AS RELA��ES ENTRE LEITURA, ESCRITA EL ETRAMENTO NA FORMA��O DO by BB0XMcZX

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									         OS SENTIDOS DO LER E ESCREVER NA SOCIEDADE E NA ESCOLA

    BONOW, Débora Böhm1; EINHARDT, Jaqueline2; ROSA, Cristina Maria3
                 1,2,3
                     Deptº de Ensino – Faculdade de Educação – FAE/UFPel
           Rua Alberto Rosa, 154 - Caixa Postal – CEP 96010-770. cris@ufpel.edu.br

                                        1. INTRODUÇÃO

       A leitura e a escrita são os objetos conceituais primordiais para a profissão
docente. Ler e decifrar são aprendizagens distintas, decifrar significa dominar um
código de correspondência entre grafemas e fonemas e, para tal, são necessários
alguns procedimentos e um tempo, nem sempre longo. Esse saber, no entanto,
jamais significará saber ler porque é restrito conceitualmente e vinculado a visão de
que ler é dominar a correspondência entre grafema e fonema.
       Visto que, atualmente, as práticas de leitura e de escrita são uma exigência
cada vez mais presente e já não basta apenas saber ler e escrever, é necessário
investir em usos qualificados desses conhecimentos que se tornam básicos. Ao
analisar o uso que se faz da linguagem em sociedade e do ensino dessa na escola
Soares (1988 e 1998) afirma que os alunos das classes trabalhadoras são sub-
escolarizados e sub-letrados em comparação com os demais. Como resultado dessa
discussão a autora defende que a escola invista em processos de letramento ou, em
suas palavras,

             O resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o
             estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo
             como conseqüência de ter-se apropriado da escrita, de querer não só
             saber ler e escrever, mas exercer as práticas sociais de leitura e de
             escrita que circulam na sociedade em que vive, conjugando-as com as
             práticas de interação oral (SOARES, 2002).

        Tendo como pressuposto que só ensina quem conhece como se aprende, a
grande curiosidade dessa pesquisa foi saber o que liam e escreviam acadêmicas de
Pedagogia, uma vez que a leitura e a escrita são objetos conceituais primordiais da
profissão docente.
        A pesquisa aqui representada buscou conhecer as condições de chegada na
Universidade de mulheres que vão, por quatro anos, entrar em contato com o
conhecimento a respeito da escola, das relações de saber e poder desencadeadas a
partir dela e, fundamentalmente, com os objetos conceituais primordiais: a leitura e a
escrita. Partimos do pressuposto de que romper com o caráter silenciador que
caracteriza a escola demanda reconhecer que existem diferentes dialetos em uso e
que esses expressam uma variedade de concepções a respeito do homem e da
sociedade.
                                   2. METODOLOGIA

      Fundada em estudos que indicam que a leitura e a escrita prévia e a
desencadeada nos cursos de formação têm parte considerável de influência na
atuação docente (KRAMER, 1998), a intenção da pesquisa foi evidenciar, com a
mais profunda densidade conceitual, se e como os estudantes de Pedagogia se
apropriam da leitura e da escrita como objetos conceituais. Para tal, pretendemos
                                                                                                      2

conhecer quais as atribuições de sentido à leitura e à escrita presentes nos
depoimentos escritos.
        Para investigar a respeito de práticas de leitura e escrita realizadas antes e
durante o curso superior, a pesquisa tem como grupo de interlocutores quarenta e
oito acadêmicas do Curso de Pedagogia que ingressaram na Universidade em
2005 1 , com idades entre dezessete e cinqüenta e um anos. A pretensão foi
dimensionar o impacto da formação acadêmica nessas práticas em um grupo que
tem origens étnicas diversas e multiplicidade de classe social, estado civil e
experiências escolares.
        Inserida no campo da análise qualitativa (LÜDKE E ANDRÉ, 1986) os
resultados iniciais são oriundos de dados qualitativos e também quantitativos.
        A primeira coleta de dados deu-se através da adaptação e aplicação de um
questionário elaborado por Peres (1999), que é o instrumento primordial da
pesquisa, além de outros instrumentos elaborados com o intuito de averiguar os
conceitos prévios das alunas sobre a leitura e a escrita, com perguntas mais
restritas, como por exemplo: O que é ler? O que é escrever?
        A segunda coleta aconteceu em maio de 2005, dois meses após o ingresso
na Universidade, a terceira em março de 2006 e a pretensão é realizar a quarta
coleta em outubro deste mesmo ano.
        A categorização dos dados consistiu em organizar todas as respostas em
categorias para análise e os conceitos emitidos (recorte privilegiado nesse artigo)
foram organizados em percentuais de incidência. De caráter longitudinal, a pesquisa
pretende acompanhar os quatro anos de graduação do grupo.

                                   3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

       As respostas a respeito de duas perguntas “O que é ler?” e “O que é
escrever?” foram agrupadas conforme o universo conceitual, ou seja, as respostas
que se aproximavam foram conceitualmente unidas. A seguir apresentarei os
resultados comparativos entre a primeira e a terceira coleta, em dois gráficos um
sobre leitura e outro sobre escrita.

                                 Gráfico de conceitos sobre Leitura

    60

    50
                                                                                    habilidade
    40
                                                                                    aprimora
    30                                                                              aquisição
                                                                                    outros
    20
                                                                                    não responderam
    10

    0
    mar/05                          mai/05                           mar/06




1
 Na matrícula de 2005 constam 50 acadêmicas. Logo nas primeiras semanas três não compareceram e uma
delas foi substituída por um novo ingresso. Assim, 48 será o grupo de depoentes inicial e qualquer outra
mudança no número de interlocutoras será registrado no decorrer da pesquisa.
                                                                                     3

        É notável o número de pessoas que se referiu à leitura como “decifrar,
compreender, decodificar e interpretar” e “ler é interpretar”. Aparentemente, ler
tornou-se um compromisso e, então, passou a ser referido pela maior parte das
entrevistadas.
        Outra possibilidade de análise é a diminuição da informação inicialmente
referida por 25,4% das entrevistadas de que “ler amplia a cultura”. Em março de
2005 13 acadêmicas se referiam à leitura dessa forma (26,5% do total das
entrevistadas) e, em março de 2006 essa conceituação é acionada por apenas cinco
ou 12,1%. Esse dado é bastante curioso, pois, pode indicar que o conhecimento
acadêmico acessado através da leitura e de cunho “obrigatório” não é considerado
cultura.
        Já o conceito “Ler é atribuir sentido”, o mais amplo até agora surgido,
infelizmente foi acionado por apenas uma das mulheres ouvidas, mas não deixa de
ser alentador que ele apareça, uma vez que diz respeito à leitura como objeto
conceitual.
        O grupo que cita a leitura como prazerosa é significativo na primeira coleta,
porém, cresce pouco na segunda coleta, parece que a faculdade não está
conseguindo cativar o prazer pela leitura.
        Outro dado que chamou bastante atenção é que a aluna que se referiu a
leitura como “um obstáculo” em março de 2005 é a mesma que cita a leitura como
“indispensável” em março de 2006.

                           Gráfico de conceitos sobre Escrita

   60
   50
   40                                                              habilidade
                                                                   expressar-se
   30
                                                                   outros
   20                                                              não responderam
   10
    0
    mar-05                   mai-05                   mar-06

        Após um ano na Universidade as entrevistadas ainda não se referiram à
escrita como “deixar marcas no papel”. No entanto, muitas delas conceituam a
escrita como expressão de idéias através de signos ou símbolos, como
representação gráfica da fala e como “representação com regras”, essas duas idéias
estão profundamente vinculadas aos parâmetros escolares de ensino e uso da
escrita.
        Sabemos que sem letras não podemos escrever, mas sabemos também que
só as letras, usadas como prefixos, radicais e sufixos e organizadas em sentenças e
logo depois em textos não necessariamente expressam o que queremos. A
linguagem extrapola sua condição gramatical, não se restringe a ela e apenas se
utiliza da convenção para buscar estabelecer compreensão, comunicação.
        È Interessante perceber que ganhou força a idéia de que escrever é
expressar e comunicar, tanto idéias como pensamentos e sentimentos.
Aparentemente, o vínculo estabelecido com o conhecimento durante os dois
semestre cursados, não foi suficiente para que firmassem que escrever é divulgar
                                                                                   4

pesquisas , teses, resultados de investigações, que escrever é ter estilo, é disputar
pontos de vista, é registrar uma época e uma posição. Embora tenha aparecido a
escrita como “registro”, a interlocutora não se refere a registro histórico, por
exemplo, restringindo a possibilidade ao registro diário, a mais um dos atributos
funcionais da escrita.

                                    4. CONCLUSÕES

        Todas as conclusões até agora extraídas da pesquisa indicam que houve
mudança conceitual o que não significa que as depoentes se aproximaram, nessa
mudança, da Leitura e da Escrita como objetos conceituais.
        Para tal seria necessário que se referissem a linguagem como uma forma de
nossa experiência, que se referissem a linguagem como um sistema.
        Além disso, muitas delas se referiram à linguagem como fruto de uma relação
binária entre signo e idéia, quando ela é mais que isso, pois os signos que
representam as idéias são símbolos que denotam coisas e idéias porque conotam
significações.
        Acreditamos, diante dos resultados e conclusões preliminares, na pesquisa e
na continuidade dela, bem como na importância de investigações desse cunho para
a qualidade dos cursos de formação de professores, prioritariamente os das séries
iniciais.

                      5. REREFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BATISTA, Antônio e GALVÂO, Ana. Leitura: Práticas, impressos e Letramentos.
Autêntica, 2ª ed., 2002, Belo Horizonte.
CAGLIARI, Luis Carlos. Alfabetização & Lingüística. SP: Scipione, 1993.
FERREIRO, Emilia e TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua Escrita. Porto
Alegre: Artmed, 1999.
JOLIBERT, Josette. Formando crianças leitoras. Porto Alegre: Artes Médicas,
1994.
LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. Porto Alegre, LP&M, 1985.
NEVES, Iara. et alii. Ler e Escrever: Compromisso de todas as áreas. Porto
Alegre: Editora da UFRGS, 2003.
PERES, Eliane Teresinha. Questionário sobre Práticas de Leitura e Escrita de
Crianças e Famílias. (Documento Didático).Pelotas, 1999..

								
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