Teoria da Vincula��o

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					                                                                  Teoria da Vinculação
                                                                           Princípios essenciais
John Bowlby (1907-1990)
 Nascido numa família aristocrática inglesa, o seu pai era médico do rei
 Pouco contacto com os pais na infância
 Descrito por quem o conhecia como tendo dificuldade em abordar questões emocionais em si próprio

John Bowlby: Formação (1)
 Iniciou estudos de Medicina em Cambridge, sem grande convicção
 Interrompeu os estudos para trabalhar em escolas para crianças perturbadas
 Aí, pôde constatar os efeitos nefastos das experiências interpessoais negativas, sobretudo
  no contexto parental
 Essa experiência motivou-o a retomar os estudos médicos, a especializar-se em psiquiatria e
  a receber formação psicanalítica
John Bowlby: Formação (2)
 Fez a análise didática com Joan Rivière, seguidora e amiga de Mélanie Klein
 Não se entenderam bem, devido à ênfase que os Kleinianos davam ao papel das fantasias
John Bowlby: Antes da vinculação (1)
 Concluída a formação, volta a trabalhar em contexto clínico com crianças
 Dedica-se em particular ao estudo de uma amostra de delinquentes juvenis, e verifica que
  quase todos tiveram experiências de separação precoce
 Após a guerra (1950) é encarregue pela OMS de elaborar um relatório sobre as crianças
  refugiadas, no qual conclui de novo pelas consequências negativas das separações
John Bowlby: Antes da vinculação (2)
 Com o propósito de obter dados empíricos sobre a separação, contrata um colaborador, James
  Robertson, que efectua observações de crianças hospitalizadas
 Dessas observações, derivam um modelo das reacções à separação, o qual distingue três fases

John Bowlby: Antes da vinculação (3)
1 – Protesto: A criança chora, grita, procura os pais, mostra-se inconsolável
2 – Desespero: Parecendo perder a esperança, a criança deixa de chorar, fica apática, não se
   interessa por nada, nem mesmo pela comida
3 – Desapego: A criança parece lentamente voltar ao normal e retomar o interesse pelas coisas;
   porém, se reunida com os pais nesta fase, ignora-os e parece não os reconhecer, só se
   interessa pelas coisas que lhe dão
John Bowlby: Antes da vinculação (4)
 Estes estudos de observação vieram ainda confirmar que os efeitos negativos das
  separações se prolongavam para lá do seu fim
 Mesmo após separações curtas (poucos dias) verificavam-se problemas de comportamento
  a curto prazo (e.g., agressividade, imaturidade)
 No caso de separações prolongadas, havia efeitos permanentes sobre o desenvolvimento da
  personalidade, sobretudo em termos da capacidade para estabelecer relações significativas
John Bowlby: Antes da vinculação (5)
 Permanecia, entretanto a dificuldade em explicar em termos teóricos a importância das
  relações precoces
 A psicanálise e o behaviorismo defendiam que se devia ao papel dos adultos na satisfação
  das necessidades fisiológicas da criança
 Bowlby considerava esta posição insustentável, por diversas razões:
John Bowlby: Antes da vinculação (6)
 Os bebés choram muitas vezes quando não têm fome e acalmam-se com o mero contacto
 As crianças desenvolvem fortes ligações mesmo com mães que as negligenciam ou maltratam, não
    satisfazendo as suas necessidades
 Crianças criadas em grupos de pares em instituições, sem contacto sistemático com nenhum adulto
    particular, desenvolvem fortes ligações com esses pares, ou até com objectos inanimados (e.g.,
    cobertores, almofadas) que estão consistentemente presentes
John Bowlby: Antes da vinculação (7)
 A observação de interacções mãe/bebé revela de imediato a importância de aspectos da comunicação
    que em nada dependem da satisfação de necessidades
 Crianças que sofrem separações, perdas ou cuidados emocionalmente inadequados desenvolvem
  perturbações comportamentais, mesmo que as suas necessidades físicas sempre tenham sido
  satisfeitas
 Estas perturbações também surgem se os prestadores de cuidados mudam sucessivamente, o que
  mostra que há necessidade de uma relação estável, não apenas da presença de um adulto qualquer
John Bowlby: A teoria (1)
 A explicação para a dinâmica das relações precoces foi encontrada por Bowlby nos modelos
    etológicos do comportamento de outras espécies animais
 Nestes modelos, comportamentos de base inata com funções sociais surgem independentemente da
    satisfação de necessidades homeostáticas nos indivíduos
 A sua origem pode ser encontrada nos processos evolutivos, em virtude da sua utilidade na promoção
    da sobrevivência ou da reprodução
John Bowlby: A teoria (2)
 Um exemplo destes comportamentos é o imprinting, estudado por Konrad Lorenz
 Aves que começam a andar logo à nascença (precociais) aprendem em poucas horas a seguir um
    objecto com características adequadas
 Em princípio, esse objecto será a mãe, mas pode ser qualquer outro (até o próprio Lorenz) que
    apareça nesse estreito período de tempo


John Bowlby: A teoria (3)
 Esse objecto continua a ser seguido ao longo da vida, e tende a ser escolhido como parceiro sexual
    na idade adulta
 Todo este processo de aquisição decorre sem qualquer recompensa ou satisfação de necessidades
    fisiológicas
 Este mecanismo tem evidentes vantagens em termos de sobrevivência (protecção contra predadores)


John Bowlby: A teoria (4)
   A escolha do objecto não se processa ao acaso: este tem de ter um certo tamanho, mover-se e fazer algum ruído
   Outros comportamentos animais são igualmente desencadeados por estímulos específicos, por exemplo o comportamento de
    pedir comida em gaivotas é desencadeado por uma mancha vermelha que os pais apresentam no bico
   Por sua vez, o pedido por parte das crias desencadeia a regurgitação pelos pais

John Bowlby: A teoria (5)
 Segundo Bowlby, a ligação da criança aos prestadores de cuidados ocorre igualmente através de um
    conjunto de comportamentos pré-programados e característicos da espécie
 Dividem-se em duas grandes categorias:
        Na primeira, a criança tem o papel mais activo. Inclui os comportamentos de chupar, agarrar-se e seguir
        A segunda actua sobretudo influenciando o comportamento de outros indivíduos, nomeadamente dos prestadores de
         cuidados. Inclui os comportamentos de sorrir e chorar
 Tal como noutras espécies animais, estes comportamentos têm estímulos desencadeadores e
    funções específicas
John Bowlby: A teoria (6)
 O comportamento de chupar é claramente cooptado de uma função alimentar
 A sua função de ligação é tornada clara pelo facto de ocorrer quando não há necessidade nem
  recompensa alimentar (e.g., chucha, chupar no dedo)
 É desencadeado por situações de ameaça moderada e permite à criança acalmar-se (e.g., para
  dormir)
John Bowlby: A teoria (7)
 O agarrar-se permite manter um contacto firme com a figura de vinculação e manter-se junto desta,
  mesmo se houver necessidade de fuga
 É desencadeado em situações de maior ameaça percebida, muitas vezes juntamente com o chorar e
  após o de seguir, podendo levar ao de chupar
 Em muitas espécies de primatas, em que a mãe usa as quatro patas, é essencial à sobrevivência

John Bowlby: A teoria (8)
 No comportamento de seguir, a criança desloca-se de forma a estabelecer e/ou manter a proximidade
  da figura de vinculação
 Exige maior maturidade motora, pelo que surge mais tarde que os anteriores
 É mantido mesmo em situações rotineiras (e.g., periodicamente), aumentando de intensidade perante
  ameaças
John Bowlby: A teoria (9)
 O comportamento de sorrir tem diversas funções:
      Verificar a ausência de ameaças
      Verificar a disponibilidade emocional e de atenção da figura de vinculação
      Desencadear contacto da parte da figura de vinculação
      Reforçar a relação afectiva
 É usado em situações de ausência de ameaça percebida


John Bowlby: A teoria (9)
 O comportamento de chorar é desencadeado em situação de maior ameaça percebida (interna ou
  externa)
 Tem a função de desencadear a prestação de cuidados pelas figuras de vinculação
 Tende a ser inibido pelos comportamentos de agarrar-se e chupar, que fazem diminuir a percepção de
  ameaça
John Bowlby: A teoria (10)
 Estes comportamentos têm desencadeadores específicos:
    Percepção de ameaças de origem interna ou externa
    Indisponibilidade ou impossibilidade de contacto com a figura de vinculação
 Têm igualmente estímulos específicos que os inibem ou interrompem, em termos gerais o
  inverso dos desencadeadores
 O mecanismo de controlo pode ser descrito de acordo com os princípios do feedback
  negativo
John Bowlby: A teoria (11)
 Inacessibilidade                                                                Ameaça
   do prestador                                                                 percebida
   de cuidados



                                       Comportamentos
                                        de vinculação
John Bowlby: A teoria (12)
 A um conjunto de comportamentos como este, regulados em função de um determinado
  objectivo/função, os etólogos chamam um sistema comportamental
 Existem no ser humano muitos outros sistemas, que se encarregam do comportamento
  alimentar, da afiliação, da reprodução, etc.
 Particularmente interessante neste contexto é o sistema de prestação de cuidados, que
  funciona em coordenação com o sistema de vinculação
John Bowlby: A teoria (13)
 Constata-se uma tendência para que os comportamentos de vinculação se dirijam preferencialmente
  para uma pessoa específica (monotropia)
 Isso não significa que não sejam dirigidos também a outras pessoas, mas sim que se forma uma
  hierarquia de preferências
 Essa preferência pode resultar de simples aprendizagem, mas é provável que exista uma tendência
  inata para a monotropia, que pode ajudar a reduzir o risco de a criança ser esquecida devido à
  “diluição da responsabilidade”
As experiências de Harlow (1)
 No mesmo ano (1958) em que Bowlby publicou o artigo inaugural sobre a vinculação, Harry
  Harlow publicou igualmente um artigo sobre as suas experiências com macacos Rhesus
  criados por “mães” artificiais
As experiências de Harlow (2)
 Estas “mães” eram de 2 tipos:
      Feitas de uma desconfortável rede de arame
      Com essa rede recoberta de espuma e tecido macios
 Verificou-se que os macacos bebés preferiam claramente as “mães” mais confortáveis

As experiências de Harlow (3)
 Esta preferência mantinha-se independentemente de qual a mãe que fornecia o alimento
 Outras observações mostraram que o que estava em causa não era só a procura de conforto
 O conforto de contacto parecia ser essencial ao estabelecimento de uma relação que transmitia
  segurança
As experiências de Harlow (4)
 Perante um estímulo gerador de medo, os macaquinhos agarravam-se à “mãe” macia tal
  como o fariam a uma mãe real
 Este comportamento nunca era observado com as “mães” de arame, mesmo em
  macaquinhos criados só com ela
As experiências de Harlow (5)
 Além disso, perante uma situação com muitos estímulos novos e na presença da “mãe”
  confortável, as reacções de medo e de se agarrar, rapidamente davam lugar à exploração
  curiosa dos objectos, com regressos periódicos à “mãe” para recuperar a segurança
As experiências de Harlow (6)
 Pelo contrário, na ausência da “mãe” confortável, os macaquinhos ficavam paralisados pelo medo e
  não exploravam o ambiente
 Isto acontecia também na presença da “mãe” de arame, mesmo em macaquinhos criados sempre na
  sua presença
 Ou seja, uma “mãe” desconfortável é incapaz de transmitir segurança

A contribuição de Ainsworth (1)
 No início dos anos 50, a equipa de investigação de Bowlby recebeu um novo membro, a norte-
  americana Mary Ainsworth (1913-1999)
 Ainsworth tinha anteriormente trabalhado com William Blatz, autor de uma “teoria da segurança” que
    influenciaria fortemente o trabalho de Ainsworth
A contribuição de Ainsworth (2)
 A teoria da segurança de Blatz mantinha que:
         As crianças obtêm uma sensação de segurança por saberem que podem contar com a protecção dos adultos (segurança
          dependente imatura)
         Sem essa sensação de segurança, as crianças receiam explorar o ambiente
         Com o desenvolvimento, no início da idade adulta as pessoas devem ser auto-suficientes em termos da sensação de
          segurança (segurança independente)
         No entanto, nem mesmo nos adultos a independência é total, sendo importante poder contar com a ajuda de outros
          (segurança dependente madura)
         Se a segurança independente não se baseia na segurança dependente madura, então terá de se apoiar em mecanismos
          de defesa, constituindo uma falsa segurança

A contribuição de Ainsworth (3)
 Após alguns anos de trabalho com Bowlby, Ainsworth passou 3 anos no Uganda (1953-1956), onde
    realizou um estudo de observação naturalista que teve importantes consequências:
         Confirmar as novas ideias, de inspiração etológica, de Bowlby
         Desenvolver a metodologia para o estudo que levaria a cabo anos mais tarde em Baltimore, EUA
 Essa metodologia assentava num procedimento para a avaliação da segurança da vinculação,
    denominado Situação Estranha, aplicado a crianças entre os 12 e os 18 meses
A contribuição de Ainsworth (4)
 A Situação Estranha comporta diversos elementos geradores de insegurança na criança:
    Um ambiente estranho, desconhecido
    Presença de pessoas estranhas
    Separação da mãe
 O procedimento pretende verificar se e de que forma a criança consegue utilizar o apoio da
    mãe para manter/recuperar a segurança e a capacidade de explorar o ambiente
A contribuição de Ainsworth (5)
        A Situação Estranha é composta por 8 episódios:
           A criança entra com a mãe para uma sala alcatifada, onde há brinquedos
           A criança é encorajada a ir para o chão e explorar os brinquedos, sem que a mãe interfira
           Uma mulher estranha entra, começa a conversar com a mãe, depois tenta interagir com o bébé
           A mãe sai, deixando o bebé com a estranha, que interage com ele
           A mãe reentra, enquanto a estranha sai
           A mãe volta a sair, desta vez deixando o bebé sozinho na sala
           A estranha reentra e interage com a criança
           A mãe reentra

A contribuição de Ainsworth (6)
 Nesta situação verifica-se que:
         Quase todas as crianças exploram a sala no episódio 2
         A exploração diminui bastante com a entrada do estranho
         Cerca de metade das crianças choram com a saída da mãe no episódio 4
         Poucas se deixam convencer a brincar com o estranho na ausência da mãe
         A maioria dos bebés saúdam a mãe no seu regresso e cerca de metade procura contacto físico
         O estranho tem uma eficácia muito reduzida a consolar a criança

A contribuição de Ainsworth (7)
 Há também diferenças individuais importantes
 Um aspecto relevante é que estas se manifestam sobretudo no momento da reunião
 Ainsworth distinguiu entre três padrões de comportamento, designados Estilos de Vinculação
    Tipo B (Seguro) ± 65%
              Procuram e mantêm activamente o contacto com a mãe após a reunião
              Rapidamente se acalmam e retomam a exploração

A contribuição de Ainsworth (8)
         Tipo A (Evitante) ± 20%
              Mostram-se aparentemente pouco perturbadas com a separação
              Mostram sinais de evitação do contacto com as mães na reunião (evitam o olhar, não aninham,
              querem voltar para o chão)
        Tipo C (Ansioso/Ambivalente) ± 15%
             Reagem às separações com muita perturbação
             São difíceis de consolar na reunião
             Têm visível dificuldade em “sintonizar” com a mãe
A contribuição de Ainsworth (9)
 Além disso, foram feitas observações em casa, das crianças com as mães:
    As mães das crianças Seguras mostravam:
             Maior sensibilidade aos sinais da criança
             Maior disponibilidade emocional
             Maior disponibilidade para o contacto físico
             Maior aceitação da criança
             Maior prazer na interacção
A contribuição de Ainsworth (10)
        As mães das crianças Evitantes mostravam:
             Rejeição mais ou menos explícita (e.g., comentários negativos ou sarcásticos)
             Aversão ao contacto e às demonstrações físicas de afecto
             Manipulação brusca da criança
             Menor expressividade emocional
             Menor afecto pela criança


A contribuição de Ainsworth (11)
        As mães das crianças Ansiosas/Ambivalentes mostravam:
             Comportamentos não sintonizados com os sinais e as necessidades da criança
             Comportamentos inconsistentes e imprevisíveis
             Comportamentos intrusivos
             Manipulação desajeitada da criança
             Irritação por não conseguirem influenciar o comportamento da criança
A contribuição de Ainsworth (12)
 Estes contributos de Ainsworth foram fundamentais porque:
    Mudaram a ênfase da teoria, das separações traumáticas para a qualidade da relação quotidiana
    Forneceram uma base empírica, não meramente clínica, para a teoria
    Forneceram um instrumento de avaliação da qualidade da vinculação
    Criaram um sistema de categorias fácil de memorizar

Desenvolvimentos posteriores (1)
 Aproveitando os contributos de Ainsworth, Bowlby aprofundou a sua teoria em 3 livros fundamentais:
    Attachment (1969), Separation (1973) e Loss (1980)
 No primeiro, propôs que as crianças desenvolvem representações internas de si próprias, dos
    prestadores de cuidados e do tipo de interacções entre si e eles
 Estas representações orientam a acção e podem ser revistas, daí serem chamadas internal working
    models
 No segundo, defendeu que a auto-confiança não se cria forçando as crianças a serem auto-
    suficientes, mas através da confiança na figura de vinculação
 No terceiro, desenvolveu uma abordagem aos mecanismos de defesa em termos de processos
    cognitivos, o que o aproximou das correntes cognitivistas
Desenvolvimentos posteriores (2)
   Os contributos de outros autores, na sequência dos trabalhos de Bowlby e Ainsworth sobre a vinculação na criança, têm-se
    alargado a diferentes áreas:
      Estudo dos antecedentes do estilo de vinculação (replicando em termos gerais as conclusões já mencionadas de Ainsworth)
      Estudo da estabilidade temporal do estilo de vinculação (embora bastante estável, varia em função das circunstâncias de vida da díade e da
       qualidade da relação nessa fase)
      Extensão dos estudos para idades mais avançadas: A Situação Estranha (SE) parece resultar bem até aos 18 meses de idade; a partir daí foi
       necessário desenvolver outras técnicas:
            Observação comportamental (com critérios diferentes dos da SE; Q-sort)
            Avaliação da qualidade da interacção verbal
            Completamento de histórias, jogo com bonecos, desenho
            Medidas de auto-descrição, a partir das idades escolares (notar como estas duas últimas avaliam directamente os internal working models)


Desenvolvimentos posteriores (3)
      Estudos das implicações do estilo de vinculação para o desenvolvimento posterior
          Crianças com estilo ansioso/ambivalente têm indicadores mais baixos de desenvolvimento cognitivo, possivelmente em consequência
             da reduzida exploração
          Crianças com estilos inseguros têm maior dificuldade em estabelecer relações de amizade, e estas têm características menos positivas
             (e.g., reciprocidade, intimidade)
      Estudos das implicações do estilo de vinculação nos problemas de comportamento e psicopatologia
          Crianças com estilo ansioso/ambivalente mostram menos autonomia e competências sociais
          Crianças com estilo evitante tendem a ter problemas variados: dependência, oposição, impulsividade, exibicionismo


Desenvolvimentos posteriores (4)
      Mas, quando se começou a estudar amostras de risco, constatou-se que muitas das crianças não eram classificáveis nos 3 estilos
      Mais tarde (1990), Mary Main e Judith Solomon englobaram estas crianças num quarto estilo, designado desorganizado/desorientado (D)
            Estas crianças tinham em comum a manifestação inesperada de comportamentos contraditórios, não direccionados, interrompidos, posturas bizarras, sinais de
             ter medo da figura de vinculação, etc.
            Estudos empíricos mostraram que este estilo pode abranger a maioria das crianças em populações de risco (abusos, maus tratos, negligência)
            Este estilo é aquele que tem relações mais fortes com problemas de comportamento e psicopatologia
            A interpretação corrente é a de que nestas crianças os comportamentos de vinculação estão misturados com o medo e de que a própria figura de vinculação
             tem comportamentos que assustam a criança
      A classificação como D (ou não D) é feita adicionalmente à classificação num dos 3 estilos básicos

Desenvolvimentos posteriores (5)
      Estudos sobre possíveis intervenções na vinculação insegura
            Tem-se verificado que estas intervenções têm algum efeito
            Mesmo intervenções muito modestas têm efeitos detectáveis, embora também modestos
            Por exemplo, só o dar às mães uma funda para transportar o bebé aumenta a percentagem com vinculação segura
            Provavelmente, esta intervenção dessensibiliza ao contacto corporal e aumenta a saliência dos sinais da criança

Desenvolvimentos posteriores (6)
    Intervenções com maior investimento têm resultados mais pronunciados
    Assumem geralmente a forma de uma intervenção quasi-psicoterapêutica
    Feita em conjunto, com a mãe e o bebé presentes
    Pretende ajudar a mãe a tomar consciência dos seus comportamentos interactivos, por exemplo
     com a ajuda do vídeo
    Procura-se também que a mãe tome consciência de como esses comportamentos têm origem na
     sua própria experiência de infância
A vinculação no adulto
 Tanto Bowlby como Ainsworth defenderam que a vinculação não se limita à infância,
  permanecendo activa por toda a vida
 A maioria dos investigadores da vinculação nos adultos enquadra-se numa de duas grandes
  escolas ou abordagens que designei, respectivamente, por abordagem implícita e
  abordagem explícita
A abordagem implícita (1)
 A abordagem “implícita” é obra de pessoas que trabalharam, directamente ou por
  interposta(s) pessoa(s) com Ainsworth
 Tal como Ainsworth, são pessoas com uma formação em Psicologia do Desenvolvimento e
  com interesse pelos problemas e pela prática clínica
 A maior parte trabalha tanto com crianças como com adultos
A abordagem implícita (2)
 O principal nome dentro desta corrente é o de Mary Main
 A sua principal ferramenta é a Adult Attachment Interview (AAI), desenvolvida nos anos 80
 O objectivo da AAI foi o de compreender melhor as razões para o comportamento das mães
  das crianças inseguras
 É uma entrevista semi-estruturada, que é gravada, transcrita e cotada por juízes altamente
  treinados
A abordagem implícita (3)
     Os principais passos da AAI são:
        Pergunta de “aquecimento” acerca da composição da família nuclear
        Pedidos 5 adjectivos para caracterizar a relação com cada um dos pais
        Justificação da escolha destes adjectivos
        De qual dos pais se sentia mais próximo
        O que fazia (na infância) quando se sentia perturbado, magoado ou doente
        De que se lembra no que respeita a separações dos pais
        Se alguma vez se sentiu rejeitado pelos pais
        Como é que a sua personalidade adulta foi afectada por estas experiências
        Porque é que, na sua opinião, os pais se comportaram dessa forma
        Como é que a relação com os pais mudou com o tempo
        Experiências de abuso
        Experiências de perda de pessoas próximas por morte, tanto na infância como na idade adulta

A abordagem implícita (4)
 Existem diversos sistemas de cotação para a AAI, sendo que o mais importante classifica os
     indivíduos num esquema de categorias paralelo ao da Situação Estranha
 Tipo Autónomo (correspondente ao estilo Seguro na SE)
          Discurso coerente e consistente
          Respostas claras
          Respostas relevantes
          Razoavelmente sucinto
          Mostra livre acesso cognitivo a todas as experiências, mesmo as negativas
          Não interessa se o conteúdo é mais positivo ou negativo, mas apenas a qualidade do discurso

A abordagem implícita (5)
 Tipo Desligado (Dismissive, correspondente ao estilo Evitante na SE)
    Discurso incoerente (características gerais muito positivas em contradição com relatos concretos
     negativos)
    Muitas afirmações de incapacidade de lembrar episódios concretos
    Tendência para respostas excessivamente lacónicas, que dão muito pouca informação
    Aparente dificuldade no acesso cognitivo às experiências de vinculação, sobretudo as negativas


A abordagem implícita (6)
 Tipo Preocupado (correspondente ao estilo Ansioso/Ambivalente na SE)
    Discurso confuso e emaranhado, por vezes difícil de seguir (uso de palavras de calão ou sem
     sentido, frases gramaticalmente mal construídas)
    Discurso excessivamente prolixo
    Expressão de raiva em relação à figura de vinculação, ou de atitude preocupada mas passiva
    Envolvimento excessivo com a problemática da vinculação rouba atenção à elaboração do
     discurso
A abordagem implícita (7)
    A investigação tem mostrado relações significativas entre a classificação dos adultos na AAI e:
          A classificação das crianças de que tomam conta na Situação Estranha
          Os seus antecedentes, designadamente a sensibilidade aos sinais da criança
    São visíveis os paralelos entre o desempenho na Situação Estranha e na AAI
          Estilo Desligado-Evitante minimiza a atenção às questões da vinculação
          Estilo Preocupado-Ansioso/Ambivalente maximiza a atenção às questões da vinculação, em detrimento da exploração do ambiente
    Estas características explicam por sua vez a falta de sensibilidade aos sinais da criança
          Minimização da atenção, no estilo Desligado
          Competição de outras preocupações, no estilo Preocupado

A abordagem implícita (8)
 No entanto, a AAI não avalia a vinculação, que consiste em comportamentos visando a manutenção
     da acessibilidade de uma figura de apoio
 Por isso, os seus autores afirmam que a AAI avalia os “Estados Mentais em Relação à Vinculação”
 Não obstante, tem sido verificado que o estilo Autónomo na AAI se associa com relações mais
     saudáveis com outros adultos
 Têm aparecido outras entrevistas semelhantes, para avaliação de relações adultas (de casal e de
     amizade), bem como outros processos de cotação (Q-sort) e também técnicas projectivas
A abordagem explícita (1)
   A abordagem “explícita” foi inaugurada em 1987 por dois investigadores Norte-Americanos, Cindy Hazan e Philip
    Shaver

A abordagem explícita (2)
 Esta abordagem é obra de pessoas sem relação pessoal com Bowlby ou Ainsworth
 São investigadores na sua maioria com uma formação em Psicologia Social e com reduzido interesse
    pelos problemas e pela prática clínica
 A maior parte trabalha apenas com adultos
 Utilizam geralmente questionários, embora alguns recorram também a entrevistas
 A sua atenção é centrada nas relações entre adultos, ou seja, em verdadeiras relações de vinculação
    na idade adulta
 Nos adultos, é nas relações amorosas que se encontram comportamentos de vinculação semelhantes
    aos observados nas crianças
A abordagem explícita (3)
A abordagem explícita (4)
A abordagem explícita (5)
 Esta semelhança é considerada sinal da continuidade entre a vinculação nas crianças e nos adultos
 A evolução “aproveitou” um sistema destinado a manter a proximidade na infância para construir um
  mecanismo que mantém os casais juntos, de modo a assegurar o investimento de recursos nas
  crianças
 Além de que este mecanismo pode assegurar uma aliança fiável e uma ajuda mútua entre os adultos
 Por isso, é possível que se encontrem elementos de vinculação noutros tipos de relações muito
  próximas
A abordagem explícita (6)
 Existindo esta continuidade, as diferenças individuais (estilos de vinculação) também
    deveriam manifestar-se nos adultos
 Hazan e Shaver (1987) elaboraram um parágrafo para descrever cada um dos 3 estilos de
    Ainsworth, tal como se manifestam na idade adulta
 Os participantes nos estudos são solicitados a escolher qual dos 3 parágrafos melhor os
    descreve
A abordagem explícita (7)
   Evitante - Fico algo desconfortável quando me sinto psicologicamente próximo das outras pessoas. Acho difícil confiar nelas
    inteiramente e apoiar-me nelas. Fico nervoso quando alguém se torna demasiado próximo e, muitas vezes, os meus amigos ou
    parceiros românticos querem que eu seja mais íntimo do que seria confortável para mim.
   Ansioso/ambivalente - Sinto que os outros são relutantes em se tornarem tão íntimos quanto eu gostaria. Preocupo-me muitas
    vezes com a possibilidade de os meus amigos ou parceiros românticos não gostarem realmente de mim ou não quererem
    manter a nossa relação. Quero tornar-me muito próximo dos outros e isso por vezes assusta as pessoas.
   Seguro - Considero relativamente fácil sentir-me próximo das outras pessoas e sinto-me confortável ao apoiar-me nelas e deixar
    que elas se apoiem em mim. Não me preocupo muito com a possibilidade de ser abandonado ou de alguém se aproximar
    demais de mim.

A abordagem explícita (8)
 É de notar aquilo que distingue os estilos nesta formulação
                                  Evitante                Ansioso/                    Seguro
                                                         ambivalente

Conforto com a                     Baixo                    Elevado                  Elevado
proximidade

Procura de                         Baixa                    Elevada                   Média
proximidade
Preocupação com as                 Indefinida                    Elevada                       Baixa
relações

A abordagem explícita (9)
 Vários tipos de dados apoiam a validade desta medida
        Percentagens de distribuição dos indivíduos semelhantes às verificadas para a Situação Estranha
           ±55% seguros
           ± 25% evitantes
           ± 20% ansiosos/ambivalentes
        Ausência de diferenças entre sexos
        Características coerentes relatadas para as relações amorosas
           Seguros – Maior satisfação, optimismo, confiança e amizade na relação
           Ansiosos/ambivalente – Extremos emocionais, ciúme, obsessão, amor à primeira vista
           Evitantes – Maior distância, menor confiança e envolvimento emocional, pessimismo quanto ao amor e às relações


A abordagem explícita (10)
 No entanto, esta medida apresenta vários problemas
        Pouca precisão, por ser um único item
        Dados numa escala nominal
        Escolha forçada, não permitindo casos intermédios
        Características combinadas em cada parágrafo, não podendo ser escolhidas individualmente
        A eventual existência de outros tipos é indetectável
 Por isso, rapidamente começaram a surgir medidas com escalas de avaliação contínuas
 Primeiro, avaliando os parágrafos no seu conjunto
 Depois, dividindo os parágrafos em frases com características específicas, o que já permite
    acrescentar novos itens e fazer análises factoriais
A abordagem explícita (11)
   Estas análises factoriais revelaram a presença de duas grandes dimensões: Evitação e Preocupação
                                       Item                                                      Escala
Sinto-me confortável ao desenvolver relações próximas com outras                      Evitação (negativo)
pessoas

Acho difícil confiar inteiramente nos outros                                          Evitação
Quero tornar-me muito próximo dos outros                                              Evitação (negativo)
Preocupo-me muitas vezes com a possibilidade de os meus parceiros                     Preocupação
não quererem manter a nossa relação

Preocupo-me por os outros não me valorizarem tanto como eu os                         Preocupação
valorizo

As pessoas nunca estão disponíveis quando preciso delas                               Preocupação

A abordagem explícita (12)
 Em 1990, a investigadora Canadiana Kim Bartholomew propôs um novo modelo para as diferenças
    individuais no estilo de vinculação
 Postulou a existência de duas dimensões, correspondentes aos modelos internos de Bowlby:
        De si próprio
        Dos outros

A abordagem explícita (13)
   A combinação destas duas características dá origem a quatro estilos
             Modelo de Si Próprio Positivo                  Modelo de si próprio Negativo
Modelo     Seguro - É fácil para mim tornar-me    Preocupado - Quero ser completamente íntimo
dos Outros emocionalmente próximo das outras      com os outros no aspecto emocional, mas
Positivo   pessoas. Sinto-me confortável ao       muitas vezes sinto que os outros são
           apoiar-me nos outros e deixar que      relutantes em se tornarem tão próximos como
           eles se apoiem em mim. Não me          eu gostaria. Sinto-me desconfortável sem
           preocupo com o ficar sozinho ou os     relações próximas, mas por vezes preocupo-
           outros não me aceitarem.               me por os outros não me valorizarem tanto
                                                  como eu os valorizo.
Modelo     Evitante desligado - Sinto-me          Evitante receoso - Sinto-me desconfortável ao
dos Outros confortável sem relações emocionais tornar-me próximo dos outros. Quero ter
Negativo próximas. É muito importante para        relações emocionalmente próximas, mas acho
           mim sentir-me independente e auto- difícil confiar nos outros inteiramente ou
           suficiente, e prefiro não depender dos apoiar-me neles. Receio ser magoado se me
           outros e que os outros não dependam aproximar demasiado dos outros.
           de mim.


A abordagem explícita (14)
   Estes modelos teóricos e os instrumentos a que deram origem, estiveram na base de inúmeras investigações
   Implicações para as relações
        Pessoas de estilo seguro têm maior probabilidade de estar envolvidas numa relação
              São mais desejados como parceiros
              Têm relações mais estáveis
        Estilos inseguros estão associados a
              Menor satisfação, intimidade, compromisso e confiança, dos próprios e dos parceiros
              Estratégias mais passivas (Preocupados) e menos prosociais (Evitantes) de resolução de conflitos
   Relação com a personalidade
        Preocupação relacionada com Neuroticismo
        Evitação relacionada com a Introversão
        Preocupação relacionada com mais baixa auto-estima
        Evitação relacionada com critérios extrínsecos de auto-estima (comparações com outros)

A abordagem explícita (15)
   Relação com as estratégias de coping
        Preocupação relacionada com hiperatenção aos problemas e emoções
        Evitação relacionada com o evitar defensivamente os problemas e as emoções
   Relação com a psicopatologia
        Preocupação relacionada com mais queixas manifestas
        Evitação relacionada com sintomas menos evidentes (e.g., somatização)
   Relação com o apoio social
        Preocupação relacionada com mais procura de apoio, mas uma utilização mais ineficaz desse apoio
        Evitação relacionada com menor procura de apoio
   Relação com sensibilidade no fornecimento de apoio social
        Estilos inseguros sempre mais controladores e menos sensíveis
        Preocupação relacionada com atitude mais intrusiva e excessivamente envolvida
        Evitação relacionada com menor cuidado e conforto físico

Questões actuais (1)
   O estilo de vinculação será uma característica da personalidade ou da relação?
        Crianças podem ter diferentes estilos de vinculação com mãe e pai
        Estudos recorrendo a instrumentos de auto-relato indicam que há um grau considerável de especificidade de cada relação
        Estudos de laboratório sugerem que as pessoas têm esquemas cognitivos para os vários estilos, que podem ser activados consoante as
         situações, embora haja também um enviesamento pessoal
   O estilo de vinculação é estável ao longo do tempo?
        Isso parece depender do grau de estabilidade na qualidade das relações
   Qual a relação entre os estilos avaliados pelas abordagem implícita e explícita?
        A relação é surpreendentemente fraca
        É possível que os dois tipos de medidas avaliem aspectos diferentes

Questões actuais (2)
 Como se formam novas relações de vinculação na idade adulta?
        Estudos recentes de Cindy Hazan indicam que o sistema de vinculação tem 4 componentes
              Procura de proximidade
              Porto seguro (recurso em situação perturbadora)
              Protesto de separação (fortes reacções emocionais à separação)
              Base segura (confiança absoluta, facilitação da exploração)
      A transferência da vinculação dos pais para os pares, bem como o desenvolvimento de novas vinculações na idade adulta,
       segue esta ordem
      O processo de criação de uma nova relação de vinculação demora pelo menos 2 anos
      Os 4 componentes só são encontrados em conjunto na idade adulta em relações de casal, em amizades particularmente
       íntimas e em algumas relações entre irmãos

				
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