A narrativa romanesca sucumbiu ao espet�culo by HC120523102741

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       Narrativas exemplares na sociedade pós-moderna: (des) caminhos do narrador
                                            benjaminiano.

                                                                   Maria Luiza Germano de Souza

Resumo

 Walter Benjamin (1994), no texto O narrador, anuncia algumas mortes: a do narrador
clássico e, com ele, a morte do intercâmbio de experiências significativas em prol do
romance. Este, por sua vez, diante de sua incomunicabilidade de experiências exemplares,
cede lugar, na pós-modernidade, para outro tipo de narrativa – a jornalística. A narrativa
jornalística é comandada por duas forças opressivas: o capital/consumo e o tempo, bases do
que Guy Debord chama de “A sociedade do espetáculo”. Este artigo pretende verificar
como podemos pensar as mortes anunciadas por Walter Benjamin em consonância com as
teses de Guy Debord, principalmente as que tratam sobre o tempo na sociedade do
espetáculo.

Palavras-chave: Romance; narrativa; Walter Benjamin; sociedade do espetáculo.




Abstract

Walter Benjamin, in the text the narrator, announces some deaths: the narrator's Classic and
with it the death of the exchange of experience in favor of romance. This, in turn, before his
confinement copies of experience, gives way, in post-modernity, to another kind of
narrative - the journalism. The narrative journalism is headed by two oppressive forces: the
capital-consumption and time, the bases of which Guy Debord called "The society of the
spectacle." This article aims to determine how we think about the deaths announced by
Walter Benjamin in line with the ideas of Guy Debord, especially those that deal about the
time in society of the spectacle.



Keywords: Romance; narrative; Walter Benjamin; the society of the spectacle.





  Mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM). Especialista em Literatura Brasileira Moderna e Pós-
Moderna (UFAM), professora de Língua Portuguesa do Instituto de Ciências Exatas e Tecnologia (UFAM –
Itacoatiara).
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         Há muito tempo já não vivemos momentos regulados pela dinamicidade do
universo – tempo das estações dos anos, do nomadismo, do plantio, da colheita, do
pastoreio. Estes pertenciam ao tempo cíclico, devir da humanidade, marcado pelo constante
fluir da natureza: tempo das conversas ao redor das fogueiras, das lidas domésticas sem
pressa, das rocas, das fiandeiras, dos moinhos de vento, das conversas prazerosas com os
vizinhos, das brincadeiras de rodas das crianças. Enfim, mundos equilibrados no vai e vem
do nascer e do pôr do sol.

         O tempo que nos movimenta hoje assumiu outras conotações e combinações. A
base do nosso tempo é regulada por uma pseudossimultaneidade, aquela sensação
psicológica baseada em um “já foi” – o antes; e o que virá – o depois. O presente fica
espremido por essas duas sensações. Porque, em uma redundância, já não presentificamos o
presente, ou ainda, não vivemos intensamente os acontecimento do presente, pois nos
dizemos sempre sem tempo ou preocupados exatamente com a falta desse tempo, no
entanto, a vida vai escoando nessa sensação do tempo que corrói tudo e a todos a nossa
volta.

         Assim, temos que o tempo cíclico foi substituído por um tempo social, cuja marca
mais relevante é o sedentarismo e a divisão de classes da sociedade. Na sociedade de
classes em que estamos situados, verificamos a apropriação das nossas temporalidades, não
somos mais os senhores de nossas vidas e de nossos tempos. Somos marionetes prisioneiras
de fios invisíveis, moldados também por forças que não vemos e cujo ingrediente mais
violento é a mercantilização de todos os domínios de nossas experiências.

         Dessa forma, somos modelados pelo que Debord (1997) chama de tempo
pseudocíclico. Combinações do tempo cíclico às novas dimensões temporais assumidas na
cotidianidade da modernidade: o tempo das férias das crianças, de nossas próprias férias, de
quando terminar o mestrado, do descanso (há descanso?) à noite, daquela tarefa urgente etc.
No entanto, esse tempo não é mais regulado pelo nascer e o pelo pôr do sol, mesmo porque
quase não se percebe mais esses fenômenos. Ele (tempo) é moldado por forças que estão
aquém e além dele – do tipo de atividade que exercemos, de nossas amarras a nós mesmos
enquanto seres humanos inseridos numa realidade social trabalhista, e do que podemos
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ter/consumir nesses novos tempos chamados, dentre outros desígnios, pós-moderno,
globalização ou neomodernista.

       Na base da categoria globalização estão as falsas hegemonias globais – a
informação, a circulação, o dinheiro, a aldeia global, sistema técnico informacional e os
espaços globalizados ao alcance de todos. Entretanto, essas bases têm um denominador
comum: consumo e informação ideologizados que, na atualidade, são os motores e
reguladores das ações públicas e privadas. (SANTOS, 2000, p. 43 – 55)

       O par consumo e informação marcarão o reinado de uma tirania consubstanciada em
algumas “fábulas” que nos interessam sobremaneira porque irão encontrar respaldo nas
teorias desenvolvidas por Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo. Tais fábulas são
verificadas por Santos (2000): na primeira, a da aldeia global, temos o poder das
homogeneizações da sociedade, conseguida sobremaneira pela supremacia da informação
sendo conseguida de forma veloz, instantânea e abarcando todos os espaços sociais.

       Na segunda fábula, temos os espaços e tempos contraídos e dinâmicos, esses sendo
alcançados por um toque na tela do computador. Essas duas primeiras fábulas dão a ideia
de um mundo único. A pergunta pertinente é: existe este mundo único? A terceira fábula é
a da humanidade desterritorializada – o fim das fronteiras territoriais que tem como
resultado imaginado “a cidadania universal”. Nesse momento, ainda são os estados
nacionais que regulam o território, só que este território é o do dinheiro.

       Assim, temos a sociedade regulada por essas fábulas cujas bases são a informação,
espaços e tempos contraídos e os territórios sem fronteiras. Sendo assim, qual, então, a
mola-mestra que regula a vida dos cidadãos nessas perspectivas? Para Milton Santos, o
consumo e a competitividade; para Guy Debord, a mídia e o consumo.

       A competitividade a que Santos alude tem como repercussão o que ele chama de
violência do dinheiro. Ela (competitividade) regerá a vida tanto do cidadão comum quanto
das grandes corporações nacionais e internacionais. Restaram-nos duas molas – a mídia e o
consumo. Ambas estão intrinsecamente ligadas, pois a mídia é regulada pelo poder do
capital, dita moda, regras de condutas, comportamentos, leva ao consumo e ao
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consumismo, pelo poder que exerce ao convencer as pessoas e existirem, hoje, como
produtoras de imagens fascinantes e fetichizadas – entramos, assim por meio do par mídia e
consumo, no âmbito do espetáculo debordiano.

       Segundo Debord (1997), estamos limitados e mediados pela sociedade da mídia,
reguladora de nossas vidas pelo consumo, algo conseguido por meio de imagens, mercados
e eventos culturais. O espetáculo assim pensado tem abrangência tentacular, determina os
comportamentos dos indivíduos, valoriza aspectos particulares de vivência do cidadão,
assume foros de privilégios nos discursos políticos, religiosos, estéticos, esportivos,
educacionais etc. dessa forma, estamos lidando com uma força invisível e poderosa que nos
move e comanda.

       O centro motor dessa força ganha substância na notícia (multimídia, internet,
outdoor, propaganda, televisão etc.). Ela (notícia) tende a ser imediatista e passageira,
acomoda a todos “espetacularmente”, direcionando as práticas cotidianas, notadamente as
voltadas para o consumo. A notícia é ainda considerada fenômeno de extrema abrangência,
tem se submetido, na atualidade, à lógica do espetáculo, principalmente no que se refere à
divulgação de fatos sensacionalistas que podem render audiência, não esquecendo que a
audiência traz imbricada a reprodução do capital. A notícia embasada, sobretudo, na
informação, na comunicação e no conhecimento, é a base estratégica que determina as
relações sociais na contemporaneidade (GONZÁLEZ, 2008, p. 113).

       A notícia e seu representante mais célebre, o jornalista, traz à tona o motivo deste
artigo: abordar sobre as mortes anunciadas por Walter Benjamin, no ensaio O narrador. Ou
seja, primeiro ele prenuncia a morte da narrativa tradicional em prol do romance, e a morte
deste para dar lugar, na atualidade, a outro tipo de narrativa (a notícia) e de outro narrador –
o jornalista. Essas mortes anunciadas alcançam seu ápice na sociedade do espetáculo
pensada por Guy Debord porque, na sociedade pós-moderna, andamos às voltas com a
diluição/desaparecimento das experiências significativas. Estas cedem lugar à rapidez das
informações, do imediato, do que não dura, até mesmo a produção de nossas próprias vidas,
ou ainda, o espetáculo como sendo a própria vida.
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       Assim, o tempo cíclico, base das sociedades tradicionais que tinham a vida
desenrolada de acordo com o tempo natural, cede lugar a outro tempo também cíclico,
porém regido por dinâmica própria, que é o tempo do consumo e dos objetos. As situações
da vida cotidiana assumem, nesse outro tempo cíclico, significações diversas – a Páscoa,
por exemplo, na atual conjuntura, vale menos pelo que se comemora e mais pelos objetos
consumidos, os ovos de páscoa; os feriados santos e patrióticos, valem mais por serem mais
um feriado, do que pelo que está sendo festejado, pois,às vezes, não se sabe nem o que está
sendo comemorado etc. Não esquecendo, por outro lado, que esse tempo livre dos feriados
torna-se muito caro em uma sociedade que privilegia o consumo, o que impossibilita, no
mais das vezes, o usufruto desse tempo.

       Diante de tal dinamicidade temporal nos é possível pensar no tempo cíclico,
seguindo o pensamento de Debord (1997, p. 88), para justificar a existência do narrador
clássico Benjaminiano. A existência desse narrador era regulado pelas externalidades
temporais porque havia as possibilidades para que isso ocorresse, isto é, as trocas de
experiências sucediam porque as pessoas responsáveis por tais trocas tinham as condições
materiais e temporais a seu favor.

       Ou ainda, a condição para a existência desse narrador clássico pode ser justificada
por meio de seus representantes – o marinheiro e o camponês sedentário. Duas pessoas que
tinham o que contar e tempo para contar. O primeiro, pelas viagens à lugares distantes e o
segundo, que nunca saiu de sua terra, mas que participa do elo das gerações, conhece as
histórias e tradições de seu lugar de origem e seus conterrâneos.

       Eles são, portanto, considerados narradores de primeiro nível. A explicação para
serem narradores de primeiro nível é dada porque contam as histórias dando-lhes substância
e ensinamentos. Não são, desse modo, meros transmissores de informações colhidas
temporalmente, como fazem os narradores de notícias. Suas histórias devem ser escutadas e
seguidas, visto que elas têm um senso prático e utilitário: crescimento moral, sugestão,
norma de vida, de conduta, ou seja, o narrador tradicional pensado por Benjamin sabe dar
conselhos e estes têm em sua essência a sabedoria.
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        Estamos falando em um tempo moldado por experiências compartilhadas entre os
mais velhos e os jovens em forma de provérbios, contos, máximas em que se poderia tirar
algum ensino moral. Tais narrativas eram proferidas junto às fogueiras, às lareiras, nas
reuniões familiares, nas festas comunitárias. Eram, portanto, histórias exemplares que
valiam como verdadeira formação, valiosas para todos os indivíduos de uma mesma
comunidade.

        Logo, as experiências trazidas de longe pelo marinheiro e as do camponês que não
saía de sua terra portavam uma autoridade, mesmo quando não eram controladas pela
experiência. Essa autoridade, que não precisava de prova e nem comprovação, traz uma
diferença essencial em relação à notícia, que é o fato de a notícia precisar de comprovação
imediata, pois lida com acontecimentos, principalmente os que podem ser inéditos.
Entretanto, a notícia carrega um estigma: dura o tempo da novidade, depois é descartada
pela voracidade do novo e da pseudorrapidez do tempo. Com essa base destruidora, o
jornalista e a mídia – sua veiculadora – não têm como intercambiar experiências
significativas.

        A não troca de experiências se dá porque o seu narrador, o jornalista, não tem, no
geral, participação efetiva no narrado como o faz o narrador clássico que retira da sua
própria vida e da dos outros o que conta/transmite, inserindo o outro no seu narrar, sendo,
portanto, sua fala a marca da sua narração. O que permite ao ouvinte sair de si mesmo e
penetrar no mundo narrado, algo quase impossível de acontecer com a narração
impessoalizada da notícia, porque essa é consolidada na escrita ou na transmissão
jornalística, algo que descarta a inserção do ouvinte/leitor no ato narrativo direto.

        Hoje, nessa perspectiva, da não troca de experiência, percebemos que o importante
já não é mais o que vem de longe na forma de sabedoria. A relevância é dada ao
acontecimento, ao que causa sensação, furor imediato. Recebemos uma quantidade
insuportável de informações, mais do que podemos reter. No entanto, esse fato não nos
torna mais ricos de experiências ou de sabedorias que possam ser trocadas porque as
notícias vêm seguidas de explicações, devido sobremaneira ao fluir do cotidiano e da tão
anunciada falta de tempo, ou seja, “A arte de narrar vai decaindo com o triunfo das
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informações. Ingurgitada de explicações, não permite que o receptor tire dela alguma
lição.” (BOSI, 1994, p. 88)

        Pela sociedade do espetáculo debordiana, o acontecimento, que impossibilita o
conhecimento significativo das coisas e das pessoas, dita a tônica do narrado ou divulgado
pela mídia. Algo impensado no tempo cíclico do narrador clássico de Benjamin. Assim, em
um universo recheado de apelos midiáticos e de temporalidades fragmentadas, aparecem
outros tipos de narrativas que ganham relevância porque primam pelo econômico e pela
descartabilidade: o jornal de minuto, os hipertextos da internet, as biografias, os livros de
autoajuda, o último escândalo político ou das estrelas etc., ou seja, tudo o que possa ser
consumido com rapidez, economize o tempo do leitor e seja, em seguida, descartado para
dar lugar à próxima novidade que ganha de imediato o interesse das pessoas, exatamente
por serem novidade.

        Intermediando o narrador clássico e o narrador pós-moderno (o jornalista), temos o
narrador moderno dos romances, este também com a morte anunciada pelo narrador
jornalístico. Ambos nascidos por meio de uma revolução tecnológica: o surgimento da
imprensa e, por conseguinte, da impressão.

        A imprensa e a impressão propiciaram o nascimento do romance, e a sociedade
moderna deu as condições para a sua cristalização como gênero de aceitação mundial.
Porém, o seu surgimento condenou as narrativas orais ao ostracismo e à morte, pois ao
romancista interessa a narrativa escrita, o que deixa o ouvinte de lado. Assim, temos dois
pares desfeitos: a perda da importância do narrador das narrativas orais e do ouvinte em
favor do leitor.

        No campo social, outra circunstância marca o surgimento do romance – o
desenvolvimento da burguesia. Esta, por sua vez, nasceu enquanto fruto das condições
propiciadas pela saída do homem do campo para as cidades, em um processo que tem suas
raízes no crescimento dos burgos e que atinge seu apogeu a partir da Revolução Industrial
no século XVIII.
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       A burguesia emergida da organização capitalista do trabalho, refugiada no lar,
anteparo do mundo exterior hostil e anônimo, tenta recriar uma situação de aconchego
individual, se refugiando das trocas e experiências coletivas na clausura de suas casas.
Portanto, estamos lidando agora com a perda da vivência significativa em detrimento da
vivência única e exclusiva entre afetos imediatos que cercam a vida burguesa: a mulher e os
filhos. Nesse ambiente burguês, marcado pelo reinado do individualismo e da solidão social
coletiva, o romance encontra terreno fértil para propagação e crescimento.

       Temos assim o fato de o romance já nascer marcado por duas solidões – a do leitor
(o burguês) e a do próprio romancista. O leitor dos romances priva-se dos outros e veem a
vida e suas representações nas páginas de um livro, solitariamente. O escritor, por seu
turno, retira a matéria de seus romances das suas representações sociais e das suas
experiências de vida, no entanto, a elaboração/escritura das histórias ficcionais é
extremamente solitária.

       A sociedade pós-moderna também comunga da solidão referida anteriormente.
Nessa sociedade, a mídia, pela televisão, pelas TVs a cabo e pelo cinema, também cumpre
seu papel de criação de espectadores solitários, pois, ao se assistir programações veiculadas
por esses canais, não nos é permitido a troca da experiência porque não pode haver
interferência na espectação da última notícia, do último filme ou da última novela da moda.

       Desse modo, estamos no reino das trocas impossíveis. No romance, ainda podemos
sentir ou elaborar algumas idiossincrasias humanas que podem contribuir ou não para o
crescimento individual do leitor em particular; ao passo que no espaço midiático a
abrangência do dito e revelado por imagens se dá em cadeia, não se pretende atingir
somente um indivíduo e sim o coletivo social: o que é veiculado forma, desvia, conduz, cria
juízos de valor que, no geral, já vêm prontos e não precisam de intermediários para dar
explicações. O veio que norteia o espetáculo midiático, de antemão, previu o telespectador
por meio de pesquisas que antecipam os gostos e os desejos dos cidadãos. Isso só é
possível, segundo Debord (1997, p. 130), porque o homem moderno reforça o espetáculo,
ficando ao serviço deste, uma vez que é apenas um espectador diante do mundo que habita.
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       O espetáculo assim anunciado está representando valores básicos dos cidadãos,
moldando comportamentos, num incessante fazimento de modelos a serem seguidos. Dessa
forma, abarca muitos braços da sociedade – dos últimos escândalos envolvendo
celebridades, aos reality shows –, notícias consumíveis que somente interessam enquanto
acontecimento espetaculoso de dinamicidade temporal impensável e inalcançável. Algo
imaginado por Bourdieu (1998) quando diz que a notícia de hoje escolhe o caminho
cômodo do combate e do ataque, pois esses dão mais audiência do que uma guerra ou um
acontecimento fortuito com o vizinho do lado. Assim, o interesse da mídia jornalística se
desloca do par “dialética/debate” para o acontecimento porque esse propicia a audiência e
por consequência a espetacularização da notícia.

       Como então, diante de tão grande apelo pelo novo e por novidades, iremos ter a
retomada pelo interesse em escutar o outro e aprender histórias exemplares? Ou ainda,
como ressuscitar os narradores clássicos e os dos romances numa época ditada pela
informação? Já que nesses tempos imediatistas “a busca da sabedoria perde as forças, e foi
substituída pela opinião. Por que despregar com esforço a verdade das coisas, se tudo é
relativo e cada um fica como sua opinião?” (BOSI, 1994, p. 85).

       Não é mais possível fazer voltar a roda do tempo e resgatarmos a figura do narrador
clássico, para juntamente com ele retomarmos as narrações exemplares. Entretanto,
podemos tentar recuperá-lo por meio de dois recursos: a busca da tradição do olhar e da
sabedoria dos mais velhos e do resgate de um tempo que nos retire do corre-corre do dia-a-
dia por meio do que Benjamin chama de “tédio” e do que Domenico de Masi (2000) chama
de ócio criativo.

       O primeiro recurso pensado para tentar recuperar as narrativas modelares é resgatar
o sentido da velhice na sociedade atual. O velho, nas sociedades primitivas, tinha um papel
singular que era o resguardo das tradições e o ensinamento dos mais jovens. Isso porque
somente ele, que já havia trilhado o caminho longo da vida, carregava a experiência e a
sabedoria e tinha tempo para rememorar e compartilhar os conhecimentos significativos
sobre a vida. Daí, nessa situação, a velhice desempenhar uma função social.
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       Entretanto, na pós-modernidade, na proximidade da hora da morte dos mais velhos,
os mesmos são “guardados” em sanatórios ou, quando não, são vilipendiados por uma vida
de reclusão, às vezes, no próprio seio da família que gerou. A não compreensão da função
social que desempenhavam nas sociedades primitivas é desconhecida ou não é levada em
conta. Esse momento da vida deveria ser entendido como o melhor para se intercambiar
experiências, pois o tempo para eles não pode mais exercer a sua tirania, uma vez que “é no
momento da morte que o saber e a sabedoria do homem e sobretudo sua experiência vivida
[...] assumem pela primeira vez uma forma transmissível.” (BENJAMIN, 1994, p. 207)

       Na tirania exercida pelo tempo já não há mais espaço para a busca da sabedoria dos
mais velhos. As histórias que eles têm para contar não servem de ensinamento, elas estão
condenadas ao anonimato e ao esquecimento. O conteúdo de suas narrativas serve para
informar sobre eles mesmos e o mundo onde habitam, porém os espectadores sumiram.
Eles (espctadores) estão trancafiados em seus quartos ou em suas salas-de-estar, diante de
aparelhos de televisão cada vez mais sofisticados, ouvindo e vendo eventos espetaculares,
sonhando com mundos que não são seus, mas que foram pensados para convencê-los de
que o são. Nesse sistema, não há de fato tempo para ouvir aos mais velhos e “escutar” suas
sabedorias e conselhos.

       O segundo recurso referido na tentativa de recuperação das narrativas e experiências
modelares é a retomada de um tempo que possibilite ao tédio, aqui usado no sentido
benjaminiano. O artífice foi o primeiro herdeiro da tradição de contar histórias que
propiciavam o crescimento da pessoa enquanto inserida em um grupo que necessitava das
experiências divididas para não perderem valores individuais e coletivos. Fechado em seu
ambiente de trabalho, no labor da execução de tarefas que careciam de tempo para serem
feitas, os artífices tiveram as condições materiais e temporais de aperfeiçoarem o que o
marujo e o mestre camponês faziam com maestria e zelo – a permuta das experiências
significativas de seus grupos sociais.

        A palavra-chave para entender essa herança é a sobra do tempo que o artífice tinha
para contar e ouvir histórias. Na sociedade pós-moderna, amarrada aos ditames temporais,
não existe mais atividades associadas ao tédio ou ao ócio; nas cidades e no campo elas
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estão desaparecendo. O labor do joalheiro, a paciência e a perfeição dos entalhadores, dos
amoladores de facas etc. estão sendo substituídos pela técnica e pela precisão de
descobertas que aperfeiçoam essas práticas, assim não se precisa mais de tanto tempo para
atividades que “gastam” mais tempo na elaboração.

       Os momentos de ócio são mais raros. Eles, quando ocorrem, são planejados
metodicamente pelas mídias do consumo de “mercadorias” de forma envolvente e
convincente de tal forma que, quando temos um tempo livre, achamos que não temos tempo
para usá-lo devidamente.

       Masi (2002) diz que a sociedade pós-industrial foi estimulada a retirar o máximo de
suas atividades, por meio do incentivo ao trabalho e à competitividade, e que essa forma de
dedicação ao trabalho tolhe a criatividade e faz sucumbir o tempo que seria livre para a
criação ociosa. Ócio entendido não como algo negativo e sim como um equilíbrio entre
trabalho, estudo e lazer.

       Dessa forma, o equilíbrio desse tripé será o responsável por resgatar o tempo
criativo. Ter-se-ia, assim, mais tempo livre, e a redução da carga excessiva de trabalho.
Portanto, na sociedade pós-moderna, o ócio assumiria a conotação do tédio de Benjamin,
com ele (ócio) há a possibilidade de se privilegiar a satisfação das necessidades chamadas
de “radicais”, cujas bases são a introspecção, o convívio com o outro, tempo para as
amizades, o amor e as atividades lúdicas.

       Seja como for, nessa dúvida e angústia sobre a falta de tempo para o ócio ou para o
tédio criativo ou ainda para as trocas de experiências significativas, tendemos a ser presas
fáceis do espetáculo déspota, gerenciado pelo consumo. Algo que ganha substância também
na mercantilizaçao dos nossos momentos de lazer, que são direcionados de tal forma que
não resta tempo e nem há apelos para a leitura de romances, ou a divisão desses momentos
nas trocas significativas por meio do escutar ao outro.

       As práticas midiáticas que induzem ao consumo programado nos paralisam e
aprisionam porque os apelos “estéticos, morais e sociais” são envolventes e difíceis de
lidar: “O mundo presente e ausente que o espetáculo faz ver é o mundo da mercadoria
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dominando tudo o que é vivido [...] O espetáculo é o momento em que a mercadoria
ocupou totalmente a vida social.” (DEBORD, 1997, p. 28, grifo do autor)

        Assim, as mortes anunciadas por Benjamin e pensadas na perspectiva da teoria do
espetáculo de Guy Debord encontram ressonância na pós-modernidade. No entanto, essas
mortes também devem ser refletidas por meio da própria dinâmica das mudanças históricas
e temporais dos seres humanos. Isso porque, se o mestre sedentário e o marinheiro,
enquanto contadores de histórias exemplares, sumiram em detrimento do romance; e, por
sua vez, o narrador dos romances está também condenado pelo novo narrador configurado
pelo jornalista, foram as condições históricas e sociais da própria sociedade que o
permitiram. Isto é, o mestre sedentário já não dava conta das dinamicidades temporais nos
tempos modernos, da mesma forma o romance já não resolve os quereres na pós-
modernidade, certamente o narrador de notícias talvez esteja condenado por outro
instrumento pós-moderno: a rapidez das informações transmitidas em tempo real pela
internet.

        Porém, não devemos perder de vista que sobre o acesso e os poderes que a internet
detém, segundo González (2008), reinam alguns falsos axiomas: a divulgação de que ela
seja uma maravilha, de que todos têm acesso a tal instrumento, de que o acesso à rede de
computadores irá ajudar os “pobres a melhorar” suas condições etc. Portanto, devemos pelo
menos questionar a inclusão digital como sendo, sobretudo, a inclusão no mercado de bens
de consumo e que o “consumidor” da rede de computadores, no geral, é apenas consumidor
e usuário de informações que ele não produziu, o que nos possibilita pensar que “a pobreza
digital é um excelente negócio” (GONZÁLEZ, 2008, p. 116). Isso nos dá a sensação de que
giramos em círculo em torno do mesmo problema “vivemos cercados, por todos os lados,
por esse sistema ideológico tecido ao redor do consumo e da informação ideologizados [...]
O consumo é o grande emoliente, produtor ou encorajador de imobilismos.” (SANTOS,
2000, p. 49)

        Desse modo, temos alguns recortes temporais bastante nítidos no que se refere ao
papel que o narrador tem desempenhado ao longo do tempo. Derivamos de um narrador
clássico cujas características principais são a troca de experiências, o saber dar conselhos, o
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falar exemplarmente pois quer ensinar algo. Posteriormente, temos o narrador do romance
que não fala de maneira exemplar ao possível ouvinte, pois este não existe mais, foi
substituído pelo leitor; ambos, escritor e leitor, são solitários em suas práticas. Por último, o
narrador-jornalista, chamado de pós-moderno, transmite para narrar uma informação, nesse
caso, a coisa narrada existe pura “ela é apenas informação”, assim ela é exterior à vida
desse narrador.

       Todavia, percebemos alguns problemas no narrador jornalista que nos interessa
sobremaneira: ele tende a ser conduzido pela mídia configurada na audiência; sujeito ao
espetáculo, pois a notícia que transmite geralmente vale mais pela repercussão que irá ter
nos seus meios de reprodução (televisão, internet, jornal, rádio etc.); ao imediatismo porque
a notícia somente tem importância enquanto é novidade.

       Assim podemos dizer, grosso modo, que a história dos narradores e o esfacelamento
das narrativas exemplares e a morte anunciada do romance são fruto de mudanças que estão
intimamente relacionadas à própria dinâmica temporal e social por que vem passando a
sociedade nas últimas décadas.
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REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In:
Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad.
Sérgio Paulo Rounat. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. (Obras escolhidas; v. 1)

BOSI, Eclea. Memória e sociedade: lembranças dos velhos. 3. ed. São Paulo: Companhia
das letras, 1994.

BOURDIEU, Pierre. Contrajogos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1997.

GONZÁLEZ, Jorge A. Digitalizadores por decreto. Cibercultur@: inclusão forçada na
América Latina. In: MATRIZes – Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da
Comunicação da Universidade de São Paulo. São Paulo, ano 2, n. 1, p. 113 – 137, Jun. –
dez. 2008.

MASI, Domenico de. Ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência
universal. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.

								
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