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					MODALIZAÇÃO EM TEXTOS DE ALUNOS COM SURDEZ


Adiniz Mendes da Silva Júnior



Introdução


          A escrita da língua portuguesa por estudantes portadores de surdez vem sendo
objeto de investigação de alguns estudiosos (NASCIMENTO, 2008); mas ainda há muito
que se investigar, uma vez que, só na segunda metade da década de 60, é que houve “um
aumento no atendimento a pessoas com deficiência auditiva no Brasil em quase 200%”,
segundo o CENESP (LIMA, 2006). Além disso, “a língua de sinais é viso-espacial,
apresentando uma gramática própria, diferente do português oral ou escrito”, conforme
Lima (2006, p.68). Tal condição traz mais dificuldades na aquisição da escrita do
português, para pessoas com a peculiaridade da surdez (LIMA, 2006).
          Tais questões levaram-nos a investigar o fenômeno linguístico-discursivo da
modalização, por meio do qual marca-se, em diferentes graus, o envolvimento do locutor
em seus enunciados, em função do(s) interlocutor (es) e dos objetivos da enunciação,
constituindo-se, portanto, num recurso argumentativo.
        Tomamos como base teórica a Teoria da Argumentação na Língua Ducrot e
colaboradores (1988), Espíndola (2004), os estudos em modalização de Castilho e Castilho
(1992), Cervoni (1989), Neves (2006), Koch (1992; 1996) e Nascimento (2009).
          O corpus foi recolhido de um dos processos seletivos simplificados PSS –
LETRAS LIBRAS da UFPB e é constituído de 06 (seis) amostras do gênero discursivo
carta pessoal.
          Essa pesquisa foi qualitativa e interpretativa e tentamos responder a algumas
perguntas: que marcadores de modalização estão presentes nesses textos? quais os tipos de
modalização encontrados? há coerência na utilização desses recursos? que efeitos
semântico-argumentativos estão sendo produzidos nas redações? Nossa hipótese é de que
esses recursos, por estarem inscritos na língua, serão utilizados nesses textos
coerentemente.
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    Aluno do Mestrado do Curso de Pós –Graduação em Linguística /Proling – UFPB.

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       Intentamos identificar e analisar as manifestações da modalização, os efeitos de
sentido produzidos pelos modalizadores nos textos de redações de alunos surdos.
       Os procedimentos metodológicos da pesquisa foram a leitura das redações, a
identificação dos enunciados em que houvesse marcadores de modalização, digitação dos
enunciados e análise do funcionamento discursivo dos modalizadores, ou seja, dos efeitos
de sentido gerados pelos modalizadores. Os enunciados foram agrupados por redações.
        Chegamos à conclusão de que a modalização é uma estratégia semântico-
discursiva presente nos textos desses estudantes e que atende a dois objetivos: expressar
ponto-de-vista e influenciar o leitor, buscando sua adesão. Percebemos também que esse
fenômeno, os seus tipos e recursos linguísticos precisam ser mais aprofundados e
sistematizados pelos professores de língua portuguesa para estudantes portadores de
surdez. E, mesmo levando em conta as dificuldades de escrever numa segunda língua e de
modalidade diferente, os surdos autores dessas redações usaram coerentemente esses
recursos.


1. A Teoria da Argumentação na Língua


      A teoria da argumentação na língua, proposta por Ducrot (1988) e outros
colaboradores, trouxe para os estudos linguísticos semânticos e argumentativos um novo
enfoque. A argumentação era, até então, vista como um efeito de sentido produzido pela
língua, ou seja, era resultado dos recursos linguísticos, era produto deles.
     Ducrot e Anscombre (1989) perceberam que certas palavras, expressões e enunciados
eram dotados de uma força argumentativa em seu valor semântico, sendo a natureza
informativa derivada da argumentativa, e não o oposto. Lançam, assim, a tese de que a
língua é fundamentalmente somente argumentativa, e complementa Espíndola (2004):
também os usos da língua são essencialmente argumentativos.
     Essa concepção de sentido é oposta à divisão tríplice tradicional do sentido em
objetivo, subjetivo e intersubjetivo: o primeiro, representando a realidade; o segundo, as
atitudes do locutor frente à realidade; e o último, as atitudes do locutor frente aos
interlocutores. O aspecto objetivo é chamado tradicionalmente de denotação, os outros
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dois, conotação.
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     Para Ducrot (1988, p. 50), o sentido objetivo não existe: “No creo que el lenguage
ordinário posea una parte objetiva ni tampoco creo que los enunciados del lenguage den
acceso directo a la realidad; em todo caso no la describen directamente.”; é por meio dos
aspectos subjetivos e intersubjetivos que a linguagem descreve a realidade. O linguista
resume esses dois aspectos ao que chama de valor argumentativo dos enunciados,
definindo-o como a orientação que uma palavra imprime ao discurso, e afirmando que ele
é o nível fundamental da descrição semântica.
     Convém, nesse ponto, explicitar algumas noções importantes no escopo desta teoria.
O enunciado é, para Ducrot, “una de las múltiples realizaciones posibles de una frase”,
sendo esta, “una construcion del linguista que le sirve para explicar la infinidad de
enunciados.” A significação é o “valor semántico de la frase”, e sentido é o “valor
semántico del enunciado”. A língua é “un conjunto de frases” e descrever a língua é
“describir las frases de esa lengua” (1988, p. 53).


2. Modalização


     Desde os estudos da Lógica Aristotélica até os da Semântica Moderna, (KOCH,
1992), diferentes aspectos da modalização têm sido abordados. Segundo Cervoni (1989),
os limites da modalização, como objeto de conhecimento, expandiram-se com o
desenvolvimento da linguística e, especificamente, a diversidade de análises do enunciado.
     Além disso, conforme a linha teórica adotada pelo estudioso, diversos matizes são
postos em evidência: a atitude ou opinião do falante, os atos de fala, a subjetividade, a
possibilidade e a necessidade (PALMER, apud HOFFNAGEL, 1998).
     Como existem muitos fenômenos geradores de modalização, para Hengeveld (apud
HATTNHER, 1996), em geral, a modalidade não constituiria categoria semântica única e
coerente, devido aos diferentes traços semânticos que comporta. Por esses fatos é difícil
definir precisamente o que é modalização.
     No entanto, o entendimento de que a modalização reflete as atitudes do enunciador e
posições assumidas por ele, perante o que enuncia, constitui o ponto comum. É o que
constatamos na definição de Koch (1996, p.138), para quem, de um ponto de vista da
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enunciação, são modalizadores “todos os elementos lingüísticos diretamente ligados ao
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evento de produção do enunciado e que funcionam como indicadores das intenções
sentimentos e atitudes do locutor.” (grifo nosso)
     Mesmo reconhecendo a diversidade de modalidades, o próprio Hegenveld (apud
HATTNHER, 1996), constata que as modalidades veiculam as atitudes dos interlocutores
em relação ao que dizem. (grifo nosso)


3. Tipos de modalização


     Diversos são os tipos modalização, e as classificações variam de acordo com os
estudiosos. Castilho e Castilho as classificam em epistêmica, deôntica e afetiva.
     Por intermédio da modalização epistêmica o enunciador expressa seu grau de certeza
sobre o que enuncia. (CASTILHO & CASTILHO, 1992). Assim, um enunciado pode ser
apresentado das seguintes maneiras:
     a) “Eu sei que Pedro está em casa”, em que a adesão do enunciador é máxima; ele
tem certeza do que diz;
     b) “Talvez Pedro esteja em casa”, em que há um fraco comprometimento com o
enunciado; o enunciador não está seguro da verdade que diz.
     Os modalizadores que marcam essas duas posições perante o enunciado são
denominados, respectivamente, por Castilho e Castilho (1992), de asseverativos e quase-
asseverativos.
     Os modalizadores asseverativos costumam ser usados quando o falante/escritor
deseja expressar alto grau de adesão ao que diz/escreve ou provocar ênfase. É uma
estratégia retórica, tentando conquistar a credibilidade do interlocutor, ao demonstrar
certeza do que diz, responsabilizando-se, assim, pelo conteúdo proposicional.
     Os quase-asseverativos sinalizam menor engajamento do enunciador em relação ao
seu enunciado, pois o conteúdo proposicional é apresentado sob a forma de uma quase
certeza, uma possibilidade ou probabilidade. Segundo Barrenechea (apud CASTILHO &
CASTILHO, 1992) o enunciador não se responsabiliza pelo que disse.
     A modalização deôntica, segundo Castilho e Castilho (1992), apresenta o conteúdo
da proposição como algo que tem a obrigação de acontecer: “tem que P”. Esse tipo de
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modalização não diz respeito à verdade do enunciado nem ao comportamento do
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enunciador em relação a ela.


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     Segundo Neves (2006), a modalização deôntica pode apresentar-se sob a forma de
obrigações (necessidade deôntica) ou de permissões (possibilidade deôntica), podendo a
primeira subclassificar-se em obrigação moral, interna, motivada pela consciência; e
obrigação material, externa, imposta por circunstâncias externas. (NEVES, 2006)
     Os modalizadores avaliativos são utilizados para expressar um julgamento de valor,
uma avaliação que incide sobre o enunciado ou parte dele, não se levando em conta as
avaliações de cunho epistêmico ou deôntico, conforme Nascimento (2009).
     Muitos recursos linguísticos portam a modalização. Castilho e Castilho (1992)
mencionam a prosódia, os modos verbais, os verbos auxiliares, os verbos parentéticos,
adjetivos sós ou em expressões como: “é difícil”, “é possível”, e advérbios. As orações
modalizadoras como “tenho a certeza de que...”, “não há dúvida de que” etc. são
mencionadas por Koch (1992). Os verbos dicendi são mencionados por Nascimento
(2009).


4. Análise da modalização


     Não colocamos neste artigo todas as ocorrências dos modalizadores, porque alguns
usos se repetem e também pelo tamanho do artigo. Acreditamos que a amostra a seguir
cumprirá o objetivo deste artigo.


Redação 1
     A redação um é tipicamente uma carta pessoal, escrita em primeira pessoa, traz a
assinatura no seu final, possui cabeçalho e vocativo, além de o tema ser de intimidade entre
os interlocutores.


1-“Queria muito conhecer a você, mas eu vi que você está sozinha parece triste. Eu
queria muito ser sua amiga, pode?”
2 - “Eu não gosto quando você ficar sozinha que sem junto com amigas.”
3 - “Acho que o seu sorriso é linda.”
4 - “Aline, se você tem um problema que pode contar comigo, eu ajudo.”
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     Observamos, nos enunciados acima, o uso de diversos recursos modalizadores. Os
verbos querer, achar, gostar e os adjetivos, linda e triste, são modalizadores avaliativos,
pois indicam um ponto de vista, uma avaliação do conteúdo do enunciado por parte do
enunciador.
     Ao usar o verbo querer, o enunciador expressa o desejo de conhecer a destinatária da
carta e de ser sua amiga, já tendo previamente avaliado essa pessoa, para então manifestar
seu desejo. Usando o verbo gostar, expressa claramente sua opinião sobre o fato de a
destinatária estar sozinha, sem amigas. Outro modalizador avaliativo é o verbo achar,
utilizado como introdutor de opinião; no enunciado introduz a avaliação que faz sobre o
sorriso da interlocutora, afirmando ser lindo (linda), outro modalizador avaliativo.
      O verbo “parecer” na expressão “parece triste”, imprime uma quase certeza sobre a
tristeza do interlocutor. É um modalizador epistêmico quase-asseverativo, pois o autor, ao
usá-lo, não dá certeza do que enuncia.
     Há a utilização também de um modalizador deôntico, o verbo poder expressando
uma possibilidade deôntica. O enunciador se coloca à disposição para ajudar a destinatária,
dando-
lhe permissão para procurá-la, se necessitar de ajuda.
     Esse texto não apresenta as peculiaridades dos textos de língua portuguesa
produzidos por alunos com surdez, demonstra uma aquisição vocabular e de recursos de
modalização competentes.


Redação 2
     Essa redação, embora não apresente a estrutura do gênero carta pessoal, possui em
seu conteúdo as características epistolares. Há um enunciador, expressando-se em 1ª
pessoa, relatando sua rotina de trabalho e estudo, para o interlocutor, o presidente (na
época) Luiz Inácio Lula da Silva. Em seguida há reivindicações dirigidas à classe política
em geral de melhoria as condições de vida do Brasil.


1 - “Petrobrás tem muito Estados do Brasil das para vende outro país ganhar dinheiro
precisar o povo trabalhar, escola, saúde, polícia, salários, etc... melhor do Brasil.”
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2 - “Cadê vocês vêm o povo do Brasil pobre outros país rico. Desculpado: Presente,
senador, deputador, governador, prefeitura, vereador todos precisar ajudar do Brasil
melhor igual outro país.”


     Nos enunciados, há a utilização do verbo “precisar”, um modalizador deôntico,
expressando uma necessidade deôntica: o trabalho e bem remunerado, a educação, a
segurança, são postos como uma obrigação do Estado e uma necessidade. Os ocupantes
dos cargos políticos enumerados precisam ajudar o Brasil. As necessidades sociais dos
brasileiros são argumentativamente expostas e direcionadas ao Presidente Lula, impondo a
este a obrigação de atender. Essa força argumentativa reside no verbo “precisar”, usados
nos dois sentidos.
     Observa-se perfeitamente a intersubjetividade: o enunciador expressa seu ponto de
vista e, concomitantemente, age no sentido de persuadir o interlocutor.


Redação 3
       Essa redação tem como título a “Educação Inclusiva”, foge às características de
uma carta, sendo um texto explicativo e sem direcionar explicitamente a um destinatário.
Seu escritor parece conhecer bem as leis sobre o ensino de LIBRAS, pois faz a citação da
Lei 5.296/2004 e da Lei 10.436, inclusive dizendo o dia de sua sanção: 24 de abril de 2002.
Em suma essa redação trata do direito ao ensino/aprendizagem de língua para os surdos.


1 - “A educação inclusiva esta assegurada pela lei de acessibilidade de númeira
5.296/2004.”
2 - “A educação inclusiva é muito importante para, a surdo porque antes a maioria das
surdas não sabiam e ler escrever.”
3 - “A aluna surdo tem direito de interprete ou de professor bilingua.”
4 – “A escola e um direito legal de todos os alunos.”
5 – “Todo ser humano e capaz de desenvolver a telectualidade.”


       Nas duas primeiras ocorrências, o enunciador, por meio dos adjetivos, assegurada e
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importante, respectivamente, imprime no texto seu julgamento, sua avaliação sobre a
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educação inclusiva, afirmando que ela é um conteúdo legal e de relevância para os surdos.


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Na última ocorrência, há uma afirmação de caráter geral sobre a capacidade de todos os
seres humanos desenvolverem a “telectualidade” (intelectualidade). Assegurada,
importante e capaz cumprem o papel de modalizadores avaliativos, conduzindo leitor para
essa concepção
       Já, nas ocorrências 3 e 4, as expressões “tem direito” e “e um direito legal” são
modalizadores deônticos, expressando o dever de os alunos surdos terem acesso à escola e
terem intérpretes e professores bilíngues.


Redação 4
       Esta redação tem como título “Escola não quero inclusão”. O autor argumenta que
quer a inclusão, não apenas a escola, afirma que O MEC não entende as suas necessidades
e que há muita confusão no ensino de língua portuguesa para os surdos, e tudo isso causa
desânimo na comunidade de surdos. É importante explicitar que essa redação só tinha dois
pontos-finais: um ao fim do primeiro período e outro no fim da redação, isso fez com que a
lêssemos de acordo com nosso entendimento.


1 – “Importante criança dentro a sala de aula só por isso professora a Libras as aulas
aprender e crescer primeira Libras depois. O tempo palavra português os todos surda
entender, também as aulas surda querem só próprio escola surda, nós todas não querem
esco
la inclusão ouvintes, cegos, outros muita confusão (...)”
2 – “(...) porque nós toda não entender interprete dois também professora falar sempre
perder não conseguir português por isso errado Brasília mandar MEC lá não expressão
entender problema confusão (...)”
3 – “(...) surda tem magoa as muita difícil as cadas tem triste, perder como futuro não
tempo conseguir vestibular muito difícil perder vida, eu quero ótimo vida melhor só
escola sempre nós toda surda, professora saber LIBRAS maravilhosa EDAC.


       No primeiro enunciado temos dois modalizadores avaliativos: importante e querem.
O enunciador avalia como importante que a criança esteja dentro da sala de aula, na escola,
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porém essa escola deveria ser exclusiva para eles, os surdos, utilizando o modalizador
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avaliativo querer, e que não querem inclusão (...).


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          Por meio do adjetivo errado, um modalizador avaliativo, no enunciado 2, o
enunciador avalia a decisão do governo federal de enviar um representante do MEC “lá”,
(não se sabe com certeza qual o referente do advérbio lá, talvez a EDAC), pois segundo o
autor, o MEC não entende os problemas dos surdos e isso gera confusão.
          No terceiro enunciado, o enunciador expressa sua avaliação afetivamente sobre
essas questões, utilizando o substantivo mágoa, dizendo que os surdos “tem mágoa as”
(mágoas) e que é “difícil” e “triste” perder o futuro, não ter tempo de conseguir passar no
vestibular ou chegar nesse ponto, é perder a vida. Na sequência do enunciado expressa seus
desejos de uma vida melhor, por meio dos modalizadores avaliativos ótima, melhor. Ainda
avalia como maravilhosa a instituição EDAC.
          Em conjunto, percebemos a força argumentativa dos modalizadores avaliativos,
expressando a subjetividade do enunciador e, ao mesmo tempo, envolvendo o leitor,
persuadindo-o, no sentido de aderir às suas idéias.


Redação 5
          Essa redação é um relato em que o autor fala dos seus sonhos de ser um ator
famoso, fala de seu ofício e de ser surdo, e de como a arte pode ser usada para lutar pelos
surdos.


1 – “Eu quero muitro e muito sonho é ator e famoso que memmostre na mundo é surdo
especial, lutar outra...”
2 – “Dentidade vida que coisa importante, me ofição tem surdo é(?)(...)
3 – “Tenho muito sentido que bom artes história e cultura, moda alimenta pesoa, brincar,
outro... É importante ai especial e amo SURDOS (As).


          No primeiro enunciado temos mais uma vez a ocorrência do verbo querer como
recurso modalizador avaliativo, por meio dele o enunciador exprime seu desejo, seu forte
desejo de ser ator famoso. Também expressa esse mesmo desejo de maneira mais intensa
por meio do verbo “sonho”.
          No segundo enunciado, mais um modalizador avaliativo, o adjetivo importante. O
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autor diz que é importante ter surdos na profissão dele.
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       No último enunciado temos cinco ocorrências: a oração modalizadora, “Tenho
muito sentido”, o adjetivo “bom”, “importante” e “especial” e o verbo “amo”. A oração é
introdutora de opinião, um sinônimo do verbo achar; o locutor acha “bom” as artes, a
história, a cultura e a moda. A seguir expressa a relevância dos surdos, usando os
modalizadores avaliativos importante, especial e exprimindo sua afetividade, por meio do
verbo amar, ao dizer “amo SURDOS (As)”.


Redação 6
       Essa é uma redação bem curta por isso digitá-la-emos na íntegra, mas que apresenta
cinco ocorrências de modalizadores avaliativos e uma de deôntico. Nela o autor opina para
um amigo sobre as dificuldades de não se ter dinheiro, nem trabalho.


1 – “Os ele probe sofre dinheiro nada difícil. Como futuro dinheiro pouco mantro preciso
trabalho sempre seguir futuro sobre hoje dinheiro bem ótimo está saudade quero São
Paulo meu amigo etc.”


       Com exceção de do verbo precisar, um modalizador deôntico, os demais são todos
avaliativos. O autor avalia a vida dos pobres como de sofrimento, por meio do verbo
sofrer, e avalia que o fato de não ter dinheiro é algo difícil. Na sequência, o fato de o autor
ter pouco dinheiro, gera a necessidade de trabalhar, que é mostrada no texto como uma
obrigação do locutor, ele não tem escolha, deve trabalhar. Agora afirma que ter dinheiro é
“bem ótimo”, mais um modalizador avaliativo e intensificado pelo advérbio “bem”. Depois
afirma estar com saudade e por isso quer ir a São Paulo, dois modalizadores avaliativos.


Considerações finais


     Nossa hipótese se confirmou, de fato, a modalização é um recurso presente nas
redações do corpus, manifestando-se na argumentação dos estudantes surdos. Observamos
a presença dos modalizadores, principalmente dos avaliativos, quase nenhum epistêmico e
poucos deônticos, no entanto cumpriam o seu papel de índices subjetivos e argumentativos.
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     No tocante aos tipos de modalização, a prevalência foi da avaliativa, isso pode ser
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explicado por serem as cartas pessoais um gênero que propicia, ao se falar de algum


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assunto, a ocorrência de opiniões. É relevante considerar a pouca ocorrência dos
modalizadores asseverativos e quase-asseverativos: será que os surdos não costumam
asseverar o que dizem, sendo suficiente sua palavra; será que eles também não costumam
expressar-se com incertezas? São perguntas que seriam respondidas adequadamente em
futuras pesquisas.
     Observamos, entretanto, que os recursos linguísticos de modalização foram
limitados, usando-se bastante o verbo querer e o adjetivo importante. O que revela a
necessidade de os professores de Língua Portuguesa trabalharem mais esse assunto,
sistematizando e aprofundando as informações para esses alunos surdos.
     Cremos que essa pesquisa servirá de incentivo a pesquisas linguísticas nas disciplinas
de Aquisição da Linguagem e Linguística Aplicada ao ensino de Língua Portuguesa.
      No geral, podemos destacar que os modalizadores estão presentes nesses textos,
produzindo força argumentativa, coerentes com os objetivos do texto: falar de si, expor
opiniões, buscando convencer o(s) interlocutor (es), buscando sua adesão.


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