudades, de saudosíssimas
saudades de todos, e tu crê-me

Teu melhor amigo.
56



Foi esta a última carta antes da minha partida, cuja data já então estava resolvida, mas ele
ainda o não sabia. Pus-me a caminho no dia 29 ou 30 de Dezembro. Ia munida de um salvo-
conduto passado pelo administrador do concelho de Mangualde, mas nem sequer foi preciso
mostrá-lo, pois ninguém me fez a mais pequena objecção ao atravessar a fronteira em Vilar
Formoso. Ao ver-me em Espanha respirei, pois estava com um certo receio da saída. Fomos
até Salamanca, onde meu Pai nos esperava, tendo ido expressamente de Madrid para se
encontrar connosco. Minha Mãe já voltara para Lisboa, depois de ter estado algum tempo em
Mangualde e na Praia da Granja.

Alojámo-nos no Hotel Terminus, onde meu Pai reservara quartos e onde o Fernando apareceu
mais tarde. Demorámo-nos uns dias em Salamanca, não só para gozar da companhia de meu
Pai, que voltava para Madrid, como também para comprar os abafos indispensáveis para fazer
face aos rigores do Inverno na região onde íamos passá-lo.

Não me lembro do dia certo em que partimos para prosseguir na viagem, mas julgo ter sido no
dia 3 de Janeiro. Partimos pelas 11 horas da noite; de madrugada chegámos a Astorga, onde
tomámos o comboio da Galiza e de manhã chegámos a Monforte de Lemos. Em Monforte
ficámos dois dias. Fiz lá conhecimento com o capitão da Guardia Civil, que fora sempre muito
amável com o Fernando e se mostrou sempre seu amigo - e a filha uma esbelta rapariga
chamada Gloria Campos. Também fiquei conhecendo as várias outras meninas da terra, entre
as quais as Valdez, uma das quais casou com um português: João Bentes Castelo Branco, e vive
hoje em Lisboa.

Partimos no dia 5 para Orense, última étape da viagem por caminho de ferro, pois daí por
diante seria feita por estrada. Em Orense ficámos uns dias, alojados no Hotel Roma. Logo à
chegada teve o Fernando uma triste notícia que veio ensombrar a alegre disposição em que se
encontrava por estar finalmente reunido aos seus. O caso tornou-se mais triste ainda por ter
sido causado indirectamente pela sua saída de Parada. Quando se ausentou para ir ao meu
encontro, entregou o comando do grupo ao seu ajudante, um rapaz chamado Álvaro de Faria,
e para reforçar a autoridade em que o investiu, recomendou-lhe que fosse ocupar o seu
quarto. Uma noite estavam vários rapazes reunidos nesse quarto, estando o Faria já deitado.



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Um deles, chamado Alberto Bastos, tendo ido de dia visitar outro posto, pedira uma pistola
emprestada a outro rapaz. Era uma precaução que sempre tomavam quando saíam da aldeia.
Num dado momento tirou a pistola da algibeira para a entregar dizendo: "É verdade, ó Álvaro
[sic], toma lá a pistola que me emprestaste." Mas, ao estender a mão, a pistola, não se sabe
como, disparou-se e a bala foi atingir no coração o pobre Faria, dando-lhe morte instantânea.
Ficaram todos assombrados, não percebendo como se podia ter dado aquela desgraça, só
explicável por uma fatalidade inaudita.

O desgraçado do Faria já estava enterrado, o Bastos já se fora apresentar à prisão em Bande,
quando o Fernando soube desta triste história, que tanto o desgostou. Para mais a cena
passara-se no quarto e na própria cama que eu ia ocupar, circunstância que me ocultaram e
que só mais tarde vim a saber.

Em Orense ficámos alguns dias, passando lá o dia 7 de Janeiro, em que fez oito anos a nossa
filha Maria Teresa. Fiz conhecimento então com o Capitão Camacho que, em 1919, veio a
morrer em Lisboa, vilmente assassinado. Estavam lá também muitos outros portugueses e
esperava-se, a cada momento, o Couceiro. Por esse motivo o Fernando foi-se demorando, mas
entendendo, ao mesmo tempo, que devia voltar para o seu posto onde estava fazendo falta,
resolveu-se a partir no dia 11 ou 12 de Janeiro. Aproveitámos o automóvel do Visconde de
Cabrela, que estava esperando o Couceiro, para nos levar até Celanova. É uma pequena vila,
bonita e alegre, onde há um colégio de padres Escolápios, cuja igreja visitámos. Fiz lá
conhecimento com dois rapazes portugueses, ali destacados como agentes de ligação. Eram
Álvaro de Sousa Rego e Francisco Xavier Quintela (Xavico).

Em Celanova tomámos um char-à-bancs que nos devia levar quase até casa. Digo quase,
porque o último quilómetro tinha de ser feito a pé por um caminho de montanha. O percurso
total de Orense a Parada era de 50 quilómetros, dos quais ainda nos faltava percorrer mais de
30. O Fernando julgava possível fazermos esse trajecto todo no mesmo dia, mas estávamos
nos dias mais curtos do ano, saímos tarde de Celanova, e o resultado foi que quando
chegámos a Bande, que fica a 20 quilómetros de Parada, tinha anoitecido. Resolvemos então
passar lá a noite numa fonda. Aí se deu



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o primeiro episódio emocionante da viagem. Pouco depois da nossa chegada chegou outro
carro e o cocheiro do mesmo contou ao nosso que trazia carbonários portugueses e espanhóis.

Acrescentou que, quando eles souberam que à sua frente ia o nosso carro, lhe ofereceram
uma gratificação se ele conseguisse alcançar-nos.

Seria verdade? Teriam eles maus intentos a nosso respeito? Julgariam que no nosso carro ia o
Couceiro ? A dúvida obrigava a tomar precauções. Quando estávamos a jantar, os três homens
entraram na sala e lá que tinham má cara tinham. O Fernando e os outros portugueses não os
desfitavam. Chegou a hora de nos irmos deitar; ocupávamos dois quartos; num fiquei eu com
o Fernando e o Francisco, que dormiu na minha cama, e no outro ficaram as pequenas com a
criada. O Fernando tinha combinado com dois portugueses - um dos quais se chamava
Sampaio Rio e o outro era um antigo polícia - que ficariam toda a noite de guarda aos nossos
quartos, armados de pistolas. Apesar disso fechei as portas à chave e ainda lá encostei uns
móveis quaisquer. Adormecemos. No meio da noite acordei ouvindo um ruído estranho, que
me pareceu exactamente o de alguém que estivesse forçando a porta. Sobressaltada chamei
pelo Fernando, mas nesse momento ouvi a voz do Sampaio Rio a sossegar-me, dizendo: "Não é
nada, são as pombas a bater as asas". Envergonhada do meu pânico, tratei de adormecer
outra vez confiadamente, vendo que na realidade estávamos bem guardados. Ao outro dia de
manhã os homens tinham desaparecido, sem deixar rasto. Prosseguimos na viagem depois do
almoço e ao fim da tarde chegámos ao ponto onde tínhamos de largar o carro, porque daí até
Parada tínhamos de ir a pé por um caminho de cabras, cerca de um quilómetro. Estávamos nas
margens do rio Lima e havia uma ponte tosca que o atravessava, começando então a subida
até a aldeia. Os rapazes do grupo estavam todos na ponte à nossa espera, como já tinham
estado na véspera; tinham trazido um burro para o caso de eu, ou algum dos pequenos, nos
querermos utilizar dele, mas preferimos ir a pé - o Francisco, que tinha dois anos, foi ao colo -
e o burro serviu para transportar as malas. Fomos assim pelo monte acima sem avistar a aldeia
que, rodeada de montes por todos os lados, só se vê quando se lá chega. Até me admira como
o Fernando a descobriu! É uma aldeia pobre e suja,



59




parecida com as de Trás-os-Montes tão minhas conhecidas, onde as casas são térreas e feitas
de pedras toscas sem cal. A única que era caiada, destacando-se das outras, era aquela que o
Fernando habitava.

Compunha-se de lojas para animais domésticos ou para arrecadações e de um primeiro andar
com uma escada exterior e uma varanda que corria a todo o comprimento da casa, para a qual
abriam os quatro compartimentos que a compunham, os quais também comunicavam entre si.
O primeiro era a cozinha com lareira no chão, rodeada de potes de ferro onde se fazia a
comida; a seguir a casa de jantar; depois o quarto dos pequenos e da criada, e por fim o nosso.

Todas estas divisões eram espaçosas, as camas eram boas e o dono da casa tinha comprado
em minha honra um belo lavatório. Não estávamos mal instalados, mas de uma forma
bastante primitiva e o sistema dos despejos era o de "água vai!" da janela abaixo. Felizmente
que em Orense me tinha fornecido de uma tina e de outros objectos de higiene indispensáveis.

Assim começou aquela vida original e simples, da qual conservo gratas recordações. O que
mais me custava era a distância a que estávamos de quaisquer socorros que pudessem ser
precisos; médico, farmácia, correio, telégrafo, só havia em Bande, a 20 quilómetros de
distância. Mas confiava na Divina Providência e a minha confiança foi recompensada, pois que
durante o tempo que lá estivemos os pequenos tiveram sempre saúde e nunca foi preciso
chamar o médico.
O clima era parecido com o de Trás-os-Montes, frio e saudável; o ar puro da montanha
respirava-se com gosto. A aldeia era, como já disse, um tanto enterrada e sem vista, mas em
volta bastava subir-se um pouco para ter uma vista bela e extensa.

Chegava-se a avistar Portugal, para os lados do Gerês! O rio Lima - verdadeiro rio de montanha
- saltava sobre rochas e despenhava-se em quedas de água, o mais pitorescas possível. Havia
também na vizinhança um fenómeno da natureza curioso e que deve ser raro. Era um ribeiro
que numa certa altura se escondia e corria debaixo da terra tornando a aparecer mais adiante.
Era curioso ouvi-lo correr debaixo do chão e não o ver.



60



No grupo comandado pelo Fernando havia alguns rapazes educados e finos, que comiam à
nossa mesa. Para os descrever, vou transcrever uma carta em que ele mos apresentava:




P. de V. 13 de Novembro de 1911



Em primeiro lugar tenho que te apresentar a minha casa. Tenho um ajudante, duas
ordenanças e um impedido. O ajudante é um antigo primeiro sargento cadete, aquele que me
ofereceu o seu retrato, para a outra vez te direi o seu nome [Era o pobre Faria, cuja morte
desastrosa já contei...]

Na carta de 15 de Novembro continua:



Esqueci-me indicar-te na lista o Padre capelão Manuel Pinheiro. E já agora começo a descrição
por este. Era pároco de uma freguesia qualquer do Minho e ali foi avisado para se pôr a andar.
Tomou o comboio para Vidago, mas em Vila Real prenderam-no e conservaram-no preso com
outro rapaz até que conseguiram fugir. Foram aqueles dois conspiradores a que o António
José-de Almeida se referiu nas Câmaras dizendo que tinham sido recapturados, isto na ocasião
em que eles estavam entrando em Espanha! É um rapaz de 29 anos, alegre e bom padre em
toda a acepção da palavra. Muito disciplinado é, contudo, ou antes era, um pouco
desconfiado.

O ajudante a que me tinha começado a referir na minha carta chama-se Faria, tem 20 e poucos
anos e com este mês de marchas aumentou 5 quilos! É às vezes alegre e bom companheiro,
mas outras torna-se estúpido, para o que concorre uma paixão que tem por uma menina de
Monforte.
Agora segue a vez das ordenanças. Isto de ordenanças é o seguinte: quando se tratou de
marchar encontraram-se com grande quantidade de rapazes finos sem saberem o que haviam
de fazer deles. Resolveram nomeá-los ajudantes dos diferentes oficiais, mas a situação de
ajudante é uma situação militar de certa categoria e houve quem passasse a denominá-los
ordenanças. Quiseram impingir-me dois, mas eu opus-me por entender ir ofender os meus
escolhendo gente de fora para uma situação mais ou menos privilegiada e nomeei dois do meu
grupo mais tarde, o Alberto Martins Bastos, rapaz de 20 e poucos anos, bem-educado, amável,
correcto, ex-jornalista, e Pedro Ferreira de Mesquita, também novo, de primorosa educação,



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um pouco metido consigo, mas sempre pronto para tudo. Em qualquer parte era ele sempre o
preferido das raparigas, embora fosse o que menos se aproveitava. É realmente simpático e
fino. Agora o impedido. É nem mais nem menos que o teu já conhecido "insecto" [chamava-se
Grillo e conhecera meus Pais em Badajoz], homem de 41 anos, que eu nomeei para o livrar de
certos serviços de campo que lhe custavam a desempenhar.

É ele agora quem nos faz a comida, para o que tem jeito. Ressente-se um pouco da pouca
variedade e às vezes vem o bispo visitar-lhe as panelas. Ao princípio não nos importávamos
com sua reverendíssima, tal era a fome, agora já nos importamos com isso, mas também é já
raro que apareça. Além destes há um rapazito que é afilhado do irmão do insecto, que é mais
ou menos o nosso criado, tanto quanto é preciso numa ocasião em que todos nos servimos
pelas nossas mãos. Agora a casa e seus habitantes.

A casa são 3 salas e uma cozinha ampla. A gente compõe-se de 3 raparigas filhas do dono da
casa, a mais velha de 14 ou 15 anos e a mais nova de 7, são órfãs de mãe. Há também uma
criada que as criou, talvez dos seus 30 e poucos, pouco atraente mas boa pessoa... (O resto da
descrição da casa é a que eu já fiz.)



Na carta seguinte, de 16 de Novembro, conta-me a vida que lá faziam...



Já aqui vou e ainda te não falei da nossa vida aqui. Ainda que não chegue até ao deitar, vou
contar o que puder.

São 7 da manhã e sinto barulho no quarto. É o insecto que vai tratar de receber o leite, fervê-
lo e trazer-mo à cama aí das 9 e meia para as 10. A essa hora acorda o padre, pergunta as
horas e volta-se para o outro lado. Pouco depois vêm chamá-lo em nome do soldado que lhe
ajuda à missa. Lá se levanta e vai dizer missa lá para as 11 horas. Eu, na cama, durmo e penso.
Depois é uma invasão, é o Bastos, o Faria e o Mesquita que se habituaram a vir terminar a sua
toilette no meu quarto. Falam, conversam, lavam-se, traz-me o insecto a água quente para me
lavar, muitas vezes com gorduras a nadar, água de que eles aproveitam parte e lá para o meio-
dia levanto-me a correr para não fazer esperar para o almoço que está marcado para essa
hora, mas é sempre depois.

Além dos referidos comem comigo mais quatro que são mais finos. O almoço é por exemplo
bifes de cebolada, e café com leite ou chocolate, ou leite, às vezes lá vêm também uns ovos ou
uma omolette de carne sem os bifes. Mas o que um tira para o prato dava para quatro.
Acabou-se o almoço.



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Se está bom tempo vai-se passear, mas não a seguir, pois começa então a procissão dos
enviados dos outros pelotões com correspondência ou recados, dos meus homens que
querem pedir licença para ir aqui ou acolá, ou se queixam de qualquer coisa.

Recebido este expediente, damos então um passeio que nos traz a casa ao anoitecer...

Com a minha chegada modificaram-se um pouco as coisas; as meninas foram com a criada
viver para outra casa, as comidas passaram a ser pontuais, mas continuaram os mesmos
convivas e comíamos todos o mesmo rancho. Os rapazes continuaram a frequentar a cozinha e
a casa de jantar, que eu lhes abandonava para os deixar à vontade. Vivia quase sempre no meu
quarto, ou na varanda, e todos os dias dava passeios com os pequenos. De vez em quando
havia a diversão da visita dos oficiais ou comandantes dos outros grupos, que vinham almoçar
ou jantar. A convivência era quase exclusivamente masculina; durante os quatro meses que lá
estive, apenas recebi uma vez por outra a visita da mulher do Alexandre de Albuquerque. Era
boa pessoa e ensinou-me receitas de cozinha e rendas de crochet.

Tivemos um dia uma rápida visita do Couceiro.

A vida decorria calma, mas uma vez houve um alarme: correu o boato de um complot, não sei
se de espanhóis se de portugueses, que deviam vir de noite assaltar a nossa casa e deitar-nos
bombas. Imediatamente o Fernando formou patrulhas para nos guardar durante a noite.
Fizeram-no durante umas poucas de noites consecutivas, mas o sossego era absoluto e por fim
deixaram de tomar essa precaução. Foi decerto um boato sem fundamento e que nada
justificou.

Chegámos assim ao mês de Maio. O Fernando foi então avisado de que se aproximava o
momento da Segunda Incursão, devendo ele sair de Parada para ir ocupar o posto que lhe era
destinado. Não querendo deixar a família naquele ermo sozinha, tínhamos combinado ir nessa
ocasião para Vigo, onde estavam muitas outras famílias de combatentes e onde estaríamos
mais amparados e acompanhados. Mas foi com verdadeira pena e saudade que saí de Parada.
Parecia que adivinhava as aflições que me esperavam em Vigo, que é uma linda cidade, mas
onde muito sofri.



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Deixava aquele refúgio de paz, que ia trocar pelo inferno de cuidados e sobressaltos de uma
nova aventura. Mas tinha de ser, não lhe podia fugir.

Partimos num dos últimos dias de Maio, refazendo em sentido contrário o caminho percorrido
em Janeiro. Em Orense tomámos o comboio para Vigo. Chegados lá, alojámo-nos no Hotel
Continental, onde estavam os meus tios Condes de Paraty com os netos e a filha solteira,
Francisca. A Júlia, mulher do Couceiro, também lá aparecia às vezes, quando o marido andava
por fora. Habitualmente estava com ele em Ginso de Limia, numa quinta chamada "o
Telheiro", pertencente a D. Eduardo Cêa.

O hotel era bom e não deixava de ser agradável ter um certo conforto depois da vida rústica
de aldeia. Mas os nossos fracos recursos não nos permitiam continuar lá. Tínhamos de
procurar alojamento mais modesto. Encontrámo-lo na calle Velásquez Moreno, n.o 40, onde
uma velhota chamada Dona Romana alugava quartos e fornecia comida. Os quartos situados
no 1.o andar eram bons e bem mobilados, mas a comida deixava bastante a desejar, tanto em
qualidade como em quantidade. Fiz as minhas observações à dona da casa e o regime
melhorou um pouco, sem nunca chegar a satisfazer.

Dispúnhamos de três quartos e uma sala e comíamos na casa de jantar da dona da casa.

A pensão era barata, mas tive de a aumentar para poder ter mais água para nos lavarmos e a
luz acesa até mais tarde, para fazer serão.

Era um tanto somítica a tal Dona Romana e como boa espanhola não podia acreditar que
precisássemos de tanta água para andarmos limpos. É uma coisa que sempre lhe fez muita
confusão.

O Fernando demorou-se poucos dias, seguindo para o seu posto, onde estava escondido.
Comunicávamos por intermédio de terceira pessoa que era, em geral, o Artur Sobral Figueira.
Uma ou outra vez aparecia em Vigo, mas sempre de fugida, e nem a mim dizia o ponto exacto
onde se encontrava.

Para esta Segunda Incursão dispunha o Couceiro de duas peças de artilharia, tendo entregado
ao Fernando o comando de uma delas. Representava um trabalho extenuante o manejo das
tais peças; de dia tinham de estar escondidas, creio que até enterradas, para se não suspeitar
da sua existência,
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e de noite desenterravam-nas para ensinar aos soldados a forma do seu funcionamento. As
munições também estavam enterradas. Tudo isto representava um esforço quase sobre-
humano, que bastante contribuiu para o estado de depressão física em que o Fernando
encetou a marcha da Segunda Incursão. Passou-se em preparativos o mês de Junho e nos
primeiros dias de Julho começou a marcha.

Desta vez o itinerário era outro. Da primeira vez entraram no distrito de Bragança; desta vez
entraram no de Vila Real, por Vila Verde da Raia. O Couceiro contava com a guarnição de
Chaves, cujo apoio lhe tinha sido, ao que parece, garantido. Entrou sem encontrar oposição e
na manhã de 8 de Julho chegou à vista da cidade. Na véspera chegara do Sul um importante
contingente de civis armados que se misturaram com a guarnição, evitando assim que esta se
passasse para o Couceiro, se na verdade quisesse ser fiel ao compromisso tomado. Parte dela
saíra de Chaves para combater os couceiristas, mas, mal informada sobre a sua situação,
marchou noutro sentido, tendo por fim encontrado a coluna miguelista, com a qual travou
combate. Ainda não tinha regressado quando o Couceiro iniciou o combate de Chaves. O
comandante da coluna miguelista era o capitão Sousa Dias.

O Couceiro mandou assestar as peças numa encosta de monte fronteira à cidade, esperando
ver aparecer no forte de São Neutel a bandeira branca da rendição. Em vez dela começaram a
zunir as balas. E o pior era que se não viam os que as atiravam; tinham ido assolapar-se no
espaldão da carreira de tiro donde, comodamente e quase sem risco, alvejavam os couceiristas
postados, com manifesta desvantagem, na encosta do monte e bem à vista. Entrou então a
artilharia em acção, causando pânico entre a população da cidade, mas pouco molestando os
seus defensores, que se encontravam mais à frente. Começou a haver baixas. A peça do
capitão Ferreira encravou-se quase logo, deixando de atirar, mas a do Fernando continuou
sempre a fazer fogo. Entretanto caíam feridos, ou mortos, os seus serventes, que eram
alvejados de preferência. Chegou o momento em que o Fernando se viu sozinho, tendo apenas
ao seu lado o seu ajudante Pedro Ferreira de Mesquita que, com uma coragem e uma
dedicação inexcedíveis, nunca o abandonou. Ia buscar as granadas com que o Fernando
carregava e disparava a peça. Por uma especial



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protecção do Céu, nenhum deles foi ferido, embora as balas chovessem de todos os lados.
Mais tarde, encontrando-me em Verin com o capitão Ferreira, disse-me ele estas palavras
textuais referindo-se ao Fernando: "As balas choviam à sua volta, mas parecia que havia um
fluido que as afastava dele."

A situação tornava-se insustentável. Depois de oito horas de combate debaixo de um sol
abrasador, sem possibilidade de avançar e sofrendo já bastantes baixas, o Couceiro entendeu
que era inútil sacrificar mais vidas e deu ordem para a retirada. Só então a peça se calou. Mas
era preciso levá-la para não cair nas mãos do inimigo, e isso representou mais um terrível
esforço. Içaram-na sobre uma mula e conseguiram transportá-la até um ponto onde a
puderam esconder no meio do mato. Neste momento as forças de todo abandonaram o
Fernando, que se deixou cair exausto no chão. Mas era urgente prosseguir na retirada, porque
o inimigo já vinha no encalço dos fugitivos e algum que apanhasse corria o risco até de ser
morto.

Foi o que fizeram ao Pedro Vila Franca, que encontraram estendido no campo gravemente
ferido e que mataram barbaramente à coronhada. Era preciso a todo o transe avançar.

Vendo que o Fernando não podia dar um passo, o dedicadíssimo Pedro Mesquita conseguiu
montá-lo numa mula e assim o levou até um ponto onde puderam descansar, por já não serem
perseguidos. O inimigo também se acautelava, receando uma cilada.

Em Vigo as famílias dos combatentes passavam momentos de terrível ansiedade. As poucas
notícias que chegavam eram vagas e às vezes contraditórias. As mais seguras eram as que
mandava de Verin o Aníbal Soares, ali destacado como agente de ligação; mas eram muito
poucas, porque ele mesmo as não recebia.

Todas as manhãs nos juntávamos na igreja onde se rezavam missas que mandávamos dizer;
todas as tardes e noites nos reuníamos no Hotel Continental, único sítio onde podiam chegar
notícias; mas em geral saíamos de lá na mesma angustiosa incerteza. Assim sucedeu no dia 8
de Julho. Depois de lá termos passado parte da noite, voltámos desconsoladamente para casa,
as Eça de Queirós e eu, acompanhadas por dois ou três homens, quando, passando pela
redacção do Noticiem de Vigo brilhantemente iluminada, alguém lembrou: "E se entrássemos
aqui a perguntar se têm alguma notícia?"



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Imediatamente parámos e um dos nossos companheiros, o João Santarém, entrou na
redacção. Saiu logo dizendo que sim, que tinham notícias. Entrámos então todos e vimos sobre
a mesa um telegrama acabado de chegar, cujo texto era o seguinte:



 "Grande combate perto de Chaves com muitas perdas de parte a parte Couceiro retirou por
falta de munições mas espera recomeçar amanhã".
E fácil de calcular como ficámos depois da leitura deste telegrama. Aquela frase: "muitas
perdas de parte a parte", sem mencionar ninguém, era como uma espada que nos
atravessasse o coração. O que teria sucedido aos nossos? Separámo-nos tristemente à porta
das nossas respectivas residências onde íamos procurar, numas escassas horas de repouso que
certamente nos seria negado, o esquecimento da angústia que nos torturava. Que noite
aquela!

Na manhã seguinte, à saída da missa, interrogávamo-nos mutuamente em vão. As nossas caras
metiam dó. Ao passar pelo Hotel Europa, onde as Eças estavam hospedadas, vi o dono do
hotel à porta, com um telegrama na mão; era para a Emília e ofereci-me para lho levar, pois
sabia que ela se encontrava na casa da filha Guarda. Era dos filhos, dizendo que estavam bons.
Mas dos outros nada se sabia. Voltei tristemente para casa. Eram duas horas da tarde quando
bateu à porta o Conde de Bertiandos. Vinha do Continental, onde acabava de chegar um
telegrama dizendo que dos mortos e feridos não havia nenhum pertencente às famílias de
Vigo, o que ele, coitado, se apressou a vir-me comunicar.

A alegria causada por esta notícia fez-me chorar; correram então livremente as lágrimas
retidas desde a véspera, sabe Deus com que custo!

Restava o receio de novos combates, mas à medida que os dias iam passando sem o confirmar,
renascia em mim a esperança de que se não realizariam. Algumas das minhas companheiras,
impacientes por notícias, tinham partido para Verin. Não me faltava vontade de fazer o
mesmo, mas a situação dos meus filhos, que teria de deixar entregues à criada, fez-me hesitar.
Passados alguns dias, uma manhã, acabava de entrar na igreja para ouvir missa quando me
vieram dizer que minha tia, Condessa de Paraty, estava à porta e me queria falar. Saí
imediatamente e fui encontrá-la pálida, transtornada. Disse-me logo: "Vieram muito más
notícias. Parece que houve



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um combate com muitas baixas. A Júlia já partiu para Verin. Talvez tu queiras ir também. Tens
às 11 o rápido de Madrid em que vão as Pittas, podes-te juntar com elas".

Sem demorar o pensamento nos horrores que me atravessavam o espírito, respondi apenas:
"Vou, com certeza." Voltei apressadamente para casa e comecei os preparativos de viagem.

Estava atordoada; não raciocinava, só sabia que queria ir. Mandei vir uma carruagem, fiz à
pressa as minhas recomendações à criada, beijei os dois pequenos que estavam em casa, e
nem tempo tive de me despedir da Maria Teresa, que estava no colégio àquela hora. Na
estação lá estavam as Pittas. Seguimos até Orense; aí tomámos a camionette para Verin. Já em
Orense tivemos o alívio de saber que o tal telegrama alarmante era apócrifo e já fora
desmentido. Quem seria a boa alma que se divertiu a fazer aquela brincadeira de mau gosto?
Nunca cheguei a sabê-lo.

Seguimos então muito mais tranquilas.

Em Verin foi-nos confirmado o desmentido ao telegrama. Encontrei a Júlia com quem fui a
Cabreiroá, onde o hotel fora transformado em hospital de sangue. Lá vi, entre outros, o José e
o Pedro Abrantes, e o Manuel Costa Alemão, este gravemente ferido por uma bala que lhe
atravessara o pulmão. Este pobre rapaz estava destinado a morrer desastrosamente:
encontrou a morte em 1919, em frente de Vila Real, quando esta cidade estava sendo atacada
pelas Juntas Militares.

O Hotel Salgado, onde me hospedei, estava cheio de portugueses. Todos os dias chegavam
famílias dos combatentes, ansiosas por notícias.

Eu estava resolvida a ficar até ter notícias do Fernando. Começava a haver comunicação com a
coluna. Um dia soube que o José Paulo da Câmara se propunha entrar em Portugal e ir ter com
ela. Imediatamente aproveitei para escrever ao Fernando e mandar-lhe algum dinheiro, de
que estava certa ele havia de precisar. Essa carta, não sei porquê, nunca a chegou a receber.
Soube que eu estava em Verin pela carta da mulher de outro oficial para o marido. Nós
sabíamos que a coluna estava a retirar para Espanha e já apareciam alguns fugitivos. O
Governo espanhol mandara ordem para internar todos os que aparecessem.



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Na manhã do dia 16 estávamos reunidas no átrio do hotel de volta da missa, quando vimos um
grupo parar à porta: um homem a cavalo numa mula e outro a pé que a conduzia pela rédea.
Voltando-me para as minhas companheiras, disse: "Lá vem outro desgraçado." Nisto diz-me a
Júlia: "Olha, é o teu Elle." (Nome pitoresco pelo qual na família Paraty designavam os maridos).
Afirmando-me melhor, vi que realmente era o Fernando, tão transtornado que o não tinha
reconhecido.

Mal se apeou com custo, chegou junto dele um soldado da Guardia Civil que o convidou a
acompanhá-lo ao posto. Fiquei no hotel, esperando a sua volta. Pouco se demorou e voltou
dizendo que estava preso, mas que o comandante tinha acedido a que fosse ao hotel lavar-se
e almoçar, devendo ir apresentar-se novamente depois do almoço. Este procedimento muito
cavalheiresco pude mais tarde confrontá-lo vantajosamente com outros nas mesmas
circunstâncias. A primeira coisa que o Fernando fez foi meter-se na cama para descansar e
também para tirar o fato, que estava num estado indescritível.

Há quantos dias se não metia entre lençóis! Enquanto ele descansava saí para lhe comprar
roupa, pois não podia pensar em tornar a pôr a que trazia. Comprei-lhe uma indumentária
completa, desde um fato já feito até às botas, lenços, gravata, etc. Mandei-lhe preparar um
banho.

Além do grande cansaço, vinha com uma extinção de voz causada pelo sol, pela pólvora que
tinha respirado e pelas vozes de comando que dera durante o combate.

Contou-me que, tendo sabido pela tal carta que eu estava em Verin, pedira licença ao Couceiro
para me ir ver, tencionando depois voltar para se reunir à coluna já então em retirada para
Espanha. A sua detenção à chegada impediu-o de realizar a última parte do programa, o que
foi para mim um alívio. Depois de almoçar, foi-se apresentar ao comandante do posto que o
mandou para o Ayuntamiento, onde ficou numa grande sala, com sentinela à vista. Como não
estava incomunicável pude ir ter com ele, e ali passámos juntos algumas horas. O capitão
limitou-se a cumprir as ordens, suavizando-as na medida do possível. Consentiu que ele
voltasse para jantar e dormir no hotel e perguntou-lhe para onde queria ir.



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Disse-lhe o Fernando que para Vigo, onde tinha a sua casa e os seus filhos. Partimos, pois, no
dia seguinte às 8 da manhã na camionette de Orense, acompanhados por uma pareja, de
Guardia Civil. Em Orense tomámos o comboio para Vigo, já sem escolta. Era o dia 17 de Julho.
No dia seguinte pudemos celebrar juntos o 12.? aniversário do nosso casamento.

Os primeiros tempos da estada em Vigo foram apenas para se refazer e ganhar forças.
Entretanto internava-se o resto da coluna, voltando alguns para Vigo e seguindo outros para
outros pontos de Espanha e alguns para França. Do Couceiro não se sabia o paradeiro, mas a
família partiu para St. Jean de Luz, onde ele mais tarde se lhe foi reunir. A coluna estava
dispersa e desta vez sem esperança de voltar a fazer alguma coisa. Eu estava descansada, mas
não sabia os trabalhos que ainda me esperavam.

Em Agosto o Fernando resolveu ir a Inglaterra falar com El-Rei e explicar-lhe como as coisas se
tinham passado. Repetira-se o caso da Primeira Incursão: os que dentro do país estavam
comprometidos com o Couceiro, insistiam para que ele entrasse, até em forma de ultimatum:
"Se não entrar até tal dia, saem para a rua, porque já não há quem tenha mão neles."

E o Couceiro entrou e... ninguém se mexeu! Traição? Simplesmente, à última hora, falta de
decisão? Não sei. O que é certo é que nessas condições todas as tentativas estavam destinadas
a falhar, porque a entrada do Couceiro nunca poderia ser senão o rastilho que ateasse o
incêndio; seria absurdo pensar que aquele punhado de homens pudesse sozinho conquistar o
país.

O Fernando embarcou no dia 8 de Agosto. Meus pais chegaram, hospedando-se no Hotel
Europa, que era bastante perto da minha casa.
Não tenho elementos para saber o que se passou com El-Rei, mas sei que foi bem recebido.

Estava de volta no dia 18.

Poucos dias depois - não posso precisar o dia, mas foi ainda em Agosto - estávamos os dois na
sala recebendo a visita da Condessa de Bertiandos, quando bateram à porta. A criada foi abrir;
pouco depois veio à sala dizer que eram dois homens perguntando pelo Fernando e que os
tinha mandado embora dizendo que ele não estava. Perspicaz,



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tinha percebido que não vinham para coisa boa. Mas o Fernando, intrigado e não lhe passando
pela cabeça que lhe quisessem fazer mal, chegou à janela e chamou-os. Subiram novamente a
escada. Foi à porta falar-lhes e disseram-lhe então que vinham a mando do juiz e que este lhe
pedia que fosse à Carcel dar-lhe umas explicações.

Nem então o Fernando suspeitou a verdade: que o vinham

prender, e seguiu confiadamente com eles. Chegado à presença do

juiz, este disse-lhe que estava detido à ordem do governo espanhol.

Mais tarde soube que esta prepotência fora devida ao pedido do

cônsul português, que o acusava de conspirar.

O Fernando mandou-me avisar do que se passava, pedindo-me que lhe mandasse o jantar e
roupa para a cama. A sensação entre os portugueses que estavam em Vigo foi enorme e logo
todos afluíram à cadeia a saber notícias.

Deu-se então um caso de que nunca me posso esquecer - e que peço aos meus filhos para
nunca esquecerem também - pelo que representa de dedicação e de amizade. O Xavico
Quintela, querendo suavizar para o Fernando aquelas primeiras horas de prisão e sobretudo o
horror da noite passada naquelas condições, e na solidão, pediu que o deixassem ficar lá de
noite a acompanhá-lo. O pedido foi deferido e lá ficou ele toda a noite como preso voluntário
junto do amigo. Embora me persuadisse que aquela desagradável situação teria pouca
duração, deitei-me muito maldisposta, mal pensando, contudo, no desagradável despertar que
teria no dia seguinte. Eram 8 horas da manhã quando a criada me veio dizer que estava à porta
um oficial da Guardia Civil com mais uns homens, que vinham passar uma busca à casa. Fiquei
atarantada., lembrando-me da muita papelada que tinha numa mala, a que era impossível dar
sumiço. Ela com mais sangue-frio do que eu, lembrou-se de uma pistola que estava na gaveta
da mesa de cabeceira; tirou-a e escondeu-a no seio. Passou com ela em frente dos homens e
foi às traseiras da casa enterrá-la num vaso de flores de Dona Romana. Entretanto levantei-
me, enfiei um roupão e mandei-os entrar.
Mas antes lembrei-me de uma carta do Luís de Magalhães para o Fernando, chegada na
véspera, e meti-a na algibeira. Impassível assisti à busca, que começou pelo meu quarto, onde
nada encontraram, evidentemente. Na sala, a mesma coisa.



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Chegaram, por fim, à tal mala. Não pude deixar de rir ao ver o desânimo que se apoderou
deles diante daquela montanha de papéis que teriam de percorrer: "Caramba! Isto vai levar-
nos o dia todo." O que ainda mais os atrapalhava era ser tudo escrito em português, língua que
eles quase desconheciam. Nesse momento senti-me vingada.

Entretanto chegava o Xavico, vindo da prisão, que me trazia notícias do Fernando e lhe queria
levar as nossas. Pedi-lhe que fosse ao Hotel Europa prevenir meu Pai do que se passava.

Não tardou que este chegasse furioso. Os homens, dizendo mal à sua vida, iam
trabalhosamente percorrendo os papéis. À uma da tarde, vendo que ainda faltavam bastantes,
declararam que iam almoçar e voltariam às quatro. Selaram a mala e foram-se embora. Havia
cinco horas que lá estavam!

Então fiz a minha toilette, almocei e fui com a minha mãe à Carcel ver o Fernando. Encontrei-o
bem-disposto e cheio de coragem. Às 4 voltaram os da busca e recomeçaram o seu trabalho,
mas faltou-lhes a coragem para o levar até ao fim; a certa altura desistiram do resto e foram-
se embora, levando apenas, por honra da firma, alguns papéis.

Apesar de não terem aparecido provas algumas de que o Fernando conspirasse - pois todos os
papéis eram referentes a factos anteriores à Segunda Incursão - continuou preso e foi até
pronunciado. Era a Carcel um edifício lúgubre, sujo e malcheiroso, com o mau cheiro
característico das prisões. Para se chegar ao quarto do Fernando, destinado aos presos
políticos e considerado o melhor da prisão, atravessava-se um pátio e subia-se por uma escada
exterior de ferro.

O quarto era espaçoso e sem comunicação com o resto do edifício. Tinha no topo um estrado.
O mobiliário compunha-se de uma cama, uma mesa, uma cadeira e um lavatório. Eu ia visitar o
Fernando todos os dias e a primeira coisa que fazia quando lá chegava era compor-lhe a roupa
da cama, que estava em desalinho.

Ao princípio teve bastantes visitas, mas estas cessaram por motivo de força maior. No próprio
dia em que o Fernando foi preso, veio ordem do Canalejas para internar todos os portugueses
que estavam em Vigo, se não saíssem nas 24 horas. Era forçoso obedecer. Os que tinham
posses partiam para Madrid ou para França.



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Os desgraçados que nada tinham eram levados para Cuenca, terra horrível no centro de
Espanha, onde o frio era siberíano e onde passaram muitas privações.

Meu Pai partiu para St. Jean de Luz. Minha Mãe ficou em Vigo, porque a ordem de expulsão
não se estendia às mulheres.

Entretanto o Fernando movia céus e terra para alcançar a liberdade. Fez chegar o seu protesto
até ao conhecimento do Rei Afonso XIII e eu também escrevi directamente à Rainha. Embora
não obtivéssemos resposta, soubemos mais tarde que foi devido a esses apelos que ele saiu
por fim em liberdade no dia 23 de Setembro. Sujeitaram-no, contudo, ao vexame de uma
fiança que foi prestada pelo bom D. Eduardo Cêa. Era este homem um grande amigo e
protector dos portugueses, tendo ele mesmo sangue português e sendo até aparentado com
os Bertiandos.

Tinha o Fernando escolhido como advogado um Rafael Quintana, de Vigo, cujos serviços,
felizmente, não chegaram a ser utilizados.

Durante a sua prisão deu-se um episódio que podia ter tido consequências desagradáveis, não
passando, felizmente, do susto. Foi o seguinte: os pequenos costumavam ir com a criada a um
passeio público chamado "Alameda", onde brincavam com outras crianças. Um dia, na volta
para casa, a criada parou na Calle del Príncipe à esquina da Calle Velázquez Moreno e muito
perto da nossa casa, para se despedir de uma companheira que seguia com outras crianças.
Imprudentemente largou a mão do Francisco, que tendo apenas três anos, não tinha ainda
entendimento suficiente para estar em liberdade, tanto mais que já era noite.

Quando a criada quis seguir a caminho de casa, olhou em volta e já não o viu. Julgou que
tivesse entrado numa loja de brinquedos que havia à esquina. Não o encontrando ali, julgou
que tivesse ido para casa. Nada. Já bastante aflita tornou a sair e dirigiu-se ao Hotel Europa
com as duas pequenas. A Maria Teresa, já com os seus oito anos, compreendia a situação e ia
lavada em lágrimas. Podia o pequeno ter tomado esse caminho que conhecia, por minha mãe
viver ali. Esperança baldada!

Ninguém sabia dar notícias dele. A criada então, como louca, correu à polícia a dar parte do
sucedido. Ao voltar,



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passando outra vez pelo Hotel Europa, teve a enorme alegria de o ver ao colo da criada do
hotel. Ao pé estava uma mulher do povo, que contou o que sucedera. Quando o pequeno se
viu só, começou a andar, tomando talvez a outra criada pela sua. Mas breve a perdeu de vista,
decerto. Vendo-se então perdido, de noite e numa rua desconhecida, começou a chorar. Foi
quando a tal mulher o encontrou. Vendo-o bem vestido e a chorar, compreendeu logo que
estava perdido e pegou nele ao colo, perguntando-lhe: "Nino, onde vives? Quien son tus
padres? Como te llamas?" Mas ele a tudo respondia apenas: "Avó hotel."

Estavam numa rua que ia ter à estação do caminho de ferro, havendo por isso muitas
hospedarias. Ela entrou em todas, mas em nenhuma o pequeno, evidentemente, era
conhecido. Foi assim andando em direcção do Hotel Europa, para onde ele continuava a
apontar, dizendo sempre: "Avó hotel."

Ali, como já fora dado o alarme, estava a criada à porta olhando para todos os lados.

Assim que viu o pequeno, de quem gostava muito, agarrou nele. Foi então que chegou a outra
criada, que o levou logo para casa e deu à mulher uma boa gratificação.

Quando cheguei um pouco mais tarde a casa soube o que se passara. Vendo a aflição da
criada, que era boa rapariga e muito dedicada, não tive coragem de lhe ralhar.

Ao ver-se o Fernando novamente em casa, começámos, ele e eu, a pensar no futuro. Enquanto
não fosse despronunciado, teria de ficar em Vigo; mas logo que esse facto se desse - e não
podia tardar - teria de procurar outro rumo. Lembrou-se de que lhe conviria ir para Inglaterra e
em especial para Londres, onde estavam muitos portugueses e onde poderia trabalhar pela
Causa. Eu não podia acompanhá-lo devido à grande despesa que representava a vida com três
crianças no estrangeiro, e essa dificuldade subsistiria em toda a parte para onde ele fosse.
Tinha de me resignar, portanto, a voltar sozinha para Portugal.

Minha mãe partira para St. Jean de Luz, chamada por doença de meu Pai e tencionava, assim
que pudesse, voltar para Lisboa. Eu faria o mesmo logo que o Fernando partisse.

Foi por fim arquivado o seu processo e eu parti no dia 29 de Dezembro, embarcando ele no dia
seguinte para Inglaterra.



74




Começou assim uma nova separação que não sabíamos como, nem quando, acabaria.

Em Londres e em Richmond, onde vivia El-Rei, o Fernando foi muito bem recebido. Estavam lá
muitas famílias portuguesas: Figueirós, Lavradios, Sebastião de Lancastre e filha, José e Maria
Gil, etc. Em Londres estavam Luís de Magalhães e família, Palmelas, Assecas, Eça de Queirós,
Benedita Resende, Maria Barbosa e outros. Por todos foi acolhido com simpatia, passando a
fazer parte do grupo que rodeava El-Rei. Vivia em Londres, mas ia passar todos os domingos a
Richmond, almoçando e jantando em casa de uns ou outros e às vezes sendo convidado por El-
Rei.
Como tinha fama de bom jogador de bridge, organizavam partidas em que El-Rei era, em geral,
um dos parceiros. A Rainha, Sra. Dona Amélia, mandava-o chamar às vezes para lhe pedir
informações sobre o que se passava, queixando-se de que El-Rei e o seu entourage nada lhe
diziam, apesar do grande interesse que ela tomava por tudo quanto se relacionava com a
restauração da Monarquia. Pobre senhora!

Em Londres trabalhava com o Luís de Magalhães no expediente da Causa, inscreveu-se na
escola Berlitz para aprender inglês, visitou os museus e viu tudo quanto havia de notável na
cidade.

Minha mãe, entretanto, voltou de St. Jean de Luz, deixando meu Pai restabelecido. Ele ficou lá,
apesar de nada se opor à sua volta para Portugal, achava mais agradável o sossego de que ali
gozava do que a atmosfera de desconfiança e de boatos em que aqui se vivia. Não deixava de
ter razão.

No dia 30 de Maio de 1913 fez a Maria Teresa a sua primeira

Comunhão na igreja de São Luís.

Estava então a Maria Rita bastante doente com um ataque de

eritema nodoso, que me deu muito cuidado. Em Junho tivemos de sair da nossa casa da
Travessa do Abarracamento de Peniche por imposição da senhoria, que queria ir habitá-la.
Procurámos uma nas vizinhanças e minha mãe decidiu-se pela da Calçada dos Caetanos, n.o
54, hoje n.o 22. Nem ela nem eu gostávamos do sítio, por causa da vizinhança barulhenta do
Século, e pensávamos demorar-nos só o tempo preciso para encontrar outra melhor. Afinal...
já lá vão 32 anos e ainda lá estou!



75




Pouco depois de nos mudarmos partimos para Mateus. Havia três anos que lá não íamos!

A Maria Rita estava ainda convalescente, com alguma temperatura, mas aquele bom ar acabou
de a curar.

A minha vida era monótona e triste, tendo como única ocupação cuidar dos meus filhos e
como distracção a correspondência com o Fernando.

Essa era diária, ou quase.




Penitenciária
Na carta do dia 25 de Agosto falou-me ele pela primeira vez na possibilidade de nos
encontrarmos em Salamanca. Dizia assim:



Se eu, por exemplo fosse lá para o fim do mês que vem dar uma volta por Salamanca,
poderiam todos os daí (tua mãe também) ir por lá ver-me? Não deixes de responder a isto...

Em 27 volta ao assunto:

Gostava que me respondesses afirmativamente a uma pergunta que te fiz no final de uma das
minhas cartas.

Vale a pena um sacrifício. Ao menos matamos saudades, o que eu estou longingfor. Muita falta
faz o dinheiro! Pudesse eu obtê-lo ainda que não fosse senão emprestado e já tu e os
pequenos aqui estavam...

Respondi-lhe que me sorria muito a ideia de o ir ver a Salamanca, manifestando-lhe contudo o
meu receio de que o incomodassem em Espanha. A isto responde em data de 2 de Setembro:



Encheu-me de alegria a tua carta de 28 ontem recebida por encarares com possibilidade a
execução de um projecto que julgo realizar muito em breve, ainda durante este mês. Não têm
razão de ser os teus receios. Canalejas houve um [fora assassinado uns meses antes] e aqueles
que faziam força sobre ele estão hoje bem mais fracos. Era bem bom que tua mãe e os
pequenos todos viessem também. Amanhã ou depois me explicarei melhor... Insisto por que
vão todos e cá tenho as minhas razões...



76 - 77




Na carta do dia 8 continua:



Dize-me o que há com respeito à tua ida a Salamanca para te encontrares comigo. Se tua mãe
está disposta, se todos os pequenos podem vir, etc. etc...

Combina isso bem, para muito breve e dize-me o que há. Logo que veja furo à nossa reunião
marcho para lá. O coração e a bolsa estão-me recomendando isso. As saudades são cada vez
maiores e a vida aqui é ultracara...
Este projecto em que ele tanto insistia, de irmos todos, era irrealizável pela grande despesa
que representava. A única coisa possível seria ir eu com a Maria Teresa, mas mesmo para isso
carecia de fundos que não tinha. Em todo o caso esse projecto não o punha de parte e
esperava que minha mãe me ajudasse.

Em 11 de Setembro escreve-me o Fernando:



Quanto a S. calculas decerto que não é para nos demorarmos lá que eu te peço para vires. É
por pouco tempo. Decerto inferior a um mês. Em todo o caso nada de falar nisto.

Para todos os efeitos deve isto parecer um arranjo achado por ti para nos reunirmos e sem
mais outra razão de existir. Parece-me escusado insistir neste ponto...

Em 13:

Não imaginas a alegria com que penso que vou tornar a ver-te. De todos os sacrifícios feitos é
este o mais terrível de todos, a nossa separação. Mas obrigar-te a passar as privações por que
passaste em Vigo, também o não queria. Ao menos descansaste todo este tempo e agora já te
não custará tanto... Levei mais tempo a escrever esta carta do que costumo. É a emoção que
me dá o pensamento da nossa próxima reunião. Pede a tua mãe em meu nome para te facilitar
essa viagem e assim conservará para sempre a gratidão de um genro de quem ela soube fazer-
se estimar...

Cortava-me o coração vê-lo tão entusiasmado com um projecto que a mim me parecia tão
difícil de realizar. Minha mãe não o facilitava, porque na realidade o não desejava e sem o seu
auxílio ser-me-ia impossível pô-lo em prática. Este dilema torturava-me.



78




Por um lado o desapontamento do Fernando e o meu, se eu não fosse; por outro, a dificuldade
de convencer a minha mãe e de desfazer os muitos argumentos que a sua imaginação doentia
acumulava para me dissuadir. Era uma luta que dava cabo de mim. Ela invocava os perigos que
podia encontrar: dificuldades pelo caminho, trincheiras caídas, penedos despenhados sobre a
linha, etc. Não havia horrores que lhe não lembrassem. Ao mesmo tempo invocava a solidão
em que ia ficar, a responsabilidade dos pequenos, etc. Eu pacientemente refutava os seus
argumentos. Consegui por fim que me prometesse emprestar-me cem mil réis para a viagem.
A maior dificuldade parecia estar vencida. Mas a 19 de Setembro escreve-me o Fernando de
uma forma que me desnorteou, pois já não dava como certa a ida a Salamanca:
Parto esta noite directamente para Paris e de lá ainda não sei para onde. Ou para Salamanca,
ou para aquele sítio onde nós comprámos a tina [esse sítio era OrenseJ. Na passagem [em St.
Jean de Luz(1), conversarei com teu pai e combinaremos o melhor que há a fazer para o nosso
futuro. E daí talvez vá para S. Só em Salamanca nos poderemos reunir porque o outro sítio,
além de muito incómodo, tem outros inconvenientes. Entre outras coisas é a terra mais
antipática por onde tenho passado. Hei-de procurar ir antes para S. por causa da hipótese da
nossa reunião, mas por causa dos negócios que tenho entre mãos preciso talvez ir primeiro
pelo outro ponto. Mas como te vou escrevendo dos sítios por onde passar, vais ficando
sempre ao facto de tudo. Hei-de evitar o mais possível que a nossa correspondência se
interrompa. As tuas cartas e a correspondência toda que me chegar será sempre pelo Supardo
a quem indicarei sempre o ponto para onde ma há-de enviar. Não sei o tempo que me
demorarei no sítio para onde vou, mas espero que seja curto e que possa voltar em breve a
escrever-te daqui [de Londres], já com meios de te trazer para ao pé de mim. Porque isto aqui
contigo era um céu aberto. Em todo o caso é possível que ainda me demore por lá bastante
tempo, apesar de que hei-de procurar ver se arranjo lá um sócio ou agente a quem possa
encarregar dos meus negócios para voltar mais cedo...

Devo partir para Paris e chegar lá amanhã de manhã, creio que às seis da manhã. Lá vou para a
Rua de Constantinopla, n.o 7, onde estão o Mesquita e o Virgílio, onde portanto não deve ser
caro e tenho a certeza de encontrar bons companheiros




*1. Ou talvez em San Sebastian.



79




e cicerones.Amanhã te escreverei já de lá e te poderei dizer alguma coisa mais do que hoje
posso fazer. Provavelmente esquecer-me-ei de pôr a data completa nas cartas, coisa de que
desde já te aviso para não estranhares. Decerto te lembras do que te disse a esse respeito...

Empost-scriptum: "Bom era que pudesses ir a S., ainda que lá se não encontrassem senão com
teu pai, a quem espero convencer a ir".



Esta carta fez-me pôr completamente de parte a ideia de ir a Salamanca, pois que
evidentemente me não poria a caminho sem a certeza de lá encontrar o Fernando.

Em data de 21 de Setembro escreve-me já de Paris...
Hoje parto às 2 horas para San Sebastian onde devo chegar às 7 e 40 da manhã de amanhã.
Acabo de telegrafar a teu pai para ele se ir lá reunir comigo como me disse em carta estar
disposto a fazer. De lá te escreverei a não ser que não tenha tempo, porque tenciono seguir no
mesmo dia para o sítio onde comprámos a tina. Em tão pouco tempo não posso fazer ideia de
Paris. A primeira impressão foi má. Ruas estreitas, mal calçadas, táxis horríveis, sujos e feios,
fiacres idem. Cheguei à conclusão de que quem quiser ver Paris não deve passar antes por
Londres. Mas depois [Walter, ou seja Luís de Magalhães] levou-me à Place de La Concorde,
Tulherias, Louvre, e por alguns dos principais boulevards e perante a beleza de tudo aquilo
desfez-se parte da má impressão.

Porque afinal o Paris bonito é apenas aquilo e pouco mais. Não é como Londres uma coisa sem
fim.

Não sei como te diga a pena que tenho de não poder realizar o meu sonho. Enfim um dia não
são dias e atrás de tempos, tempos vêm, esperamos em Deus...



A carta seguinte era datada de San Sebastian, de 23 de Setembro de 1913...



Ainda não sei a esta hora o que farei daqui a pouco. Em todo o caso se não for hoje, amanhã
saio daqui. Não sei para onde. Ontem tive o teu pai a almoçar comigo.

[...] Eu tenho pena que a espionagem em St. Jean de Luz me não tivesse consentido ir antes
para lá. Pelo menos tinha brídege à noite com teu pai... Não imaginas a falta que me faz o não
ter carta tua. Se eu soubesse que me demorava aqui não só te teria pedido para me escreveres
para cá, como tinha avisado em Londres para me mandarem as tuas cartas.



80




Assim tenho que jejuar. Este é o Hotel de Londres et d'Angleterre onde estivemos [numa
pequena viagem que fizemos no ano do nosso casamento]. Suponho que nesse tempo não
existisse um magnífico e agradável terrasse sobre a praia. Está-se ali muito agradavelmente,
embora os pensamentos tenham o agridoce do sonho... agradável e da realidade triste. O que
eu daria para te ter aqui! O que tu terias apreciado isto!...



Eu cada vez percebia menos. Via apenas que havia um mistério e que nada mais podia fazer do
que esperar que ele se desvendasse. Que se tratava de uma nova tentativa de restauração era
claro, mas não me dava isso grande cuidado, certa como estava que o Fernando, condenado à
revelia a prisão maior celular, por ter tomado parte no combate de Chaves, se não arriscaria a
entrar em Portugal. Ele mesmo, em data de 25 e ainda de San Sebastian, escreve-me:



Parto para S. hoje às 3 horas. Chego amanhã às 5. Não sei se podes ir com Maria Teresa ou
com a tua mãe e todos os pequenos... Teu pai disse-me que não autorizava qualquer despesa
por esse motivo. Espero tua mãe ou irmão te possam ajudar sem ele saber ou... não sei
quando nos tornaremos a ver. Ignoro qual será o meu papel desta vez. Com certeza não
precisam da minha ajuda, mas o meu dever é fazer todo o meu possível. Se puderes ir a S.
falaremos sobre tudo isto. Por carta não me atrevo a dizer mais...



Esta carta, assim como as seguintes, era escrita em inglês. No dia seguinte, a 26, escreve-me já
de Salamanca:



Estou aqui desde as 6 da manhã.

Suponho que sairei amanhã para o sítio onde comprámos muitas coisas há uns anos [OrenseJ.

Li hoje num jornal que correm boatos de distúrbios em Lisboa. Não sei o que significam e estou
morto por ler os jornais amanhã.

Estou no mesmo hotel onde nos encontrámos há anos [Hotel TerminusJ mas não o
reconhecerias com certeza. Tudo está velho e sujo. É uma pena. Não posso explicar mais sobre
a minha ida para outro ponto. Julgava as coisas diferentes do que são. Alguém me pediu um
serviço, mas creio não poder fazê-lo.

Gostaria de te explicar tudo, mas não posso...

[...] Como penso sair daqui muito breve, é melhor dar a teu pai o gosto de não nos
encontrarmos. Mas espero que seja apenas adiado...



81




[...] Espero receber amanhã as cartas que escreveste para Londres. É preferível agora
interromper a nossa correspondência até eu te poder dar uma direcção exacta. Em todo o caso
escrever-te-ei diariamente em inglês [...] E até amanhã. Tenho pena de não receber as tuas
cartas; era um hábito tão querido!...
Esta carta cruzou-se com a que lhe escrevi a 27, falando da minha ida como certa, do
momento que tivesse possibilidade de o encontrar em Salamanca. Dizia-lhe que esperava
apenas a chegada de meu irmão, para não deixar minha mãe sozinha. Logo que ele chegasse,
partiria no primeiro rápido. Estes eram só três vezes por semana. Continuava...

Espero ardentemente que o teu papel desta vez será de simples espectador. Não posso
suportar a ideia de tornar a estar inquieta por tua causa e peço-te que me evites mais
emoções, a que não sei se poderia resistir...

Esta carta e as seguintes eram também escritas em inglês. Na incerteza em que a carta dele
me deixou, escrevi-lhe a 29:



O que não é nada agradável é esta incerteza sobre a tua vida, que transtorna todos os nossos
planos e aumenta o meu cuidado em ti. Realmente não compreendo como consentiste em vir
nestas condições, sem saber o que vinhas fazer, nem para onde ias... Que pena que tenho que
não decidisses em qualquer caso passar uns dias em S! Poderíamos passar esses dias juntos,
ainda que fossem poucos. Mesmo agora estava pronta a ir se não fosse o receio de me
desencontrar contigo, pois é realmente custoso saber-te tão perto e não te ver. Quantos
sacrifícios teremos ainda que fazer? Peço-te encarecidamente, por mim e pelos nossos filhos,
que te não tornes a arriscar. A ideia de poderes estar novamente em perigo é-me insuportável.
Lembra-te que uma vez me prometeste que a experiência do ano passado se não repetiria;
espero que cumpras a tua promessa. Quanto preciso falar contigo! Quando poderá ser?
Lembra-te que apesar da declaração de meu Pai, a falta de dinheiro nunca me impedirá de ir,
pois, como dizem os ingleses: where there's a will, there's a way, e sempre encontraria alguém
que mo emprestasse. Espero apenas o teu chamamento. [meu irmão] ainda não chegou; diz
que talvez venha amanhã; mas mesmo isso não me impediria de ir, se tivesse a certeza que te
demoravas uns dias. Que situação!... Tens de arranjar por todos os meios a possibilidade do
nosso encontro, agora que estamos tão perto. Esta incerteza é terrível e entende-me com os
nervos. Não creio que venha a acontecer nada




82




e tomara que pensasses seriamente no futuro, pois não podemos continuar assim toda a vida.
Não tem havido barulhos em Lisboa, apenas prisões e descoberta de bombas, e dizem que
também de conspirações. Mas muita gente julga que é o governo que inventa estas coisas, a
fim de distrair as atenções de outras.

O que é verdade é o presidente do ministério, descendo a Avenida no seu automóvel, ter
apanhado uma douche do homem que estava regando as ruas. Que ridículo! Dizem que o fez
inadvertidamente, mas espero que fosse de propósito. Dizem os jornais que o governo está
tomando grandes medidas de precaução, especialmente em Lisboa e nos arredores, mas não
sei de quem, nem de quê, têm medo...



A 27 escreve-me o Fernando:



Creio que saio hoje. Por uma razão que desconheço, o negócio que eu estava vigiando foi
adiado. Suponho que é um pequeno adiamento. Entretanto parece-me melhor ficar aqui que ir
para aquele sítio onde está muita gente vigiando e vendo todos os que chegam [OrenseJ. Aqui
há um pouco disso, mas menos.

Eu estou fora de tudo, mas eles não acreditam e podem por certo desconfiar de mim e eu
estou farto disso... as saudades são tremendas. Dava anos de vida para estar contigo e os
pequenos nesse sítio sossegado onde estão...



A 28:



Não sei se te quero ver aqui, se não. Já se vê que o quero de todo o coração, mas não sei se
virias no mesmo momento em que eu teria de sair, e então ficarias aqui por algum tempo
sozinha. Não sei nada de nada... Não me posso explicar melhor...



A 29:



Não te posso dizer que venhas, nem que não venhas. Não sei onde estarei amanhã. Por certo
que ver-te é a coisa que mais desejo; mas se vieres, não sei se nos poderemos encontrar...
Pelas últimas notícias, parece-me que a coisa demora mais do que eu pensava. Terás, então,
tempo de vir. Mas a momentosa questão do dinheiro terás de a resolver, porque eu não posso
ajudar-te de forma nenhuma.

Pensa nisto e manda-me um telegrama se puderes vir. Tudo dirigido a José M. Castilho, 2 -
Plaza de La Libertad.



83
Em 30 escreve esperançado na minha ida:



Tive hoje o grande gosto de receber as tuas cartas, uma vinda directamente, a outra
recambiada de Londres. Vejo a possibilidade da tua vinda, apesar do teu pai. Estou contente,
contentíssimo. Se isso acontecer, será para mim a compensação de muitas coisas. Mas se vens
tens de vir já. Temos de aproveitar os minutos... Se me não encontrares aqui terás de esperar
uns dias, porque talvez tenha de ir assistir a um acontecimento, mas não te assustes, que não
vou onde fui das outras vezes. É muito diferente e é muito possível que fique aqui esperando
notícias. Mas espero que poderemos falar sobre estas coisas sobre as quais não quero
escrever. Só quero pensar no nosso encontro... Avia-te. Estou certo que não pedirás conselho,
não é verdade?



Em 1 de Outubro continua contando com a minha ida:



Nas minhas cartas de ontem e de antes de ontem dizia-te que tinhas tempo de vir, se te não
demorasses muito. Posso esperar por ti uns dez dias. Espero que possas realizar a tua ideia e
espero receber um telegrama com a notícia da tua chegada... Vem. Vem já, se for possível.
Acabo na esperança de te ver em breve...



Nesse mesmo dia 1 escrevia-lhe eu:



Tantas vezes já me deste e me tiraste a esperança de nos vermos, que já me não atrevo a
esperá-lo. Contudo, como na tua última carta me dizes que posso ir, vou preparar tudo para
partir assim que o meu irmão vier tomar o meu lugar. Parece de propósito que nunca ele veio
tão tarde como este ano... Se eu tivesse a certeza que ele chegava amanhã ou depois, partia
na sexta-feira, mas assim tenho de esperar por segunda-feira, por causa do expresso. Minha
mãe não está em estado de ficar só; o simples anúncio da minha partida pô-la num estado que
não podes imaginar e eu sentiria remorsos se a deixasse sem que ficasse alguém para a
animar... Mando-te um telegrama quando puder marcar o dia. Espero poder ir na segunda;
chego às 11 da noite. Mesmo que passemos poucos dias juntos, vale a pena...

Custa-me deixar os pequenos, mas não há remédio. A Maria Rita disse-me no outro dia que
gostava mais de ti do que de mim, porque estás longe. Não achas que é um pensamento
encantador? Adeus, espero que até breve...



Parecia não haver mais obstáculo algum à minha partida, mas pobre de mim!, foi justamente
nesse momento que ela se tornou impossível pelo estado da minha saúde.
84




Já no dia em que lhe escrevi esta carta me não sentia bem. Foi o princípio de uma longa e
dolorosa doença que por completo me impossibilitou. Contudo, julgava ainda que fosse coisa
passageira e ainda lhe escrevi a 3 de Outubro...



Ontem não te escrevi por não me sentir bem... hoje fiquei todo o dia de cama com uma grande
dor de cabeça e tomei agora uma aspirina, por não querer passar mais um dia sem te escrever.
Receio que esta pequena doença me não deixe partir na segunda-feira, como tencionava, pois
parece-me melhor não me pôr a caminho sem me sentir completamente bem. É, pois, melhor
adiar para sexta-feira, o que me dará tempo a pôr-me boa. Espero que esta pequena demora
não faça diferença; não me consolava se assim fosse. [Fernando] chegou ontem; já, pois, não
me preocupa a ideia de deixar minha mãe sozinha. Ele também não aprova a minha ida, o que
me não admira, sabendo ele a opinião de meu pai a esse respeito. Não me importa; entendo
do meu dever estar contigo sempre que seja possível, e quando sei qual é o meu dever, é-me
indiferente o que os outros possam pensar. Assim fiz quando parti para Espanha a primeira
vez, e nunca me arrependi de ter ido. Agora o caso é muito mais simples e não me perdoaria
se, estando tão perto, te não fosse ver.

Os pequenos foram ontem e hoje à vindima e gozaram muito. À tarde a Mirita preferiu ficar
comigo e esteve todo o tempo a contar-me histórias. She's a dear little girl! O que me custa
deixá-la e ao Francisco!...

Por uns dias ainda continuei esperançada na minha ida, apesar de continuar a sentir-me
doente. A 5 escrevi:



Tudo conspira contra o nosso encontro; agora é o tempo que está medonho e tanto minha
mãe como o Fernando não querem que vá na quarta, com receio de alguma coisa que me
suceda no caminho. Se o tempo levantar vou com certeza; no caso contrário tenho de esperar
por sexta-feira. Mas o que eu queria saber era se ainda terei tempo de passar uns dias contigo;
no caso contrário manda-me um telegrama perguntando pelas saúdes. Não calculas quanto
esta indecisão me enerva; apesar de nada disto ser por culpa minha, chega-me a parecer que o
é e sinto remorsos [...] Que Deus me ajude a decidir pelo melhor! Do que não podes duvidar é
do meu grande desejo de ir e do meu grande aborrecimento pelos obstáculos que se têm
levantado para mo impedir...

85
Creio que foi esta a minha última carta; a doença empolgou-me, cada vez com maior violência.
A febre e as dores não tinham alívio.

Declarou-se uma enterocolite aguda. Foi atribuída a uns figos que comi, mas concorreu
decerto muito para ela a tensão nervosa em que vivi no meio de tantas lutas e incertezas, se é
que não foi essa a sua causa principal.

Em 8 de Outubro escreve-me o Fernando:



Lá fui hoje, outra vez, à estação, apesar de não ter recebido telegrama nenhum. Não vieste e
eu fiquei apreensivo por causa de te saber doente e ver que te não puseste boa tão depressa
como pensavas. Deus queira que não seja nada de cuidado. Deus me evite mais esse cuidado a
juntar aos muitos e às saudades que bastante já me fazem sofrer. Com isto de carta em dias
alternados, não posso receber bastante depressa notícias que me tranquilizem. Vamos a ver se
tenho carta tua amanhã. E vamos também a ver se consegues arrebitar e partir para aqui na
sexta-feira. Deus te melhore.

Tem estado aqui neste hotel o Manuel Fratel que me disse ter a palerma ideia de congregar
monárquicos e republicanos, iniciando uma nova era de paz e de progresso.

Os que lá estão, disse eu, só sabem desfazer. Seria preciso corrê-los. Os que os substituíssem, a
não proclamarem a monarquia, continuariam na mesma senda por falta de gente digna e
competente. Pensar em que para lá fôssemos acamaradar com eles é ter fraca ideia da
dignidade. Gente limpa não pode acamaradar com gente que pôs a denúncia como virtude
cívica e considera a mentira e a calúnia como legítimas armas de combate. Nós cá fora
servimos para dizer ao mundo que a raça portuguesa não chegou ainda à última degradação;
que ainda há naquele país quem preze a dignidade e a verdade acima dos seus bens e da sua
vida. Para eles enveredarem por outro caminho teriam que começar por castigar denunciantes
e caluniadores, isto é, a verdadeira totalidade do partido republicano. Eles agora, ou têm de
continuar pelo caminho traçado, ou de se entregar à monarquia, que fará justiça recta mas
misericordiosa.

Com tais discursos lhe respondi que suponho que ele não tivesse ficado com grande vontade
de continuar com a luminosa ideia.

Repeti-lhe mil vezes: eu sou monárquico por patriotismo e por dignidade simplesmente.

E só posso considerar patriotas e dignos aqueles que expulsarem os vendilhões do templo.

Mas basta por hoje. Estou-te a escrever para encher papel com a ideia fixa na doença que aí te
prendeu e que tanto, tanto me rala...



86
Esta carta é escrita em português; provavelmente o Fernando até gostaria que ela fosse lida
pelos defensores da república, que ficariam assim conhecendo a sua maneira de pensar e o
idealismo que o norteava.

Tendo sido chamado a Orense, mandou-me um telegrama para suspender a minha possível
partida e para lá partiu, escrevendo no dia 10, já de lá. Esta carta vinha registada e era escrita
outra vez em inglês:



Acabo de chegar e começo a escrever-te. Não te aflijas por minha causa. Repito-te que não é o
mesmo que da outra vez. O nosso papel agora é vigiar, só vigiar. Se me quiseres escrever,
podes dirigir as tuas cartas para D. Juan M. Tolosa - Calle Progreso - 29. Julgo que terei de
esperar aqui muito tempo, pois dizem-me que a perseguição contra nós [julgo que seria do
governo espanhol] recomeçou. Não posso sair, tenho de ficar em casa, o que muito me maça.
Estou pensando em voltar para o sítio de onde vim, onde podia sair e fazer a vida normal. Isto
assim não o suporto.

Podes imaginar a pena que tive do nosso desencontro em S. Espero recebesses o meu
telegrama a tempo de suspenderes a tua ida. Estou óptimo de saúde... Não te rales...



Em 12:



Estou bem e metido em casa. Felizmente vem gente todo o dia. Não sei quanto tempo aqui
estarei. Espero que ao menos o bastante para receber as tuas notícias.

Não percebo por que vim tão depressa, perdendo assim a possibilidade do nosso encontro...



Em 14:



Temos de interromper a nossa correspondência por algum tempo. Vou para um sítio onde não
posso receber cartas. A perseguição das autoridades recomeçou. Estou bem e espero que
também o estejas, assim como os pequenos e tua mãe.



87
A minha situação é maçadora, mas nada perigosa.

Se puder, continuarei a dar-te as minhas notícias e espero poder. Peço-te que tomes cuidado
contigo. O maior gosto que posso ter é saber que estás bem, assim como os pequenos.

Creio que a água está a ferver em cachão.

Se Deus nos proteger, muito breve nos veremos. [...] Agora tenho de me resignar a escrever
sem receber resposta, quando o prazer seria receber notícias e não dá-las.

Muita coisa te queria dizer, mas deves compreender que é impossível. Reza para que nos
encontremos depressa. I am missing you too much...



Em 16:



Ainda aqui estou, mas creio que por pouco tempo. Tenho de ir para o tal sítio escondido em
que te falei. Não posso crer que haja perigo em aqui ficar, mas os meus amigos dizem que se a
minha presença for conhecida do cônsul, pode dar origem a alarmes e distúrbios, e então
tenho de lhes fazer a vontade. Tenho pena, por assim interromper a nossa correspondência e
só por isso, porque de resto para uns dias de espera todos os sítios são bons. Gosto muito que
tu, tua mãe e irmão, se demorem aí pelo menos por uns quinze dias...

Isto é uma maçada. A única coisa que faço é conversar com o Mesquita, que me vai
acompanhar para o mesmo sítio. Não te rales por minha causa. Agora não há perigo. Repito-te
que desta vez não é a mesma coisa. Se pudesses ter ido a S., ter-te-ia explicado tudo, mas
agora por carta só posso pedir a tua confiança. Deves-te lembrar que das outras vezes sempre
te disse tudo, e sabendo-te corajosa e de boa têmpera, não teria receio de mais uma vez te
dizer a verdade, se fosse diferente do que te estou dizendo. Acredita em mim e não te rales...
Tenho de obedecer às instruções que me são dadas, como sempre fiz. O único conselho que
me deram foi que te não escrevesse. Só escrevo agora um dia sim, um dia não, e é só nisso que
obedeço ao tal conselho. Mas não deixa de ser razoável, pois temos todos de ter cuidado...



A 18:



Estou agora no sítio em que te falei. Estou muito bem e espero que breve nos veremos...
Escrevo à pressa para não demorar a pessoa encarregada de deitar esta no correio. Mas sabes
que estou bem e desejando ardentemente ver-te e aos pequenos, a quem mando todo o meu
amor, assim como a ti, com os mais ternos beijos...
Suspendeu-se aqui a nossa correspondência. Do que se passou depois, ainda hoje não tenho
uma ideia nítida. Enquanto jazia no meu leito de dor, modificaram-se os planos com respeito



88




ao Fernando. Não posso duvidar da sua sinceridade ao afirmar-me tantas vezes e de uma
forma tão categórica que a coisa desta vez não era como das outras e que não corria perigo.
Portanto, é certo que não contava entrar em Portugal. E contudo entrou. A consideração de
estar condenado a pena maior não pesou no espírito dos que o mandaram para o sacrifício, e
ele, fiel aos seus princípios de honra e de dever, foi, sabendo muito bem ao que se arriscava.
Teria, contudo, saído a salvo desse arriscado passo se não tivesse sido vilmente atraiçoado
pelo mesmo homem que se encarregou de o introduzir em Portugal. Chama-se este homem
Homero de Lencastre. Era do Porto e decerto rico, pois possuía um automóvel.

Cabe aqui, agora, um parêntesis. Entre os papéis que possuo referentes a esta passagem da
vida do Fernando encontro uma narração escrita à máquina relatando a sua entrada em
Portugal, conforme uma entrevista que ele concedeu mais tarde ao jornalista António Santos.
Nela diz o seguinte: "Entrei no Porto a 17 de Outubro de 1913..." Portanto a carta que atrás
cito, escrita a 18, já era escrita cá dentro; eu é que estava bem longe de o suspeitar.

Voltando ao Homero, é para admirar que não levantasse suspeitas a facilidade com que ele
atravessava a fronteira, transportando gente e armamento, mas o que é facto é que soube
inspirar confiança nos monárquicos, a quem oferecera os seus serviços. Foi numa dessas
viagens, e transportando armas, que ele trouxe o Fernando e o Pedro Mesquita.

O papel distribuído ao Fernando era o de comandar o regimento de Braga, que devia sublevar-
se juntamente com os do Porto. Enquanto não chegou o dia marcado, que creio seria o dia 21,
esteve escondido em várias casas, entre as quais na Quinta do Alão, nos arredores do Porto.
Fracassado o movimento voltou para o Porto, onde não era conhecido e portanto a sua
presença podia facilmente passar despercebida.

Combinou com o Homero levá-los outra vez para a Galiza, a ele e ao Pedro Mesquita. Para
passarem a última noite, o Homero propôs-lhes um quarto numa rua escusa; o Fernando,
começando a desconfiar do homem, recusou-se a lá ficar. Ele, então, lembrou-se do seu
escritório na Rua de Cedofeita onde, dizia, estariam em segurança. Aceitaram o alvitre.



89
Para o experimentar o Fernando ofereceu-lhe cem mil réis para despesas de viagem, certo
que, se ele tinha maus intuitos, os não aceitaria. Mas aceitou-os. Depois saiu e eles lá ficaram
sós, naquele escritório desconfortável e com o espírito cheio de apreensões. Na manhã
seguinte entrou lá um homem mal encarado, que mais tarde souberam ser um formiga terrível
chamado Militão Barbedo. Esteve a conversar com o empregado do Homero chamado Costa,
vendo-se que tinha lá ido para dar fé do que se passava, e decerto também para ficar
conhecendo os infelizes que o Homero iria entregar, na mais negra das traições. Este apareceu
mais tarde, dando as suas instruções ao Costa para os acompanhar a um ponto onde, dizia,
estaria com o automóvel à espera deles.

A partida estava marcada para as 7 horas da tarde. O Homero saiu e eles continuaram no
escritório dormitando. A folhas tantas foram acordados pelo Costa, que lhes mostrou uma
carta do Homero avisando que o escritório ia ser assaltado por carbonários e que deviam sair
quanto antes, indicando a rua que deviam seguir até encontrar o tal automóvel que os devia
pôr em segurança. Saíram atrás do Costa, que os encaminhou para a Travessa do Carregal, rua
solitária e que talvez nem fosse o caminho mais curto para o ponto onde deviam chegar. A
folhas tantas, o Costa passou para o outro lado da rua, decerto o sinal combinado.

Nesse momento caiu-lhes em cima um grupo de homens armados que lhes deram voz de
prisão. A resistência era inútil, entregaram as pistolas, o que não impediu que um selvagem
abrisse a cabeça ao Pedro Mesquita com a pistola que levava. Nessa altura apareceu uma
carruagem, dizendo o cocheiro aos do grupo que estava ali à ordem deles.

Tudo muito bem combinado, não há dúvida.

Meteram dentro os presos e lá seguiram para o gabinete do Comissário da Polícia.

O Costa eclipsara-se, nunca mais lhe puseram a vista em cima. Esquecia-me acrescentar que,
por conselho do Homero, o Fernando pusera uma casquette e óculos fumados, na aparência
para servir de disfarce, na realidade para ser mais facilmente reconhecido. Esses objectos foi
ele mesmo que lhos forneceu. Este miserável tinha de acabar miseravelmente. Dois anos
depois, na revolução de

14 de Maio de 1915, foi procurado por um grupo de carbonários que teriam contas a ajustar
com ele e abatido a tiro. Triste fim de uma triste vida!

Interrogado logo pelo João Eloy, o Fernando foi depois levado para o Aljube, onde ficou oito
dias à espera de ser removido para a Penitenciária de Lisboa, visto estar há muito condenado à
revelia.

O seu primeiro pensamento, ao ver-se preso, foi procurar sossegar-me e incutir-me coragem.
Por isso escreveu-me a seguinte carta:




Porto 23 de Outubro de 1913
Minha querida - Não te aflijas porque a única coisa que me aflige a mim é a tua aflição. Tem-
me dispensado toda a consideração. Encontrei-me, felizmente, com gente bem-educada. Tudo
quanto me podem fazer, fazem.

Não venhas enquanto eu estiver incomunicável. Vinhas-te ralar inutilmente. Tenho dinheiro
bastante para as minhas despesas.

Provavelmente não te poderei tornar a escrever durante a incomunicabilidade. Até que ela
acabe um grande beijo e mil para os queridos pequenos do teu



Fernando.



Podes responder. As tuas cartas serão lidas, mas ser-me-ão entregues.



Mais nada! Mas quanto esforço para aparentar serenidade, quanta força sobre si mesmo se
não adivinhava através deste laconismo!

A sua grande alma não se deixava abater. À mãe escreveu a 25:



Estou incomunicável, mas por deferência especial permitem-me que lhe escreva, carta que
tem de ser lida antes pela autoridade.

Estou cheio de ânimo e de coragem. Estou certo de que saberei resistir a mais esta prova.
Como quase com apetite - às vezes com ele - e sinto-me de perfeita saúde. Encontrei
autoridades dignas e bem-educadas que dentro dos limites do seu dever se têm mostrado
amáveis e dado provas de consideração.



90 - 91




Com a força que dá a consciência de ter cumprido o meu dever, quero mostrar que não se
enganavam aqueles que comigo contavam... para não sei quê... para isto.

Oxalá que a querida Mãe e o querido Pai tenham a mesma coragem que eu e saibam ter a
mesma resignação. A única nuvem escura para mim é o pensar na impressão que isto lhe
causará a si, querido pai, e à Teresa. A única.
Digo à Teresa na carta que hoje lhe escrevo que o meu caso me faz lembrar aqueles cavaleiros
que no fim de uma batalha largavam a família e se faziam monges. Vou para um convento que
se diferença dos outros por se poder sair de lá. Ali não há votos perpétuos.

Tinha procurado ocupar o espírito e o corpo para não sentir as consequências da inacção
forçada. E tenho-o conseguido. Coragem, pois. Tenham-na porque precisam dela e para me
não tirar a que tenho e de que também bem preciso...



Em outra carta diz-lhe:



Eu felizmente ainda não perdi a coragem. Vejo que sou um mártir da minha causa e tenho
glória em o reconhecer. Isto de martírios nunca são inúteis. Tenho aqui tido muitas visitas de
pessoas conhecidas e desconhecidas.

Jornalistas também não têm faltado. Acabei por me resolver a recebê-los para evitar quanto
possível as asneiras que a meu respeito têm corrido. Hoje cá voltam. De saúde estou óptimo,
até parece milagre.

A Teresa é que me rala. Ainda não sabe nada porque, apenas convalescente de uma enterite,
está fraquíssima, mas também conto com a sua energia moral.

O futuro também me não parece tão negro como se supõe. Ou isto leva caminho direito ou se
afunda e num e noutro caso deixa a perseguição política de ser o primeiro cuidado da
governação do estado.

Já não estou incomunicável. Mas nem sei se desejo vê-la aqui. Muito embora a minha
disposição não seja para desanimar quem me vê, tenho um pouco de receio dos seus nervos.
Comer, tenho comido bem... Tenho a consciência de ter a cabeça levantada e de ter cumprido
o meu dever. E isso dá muita força. Tenho a certeza de que se não pode envergonhar de mim.
O que eu fiz pouco vale, mas o ambiente geral de inércia cobarde é que lhe dá valor. Tenho
recebido cumprimentos até de republicanos. Não sei quanto tempo ainda me terão aqui, mas
suponho que pouco. Julgo que breve me mandarão para Lisboa. A meu respeito pode estar
descansada".



Em P. S. acrescenta: "Está aqui o Pai. Que gosto tive em o ver! Antes isto que o exílio!"



Esta carta é datada de 29 de Outubro. Nesse mesmo dia, à noite, escreve ao Pai:
Acabo de saber que vou amanhã de manhã para Lisboa. As mais completas medidas de
segurança foram tomadas. Não há pois perigo algum. Guardou-se tal segredo que só agora à
noite me comunicaram que ia partir.

Eu continuo como me viu; certo de que estou cumprindo o meu dever e desejoso de o cumprir
até ao fim.

Como não sei se me permitirão escrever-lhe ou telegrafar-lhe de Lisboa, escrevo-lhe mesmo
daqui.

Também quero escrever para Mateus. Coragem, coragem e coragem. Demos ao menos nós
um exemplo no meio desta cobardia geral...




O João Eloy, inspector da polícia judiciária, que por mais de uma vez interrogou o Fernando
enquanto esteve no Porto, procedeu sempre para com ele com a maior delicadeza, chegando
a mandar-lhe pôr na cama uma almofada com rendas, forrada de seda encarnada; só mais
tarde soube quem tivera com ele esta atenção. Foi decerto referindo-se a ele que o Fernando
respondeu a um repórter que o entrevistou:



Quanto à maneira como tem sido tratado depois que está preso? -Nenhuma queixa nesse
sentido, as minhas impressões são as mais agradáveis e noto com satisfação que em Portugal
ainda há o devido respeito pelos vencidos! -Agora uma pergunta melindrosa, que
antecipadamente sabemos não obterá resposta. Com respeito aos motivos que o trouxeram
ao país, nada se poderá saber? - Peço que não insista nessa pergunta, porque a tal respeito
nada poderei dizer. A minha situação é bem clara. Assumindo inteiramente as
responsabilidades dos meus actos, nada tenho com as responsabilidades que a outros possam
caber, e só a meu respeito poderei falar. Estou na atitude de um homem que jogou, perdeu e
agora tem de pagar.



Esta atitude nobre e digna impressionou até os próprios republicanos e essa impressão
revelava-se na forma respeitosa e admirativa como era tratado nos jornais. Reportagem de O
Século:



Tentámos falar com o Conde de Mangualde... Como a hora da visita, que hoje foi curta, tivesse
terminado, depois de solicitada a devida autorização,



92 - 93
dirigimo-nos para o quarto que aquele titular ocupa desde o dia em que foi preso e que é o n.o
12, que fica situado no pavimento superior àquele onde estão instaladas as dependências da
judiciária, com portas e janelas gradeadas, que deitam para o pátio interior do Aljube. À porta
continuam sentinelas armadas da polícia.

Entrando no quarto, que tinha a porta meia entreaberta, o Conde de Mangualde, que estava
na beira da cama, lendo um livro qualquer, levantou-se e veio ao nosso encontro.

Dissemos-lhe quem éramos e qual o fim que ali nos levava e ele respondeu, com o maior
requinte de delicadeza., que não podia, nem devia, receber, nem conversar com qualquer
jornalista, sem primeiro ler os jornais que trataram da sua prisão, pois não era correcto estar a
falar com um indivíduo que o tivesse tratado mal no seu jornal. Logo que satisfizesse a sua
curiosidade de leitura, consentiria em ser entrevistado, embora pouco tivesse a dizer. Como
víssemos que nada mais conseguiríamos e como nessa altura entrasse no quarto um agente da
judiciária encarregado de atender ao Conde, retirámo-nos. O Conde de Mangualde, que se
mostra, sereno e calmo, está instalado num quarto, o qual, embora se não diga ser de primeira
ordem, é, pelo menos, limpo e arejado. Tem uma pequena cama de ferro, com roupas muito
alvas, uma mesa com pano de crochet, sobre a qual se vêem penas, tinta, papel, dois castiçais
e velas, uma cadeira de verga, lavatório de ferro, etc.



E ainda:



Tivemos novamente hoje o ensejo de trocar algumas palavras com o Conde de Mangualde,
que nos recebeu com a fidalguia que o caracteriza e a que já nos referimos. Informados de que
o Conde já havia lido os jornais que tratavam da sua prisão, perguntámos-lhe qual a sua
opinião acerca dessas notícias, respondendo-nos que, com raras excepções, o trataram bem,
esperando, no entanto, desfazer umas pequenas coisas que há em certas notícias, como seja,
por exemplo, o ter-se dito que lhe fora apreendido um punhal, coisa que diz não possuir e que
a tal arma a que dão esse nome não passa de uma faca de mato, de que os indivíduos que
tomaram parte nas incursões se serviam para comer. Ele nunca tivera dessas facas, porque
trazia consigo um estojo próprio. Diz que, quando se efectuou a sua prisão, não resistiu porque
não conhecia a cidade e portanto seria inútil qualquer tentativa, pois de nada lhe valeria,
porque seria preso de novo. Como o Conde se mostrasse um tanto fatigado e víssemos que
nada adiantaria sobre o que desejávamos saber, retirámo-nos fazendo-lhe uma última
pergunta, que foi a de se a esposa o tinha já ido visitar, ao que nos respondeu que não, pois se
encontra doente.



94
No dia 30 de manhã, foi transferido para Lisboa, embarcando na estação das Devesas.

O que foi essa viagem conta-o ele na entrevista do António Santos a que já me referi.



Passou-se sem incidente, além de alguns ditos insolentes e desagradáveis que lhe foram
dirigidos por uns rapazes que iam no mesmo comboio, alguns dos quais alunos da Escola do
Exército, o que os não impediu de enxovalhar a farda que vestiam, insultando um preso.

O comandante da escolta que o acompanhava procurou metê-los na ordem.

Chegados à estação de Campolide fizeram-no apear e entrar para um automóvel que o levou à
Penitenciária. Na estação estava um grupo hostil, que felizmente não chegou a maltratá-lo, o
que facilmente poderia ter feito.

As suas impressões da entrada naquela triste casa conta-as numa carta dirigida a minha mãe
no dia seguinte, 31 de Outubro:



Escrevo-lhe da minha cela já vestido com o horrível trajo regulamentar. Sou agora o número
164. E apesar de sentir bem todo o escusado vexame desta situação que tão pouco honra os
vencedores, apesar de tudo, sinto-me cheio de coragem. Se fosse séculos atrás, faziam de mim
um santo!!! É que, no Porto, recebi provas de consideração de monárquicos e de republicanos
que muito apreciei e que me indicaram bem que tinha cumprido o meu dever e que o continuo
cumprindo. E perante esta ideia não há vexames, não haveria sofrimento que importasse. A
minha única ralação actual é a Teresa. É absolutamente preciso que ela só saia daí quando
estiver completamente bem de saúde, quando o médico o consentir. E que não julgue ser
outro o seu dever. O dever dela é viver, é tratar dos pequenos e de mim e para isso tem de
pensar seriamente na sua saúde. Tenha ela saúde, tenho-a eu também. Que se aconselhe com
o seu orgulho e na nobreza do seu carácter encontrará o sangue-frio preciso para reconhecer a
verdade disto. O Director desta prisão está sujeito a um regulamento feroz que tem de fazer
cumprir. Mas dentro dele tem - pelo menos comigo - feito quanto de bem tem podido. A
minha viagem para cá passou-se sem escarro e sem agressão.

Um facto curioso é que fui entregue a uma escolta forte; e quando essa escolta podia começar
a ser precisa para minha defesa mandaram-na embora!! Não tinha lugar no automóvel!!!
Afinal tudo correu bem apesar de o polícia a quem fui entregue dizer que isto cá estava pior
que nunca.



95
No Porto anda tudo muito mais direito, ao que parece. Não consentiram aos grupos civis que
fizessem prisões e têm conseguido disciplinar aquilo.

Mas por cá parece que não acontece o mesmo.

Eu, por mim, o pouco que pude ver não é para dizer agora.

Mandei pedir à Tana [Constança Telles da Gama] que me mandasse de comer, mas antes
mesmo de ela receber a carta já me tinha mandado uma condessinha com comida e café
quente, por sinal que com pouco açúcar.

E agora até amanhã, em que torno a escrever para Vigo para de lá mandarem outra carta
minha à Teresa. Coragem e creia-me...



Esta piedosa e triste mentira de me mandar cartas em que fingia encontrar-se em Espanha
para me ocultar a terrível verdade, confessou-me ele depois ser a coisa que mais lhe tinha
custado. Mas a minha prostração e fraqueza eram tais - pois a doença ainda estava no seu
auge - que o médico entendeu, e todos concordaram, que eu não estava em estado de
suportar um tão grande choque. E na verdade foi fácil fazer-me acreditar nela, pois confiada
nas declarações tantas vezes repetidas do Fernando, não me passava pela cabeça que elas não
fossem verdadeiras. Além disso, não estando em estado de ler cartas nem jornais, ignorava
completamente o que se tinha passado no país. As cartas dele nada diziam, dando apenas a
impressão de que, por qualquer motivo, tinha de estar escondido. Transcrevo uma:



Minha querida - A situação para mim continua na mesma. O meu hospedeiro não quer que se
saiba que me tem em casa. A casa continua vigiada pelos republicanos daqui. Não sei quanto
tempo isto vai durar. O pior é que ele desconfia dos correios e, com toda a razão, e obrigou-me
a prometer que escreveria o menos possível e não receberia cartas.

Nestas condições não estranhes que pouco escreva. As saudades são as maiores...



Quem se não deixaria enganar por uma carta destas?! E ele, coitado, tão pouco afeito à
mentira, compreende-se bem quanto lhe custaria prestar-se a esta dissimulação. Minha mãe
também sofria por ter de me estar a enganar a cada momento. Entre eles trocavam uma
correspondência activa, na qual o Fernando continuava mostrando a sua grandeza de alma e
minha mãe a admiração que ela lhe causava. Essa admiração, de resto, era geral. Todos a
manifestavam,



96
quer afluindo à Penitenciária para mostrar a sua simpatia, quer escrevendo a minha mãe
cartas de que ela lhe transcrevia trechos:

A minha prima Eugénia de Mello [mulher do João da Câmara] diz-me: - Não imaginas o
entusiasmo com que falamos do teu genro, de resto não ouvimos senão elogios dele... Há um
grande amigo seu, que é republicano, que me disse uma vez que eu me lamentava por o
Fernando ter sido ferozmente condenado: - Não se aflija, Senhora Condessa, o Fernando tem
bons amigos...

Não imagina a infinidade de cartas que tenho recebido, até de pessoas que nunca tiveram
correspondência comigo, e como todos falam de si.

Já ninguém o tira de uma formosa e honrosa página da nossa história pátria, que tantas dessas
teve em outros tempos!...

Noutra carta diz:



A Amália recebeu carta do marido, Visconde de Pindela, em que lhe diz que na véspera tinha
estado no Porto a visitar o Moreira de Almeida e que diz mais: - Vi ontem no Porto o nome que
ali deixou o Fernando. Todos falam com respeito dele, louvando a sua coragem e nobreza. No
Aljube deu nome, assombrando a todos. Pois é raro e parece que difícil.

Tive uma carta de Braga da Viscondessa de Paço de Nespereira que, como sabe, é Bertiandos,
irmã do Conde. - É admirável a coragem do teu genro. Homens dessa envergadura moral têm a
admiração do mundo inteiro.

A Marquesa (de Rio Maior) diz: - Fui ver o Fernando e venho dizer-te que o acho muito bem-
disposto, com bom parecer e com a sua nobre alma e nobre carácter, consolando todas as
pessoas amigas por verem que ainda há portugueses de lei...



Muita gente chorou ao ler nos jornais a descrição comovente da sua entrada na Penitenciária;
por exemplo, quando o despojaram dos objectos de oiro que trazia, o que ele pediu que lhe
deixassem, ao menos, a aliança de casamento... Este pedido não pôde ser satisfeito por ser
contra o regulamento.

Os pais dele achavam-se em Mangualde, sendo por essa razão que nos primeiros dias a
Constança se encarregou de lhe fornecer a comida. Já a mandava ao João de Almeida, e não
sei se a outros presos,

com uma dedicação incansável. Imediatamente incluiu o Fernando no número dos seus
presos, como ela lhes chamava.
97



O que essa mulher foi de maternal, de dedicada, de compreensiva para com aqueles infelizes,
não há palavras que o descrevam. Tinha pequenas lembranças que só podem ocorrer a um
coração de

mulher - e de mulher inteligente; uma vez era um ramo de violetas, outra um lenço
perfumado, livros, revistas, cartas para paciências, de nada se esquecia que pudesse dar gosto
e fazer esquecer as longas ho

ras de cativeiro. Vou transcrever o primeiro bilhete que ela escreveu ao Fernando assim que
soube da sua entrada na Penitenciária:



Não sei se a Teresa está em Lisboa. Mande-me dizer se lhe posso ser útil em alguma coisa. Vou
mandar-lhe uns livros e qualquer coisa de comer. Desculpe, mas não posso pensar que esteja
sem saber a quem se há-de dirigir.

Cruzando-se com este bilhete escreveu-lhe ele esta carta:



Penitenciária, 30 de Outubro de 1913

Exma. Prima e Senhora

Sei que é V. Exa. quem manda o almoço e o jantar ao João Lavradio. Eu ainda cá não tenho
pessoa nenhuma de família. Importar-se-ia, ou custar-lhe-ia muito fazer com que eu recebesse
as minhas refeições pelo mesmo portador e ao mesmo tempo seria tão amável que
substituísse a família enquanto esta não chega?

Entrei ontem à noite. Apesar de todo este horror ainda não perdi o ânimo.

Com os meus antecipados agradecimentos, rogo-lhe me creia, com a maior consideração e
amizade, etc.



A esta carta respondeu ela com a seguinte:



Esta manhã escrevi-lhe em grande ignorância. Mandei-lhe umas coizinhas de comer por me ter
lembrado que não tivesse ainda quem tratasse das suas coisas, mas receando que ainda não
tivesse licença para receber comida de fora. Por isso foi muito mal servido; nem talheres, nem
açúcar. Vou agora tratar disso mais a fundo e espero que ainda hoje possa entrar alguma coisa.
As entradas são às 11 e meia e 5 e meia. Ao João de Almeida mando só uma vez ao dia de
comer. Às 11 e meia. Come quente a essa hora e guarda para a noite qualquer coisa fria. De
manhã tem réchaud onde aquece chá. Enquanto não receber mais indicações suas vou
fazendo como para ele



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e espero que com a maior franqueza me mande dizer tudo incondicionalmente em que lhe
posso ser útil. Só me dará o maior gosto.

Como talvez saiba eu só sirvo para tratar dos presos e de tal modo os adoptei que lhes chamo
incondicionalmente os meus presos. O Primo Fernando é hoje um dos meus presos e portanto
tenho direito de lhe pedir que me deixe ocupar-me das suas coisas, não é assim?

Escrevi à Teresa e também lhe mandei telegrama para a sossegar.

Espero muito que o ânimo de que me fala continue a aumentar. Quanto mais se tem mais
aumenta. Tenho visto isso na minha experiência de presos de há 2 anos! É preciso ocupar-se e
não pensar no dia de amanhã.

Basta coragem para a hora actual. Olhe que eu também por oito meses já fui uma prisioneira e
nunca me durou o tempo. Tenho às vezes saudades do Aljube, porque tive lá ocasião de
aprender muita coisa que cá fora não aprenderia.

Os cestos ou latas que receber, porá fora da cela para voltarem. Basta virem com o mesmo
número (o seu) com que vão daqui. A respeito de roupa, o J. de Almeida pode usar roupa de
baixo dele e manda-a para fora para se lavar, encarregando-se os criados que aí mando de a
trazer. Eu mando aí todos os dias dois ou três criados; eles trazem tudo. Dou-lhes agora ordem
de tomar conta em tudo quanto tiver o n.o 164, que julgo ser o seu. O Primo assim terá
facilidade em obter o que precisa.

Mando-lhe umas ilustrações. De tudo o que for nos cestos, como talheres, louças,
guardanapos, etc. guardará aí de um dia para o outro o que lhe fizer conta.

Parece-me que se mandar pedir ao Director licença para tirar da sua mala alguma roupa de
baixo que lha concederá. E essa como lhe explico manda-a para fora num embrulho com o seu
número, quando quiser que seja lavada.

Adeus meu querido Primo, espero todas as indicações que me quiser dar e farei o possível por
lhe substituir os seus no que puder ser. Pode crer que em nada me incomoda, antes pelo
contrário.
P.ma mt. amiga



Constança Telles da Gama



Como todas as coisas são revistadas à entrada chegam às vezes à cela em grande desordem,
infelizmente.



Prolongou-se esta situação até o dia 4 de Novembro em que, estando a Cândida de volta em
Lisboa, e daí a pouco a mãe, passaram a mandar-lhe a comida de casa. Não deixou, contudo, a
Constança de

continuar a interessar-se por ele e de o visitar a miúdo, correspondendo ele a essa dedicação
com um respeito, amizade e gratidão nunca ultrapassadas.



99




Mais tarde teve ela novamente ocasião de mostrar o seu interesse, arrancando-o de outra
prisão, como a seu tempo contarei.

A mim escreveu-me a seguinte carta:



Não sei de todo onde estás mas dirijo para aí [Mateus] estas linhas em que te quero dizer que
muito penso em ti e que tenho o maior desejo de te poder ser útil no que for possível.

O teu marido hoje é um dos meus presos por quem como sabes tenho tido tanto interesse; por
isso não pude deixar de pensar nele com o coração oprimido, desde que entrou na
Penitenciária.

Ainda não tive tempo de saber em que condições está e imagino que terá em Lisboa quem
trate de tudo, mas eu tenho, infelizmente, tanta experiência destas tristes coisas que hoje lhe
mandei alguma coisa de comer: presunto, uns pastéis de peixe, bolachas, uma garrafa de chá
verde quente e uns livros. Ainda não sei se poderia entrar pois o criado ainda não voltou, mas
nos primeiros dias é sempre difícil o acesso, embora eu já conheça todos os meios... Os
primeiros dias são os piores mas depois espero que ele conserve a sua atitude firme e digna
que é onde se encontra maior coragem. Já tenho reparado que o preso que uma vez se deixou
ir ao desânimo recupera mais dificilmente a resignação que o que se soube manter sempre de
pé... Foi com comoção que tentei mandar ao lado do almoço do João de Almeida um cestinho
para o teu marido. Logo saberei se ele já tem quem tome conta e onde tu estás. Não me
respondas se em nada te posso ser útil mas do contrário peço-te o faças depressa.



Esta carta ficou realmente sem resposta. Como sucedeu a todas as que então me foram
dirigidas, só mais tarde me foi entregue. Minha mãe é que as abria e lhes respondia. Eu
continuava na mais completa ignorância sobre a triste situação do Fernando. Em princípios de
Novembro começou a convalescença, mas a minha fraqueza era tal que resolveram nada me
dizer até que eu estivesse bastante bem para me pôr a caminho de Lisboa, poupando-me
assim a tortura de querer ir e não poder. Como minha mãe não

sentisse coragem suficiente para me dar uma tão dolorosa notícia, encarregou-se dessa triste
missão minha tia, Viscondessa de Pindela,

que partiu para esse fim para Mateus, onde chegou pelos meados de Novembro;



100




não estranhei a sua visita, plenamente justificada pela sua amizade por nós e pelo estado
melindroso de minha saúde. Ela aliava a uma grande bondade uma grande inteligência, e
soube dar-me a notícia com a maior suavidade possível, não podendo, contudo, amortecer o
grande choque que ela me causou. Embora tivesse já havia tempos a intuição de que me
estavam escondendo qualquer coisa - pois notava um certo retraímento sempre que se falava
no Fernando - estava a cem léguas de suspeitar a verdade.

No princípio não queria acreditar; sentia como se me tivessem batido com um martelo na
cabeça. Só me convenci verdadeiramente quando me deram as suas cartas para minha mãe e
os artigos dos jornais que a ele se referiam. Então, ao mesmo tempo que se abriam na minha
frente abismos de dolorosa incerteza quanto ao seu futuro - pois estava condenado a 28 anos
de prisão maior celular - surgia no meu espírito o orgulho de o ver tão digno e altivo no meio
daquela provação, o que me obrigava também a enfrentá-la com a mesma coragem. E acima
de tudo me animava a certeza de que brevemente o iria ver.

A cruel notícia foi-me dada no dia 28 de Novembro e dois ou três dias depois pusemo-nos a
caminho. Passámos a noite no Porto e seguimos para Lisboa no rápido da manhã, creio que do
dia 1 de Dezembro.

Estava autorizada a minha visita logo que chegasse a Lisboa; segui, pois, directamente com
minha mãe da estação para a Penitenciária. Ao transpor aqueles sinistros portões senti
apertar-se-me o coração, mas maior aperto senti ainda quando vi aparecer o Fernando vestido
com o horrível fato de presidiário, de chinelos nos pés - pois era proibido aos presos andarem
calçados! - e com o número estampado nas costas. Era o estigma de penitenciário em toda a
sua revoltante hediondez.

Não pude conter as lágrimas. Mas ele, com uma serenidade admirável, disse-me: "Não chores;
olha que há três maneiras de sair daqui: uma é pela revolução, outra pela fuga e a terceira pela
amnistia". E o certo é que estas palavras me animaram.

Esta visita representou um grande favor do director por se realizar num gabinete, embora com
a assistência de um guarda, quando o costume era ser através das grades, e por ser fora das
horas e dos dias regulamentares.



101




Coincidiu com a minha chegada a abolição de vários usos impostos pelo regulamento que
equiparava aos presos comuns os políticos, cujo único crime era ter um ideal diferente do dos
seus carcereiros.

Já antes da entrada do Fernando o Afonso Costa abolira para todos, políticos e não políticos, o
odioso capuz que tapava a cara, e fizeram dessa medida humanitária uma cena espectacular e
grotesca que em nada prestigiou a república, obrigando os presos a descobrirem a cara ao
toque de um apito!

Acabaram depois para os presos políticos com o tal fato vexatório; passaram a vestir-se como
queriam; e acabou o seu isolamento, juntando-os numa ala - a ala C - onde podiam passear e
conviver uns com os outros. As visitas realizavam-se nas próprias celas, onde se podia
conversar com eles à vontade. Suavizou-se assim bastante a sua situação. Mas não se julgue
que esta modificação obedecesse apenas a um impulso humanitário. Lá fora fazia péssima
impressão a forma como os presos políticos eram tratados e a Inglaterra, sobretudo, insinuava
ao governo português que veria com bons olhos a sua modificação.

Poucos dias depois da minha chegada adoeci novamente, receando-se uma recaída da mesma
doença de que acabava de sair, o que me obrigou a interromper por quinze dias as minhas
visitas à Penitenciária. Estas eram às terças e às sextas e eu costumava levar os pequenos a ver
o pai, um de cada vez. A primeira visita da Maria Rita deu origem a um dito dela tão adorável,
que não posso deixar de o contar. Essa visita fizera-lhe, como é natural, muita impressão. Na
manhã seguinte, depois de ter estado muito tempo silenciosa, como que a pensar, disse-me:
"Ó mãe! quando o mim for grande, se for muito bom, muito bom, assim tão bom como o pai,
também pode ir para a Penitenciária?" Na sua lógica infantil, visto o pai ser tão bom, a sua
estada na Penitenciária não podia ser senão o prémio da sua virtude. Da boca das crianças sai
a verdade!
Contei este dito na minha primeira visita; correu mundo, e até foi publicado pelo Severino de
Azevedo na Época, na secção "À janela", mas um pouco deturpado, o que lhe tirou em parte a
graça. Nesta versão a pequena estava ao pé do irmão que estudava, mas se distraía;



102




ela então dizia-lhe: "Estude, mano, estude, para quando for grande ir para a Penitenciária
como o Pai."

Em Dezembro passaram os presos, como disse, a ocupar a ala C, que tinha três pavimentos
ligados por escadas de ferro, não lhes sendo permitido conviver senão com os que estavam no
mesmo pavimento. A cela do Fernando era no rés-do-chão e ali estavam também as do João
de Almeida, José Mascarenhas (mais tarde Conde da Torre), os dois Ficalhos, Peres e
Laurentino Pereira. As celas abriam para uma grande galeria onde podiam passear à vontade,
assim como as suas visitas.

Sobre estas nenhuma vigilância, apenas um portão de grades que se fechava depois de
entrarem e só se tornava a abrir no momento da saída.

No dia de Natal foi concedida licença para as famílias almoçarem com os presos, e o mesmo
sucedeu no dia 1 de Janeiro. Esse dia tristemente assinalado pela morte repentina e
inesperada da minha sogra.

Na véspera fora dia de visita e ela lá estivera sem que nada fizesse prever o seu próximo fim. A
sua saúde era precária há muito tempo e naquele dia talvez a sua palidez fosse mais
acentuada. À noite esteve preparando um cesto com bolos para mandar no dia seguinte de
manhã, para festejar o dia de Ano Bom. Em seguida foi-se deitar e sentiu então uma grande
aflição que a matou em poucos minutos. Era 1 hora da noite.

De manhã, assim que foi permitida a entrada na Penitenciária, apareceram lá os dois
cunhados, João e Maurício, e o Dr. Sacadura, que se incumbiram da dolorosa missão de ir
anunciar a um filho a morte de sua mãe.

As circunstâncias em que ela se dava aumentavam ainda o seu horror. O que se passou é fácil
de calcular! Eu só de manhã fui prevenida do triste acontecimento e só mais tarde lá pude
aparecer. Fizeram-se as maiores diligências para que o pobre filho pudesse ao menos ir dar o
último beijo à sua mãe, mas não lhe consentiram essa triste consolação. Nem essa amargura
lhe foi poupada!

Não se pode calcular a impressão que este triste episódio causou em todas as pessoas que
conheciam o Fernando e que,
103




todas lhe quiseram mostrar a sua simpatia, afluindo à Penitenciária. Também recebeu
inúmeras cartas, das quais destaco as que lhe foram dirigidas pelo Senhor D. Manuel e pela
Senhora Dona Amélia:




Sigmariergen, Janeiro 1914



Meu querido Fernando



É bem do fundo da alma que lhe venho dizer que tanto a Rainha como eu o acompanhamos no
seu grande desgosto. Sei infelizmente o que é perder entes queridos, meu amigo, mas agora
preso, por ter com tanta lealdade e dedicação cumprido o seu dever, ainda a dor é mais forte!

Aceite pois querido Fernando os pêsamos que lhe mandamos ainda mais sentidos neste
momento, pois acabamos também de sofrer um grande desgosto; a morte da nossa querida
Avó a Infanta Dona Antónia, última Princesa da minha Família! Que Deus lhe dê força e
coragem meu querido Fernando! É um amigo que muito sofreu que lho diz; quem muito sofreu
compreende melhor a dor dos outros, sobretudo a dos amigos! - Peço-lhe para transmitir as
minhas condolências a todos os seus e creia sempre na grata amizade do seu Rei que
continuará sempre trabalhando pelo nosso Portugal.



Manuel R.



Da Rainha:



6-1-14



Meu querido Fernando
Nem lhe sei dizer tudo o que senti ao saber que inconsolável desgosto tão cruelmente o veio
ferir! Mas deve saber quanto o meu coração se associa profundamente à sua dor, ao seu
desespero de não poder - e por nossa causa - ter, ao menos, a consolação de receber a última
bênção de sua Mãe; de não acompanhar o seu Pai e Irmãos, de não poder chorar e rezar por
eles. - É tão duro, e tenho tanta pena de tudo o que tem sofrido, e está sofrendo!

Telegrafei ao seu Pai, tenho a certeza que telegrama directo meu, não chegaria a Você; e
esperei a ocasião que agora se me apresenta de lhe poder mandar a si, e à sua mulher, a
expressão da minha mais profunda, mais calorosa simpatia.

Em tudo que Deus o ajude, meu querido Fernando, de tudo Ele o há-de recompensar.



Creia-me sempre Sua muito afeiçoada Amélia.



104




Já antes, logo que teve conhecimento da sua prisão, a Rainha lhe escrevera a seguinte carta:



Abercorn, 19-XI-13



Meu querido Fernando:

Enfim tenho esperança de lhe fazer chegar directamente a expressão da minha gratidão, e
mais ardente simpatia, e também da pena que me enche o coração. A tudo isto nem lhe sei
dizer a que ponto é profundo. Ao mesmo tempo consola e custa tanto!

Tão valente, tão dedicado, se mostrou; deu o exemplo de tanta lealdade e abnegação, para
consolar de tantas tristezas, desilusões e amarguras, mas pensar que tão duramente está
sofrendo por nós! E não podermos nada senão acompanhá-lo de longe! Custa muito.

É constantemente lembrado aqui entre nós. Já escrevi a sua mulher, mas recomendando que a
carta não fosse entregue antes de ela saber da sua prisão.

Meu querido Fernando, sei que está cheio de coragem, de ânimo, de esperança. Que Deus o
ajude, e nos ajude a nós todos. Creia-me sempre

Sua muito afeiçoada Amélia.
A esta carta respondeu o Fernando:



Minha Senhora

Não tivesse Vossa Majestade ganho já em mim uma dedicação, e a carta de que só agora tive
conhecimento me tornaria isso um dever. ! Foi extremamente honrosa para mim a carta que
Vossa Majestade

se dignou dirigir-me, não só por partir da minha Rainha, por quem me é dever e prazer arriscar
a vida, como por partir - consinta-me Vossa Majestade que o diga - de uma Senhora cujo
carácter que conheço nobre e levantado dá um envaidecedor relevo às expressões de louvor. i:
Tais elogios vindos de tão alto e de tal alma são a recompensa mais

que suficiente de uma vida inteira.

Como agradecimento, minha Senhora, só devo pedir a Deus que me prolongue a vida e,
durante ela, me faça merecedor do prémio que Vossa Majestade tão bondosa e graciosamente
me concedeu com tão insigne honra. Digne-se Vossa Majestade crer no respeito, no Amor e na
abdicação de quem tem a honra de se subscrever.

Humilde súbdito muito grato

C. de M. F. d.



Penitenciária 6 de Dezembro de 1913



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A carta que a Rainha me escreveu foi esta:



4-XI-13



Abercorn House Richmond Hill, Surrey



Minha querida Teresa
Nem lhe sei dizer quanto penso em si, quanto o meu coração se associa a todos os seus
sentimentos - cheio de gratidão para quem tão valentemente se dedicou, de angústia, de
pena, de revolta de o ver caído em tais mãos! Deus o há-de proteger, tenho Fé e confiança.

E, no meio de tantas tristezas e amarguras, que consolação o exemplo daqueles que tudo
sacrificaram às suas crenças, às suas convicções, à palavra dada.

Minha querida Teresa, muito lhe pedia que falasse de mim aos seus Pais, aos seus sogros, e
cunhados, que lhes dissesse a minha ardente simpatia. E mais lhe peço para dar um beijo aos
seus Filhos.

E creia-me sempre

Sua m.to afeiçoada

Amélia.



A minha resposta:



Minha Senhora



De todas as provas de simpatia e interesse que tenho recebido neste doloroso momento,
nenhuma foi tão consoladora para o meu coração como a carta que Vossa Majestade se
dignou dirigir-me. É essa a melhor recompensa que podem ambicionar os que tudo
sacrificaram pelo seu Ideal.

Graças a Deus o Fernando vai suportando melhor do que se poderia esperar a sua triste
situação, sendo ele quem incute aos outros o ânimo e a coragem que nunca o abandonam. A
consciência do dever cumprido dá-lhe força para sofrer todas as provações, e vê-lo assim
sempre sereno e corajoso é a minha maior consolação no meio de tanta tristeza.

Meus pais, meus sogros e meus cunhados agradecem reconhecidíssimos a parte que Vossa
Majestade toma no seu desgosto. Os meus filhos, coitadinhos, há tanto tempo privados do seu
Pai, não têm ainda idade para sentirem a desgraça que os feriu, e só mais tarde sentirão que o
que agora me custa tantas lágrimas será para eles uma glória.

Permita-me Vossa Majestade que lhe beije a mão com o mais profundo respeito e eterna
gratidão...



106
Ainda outra carta de El-Rei para o Fernando:



Fulwell Park, Twichenham,

Middlessex



Fev. 1914



Meu querido Fernando

Recebi há bem poucos dias uma mensagem dos presos políticos da Penitenciária de Lisboa
datada de 25 de Dezembro! - Quis escrever eu mesmo, mas uma dolorosa infecção na mão
direita impediu-me de o fazer imediatamente como era meu íntimo desejo. Queira pois, em
meu nome, no de S. M. Rainha e no de S. M. a Rainha Dona Amélia, agradecer a todos as
palavras de tão leal dedicação e dizer-lhes que sempre e a cada instante o meu pensamento de
Português, de Rei e de amigo está junto deles que tanto têm sofrido por mim e pela nossa
santa causa, que um dia, que não está longe, em Deus confiado, há-de vencer e dar
novamente a Portugal a glória dos tempos passados. Com um abraço que a todos envio

Creia-me sempre meu querido Fernando um seu muito amigo Manuel R.




À medida que o tempo ia correndo, iam tomando maior consistência os boatos de uma
próxima amnistia. Exigia-a a opinião pública, tanto dentro como fora do país; os jornais
referiam-se-lhe abertamente, e constava que a Inglaterra fazia pressão nesse sentido. Era
absurdo pensar que os presos políticos teriam de cumprir os longos anos de prisão a que
estavam condenados! Acabou, realmente, por ser concedida e por ser marcado o dia 23 de
Fevereiro para a sua realização. Grande emoção nas famílias dos presos! Era um domingo.

Nesse dia pôs-se de parte o regulamento, abriram-se as portas mais cedo e não tardou que a
Ala C se enchesse literalmente de parentes e amigos ansiosos por levarem consigo os entes
queridos há tanto tempo sequestrados.

A alegria reflectia-se em todos os rostos e a sua expansão ressoava naquelas abóbadas onde
costumava reinar o silêncio. Entraram os cestos dos almoços, mas em casa havia sido dito que
não mandassem os jantares... por já não serem precisos. Em cada lar se poria mais um talher
para o querido ausente finalmente restituído aos seus.
107




Mas... as horas iam passando e as malditas portas não se abriam. Começou a esmorecer o
entusiasmo, começou a reinar uma certa inquietação. Não sairiam, afinal, os presos naquele
dia? Foram algumas pessoas falar com o director; este respondia com evasivas: estava à
espera de ordens, não podia soltar os presos sem ordem...

E o tempo a passar... Começou a escurecer... Era preciso pensar em mandar vir os jantares,
afinal. Que tristeza! O que teria sucedido? Nove horas da noite!... Então o director mandou
dizer aos visitantes que se retirassem porque os presos já não saíam naquela noite. Na maior
desconsolação começámos a sair. Voltei tristemente para casa.

Tínhamos acabado de jantar quando senti parar uma carruagem à porta. Era o Fernando
acompanhado pelo Fernando Brederode. Abraçámo-nos com alegria e tive então a explicação
do mistério. Os republicanos, receando manifestações, talvez hostis, à saída dos presos,
tinham resolvido que esta se realizasse de noite e o mais secretamente possível. Por isso
tinham também procurado afastar as famílias. A intenção seria boa, mas o certo é que, saindo
os presos sós, sem protecção, mais expostos estariam a qualquer enxovalho. Felizmente houve
quem desconfiasse e alguns poucos esperaram na rua, de forma que, quando se abriram os
portões e os presos começaram a sair, viram-se logo rodeados de amigos prontos a defendê-
los contra quaisquer perigos. A rua estava deserta, não se via a sombra de um vulto suspeito,
pelo que os presos puderam seguir sossegadamente para suas casas. Enterneceu-me a
dedicação do Fernando Brederode que, depois de ter passado o dia na Penitenciária com o
Fernando, estava entre os que à noite esperavam a saída dos presos e o acompanhou a casa.

Embora republicano, era seu amigo e bem o provou naquele dia, dizendo-lhe ainda que o seu
lugar na direcção da Companhia A Nacional lhe estava reservado e que poderia voltar a ocupá-
lo. Deu naquele momento uma prova de independência de carácter que honra a sua memória.
Assim tivesse procedido sempre, o que infelizmente não sucedeu!

Depois de passados uns dias necessários para refazer o corpo e o espírito do desconforto físico
e moral em que tinha vivido durante aqueles quatro meses de encarceramento, o Fernando
resolveu ir a Londres falar a El-Rei. Partiu a 27 de Março, no vapor Oesendo da Mala Real
Inglesa.



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Escreveu-me de bordo no dia seguinte:
Minha querida,



Ontem à noite devia ter havido umfog terrível porque o apito esteve a tocar de minuto a
minuto, o que me impediu de dormir bem. Pouca gente. Ao todo duas caras bonitas. Tudo
inglês com excepção do médico espanhol cujo espírito pude apreciar pela frase dita ao almoço
quando lhe serviram o vinho quase no fim: "Tarde vino el vino, pêro viene bien."

Com ofog da noite não sei quantas horas atrasámos. Devíamos chegar às 3 a Vigo, sem ofog.
Também o comandante pensava chegar às 10 da noite a Liverpool.

Que pena que não tivesses vindo!!

Como vês estou óptimo. Beija muito os amores e que eles te beijem a ti por mim...



A 30 escreve ainda de bordo:



Dizem uns que chegamos hoje às 6, outros que à meia-noite e só podemos desembarcar
amanhã. A bordo a mesma sensaboria dos outros dias. Parece que vem preso a bordo um
português que matou a mulher. Era um passageiro da 1.a classe e dizem-me que se chama
Alberto de Oliveira Coelho. Parece que a morte teve lugar na viagem deste vapor para a
Argentina e pouco tempo depois de deixar Lisboa.

No Rio quiseram entregar o homem mas não o quiseram lá e à volta tiveram que o embarcar
outra vez e cá vai para ser julgado em Inglaterra. Contam que a morta levava o amante em 3.a
classe. Há quem defenda o assassino. Não o vi e julgo que o não conheço.

Aqui só falo com um belga que é empregado de uma casa comercial de Liverpool e já deu não
sei quantas voltas ao mundo.

De Vigo telegrafei ao Salvador a avisar a minha ida. Agora de Liverpool torno a telegrafar
dizendo que me demoro um dia em Stafford. Só venho a chegar a Londres depois de amanhã,
talvez à noite...



Em Stafford, em Saint-Joseph's Convent, estava minha irmã e ele

ia visitá-la na passagem. No dia 31 recebi um telegrama dizendo: "Well

arrived". A seguir encontro apenas uma carta sem data escrita durante

a travessia Dover-Calais, já em viagem de volta, que foi por Paris:



Minha querida,
Não tenho tido ocasião de te escrever e estou agora aproveitando a travessia Dover-Calais
com o barco gingando extraordinariamente... Fui almoçar no sábado a Fulwell Park e no dia
seguinte a Abercorn.



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No

primeiro destes sítios não vi a dona da casa [Rainha Augusta Vitória] que estava de cama. Já na
véspera estava e no dia seguinte. Disse o dono que estava constipada. Tive depois uma
conversa com o dono da casa, que foi amabilíssimo comigo. No sábado os convivas eram o
Alfredo de Castro, o Kurausch (antigo preceptor dos Príncipes) e a Isabel Ponte (antiga dama
dos príncipes) que parece que está ensinando português à dona da casa.

No domingo só almoçou mais o José [Conde das Gálveas] em casa de quem joguei o brídege
com os parceiros do costume.

Comprei imensas coisas para ti. Vamos a ver os direitos que pago...

Realmente o mar está péssimo e vou-me deitar.



Anteriormente a esta carta, no dia 7 de Abril, recebi o seguinte telegrama: "Leaving for Paris
Hotel Wagram." E depois, ali, outro datado de Paris: "Parto St. Jean de Luz", no dia 17, por fim,
recebi outro de S. Jean de Luz dizendo: "Sigo amanhã para Mangualde.



Era o fim da viagem. Tínhamos combinado que eu iria esperá-lo a Mangualde e assim fiz,
levando comigo a Maria Rita.

Demorámo-nos lá uns dias.

De volta em Lisboa, o Fernando levou uma vida calma e em Maio retomou o seu lugar na
direcção de A Nacional, conforme o que lhe anunciara o Fernando Brederode.

Mas a atmosfera da capital estava longe de ser calma; ferviam os boatos. Por esse motivo, o
Fernando desejava ver-nos fora de lá e celebrando-se no dia 23 de Maio, em Pindela, as bodas
de prata de meus tios, aproveitámos o ensejo para lá ir passar um tempo, minha mãe, eu e os
pequenos, indo o Fernando mais tarde ter connosco, creio que a 2 de Junho. Os boatos não se
confirmaram e creio que voltámos para Lisboa, partindo no verão para Mateus. Mas o
Fernando pouco se demorou lá, partindo no dia 3 de Setembro para o Porto em serviço da
Companhia, pois estava encarregado de procurar lá casa para a sucursal da mesma. De lá me
escreveu a 5.

Rebentara a chamada Grande Guerra em princípios de Agosto e na carta que lhe escrevi a 6 de
Setembro dizia-lhe:



Viste nos jornais a notícia da mobilização de 60 mil homens para irem para França? Que
grande disparate, a não ser que seja exigência da Inglaterra. Nesse caso, talvez pelo tratado
não haja remédio senão ajudá-la, mas é muito possível que seja só fanfarronice do Bernardino.



110




O que tens ouvido a este respeito?...



A 15 escreve-me ele:



Imagina que na Granja encontrei o marido da Maria Antónia Magalhães [Conde de Santa Cruz
de los Manoeles, espanhol] que ali tinha ido visitar o Adriano Lencastre e que, segundo me
disse, tinha deixado a mulher no Hotel Central aqui de Lisboa.

Jantaram juntos e o Adriano depois mostrou-se-me muito admirado da visita, pois não o via
havia 8 anos e nunca tinham sido íntimos. Deu-lhe no goto que durante o jantar que o Manolo
quis que fosse só entre os dois, não lhe falasse senão na guarnição militar do Porto, fazendo
perguntas sobre perguntas.

Ele bem lhe respondia que era paisano e que nada sabia, o outro insistia sempre!

Ora o Manolo, depois que voltou da guerra de Marrocos, foi feito camarista do Rei!

Fez-me muita impressão o caso e comecei a pensar na hipótese do perigo espanhol e a ser de
opinião que esse perigo só desaparecerá com a derrota alemã, pois quem se opõe à invasão é
a Inglaterra que se se vir muito embrulhada na guerra não poderá efectivar o impedimento à
ambição dos nossos vizinhos.

Entendo que só depois da derrota alemã, ou sua proximidade, é que se pode pensar em
política [monárquica]. Mas nem todos pensam assim e não me julgo com autoridade nem
quero impor a minha opinião a ninguém.

Guarda isto tudo para ti e só para ti. Para ti e para tua mãe, pedindo-Lhe toda a reserva...
No mesmo dia escrevia-lhe eu:



... A notícia de sensação que os jornais trouxeram hoje é a do incêndio do teatro Dona Amélia.

Se não é castigo, parece-o. Tenho saudades daquele teatro, lembrando-me das muitas noites
agradáveis que lá passei, mas agora que ele tinha aderido indecentemente, já pouca falta faz...
[este teatro, logo que caiu a monarquia, tomou o nome de Teatro da República. É hoje o São
Luís].



E a 13:



O que tu me contas do Juanito - que tu chamas Manolo - é muito esquisito, mas admira-me
que sendo ele esperto fizesse tão mal as coisas...



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Também penso como tu sobre o perigo espanhol, e já ouvi dizer que se a Alemanha vencesse,
daria Gibraltar e Portugal à Espanha, reservando para si Lisboa, a Madeira e os Açores, sem
falar nas colónias. Felizmente parece que esse perigo está afastado, se são verdadeiras as
notícias que têm vindo agora sobre a guerra. Deus o queira!



Apesar do que o Fernando me dizia sobre política monárquica, havia realmente outra
revolução na forja. A 7 de Outubro estava ele de volta em Mateus, onde o Luís Estarreja
também apareceu. Eu nada sabia, tomando a visita do Luís como uma simples visita de
amizade. Numa noite escura do mês de Outubro, marcada para o deflagrar do movimento,
foram os dois para a Timpeira esperar o sinal combinado para o Fernando tomar conta do
Quartel de Infantaria 13, que devia abrir as suas portas aos revolucionários.

Em volta do quartel estavam postados vigias encarregados de o prevenir logo que esse facto se
desse; o oficial-de-dia tinha tomado esse compromisso, mas à última hora faltou-lhe a
coragem. Nada, pois, se passou. Ao raiar da aurora, vendo que nada mais havia a fazer,
voltaram para casa. A única pessoa que estava no segredo era meu irmão, que esperou para
lhes abrir a porta. A mim tinha sido fácil esconderem-me os factos porque, estando um dos
pequenos doente, tinha ido dormir para o meu quarto e o Fernando passou para outro. Só no
dia seguinte fui informada do que se passara; fiquei aterrada, esperando, contudo, que o
segredo tivesse sido tão bem guardado que nada transpirasse por fora. Esperança baldada!



112




Cabeço de Bola.




Passados poucos dias estávamos a jantar quando a criada veio prevenir o Fernando da visita
do administrador do concelho, que perguntava por ele. Levantou-se imediatamente e foi
recebê-lo à sala. O homem disse-lhe que estava encarregado pelo governador civil de o levar
consigo para Vila Real. A isto o Fernando respondeu que iria no dia seguinte, mas naquele dia
não, porque já era noite. Por mais que o outro insistisse, nunca obteve outra resposta,
acabando por se ir embora sem nada conseguir. Mas o Fernando ficou convencido de que mais
tarde ou mais cedo voltariam para buscá-lo, no que se não enganou.

Mandou pôr uma manta e uma almofada num esconderijo que existe no escritório de baixo,
para o caso de fazerem uma busca à casa, e esperou. Fecharam-se todas as portas. Meu irmão
saiu para ir a casa do José Mourão, secretário-geral do governo civil e grande amigo nosso,
contar-lhe o sucedido. Passou-se uma hora na expectativa. Nessa altura saí da sala para ir ao
quarto dos pequenos e ao passar no corredor vi pela janela os faróis de um automóvel que
chegava ao terreiro. Voltei a correr para o escritório e disse ao Fernando: "Lá estão eles!" Ele
imediatamente desceu e foi-se meter no tal esconderijo.

Entretanto batiam com força à porta pequena que dá para o pátio, e uma criada abriu uma
janela do primeiro andar perguntando o que queriam. Respondeu uma voz: "Abram que é o Sr.
Governador Civil. Se não abrirem, arromba-se a porta."

A criada foi perguntar à minha mãe o que devia fazer e ela mandou abrir a porta e introduzir o
governador civil no escritório.



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Entrou, acompanhado do administrador do concelho. Minha mãe recebeu-o de pé no meio da
sala, e nunca o mandou sentar. Chamava-se este homem José de Carvalho Araújo e era pai do
que foi mais tarde um dos heróis da Grande Guerra, cuja morte gloriosa mereceu a honra de
monumento em Vila Real. O pai era notário e nessa qualidade tinha ido mais de uma vez em
serviço a Mateus. Minha mãe começou por lhe mostrar a sua estranheza que ele ali fosse
naquela missão, quando tantas vezes tinha sido recebido amigavelmente.

Ele, visivelmente atrapalhado com a frieza daquela recepção, tirou da algibeira um telegrama
que lhe mostrou. Era em cifra e traduzido por ele; assinado pelo Bernardino Machado, dava-
lhe ordem para prender o Fernando e remetê-lo imediatamente para Lisboa.

Minha mãe respondeu que ele iria apresentar-se no dia seguinte, mas naquele dia não. "Mas
V. Exa. garante que ele não fugiu? - Garanto. Está em Mateus, mas hoje não vai". Nesta altura,
entrou o meu irmão acompanhado pelo José Mourão, que tomou logo a responsabilidade de ir
ele mesmo no dia seguinte levar o Fernando ao governo civil às 3 da tarde.

Eu não assisti à primeira parte da conversa porque, receando que a Maria Teresa estivesse
assustada - pois era uma criança extraordinariamente nervosa -, tinha ido ao quarto dela,
encontrando-a realmente acordada e inquieta.

Depois de a tranquilizar voltei para o escritório e já lá estava quando o José Mourão entrou.
Vendo que nada mais conseguia, o governador civil retirou-se. Contou depois o administrador
do concelho que, ao entrar para o automóvel, não resistiu a dizer-lhe: "V. Exa. ralhou comigo
por não ter trazido o Conde de Mangualde. V. Exa. também não o trouxe... e ouviu o que não
ouvi!" Diziam que este homem era monárquico e que ficou tão incomodado com este episódio
que daí a pouco pediu a demissão do seu cargo.

Soubemos depois que o governador civil se fizera acompanhar pela formiga de Vila Real, que
ficou vigiando a casa por fora enquanto ele lá estava. Entre eles havia um, por alcunha O Mata
a Cega, que teve o atrevimento de entrar na cozinha. A alcunha provinha de se dizer que tinha
morto a mãe.

Que bela guarda de honra!



114




Pontualmente às 3 da tarde do dia seguinte o Fernando apresentou-se com o José Mourão no
governo civil. O Carvalho Araújo - que não era verdadeiramente o governador civil, mas
simplesmente substituto - disse-lhe que tinha de seguir no dia seguinte para Lisboa e até então
ficaria detido no governo civil.

Mas não tendo o edifício alojamento apropriado para esse fim, ficou combinado - sempre sob
a responsabilidade do José Mourão - que voltaria para casa até às 11 horas da manhã do dia
seguinte, indo então para embarcar no comboio e seguir para Lisboa. Assim se fez, indo ele
acompanhado apenas por um sobrinho do governador civil chamado Domingos Araújo, por
alcunha o Olho de Vidro.
Este homem procedeu sempre com a maior delicadeza e correcção. O Fernando reconhece-o
na carta que me escreveu narrando a viagem:



3 de Novembro de 1914 Minha querida,



Acabei de almoçar no comboio que me leva para Lisboa e sentei-me a escrever-te.

Afinal, como sabes, não viemos de automóvel. Viemos de comboio e até à Régua veio a querer
meter conversa um cavalheiro que depois soube ser caixeiro-viajante e chamar-se Belmiro
Teixeira. Na Régua fomos para um compartimento em que íamos sós, eu e o Domingos Araújo.
Apareceu lá o Pessanha que foi connosco umas três ou quatro estações e depois voltou a
oferecer-nos vinho do Porto.

Mais tarde apareceu outra vez o tal Belmiro que me disse conhecer muito o Afonso, o João
Cabral, o Lopo e não sei quem mais. Disse-me que um antigo condiscípulo e camarada meu, o
Teodorico Pimentel, capitão de artilharia, ia no mesmo comboio e me queria ver e daí por
diante fomos os quatro. Por conselho do Teodorico e do outro apeámo-nos em Ermesinde e
fomos procurar um eléctrico que nos levou ao Porto, depois de vários incidentes que à vista te
contarei. Durante todo o trajecto o D. A. deixou-me em absoluta liberdade, deixando-me ir
para um lado e para outro. Chegados ao Porto, por conselho do Belmiro fomos para o Hotel
Sul-Americano, onde ficámos em dois quartos longe um do outro. Fomos jantar ao Lisbonense
e depois do jantar deixei-o ir, ao D. A., com o Teodorico tratar de arranjar bilhetes e tomei um
automóvel onde sozinho me meti, e fui procurar o António Bernardo Ferreira, que já se tinha
ido deitar. Voltei para o hotel, onde pouco depois apareceram



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o D. A. e o Teodorico com os bilhetes. Resolvemos então ir de automóvel até à Granja e lá
tomar o expresso da manhã para Lisboa.

Telegrafei ao Andrade para ele estar com um automóvel na estação de Campolide e aí me
apearei, a não ser que ele não esteja.

Mas como os jornais dão notícia da minha chegada à noite a Lisboa, ninguém me espera
àquela hora. O D. A. tem-se portado comigo como um verdadeiro cavalheiro e até se ofereceu
para minha testemunha de defesa, por o meu comportamento durante a viagem lhe ter
trazido a convicção da minha inocência.
Ele insiste em que não partiu de Vila Real nenhuma denúncia que tivesse dado lugar à minha
prisão. Veremos. Estou cheio de esperança em que seja de pouca dura a minha estada em
Lisboa. É ele, D. A., que se encarrega de deitar esta carta no correio e talvez a sobrescrite.

Fiz viagem com o Álvaro de Matos e a mulher. Esta disse-me que te ia escrever a dar notícias
minhas.

Mil beijos aos pequenos, um abraço a tua mãe e outro ao Fernando...



Esta carta é escrita a lápis e apesar do estremecimento do comboio numa letra firme que
denota o seu absoluto domínio sobre os nervos, apesar da incerteza do que iria encontrar à
chegada a Lisboa.

Na carta seguinte conta-me o resto da viagem:



Cabeço de Bola, 4 Nov. 1914,



Minha querida,



Decerto recebeste a minha carta escrita a lápis durante a minha viagem do Porto para cá. Mas
antes de mais nada, levantaram-me agora às 7 da noite a incomunicabilidade e prometeram
mandar-me para aí amanhã ou depois. Já te telegrafei nesse sentido, com medo que metesses
pernas ao caminho.

Agora continuemos a narração da minha carta a lápis. Chegados a Campolide, debrucei-me a
ver se estava o Andrade, a quem telegrafei do Porto, com automóvel.

Vi à porta da estação dois automóveis. Ao apear-nos chegou-se a nós um sujeito a perguntar-
me se eu era eu. Disse-lhe que sim e então mostrou-me um bilhete de identidade de agente da
polícia e disse que tinha ali sido mandado pelo Câmara Pestana para me conduzir
directamente ao sítio que me estava destinado, evitando os incómodos de passar pelo governo
civil. O outro automóvel era o dele. Não sei ainda como eles souberam da minha chegada.
Provavelmente por causa do meu telegrama. Vim então para aqui, para um quarto de oficial
onde fiquei incomunicável. Devia ter chegado por volta das 3 da tarde.



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Às 10 e meia da noite chegou cá o Abraão de Carvalho para me interrogar. Segundo ele fui
preso por denúncia do Pacheco Soares e do Rodrigues Nogueira de que eu era o chefe do
movimento do distrito de Vila Real. Neguei a pés juntos, está claro, e mostrei-lhe o desejo,
para se apressarem as investigações, de voltar para Vila Real. Concordou depois de saber que
havia lá alojamento decente para mim.

Aqui não tenho tido razão de queixa de ninguém, antes pelo contrário. Um dos oficiais de cá
foi, a meu pedido, falar ao Abraão e trouxe a notícia de me ter sido levantada a
incomunicabilidade e da minha partida para aí amanhã ou depois. Mesmo apesar de
incomunicável o Abraão consentiu-me que recebesse o Caroça e que viesse o barbeiro do
Tauromáquico cortar-me o cabelo e fazer-me a barba. O Caroça. ficou de voltar hoje, mas até
esta hora, 8 e um quarto, ainda não chegou. Queria ver se ele me arranjava os dentes antes da
minha partida. E para ver se esta segue ainda hoje, vou terminar...



No dia seguinte, 5 de Novembro, recebi um telegrama do Caroça dizendo: "Fernando está bem
e pediu-me para dizer a V. Exa. que não venha para Lisboa pois espera regressar em breve a
Vila Real."

Em vista desta carta e deste telegrama resolvi esperar em Mateus, como o Fernando desejava,
a resolução do seu destino. Em 5 escreveu-me:



Afinal apareceu aqui um escrivão mandado pelo Abraão a dizer-me que não me podia mandar
para aí tão depressa como queria por ter recebido ordens em contrário - não dizia de quem.
Mas que tinha mandado hoje um ofício ao inspector da polícia do Porto que andava em
diligências por aí a saber se precisava de mim lá e, caso ele respondesse afirmativamente, me
mandava logo.

Pedi ao Andrade que fosse falar ao António de Vasconcelos Correia para ver se ele obtinha a
minha remoção para aí. Já amanhã devo saber alguma coisa. Espero pois mais uns dias a ver o
que daí surge. Eu tenho esperança de obter essa remoção e que me tratem aí como da
primeira vez.

Correm boatos curiosíssimos. Um dos que correm é que o governo está com medo de tudo e
entre este tudo da Alemanha com quem parece que houve trapalhada. Que há uma denúncia
de mais de trezentos oficiais e que o general encarregado do caso declarou que tinha de os
prender todos ou nenhum e que se resolveram por este último expediente. Afirmaram-me
também que as tropas que de Lisboa foram para combater o movimento de Mafra
encontraram lá arvorada a bandeira monárquica



117
e que não houve nem um soldado nem um oficial que se prestasse a arriá-la. Foi preciso virem
carbonários de Sintra fazer esse serviço.

Hoje tive cá meu pai, as Marias e o Badito, o Andrade e a Constança. A hora da visita é das 2 às
6, quando o costume é ser só de duas horas.

Enfim, o quarto é bom e sou bem tratado.

Vamos a ver as notícias que amanhã te posso mandar...



Estas informações favoráveis sobre as condições da detenção do Fernando davam-me
paciência para esperar o resultado das démarches que se estavam fazendo para a sua remoção
para Vila Real. Estava nelas empenhado, entre outros, o António de Vasconcelos Correia, seu
amigo de longa data, embora republicano, engenheiro dos Caminhos de Ferro, e pessoa
categorizada no partido. Não deram, contudo, resultado, e continuou no Cabeço de Bola
enquanto esteve preso. Sobre a denúncia que motivou a sua prisão escrevi-lhe em 7 de
Novembro:



O tal inspector chegou ontem e já hoje começou a trabalhar. Provavelmente enquanto durar o
inquérito não te deixam vir para cá. Não acredites no que o Abraão te disse [sobre declarações
de presos]. É um truc muito conhecido. Tudo concorre cada vez mais para confirmar a nossa
primeira impressão [que a denúncia partira de Vila Real]. Não sei se terás lido os jornais e visto
o que têm dito sobre as declarações atribuídas ao Rodrigues Nogueira. São com certeza falsas,
visto que as desmente a Capital, órgão do governo...



E em 9 conto-lhe:



... Ontem correu em Vila Real que tu chegavas e parece que foi muita gente à estação, amigos
e inimigos.

Há dias parece que veio publicada no Mundo uma infame carta a este respeito escrita por
alguém de Vila Real. Não sei o que dizia e pouco importa. O que te quero contar é que hoje um
homem, que me disseram ser o Contador, encontrou o signatário dessa carta, atirou-se a ele
com a coronha da pistola e abriu-lhe uma brecha enorme na cabeça. Quiseram prendê-lo, mas
ele disse: "Alto lá! Ninguém me ponha mão!" e foi ele mesmo entregar-se à prisão. Se mais
alguns tivessem a mesma coragem, talvez a formiga não dissesse e fizesse tanta infâmia.

Em vendo o Rodrigo hei-de fazer o que me pedes e que eu já tencionava. Ao menos não há
dúvida que tens bons e dedicados amigos;
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também mereces tê-los..." [era o Rodrigo Nóbrega, que fora a Lisboa com o Adelino Samardã -,
este um convicto republicano, mas bom homem - interessar-se junto do Bernardino Machado
pelo Fernando, por quem tinha muita amizade e consideração. O Fernando queria que eu
agradecesse a ambos, e especialmente ao Rodrigo, esta prova de amizade].

Em 7 escreve-me ele:



Só amanhã começo a

fazer ideia do meu destino. Se for caso de demora aqui mando-te dizer para vires; se não for,
como há sempre o risco de me mandar para aí, é melhor que não venhas, pois é dispendiosa e
ultra-maçadora uma viagem de ida e volta...



Escrevíamo-nos todos os dias e, segundo me disse o Fernando, as cartas não eram abertas,
permitindo assim uma certa liberdade na nossa correspondência; convinha, contudo, proceder
com prudência. Em 10 de Novembro dizia-lhe:



O inquérito continua e decerto continuará ainda por alguns dias, a julgar pelo número de
pessoas que têm sido intimadas a depor. Tomara que acabasse, pois estou convencida que daí
depende a tua vinda para aqui. Tenho pena de te não poder contar por escrito algumas coisas
que tenho sabido, mas depois virás a saber tudo... O teu companheiro de viagem voltou
dizendo maravilhas de ti, da maneira fidalga como o trataste, querendo pagar-lhe todas as
despesas, entregando-lhe a carta para mim aberta, etc. Também diz que ficou simpatizando
muito contigo e convencido de que em nada te tinhas metido.

Se as visitas te não cansam, ainda bem que as tens tido. Agora é que se conhecem os
verdadeiros amigos...



Do Fernando no mesmo dia:



O Século de hoje fala em coisas daí e conta - falseando-a, mas não vale a pena desmentir - a
conversa da tua mãe com a Machada!..
A isto respondi em 11:



Assim que recebi a tua carta mandei buscar o Século para ver o que dizia a respeito da minha
mãe. Mente, como sempre faz esse infame papel, mas acho como tu que não vale a pena
rectificar mentiras partidas de tão baixo.



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O que acho realmente graça é à insistência em dizer que estavas alapardado aqui; eles não
saberão português? Imaginarão que alapardado significa estar em casa do seu sogro, com a
sua mulher e os seus filhos? É realmente cómico!

E para saber se estavas aqui alapardado, quando toda a gente que quisesse podia ver-te e
falar-te, foi preciso arranjarem um complot para vigiarem a casa! Responder a isto só de troça,
mas não vale a pena. Tu é que podes, falando com o Abraão ou outro, rectificar os factos e
explicar que a pobre velha, como eles lhe chamam, é caseira de cá e veio aqui por causa da
renda que não tinha pago em dia... [Esta mulher Margarida Machado, era mãe do César,
democrático assanhado, que tivemos razões para suspeitar ter sido o denunciante do
Fernando. Minha mãe disse-lhe algumas verdades de que não gostou e de que se foi queixar,
provavelmente, ao filho.]

"Estivemos a falar com várias pessoas daqui e não há ninguém que não pergunte logo por ti
com o maior interesse e que não acrescente logo: "Aqueles patifes!" Todos atribuem o caso à
mesma origem; os próprios autores da proeza já se deixaram de mentir e quase que se gabam
da sua bonita acção...



Continuavam entretanto as diligências para o Fernando ser mandado para Vila Real. O
Bernardino Machado disse ao Vasconcelos Correia que ele devia ser posto na fronteira, mas
que, devido a instâncias do Adelino Samardã, tinham resolvido esperar pelo resultado do
inquérito. O Artur Ravara ofereceu-se também para ir falar com o Afonso Costa. E o Fernando
continuava a mostrar desejo que eu fossse ficando em Mateus. O inquérito em Vila Real ia
seguindo. Dizia-lhe numa carta:
Se a tua saída daí depende de se concluírem as diligências que o tal inspector está fazendo
ainda tem demora, porque ele parece disposto a interrogar Vila Real em peso; agora parece
que se transportou para o quartel e se interrogar os soldados todos, só isso há-de levar tempo.

Depois dizem que vai a Chaves. Nova demora. Vê lá o que decides...



Propunha-lhe ir eu sozinha para Lisboa, onde ficaria em casa da minha cunhada Maria, e
continuava:



Li hoje no Jornal de Notícias do Porto uma carta do Manso, ex-governador civil de Vila Real,
que responde às acusações



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que lhe fizeram de me ter mandado prevenir por terceira pessoa que tínhamos a casa vigiada.
Diz ele, o que é verdade, que nem de vista me conhece, e como estamos no tempo da
fraternidade, não me dá senhoria. Diz: "a Condessa de Mangualde"... Como estão
desesperados por ele ser talvez um pouco menos mau do que os outros, movem uma
verdadeira campanha contra ele.

Tomaram eles saber quem foi que nos preveniu do caso, mas nunca o hão-de saber... (A tantos
anos de distância também já não me lembram os pormenores deste caso).

A 15 escrevi-lhe:




Em Vila Real parece que estão três a fazer inquéritos: o inspector, o tal Goulard de Medeiros e
um general de quem não me disseram o nome.

Que tal era a hidra! Também diz o Janeiro que em Lisboa e Coimbra tem estado tudo de
prevenção. Por que será isto tudo? Provavelmente não passa de boato sem fundamento, mas
o medo é tanto!

Nesta atmosfera de boatos e de terror se viveu sempre durante os dezasseis anos que durou a
república.

No mesmo dia 15 escreve-me o Fernando:
É hoje que o Vasconcelos Correia deve procurar o Bernardino e então amanhã devo saber o
que se passou.

Já me contaram toda a entrevista do Rodrigues Nogueira com o Bernardino, que é
interessante.

Ele tinha pedido para falar com o Ministro da Guerra, mas sabendo que o ministro tinha ido
transmitir a conversa ao Bernardino, tudo trocado, pediu para ver o Bernardino com quem
esteve perto de quatro horas em que o Bernardino falou sempre.

Disse coisas do Arco da Velha. Que a nossa situação em Angola era gravíssima, que a repressão
rigorosa do tal movimento faria muito má impressão lá fora, etc. etc. Disse que se queria
limitar a pôr na fronteira uns 6 ou 7 e como o outro achasse o número exagerado, reduziu para
3 ou 4 e pediu ao Nogueira que indicasse os nomes!

O outro respondeu que não era a ele que competia, mas sim aos funcionários encarregados
das investigações, o que podia era lembrar alvitres. Um era que pusesse fora os 3 ou 4 de que
tivessem mais medo pelo prestígio ou valor dessas pessoas; outro era que pusesse na fronteira
os 3 ou 4 mais comprometidos neste movimento e ainda outro era que mandasse metade do
primeiro grupo e metade do segundo!



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E assim se passou o tempo, sem ele ter referido um único nome! O que ele efectivamente fez
foi dizer ao ministro da guerra que não mexesse nisto, porque 80 por cento dos oficiais eram
monárquicos. - E todos conspiradores? perguntou o Eça. - Não; conspiradores são talvez 20 por
cento do total.

Hoje mandei chamar o médico militar para me queixar do quarto que cheira de mais a
cavalariça. Ele prometeu pedir providências. Isto tudo faço para impedir que eles se esqueçam
de mim e não porque tenha sentido qualquer diferença na saúde, porque umas certas dores
de cabeça que tenho tido são bem explicáveis pela minha organização sem culpa dos pobres
cavalos!...



A 17 de Novembro, vendo que a situação se prolongava sem nada se resolver, o Fernando
concordou que eu fosse para Lisboa ficando os pequenos com minha mãe, que só pensava ir
no fim do mês. Fiquei muito contente com essa decisão, marcando logo o dia 21 para me pôr a
caminho.

Entretanto continuávamos a corresponder-nos.

A 18 dizia-lhe:
Se eu falasse com o Bernardino, poderia explicar-lhe algumas coisas que ele não sabe e que lhe
provariam a absoluta falta de fundamento das tais presunções a teu respeito. São coisas que
tu mesmo não sabes, mas que te vou agora contar. Depois da tua partida começou-se a dizer
para aí com insistência que quem contou essa estupidez de te ter visto fardado no meio da
estrada foi um rapaz de quem até ignorávamos a existência, filho do feitor de Urros. O rapaz,
que dizem ser estúpido e bêbedo, e que com certeza nem de vista te conhece, é soldado e
amigo do César.

Estás a ver tudo, não é verdade? O rapaz, que provavelmente nesse dia tinha bebido uma
pinga a mais, lembrou-se de dizer ao amigo que te tinha visto e o outro achou que a ocasião
era boa para exercer a tal vingança de que vinha ameaçando desde a história com a pobre
velha. O pai do rapaz, que em Urros têm na conta de ser um homem sério e honrado, tem
estado meio doido com isto e até se despediu. Não admira; o caso não é para menos. Foi ter
com o filho para lhe pedir explicações, mas este, que talvez receasse que o pai o matasse,
deitou-se de joelhos, jurando que nada tinha dito, que nem sequer te conhecia, etc. O que é
certo é que o César diz que efectivamente foi ele que fez a denúncia, mas que nada viu, quem
viu foi o outro! Que corja!... Tudo isto se podia explicar ao Bernardino, que talvez ficasse
convencido,



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mas que provavelmente nada faria, por estar dominado pela jacobinagem e se não atrever a
desobedecer-lhe. A sua cordialidade limita-se a dizer que está tudo a teu favor!

Enfim, pode ser que em as investigações estando terminadas sem resultado mais nenhum do
que a história da farda, ele não tenha coragem de cometer a iniquidade de te mandar pôr na
fronteira...



Na carta de 19 de Novembro diz-me o Fernando:



Vou ver se tenho tempo de te contar o interrogatório do José de Azevedo. Foi o Abraão que o
interrogou dizendo-lhe que era acusado de fazer parte do comité monárquico. O outro moita. -
"Provavelmente o Sr. nega... - Perdão, mas as provas? - Só há uma, a declaração do Sr. Pacheco
Soares. - Mas eu não o conheço. - Ele também confessa que o não conhece ao Sr. - Mas então
é só por causa do que disse o Sr. Pacheco Soares que os Srs. me prenderam? - Só. - Bem, então
eu vou dizer-lhe qual era o verdadeiro comité e o Sr. faça favor de os ir já prender. Olhe, eram
os Srs. Manuel de Arriaga, Afonso Costa... Ai não, mas porquê? Não foi assim que os Srs. me
prenderam? Não sei se é verdade, mas creio que sim. Também me contaram que o Pacheco
Soares tinha mandado dizer ao José de Azevedo e ao Moreira de Almeida que tinha
efectivamente falado no nome deles, mas isso porque sendo pessoas tanto em evidência não
podiam deixar de ser incomodados!! Esse menino provocou mais de cem prisões, muito mais.
A Constança também conversou com o Bernardino a meu respeito, que lhe disse já ter estado
mais disposto a meu favor do que agora está. Mas depois da conversa, julga ela, que ele
tornou a ficar bem disposto. Foi muito mesureiro com ela e cheio de consideração. Prometeu-
lhe fazer aviar todas as diligências que me dizem respeito. Se faz assim é um grande homem,
mas duvido. Aí entretêm-se a prender soldados, o que me parece parvo e antipático e só tem
desculpa para demorar diligências que lhes devem render bom dinheiro...



Foi esta a sua última carta antes da minha partida no dia 22 de Novembro. Marcara, como já
disse, o dia 21, mas uma grande nevada caída nessa noite assustou minha mãe que, receando
algum contratempo pelo caminho, conseguiu que eu adiasse por vinte e quatro horas.

A boa e dedicada Constança procurava por todos os meios suavizar a situação do Fernando,
mandando-lhe uma vez uma poltrona, de outra um ramo de urze para lhe alegrar o quarto,
etc. Ao mesmo tempo insistia com o Bernardino



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para que ele lhe concedesse uma hora de passeio por dia, pedia-lhe que, nas minhas visitas,
me pudesse demorar mais do que os outros visitantes, o que conseguiu.

Era incansável. Fazia pressão para que o pusessem em liberdade por falta de provas. O
Bernardino recebia-a sempre bem e foi decerto a sua insistência incansável que conseguiu que
aquela situação acabasse mais cedo do que se esperava. Na realidade as diligências nenhum
resultado davam: provas não havia; havia apenas presunções morais insuficientes para um
julgamento.

No fundo era isto que todos pensavam e muito especialmente o Bernardino, mas também não
sabia como descalçar aquela bota: pô-lo na fronteira era castigo demasiado para uma simples
suspeita; pô-lo simplesmente em liberdade não se atrevia a fazê-lo, porque desagradaria aos
seus correligionários. Lembrou-se então de uma situação intermédia e... inédita: desterrá-lo!
Mas para onde? Aí é que estava a dificuldade. Para Vila Real não podia ser, pois era onde fora
preso; para Mangualde também não, por o pai ter lá a sua casa e ele ter lá muitos amigos.
Ficar em Lisboa, nem pensar nisso! Confiou as suas dúvidas à Constança, que se apressou a
consultar o Fernando sobre a solução que preferia. Lembrou-se de Fornos de Algodres, por ser
perto de Mangualde.
De princípio o Bernardino repeliu a ideia, justamente por esse motivo; mas a Constança teve
artes para o convencer e levá-lo por fim a aceitar a ida do Fernando, não para Fornos, mas...
para Mangualde! Foi uma grande vitória. No dia 4 de Dezembro recebeu do João Eloy a
notificação da sua sentença: pelo espaço de um ano teria que "residir em Mangualde, com a
obrigação de se apresentar uma vez por mês à autoridade administrativa competente, sob
pena de ser expulso do país pelo tempo que o governo julgar competente [sic]". Nessa mesma
noite partiu.



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Revolução de 14 de Maio




Por ter de dispor as minhas coisas para uma ausência que não podia deixar de ser prolongada,
não pude partir com ele.

Comecei os preparativos para ao menos ir passar com ele o Natal. Meu sogro, entretanto, veio
a Lisboa e voltou levando o Francisco. As pequenas ficavam em Lisboa com minha mãe, pois se
tornava necessário pensar a sério na sua educação, sobretudo na da Maria Teresa, que estava
quase a completar onze anos. Fiz o sacrifício de me separar delas, entendendo que, do
momento que as deixava bem entregues, o meu dever era ir para junto do meu marido. Parti
no dia 23 de Dezembro.

Em Janeiro de 1915 deu-se em Lisboa um acontecimento que veio alterar por completo o
regime em que o país vivia desde a implantação da república. Foi o chamado Movimento das
Espadas. Por imposição do exército e sem que fosse disparado um tiro, tomou conta do poder
o general Pimenta de Castro, excelente homem, recto, bem-intencionado, que iniciou uma
ditadura branda com que esperava salvar o país do descalabro político e financeiro em que se
ia afundando. A nossa situação internacional não podia ser mais lamentável. O estrangeiro
olhava-nos com desprezo e cobiçava as nossas colónias, tão mal defendidas e tão
abandonadas desde que os democráticos tinham tomado conta do país. A epopeia admirável
das Campanhas de África, que enchera de glória o reinado de El-Rei D. Carlos, estava
esquecida, era história antiga. Os heróis que nela tomaram parte, escrevendo com as suas
espadas os seus nomes em letras de oiro na História de Portugal, estavam - os que ainda
viviam - exilados uns, outros talvez presos e todos afastados do contacto com a demagogia
triunfante.



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Todos, pode dizer-se afoitamente, eram monárquicos.

Infelizmente, ou por falta de energia do Pimenta de Castro, ou por outras circunstâncias que
desconheço, essa tentativa de regenerar o país por um governo puro e honesto, estava
destinada a fracassar e pouco durou. Na manhã do dia 14 de Maio, as guarnições dos navios de
guerra fundeados no Tejo revoltaram-se e começaram bombardeando a cidade. O governo
mandou avançar uma bateria, que se postou no alto de Santa Catarina e começou a alvejar os
navios. Os revoltosos respondiam e quem se encontrasse na linha de fogo corria um grande
perigo.

Assim morreu o José Ribeiro da Cunha, morto na sua própria casa por uma granada que não
chegou a explodir. Algumas casas em Santa Catarina incendiaram-se.

Esta revolução apanhou-me em Lisboa, onde tinha chegado havia alguns dias para ver meu Pai,
que a guerra forçara a sair de França. O Fernando acompanhara-me - pois desde a queda do
Bernardino a sua sentença era letra-morta - mas já voltara para Mangualde e eu contava ir ter
com ele uns dias mais tarde. Dei graças a Deus por ele já não estar em Lisboa.

A impressão que se sente no meio de uma revolução é o que há de mais angustioso: a
incerteza do seu desfecho, a sensação de completa impotência perante o perigo, o silêncio das
ruas entrecortado por tiros isolados disparados não se sabe de onde, nem contra quem, tudo
concorre para aumentar essa angústia.

Enquanto durou o bombardeamento, o perigo para nós foi grande; a nossa casa encontrava-se
na linha de fogo e na redacção do Século rebentou uma granada que nos causou um grande
susto. Refugiámo-nos num corredor interior e aí passámos grande parte do dia.

A revolução acabou pela vitória dos revoltosos e a prisão do Pimenta de Castro, voltando os
democráticos a tomar conta do poder e recaindo o país nas mãos das quais tinha querido
libertar-se.

Assim que se restabeleceram as comunicações, telegrafei ao Fernando dando-lhe notícias. Vou
transcrever duas cartas minhas, uma delas escrita no próprio dia da revolução, que bem
revelam o que foram aquelas terríveis horas:



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14 de Maio de 1915 Meu querido,
Apesar de recear que esta carta não siga hoje por não haver comboios, não quero que por
minha culpa deixes de ter notícias nossas, que decerto esperas com ansiedade. Acordei esta
manhã ouvindo passar por aqui duas baterias de artilharia, sem perceber o que era, pois
estava longe de pensar que a tão apregoada revolução era um facto. Pouco depois começaram
as peças a disparar do alto de Santa Catarina para o mar e de lá para Santa Catarina, onde
começaram a haver incêndios e onde uma granada foi matar o pobre José Ribeiro da Cunha
depois de atravessar três paredes e estando ele sentado numa sala. Que horror! Aqui caiu uma
bem perto de nós, nas traseiras do Século, mas felizmente não produziu senão estragos
materiais. O susto é que não foi pequeno, como podes imaginar. Ao certo ninguém sabe nada;
disse-me a Cândida que agora estão bombardeando o quartel dos marinheiros do forte de
Monsanto, e que o edifício já tem alguns estragos.

Parece que já há muitos mortos e feridos.

Lemos agora um suplemento do Século, pelo qual parece que os revoltosos tomaram conta do
Arsenal da Marinha e do do Exército e estão entrincheirados e decididos a resistir. Receio
muito que o Pimenta não tenha força para os meter na ordem, o que seria terrível por todos
os motivos. Deve estar arrependido agora de ter vestido a farda tão tarde. Nós estamos bem e
ninguém perdeu a serenidade a não ser as pequenas, que se assustaram muito, como é
natural. Agora, como já se não ouvem os tiros tão perto, estão mais sossegadas... Se o Pimenta
conseguir sufocar este movimento, é de esperar que faça depois o preciso para que este pobre
país sossegue finalmente. Assim não se pode viver...



P. S. Isto já vai sendo muito sério para ópera bufa.



E em 17 de Maio:



Calculo bem os dias de cuidado que deves ter passado, sabendo dos horrores que aqui se
estão passando e sem poderes ter notícias nossas. Essa ideia tem sido um dos meus
tormentos, pois ponho o caso em mim e sei bem o que eu sofreria se estivesse longe dos
meus, sabendo-os em perigo.

Escrevi-te na sexta-feira uma carta, que espero recebesses e ontem mandei-te um telegrama.

Só esta manhã recebi o que o teu pai me mandou pedindo notícias, ao qual respondi acto
contínuo, mas como o telegrama ficou sujeito a demoras, não sei quando aí chegará.



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Passámos horas verdadeiramente angustiosas, que nunca mais na minha vida poderei
esquecer.

Estivemos dois dias com as janelas hermeticamente fechadas, a ouvir tiros constantemente;
passámos uma noite quase em claro, pois não nos atrevíamos a despir-nos e a metermo-nos
na cama. Enfim, um verdadeiro horror, que só pode avaliar quem por ele passou. E ainda assim
fomos dos mais felizes, pois várias pessoas tiveram as suas casas assaltadas e foram presas,
como o Quico, o Vasco e Pedro Sabugosa, o Remédios da Fonseca e outros. Em casa dos
Sabugosas entraram tantas balas, que uma das salas ficou completamente estragada. Todos
dizem que esta revolução foi muito pior que a de 5 de Outubro, que morreu e foi ferida muito
mais gente. Não duvido. Por aqui vimos passar várias vezes automóveis da Cruz Vermelha,
levando ou indo buscar feridos. Fazia muita impressão.

Dizem que os rapazes da Escola do Exército se bateram heroicamente durante mais de quatro
horas, tendo por fim de ceder à superioridade numérica dos seus adversários. De resto, ainda
é difícil formar uma opinião. Mas parece-me que mais uma vez o exército deixou a desejar em
questão de disciplina e de valentia.

Esteve agora aqui o João Afonso [Pindela] a descrever-nos o que foi o ataque à Escola do
Exército, a que ele assistiu e em que até tomou parte. Estava entusiasmado com os rapazes,
que foram uns verdadeiros heróis; quando tiveram de entregar as armas, choravam de
desespero...

Entraram agora os navios espanhóis; dizem que o Afonso Costa foi à legação de Inglaterra
pedir que não mandassem navios e que lhe fizeram a vontade..



Continuo as transcrições:



18 de Maio, 1915



Meu querido

Vivemos numa atmosfera de terror, em que só se ouve falar em tiros e mortos.

O drama do João de Freitas foi horrível. Hoje diz o Diário de Notícias que foi morto a tiro no
Porto o Homero de Lencastre. Decerto que esse merecia castigo, mas a facilidade com que se
manda assim gente para o outro mundo faz estremecer. Parece impossível que este Portugal
seja o mesmo que ainda há dez anos era a terra mais pacata e mais sossegada do mundo. Que
responsabilidade medonha têm os que transformaram o bom povo português nas feras que
agora andam por aí! Agora está tudo sossegado e já entrou na normalidade, mas enquanto as
coisas não mudarem de vez, estamos sempre sobre um vulcão...
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Do Fernando:



Mangualde 19 Maio 1915



Estou ansioso por que venhas. Não acredito nesse sossego que julgo apenas aparente. E a
prova é o assassínio de polícias à luz do dia.

Vê se te avias. Faze impossíveis para vir já sem demora... Isto por cá tem estado sempre um
sossego, mesmo durante os horríveis dias que aí passaste... Vê se não te demoras nem mais
um minuto do que for absolutamente necessário... Lembra-te de que nunca te arrependeste
de me fazer as vontades e quando as não fazes é que às vezes acontece mal. Se tivesses ido a
Salamanca quando te pedi, não tinha eu ido para a Penitenciária. Avia-te...



Resposta minha:



20 de Maio 1915



Podes ter a certeza que me não demoro nem um minuto mais do que é absolutamente
necessário. Ainda que não tivesse muito desejo de ir, bem sabes que nunca deixei de satisfazer
um desejo teu, a não ser por absoluta impossibilidade. Quando não fui a Salamanca, bem
sabes quanto me custou e que não foi por minha vontade que deixei de ir...



Parti no dia 22.

Um dos emigrados políticos que se aproveitaram da situação Pimenta de Castro para voltar a
Portugal, foi o Couceiro. Hospedou-se em Santa Catarina em casa da irmã Carolina, e aí se
encontrava quando rebentou a revolução. Sendo por todos os motivos perigosa a sua
permanência naquela casa, visto os republicanos conhecerem o seu paradeiro, foi para casa do
Eduardo Pinto da Cunha, no Campo Grande, onde esteve escondido até que conseguiu sair
novamente do país.

Fez bem, porque um grupo de revolucionários foi procurá-lo à casa de Santa Catarina. Não o
encontrando, saquearam-na, atirando da janela à rua tudo quanto quiseram. Pode-se calcular
o que lhe teriam feito se o tivessem encontrado. Daí a dias conseguiu embarcar num navio
estrangeiro e sair a barra.

No rápido em que segui para Mangualde, entraram militares que o procuravam. Um deles
meteu conversa comigo e querendo



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convencer-me da superioridade do regime republicano, perguntou-me, apontando para o
Francisco, se eu não gostaria que o meu filho pudesse vir a ser um dia presidente da república.
Não pude deixar de sorrir perante a ingenuidade daquela pergunta e daquela busca.

No Verão daquele ano de 1915 voltámos para Mateus, onde meus pais já se encontravam.
Julgava passar lá um tempo sossegado, livre dos sobressaltos causados pela política, mas
enganei-me; as conspirações monárquicas recomeçaram e o Fernando, já se vê, estava metido
nelas de alma e coração. Em Agosto abortou mais uma e embora nada se tivesse passado em
Vila Real, e ele não tivesse saído de Mateus, receou que o prendessem novamente e resolveu
ir para a Galiza antes que lhe deitassem a mão.

Foi de comboio até Vidago e daí de carro até à fronteira, indo parar a uma terra chamada
Fezes, de onde seguiu de automóvel até Verin.

Não sei até que ponto foi justificado o seu receio, porque ninguém o foi procurar para o
prender.

Assim que chegou à fronteira, encarregou um amigo de me telegrafar de Chaves para me
sossegar. Foi-se hospedar em Cabreiroá, onde fez uma cura de águas que era ostensivamente
a causa do seu afastamento.

Fiquei em Mateus, de onde fui duas vezes visitá-lo. Da primeira fui com os Ferreira Pinto,
Guilherme e Branca, que estavam nas Pedras Salgadas e foram, como todos os anos, de visita a
Mateus. Referiram-se a uma excursão a Verin e Cabreiroá, que tencionavam fazer. Mostrei
desejo de ir com eles e assim se combinou para o dia 3 de Setembro. Fui de comboio até às
Pedras e seguimos depois de automóvel. Em Cabreiroá tomámos chá, mas não nos
demorámos muito, porque era preciso transpor novamente a fronteira antes do pôr do Sol. Fiz
conhecimento com alguns espanhóis com quem o Fernando já estava tu cá tu lá, entre outros
com o Osório Gallardo que fora governador de Barcelona durante a chamada "Semana
Sangrenta". A mulher trazia ao pescoço umpendantif feito de um estilhaço de granada que
recordava aqueles terríveis dias. Este Osório Gallardo parecia então ser um bom servidor da
monarquia, mas tornou-se mais tarde tristemente célebre quando em 1936 rebentou a guerra
civil, passando-se para os vermelhos.
130



Entretanto a saída do Fernando do país chamou as atenções das autoridades de Vila Real.

Começaram a suspeitar das razões que o teriam levado a afastar-se e, por mais de uma vez,
apareceram em Cabreiroá portugueses que ele tomou como espiões. De mais a mais correu,
não sei com que fundamento, que o Couceiro se encontrava escondido ali perto.

Tive ocasião de lhe escrever por um próprio e aproveitei para lhe escrever mais claramente:



16 de Setembro de 1915,



O governador civil está convencido que foste para aí conspirar; num jornal novo que apareceu
em Vila Real e que é inspirado por ele, vinha no outro dia que tu tens aí reuniões políticas, a
que assistem o Azevedo Coutinho, o Couceiro, o Padre Domingos, e um Guimarães!! Já se vê
que é o cônsul daí, para alegar serviços, que manda dizer destas petas.

Mas como o governador civil acredita, talvez seja ele mesmo que dê ordem para apanharem as
minhas cartas. [O Fernando queixava-se de as não receber].

[...] Dize-me o que tencionas fazer. Voltar para aqui parece-me impossível; quando te foste
embora, o governador civil disse ao José Mourão que estava convencido que estavas
conspirando, "porque isso está-lhe na massa do sangue". Palavras textuais. Não me parece,
pois, prudente que venhas para aqui por estes meses. Em Mangualde parece-me que podes
estar sem receio, sobretudo entrando pela linha de Salamanca...

O portador destas cartas clandestinas era o Joaquim Alvadia, muito dedicado ao Fernando, que
atravessou várias vezes a fronteira com cartas e dinheiro.

Aproximava-se do seu fim o mês de Setembro e o Fernando tinha de tomar uma decisão; o
hotel de Cabreiroá fechava e prolongar a estada em Verin não tinha interesse, nem razão de
ser.

O bispo de Lugo, com quem se encontrou em Cabreiroá, sugeriu-lhe a ideia de ir lá passar um
tempo, e dando-se o caso de estar lá a viver o Conde de Vilas Boas, de quem era amigo,
aceitou com gosto esse alvitre. Teria, além disso, ensejo de conhecer essa parte da Galiza, que
lhe diziam ser interessante. Mas não se queria afastar sem me tornar a ver. Esperei a chegada
do meu irmão e fomos os dois. Ficámos essa noite no Vidago e seguimos no dia seguinte



131
de automóvel até Verin, onde o Fernando se encontrava, por já estar fechado o hotel de
Cabreiroá. Ficámos lá nessa noite e voltámos no dia seguinte, tendo visitado de manhã as
ruínas do castelo de Monterey, que dominam a vila e são muito pitorescas.

Realizou-se a minha visita num dos últimos dias de Setembro e logo a seguir o Fernando partiu
para Lugo, onde o Conde de Vilas Boas o hospedou durante o tempo que lá passou.

Lugo é uma cidade antiga, ocupada em tempos pelos Romanos, de que conserva ainda ruínas
interessantes, mas com pouco interesse actual, apesar de ser capital de distrito. Mas, com o
seu feitio curioso e investigador o Fernando descobriu ali, como em toda a parte onde ia,
coisas interessantes para ver. Não podia, contudo, eternizar-se naquela situação e tinha de dar
um rumo à sua vida. Resolveu ir para Mangualde, entrando no país por Vilar Formoso. Saiu de
Lugo no dia 4 de Novembro, e no dia 6 chegou a Mangualde.

O desejo tanto dele como meu era que eu fosse logo ter com ele mas, como sempre, surgiram
dificuldades para a sua realização. Desta vez a principal era a pena que me fazia deixar os meus
pais sós, pois sabia bem a falta que lhes fazia.

Por outro lado a insistência do Fernando para que fosse igualmente me afligia, e entre esses
dois impulsos que se contrariavam a minha vida era um tormento. Também me custava deixar
a Maria Teresa, que ficava para seguir com a avó para Lisboa.

Parti por fim, com os dois mais pequenos, no dia 25 de Novembro. A vida em Mangualde nesse
tempo não deixava de ser agradável na sua pacatez, e eu procurava adaptar-me a ela o melhor
possível. Mas a minha saúde começou a ressentir-se talvez do frio, talvez de qualquer outra
circunstância, e esse mal-estar manifestou-se por um pouco de neurastenia, que entendi ser
necessário combater saindo de Mangualde por algum tempo. O Fernando, de princípio, não
concordou, mas acabou por aceitar a minha resolução que não tomei sem grande relutância. A
minha primeira carta revela-a bem:



Lisboa, 14 de Fevereiro de 1916,



Apesar do gosto que tive de tornar a ver os meus pais e a nossa Maria Teresa, tem sido um
gosto bem misturado de tristeza e de pena de te ter deixado, assim como ao pequeno.
Provavelmente não compreendes isto,



132
pois julgas que foi apenas um motivo egoísta que me fez vir, mas podes crer que o não foi e
que foi só depois de uma grande luta comigo mesma que me decidi; além de tudo estava
sentindo a necessidade de uma mudança para poder combater o desalento e a tristeza que se
estavam apoderando de mim.

Quando eu saí daí, disseste-me que não te falasse na possibilidade da tua vinda, mas há uma
coisa que não quero deixar de dizer: pelo lado financeiro não te deves prender... Por esse lado
não há, pois, impedimento algum para a tua vinda, pois os cem mil réis, juntos com os
cinquenta que neste momento possuo, chegam e sobejam para poderes passar algum tempo
em Lisboa. Pensa nisto a sério, e desde já fica certo que em tu depois querendo voltar para aí,
não farei dificuldades. Bem sabes que nunca as tenho feito, mas agora sentia realmente
necessidade de sair daí por algum tempo. Deus queira que te resolvas a vir, porque estou
convencida que também te há-de fazer bem e escuso de te dizer o gosto que me darias com
isso..



Era tão raro em mim este desalento, que realmente não podia deixar de ter uma causa física.
Saí de Mangualde com tosse que degenerou numa gripe muito prolongada, complicada com
albumina, que me obrigou a demorar-me em Lisboa mais do que tencionava.

Em todas as minhas cartas insistia com o Fernando para que se resolvesse a ir a Lisboa, mas
estava renitente e se por fim cedeu, foi sobretudo por me saber doente. Ele também não
estava bem, tendo apanhado uma bronquite com uma tosse teimosa, que muito o
incomodava. Aquele inverno foi muito frio; quase todos os dias nas suas cartas se referia a ter
caído neve. Resolveu-se, por fim, a passar em Lisboa o dia dos meus anos, 14 de Março, e a
demorar-se até o fim do mês.

Em Fevereiro dera-se um acontecimento de consequências graves para o país, pois foi a causa
da nossa entrada ma guerra: o governo mandou apreender os navios alemães que se
encontravam no Tejo. Em carta de 24 de Fevereiro conto ao Fernando este caso:



O acontecimento do dia de ontem foi a posse dos navios alemães e toda a gente está na
expectativa do que se seguirá a este acto de força. Não creio que a imprevidência e a loucura
dos governantes chegasse a esse ponto,



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se não houvesse qualquer entendimento pelo qual soubessem que esse acto não terá
consequências funestas para o país. Em todo o caso, vamos a ver...
Resposta dele:



A situação com a Alemanha ainda não está clara. Estavam bons, esses governos, para
administrar os bens dos nossos inimigos. Pena foi o destino tê-los deixado nascer
portugueses...

No dia 1 de Março volta ao assunto:



Meu pai vem logo no comboio da noite.

Na carta em que me diz isso diz também que é extraordinário o pânico por causa da atitude da
Alemanha, havendo quem afirme que já está a guerra declarada. Diz também que lhe
garantiram que 45.000 sindicalistas iam hoje ou amanhã para a rua por causa da fome - "só
para comer e não para fazer vítimas", acrescenta. Bonita situação e que agradável é a vida aí,
afinal. Quem me dera ver-te por estas paragens mais tranquilas. Estou a ver que ainda se
arranjam as coisas de forma a fazer-me ir combater debaixo da bandeira verde e encarnada. É
com grande desgosto que o faço, se me vir obrigado a isso.

Também tive carta da Constança revoltada com o acto de inospitalidade e de mau gosto da
apreensão dos navios alemães. E tem razão...

Em 3 diz:



Pelo Dia de hoje parece depreender-se que o governo vai tornar a entregar os navios sob
pretexto de não estarem capazes de serviço e, decerto, satisfazendo assim os desejos alemães.

Que vergonha! O artigo de fundo do Dia convidando os monárquicos a intervir por si sós, deu-
me que fazer. Mesmo em circunstâncias próximas de um levantamento não o tinha visto falar
assim!...

Em carta datada de 8 de Março digo-lhe:



Parece que a questão com a Alemanha continua embrulhada e chegam a dizer que haveria
hoje declaração de guerra. Deus afaste de nós esse flagelo! Não sei o que merecia esta gente,
que tem estado assim a brincar com o fogo. Ainda ontem meu Pai ouviu uns idiotas na rua a
gritar: "Viva a guerra!" São perfeitamente inconscientes...



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Em princípios de Abril o Fernando voltou a Lisboa, mas em 13 já estava novamente em
Mangualde. Estava tratando da sua colocação numa companhia americana exploradora de
minas de volfrâmio.

A par da vantagem material de ganhar uns cobres, sorria-lhe sair da inacção em que vivia.
Escreve-me, por isso, em boa disposição de espírito:



13 de Abril 1916,



"Desde depois de amanhã sou empregado da companhia. Sou Chief of mission de uma secção
de levantamento. Não sei em que condições. Disse ao homem: I have no conditions. The
other's conditions are my conditions.

Porque sei que há mais empregados e então o que para os outros resolverem fica resolvido
para mim. E como sou Chief devo decerto ganhar um pouco mais. Apesar de ficar empregado
da Companhia desde o dia 15, o meu trabalho só começa quando estiverem reunidos todos os
elementos de trabalho. O homem tratou-me muito agradavelmente e ficou encantado com o
meu discurso...

Chamava-se Mr Tower este americano que, na continuação das suas relações com o Fernando,
não justificou a boa impressão que primeiro lhe causou, pois era bruto, malcriado e muito
pouco largo na remuneração dos serviços. Não tardou muito que tivesse atritos com ele, que
logo fizeram prever que a sua situação não seria muito estável. A Companhia chamava-se Diás
Mining Corporation; as minas estavam situadas nos arredores de Viseu, em São Cosmado,

Couto de Cima, e o Tower - que era delegado da Companhia - vivia na cidade.



A 16 escreve-me o Fernando:



Imagina que me vou encontrar na mina com um filho do Ferreira do Amaral que está lá a dirigir
os serviços, pois é engenheiro com o curso de Inglaterra. Depois terei que fazer o
levantamento de outras minas, mas logo de começo vou estar junto dele que é carbonário,
segundo me afirmam. É casado e dizem que a mulher é agradável e instruída.

Estou a ver que esta colocação vai também contribuir para estarmos separados, a não ser que
pudesses ir lá para a mina para junto de mim,



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mas isso parece-me difícil, pois é grande sacrifício e ainda não sei como será recompensado. Se
pudesse eu encontrar-te aqui aos sábados e domingos, que já grande consolação era...



A 19 escreve-me a primeira carta da mina:



Aqui estou e estou bem, apesar de por estarmos em princípio de instalação me faltarem os
objectos mais indispensáveis, que vêm chegando a pouco e pouco.

Os meus companheiros daqui são os Remédios da Fonseca, o filho do António Bernardo
Ferreira, um Brandão de Mello e um outro rapaz, Augusto de Mello. O director da mina é o
Ferreira do Amaral, com quem me tenho dado admiravelmente bem... Isto é fora de vila e
termo. O telégrafo mais perto está em... Viseu! a doze quilómetros... Já sei que estou a ganhar
setenta mil réis no primeiro mês. Distribuíram-me já trabalho urgente que leva uns poucos de
meses a executar.



Respondi-lhe:



20 de Abril 1916



Felizmente tive hoje carta tua; já me estavam tardando as tuas notícias... Ainda há uma coisa
que preciso saber: como estás alojado, se no próprio sítio da mina, se na povoação, como
comes, quanto pagas, etc. Vai-me contando tudo; dize-me se tens muito trabalho e em que
esse trabalho consiste. Enfim, vai-me contando tudo da tua vida. Os incómodos da instalação
não são novidade para ti, que entraste duas vezes em campanha, mas é de esperar que se
modifiquem em pouco tempo.

Enquanto ao ordenado, acho bastante bom para princípio e já dá margem a pores alguma
coisa de parte, o que tão preciso é. Enfim, espero que te não hás-de arrepender de ter
aceitado esse lugar...



Outra carta do Fernando:



Viseu 21 de Abril 1916,
Vim ontem à noite. Aproveitei o ser hoje dia feriado e o ter ido lá ontem à noite o automóvel
da Companhia para vir nele e passar cá o dia. Amanhã volto para lá no comboio das 5 e 50 da
manhã.

A minha vida lá é a seguinte: às 7 ou 7 e meia levanto-me (daqui por diante há-de ser mais
cedo) e vou a uma casa ainda um pouco distante tomar café com leite e pão. Depois vou



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a casa com os meus companheiros a buscar os instrumentos e lá vou para a mina trabalhar nos
levantamentos. Às 6 termina o trabalho. Voltamos então para casa trazer os instrumentos,
passa-se ao desenho o que for preciso e vamos jantar.

Depois do jantar vamos ao que eu chamo soirée, que é para casa do Ferreira do Amaral onde
passamos todos juntos a noite. Por volta das onze voltamos para a cama. Comemos numa casa
inconfortabilíssima com paredes interiores de taipa à espera de argamassa, por onde passam o
vento e a vista, com se paredes não existissem. A comida é má, mas como a vontade é regular,
suponho que não sofrerei de insuficiência alimentar.

Naqueles passeios forçados de uns poucos de quilómetros todos os

dias a trepar e a descer montes altíssimos tenho sentido grande falta de fôlego, mas espero
que com o treino ele aparecerá. Mas a comida custa

-nos sete tostões por dia e por cabeça, o que acho caríssimo.

O meu quarto é o melhor de todos e nele desenhamos também...



Por esta carta pude avaliar quanto era dura aquela vida, por isso respondi-lhe a 24:



Muito me custou ontem passar o Domingo de Páscoa longe de ti! Mais um sacrifício a que a
nossa vida nos obriga; quando terão eles fim?... Também me faz pena que tenhas de fazer
caminhadas tão grandes, todos os dias; espero que te não façam mal à saúde e que te
acostumes a esse exercício a ponto de não sentires o cansaço.

No caso contrário, é melhor não te forçares a continuar... primeiro que tudo a saúde.

Por isso, se te sentires realmente cansado, não deves deixar de consultar um médico e de te
fazer auscultar, para saberes se deves continuar ou não.
A vida ao ar livre não pode deixar de ser boa para a saúde, mas quando já se não tem vinte
anos e se passou pelo que tens passado, já se não tem também as forças dos vinte anos...

E não podias arranjar um animal que te levasse lá acima?... Dize-me tudo, pois quero seguir o
mais de perto possível a tua vida...



Do Fernando:



São Cosmado, 11 de Maio de 1916,



Estava anunciada em Viseu a ida de uma comissão para fazer propaganda a favor da guerra.
Devia chegar às 2 e meia pelo Vale do Vouga e prepararam-se músicas para os receber e
acompanhar. Não chegaram.



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Os foguetes que deviam anunciar a sua vinda só estoiraram às 7 da tarde. Não sei se falaram e
o que é que disseram àquelas três dúzias de pessoas que estavam preparadas para os ouvir.

Contaram-me que tinha havido vivas soltados e correspondidos por 6 homens!...



Respondi-lhe:

Não me admira o fiasco da comissão que foi a Viseu fazer propaganda a favor da guerra. O
entusiasmo parece ser cada vez maior; aqui o que se vê escrito nas paredes é: "Abaixo a
guerra! Viva a paz!"

Mas parece que apesar de tudo o Afonso Costa declara que em Outubro não fica um homem
válido em Portugal...



Outra carta do Fernando:



12 de Maio de 1916,
Acho que escreves pouco. Deves-te lembrar que aqui estou sempre ansioso por notícias,
principalmente enquanto estiveres aí na nascente de todos os barulhos. Procura ir depressa
para Mangualde. Muito o desejo por ter possibilidade de ter ver, o que aí é impossível e para
meu descanso, pois estou sempre em sobressalto por causa dos boatos que constantemente
correm...

Também eu tinha o maior desejo de me ver em Mangualde, mas motivos imperiosos - em
geral doença minha ou dos pequenos - vinham sempre contrariar os meus projectos,
obrigando-me a adiar a partida, o que me afligia por minha causa e por ele.

Em 11 de junho escreve-me:



Estes adiamentos constantes sempre que estás longe de mim e te resolves a vir para ao pé me
portent sur les nerfs de uma maneira atroz. E então neste momento que tenho de tratar duma
greve vêm aumentar ainda mais um nervosismo que bem precisava do meio da família com os
seus interesses próprios e o seu carinho para se recompor.

Porque me parece que tu entendes que é o papel de sacrificado o que melhor me convém e
pouco te importas com isso. Na actual situação em que estou, só podendo ter o prazer da
vossa companhia um ou dois dias por semana parece incrível como te não apressas e adias de
sábado para sábado a tua vinda, como se nos outros dias não houvesse comboios



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vindo na primeira oportunidade não impedisses de aparecerem novos motivos de adiamento
para a continuação de uma vida que já me vai pesando demasiado para a poder suportar. É de
mais. Por mais justos que

sejam os motivos - e não duvido que o sejam - parecia-me bem que mostrasses um empenho
que talvez removesse os obstáculos.

E no meio disto a greve...



Esta carta era injusta e ele bem o sabia, mas eu dava o desconto ao estado em que ele devia
ter os nervos com a vida que levava. A tal greve conseguiu vencê-la rapidamente, tomando a
medida enérgica de suspender o trabalho na mina.

Tivera ela como pretexto o quererem pôr fora um empregado que não agradava aos operários,
mas a perspectiva de deixarem de ganhar depressa os fez voltar ao bom caminho, do qual não
tornaram a afastar-se.
Por fim, em meados de junho parti para Mangualde. O Fernando ia lá passar os fins de semana
e uma vez fui eu à mina buscá-lo. O Fernando Mancelos e a mulher, que estavam na mina,
foram também mais de uma vez passar esses dias connosco. Como São Cosmado ficava longe e
fora de mão, o Fernando tinha combinado com o Tower que ele o mandaria pôr em
Mangualde no automóvel da Companhia.

Fez isso algumas vezes, mas um dia faltou ao combinado, sob o pretexto de avaria no carro, o
que o Fernando soube depois não ser verdade. Isto aborreceu-o e deu a demissão. Para mais o
ordenado era pequeno, não passando de 75$00 mensais, apesar do Fernando ser já nessa
altura director da mina e ter muito trabalho, sem falar da responsabilidade.

Embora deixando de fazer serviço na mina, o Fernando não se desligou por completo da
companhia. Entretanto o Tower foi mudado, sendo substituído por um outro americano
chamado Magill, pessoa mais tratável e educada, que mostrou desejo de conservar um
empregado tão competente como era o Fernando.

A mesma companhia adquiriu outra mina em Alvarenga, perto de Castelo de Paiva, que o
Fernando foi dirigir em 1917, mas também pouco tempo lá ficou.

O Verão de 1916 foi bastante animado em Mangualde. De dia jogava-se o ténis e à noite a
batota (monte) de que meu sogro muito gostava e que até as senhoras jogavam.



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Em Nelas estavam vários oficiais milicianos, entre outros os dois Estarrejas, Sacramento
Monteiro, Ferreira Lima, e o Solano de Almeida, casado com uma inglesa, que organizou um
concurso hípico seguido de baile no club da terra. Em Mangualde houve um torneio de ténis e
várias pequenas soirées dançantes muito animadas. Esboçaram-se vários namoros, dois dos
quais, pelo menos, deram em casamento: o Sacramento Monteiro com a Pilar Rosado e o
Ferreira Lima com a Maria Francisca Tavares.

Em Viseu havia também um grupo do qual faziam parte os Amarais, quando estavam em São
Salvador, e o Augusto Malafaia, um simpático rapaz, que pouco tempo depois foi
barbaramente assassinado. Esse crime, que causou uma enorme sensação, foi praticado por
dois rapazes, um dos quais, chamado Fernando Novais, era primo da vítima e o outro, José
Bettencourt, estava noivo de uma irmã desse primo. Foram procurar o Malafaia à sua quinta
de Serrases e mataram-no a tiro. Perseguidos pelos criados da quinta, teriam sido linchados se
a irmã do Malafaia não tivesse intervindo para os proteger. Passou-se esta horrível cena no dia
26 de julho de 1917. O julgamento foi sensacional; os criminosos invocaram em sua defesa que
o Malafaia difamara a prima e por isso tinham tirado aquele desforço. Mas muita gente não
acreditou nesta versão.
Foram condenados e cumpriram a pena em África, onde a Eugénia Novais foi ter com o noivo,
casando com ele.

Passámos em Mangualde o inverno de 1917. No verão fui para Mateus e no dia 4 de Outubro
foi o Fernando tomar conta da mina de Alvarenga. Antes disso andou com o Leipold - outro
agente da companhia - a visitar várias outras minas.

Em carta de 12 de Outubro descreve-me a casa do Conde de Castelo de Paiva, onde pernoitou:



A casa não é arquitectonicamente bela, muito longe disso, mas tem em casa muita
preciosidade. Um prato de prata que ele me mostrou é preciosíssimo. Tem uma vitrine com
todos os pergaminhos e documentos relativos à família. Contou-me que tinha visto uma coisa
igual em casa do Duque de Alba e lembrou-se de a imitar. Essa vitrine e um armário de vidro
cheio de vestimentas e arreios antigos, forma a mobília da casa de entrada, tendo nas paredes
árvores genealógicas enormes e que ele diz estarem comprovadas pelos documentos da
vitrine...



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Em carta anterior à sua chegada a Alvarenga refere-se à nossa entrada na guerra e, por se
tratar de um assunto da nossa história e

também pelo seu interesse, merece ser transcrita.



Entre-os-Rios, terça-feira, 2 de Outubro, 1917,



Às 5h40

Encontrei em Penafiel o Almiro de Vasconcelos que voltou para o front depois dos seus vinte
dias de licença. É agora capitão de artilharia. Lembras-te dele? Ele mandou-te muitos
cumprimentos. Conta coisas interessantíssimas. Disse que se dão com os ingleses... mal...
pessimamente... o pior possível... até lá tem havido guerra. Com os franceses não, porque não
os vêem, têm ingleses à direita e à esquerda. Os ingleses põem um oficial inglês ao pé de cada
comando português e escolhem um que arranhe português... que confiança!

Pois o Sir Douglas, o general comandante dos ingleses, mandou ultimamente uma nota
dizendo que as tropas portuguesas eram indisciplinadas e que se não mudassem teria que as
retirar do front para as fazer ter um período de instrução com oficiais ingleses.

O Tamagnini zangado com o governo e triste com tudo isto quis vir-se embora, tanto mais que
ele está lá comandando um corpo de exército composto de duas divisões das quais só uma
tem material!... A outra não tem armamento e agora com a vinda dos americanos, para eles foi
tudo quanto parecia destinar-se à 2.a divisão portuguesa! Disse-me que corria por lá uma
caricatura intitulada "Portugal na Guerra"; representa uma mesa de jogo rodeada por pontos
bem vestidos e junto deles um roto e remendado de chapéu desabado que se não quer ir
embora, apesar de todos o receberem mal. Mas ele não se quer ir porque "tem um palpite" e
quer jogar um tostão, ou qualquer pequena moeda desse valor. Os outros dizem-lhe que o
mínimo da parada é (supunhamos) 100$000 réis e não querem que ele jogue. Mas ele com o
"palpite" insiste e os outros dizem-lhe: -Então jogue lá o seu tostão!" E então, com pasmo
geral, o remendado volta-se para aqueles que lhe consentiram que jogasse e pede-lhes o
tostão emprestado!!! Tem piada mas... raios os partam!

Contou também que parece que os alemães não querem fazer mal aos portugueses,
consentindo-lhes impunemente - a não ser em ocasião de guerra, isto é de bombardeamento e
tiros - que se mostrem nas trincheiras, vão pendurar roupa lavada nos arames farpados, no
que os alemães os imitam! e não tentando contra nós nenhuma ofensiva, talvez por estarem
certos de que nós não podemos tentar ofensiva contra eles por falta de munições, armas,
enfim, por falta de muita coisa. Osda fora da trincheira. Mas inglês que tente fazer o mesmo



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é infalivelmente morto, pois eles estão a pouca distância e usam umas lunetas de pontaria nas
espingardas que as tornam certeiríssimas. Se aparece um inglês na trincheira, põem-se de lá à
coca e se se mostra segunda vez é homem morto. O termo "ocasião de guerra" é dele. Diz que
há imensas convenções tácitas. Há, por exemplo, duas pequenas povoações em frente uma da
outra, uma ocupada por gente nossa, outra por alemães. Nem de cá atiram para lá, nem de lá
para cá. No outro dia os alemães atiraram sobre a nossa aldeia umas seis granadas.
Imediatamente todas as baterias de cá atiraram sobre a outra com cem granadas de gases por
peça! Lá não responderam e ficaram bons amigos, como dantes.

Está claro que de vez em quando, de lá para cá ou de cá para lá, pensam fazer um raid e então
é tiro de meia- noite.

Os gases asfixiantes é que são incomodíssimos. Usam umas máscaras de borracha com olhos
de vidro que ajustam à cara e apertam no pescoço. Há um aparelho que aperta o nariz e uma
"mamadeira" que se mete na boca e por onde se aspira e se expira.

Um jogo de válvulas faz com que o ar expirado siga um caminho diferente do ar aspirado.

O ar aspirado é obrigado a atravessar um recipiente que tem carvão e não sei que mais; um
verdadeiro filtro para o ar. Com a máscara posta custa a respirar e portanto a falar. É uma
maçada principalmente quando o alarme os vai encontrar a dormir.
É pôr a máscara a correr e dizer adeus ao sono... Disse coisas terríveis do material de artilharia,
pois não têm aparelhos para verificar o seu estado. Já rebentaram quatro peças e só tinha seis
peças de reserva!

Dessas já foram duas substituir duas que se inutilizaram e só ficaram com 4! Mas sem
verificações não têm confiança nas peças, que dão maus tiros. Os ingleses não se fartam de
verificar as deles, mas não nos fornecem aparelhos para verificar as nossas! Disse que uma das
razões da nossa infantaria não ter poder ofensivo é a falta de instrução dos homens que daqui
vão. Como todos, tem a impressão do "empate" e de que todos - principalmente os franceses -
estão desanimados e esgotados. Se não fosse a América, as pazes estavam feitas...



Esta carta pinta bem a nossa triste situação na guerra e patenteia eloquentemente a loucura e
a inconsciência dos que nos atiraram para

ela sem preparação, sem armamento e sem ninguém nos querer lá. Podia ter sido a nossa
ruína; ainda nos podemos considerar felizes por ter saído dela sem nada ganhar, mas também
sem nada perder...



142



Sidónio Pais.




Pouco tempo esteve o Fernando em Alvarenga, sendo esta a sua última experiência de
trabalho nas minas. Foi ter connosco a Mateus, onde passámos o resto do Verão e princípio do
Inverno. Ali estávamos quando rebentou a revolução de 5 de Dezembro de 1917.

Esta revolução - nova tentativa para levantar o país da lama em que se estava afundando - foi
coroada de êxito.

O seu chefe, Sidónio Pais, que até à véspera era quase um desconhecido, passou de repente ao
primeiro plano. A sua figura insinuante, o seu garbo, a sua valentia serena, a simpatia que dele
irradiava, tudo concorria poderosamente para o prestígio que desde logo exerceu no povo e
em todos os que sinceramente queriam o bem do país.

Chegou a inspirar verdadeiras adorações e os monárquicos eram os que o acolhiam com maior
entusiasmo. Sabendo embora que as suas ideias não eram monárquicas, esperavam que a sua
ditadura fosse o primeiro passo para a restauração da monarquia; era, pelo menos, a morte do
domínio da demagogia, sob o qual a nação gemia havia sete anos. O país respirava!... Tinham
acabado as violências, as perseguições, o terror; já todos podiam ter o seu lugar ao sol. Foi um
delírio!
Tudo quanto se sabia dele era simpático; diziam-no bondoso, caritativo, amigo das crianças e
dos pobres. E quando passava nas ruas de Lisboa, a cavalo ou de automóvel aberto, todos se
descobriam à sua passagem como se fosse um rei... ou um santo. Em breve se formou à sua
volta um grupo de rapazes entusiastas e dedicados, que foram chamados os "Cadetes do
Sidónio", a maioria dos quais eram monárquicos.



143



Em Abril de 1918 realizaram-se eleições de senadores e de deputados. Apesar de ser avesso à
política, o Fernando não pôde resistir às instâncias de meu pai, que queria elegê-lo senador
pelo distrito de Vila Real. Meu pai fora o chefe do partido progressista nesse distrito e embora
os partidos políticos tivessem acabado com o advento da república, os seus chefes
conservavam a influência de outros tempos. O Fernando foi, pois, eleito e a sua política era de
apoio incondicional ao Sidónio. Era esta a política seguida, aliás, por todos os monárquicos e
aconselhada pelo próprio Rei D. Manuel.

Na minha carta de 9 de Abril conto ao Fernando como se passaram as eleições em Lisboa:

Aqui correu tudo no maior sossego, felizmente. Na véspera não faltaram boatos e realmente
era crível que os democráticos quisessem perturbar a ordem e impedir assim que se
realizassem as eleições. Mas, se o quiseram fazer, não o puderam. Como decerto viste nos
jornais, a maior

parte dos presidentes das assembleias, que pelo visto eram democráticos, não apareceu, o
que deu o resultado de na maior parte serem presididas por monárquicos, que assim mais uma
vez salvaram o Sidónio de uma situação crítica.

Volte-se ele para onde se voltar, é sempre com eles que se encontra...



O Fernando estava então em Mangualde, mas foi a Mateus por essa altura. Continuava a
interessar-se pelas minas de volfrâmio que - devido à guerra - eram exploradas com furor, por
toda a parte onde se encontrassem. Foi, por esse motivo, a Bragança, onde pensava obter
colocação, mas este projecto também não deu resultado.

Em Maio fui com os pequenos e minha mãe passar uns dias no Monte Estoril, no hotel
Miramar. E ainda nesse mês veio o Fernando a Lisboa, de onde voltou para Mangualde,
levando consigo o Francisco. Eu continuei em Lisboa com as pequenas e minha mãe.

Tencionávamos todos ir passar o verão em Mateus, mas meu pai pôs embaraços a esse
projecto, dizendo que o ano agrícola tinha sido mau e que escasseavam os produtos da horta.

Minha mãe resolveu então ir para a Praia da Granja. Já não havia lugar no hotel; fomos
hospedados numa espécie de sucursal,
144



uma casita pequena sobre a praia, e íamos comer ao hotel. O Fernando apareceu lá de vez em
quando, sempre de fugida.

Em Outubro apareceram os primeiros casos da terrível epidemia chamada peste pneumónica,
que se espalhou pelo mundo todo e ceifou mais vidas - dizem - do que os quatro anos de
guerra que a precederam. Atribui-se a esta a sua causa, mas creio que ainda hoje ela não está
bem esclarecida. Na Granja fez poucos estragos; esteve muita gente doente, mas houve
apenas três casos fatais. Um deles foi a Francisca Paraty, cunhada do Couceiro. Toda a família,
incluindo ele próprio, tinha vindo da Galiza e estava veraneando na Granja. Tinham vindo
porque o Sidónio promulgara uma ampla amnistia para todos os crimes políticos.

Os ares, contudo, não estavam serenos; os democráticos não se resignavam a ter perdido o
poder e mexiam-se na sombra.

A muita gente repugnava, por princípio, o sistema de governo em ditadura, e até os
monárquicos começavam a estar descontentes por ver que não podiam contar com o Sidónio
como de princípio julgavam. Mas esses não conspiravam e continuavam a apoiá-lo.

E ele continuava a ter fanáticos. A sua popularidade aumentou com a sua atitude em face da
epidemia; visitava os hospitais, sentando-se à cabeceira dos doentes; fundou sopas para os
pobres; socorria as viúvas e os órfãos. A sua caridade não tinha limites.

Mas o crime não desarma e nos antros onde ele se gera estava o Presidente já condenado à
morte. Os assassinos esperavam apenas a ocasião própria para pôr em prática o seu sinistro
intento. Em Dezembro celebrou-se o primeiro aniversário da revolução e durante essas festas
houve um atentado frustrado, que devia ter servido de aviso. Mas o Sidónio era destemido e
imprudente; não acreditava que lhe quisessem mal, visto ele não fazer mal a ninguém. Ou
então contava de mais com a sua boa estrela!...

Estava anunciada a sua visita oficial ao Porto, devendo embarcar às 11 da noite do dia 14 de
Dezembro na estação do Rossio.

Na gare estava muita gente à sua espera e um grande número de polícias, julgados suficientes
para manter a ordem. Mas ao transpor a porta, do meio da multidão foram disparados uns
poucos de tiros de revólver, que o feriram mortalmente. Transportado imediatamente ao
hospital de São José, chegou ali já morto.



145
O assassino, José Júlio da Costa, escapou de ser morto ali mesmo por a polícia querer
interrogá-lo, na esperança de lhe arrancar a confissão de quem lhe armara o braço, pois era
evidente que ele era apenas o instrumento de que os verdadeiros culpados se tinham servido.
Julgo que nunca falou, decerto preso por um terrível juramento. Julgado e condenado, teve
mais tarde manifestações de loucura que levaram a interná-lo em Rilhafoles, onde veio a
morrer em 1946.

A morte do Sidónio perturbou profundamente o País. Os democráticos criaram alma nova,
vendo-se livres do seu maior inimigo e antevendo a possibilidade de tomar novamente conta
do poder.

Dos seus adeptos, nenhum reunia o conjunto de qualidades necessárias para lhe suceder.

Os monárquicos conservavam-se na expectativa, e o país chorava a perda daquele homem
extraordinário, que não tivera tempo de realizar o seu plano de saneamento e de
engrandecimento da sua pátria e que morrera no seu posto. O seu enterro foi uma
impressionante manifestação de dor e saudade; incorporaram-se nele centenas de mulheres e
de crianças que choravam o seu benfeitor. Hirtos, contendo as lágrimas, os seus Cadetes
rodeavam o singelo armão de artilharia em que ele era levado para os Jerónimos e no povo,
que formava alas à sua passagem, havia lágrimas em muitos olhos. Na sua singeleza, aquele
enterro foi uma apoteose!

Dias depois, um dos seus mais queridos companheiros de armas, Teófilo Duarte, que estava
ausente de Lisboa no momento da sua morte, chegou e quis logo ir visitar o grande amigo que
tão brutalmente lhe fora arrebatado. Ao vê-lo estendido sem vida no seu caixão, o seu
desespero foi tão grande que se não pôde conter e com os copos da espada partiu a tampa de
vidro que o cobria, para lhe dar um último abraço.

Entretanto o país agitava-se; aos democráticos opunha-se o elemento militar. Formaram-se as
Juntas Militares - compostas em grande parte de elementos sidonistas e monárquicos - que
quiseram tomar conta do país pelas armas. Santarém foi tomada; Vila Real bombardeada e
tomada também; correu sangue. Desencadeou-se a guerra civil.

Assim começou o ano de 1919.



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Monarquia do Norte




Minha mãe e eu tínhamos voltado para Lisboa no dia 13 de Dezembro, véspera do assassínio
de Sidónio. O Fernando estava quase sempre em Mangualde e era para mim um descanso
sabê-lo
lá. As suas cartas, embora revelando uma certa inquietação quanto ao que se estava passando
no país, provavam que ele estava completamente alheio à agitação política.



Mangualde, 2 de janeiro, 1919,



Minha querida,



O que estará acontecendo, ou para acontecer?

No meio deste grande sossego que me cerca não é possível adivinhá-lo! Chego a supor que
estou na China, ou que Lisboa é na Rússia. Que pena não vos ter trazido a todos, a ti
principalmente com os teus nervos tão excitados! As notícias só se sabem pelos jornais que
chegam atrasadíssimos e... censurados...

Calculas a alegria de toda a gente quando me viram. Não queriam acreditar. Mas não sei nada
do que se passa, apenas que Viseu estava todo aderido à junta do Norte, mas mandaram para
cá um general que é, nem mais nem menos, que aquele célebre Hipólito que prendeu o
Machado Santos em 13 de Dezembro. Pois esse começou a destituir uns e a prender outros e
neste momento não sei se Viseu é governo ou junta...

Em 4 de janeiro:



Parece que a meada política se embrulhou. Em Viseu prenderam o Abel Hipólito que para lá
tinha ido comandar a divisão



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por ordem do Governo. Logo que tomou posse do cargo correu a Lamego, mandou marchar o
regimento e conjuntamente com forças de Vila Real assenhoreou-se da Régua. A Junta do
Porto mandou para lá um destacamento e as forças da Régua fraternizaram e renderam-se. De
volta a Viseu foi o Abel Hipólito preso e um delegado da junta tomou conta da direcção militar.
A embrulhada é, pois, grande e a minha grande pena é não vos ter trazido para aqui comigo.
Há, contudo, optimistas e sinto muito não pertencer a essa categoria, embora o meu maior
desejo seja que se evite uma guerra civil, ou, pelo menos, distúrbios fortes e graves, pois julgo
esta a pior hora para tal efeito.
Mas não tenho, nem quereria ter, a menor influência nas resoluções que se vão tomando e é
com verdadeira dor de alma que pressinto cada vez mais longe a pacificação do conflito. Não
deixes de me dar notícias apesar da censura, pois é provável que pelo menos cheguem notícias
das saúdes, que são na hora presente as que mais me interessam. Escreve todos os dias que eu
farei o mesmo. Ontem não escrevi por o querer fazer, como fiz, ao meu Leader para que ele
me chame telegraficamente se me quiser no parlamento.

Pelo meu lado escrevia-lhe em 2 de janeiro:

Por cá tudo continua no maior sossego, e a opinião geral é que tudo se harmonizará sem
efusão de sangue. Deus o queira!

Viste que o Pellen foi nomeado comandante das tropas da guarnição de Lisboa?

Decerto foi já uma satisfação dada à junta, mas não pode ser a única e o Tamagnini há-de
compreendê-lo, se é inteligente como dizem...

O Fernando [meu irmão] falou ontem com o José Paulo, que lhe contou coisas interessantes
sobre o movimento actual. Parece que ajunta continua firme e que não recebeu os emissários
do governo. O que se passa em Viseu deves tu saber melhor do que eu, visto estares aí mais
perto. Seja qual for a solução desta questão, decerto se não fará esperar muitos dias...



E a 4:



Eu bem sei por experiência própria a ansiedade que se sente quando se está longe e sem
notícias do que se está passando pelo mundo. Por isso avalio bem o teu estado de espírito.
Felizmente até aqui os teus receios têm sido absolutamente infundados; o sossego tem sido
absoluto e, a ser verdadeira a nota oficiosa que publicaram os jornais da manhã,



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já não há razão para sustos. Ainda se não sabe como foi solucionada a crise, mas como o foi
depois de longas conferências com os delegados das juntas Militares, a que assistiram também
os leaders dos vários partidos, é de esperar que a solução fosse no sentido que o exército e
toda a gente de bem deseja. Deus o queira!

Todos estes dias correram os mais aterradores boatos; e parece que os elementos
democráticos passaram as noites nas ruas a vigiarem os quartéis, mas felizmente não houve a
mais pequena alteração da ordem.
Hoje já se deve saber ao certo o que há. O governo proibiu a manifestação democrática que
estava projectada para amanhã.

[...] Falei agora pelo telefone com o Satúrio Pires, a quem perguntei se sabia mais alguma
coisa. Disse-me que por enquanto nada mais se sabia; que parecia que tinham chegado a
acordo e que o ministério seria presidido pelo Tamagnini. Vamos ver se logo à noite se sabe
alguma coisa mais concreta...

Em 5:

Aqui continua o maior sossego, pelo menos na aparência. A recomposição ministerial faz-me o
efeito que não deve agradar nem a uns nem a outros.

O ministro da guerra dizem ser bom e competente, mas como está de má vontade é provável
que não faça tudo quanto se devia esperar de quem ocupa esse lugar.

Vê-se que as juntas Militares tiveram de transigir, mas decerto o não fizeram sem que o
Tamagnini também pela sua parte tenha tomado compromissos importantes que as Juntas
julguem necessários para manter a ordem... Não tenhas cuidado em nós. O que é preciso é
que te ponhas bom e sossegues esses nervos...

De facto a saúde do Fernando deixava a desejar; tinha uma bronquite crónica que o levou por
mais de uma vez a deixar de fumar para tentar curá-la; e estava com um princípio de
neurastenia que esperava lhe passasse no sossego de Mangualde.



A 6 escreve-me:



Quanto a política ainda vejo longe a paz definitiva. Pelos jornais vê-se que os grupos civis só
muito contra vontade se sujeitam à inacção e que continuam armados. Nestas condições basta
um boato tendencioso para fazer arrebentar uma dúzia de bombas. O melhor do que corre, se
for verdade,



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é a substituição do Lobo Pimentel na polícia onde se tem farto de fazer asneiras. Só devido a
ele é que houve perigo de alteração da ordem, na minha opinião...

Eu continuo abusando da cama, de onde te escrevo; são duas e meia. Mas já que se trata de
me tratar, tratemos de nos tratar com descanso...
Em 7:



Não há telégrafo! O meu telegrama para a Maria Teresa com parabéns e saudades foi-me
devolvido da estação por estar interrompido o serviço... Corre por aqui que o Porto não teria
visto com bons olhos o acordo feito em Lisboa pelos delegados da junta e estaria disposto a
désavouer os seus delegados e continuar nas suas reclamações. Não sei o que isto tem de
verdade, mas tudo o que se passa e tudo o que se ouve dá a impressão de uma preparação
para uma guerra civil que oxalá se evite.

Davam os jornais notícia do acordo e passavam por aqui oficiais de Viseu para a Guarda onde
iam em missão, segundo se conta. Soldados de um regimento qualquer afecto ao Governo de
Lisboa vão apresentar-se no seu regimento, por esse regimento ter chamado as reservas,
contava-se que às escondidas ou sem conhecimento do respectivo Quartel-General. E assim
anda tudo!

Apanhei hoje a 7.a injecção de neurostanol e começo a sentir evidentes melhoras no meu
estado geral. Deixei de comprar cigarros e só fumo quando topo com qualquer fumador que
me oferece um cigarro. Mas dentro em pouco nem desses fumo. Isto também tem concorrido
para as minhas melhoras.

O que era bem preciso era que isto entrasse em paz e que eu depois de restabelecido aí possa
ir descansar e gozar um pouco em vossa companhia. Tanto me lembra hoje a querida Maria
Teresa longe de mim no dia dos seus anos...

O seu desejo, infelizmente, não o pôde realizar e não tardou muitos dias que ele se visse
envolvido na tempestade da qual naquele momento parecia tão afastado.

A embrulhada cada vez era maior e no meio dela os monárquicos não estavam inactivos.
Embora as juntas fossem de feição conservadora e até nelas colaborassem monárquicos, a
verdade é que o

seu fito não era implantar novamente a monarquia, mas simplesmente continuar a política do
Sidónio e afastar os democráticos do poder. Isto, para muitos monárquicos,



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era uma situação dúbia que os não podia satisfazer e muitos pensavam, sobretudo no Norte e
especialmente no Porto, que a ocasião era boa para tentar uma mudança de regime. Formou-
se um comité e ofereceram ao Couceiro, que se encontrava em Lisboa e que aceitou, tomar a
chefia do movimento. Dizia-se que El-Rei o aprovava e até se citava a célebre frase de uma
carta dele para Ayres d'Ornelas: "Go on!" Mais tarde o Ayres e outros negaram, não a
existência da carta - que até foi reproduzida em fotografia -, mas que a significação da frase
fosse a que lhe atribuíam.

Fosse como fosse, foi de boa-fé e com entusiasmo que os monárquicos do Norte a tomaram
como lema.

As negociações prosseguiram no maior segredo e sem que o governo suspeitasse do que se
estava passando. O Couceiro seguiu para o Porto e marcou-se o dia 19 de janeiro para a
proclamação da Monarquia.

Entretanto o Fernando em Mangualde e eu em Lisboa estivemos alguns dias sem podermos
comunicar devido a uma greve dos caminhos de ferro e só no dia 15 se reatou a nossa
correspondência com a seguinte carta dele:



Mangualde, 15 de janeiro, 1919,



Desde o dia 6 ou 7 que estamos aqui sem correio e por isso também não escrevi... Ontem, veio
o correio de 8 e 9, ao mesmo tempo que se sa

bia que a linha férrea continuava interrompida desde a véspera do Entroncamento para lá.
Supõe-se que fosse correio que tivesse ficado de

tido em Coimbra ou Pampilhosa e que agora deixassem seguir.

Eu estava para ir para aí na segunda-feira 13, mas à segunda-feira só

há comboio à tarde e ao meio-dia soube-se da linha cortada no Entroncamento, tendo por isso
desistido da viagem.

Ontem dizia-se que a revolução estava de posse de Santarém e redondezas e que ao mesmo
tempo tinha havido coisas em Leiria e na

Covilhã. A falta de notícias e o boato de haver coisas em Leiria fizeram-me desistir de seguir
pela Figueira e Caldas para aí.

Estou-te a escrever e não sei se a carta pode ou não seguir, mas é só para descanso da
consciência, pois estou arrependido



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de não ter continuado a escrever apesar da interrupção do correio, pois sempre podia calhar
seguir a carta por outro lado.
Tenho estado em grande cuidado e arrependidíssimo de vos não ter trazido comigo quando
vim. Aqui o sossego é absoluto. Correm notícias satisfatórias de Lisboa e isso me descansa,
mas sem jornais daí nem correio, fico sempre na dúvida se todos estão bem. Por aqui passou
uma força de artilharia para se juntar às forças da Guarda que devem marchar sobre a Covilhã,
onde parece que a revolução tomou o carácter bolchevista, com chacinas e tudo.

Enfim, Deus faça que depressa passem estes dias de cuidado para eu realizar a minha viagem e
nos tornarmos a encontrar...



Quatro dias apenas depois de escrita esta carta encontrava-se ele no meio da fogueira! Foram
buscá-lo ao sossego de Mangualde para o atirar para lá. Como estávamos longe, ele e eu, de o
prever!

O dia 19 era um domingo. Na véspera recebera com espanto uma carta dele datada do Porto -
que não transcrevo porque a não encontro - em que me prevenia de que alguma coisa se ia
passar. Dizia-me que era possível que viesse a receber um telegrama dele e que, se o
recebesse, devia partir imediatamente para Mangualde. Fiquei admirada ao receber esta carta,
mas bem longe estava de suspeitar da sua gravidade.

Lisboa estava no maior sossego, a vida corria normalmente; julguei que o Fernando tivesse
dado crédito a algum boato sem consistência. Estranhei a sua ida ao Porto, mas mesmo isso
não me sobressaltou, porque a atribuí a uma vaga conspiração para um futuro longínquo, o
que me não dava cuidado imediato. Foi por isso grande o meu espanto quando, na manhã do
dia 19, recebi o tal telegrama que ele me tinha anunciado.

Não sabia o que devia pensar, nem fazer.

Mostrei o telegrama a meu pai, lembrando-lhe a oportunidade de ir falar com o Ayres
d'Ornelas. Aprovou a ideia e resolvi pô-la em execução. Se realmente estivesse alguma coisa
na forja, o Ayres decerto o sabia e não deixaria de mo dizer. Mas não me apressei. Havia nessa
tarde no Politeama um concerto do David de Sousa, ao qual tencionava assistir com minha
mãe e meu irmão e não me pareceu que houvesse motivo para deixar de ir. Ao Ayres iria falar
depois do concerto. Assim fiz, na maior tranquilidade de espírito. Acabado o concerto, fui ao
Rossio tomar o eléctrico para as janelas Verdes, onde o Ayres morava.



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Nisto vi o próprio Ayres, que sossegadamente vinha do seu passeio higiénico na Avenida e ia
tomar o eléctrico para voltar para casa. Bendizendo o encontro, que me dava a certeza de
poder falar com ele, disse-lhe que estava justamente para o ir procurar a casa. Subimos juntos
para o eléctrico, mas eu nada lhe disse, evidentemente, durante o trajecto. Ao chegar a casa,
fez-me subir para o seu escritório.
Então ali, sem receio de ouvidos indiscretos, perguntei-lhe à queima-roupa: "Ó Ayres, o que
há?"

Olhou para mim espantado e respondeu: "Que eu saiba, nada.

Contei-lhe então do telegrama que recebera nessa manhã. Nisto abriu-se a porta e entrou a
Juju na maior perturbação. Disse ao marido: "O Tamagnini já telefonou por três vezes; quer
que vás já falar com ele. - Mas o que há?, perguntei eu novamente. - O que há?... A monarquia
proclamou-se no Porto!"

Um raio que me caísse aos pés não me deixaria mais assombrada. Então o Ayres, com
expressão de enfado, exclamou: "- É a tal coisa! O Couceiro quer tudo à ponta da espada,
quando isto pela política ia muito bem!" - cito textualmente as suas palavras, como resposta
àqueles que dizem que ele estava ao facto do que se passava.

Posso testemunhar a sua completa ignorância, assim como a sua reprovação.

Preparou-se logo para ir falar com o Tamagnini, embora convencido de que este o mandaria
prender. Tal não sucedeu, porém; o Tamagnini acreditou na sua boa-fé e deixou-o em
liberdade. O resto pertence à História.

Depois de vários conciliábulos entre os oficiais monárquicos, comandantes dos regimentos e
outros, nos quais se perdeu um tempo precioso quando era preciso tomar uma resolução
rápida e enérgica, resolveram ir para Monsanto... esperar que os atacassem.

Esta infeliz ideia foi quase unanimemente atribuída ao Ayres. Não sei até que ponto foi grande
a sua responsabilidade no caso, mas alguma teve, com certeza. Como lugar-tenente d'El-Rei e
oficial dos mais considerados, a sua opinião tinha um peso excepcional.

Voltei para casa sucumbida. Afinal o Fernando não tinha exagerado; o caso era grave.



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E agora?... o que devia fazer?... Sair de Lisboa?... mas para onde?... O melhor seria ficar... mas
logo no dia seguinte soube pelos jornais que o Fernando fora nomeado governador civil do
Porto. Este facto vinha chamar a atenção dos republicanos sobre nós e podia tornar perigosa a
nossa permanência em Lisboa. Sentia-me incapaz de tomar uma resolução; os outros que
resolvessem por mim. Minha cunhada condessa de Seixal lembrou Sintra, terra pacata onde eu
era desconhecida. Meu pai concordou.

Tomaram-se quartos no Hotel Nunes e para lá parti com os meus filhos no dia 22.

A beleza e o sossego de Sintra acalmaram-me os nervos. Mas na manhã de 24 correram boatos
emocionantes. Dizia-se que em Lisboa também fora proclamada a Monarquia e que Monsanto
fora tomado.
Tinha projectado para esse dia um passeio à Pena, para mostrar aos meus filhos uma das
belezas de Sintra e apesar dos boatos, fomos. Foi pois de lá, do alto do seu magnífico terraço,
que assistimos de longe, pelo telescópio, ao ataque de Monsanto. Distinguia-se perfeitamente
a bandeira azul e branca hasteada no forte, os novelos de fumo das peças a disparar, e até os
vultos dos atacantes que, como formigas, iam trepando pelo monte acima. Espectáculo
impressionante e inolvidável!

De volta ao hotel, procurei ligação telefónica para a nossa casa de Lisboa. Respondeu-me uma
criada e soube então que meus pais tinham ido acolher-se no Hotel Borges, por lhes parecer
mais seguro.

De resto, as notícias eram ainda confusas e desencontradas. Mais tarde, falando com a minha
cunhada Cândida, soube que estava tudo acabado com a rendição dos monárquicos. Que
tristeza! Mas este desfecho era inevitável, dadas as condições em que o movimento se tinha
dado: falta de preparação e de combinação com o movimento do Porto e, sobretudo, péssima
orientação na maneira como foi organizado e realizado. E pensar que o pânico em Lisboa tinha
sido enorme e que o ministério tinha estado reunido no Terreiro do Paço à espera que o
fossem lá prender! Se o tivessem feito, bem diferente teria sido o resultado! Assim, toda a
coragem passiva de que os monárquicos deram provas não podia deixar de ter um fim inglório.



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Porque valentes eram eles todos e entre outros prova-o um dito do Silveira Ramos, que
merece ser celebrado. No momento em que, depois da rendição, os atacantes irromperam no
forte, loucos, desvairados, respirando ódio e vingança - verdadeiras feras à solta - lançando
insultos e impropérios sobre os vencidos, ele, sentado, impassível, assestando sobre eles a
impertinência do seu monóculo cravado no olho, teve esta frase apenas: "Matem-me ... mas
não me chateiem! "

Não o mataram nem, por acaso providencial e quase inexplicável, mataram ninguém. Diz-se
que quem impediu a chacina iminente foram os marinheiros que, misturados com os civis e
mais humanos e generosos do que eles, lhes souberam impor o respeito pelos vencidos.

Entretanto, no Porto, o movimento triunfara sem se disparar um tiro. A Monarquia fora
proclamada - dizia-se - no meio de um entusiasmo delirante. Mas, de Lisboa marcharam
tropas, às quais se juntaram voluntários a quem o governo distribuíra armamento, parecendo-
lhe que eram poucos para combater a hidra monárquica.

Era a guerra civil: Sul contra Norte, pois que todas as províncias do Norte tinham aderido ao
movimento.

Eu passava a vida atormentada pela inquietação e pela falta de notícias. Interrompidas as
comunicações com o Porto, não era fácil tê-las. Todos os dias telefonava para Lisboa para
aliviar a sensação de isolamento por me ver separada de todos os meus, mas notícias ninguém
mas podia dar. Até que um dia uma mão misteriosa deixou cair na caixa do correio da nossa
casa de Lisboa uma carta do Fernando.

Era sobrescritada para a nossa cozinheira.

Não a posso transcrever por não a ter ainda encontrado. Recebi-a no dia 5 de Fevereiro e
respondi-lhe logo pelo correio. Parece incrível, mas a minha carta chegou-lhe às mãos.

No dia 8 tornou-me a escrever pelo mesmo meio a seguinte carta:



8 de Fevereiro de 1919,



Minha querida,



Não tenho notícias vossas desde o dia 19. Não deixa de me apoquentar, e muito, esta falta de
notícias que, percebo bem, não será culpa tua. Mas é uma sombra negra que me persegue



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e somente os inúmeros e constantes afazeres do cargo amaldiçoado e trabalhoso de
governador civil que me impingiram logo de princípio, somente essa constante fadiga
consegue, por momentos, fazer-me esquecer. O que eu mais desejava era que combinasses aí
com qualquer legação estrangeira de forma a obteres permissão para saíres daí e vires até
Vigo ou, preferivelmente Tuy, onde te iria procurar e combinar a nossa vida futura, tendo tu o
prazer de vires até aqui e veres esta ordem, esta normalidade, de vida com teatros e
cinematógrafos dando espectáculos todas as noites e esta confiança no futuro que descansa a
alma.

Eu estou bom, mesmo óptimo, considerando o trabalho verdadeiramente extenuante que
tenho neste infernal cargo. Não é só a política, são os presos, com que eu nada tenho, porque
me coloquei em situação de nem os mandar prender nem os mandar soltar, mas são as
famílias deles a procurar-me sempre. A família de vários voluntários que marcharam para as
várias bases de operações que querem saber deles, os denunciantes, os participantes de coisas
de guerra; até tive que me meter a fazer as pazes entre uma actriz e o empresário; enfim, vida
presa de todos os momentos, pois que desde as 11 até às 7 ou 7 e meia e desde as 10 até às 2
ou 3 da manhã, é um nunca acabar de gente a procurar-me e que preciso atender. Durmo no
governo civil e só saio para comer, uma verdadeira vida de prisioneiro.

Mas não há que pensar em substituir-me.
Disse-me o Couceiro uma coisa muito agradável e amável mas que me fez perder a esperança
de descansar uma semana: "És indispensável." Mas apesar de tanta maçada, dizem que estou
um pouco mais magro, mas tenho saúde e até a bronquite se foi embora apesar de eu fumar
como um granadeiro. Nem penso, no meio desta balbúrdia que é a minha vida actual, em
fumar menos. Vê tu se te podes safar desse inferno e descansar um pouco.

Está claro que teus pais te devem acompanhar, pois decerto necessitam de um pouco de
descanso de espírito.

Mas ao menos procura dar-me notícias por qualquer vapor e por qualquer passageiro que vá
para Vigo e deite lá a carta no correio.

Devias ter recebido carta minha misteriosamente deitada na caixa do correio. Esta não sei se
te chegará às mãos pelo mesmo processo.

É no fim do jantar que te escrevo. No governo civil não arranjei tempo para isso.

Vamos a ver se ela chega com as muito fundas saudades que de todos sinto e com todos os
beijos do meu coração...



Esta carta, escrita cinco dias apenas antes do fracasso, que confiança traduzia ainda, que ilusão
sobre a solidez do regime



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tão facilmente implantado e que, com a mesma facilidade, seria derrubado! Eu queria iludir-
me também, mas no fundo sentia-me triste e apreensiva e a solidão pesava-me atrozmente.
Fui um dia a Lisboa com a Maria Teresa; andava ela a dar lições de piano com um mexicano
chamado Rubio, em casa da Elisa Pedroso, na rua Borges Carneiro, e eu não gostava que as
interrompesse por muito tempo. À saída da casa da Elisa Pedroso disseram-me que havia
barulhos na Baixa, o que me levou a voltar apressadamente para Sintra. Só no dia seguinte
soube o que dera origem a esse boato. Tinham assassinado o capitão Camacho, ao atravessar
o Terreiro do Paço, preso e debaixo de escolta.

Fora preso em Beja e juntamente com ele vinha o José Paulo Amaral, preso também na mesma
cidade. Alguém malevolamente anunciara a sua chegada a Lisboa e tanto bastou para que os
fosse esperar um grupo hostil que atirou sobre eles, como se fossem feras, apesar da sua
situação de prisioneiros e de virem já molestados dos maus tratos recebidos no momento da
prisão.

O Camacho caiu logo morto, não sucedendo o mesmo ao José Paulo porque conseguiu fugir,
indo refugiar-se no posto da Cruz Vermelha.
Eu tinha conhecido o capitão Camacho na Galiza, o que ainda aumentou a impressão que me
causou essa cena canibalesca.

Provava ela quanto os espíritos andavam exaltados. Houve também - não sei se foi no mesmo
dia - uma caçada aos polícias em volta do governo civil, na qual alguns perderam a vida, tendo
meus pais assistido das janelas do hotel à morte de um, que ficou estendido numa esquina do
Chiado não sei por quanto tempo.

Por ver os ares tão turvos que permitiam estes crimes em plena rua, ficando impunes, minha
cunhada começou a achar perigosa a minha estadia em Sintra, onde havia republicanos
exaltados que podiam torná-la desagradável, no caso de conhecerem a minha identidade.
Dizia-me pelo telefone: "Tu aí não estás bem; vem antes cá para casa, que aqui nada te pode
acontecer." Não me convencia de que ela tivesse razão, mas não querendo tomar a
responsabilidade acedi ao seu alvitre. Fui, com a Maria Teresa, para casa dela e mandei os
outros pequenos para o hotel, onde estavam os avós. Em boa hora se fez essa mudança no dia
12 de Fevereiro, pois que logo no dia seguinte se deu a contra-revolução no Porto e teria sido
para



157




mim muito desagradável conhecer essa triste notícia pelas ruidosas manifestações de
entusiasmo da gente de Sintra. A ideia da Cândida fora providencial. Pelas 4 horas da tarde
ouvimos o estralejar de foguetes e pelo telefone soubemos a sua significação.

Começou então o meu calvário da absoluta ignorância sobre o destino do Fernando. Os jornais
nada diziam, o que me dava quase a certeza de ao menos estar vivo. Mas em que condições?
Estaria preso, fugido, escondido?

Doloroso ponto de interrogação, que durou oito longos dias! Por fim vi num jornal uma notícia
que acabou com aquela cruel incerteza; era a seguinte: o cônsul de Inglaterra fora ao Aljube
visitar os presos e estivera a falar com o Conde de Mangualde. Estava então preso! Cheguei a
sentir um alívio, não podendo adivinhar as terríveis condições em que ele se encontrava e que,
pela misericórdia Divina, eu ignorava.

Logo no dia seguinte a ter esta notícia recebi a seguinte carta:



Exma. Senhora,
Venho desempenhar uma missão muito desagradável: participar a V. Exa. que seu marido, o
Sr. Conde de Mangualde, se acha preso às ordens das autoridades da República, no Porto, e
está no Aljube num quarto onde felizmente não sofre os horrores que outros presos sofrem

e já sofreram nos calabouços e enxovias.

É uma mulher republicana que lhe escreve e que teve o marido preso, às ordens da junta
Monárquica, na referida cadeia, em condições bem terríveis. O marido de V. Exa. não pode
comunicar-lhe esta notícia - visto que se encontra na mais rigorosa incomunicabilidade.

De V. Exa.



Emília de Camacho



Esta carta veio pelo correio, com o carimbo do Porto de 17-2-19 e sobrescritada apenas:



Sr.a Condessa, Calçada dos Caetanos, 58, Lisboa.



De quem seria? Só mais tarde vim a sabê-lo. Desistindo de desvendar o mistério, procurei
animar-me com o seu conteúdo.

Notícias directas do Fernando, quando as teria? Tinha de me contentar com estas indirectas,
esperando que me dissessem a verdade.



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Calculando quanto ele estaria ansioso também por notícias nossas, comecei a escrever-lhe
postais, embora na dúvida se chegariam ao seu destino. Num deles, que recebeu, dizia-lhe:



23-2-1919,



Estamos todos bem; tenho escrito, espero que já tivesses notícias nossas. Tenho tido notícias
tuas; sei que felizmente estás bem. Logo que seja possível, vou ver-te. Mil saudades.



Mas nem todas lhe chegavam às mãos.
Recebi, por fim, uma carta escrita a 6 de Março em que dizia:



Aljube, quarto n.o 17,



Para minha mulher,



Estou bem, mas preciso de notícias tuas e de todos, todos os dias, senão vou-me abaixo.

Estou neste momento bastante apoquentado porque há muito tempo que não as tenho.

O comissário da polícia disse-me que se tu cá viesses que consentia que me visitasses. Se
vieres, deves dirigir-te a ele.

Como parece tratar-se de processos e de julgamentos, é preciso pensar-se em advogado.
Lembrava-me do Cunha e Costa. Quererá ele? Estará ele em Lisboa? Quanto quererá ele por
isso? O meu caso é simples e só lhe pode dar honra. Vê se tratas disto.

Mas notícias de vocês todos é que me são necessárias. Manda todos os dias um bilhete-postal
e de vez em quando uma carta só com notícias das saúdes.

Adeus, milhões de beijos para os pequenos e todo o meu sentir para os grandes.

Teu marido m.to, m.t a.go.



Mas a primeira carta que me escreveu depois da sua prisão não foi aquela; foi esta:



Aljube do Porto, 20 fev. 1919,



Estou doido por receber notícias vossas.

As últimas que tive eram datadas de 19 de janeiro. Responde para aqui, onde estou preso,
dando só notícias de vocês e das saúdes, para escapar à censura.



159



Milhões de beijos aos pequenos e dá saudades a teus pais. Para ti mil coisas.
A 26 escrevia-lhe:



Aproveito mais esta ocasião para te dar notícias nossas. Tenho tentado dar-tas de todos os
modos e espero que algumas, pelo menos, já tenhas recebido.

Graças a Deus, estamos todos bem. Não tenhas cuidado em nós.

Queira Deus que continue a ter sempre boas notícias tuas, até que chegue o feliz dia, que
espero não demorará muito, em que te possa ir ver!

É preciso não desanimar. Este triste tempo há-de passar e não tardará que estejamos outra vez
juntos para descansar de tantos sobressaltos e desgostos em que temos vivido. Eu já não
tenho saúde nem coragem para viver assim. A Cândida tem sido óptima para mim e para

a Maria Teresa.



Escrevia-lhe assim para o animar, escondendo-lhe as minhas próprias apreensões; no fundo
estava desanimadíssima, não podendo prever quando, nem como, acabaria aquela triste
situação. A minha única esperança naquele momento era a de poder ir vê-lo à prisão. Por isso,
quando recebi a carta de 6 de Março em que ele me falava dessa possibilidade, resolvi logo ir.

Combinei com a Marquesa da Praia, que também tinha os filhos presos, irmos juntas.

Não faltou quem me quisesse dissuadir de o fazer, entre outros meu pai, que não acreditava
que eu conseguisse ver o Fernando, mas do momento que ele me dizia que podia ir, não havia
nada que me pudesse deter.

Partimos na segunda-feira, 10 de Março, no comboio da noite, pois que desde a guerra
estavam suprimidos os rápidos. À chegada no outro dia de manhã dirigimo-nos ao Grande
Hotel, mas tínhamo nos esquecido de reservar quartos, pelo que houve dificuldade em
conseguirmos alojamento. O meu quarto foi-me cedido pela Maria de Magalhães Santiago, a
quem fiquei muito grata por esse motivo. Levava uma carta de recomendação de meu pai para
o Mota e Liz, sócio da Camisaria Confiança, e seu conhecido, que por ser um republicano
convicto devia ter boas relações com as autoridades. O meu primeiro cuidado foi ir entregar-
lhe essa carta e pedir-lhe



160



que usasse da sua influência junto do comissário de polícia para ele me autorizar a visitar o
Fernando.
Prometeu-me o seu interesse e de facto, passadas poucas horas, mandava-me dizer que o
comissário me receberia às 2 horas da tarde desse próprio dia. Cheia de emoção, apresentei-
me à hora marcada no comissariado, mas disseram-me que o comissário não estava. Esperei
pacientemente mais uma hora. Por fim, admirada da demora, interroguei um polícia que me
disse que o comissário devia estar no Aljube.

Resolvi então ir lá procurá-lo.

O Aljube fica muito perto do comissariado, ao fundo de um pequeno largo.

Ao penetrar no átrio da prisão, achei-me no meio de uma multidão que o enchia e onde, a par
de algumas caras patibulares que bem representavam os vencedores daquela hora, se viam as
expressões angustiadas de pessoas da família dos presos. Ao centro estava um grupo em que
reconheci a Emília Eça de Queirós e a filha, a quem acabavam de prender o marido. Aproximei-
me e vi que estavam falando com um homem a quem me apresentaram, e que era nem mais
nem menos do que o próprio comissário.

Dirigi-me logo a ele, lembrando-lhe a sua promessa feita ao Fernando de que me deixaria vê-
lo. Respondeu-me que ele mesmo me acompanharia na visita. Admirada de tanta amabilidade,
afoitei-me então a pedir-lhe que me deixasse ir vê-lo todos os dias durante a minha estada no
Porto, e muito especialmente no dia 14, dia dos seus anos. Concordou. Pusemo-nos a
caminho.

Subimos em silêncio alguns lances de escada e chegámos ao segundo andar, onde se
encontrava a cela ocupada pelo Fernando.

O comissário chamou o guarda, que veio com as chaves. Ao abrir-se a porta, deparei com o
Fernando sentado a uma mesa a fazer paciências. Nunca me poderei esquecer da sua
expressão de alegria quando me viu!

Não me esperava, porque o postal em que eu lhe anunciava a minha ida não lhe fora ainda
entregue. Olhei em volta do quarto, onde havia vinte e cinco dias ele se encontrava só,
incomunicável, entregue aos seus pensamentos. Era chapeado de ferro até uma certa altura -
não fosse o habitante daquele triste aposento tentar fugir!

161




e tinha uma janela de grades, mas sem vidros, deixando entrar toda a humidade exalada pela
proximidade do rio. Revoltada, não pude deixar de exclamar: "Nem ao menos uma vidraça!" O
comissário não respondeu, mas sei que mais tarde mandou pôr uma.

O Fernando estava sofrendo de uma das suas costumadas bronquites, agravada com certeza
pelas péssimas condições em que se encontrava.

Sentámo-nos na cama a conversar. Dei-lhe notícias de todos, pelas quais estava ansioso.
Por fim perguntou-me: "É verdade! Então tiveram uma busca em casa?" Num dos meus
postais tinha-me referido a esse episódio sucedido durante a minha estada em Sintra.

"Tivemos - respondi -, e teve graça uma coisa: uma das poucas coisas que levaram foram as
cartas daquele francês que te falava das "chútes du Paiva". Não perceberam nada, por serem
escritas em francês, mas vendo a palavra Paiva deram por certo que se tratava do couceiro e
apreenderam as cartas." Disse-lhe isto a rir e apenas para o distrair, mas não calculando o
alcance das minhas palavras. Mas o Comissário que passeava pelo quarto, olhando para umas
ilustrações pregadas na parede e parecendo alheio à conversa, atalhou logo com semblante
carregado: - É proibido falar em política. Em política?, respondi admirada. Então isto é política?
- É, sim, e a visita está terminada".

Abri a boca para protestar, mas o Fernando, com uma expressão triste e resignada, disse-me:
"Vai, filha." Interiormente devia estar tão indignado como eu, mas não o podia mostrar.
Levantei-me e saí, sempre acompanhada pelo comissário, com quem não troquei uma palavra.
Chegados à rua, levou a mão ao chapéu e afastou-se.

Voltei para o hotel apreensiva sobre as consequências do incidente, que temia
comprometesse as minhas futuras visitas ao Aljube. Mas no dia seguinte apresentei-me no
comissariado como se nada tivesse havido, a pedir autorização para nova visita. Não me foi
negada, mas nem nessa nem nas seguintes, nunca mais o comissário me acompanhou.
Mandava um polícia que assistia às visitas. Também nunca mais estas se realizaram dentro do
quarto; o Fernando era chamado ao corredor e ali estávamos de pé os cinco minutos



162



que duravam. Não sei se isto representava o castigo do meu atrevimento, mas contanto que
ele não me impedisse de ver o Fernando, o resto pouco me importava.

Para obter a almejada autorização, que era preciso ir mendigar todos os dias, o comissário
obrigava-me - e às minhas companheiras - a esperar mais de uma hora no seu gabinete, onde
ele estava sentado à secretária - sobre a qual se viam algemas - e pistolas e onde entravam
constantemente indivíduos mal encarados que nos olhavam de soslaio e intencionalmente
diziam frases para achincalhar os monárquicos. Queriam, e conseguiam, ser-nos
desagradáveis; mas nunca tiveram o gosto de ver nas nossas fisionomias o mais leve sinal de
contrariedade, nem de receio.

Permanecíamos impassíveis e alheias ao que se passava em nossa volta.

Depois de nos ter assim amarradas ao pelourinho enquanto lhe apetecia, o comissário voltava-
se para um dos polícias que ali estavam e dizia-lhe: "Acompanha a Sr.a Condessa de
Mangualde ao Aljube."

Esta ordem tão simples podia tê-la dado logo à minha chegada, mas para isso seria preciso que
ele fosse um gentleman e, coitado, estava longe de o ser. Era um rapaz de trinta e poucos
anos, de bigodinho atrevido, bastante cheio de si, julgando-se alguém pelo facto de estar num
lugar que ocupava, provavelmente, à falta de alguém mais competente. Chamava-se Júlio
Gomes dos Santos.

Devia ser um joguete nas mãos dos maus elementos que da rua tinham subido, pela força das
circunstâncias, a serem os mandantes que tudo podiam e que todos temiam.

Eram estes o Carramão, o Midões, e outros da mesma laia. O Aljube era deles; entravam,
saíam, davam ordens; passavam lá às vezes as noites, insultando os presos e fazendo um
berreiro infernal. Do Carramão contava-se que entrava a altas horas da noite nos quar tos dos
presos para os atemorizar, brandindo uma pistola e gritando em voz cavernosa: "Cá está o
Carramão! Cá está o Carramão!" Muitos presos foram maltratados, espancados, atirados para
o segredo. A narração feita por três desgraçados - entre eles o Bento Garrett - dos tormentos
por que passaram ao serem presos e depois, no Aljube, vale a pena ler-se. Tenho em meu
poder essa narração.



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Até o Fernando experimentou umas horas de segredo e de enxovia.

Era de estremecer pensar no perigo constante em que estavam os presos naquela sinistra
prisão. Basta um exemplo para amostra: todas as manhãs e todas as noites eram conduzidos
em bicha ao W. C.

Pois esse infecto estabelecimento estava situado no rés-do-chão, quase à porta da rua, e para
lá chegar tinham de passar por um corredor, entre alas de mirones que ali acudiam a gozar
daquele espectáculo! É inacreditável, mas é verdade! Embora houvesse uma sentinela à porta,
no Aljube entrava quem queria.

Palavrões e insultos não faltavam, decerto, e se tivessem querido chacinar os presos, não havia
ninguém que o pudesse impedir. Uma autêntica selvajaria!

Aproximava-se o dia dos anos do Fernando, que era a 14 de Março. Eu tinha, como já disse,
pedido ao comissário uma autorização especial para esse dia. Qual não foi, pois, o meu
espanto e o meu desconsolo quando ele declarou: "Hoje estão suspensas as visitas aos
presos." Não me podia resignar a uma determinação tão cruel e enchendo-me de coragem,
aproximei-me e lembrei-lhe o dia que era e a sua promessa. Fitou-me por instantes e
respondeu: "- Atendendo a que é hoje dia de festa - de festa não - emendou - mas enfim um
dia especial, ó 43 acompanha a Sr.a Condessa de Mangualde ao Aljube. Só cinco minutos!"

Fui a única que conseguiu entrar lá nesse dia. Soube depois que a causa daquele rigor fora
dada involuntariamente pela pobre Marquesa da Praia. Tinha levado para o Porto uma carta
de recomendação não sei para quem e lembrou-se de a ir entregar nesse dia. Tendo sido
seguida por algum zeloso defensor da república, tomaram-na por conspiradora ao vê-la
entregar a carta, e o castigo não se fez esperar.
O pior foi que expiaram todas uma culpa que afinal não foi de ninguém.

Eu tinha o maior cuidado em não fazer nada que pudesse ser suspeito. Tinha ido ao Porto para
ver o Fernando e era só isso que me interessava. Uma vez, até, sucedeu o seguinte: estava à
noite na sala do hotel conversando com várias pessoas, quando a Maria Wandschneider de
Mesquita me disse ao ouvido: "Quer ver o Couceiro? Está aqui muito perto,



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no consultório do Dr. Nazaré". Prontamente respondi: "Deus me livre! Nem por ele nem por
mim. Tenho a certeza que sou seguida e não quero que, por minha culpa, ele possa correr
algum perigo."

Era verdade que o Couceiro ali estava escondido. Quando se deu a contra-revolução, ele não
se encontrava no Porto. Fora visitar o front, para os lados de Oliveira de Azeméis. No regresso,
perto de Grijó ele e os companheiros viram içadas bandeiras republicanas. Pararam o
automóvel e um deles foi à cata de notícias. Souberam então que estava novamente
proclamada a república no Porto. O Couceiro queria continuar, mas os outros companheiros
dissuadiram-no e convenceram-no a esconder-se nas vizinhanças enquanto se não soubesse
bem o que aquilo significava e qual o seu alcance. A primeira pessoa que lhe deu agasalho foi
uma mulher do povo, em Canelas. Daí passou para outras casas e, entre outras, para a Quinta
das Grades Verdes. Nunca estava muitos dias no mesmo sítio. E o extraordinário é que,
estando tantas pessoas no segredo, entre elas mulheres - e até crianças -, não houvesse uma
única que falasse. Os republicanos corriam tudo à sua procura e nunca conseguiram dar com
ele. Entretanto, amigos dedicados estavam tratando de o fazer sair do país. Por fim, estava
tudo combinado, mas... tinha de atravessar o Porto! O perigo era grande, talvez de morte;
tinha a cabeça a prémio.... Mas tinha de ser! Não havia outra solução.

Enquanto esteve escondido deixara crescer a barba, e o bigode - que usava habitualmente de
guias levantadas num jeito chamado à Kaiser - deixou-o descair. Isto mudou-lhe bastante a
fisionomia. Arranjou também um chapéu de abas puxado para a frente sobre os olhos e assim
subiu uma noite para a plataforma de um eléctrico em Gaia com um companheiro, com quem
falou sempre em inglês. O disfarce deu resultado; ninguém o reconheceu. Apeou-se ao entrar
na praça da Batalha e, metendo por ruas mais escondidas, chegou ao consultório do Dr.
Nazaré, na Rua de Santa Catarina.

Não sei quantos dias ali esteve, nem como de lá saiu. Mas sei que embarcou em qualquer
ponto do Minho e que foi por mar até à Galiza. Entretanto a mulher, recolhida em Lisboa em
casa de uma pessoa amiga, rezava por ele sem descanso à espera do momento em que pôde ir
juntar-se com ele no estrangeiro.
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Assim que cheguei ao Porto informei-me sobre quem teria sido a pessoa que me escreveu a tal
carta assinada "Emília". Soube pela Henriqueta Cirne, mulher do Miguel de Mello Vaz de
Sampaio, que o seu autor era o Cristiano de Carvalho, que lhe tinha escrito uma carta
semelhante. Era este homem considerado como um dos piores elementos do Porto,
avançadíssimo nas suas ideias, ateu, vociferando em comícios, bombista, etc. Usava gravata à
La Vallière preta, que simbolizava as suas ideias. Na vida civil era dono de uma tipografia e no
fundo era talvez um pobre-diabo, seduzido, como tantos outros, por um falso ideal.

A Henriqueta já lhe fora agradecer, e resolvi fazer o mesmo, indo procurá-lo à tipografia. Ela
prontificou-se a acompanhar-me. Ao receber os meus agradecimentos, disse-me que o que
tinha feito era para pagar uma dívida de gratidão ao Conde de Mangualde que, sendo
governador civil e sabendo que os trauliteiros o procuravam para o prender, o tinha mandado
prevenir para que se escondesse, escapando assim à prisão.

Falou-me dele com respeito e admiração, lamentando que todos os monárquicos não fossem
como ele.

Ao mesmo tempo não deixou de fazer propaganda das suas ideias, mas espero que fosse mais
pelo gosto de falar, do que na esperança de me converter. Quem o ouvisse ficava a julgá-lo um
grande propagandista, com muita influência no seu meio. Mas mais tarde ouvi dizer que essa
influência era mais aparente do que real. Seja como for, não foi das consequências menos
imprevistas e curiosas dos acontecimentos que se estavam desenrolando, o conhecimento
daquele homem, do qual em casos normais eu me afastaria com horror.

Foi também ao chegar ao Porto que fiz conhecimento com a Berta Peixoto. Já me correspondia
com ela sem a conhecer, desde a prisão do Fernando, sendo ela às vezes a intermediária da
minha correspondência com ele. Essa mulher corajosa, inteligente e de uma dedicação sem
limites, foi a boa fada que ele teve a felicidade de encontrar para lhe suavizar os primeiros
tempos da sua incomunicabilidade, incutir-lhe coragem e rodeá-lo dos carinhos que a família
ausente lhe não podia dar.

Várias senhoras se ocupavam dos presos, olhavam pelo seu conforto e mandavam-lhes mimos
mas nenhuma como ela se sacrificou por eles,



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correndo até perigos com a maior coragem e sem um desfalecimento, só para eles terem o
conforto moral de saber que não eram esquecidos. A janela do quarto do Fernando dava para
o rio, muito perto da ponte D. Luís. A Berta acompanhada de uma irmã, lembrou-se de passar
por lá e de lhe fazer sinais, já de antemão combinados; levantar o braço esquerdo tinha uma
significação; levantar o direito tinha outra, etc. Não o viam, porque ele não chegava à janela,
mas sabiam que o simples facto de as ver lhe dava ânimo.

Mas um dia algum defensor que por ali estava suspeitou delas. Foram presas e levadas à
presença das autoridades; interrogadas, não perderam o sangue-frio e responderam de
maneira que tiveram de as pôr em liberdade, mas já se vê que os passeios se não puderam
repetir.

A Berta mandava frequentes vezes ao Fernando garrafas termos com café ou com chá. Na
realidade serviam para transmitir correspondência clandestina; desaparafusava-se o fundo e
metiam-se lá as cartas. É um truc muito conhecido, mas que os bons dos republicanos nunca
descobriram. Algumas cartas do Fernando, dobradas e redobradas e às vezes sujas de café,
mostram sinais evidentes de terem sido transmitidas dessa forma.

Estava a chegar ao fim a minha estada no Porto. Por mais que me custasse deixar o Fernando
em tão triste situação, não me era possível prolongá-la. Voltei com a Marquesa da Praia que,
essa, já tinha a felicidade de levar os filhos em liberdade. Saímos do Porto no dia 17 de Março.
A única consolação que eu levava era a de ver a atmosfera de simpatia que rodeava o
Fernando, até entre os seus adversários, que admiravam a maneira como ele se tinha portado
até no momento da rendição.

Da sua acção nessa conjuntura e durante todo o tempo que durou a restauração monárquica,
tenho a narração escrita por ele mesmo.

Também, em carta datada de 27 de Fevereiro me conta como foi a rendição:



Estou bom de saúde e estou óptimo de moral, pois tenho a consciência de ter cumprido o meu
dever até ao fim.

Cumpria-me defender o edifício do governo civil, o que fiz com quatro gatos. Quando não
havia mais bandeiras monárquicas além da minha, mandei propor aos oficiais republicanos
presos para me garantir liberdade e vida para todos em troca da rendição. Foi isso aceite.
Depois recebi ordem superior para me render.



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Entendi então que devia vir ao Aljube obter dos oficiais a confirmação de que pela sua honra
estava garantida a segurança pessoal e a liberdade de todos os combatentes. Podia

logo fugir, mas entendi do meu dever vir até aqui. Vim e obtive a confirmação. Como medida
de segurança pessoal meteram-me aqui dentro e ainda aqui estou. E o que é mais
extraordinário, estou na qualidade de preso (!). Enfim, quando acabar a incomunicabilidade se
tratará disto...

Esta foi a minha última aventura, a política morreu agora para mim e de vez...



Recomeçou a nossa correspondência, mas só por postais que passavam pela censura, ou
clandestinamente, quando havia possibilidade de o fazer. O Fernando continuou a estar
incomunicável ainda por bastante tempo. Foram, por fim, permitidas as visitas, o que facilitou
a troca de cartas que estas levavam escondidas.

Tinha-me ele incumbido de tratar do advogado. Não podendo ser nenhum dos que ele me
tinha indicado, por ser mais conveniente escolher um do Porto, dirigi-me ao Carlos Guerreiro,
que conhecíamos da Granja e era aparentado com o Júlio Gomes dos Santos, para lhe pedir
que me indicasse um que fosse competente. Indicou-me o Dr. Themudo Rangel, a quem
escrevi, mas que declinou a honra que lhe propus, dando a razão de se não querer meter em
política. O segundo indicado, Bianchi da Câmara, começou por aceitar, mas mais tarde
também se escusou, dizendo que tinha de sair do Porto. Quem, por fim, se encarregou da
defesa no julgamento foi o Dr. Alberto Pinheiro Torres, uma inteligência brilhante e um
homem de carácter, que decerto cumpriu muito melhor o mandato do que o teria feito
qualquer dos outros. Só houve a ganhar com a troca.

As senhoras que se encarregaram de transmitir a minha correspondência com o Fernando
foram, além da Berta Peixoto, a quem já me referi, a Henriqueta Cirne que estava em
circunstâncias iguais às minhas, com o marido também preso; a Albertina Ayres de Gouveia; a
Maria Magalhães Santiago e outras. Mais tarde empreguei também nesse serviço, a que
amavelmente se prestaram, a Ludovina Leitão, mulher do António Sampaio Pimentel, e a
Viscondessa do Banho. Os maridos de ambas estiveram também presos quase todo o tempo
que o esteve o Fernando.



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Entrou por fim em cena a Raquel Pimentel, casada com o Francisco de Azevedo (Samodães),
que teve um papel muito activo na vida das prisões e na minha também, desde que fizemos
conhecimento. Começou por me telefonar e me escrever para me dar notícias do Fernando,
que visitava, como aos outros presos. Achei amável da sua parte, pois que nem de vista a
conhecia. Fazia-me toda a espécie de oferecimentos e, por fim, convidou-me para ir passar
uma temporada em casa dela com todos os meus filhos.

Era um convite que, em tempos normais, nunca me lembraria de aceitar. Mas, nas
circunstâncias em que estava, comecei a achá-lo possível. Seria uma ocasião de ver o Fernando
que, a não ser assim, tão cedo não teria. E ela era tão amável, insistia tanto no seu
oferecimento, que realmente achei que não haveria inconveniente em o aceitar. De mais a
mais estávamos quase no verão; estava a chegar o momento de partirmos para Mateus.
Pareceu-me, pois, que seria bem combinado eu ir uns quinze dias mais cedo para o Porto e
quando minha mãe passasse, juntar-me com ela, seguirmos juntas para Mateus. Comigo iria só
a Maria Teresa, ficando os outros pequenos com a avó. Ficou assim combinado, mas mais uma
vez se confirmou que "o homem põe e Deus dispõe!".

Partimos no dia 6 de junho, no rápido da manhã. Não deixava de me preocupar a perspectiva
de passar quinze dias em casa de pessoas para mim totalmente desconhecidas, mas estava
disposta a fazer sacrifícios muito maiores ainda se com eles pudesse levar algum conforto
moral ao Fernando.

Na estação de São Bento vi um grupo olhando com curiosidade para os passageiros do
comboio, no qual estava uma senhora que tive a intuição que devia ser a Raquel. Era ela de
facto.

Apresentámo-nos e ela disse-me logo que tinha obtido licença para eu poder ver o Fernando
assim que chegasse. Subimos a pé uma ladeira que nos levou quase até à porta do Aljube.

A visita fez-se em condições bem diferentes das primeiras; entrámos para uma sala onde
estivemos sentados, conversando à vontade sem guardas que nos ouvissem. Encontrei o
Fernando com boa aparência e bem disposto.

Pude então observar a Raquel à minha vontade. Era uma mulher alta, bonita de cara, um
pouco forte, aparentando ter uns trinta anos que,



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creio, ainda não tinha. Estava elegante, vendo-se que a sua toilette vinha de uma boa casa,
mas certos pormenores não denotavam muito bom gosto. Acabada a visita, seguimos para sua
casa, na Avenida do Brasil, ou Carreiros.

O meu quarto era espaçoso, mas não tinha janela; dava para uma varanda envidraçada e esta
para as traseiras da casa. A Maria Teresa dormia comigo. Este quarto era no segundo andar.

Já antes de sair de Lisboa notava que a Maria Teresa tinha mau parecer, o que atribuía a estar
cansada do ar de Lisboa; esperava que o ar fresco e salino da Foz a retemperasse. Mas pelo
contrário, cada dia a sua aparência era pior. Passaram-se assim oito dias, até que uma vez, à
saída do Aljube, se queixou que lhe doía a cabeça. Levei-a a uma farmácia, onde verifiquei que
tinha febre. Daí fomos a um consultório médico, onde lhe receitaram uma limpeza intestinal.
No dia seguinte a febre não tinha baixado. A Raquel chamou então o seu médico, Dr. Júlio
Cardoso, que ao cabo de oito dias diagnosticou uma paratifóide. Não sei dizer o desânimo que
se apoderou de mim! A perspectiva de uma longa e grave doença, numa casa alheia, era
realmente apavorante. E via-me só, tendo de me repartir entre os cuidados à doente e as
visitas ao pai, a quem tinha, além de tudo, de procurar animar, escondendo-lhe o meu próprio
cuidado. Era na verdade uma triste situação.

Os donos da casa foram óptimos, cheios de atenções e escondendo à maravilha a
contrariedade que não podia deixar de lhes causar aquele contratempo tão inesperado. Não
me deixaram fazer a mínima despesa; remédios, médicos, tudo quiseram ser eles a pagar. Isto
só aumentou a minha aflição pelo incómodo que lhes estava causando. Telefonei para Lisboa e
mandei ir a minha criada Amélia para me ajudar a tratar da pequena, e desde que ela chegou
comecei a ir ao Aljube um dia sim um dia não. Mas ia sempre com o coração apertado pela
incerteza de como encontraria a doentinha à minha volta, pois parecia-me sempre que piorava
quando eu não estava ao pé dela.

Entretanto a doença ia caminhando e iam aparecendo compli cações, para cada uma das quais
era preciso chamar um especialista. O meu cuidado era cada vez maior. Veio o Dr. Óscar
Moreno, que lhe achou qualquer coisa no fígado e a pôs numa dieta rigorosa.



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Mas logo apareceu uma fraqueza pulmonar, e chamou-se o Dr. Tiago de Almeida. Este, pelo
contrário, mandou-a comer de tudo e alimentar-se bem. Foi a salvação! Daí a pouco
desapareceu a febre e começou a convalescença. Mas a doença tinha durado dois meses!

Nesse meio tempo a situação do Fernando tinha mudado. Juntamente com outros presos foi
transferido para a Cadeia da Relação.

Não sei se essa transferência seria devida a uma carta que escrevi ao então presidente da
república, João Antunes de Canto e Castro, protestando contra a forma como os presos eram
tratados no Aljube. Mandei-lha entregar pela minha prima, Maria Tomázia de Mello Breyner,
que era sua conhecida e amiga da família, e me deu conta da sua incumbência nos seguintes
termos:



Fui no comboio da 1 hora [para Cascais] tendo só meio de voltar às 6 horas, tendo vindo bem,
depois de uma agradável visita e de ouvir palavras lisonjeiras e compreender a impressão que
causou a tua bem escrita carta, que se guardou na algibeira com cuidado, e se prometeu
entregar a

quem compete a responsabilidade dos que vivem oprimidos, dizendo ao mesmo tempo
quanto sentia os maus-tratos, etc...



De princípio assustou-me a ideia da mudança, mas depressa conheci que esta fora benéfica,
porque os presos na Relação ficariam melhor debaixo de todos os pontos de vista. A segurança
era maior; a formiga não tinha lá entrada; o director era uma pessoa decente e não um
sapateiro, como sucedia no Aljube.

Finalmente, deixaram de estar isolados. Ocupavam os chamados "quartos da malta"; estes
eram espaçosos e os presos estavam aos dois e três no mesmo quarto, podendo também sair
para o corredor e conviver com os ocupantes dos outros quartos. Ao pé do inferno do Aljube,
isto parecia um céu aberto.

As visitas eram regulamentadas e a única formalidade exigida era os visitantes serem
apalpados à entrada, mas pro forma simplesmente, sem intuito de vexar.

Os companheiros de quarto do Fernando eram o Visconde do Banho e o António Sampaio
Pimentel.

Nos outros quartos estavam o Luís de Magalhães, Miguel Sampaio, Satúrio Pires, Conde de
Azevedo, etc.

Nessa situação deixei o Fernando quando finalmente parti para Mateus, não querendo abusar
mais da amabilidade dos Azevedos,

visto a Maria Teresa estar, felizmente, restabelecida. Partimos no dia 14 de Agosto.

Em carta datada de 18 diz-me o Fernando:



Ontem, não antes de ontem fui chamado à secretaria por causa de um ofício do comissário
perguntando se eu tinha aqui estado incomunicável e se me tinham proibido as visitas.

Quanto a este último ponto pedia-se uma declaração minha por escrito. Calculo que fossem
boatos que chegassem ao governo e de que ele se quisesse justificar. E como a declaração dele
pouco valia, pedia então a minha. Estive para não declarar coisa nenhuma, mas atendendo ao
pedido do director fiz uma declaração dizendo que nenhuma excepção tinha sido feita quanto
a mim relativamente à aplicação do regime interno a que estão sujeitos todos os presos
políticos. E mais nada...



E em 22:



Estou convencido que foi a tua carta ao presidente que provocou o ofício a que fui chamado a
responder...



Noutra carta de 19 de Agosto conta-me uma visita que lhe fez Anselmo Bramcamp Freire,
alcunhado por nós de "o cidadão", por ter aderido à república em circunstâncias pouco
honrosas para ele. Era um homem inteligente e erudito, autor de vários livros, entre outros A
Sala dos Brasões do Paço de Sintra, e que fora sempre monárquico. Um dia, despeitado por
alguma falta de atenção que julgava ter recebido do Paço, passou-se para os republicanos. Fez
uma triste figura, que provocou o retraímento de muitos dos seus amigos e conhecidos. Se
fosse por convicção, ninguém teria o direito de o censurar, mas assim simplesmente por
vaidade ofendida, o seu gesto fez muito má impressão.

Tive hoje a visita do "cidadão" que foi realmente muito amável em me vir ver.

Contei-lhe todas as partidas do "parvo atroz" [Júlio Gomes dos Santos] e a história da palavra
de honra. Creio que tudo lhe fez impressão.



172



Mostrou-se com receio do bolchevismo e disse estar contente por não ter voltado a Londres
como delegado do governo para resolver o caso de Mormugão. Foi substituído por outro que
foi assinar a resolução, que foi um verdadeiro fiasco. Não só se perdeu a questão em toda a
linha, mas ainda teve de se pagar cinco mil libras como custas do processo! Uma das cláusulas
é o país ter de comprar todas as acções ao par quando a companhia se quiser desfazer delas.
São de 90 libras cada uma e estavam a 70. Ele quando lá esteve da primeira vez mandou
alvitrar para cá o governo comprar muitas antes de elas subirem. Pois passou-se mês após mês
e só muito depois apareceu o Egas Moniz com uma resposta de boca! E creio que compraram
umas 10 ou 20! O ministro das colónias não teve tempo para responder aos ofícios!!!...

Este Anselmo Braamcamp era primo direito de meu pai e fisicamente muito parecido com ele.
Teve muitas desilusões com a república e decerto algumas vezes se arrependeu do passo que
deu.

Nessa mesma carta diz-me o Fernando, referindo-se ainda à minha carta do Presidente:



Imagina que na sexta-feira depois da visita fui chamado à secretaria onde estava o Dr. António
Resende, governador civil do Porto.

Disse-me ele que o Sr. Presidente tinha recebido uma carta tua dizendo que eu era aqui
maltratado e conservado incomunicável e que o Presidente do ministério o tinha encarregado
de saber a verdade directamente por mim.

Disse-lhe que a tua carta não podia dizer o que ele referia, porque tinha sido escrita durante a
minha estada no Aljube e não se podia referir, portanto, ao que se passava aqui.

Que quanto ao Aljube era tudo verdade, mas que isso era só importante para a história, pois
que ele já não podia remediar nada.

Que eu estava aqui, como todos os presos, semi-incomunicável pela dificuldade de visitas só
consentidas à família e só três vezes por semana durante só duas horas, e também por a
correspondência ser censurada.
Depois da minha saída da secretaria, soube que ele se propunha modificar para melhor este
estado de coisas. Vamos a ver o que consegue...

[...] Agora arranjaram cá uma espécie de jornal, chamado Trauliteiro, com algumas piadas com
graça. No último vinha a minha caricatura a jogar xadrez...

O director da Cadeia da Relação era o Themudo Rangel, o mesmo que tinha recusado ser
advogado do Fernando. Não era mau e nunca maltratou os presos.



Por aquela altura deu-se um incidente com a Raquel. Estando no Aljube onde fora visitar os
presos, foi encontrada na secretaria a folhear o livro de registos dos presos. Foi isso achado
suspeito e levaram-na ao Comissariado. Explicou que queria saber as moradas dos presos mais
pobres, para levar socorros às famílias. No caminho para lá foi rasgando uma carta e deitando-
a fora aos bocadinhos. -Era do Sá Guimarães para o tenente Cal, preso na Penitenciária de
Coimbra.

O polícia que a acompanhava viu o gesto, que ainda mais a comprometeu. Mas como o pai da
Raquel era um grande republicano, o incidente passou sem mais consequências.

Esta desgraçada foi vítima, passado pouco tempo, de um terrível desastre que lhe roubou a
vida. Morreu afogada no Douro! O caso passou-se assim: tinha havido nesse dia no Porto a
Venda da Flor, em que ela tomara parte. Finda a festa, voltara para a Foz no seu automóvel
guiado pelo marido, acompanhada pelas duas filhas do coronel Alexandre Malheiro.

Iam pela estrada marginal quando de repente o carro derrapou e se precipitou no rio,
voltando-se. Alguns dos passageiros foram atirados fora antes de chegarem à água, mas a
Raquel e uma das raparigas ficaram debaixo do carro e morreram afogadas.

Um horror! Passou-se isto dois anos depois de eu ter feito conhecimento com ela. Fez-me a
maior impressão.

Depois da minha volta para Mateus, começou a visitar os presos a Maria Pinto de Macedo,
casada com o Camilo de Macedo, que vivia em Gaia. Era uma adorável criatura, e foi para eles
como uma mãe. Todos a veneravam. Sem ser nada bonita, encantava a sua expressão de
bondade. Casada sem filhos, vivia para o marido que a adorava. Usou sempre um penteado
especial com uma fita de veludo preto e caracóis caídos sobre os ombros - porque foi assim
que ele a conheceu e não quis nunca que ela mudasse de penteado! Uma ternura!

Viviam paredes meias com o grande escultor Teixeira Lopes, de quem eram tão íntimos que se
tratavam por irmãos. Era uma santa gente.



174
Pois esta senhora teve para com os presos um rasgo de bondade e de generosidade de que
poucos seriam capazes. Tendo eles sido atacados por uma epidemia de enterites de certa
gravidade, ela mandou-lhes o seu médico e começou a fornecer-lhes a dieta de que
precisavam. Quando, já restabelecidos, a quiseram dispensar, declarou-lhes que continuaria a
mandar-lhes a comida, para que não adoecessem novamente. E assim fez, durante todo o
tempo que ainda estiveram na cadeia! O que isso representou de dedicação, de bondade, de
generosidade, pode-se bem calcular. Eram duas refeições por dia, cozinhadas a primor, nunca
esquecendo o doce, e sempre variadas. E nunca faltaram, mesmo quando uma greve dos
eléctricos obrigou o portador a ir a pé de Gaia ao Porto! Duas vezes ao dia! Os contemplados,
cheios de gratidão, quiseram manifestá-la de uma forma palpável; mandaram fazer uma certã
de prata que lhe ofereceram, acompanhada de uma mensagem em verso escrita pelo Luís de
Magalhães e assinada por todos eles. Foi uma cerimónia comovente, a que tive muita pena de
não assistir.

Falava-se vagamente em amnistia; em alguns jornais moviam-se campanhas a favor dessa ideia
humanitária. Mas, enquanto o Fernando esteve preso, nunca chegou a sua realização.

A 18 de Novembro entregaram-lhe a nota de culpa. A sua resposta foi - como não podia deixar
de ser - um modelo de firmeza e de altivez tranquila, como só a pode sentir quem tem a
consciência de ter cumprido o seu dever. Começa assim:



Foi-me apresentada a nota de culpa, a que vou opor as minhas observações, no dia 18 de
Novembro de 1919, isto é, nove meses e cinco dias depois de preso. Destes nove meses foram
quatro de rigorosa incomunicabilidade com proibição de beber vinho às refeições, sujeito aos
vexa

mes e arbítrios que se prolongaram para além do tempo da incomunicabilidade. Durante o
tempo da minha prisão fui, sem razão nem motivo, levado uma vez para o segredo, onde
passei umas amargas 23 horas, e outra vez para a enxovia onde me demorei três dias, também
sem razão, mo

tivo ou pretexto. Por vezes foi a minha prisão franqueada a grupos civis armados e
marinheiros, e soldados, a quem eu e o meu companheiro éramos apontados como animais
curiosos, estando sujeitos a qualquer

violência praticada por essa gente sem ilustração, com a cabeça cheia de ideias de vinganças e
de represálias de crimes, mais forjados que reais, de que, inocente e credulamente, nos
julgavam responsáveis. Parecia entender-se



175
que o Aljube era um lugar para martirizar os presos e não um sítio para os guardar detidos.
Contra estes vexames e violências, e contra esta demorada prisão para no fim se me
imputarem responsabilidades que não justificam, nem legitimam tal demora, deixo aqui
exarado o meu mais formal protesto....



Não transcrevo mais por ser um documento muito extenso e as suas alegações se referirem
aos factos já conhecidos.

No dia 11 de Setembro o Fernando mandou-me um telegrama assinado Viscondessa do Banho,
que dizia assim: "consta quererem transferir para Aljube presos Relação lembro prevenir
amiga Maria Tomázia."

No mesmo dia escreveu-me:



Querem transferir todos os presos que estão aqui, com excepção de nós seis, que viemos do
Aljube ultimamente. Mas nós, depois, pouco nos demoramos também. Eles vão todos para o
Paço Episcopal e nós iremos talvez para o Aljube, muito embora os informadores afirmem
peremptoriamente que nós ficamos aqui. Ora a nós ninguém quer fazer mal, mas os nossos
companheiros são um alvo especial das iras desta populaça e é provável que sofram no
trajecto. Daí o telegrama que recebeste e outro que as famílias dos presos endereçam ao Sá
Cardoso [presidente do ministério] a chamar-lhe a atenção para ver se se evita alguma cena de
canibalismo... A Henriqueta Cirne foi falar ao Grant [cônsul inglês] que estava furioso por causa
de um manifesto bolchevista contra a Inglaterra que lhe foram pregar na porta. Ia protestar
perante o g. civil e falar na transferência de presos...

Não cheguei, contudo, a escrever ao Canto e Castro e a 17 diz-me o Fernando: "Já ninguém
fala na transferência dos presos..."

Teria sido um boato sem fundamento, ou teria sido eficaz a intervenção do cônsul de
Inglaterra, nunca cheguei a sabê-lo.

Nas suas cartas contava-me episódios relativos aos seus companheiros de prisão e, entre eles,
contou-me duas evasões, qualquer delas com pormenores cómicos.

Na casa que te referi [noutra carta que não encontro] receberam uma carta e uma chave. A
carta dizia que a chave era de uma mala onde o signatário viria encafuado e pedia para a
abrirem logo que chegasse.



176



A -espera da mala foi uma aflição. Se o homem chegasse morto, o que haviam de fazer do
cadáver? Esta ideia incomodava todos.
Nisto chega a mala. Abrem-na e de lá sai um homem em ceroulas e camisola a suar as
estopinhas. Oferecem-lhe não sei quê, mas o homem declarou que tinha tanto calor que não
podia tomar nada. Em volta várias peças de roupa que tinham servido para o aconchegar lá
dentro.

Pelos jornais vê-se que ele se mexeu durante o caminho e que o galego quis atirar a mala ao
chão, julgando que levava o diabo dentro. Mas uns cidadãos opuseram-se e lá seguiu. Há
pequenos detalhes interessantes. O galego estranhou muito o peso da mala e quis pô-la com a
parte mais pesada para trás e foi o diabo para o convencer a não levar o homem de cabeça
para baixo...

A outra evasão foi a do coronel Prelada, igualmente rocambolesca, que ele me conta em data
de 15 de Fevereiro de 1920:

Ontem fugiu da Casa de Reclusão o coronel Prelada que na véspera fora condenado a cinco
anos de degredo! Fugiu vestido de mulher com meia aberta e sapato de salto alto! Mas quatro
horas depois estava em Espanha. Um pormenor interessante foi a dificuldade que
encontraram para trazer o fato dele. A filha e outra senhora meterem-no no seio. Uma as
calças, outra não sei quê, de forma que saíram patriotas a valer...

Na carta seguinte continua a narração:

A fuga do Prelada continua na ordem do dia. Ontem contaram-me um detalhe curioso. Como
não tivesse aparecido a tempo o automóvel, vieram a pé, ele e mais duas senhoras. Ele, está
visto, de mulher. Foram esperar o automóvel para o cimo da Rua dos Clérigos. Passou um
grupo e um dos do grupo disse: "Que simpáticas!- E ele, voltando-se para as outras duas,
observou: "Aquilo é comigo"...

Outro caso, mas este diferente, conta-me ele na carta de 7 de Setembro:



Conseguiu sair, enfim, hoje um desgraçado que foi julgado antes de ontem e absolvido.
Acusavam-no injustificadamente de trauliteiro e não sei que mais, assaltos, etc. Quando se
dispunha a ir para casa apareceu-lhe um grupo pela frente



177




-de pistolas e ele voltou cá para dentro. E que imaginas que fez a autoridade? Consentiu que
ficasse por lhe não poder garantir a saída com segurança!!! E disse isto num ofício! para o
director de cá! Afinal há pouco, aproveitando-se de uma interrupção da luz eléctrica, lá se
safou...
A naturalidade com que ele me escrevia e contava estas anedotas era um indício da sua boa
disposição; fiz-lho notar e ele respondeu-me:



... a minha boa disposição é filha do hábito. Um actor que representa muitas vezes de frade
acaba por ter gestos fradescos na vida real. O hábito de mostrar boa cara e de guardar para
dentro de mim a sensaboria, acaba por acontecer como ao actor...



Continuavam correndo boatos de uma próxima amnistia. A esse respeito escreve-me:



2 de Out. 1919,



Da amnistia começam agora a falar vários jornais capitaneados pela A Montanha que é o mais
violento defensor de tal medida, estribando-se na flagrante injustiça dos tribunais militares
que absolvem comandantes e condenam a penas maiores gente que obedeceu às suas ordens.
O Solano e o Sá Guimarães já estão em Lisboa. A razão foi terem transferido de São Julião da
Barra para Coimbra 450 cabos, soldados e sargentos do Corpo Expedicionário Português e
esses terem entrado lá aos gritos de "Viva a monarquia!". Os governantes, a quem os dados
parecem hóspedes, tiveram medo e daí a transferência dos possíveis capitães de tal hoste...



4 Out. 1919,



Todos reconhecem a impossibilidade de continuarmos nesta situação sem julgamento nem
vontade de nos julgarem.

Imagina que ontem foi o Satúrio chamado a um novo interrogatório por ter desaparecido o
processo dele!!! Quanto ao meu processo, só se sabe que andou para trás, foi novamente
pedido não sei por que entidade, depois de já estar no Tribunal.

Creio que é para verem se me arranjam culpa, tanto a mim como aos meus co-processados da
Junta Governativa,



178
porque umas testemunhas que depuseram só provaram que eles foram ministros e eu
governador civil, o que nenhum de nós pensou negar.

Isso, pelo que se tem visto pelos julgamentos, não é considerado crime, ou corresponde a uma
pena tão ínfima, que mais do que ela já todos cumprimos. E estás a ver a situação do tribunal
que nos absolvesse...



6 Out. 1919,



A Manhã anuncia para curtos dias uma amnistia. Não sei. Mas se vier, é provável que haja
excepções e, havendo-as, devo eu ser do número. Veremos... Se a amnistia me abranger, parto
para aí não sei se imediatamente, se no dia seguinte, por querer ir agradecer aos Macedos a
sua muita amabilidade...



18 Out. 1919,



Com respeito à amnistia a Montanha anuncia-a para muito breve e explica que a oposição
provém do grupo do Camacho que a quer dar em subindo ao poder. Por um lado o Debate diz
que a demora provém de um pequeno grupo avançado que se mostra mais bravio (sic). Os
outros jornais pouco falam, mas a vox populi diz que está na forja, mas que vem com
excepções; são os que fizeram parte da Junta Governativa e alguns militares de grande
graduação, provavelmente os que comandaram colunas. Talvez eu não vá, porque para chegar
a mim é preciso ir grande número e eles pode ser que se envergonhem de apresentar muita
gente aos olhos dos estrangeiros...



Nem com excepções nem sem elas, a tal amnistia nunca veio, mas a esperança serviu ao
menos para animar e entreter os pobres enclausurados.



Em fins de Outubro resolvi levar a Maria Teresa ao Porto para ser vista pelos médicos, pois
andava nervosa e queixando-se de um ouvido. Fomos com demora de poucos dias e
estávamos de volta em princípios de Novembro.

A 18 de Novembro, como já referi, entregaram ao Fernando a sua nota de culpa. A esse
respeito escreve-me ele:

O processo é o mesmo em que entram os membros da junta Governativa, incluindo o
Couceiro. É uma série de disparates, alguns até ininteligíveis, pois lá me acusa de me dizer
chefe supremo do galieiro!!! que ninguém sabe o que é, e eu menos que ninguém. Vamos a
ver se o Pinheiro Torres esclarece o caso...



179



23 Nov. 1919,



Foi ontem julgado o Miguel de Mello e condenado a 3 meses de prisão, levando em conta o
tempo de prisão sofrida, pelo que ontem mesmo foi dormir a casa. É menos um companheiro.
O tal galieiro deve ser polícia mal escrito e pior copiado.

Estou agora a escrever a minha defesa, mas sem pressas, porque alguém que foi falar com os
do tribunal a propósito dos nossos julgamentos trouxe de lá a impressão de que só seríamos
julgados no fim de todos... O Cristiano de Carvalho foi procurar propositadamente um amigo
do Sampaio Pimentel para dizer que o Magalhães Lima, grão-mestre da Maçonaria, se
empenhava em pôr em liberdade o Luís de Magalhães, mas como ele já tem nota de culpa, se
reconheceu que a única solução era a amnistia que, devido ao seu empenho, ficou resolvida
para antes do Natal.

Não sei se isto seguirá em sossego até lá. Não digo isto cá pelo Porto, mas por Lisboa de onde
chegam constantemente os mais animadores boatos. O interessante é que esses boatos vêm
trazidos pelos democráticos que voltam aterrados de lá e fazendo tagatés a alguns presos
políticos que se podiam mostrar mais queixosos deles...

Por esta altura surgiu a lamentável questão de D. Manuel com os integralistas.

Numa entrevista que El-Rei lhes concedeu, teve a imprudência de proferir algumas frases de
censura aos monárquicos e especialmente ao Couceiro, a quem acusou de pouca correcção na
sua forma de proceder na delicada questão da distribuição de fundos aos emigrados. Esta
acusação a um homem, considerado por todos quantos o conheciam e tinham combatido
debaixo do seu comando, como a personificação da honra sem mácula, fez a pior das
impressões. Era, pelo menos, uma prova da mais negra ingratidão por quem tudo tinha
sacrificado pelo ideal monárquico.

A indignação foi geral. A esse respeito escreve-me o Fernando em 5 de Dezembro:



Perguntar com que direito o Couceiro dispõe do dinheiro que levou em socorros aos
emigrados, que o mais elementar dos deveres lhe devia fazer sentir que era a El-Rei que
competia e que - por experiência passada - sabemos que não satisfaria, é de uma ofensa sem
perdão...
180



A 6 continua sobre o mesmo assunto:



As declarações dos integralistas continuam na ordem do dia. Eu que só o que ambiciono é um
regime para o meu país que lhe garanta o sossego e a possibilidade de progresso e que estou
convencido que só o regime monárquico pode satisfazer a estas condições, não se me dá
muito do Rei, que tanta tolice faz por não ter competidor. Que apareça amanhã um nome
protegido pelas nações que mais directamente influem aqui e que a propaganda faça aceitar
da nação e é uma vez D. Manuel. Mas en

quanto ele não aparece é aguentar e cara alegre.

Esta minha forma de pensar é bastante diferente da maior parte que, ao estilo quinhentista,
seguem o rei por dedicação pessoal, ou preconceito de tradição. Eu sou monárquico só por
patriotismo e hei-de continuar a sê-lo enquanto vir na monarquia a melhor esperança de
sossego e de prosperidade nacional...

Na amnistia volta a falar-se... e a não se ver nada. Quanto ao meu julgamento, é um mistério
indesvendável.



8 Dez. 1919,



... Tanto se tem discutido aqui a entrevista dos integralistas, que dificilmente falaria noutra
coisa, pois são gravíssimos os resultados possíveis e de uma grande complicação mesmo no
caso dessas gravíssimas consequências se não darem.

Por aqui todos se consideram solidários com o Couceiro, que é feroz e injustamente atingido
na entrevista e esperam a resolução dele para se pronunciarem no mesmo sentido. Eu sigo os
meus princípios. Nunca fiz nada por D. Manuel, que nada me deve, fi-lo pelo País, por o ver
entregue a uma cáfila faminta e sem escrúpulos. Sempre pugnei por obter para o meu País um
regime que lhe garanta a ordem indispensável para ter sossego e ser próspero e isso só o
entendo possível com a monarquia que, ao mesmo tempo, lhe obtém o respeito
internacional...



10 Dez. 1919,



A tal trapalhada intrigalhista continua a dar que fazer e ainda se não pode prever conclusão
alguma. Daqui escrevemos, logo que tivemos conhecimento da primeira entrevista, ao Ayres
reputando imprescindível que fosse desmentida a parte da entrevista referente ao Couceiro
que é o mais maltratado,



181




pondo-se em dúvida até o seu comportamento em 4 de Outubro e a sua honestidade... Ainda
não tivemos resposta, mas estou convencido que a resposta vai ser uma carta do Ayres
dizendo que espera instruções de Londres ou qualquer coisa deste género, o que não satisfará
ninguém...

Vou escrever num álbum que me mandaram o seguinte pensamento: "Crer e querer para
vencer". Creiamos, pois, por agora e esperemos a hora de querer, que o Rei, me parece,
atrasou muito...



12 Dez. 1919,



Novidades não sei. Outra vez se fala em bolchevismo como uma calamidade inevitável. Nos
nossos arraiais continua a confusão produzida pela intriga integralista e para cúmulo chega-
nos a notícia, que precisa ser confirmada, de que os nossos emigrados estavam a receber
pensão em nome de D. Carlos II!! Mas este Carlos, que Carlos será? Talvez o de Espanha... Há
quem anuncie a bancarrota para o próximo mês de Janeiro. Isto com o perigo do bolchevismo
é um pavor...



14 Dez. 1919,



Estamos atravessando um dos mais interessantes períodos políticos da nossa vida. Quem diria
a tanto manuelista ferrenho que, volvidos poucos dias sobre as intrigalhadas integralistas, se
pode começar a admitir um novo rei?...

A nossa gente que está em Madrid nada diz a esse respeito, o que suponho seja por andarem
em trabalhos diplomáticos e não quererem falar senão quando o caso estiver resolvido. A
Inglaterra talvez não concorde muito com a solução espanhola, mas ela já transigiu com os
bolchevistas russos e agora com a Alemanha, não sei se mostrará mais energia neste caso.

Por outro lado a Espanha deve estar ofendida com o que disse o Rei e se se opõe a ele, talvez
apareça um tertius gaudet. Que confusão e que pena o Rei não estar calado! Custa-me isto,
um nadinha por ele, e muito pela Dona Amélia que sempre encarou tudo tão diferentemente e
tão simpática se mostrou sempre...



17 Dez. 1919,



O tal Carlos é o cunhado do Rei de Espanha e casado, depois de viúvo, com uma irmã de Dona
Amélia...



182




20 Dez. 1919,



O momento político é deveras interessante com bolchevistas, democráticos e nós, como feras
dentro da mesma jaula e a Estranja de pata no ar para impor o sossego. E queira Deus que seja
só para isso... A questão financeira a azedar tudo e a dar pretexto à Estranja!...



22 Dez. 1919,



Quanto à carta do Sr. D. Manuel, não me merece os elogios que te merece a ti. Em primeiro
lugar não percebo que ele perdoe aos que o fizeram reinar por mais 26 dias e é falso que ele se
tivesse oposto. Já na prisão o Luís de Magalhães recebeu dele um telegrama assim: full hope

and enthusiasm.

E antes do movimento, tendo-se pedido ordens ao Ayres, ele mandou a resposta do Rei a uma
consulta dele e essa resposta era: go on... O nosso A. [Couceiro] escreveu e escreveu com
cabeça. Diz que não devemos impensadamente tomar resolução. Que seria parvo irmo-nos
declarar contra um que amanhã o estrangeiro nos poderia forçar a aceitar... Como resultado
continuamos na mesma indecisão e a indecisão, para mim, é um martírio...



27 Dez. 1919,
Escrevi, ou melhor, vou escrever uma carta ao Salvador contando-lhe o que por cá vai. Eu te
mandarei a cópia. É preciso que lá vejam as coisas como elas são. Vai ser levada por portador
de confiança até Espanha e lá registada para o seu destino...

Era esta a carta:



Meu caro Salvador,



Escreve-te o Banho e vai arranjar portador seguro para te remeter a carta. Aproveito esta
circunstância para te explicar o que por aqui se passa e o portador levará esta também.

O caso, na minha opinião, é bem mais feio do que to têm pintado. A indisposição contra El-Rei
é grande, embora muito contra - minada por nós, isto é, por aqueles mesmos que mais
ofendidos foram por El-Rei - no dizer dos integralistas.

De Espanha dizem coisas tremendas. Um emigrado disse a um ex-preso que a pensão que
recebia lhe era dada por D. Carlos



183




à mãe, aconselhava o pai a rasgar os retratos de El-Rei, porque agora se tratava doutro mais
capaz de se dedicar ao país e mais amigo dos que se dedicavam pela Monarquia... O Couceiro
não está de acordo com estas resoluções, mas a onda avança. Se amanhã for mais exequível e
rápida uma Restauração com outro, a causa de El-Rei está perdida. É preciso remediar e
depressa.

Se houvesse maneira de EI-Rei levantar o estandarte de uma guerra santa contra os
afundadores da Pátria e limasse algumas arestas provenientes da entrevista, ainda tudo se
poria ao seu lado. Agora todos olham hesitantes. Se as nações que mais predomínio aqui têm
se entendessem para propor um Procópio ou um Eufrásio, porque isso representaria mais
rapidez na restauração monárquica e, portanto, o evitar-se a continuação de uma bambochata
macabra que se encaminha para nos fazer perder o crédito, as colónias e a Independência.
Não aconselho coisa alguma, mostro só o perigo que não procuro atenuar para que lhe
possam dar remédio rápido e seguro.

Cada hora que se perde é força que nos abandona. Esta inércia enen-a e desanima...

Esta carta revela bem o estado dos espíritos nesta conjuntura. Tendo a consciência do muito
que se tinham sacrificado pela Causa Monárquica, não podia deixar de os ferir profundamente
ver que
El-Rei não reconhecia o valor desse sacrifício e - de certo modo por influências alheias - ainda
por cima os censurava. Por outro lado, a firmeza das suas convicções e ainda mais o seu
patriotismo alarmado pela dégringolade em que viam cair o País, conservavam-nos fiéis ao seu
Ideal, contra tudo e contra todos.

Tristemente passou o Natal e acabou o ano.

Esta tristeza reflecte-se na carta que o Fernando me escreveu no dia 31 de Dezembro:

É hoje fim do ano. Que Deus permita que o que entra nos consinta viver juntos sem
interrupções, mas tão nublado é este ambiente político que assim pode acontecer e pode não
acontecer. Mas como facilmente acreditamos no que desejamos, creiamos que Deus olhará
por fim para este cantinho e não consideremos como absolutamente perdido o tempo gasto
nestas aventuras...



E a 2 de janeiro de 1920:



Beija muito por mim os pequenos, muito, muito. Tenho deles e de ti infinitas saudades. Oxalá
Deus permita que se matem depressa...



184



Os dias de festa são os piores de passar quando se está longe dos entes que nos são queridos.

Nós continuávamos em Mateus sem nada resolver da nossa vida, apesar de a estação estar já
adiantada. Eu preferia lá ficar enquanto não se realizasse o julgamento do Fernando, que já
não podia tardar. Minha mãe desejava ir para Lisboa, mas acabou por concordar com o meu
desejo. O Fernando desejava também que

continuássemos em Mateus, receando uma revolução bolchevista em Lisboa, que lhe
anunciavam como iminente. Os boatos de todo o género que corriam eram aterradores. Em 10
de janeiro escreveu-me em termos verdadeiramente angustiosos:



O bolchevismo alastra de uma forma assustadora. Não sei se notaste a quantidade de bombas
que rebentaram em Lisboa enquanto se decidia a última crise ministerial, bombas que se
calaram quando se resolveu a continuação dos democráticos. São naturais aliados. Assim se a
actual crise se decidir pelos elementos mais conservadores, é possível que isso seja o ensejo da
sua saída para a rua; se forem elementos avançados os que vão herdar o poder, demorarão
mais essa saída até terem mais força. Era da mais elementar prudência o esperar a solução
deste caso primeiro. Um dos maiores sovietes existe na Guarda Republicana; já vês o
impossível que é, nas cidades, o dominar de princípio o movimento. O preço sempre crescente
das coisas vai fazer aparecer a fome em Lisboa e Porto e esta é muito má conselheira... Se
possível fosse não acompanhares tua mãe para Lisboa, seria isso não só que te aconselharia,
mas que te pediria de joelhos... Deixa lá educação, deixa tudo e fica por aí. Dá-me esta
consolação. Não és só tu que precisas de descanso de espírito, sou eu também... Faze-me
isto... Não vás...



Não podia resistir a um apelo tão instante, que também ia ao encontro do meu desejo de
esperar em Mateus o dia do seu julgamento. No dia 11 de janeiro escreveu-me; conta-me que
foi

convidado para padrinho do filho de um preso, tendo aceitado. E acrescenta:



A esse propósito um preso da Enfermaria escreveu a outro dos quartos da malta que tinha
admirado eu ter aceitado, chamando-me santo, herói e mártir!! Diz que se honra de pertencer
a uma causa que tem tais homens! Com tão pouco trabalho, nunca ninguém mereceu tantos
elogios...



185



Por dois lados - e um absolutamente fidedigno - soube que em vários clubes bolchevistas se
discutiu a minha pessoa, resolvendo que nenhum mal me deviam fazer, antes protegendo-me.
É um verdadeiro atestado de benemerência que não julguei nunca merecer-lhes. Antes
assim...



A 13 de janeiro foi julgado o António Sampaio Pimentel, que fora governador civil de Vila Real,
saindo em liberdade. Este facto animou-me, por o seu caso ser igual ao do Fernando. Em 14 de
Janeiro escreve-me:



A boa Maria de Macedo foi ontem consultar uma bruxa só por minha causa. A bruxa disse: Ele
está muito triste, mas muito breve sai... Ela veio cá hoje repetir-me isso satisfeitíssima.
Coitada, é boa a valer... Não imaginas o que continua a ser a luxúria de chauds froides,
mayonnaise,

perdizes e doces. E ainda por cima me manda açúcar bom para o chá...



17 Jan. 1920,
Quanto ao ministério ... foi-se vergonhosamente. Nem calculo a impressão que esta cena fará
lá fora! Cada vez as coisas nos dão mais razão...



Refere-se esta observação a um triste episódio que então se deu e foi bem um sinal daqueles
tristes tempos: a queda do ministério Fernandes Costa que, acabado de ser nomeado, não
chegou a tomar posse, porque um grupo de arruaceiros, tendo à frente os célebres formigas
"Pinto" e "Ai ó Linda", foi ao ministério exigir a sua destituição! e foi obedecido! E tudo se
curvou, desde o presidente da república até ao exército - que de exército só tinha o nome -
diante da imposição de meia dúzia de malandros, ladrões e assassinos! Chegara-se à última
degradação. Que admira que um ano depois, na sinistra noite de 19 de Outubro de 1921,
andasse a "camionette fantasma" em corridas pela cidade à procura de vítimas já de antemão
designadas, levadas para o Arsenal da Marinha onde eram ferozmente chacinadas! Já de há
muito estava o terreno preparado para esse monstruoso crime.

E que admira também que cinco anos depois, no dia 28 de Maio de 1926, o Marechal Gomes
da Costa desembainhasse a sua gloriosa espada para escorraçar os que estavam afogando o
país



186




em lama e em sangue! E todo o país se levantou ao seu brado! E a sua marcha através de
Portugal, de Braga até Lisboa, foi uma marcha triunfal no meio das aclamações de um povo
inteiro! Não se disparou

um tiro! O povo estava farto de ser terrorizado e espezinhado pelos "ai ó lindas" que se tinham
apoderado do país e aclamou com entusiasmo a aurora de uma nova era de paz, prosperidade
e dignidade.



Continuo a transcrever a carta do Fernando:



O advogado do António Sampaio, Álvaro de Vasconcelos, disse-lhe que a minha defesa lhe
parecia facílima e mostrou até pena de me não defender. Disse que bem se podia contar com
uma absolvição. Mas lá quanto a absolvição, protesto. Pareceria que não tinha tomado as
responsabilidades que me cabiam...

Ainda sobre o lamentável caso Fernandes Costa, diz-me ele em 19 de janeiro:
A pequenez em número e em qualidade da manifestação que deitou abaixo o governo foi o
que mais impressionou as pessoas que de Lisboa chegaram e lá assistiram a tudo. É
extraordinário não haver um homem no ministério deposto! Se houvesse um que se pusesse
de pé, os outros agachavam-se; mas não, tudo se pôs de cócoras...



Finalmente marcou-se o dia do julgamento.



20 Jan. 1920,



Acabo de receber intimação para julgamento que, segundo o aviso, se deve realizar no dia 27,
isto é, terça-feira. Muito desejo que não venhas. Eu aí irei ter se for condenado a pouco e
combinaremos as coisas se for condenado a muito. Mas prefiro que não venhas...



23 Jan. 1920,



Na minha última carta dizia-te que o meu julgamento estava marcado para o dia 27 e pedia-te
para não pensares em vir. Para quê? Eu estou muito mais à minha vontade sem vos saber ao
pé e se for uma sentença favorável encontras-me aí com 24 horas de intervalo. Por isso te
pedia e peço para não vires. Se for desfavorável, teremos tempo de fazer combinações.



187



Está agora a ser julgado o Satúrio e, embora haja fundadas esperanças de que só seja
condenado no tempo de prisão já sofrida, confesso que receio muito pelo resultado.

Os ares bolchevistas estão tão turvos que não sei se influirão ou não no júri.

Há dois dias, aqui, o regimento 31 de infantaria soltou vivas ao bolchevismo e quis sair contra a
Guarda Republicana. Foi precisa a intervenção de um general! E é assim que estamos. Em
Lisboa a Guarda Republicana, como os pretorianos romanos, fazem e desfazem ministérios,
como os outros faziam e desfaziam imperadores!

A desordem é completa... Este governo leva a amnistia no seu programa. Vamos ver se a
Guarda R. lhe permite concedê-la...



25 Jan. 1920,
É depois de amanhã que sou julgado. Esteve aqui ontem o Alberto Pinheiro Torres que vinha
optimista, dizendo que eu nunca poderia ser condenado a mais do que o António Sampaio.
Mas não acredito. O pobre Satúrio lá está com pena maior e vou em má maré. Mas se fosse
assim e se acabar cedo, julgo que haveria quem me levasse de automóvel a jantar aí com
todos. Bom era, mas quase um absurdo... O A. Pinheiro Torres está com vontade, coitado, mas
há-de-lhe ser muito difícil. A maré é muito má. Orações não me faltam por cá. Há muito quem
reze por mim. Agora fala-se muito em indulto com banimento para os chefes. Trouxe a
novidade de Lisboa o actual promotor dos conselhos de guerra aqui... Isso é que era o diabo.
Oxalá não se adie mais o julgamento, pois sem julgamento nada impedirá de me considerarem
como chefe. Mas se fosse condenado a pouco, não me parece que o pudessem fazer.

Estamos nas mãos de Deus. Falo em adiamento do julgamento, porque é opinião do P. Torres
que se o Ramos também der parte de doença, o juiz adiará a audiência. Mas parece que o
Ramos vai. O ter-se anunciado nos jornais o dia 27 para julgamento atraiu para lá as atenções
e as más vontades. Sempre me foi indiferente a condenação; quanto mais, pensava e dizia eu,
melhor. Mas a história do banimento aflige-me! ... Hoje ouvi aqui missa...



Embora eu quisesse sempre proceder em conformidade com os seus desejos, desta vez era-me
impossível fazer-lhe a vontade. Não me consentia o coração estar longe dele no momento em
que se ia decidir o seu destino. Além disso sabia bem que ele, no seu íntimo, desejava a minha
presença e que, se insistia para que eu não fosse, era simplesmente para me poupar a uma
emoção



188




que não podia deixar de ser grande. Parti, pois, para o Porto no dia 26 levando comigo a Maria
Teresa. Não tencionava assistir ao julgamento; não queria enfraquecer a sua força moral com a
minha presença, mas queria estar perto e ter conhecimento imediato da sentença, fosse ela
qual fosse.

Na véspera do julgamento transferiram o Fernando para a Casa de Reclusão, onde este se
devia realizar. No dia 27 conservei-me no hotel, num enervamento de expectativa fácil de
calcular.

À medida que o julgamento ia decorrendo, iam-me dando pelo telefone notícias do seu
andamento. Encarregou-se dessa caritativa missão o Manuel Sampaio Pimentel, que procurava
animar-me, contando-me a admirável serenidade com que o Fernando enfrentava os seus
juízes. Mas a sentença, conheci-a através do Mota e Liz, que foi ao hotel expressamente para
ma comunicar.
O Fernando fora condenado a 18 meses de prisão, levando em conta a prisão já sofrida. Como
havia quase um ano que ele estava preso, restavam apenas seis meses para expiar a pena.
Respirei! Podia ter sido pior. Já podíamos formar planos para o futuro; já se via o fim daquela
dolorosa situação.

Pouco depois recebi um bilhete dele que me dizia: "Está autorizada a visita hoje. Podendo e
não havendo inconveniente de saúde, venham aqui à Casa de Reclusão".

Respondi pelo mesmo portador: Vamos já. Teresa.

Devido às circunstâncias relativamente favoráveis em que nos encontrávamos, a nossa
entrevista não foi triste.

A benignidade da sentença desagradou a alguns elementos mais exaltados, pelo que foi
preciso tomar certas precauções e demorar por alguns dias a transferência do Fernando
novamente para a Relação. Eu, entretanto, voltei para Mateus, para onde ele me escreveu a 5
de Fevereiro:



O meu nome torna-se um lugar-comum que por todos é agora empregue ao falar nas injustiças
dos julgamentos. E devemos confessar que, comparado com outros, tive muita sorte.



189



Ainda nos julgamentos de hoje foram dois condenados a pena maior e apesar de, segundo me
disseram, as testemunhas de acusação todas declararem que, o que sabiam, era por ouvir
dizer... Imagina que um dos jornais que fala na injustiça da minha condenação por ter sido
pequena, é a Monarquia! Vieram mostrar-me uma explicação publicada no dia seguinte. Dizia
que tinha por mim muita consideração e que sabia que eu seguia com simpatia e interesse o
seu movimento, mas que responsabilidades, etc., etc. E já sou como digo um lugar-comum que
dentro de pouco não tem significação...

Por fim realizou-se a sua transferência no dia 7 de Fevereiro, sem o mais pequeno incidente,
conforme ele me comunicou em telegrama do mesmo dia:



Sem novidade. Fernando.



E em carta também:
Já te escrevo da cadeia. A viagem fez-se sem incidentes. Vim com 2 oficiais, um deles o
Comandante da Casa da Reclusão e o outro o tenente Rogério. Não encontrámos ninguém no
caminho...



9. Fev. 1920,



Os meus 18 meses foram um marmelo cru atravessado na garganta da formiga.

Farto-me de receber cartas de parabéns. Com mais um pouco de coragem da parte do júri
tinham, ao menos, feito qualquer coisa de bom e os protestos eram os mesmos. Mas antes
assim que pior...



13. Fev. 1920,



Um dos empregados da cadeia disse hoje que eles estavam em ir também para a greve,
suponho que a tal dos empregados públicos... mas ainda não está nada resolvido porque se
foram entender com os correios e telégrafos e os dos correios disseram-lhes que nada
precisava de ir para a greve, que já estava resolvida e breve marcariam o dia. Que os correios
do Porto e de Lisboa eram como um só homem...

De forma que em breve teremos mais essa calamidade a juntar às outras. Eu sinto esta mais
que as outras por interromper as nossas comunicações.



190




Agora torna-se a falar em movimento sidonista. Talvez por isso o Debate de hoje trazia um
artigo "Vaca e riso" de uma violência bem

pouco de presumir num jornal tão cobarde.

[...] Contaram-me hoje que o governo tinha recebido uma nota das

potências declarando que se precisassem de apoio para fazer cumprir a constituição como, ao
que parecia, o não encontravam nem no exército,

nem na política, elas, potências, se encarregariam de restabelecer a ordem. Isto foi a propósito
da cena Pintor - Fernandes Costa, que lhes causou
uma terrível impressão... Parece que a nota era dirigida ao Presidente da República.

Afirmaram-me o caso como certo..."

A anunciada greve dos correios tornou-se um facto e veio interromper a nossa
correspondência durante alguns dias. Numa carta que lhe escrevi a 14 de Março e lhe mandei
pelo José Paulo Amaral, queixava-me de haver doze dias que nada sabia dele. Estava resolvida
a nossa ida para a Granja, pois queria estar num sítio perto de onde facilmente pudesse ir vê-lo
durante o tempo que ele ainda estivesse preso.

Devíamos partir a 13 de Março, para passar com ele o dia dos seus anos, mas amanheceu sob
um temporal desfeito e meu pai não consentiu que empreendêssemos a viagem nessas
condições. Adiámo-la, pois, bem contra a minha vontade e só partimos a 19. Passámos uns
dias no Grande Hotel do Porto, indo depois instalarmo-nos no hotel da Granja. Ao Porto ia a
um dia sim, um dia não, para ver o Fernando.

Nos últimos tempos da minha estada em Mateus não tinha passado nada bem e, com a
mudança para a Granja, os meus incómodos, longe de passarem, agravaram-se. Eram, decerto,
em grande parte devidos à excitação nervosa em que há tanto tempo vivia no meio de tantos
sobressaltos e cuidados. Pus-me a dieta, o que bastante me enfraqueceu e chegaram a ser
para mim verdadeiro martírio as idas ao Porto. Mas consegui nunca as interromper. Por fim a
Maria de Macedo mandou-me o seu médico, Dr. Portela, que me receitou as águas de
Caldelas. Minha mãe, entretanto, fora passar uns dias a Lisboa e eu esperei a sua volta para ir
fazer a cura que me era prescrita.

Parti no dia 12 de julho, o que me dava tempo a estar de volta a 6 de Agosto, dia em que o
Fernando devia sair da cadeia,



191



depois de expiada a pena. Levei comigo a Maria Teresa, deixando os outros pequenos
entregues à avó.

O tratamento fez-me bem e voltei de Caldelas considerando-me curada. Encontrei minha mãe
já instalada na pequena casa que tínhamos alugado para passar o resto do verão.

Agora que estavam chegando ao fim os nossos trabalhos, aumentava a nossa impaciência. As
horas pareciam dias e os dias pareciam anos. Mas tudo acaba por chegar, até aquilo que
ansiosamente se espera.

Os elementos avançados do Porto, sabendo que se aproximava o dia da libertação do
Fernando, faziam correr boatos desagradáveis. Dizia-se que um grupo de carbonários chefiado
por um tal Oliveira, dono de uma camisaria na Praça D. Pedro, iria esperá-lo à saída da cadeia;
falava-se até na possibilidade de um atentado.
Convinha, portanto, antecipá-la e o Fernando combinou com o director que - era boa pessoa -
que ela se efectuaria na madrugada do dia 6. Guardou-se absoluto segredo. Na véspera deu-se
um episódio algo cómico: o director mandou chamar o Fernando e disse-lhe que, pelo sim,
pelo não, era conveniente que ele saísse armado. Dizendo isto, quis dar-lhe a sua própria
pistola. Mas o Fernando respondeu-lhe: "Não é preciso, porque a pistola já cá está" e tirando-a
da algibeira, mostrou-lha. Espanto do homem, que exclamou: "Então os senhores têm cá
disto?", ao que o Fernando respondeu: "Temos, sim senhor, quando é preciso." Não sei se lhe
explicou como ela lhe chegara às mãos. Foi introduzida por uma costureirinha que costumava
visitar os presos e a levou no seu saco de mão. Quando a apalpadeira lho abriu, dobrou o
fundo de maneira que esta a não viu. Não faltaram actos de coragem, como este, praticados
pelas pessoas de quem menos se podiam esperar.

No dia 5 à tarde saí da Granja para casa dos Macedos, que moravam em Gaia, esperar a hora
da saída do Fernando. Estava marcada para as 3 da madrugada.

Iria buscá-lo um automóvel particular, guiado pelo próprio dono; era essa pessoa de inteira
confiança, mas de quem não me lembra agora o nome. A combinação era parar em casa dos
Macedos para eu e a Maria Teresa entrarmos no carro e seguirmos imediatamente para
Mangualde.



192



Tudo estava previsto nos mais pequenos pormenores; até a passagem da ponte D. Luís estava
paga de antemão, para não haver a mais pequena demora no trajecto. À hora marcada estava
o automóvel parado a uma pequena distância da porta da Relação, mas só às 3 e meia esta se
abriu, dando passagem ao Fernando acompanhado até ali pelo director da cadeia. Na rua não
havia vivalma; silêncio absoluto. Assim que ele entrou no carro, este pôs-se logo em
andamento.

Em casa dos Macedos todos os corações batiam apressadamente. Juntara-se ao nosso
pequeno grupo o escultor Teixeira Lopes que, como já disse, morava paredes meias com eles e
era o seu maior amigo.

Ansiosamente seguíamos os ponteiros do relógio. Três horas, três e meia, e o automóvel sem
aparecer! Começávamos a estar inquietos. Espreitávamos pela janela... Nisto vimos uns faróis:
"São eles!"... mas, não eram; era um carro que passava.

Por fim, outros faróis; desta vez, sim, era o carro! Parou em silêncio, e em silêncio desceram os
seus ocupantes. A porta da casa abriu-se cautelosamente e enfim! Apareceu são e salvo - e
livre - o ex-prisioneiro.

Foi um momento de intensa emoção; abraços, risos. Lágrimas de

alegria. Bebeu-se à saúde do amigo finalmente restituído à liberdade. Mas convinha não
demorar; podia ainda haver perigo. Um úl
timo abraço e o carro pôs-se em marcha. Eram 4 horas da manhã. A viagem pareceu-me um
sonho...

Às nove da manhã estávamos em Mangualde.



193



Últimos anos




Foi esta a última tentativa de restauração monárquica.

Se assim não fosse, não sei se o Fernando não teria, mais uma vez, sacrificado pela Causa o seu
sossego e saúde, apesar do protesto que me fez uma vez em uma das cartas: "Esta é a minha
última aventura..." Saiu desta última prova com a saúde bastante abalada, entre outras coisas
por uma bronquite que nunca mais o largou.

Pode-se bem dizer que as suas quatro prisões, e especialmente esta última por ser a mais
prolongada, lhe deram cabo da saúde e lhe abreviaram a vida. Ainda viveu doze anos, mas a
sua vida não foi mais do que um lento declinar de forças. Vários acontecimentos tristes
assinalaram estes anos; morreu o meu sogro, depois os meus pais e por fim o meu irmão. O
Fernando teve de se ocupar activamente da questão das partilhas e até empreendeu uma
viagem ao estrangeiro para tentar vender um colar de esmeraldas de bastante valor, o que não
conseguiu.

Voltou uma vez mais a Londres, cidade de que tanto gostava. Foi isto em 1931.

Em Dezembro do mesmo ano teve o primeiro anúncio da doença que o havia de matar.
Estávamos em Mateus, mas pouco depois partimos para Lisboa. Na noite de 10 de janeiro de
1932 teve a segunda crise, esta mais violenta, que nos deixou aterrados. Era de madrugada;
chamaram-se os médicos que o sangraram e assim o salvaram. Tinha a consciência da
gravidade do seu estado e no dia 12 à noite, estando eu ao pé dele e Maria Rita, disse-nos:
"Quero-me confessar." Pode-se imaginar o nosso alvoroço ouvindo-o exprimir um desejo que
era o nosso



194
desde que ele adoecera mas em que não tínhamos ainda tido a coragem de lhe falar. O
Fernando fora sempre um crente, mas este era, contudo, um assunto melindroso em que era
difícil tocar. Foi, portanto, grande a nossa emoção e foram fervorosas as acções de graças que
demos a Deus, que nunca abandonou os que Nele confiam.

Fui imediatamente falar com o Francisco, que ficou igualmente impressionado e resolvemos -
visto ser noite e não haver perigo de vida iminente - que este iria na manhã seguinte chamar
um padre.

Veio o frei João da Santíssima Trindade, padre muito inteligente e muito santo, confessá-lo; e
veio depois o prior da nossa freguesia das Mercês trazer-lhe a Sagrada Comunhão.

O Fernando ficou depois no sossego que só conhece quem está bem com a sua consciência.
Lembrou-lhe o frei João a conveniência de fazer a devoção das nove primeiras sextas-feiras do
mês, que ele aceitou com muito gosto e conseguiu levar a cabo. Este facto, ao mesmo tempo
que me dava uma grande consolação, dava-me como que o pressentimento de que Nosso
Senhor o deixaria neste mundo apenas o tempo preciso para as levar ao fim. Assim foi; a nona
sexta-feira foi no mês de Outubro e no dia 31 do mesmo mês a sua alma voou para o Céu. Não
posso duvidar de que Deus, na sua infinita misericórdia, escolheu a melhor hora para o chamar
a si.

Aquela crise passou e ele melhorou o bastante para continuar a fazer a sua vida habitual.

Mas outras se lhe sucederam, em geral de dois em dois meses e - caso curioso - sempre de
madrugada. A Maria Rita tinha umas injecções que lhe aplicava logo que elas começavam e
que bastavam para as debelar.

Mas cada vez aumentava mais o meu cuidado e me afligia mais

o cansaço cada vez maior de que ele se queixava. Já não tinha ilusões.

Quando chegou o Verão pensámos em sair de Lisboa e pusemos de parte a ideia de ir para
Mateus, por ser uma viagem longa e fatigante e resolvemos passá-lo em Mangualde. De
princípio o Fernando pareceu melhorar naquela terra que sempre fora da sua predilecção

onde fazia a vida tranquila que convinha ao seu estado. Mas depressa vi que essas melhoras
eram apenas aparentes.



195



A doença lá estava e era das que não perdoam. E a inquietação, como um verme roedor,
nunca me largava, embora procurasse não o mostrar.

Os Thomares estavam connosco em Mangualde e no dia 20 de Setembro nasceu o nosso
quinto neto, que se chamou Fernando.
O tempo foi passando, até que no dia 24 de Outubro se declarou nova crise, mais grave e
prolongada do que qualquer das outras, que me deu a certeza de que se aproximava o fim.

Tudo se tentou, chamaram-se todos os médicos das redondezas e até lá foi a uma conferência
o Dr. João Martins Pereira, seu médico assistente em Lisboa. Todos consideraram o caso
desesperado. A mim não mo diziam, mas não me era difícil adivinhá-lo. Restava só tratar da
alma...

Desde o princípio desta última doença fora chamado o Vigário. O Fernando confessara-se e,
desde então, todas as manhãs ele lhe levava a Sagrada Comunhão. Por uma licença especial,
tive a grande consolação de comungar também todos os dias ao pé dele, até mesmo no
próprio dia da sua morte. A sua serenidade era impressionante; não parecia temê-la, mas
antes desejá-la. Uma vez, estando eu sentada ao pé da sua cama e de mãos dadas com ele,
disse-me: "Gostava de morrer assim, com a tua mão na minha".

A minha irmã, a quem escrevi logo avisando-a do seu estado - pois sabia quanto era amiga dele
- veio imediatamente e demorou-se uns dias, não lhe assistindo aos últimos momentos porque
os deveres do seu cargo lhe impuseram a volta para Coimbra poucos momentos antes do fim,
que se não esperava tão depressa.

Eis como ela mais tarde me descreveu as suas impressões.



Entretanto iam passado os dias trazendo cada vez mais vívida a convicção, para nós tão
dolorosa, que o fim se aproximava a passos largos.

Mas moralmente nele não se via diferença. Sempre a mesma tranquilidade serena e forte, a de
uma nobre personalidade que soubera sempre encarar a vida e a morte, e agora encarava
também a eternidade sem temor, porque era recto e bom. Nessa luz tinha encontrado Deus e
a sua alma tinha-se colado a Ele.

E por isso à roda daquele leito de morte não se respirava senão paz.



196



Amanheceu o dia 31 de Outubro. A noite fora sossegada, ao contrário da anterior, que fora
bastante agitada. Velou-o a Cândida e eu deitei-me vestida sobre a cama, como fazia desde
que ele adoecera. O Francisco também, noutro quarto, nunca mais se metera entre os lençóis,
para estar pronto a acudir se fosse chamado.

Logo de manhã veio o Vigário trazer-lhe Nosso Senhor e ambos o recebemos juntos pela
última vez. As horas passaram na mesma serenidade. Pelas 5 horas da tarde despediram-se
dele a minha irmã e a minha cunhada Maria, que partiam no rápido, e que ele viu partir no
mesmo sossego em que tinha estado todo o dia. Nada fazia prever que o fim estivesse tão
próximo; mas passados uns vinte minutos, de repente sentou-se na cama, teve uma sufocação
e ficou-se. Junto dele estávamos eu, o Francisco e o António Thomar, estes dois a ampará-lo.
Vendo que estava tudo acabado, deitaram-no suavemente sobre as almofadas e eu cumpri o
triste dever de lhe fechar os olhos...

Tinha 58 anos, completados a 14 de Março. Dele se pode bem dizer: "tal vida, tal morte."
Morreu como um verdadeiro soldado!

O seu enterro foi também o de um soldado. Veio o Couceiro - o Comandante que ele com
tanta lealdade tinha seguido nas suas lutas pelo seu Ideal - a fim de o acompanhar à sua última
morada, trazendo a gloriosa bandeira azul e branca que estivera no combate de Chaves, com a
qual piedosamente lhe cobriu o caixão numa derradeira homenagem à sua bravura e à sua
lealdade.

E assim partiu na tarde do dia 2 de Novembro para o seu jazigo na Mesquitela.



197



Epílogo




Em Julho de 1945 a Rainha Sr.a Dona Amélia voltou a Portugal depois de 35 anos de exílio.
Veio visitar os seus mortos, dos quais um destino cruel a separou e que aqui dormem o seu
último sono. A sua vinda provocou uma enorme onda de simpatia. Milhares de pessoas
solicitavam a honra de lhe beijar a mão. Sendo impossível atender individualmente a todos
esses pedidos, a Rainha resolveu dar uma recepção em que todos os que tinham mostrado
esse desejo se puderam aproximar dEla. Fui desse número.

Não me reconheceu logo, o que não admira, mas assim que lhe disseram o meu nome, falou-
me logo do Fernando, dizendo-me: "Tive muita pena dele, era muito sua amiga... Tão bom, tão
dedicado! "

A necessidade implacável de abreviar a conversa, para dar lugar a outros que esperavam a sua
vez, fez com que nada mais pudesse acrescentar, mas para mim aquelas poucas palavras
foram como que a consagração final daquela vida de abnegação e de sacrifício pela Causa que
o Fernando jurara, a si mesmo, defender até à morte.



Lisboa, 31 de Maio de 1947.



ANEXOS
I. O dia da revolução em Cascais.(*)




No dia 4 de Outubro de 1910 estava em Cascais e, como de cos tume, levantei-me cedo a fim
de apanhar o comboio para chegar a horas à Repartição de Estatística onde estava colocado na
situação de "oficial em comissão", lugar criado pelo decreto que organizou aquela repartição
em 1884, salvo erro, e que eu ocupava desde 1900. Ao levantar-me, contou-me a criada que
corriam boatos de revolu ção em Lisboa, coisa em que não acreditei. Durante o caminho para a
estação, outra vez ouvi os mesmos boatos e no largo encontrei o Artur Vaz na sua charrete que
mos confirmou dizendo que estava interrompida a circulação dos comboios. Fui então na
charrete dele até à estação, onde me repetiram o mesmo. Pensei em ir a Lisboa a cavalo ou de
carro para me apresentar no Quartel General, mas o Artur Vaz falou-me nas dificuldades de
execução desse projecto e lembrou-me que outros oficiais deviam estar em Cascais no mesmo
caso que eu e que julgava que eles se tinham ido apresentar ao Matto Cordeiro, por ser o
oficial mais antigo. Pensei que a vontade dos meus camaradas devia ser igual à minha e que
juntos poderíamos tal vez obter a solução desejada. Segui na charrete a procurar o Matto
Cordeiro, que acabei por encontrar no quartel da guarda fiscal, a quem me apresentei: - Diga-
me a sua morada e espere instruções, disse-me ele. - Mas então não vamos para Lisboa? -
Como?




*. Transcrição de um documento manuscrito por D. Fernando de Albuquerque, conde de
Mangualde, que hoje faz parte do espólio da Fundação da Casa de Mateus. (Nota do Editor)



201



O mar é deles, o caminho-de-ferro está interrompido e pela estrada há grupos armados em
Carcavelos que impedem a passagem. - Mas podíamos tentar... - se alguém for eu aviso-o,
fique descansado.

Voltei então para casa e dali para o quartel da guarda fiscal saber notícias, pois era o único
telefone que trabalhava, estando ligado, julgo que com a repartição dos impostos do
ministério da Fazenda. O Inspector dos impostos, Faria, também em Cascais, telefonava
amiúde pedindo informações e ordenando que fossem indagar o que havia e lho
comunicassem. As informações que chegavam eram trazidas por empregados da inspecção
que diziam apenas o que viam - não podíamos passar da rua do Ouro por as forças militares o
não consentirem. - Passaram agora carroças com mortos - Paisanos ou militares? Perguntava o
Faria. - Militares, respondia o outro pelo telefone. - De que arma? - Guarda municipal e
marinheiros.
Esta informação repetiu-se mais vezes, falando o informador também em paisanos e soldados
de infantaria. Outras vezes não sabia as fardas, por só lhes ter visto as pernas. Já sobre o tarde,
como a revolução não tivesse sido dominada, tornei a falar com o Mattos Cordeiro, que me
disse ter o Sr. Infante D. Afonso declarado não abandonar a cidadela, apesar de todos os
conselhos que lhe davam no sentido de se ir abrigar em Sintra ou Mafra, onde havia
guarnições militares ou destacamentos que podiam velar pela sua segurança, enquanto na
cidadela estava apenas um destacamento de sete soldados que, ainda que reforçados com os
soldados da guarda fiscal, se reputava força insuficiente para resistir a um ataque mesmo de
paisanos, desde que estes fossem numerosos, o que era de recear, pois cerca de Cascais havia,
em Parede e Alcabideche, republicanos que decerto não ignoravam os nossos escassos meios
de defesa e a presença do Príncipe Real. Visto Sua Alteza não sair da cidadela, era preciso pô-la
em estado defensivo, e com esse intuito para lá nos dirigimos todos os oficiais dizendo-me o
Mattos Cordeiro no caminho que era escusado pensar em Artilharia, pois que a que existia no
forte só servia para salvas. Não me lembro já quem emprestou o seu automóvel para ir buscar
aos diferentes postos da guarda fiscal os soldados que lá estivessem destacados. O capitão do
porto, de quem também me esquece o nome, como eu ex-aluno do Colégio Militar onde
tivemos o mesmo número, mandou apresentar na cidadela os poucos marinheiros que tinha às
suas ordens.



202



Ao entrar na cidadela chegou-se a mim o Visconde de Athouguia perguntando-me por que se
não tratava de artilharia. - Não há que preste - já viu as peças que aí estão? - Não... - Pois vá
vê-las... - Disse-me o Mattos Cordeiro que só serviam para salvas. - Homem, vá vê-las, não lhe
digo mais nada. Falei nisso ao Mattos Cordeiro que achava inútil a visita mas cedeu à minha
insistência e fui ver as peças, encontrando umas cinco ou seis de bronze de 7,5 centímetros
com culatra de aço em reparos de campanha. Pareceram-me susceptíveis de serviço e, depois
de falar de novo com o Mattos Cordeiro, ficou resolvido preparar algumas peças e arranjar
umas guarnições a quem eu devia dar uma ligeira instrução. Fui escolher os melhores pontos
para serem ocupados pelas peças e, levando lá o Mattos Cordeiro, decidimo-nos por dois, um
de cada lado do portão de entrada em cima da muralha. Mas as peças tinham servido na
véspera ou antevéspera para uma salva e o soldado encarregado da limpeza tinha tirado e
desarmado as culatras a todas as peças. O oficial almoxarife não estava em Cascais e o
soldado, ou parvo ou atado, levava um tempo imenso a armar as culatras e armou-as todas
mal. Ao mesmo tempo mandei deslocar as peças para os sítios escolhidos, para o que tinham
que descer uma grande escadaria e subir pelas escadas do paço que em certo ponto estavam
interceptadas por uma grade de ferro com portas. Lá desceram as escadas mas depois vieram-
me dizer que não tinham consentido que a grade se partisse para deixar passar as peças e por
isso que se tinham deixado no terreiro em frente do portão. Este aviso foi encontrar-me na
arrecadação procurando granadas, espoletas, escorvas, etc., trabalho violento e maçador que
eu fiz quase sozinho, pois aí o José de Mello, ajudante de Sua Alteza, me ajudou certo tempo
indo buscar ao paiol pólvora para carregar os projécteis e os cartuchos, o outro oficial de
artilharia que então lá se encontrava, o Roberto Baptista, em nada me ajudou. Ao receber o
aviso pus logo de parte o trabalho de preparação de granadas e fiz conduzir para o pé das
peças lanternetas e cartuchos de pólvora. Já ali, verifiquei que os cartuchos eram de salva e
como não soubesse a carga e pólvora usada naquelas peças, preparei uns cartuchos com mais
pólvora que, visto as peças só deverem atirar com lanterneta, podiam, em último caso, servir.
Tratei então da guarnição que ficou composta de Jorge Bleck, bota-fogo, Pedro Sabugosa,
apontador, Tomás Savedra, municiador e Fernando Abecassis.



203




Resolveu-se não pensar em mais guarnições visto não se terem apresentado mais rapazes e,
depois de muito trabalho, só se terem arranjado em estado de serviço duas peças. Depois de
jantar voltei à cidadela dando uma nova instrução aos voluntários. Nesse momento tinham-se
reunido na fortaleza os soldados com espingardas, não sei quantos, julgo que seis marinheiros,
cada um com um revólver albadie com seis cargas e alguns paisanos armados de pistolas. As
duas peças que ficaram no terreiro foram colocadas, uma em frente ao portão e outra por trás
de uma esquina. A hipótese era fazer fogo com a primeira enquanto se pudesse e, quando
forçados a retirar, correr para junto da outra e dispará-la por sua vez. Outra peça estava em
frente de uma ponte de madeira que atravessava um fosso para o lado do sul. Chamaram-me
para resolver sobre o melhor modo de destruir essa ponte, aconselhei o petróleo, mas não se
chegou a levar para lá nenhuma lata. Era já noite fechada e a guarnição ocupava os seus
lugares junto da peça da entrada quando passou um bando pelo lado de fora da fortaleza
dando vivas à república. Nesse momento vi passar dois vultos, um dos quais muito embuçado,
que se dirigiam para a porta de saída. Um paisano que foi saber o que era, trouxe a informação
de que eram garotos, nenhum dos quais valia um tiro. Pouco depois corria com insistência que
o Senhor Infante, assim todos o chamavam, tinha saído. Logo que isto se confirmou, Jorge
Bleck, tomando a palavra em nome dos outros voluntários-artilheiros, diz-me: - Nós viemos
para aqui para defender o Príncipe, o Príncipe não está, vamo-nos embora. - Está bem, Adeus.
- Tu não vens? - Eu quando me entregam um posto, não o abandono. - Isso és tu que és militar,
eu não o sou e se estava disposto a defender o Príncipe, não estou disposto a defender a
cidadela. - Façam o que entenderem. Durante um quarto de hora ainda se demoraram em
conciliábulo e depois saíram. A saída do Príncipe tinha feito desaparecer todo o entusiasmo na
defesa da Praça. As peças lá ficaram na situação descrita. Fui então ter com os outros oficiais
para uma salita no rés-do-chão, onde está colocado o telefone particular para o Paço de Sintra.
Estavam lá o Mattos Cordeiro; o capitão do posto; um cunhado dele, meu antigo
contemporâneo no Colégio Militar; Portugal, oficial de infantaria; o tenente-comandante da
guarda fiscal; o Roberto Baptista; o Conde da Ponte e eu. Comuniquei ao Mattos Cordeiro



204
o desaparecimento dos voluntários, prestando-me eu a dar fogo à peça que estava carregada e
apontada ao meio do portão da entrada, e lembrando-lhe que em caso de necessidade eu não
poderia disparar mais do que uma única vez. Soube lá que o tal vulto embuçado era o Príncipe
Real e que tinha ido meter-se num automóvel que estava parado junto da casa Gandarinha.
Não se sabia o destino mas supunham que tivesse ido para Sintra e o Mattos Cordeiro
determinou que nos conservássemos ali todos até saber de Sintra da chegada do Príncipe. De
Sintra respondiam pelo telefone mostrando ignorar o seu paradeiro e não acusando a sua
chegada. De Mafra, para onde telefonaram de Sintra pois que do telefone de Cascais não se
podia ligar para lá, diziam o mesmo. Disseram-me mais tarde que ele tinha ido dormir a casa
do António Praia. Pela uma hora chegou um marinheiro avisando a entrada de um navio com
um só farol aceso, muito pequeno para cruzador e muito grande para iate de recreio. Saíram o
capitão do porto e o Conde da Ponte, voltando sem terem aclarado que navio fosse. Soube
depois que era o Dona Amélia.

Eram umas três da manhã quando se desistiu de esperar mais e havendo em volta da cidadela
um sossego completo, fomo-nos deitar.

Antes, porém, o Mattos Cordeiro exigiu que eu escondesse a peça que estava em frente do
portão para dentro de um pátio cerca, coisa em que já tinha insistido mais vezes. Assim se fez.
No dia seguinte disseram-me na Praça, quando lá cheguei, que a república estava proclamada,
que o Príncipe tinha embarcado, um pouco antes da minha chegada, a bordo do Dona Amélia,
que tinha tido uma despedida impressionante, que tinha chorado e mostraram-me ainda lá ao
longe o Dona Amélia com um penacho de fumo a perder-se no horizonte.

Estava implantada a república!




II. Adesão




Estava proclamada a república!

Antes de explicar a impressão que este facto me produziu devo dizer o meu modo de pensar a
respeito do regime. Já há muito eu entendia que eram expressões idênticas quanto à soma de
liberdades concedidas ao povo,



205
ao verdadeiro povo, ao cidadão. Uma e outra regidas por constituições, a mais liberal das duas
formas de governo seria a que tivesse uma constituição mais liberal. Quanto ao facto de o
chefe de estado ser eleito ou hereditário pouca importância tinha no meu espírito pois que só
admitia uma constituição liberal, e nessa constituição pouco importante seria, relativamente, o
papel de um chefe de estado. Admitindo mesmo que fosse importante, contrabalançavam-se,
quanto a mim, os dois sistemas pois na monarquia havia a vantagem de facilidade de
entendimento com os outros chefes de estado pelas ligações de família e na república, fosse
quem fosse o quidam que representasse esse papel, ilusória me parecia a vantagem da sua
substituição. Quanto ao ponto tão apregoado da eleição do mais digno, nunca em tal
acreditara por serem eleições feitas para políticos cujas ambições impediriam o voto em nome
dos respectivos chefes ou de pessoas por eles indicadas e cuja escolha se faria mais pelos
favores que deles se esperassem que pela competência que neles se reconhecesse. Por
princípio, como se vê, era um pouco monárquico, por simpatia era-o um pouco mais. Mas vê-
se também que me não repugnava de forma alguma que o meu país fosse uma república. A
questão de simpatia em nada prejudicava esta asserção pois sempre entendi sacrificá-la ao
que eu reputasse ser o interesse da minha pátria. Mas nunca me repugnou aceitar a forma
republicana. Repetia muito amiúde uma frase do par do reino, Francisco José de Medeiros,
que expressava bastante o meu modo de sentir "Não é a república que me mete medo, diria
ele, o que me mete medo são os republicanos!"

Estava proclamada a república!

Devia acatá-la imediatamente para ser coerente com os meus princípios. Mas como se tinha
ela proclamado? Sem resistência! Perante a indiferença geral! Perante o consentimento do
exército! Mas este consentimento do exército aproximava-se muito de uma derrota, e uma
derrota consentida significa cobardia! E devia eu, oficial do exército, pactuar com essa
cobardia? Não. Enquanto houvesse no exército quem quisesse mostrar que ainda nele
existiam sentimentos de brio e de cumprimento do dever, eu estaria ao lado desses. Sozinho é
que só por loucura alguém se oporia. E dia-a-dia ia esperando que no norte ou no sul alguém
levantasse o estandarte de revolta



206



para me ir acolher a ele. Mas nem boatos correram de qualquer resistência. Era um facto.
Estava proclamada a república.

Impossibilitado de reagir só me restava aceitar o novo estado de coisas. Para isso, ordenou o
governo, era preciso ir assinar uma declaração em que afirmava reconhecer o novo regime. O
facto em si pareceu-me, sem muito bem explicar porquê, rebaixante. Como estaria redigida a
tal declaração? Hesitei. Chegavam ao meu conhecimento as baixezas cometidas por alguns
oficiais: houve alguns que até beijavam o trapo encarnado e verde! Estes actos chegaram-me
aos ouvidos acompanhados sempre de comentários de desprezo de monárquicos e de
republicanos. Meu pai insistia para me ir apresentar, temendo que prejudicasse a minha
carreira com um acto irreflectido. - Vou amanhã -, respondia. E com estes adiamentos se
passou o termo prescrito pelo governo. Descansei ao sabê-lo, ao menos assim estava tudo
resolvido. Mas não... deram mais um dia e lá fui.

Em cima de uma mesa no quartel-general estavam uns quantos quartos de papel cobertos de
assinaturas. Não vi declaração nenhuma. Depois de muito procurar lá vi a encabeçar um dos
quartos a seguinte declaração: "Declaro protestar a minha adesão ao novo regime", isto ou
coisa semelhante. Assinei num dos quartos.

Tinha reconhecido a república. Era também uma situação definida. Restava-me esperar que os
novos homens do novo regime fizessem prosperar o país e para isso estava resolvido a dar
todo o meu consenso. Escrevi ao meu tio dizendo-lhe que era agora para as constituintes que
queria ser deputado, o que tantas vezes tinha recusado no tempo da monarquia. O mesmo
disse a meu pai. Continuei a trabalhar na minha repartição como nos tempos do antigo regime.
Começaram os disparates do governo provisório e eu, cheio de esperança, desculpava-os.
Vamos a ver, vamos a ver. Encontrei uma vez o Joaquim Telles de Vasconcelos que conspirava
desde a proclamação da república e que é decerto um daqueles a quem a monarquia mais há-
de dever a sua reimplantação. Desde 5 de Outubro que ele ia ligando todos os descontentes da
república. Falou-me em conspirar mas eu declarei-lhe abertamente que entendia pôr as
minhas simpatias de parte quando se trata do interesse do meu país e julgava não lhe poder
convir uma guerra civil.



207



continuava esperando. Mas as tolices multiplicaram-se e por fim houve os ataques ao Correio
da Manhã, Diário Ilustrado e ao Liberal. Encontrei no Chiado, marchando em sentido contrário
ao meu, os heróis dessa aventura. Eram poucos, marchavam com pouco entusiasmo fazendo
uma fraca ovação quando passavam pela redacção da República e soltando depois uivos mais
fracos ainda. Aquela horda, passando no meio da domingã sensaboria do Chiado no meio da
indiferença dos passeantes, ia recomendada pelo Pope que marchava paralelamente pelo
passeio. Não vi mais ninguém, só o vi a ele que pela sua atitude me fez reparar na semelhança
entre o corpo da rua e uma força de infantaria em marcha "à-vontade". Houve o ataque aos
jornais. À noite, da janela do Tauromáquico vi em frente, na redacção da República, dois vultos
de pé, um gesticulando o outro fardado escutando reverente. Era o António José d'Almeida e o
Pope.

Estava tudo explicado. O chefe não estava contente com o subordinado que tinha cumprido
uma tão honrosa missão.

Era de mais! Tinham mostrado não se importarem com o cumprimento das suas promessas,
nem sequer proceder em conformidade com os seus princípios basilares. O ataque aos
"adesivos" tornava uma indignidade o conjugar as esperanças com os governantes. E por fim
nem sequer a liberdade de imprensa, a mais reclamada das liberdades nos tempos da
oposição, era respeitada. Era de mais! A república ia ter em mim, desde aquele momento um
adversário implacável.




III. Conspirando




Logo no dia seguinte procurei o Joaquim Telles na sua casa "Villa Maria Luiza" em Benfica e
declarei-lhe estar ao dispor de quem se propusesse derrubar o regime. Ele contou-me que
havia um comité formado pelo João d'Azevedo Coutinho, José d'Azevedo Castelo Branco e
Conde de Bertiandos. Que esse comité lhe tinha sido revelado pelo João Coutinho numa
entrevista que com ele tivera no jardim Zoológico. O que eu entendi (não sei se então ou
depois)



208



foi que o João Coutinho tinha a seu cargo a parte militar, o José d'Azevedo a parte diplomática
e o Conde de Bertiandos a financeira. Tinham combinado os dois, João d'Azevedo e Joaquim
Telles, que se arranjasse um oficial de cada arma para angariar oficiais das respectivas armas
que trabalhariam às ordens do comité. Disse-me o Joaquim Telles que ainda não tinham
ninguém de artilharia e que por mais esse motivo estimava a minha adesão porque era a arma
mais mal trabalhada. Disse-me o sinal e a cifra dos conspiradores e comecei trabalhando. O
sinal que nunca tive ocasião de utilizar era, ao apertar a mão, premir com força o dedo polegar
sobre o dedo polegar da pessoa com quem se falava. Esse devia reagir contra a pressão e
então o primeiro, para evitar dúvidas, encolhia sob a mão do outro o dedo mínimo.

A cifra era o n.o 2354 e usava-se adicionando ao número de ordem do alfabeto da letra que se
queria escrever, ora o 1., 2., 3. ou 4. número combinado, ficando uma sequência de números
de difícil adivinhação. Ora do comité revelado ninguém aparecia. O Bertiandos estava na
província, o José d'Azevedo expulso do país ou coisa parecida e o João Coutinho tinha que
tomar tanto cuidado pela constante vigilância de que era alvo que dificilmente se poderia
procurar. Comecei falando a mais oficiais da arma quando me encontrei com o Conde de
Penella que se me queixou amargamente de não ser convidado para a conspiração, apesar de
ser um dos que pediram a demissão pela implantação da república. Já de há muito lhe
constava que eu conspirava e que tinha tido reuniões em minha casa. Contei-lhe quanto essas
informações eram falsas, pois de há pouco estava iniciado. Disse-me ele que facilmente o
aproveitariam pois que era solteiro, independente e que tanto lhe faria viver em Lisboa, como
no Porto como em qualquer outra parte onde os seus serviços fossem precisos. Fui dizer isto
mesmo ao Joaquim Telles acrescentando que um auxiliar destes me parecia que devia ser
aproveitado directamente pelo comité. O João Coutinho tinha ido desterrado para Portalegre e
não deixou um substituto.

Não havia comité! Reuni imediatamente os oficiais das diferentes armas que comigo e com o
Joaquim Telles trabalhavam e que eram o João d'Azevedo Lobo de cavalaria e o Guedes Vaz de
infantaria e todos resolvemos abandonar o comité e formar outro.



209



A ideia de o comité ser formado por nós tinha, segundo eles, o contra de todos nós termos
nomes sem prestígio suficiente que desculpasse a estreiteza de galões e então propuseram, e
foi aprovado, que procurássemos um galão grosso para que fosse o chefe da conspiração de
que nós nos considerássemos ajudantes e a quem consultássemos nos casos difíceis,
resolvendo os quatro por nós mesmos os casos vulgares que aparecessem. Foi isto aprovado e
lembrando vários nomes foi aprovado o do Celestino da Silva e marcharam para casa dele dois,
creio que o Guedes Vaz e o Joaquim Telles a convidá-lo. Ainda ninguém lhe tinha falado e
aceitou. Estava formado o comité, mas não conhecendo nenhum dos trabalhos anteriormente
feitos pelo outro comité, o que ainda hoje ignoro, tivemos que começar pelo princípio. O mais
importante pareceu-me ser: 1.) saber se algum outro agrupamento militar trabalhava
simultaneamente para saber se nós nos podíamos apresentar como o único comité militar do
país; 2.) entrar em comunicação com el-rei D. Manuel ou com quem quer que fosse escolhido
para o cargo; 3.) fazer o plano revolucionário. Para resolver o primeiro ponto foi tarefa fácil.
Calculando que a haver alguma organização revolucionária monárquica não deixariam de ter
convidado os antigos oficiais em serviço na Casa Real, dirigi-me ao Senna, ao José Sabugosa e
não sei se a mais alguns e pela sua declaração de que era eu a primeira pessoa que lhes falava
em revolução, convenci-me que éramos nós o único agrupamento revolucionário e que
podíamos trabalhar à-vontade e resolver os outros pontos sem termos que temer embaraçar
outras iniciativas. Era preciso pois tratar do segundo ponto. Em primeiro lugar, quem deveria
ser o nosso rei? Nós que todos os dias falávamos a vários oficiais na questão política sabíamos
o desprestígio que o embarque de D. Manuel tinha acarretado sobre o seu nome. Mas não
sendo ele, quem? D. Miguel? A esse prejudicava-o a animadversão geral contra os filhos do
primeiro matrimónio. Houve quem lembrasse fazer rei o Infante D. Duarte, filho mais velho do
segundo casamento de D. Miguel, ficando o pai como regente durante a menoridade do rei.
Houve quem lembrasse chamar um Príncipe de Hohenzolern, de quem nunca soubemos o
nome, descendente pela mãe da casa de Bragança, inaugurando com ele uma nova dinastia.
Mas nisto correm rumores de que o ministro de Espanha



210
dissera ter-se conservado em Portugal para auxiliar a restauração de D. Manuel, mas só de D.
Manuel. O aforo de Espanha a um movimento tal como o desejávamos não era coisa para
dispensar e eu fui o encarregado de saber da autenticidade desses boatos. Dirigi-me ao
Marques de Gouveia, em casa de quem tinha encontrado o ministro de Espanha e, declinando-
lhe a minha qualidade de conspirador e membro do comité, pedi-lhe para perguntar em
segredo ao ministro de Espanha se os tais boatos eram verdadeiros e se ele estava disposto a
receber em audiência um oficial conspirador. Esta segunda pergunta parecia-me da maior
importância ainda que a primeira, porque a acedência significava um dedicado empenho em
nos auxiliar. Enquanto não vinha a resposta continuámos trabalhando, resolvendo dar por
certo o boato e então procurar popularizar o nome do Sr. D. Manuel, resolução que foi
ajudada pelas nossas simpatias pessoais, simpatias que todos nós procurámos sempre fazer
calar perante o que nos parecesse ser mais rápido para o desaparecimento da república e que,
na discussão deste caso, seria o que maior número de votos alcançasse entre os oficiais nossos
camaradas. O ponto de vista era o mesmo em todos - Antes isto que voltarmos aos últimos
tempos do regime monárquico - não pode voltar. - Não pode? Basta vir a Mamã, os mesmos
conselheiros privados e aí teremos outra vez o Teixeira de Sousa, José Luciano e quejandos. -
Se o Rei se obrigasse a não trazer a Rainha Dona Amélia, a modificar a sua casa militar e civil,
os tais conselheiros privados, e se obrigasse também a não consultar mais os antigos ministros
- Isso então era outra coisa - Pois é essa outra coisa que todos nós desejamos e pela qual
trabalhamos e contamos com a tua adesão - Homem, isso é sério? Mas se o caso for assim...
Outros começavam perguntando - Restauração monárquica mas com que rei? - Com D.
Manuel - Admites a possibilidade de ele voltar? - Tenho a convicção, para não dizer a certeza,
de que há-de voltar - Ora se voltar, voltaremos nós à mesma porque... e repetia-se a mesma
argumentação anterior. Cansava o repetir de manhã à noite constantemente a mesma coisa e
houve dias em que tal me aconteceu, e como a mim decerto aos outros, mas tendo chegado o
dia combinado com o Marques de Gouveia para ir receber a resposta, lá fui. Com respeito ao
primeiro ponto, era certo,



211




mas o que à Espanha mais importava era não ter por vizinha uma tão irrequieta república.
Quanto ao segundo, já alguém lhe tinha querido falar e ele não quisera. - Esse alguém é o José
d'Azevedo? - Perguntei eu. - Já que o sabe - respondeu-me o Marques, mas ele pediu-me para
lhe não dizer quem era. Mas agora estava disposto a receber quem se apresentasse enviado
pelo comité mas com a condição, para evitar suspeitas, de que um oficial se apresentasse
perguntando pelo adido militar "Apparici", fosse com ele dar um passeio de automóvel como
amigo velho e, voltando depois para a chancelaria, passasse por uma porta interior para a
legação. Agradeci ao Marques e fui comunicar isto aos outros membros do comité que
queriam que eu fosse logo no outro dia. Opus-me por nesse acto não haver só um
compromisso para mim mas também um motivo de desprestígio para a Causa e só quando
fosse necessário o procuraria. Antes de mais nada devo dizer que naquelas conversas que
resumi com outros oficiais, eu via atribuir à Sra. Dona Amélia uma responsabilidade que eu
reputava injusta, mas entendi não desmanchar esse erro porque a quantas mais pessoas
fossem atribuídas algumas das culpas dos acontecimentos mais fácil nos era popularizar o
nome de el-rei e creio que mesmo Sua Majestade a Rainha aprovaria, em atenção ao fim
visado, o não procurarmos ilibá-la de algumas das culpas que lhe eram atribuídas, de que só a
poderíamos livrar lançando-as na responsabilidade de el-rei, ou entrando em largas discussões
sem utilidade para a causa.




IV. A Mensagem




Resolvido o primeiro ponto era preciso tratar do segundo. Devíamos pôr-nos em contacto com
el-rei. Como? Mandando um emissário, era o mais simples - E qual devia ser o mandato desse
emissário! Entendemos que devia comunicar a el-rei o verdadeiro estado de espírito da nação
e dizer-lhe aquilo a que, em nome d'Ele, nos obrigámos a fim de conquistar adeptos. A
insistência geral, a insistência unânime, extraordinariamente unânime era que a volta d'Ele
não devia ser acompanhada da volta de Sua Majestade a rainha,



212




que a entourage isto é, a sua casa civil e militar, devia ser substituída em absoluto e que devia
passar-se certidão de óbito à grande maioria dos políticos em evidência nos últimos anos de
regime monárquico. A redacção destas condições e a forma de o Rei se obrigar a elas julguei-a
acima das minhas forças e tratei de procurar quem disso se encarregasse. Todos os dias
encontrava no Clube Tauromáquico o oficial de Marinha Pedro d'Azevedo Coutinho, primo de
João d'Azevedo Coutinho oficial muito respeitado pela sua bravura e de reconhecido critério.
Foi a ele que eu encarreguei da redacção melindrosa.

Um dia no Clube chamam-me ao telefone. Era o João d'Azevedo Coutinho que me pedia para ir
falar com ele no dia seguinte às duas horas da tarde, o que prometi. Falei com o João Centeno
que me explicou a forma de ir a casa dele sem ter que perguntar a ninguém o caminho, pela
suspeição que já então rodeava o nome dele dizendo-se até que tinha a casa vigiada
constantemente.

No dia seguinte lá fui. Parece que a vigilância já não era tão grande ou era inutilizada pela
grande quantidade de pessoas que todos os dias recebia a dar-lhe os pêsames pela morte da
mãe que morrera poucos dias antes. Conversámos sobre a conspiração dizendo-me ele que
estava à nossa disposição para tudo, que só o que pedia era que "não fizessem a revolução
sem ele" que se tal acontecesse dava um tiro na cabeça. Disse-me também que estava em
correspondência com el-rei, não tendo, contudo, tratado de coisa nenhuma em especial. A
meio da conversa entrou o Pedro d'Azevedo Coutinho que trazia o compromisso, ou como
melhor quisessem chamar, redigido. Vinha redigido em forma de declaração para ser assinado.
Não me lembram os precisos termos; diria em súmula que el-rei se obrigava solenemente no
caso de recuperar a coroa e seguiam os quatro artigos. No primeiro, cuja redacção não sofreu
nunca modificação, obrigava-se a, logo que o estado do país o permitisse, reunir constituintes
que votariam a Constituição pela qual o país se devia reger. Esta condição não nos tinha sido
pedida directamente por ninguém, mas julgávamos, e eu julgo ainda, que estaria no espírito de
toda a gente. O segundo artigo dizia que, enquanto as cortes não resolvessem sobre o assunto,
Sua Majestade a Rainha, Sua Augusta Mãe, não voltaria a residir em Portugal.



213



Não me lembro já as alterações que sofreu a redacção deste artigo nem quem as propôs, em
todo o caso o nosso agente ia autorizado a permitir qualquer outra redacção, lembrando nós
mesmos o acrescentamento da frase "satisfazendo assim o desejo manifestado por várias
vezes pela mesma Augusta Soberana". O terceiro artigo dizia que não podiam ser chamados a
formar ministério, nem consultados, nenhuns dos antigos políticos que tivessem sido ministros
desde o dia tantos de tal. A intenção deste artigo assim redigido era salvar o João Franco e os
do seu partido. Tão claramente manifestava esse intuito a redacção apresentada que, mesmo
em casa do João d'Azevedo Coutinho, propus outro que seguiu sem mais alteração e que era
aproximadamente o seguinte: "Não poderão ser chamados a formar ministério nem
consultados nenhuns dos antigos políticos acusados pela opinião pública de causadores ou
consentidores dos desgovernos dos últimos tempos da monarquia". Assim redigida, permitia
mais latitude a el-rei sobre a consulta dos políticos e satisfazia da mesma maneira a exigência
ditada pelos nossos camaradas. O quarto e último artigo diria que a sua casa militar e civil seria
completamente substituída. Este foi o que sofreu mais redacções. O primeiro imposto foi pelo
Celestino d'Almeida que queria que se dissesse que devia ser reorganizada sob o princípio de
periodicidade do desempenho de funções. Como não estivéssemos todos de acordo com
aquele princípio, modificámos para: "reorganizada sob novas bases"; e ainda houve outra
substituição, proposta pelo Conde de Penella, exceptuando da casa civil e militar os
honorários, por o Couceiro ser honorário e não poder, por aquele artigo assim redigido, ficar
pertencendo à casa militar de el-rei. Ficou pois um artigo muito comprido de que me não
lembro da redacção definitiva mas cujo sentido se depreende do anteriormente escrito. Como
dizia, foi-me o compromisso, chamemos-lhe assim, entregue em casa do João d'Azevedo
Coutinho e na presença dele, pelo também oficial da armada, Pedro d'Azevedo Coutinho. João
d'Azevedo leu-o e não fez observações nenhumas, concordando comigo que aquele
compromisso assinado nos ia facilitar muito o nosso intuito de popularizar o nome de el-rei e
preparar com valiosas adesões o sucesso da contra-revolução. Aqui está como nasceu aquele
célebre compromisso que tanta celeuma levantou depois.
214




Vamos agora ver o que lhe aconteceu. Feito o documento era preciso enviá-lo a el-rei, para o
que eram precisas duas coisas: mensageiro e dinheiro. Por essa altura, o comité civil do Porto
tinha-se posto em relação connosco e tinha-nos mandado dizer que para trabalhar os oficiais
do Porto, muitos dos quais eram conhecidamente afectos ao regime monárquico, era preciso
mandar lá um oficial, pois os oficiais tinham feito constar que só com um outro oficial se
abririam. Para esse fim tínhamos decidido mandar o Conde de Penella que, na ocasião em que
se tratava do compromisso, ainda não tinha partido. Quem mandar? Nenhum de nós podia ir,
a não ser sem esperanças de voltar, pela nossa situação militar que só nos permitiria ir com
licença para o estrangeiro, o que certamente nos era negado e daria como resultado o sermos
vigiados. Mas todos nós queríamos que fosse um oficial. O Conde de Penella estava nas
condições precisas, oficial demitido podendo transitar livremente, facilmente iria sem ser
notado. A missão era por nós reputada fácil. Era uma missão de paz, o nosso fim único era que
el-rei nos permitisse responder afirmativamente às exigências unânimes dos nossos
camaradas, unânimes, inacreditavelmente unânimes. O que queríamos era popularizar o nome
de el-rei, era começar a entendermo-nos com ele. Uma das acusações que tem sido feita a
esta missão funda-se no desconhecimento do estado de espírito público naquela altura. Algum
tempo depois creio que todos os que fizeram parte da conspiração o fizeram desiludidos da
república e com o único fito de deitar a república abaixo. Mas então não. Então, e isto podem
dizê-lo os que por esse tempo trabalharam, então toda a gente dizia: "Isto vai mal, mas antes
isto que voltar para trás" e era absolutamente preciso mostrar a impossibilidade de "voltar
para trás" pois que com essa frase se queria mostrar a volta do predomínio dos maus
conselheiros a quem se atribuíam as culpas passadas, conselheiros entre os quais, como disse,
se encontrava em primeiro lugar a Rainha Dona Amélia, embora eu suponha, como então
supunha, que injustamente. O Conde de Penella aceitou. Por determinação do comité foi
entender-se com o Celestino que acrescentou a missão com declarações verbais. A primeira,
que sempre reputei inútil e impolítica, era que não fosse pronunciado a el-rei um único nome
porque se julgava que algumas perseguições políticas efectuadas, como a de João d'Azevedo
Coutinho,



215




o tivessem sido por denúncia provinda de Inglaterra. A segunda parte das suas instruções
verbais era que se dissesse a el-rei que o país o que queria era a monarquia constitucional sem
se importar com quem fosse. As exigências dificultavam extraordinariamente a missão mas
eram ordens do chefe e num comité tão militarmente organizado não devíamos, entendíamos
nós, começar por desobedecer exactamente à sua primeira imposição. Com respeito à
primeira urgência tornava-se logo difícil a apresentação do nosso enviado. Que credenciais
apresentar? Seria acreditado um homem que ia em nome de pessoas que não queria nomear,
tratar de assunto tão importante? Resolvi desrespeitar a exigência quanto ao meu nome e
escrevi uma carta ao Marquês de Lavradio apresentando o enviado, que demais a mais se
apresentou com o nome suposto de Clemente de Paiva, e onde diria que o portador, cujo
nome verdadeiro e suposto indicava que pertencia, como eu, a um grupo de oficiais
revolucionários monárquicos. Que ...




O texto interrompe aqui, não sendo ainda possível determinar se existe continuação. (Nota do
Editor)




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A Caverna das Ideias




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Amadora, Janeiro de 2004

				
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