Este trabalho foi realizado numa escola municipal de periferia
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- 5/1/2012
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A POESIA EM FOCO NA ESCOLA
Zeila de Fátima Lucas
Escola Municipal Professor Faris Antonio Michaele – Ponta Grossa – PR
Este trabalho foi realizado numa escola municipal de periferia, envolvendo desde as classes de
alfabetização até a 8ª série, num bairro onde os alunos convivem com a desestrutura familiar, que muitas
vezes os levam à marginalidade; e onde têm pouco material de leitura em casa. Compreendendo isto e a
necessidade de desenvolver uma maior sensibilidade nos alunos e porque não em nós professores, que
muitas vezes sentimo-nos impotentes e desestimulados com os problemas que são sociais e que
atingem a escola (a qual não está desvinculada dos problemas e das questões sociais), trazendo alunos
desinteressados e revoltados, pensando nisto e despertados pela proposta da Secretaria Municipal de
Educação, de realizar o “Poetando”, um trabalho com a poesia na escola, fomos levados a criar o 1º
festival de poesia na nossa escola.
Começamos com a idéia de desenvolver a sensibilidade e fomos percebendo que poderíamos
unir leitura e escrita neste projeto que poderia dar e deu bons frutos.
Muitos alunos, sobretudo os adolescentes masculinos, pensavam que poesia era coisa de
menina, mas com o decorrer do trabalho foi perdendo-se o preconceito que os alunos adolescentes
tinham da poesia, eles foram percebendo que a poesia trata de múltiplos temas.
Começamos o trabalho de leitura, discussões, análises e ensaios das poesias no início do ano de 2001
(neste ano eu estava desenvolvendo um projeto de leitura nessa escola, com todas as classes do
período da tarde), sendo que realizamos o festival no mês de setembro. Esta foi a primeira edição,
inclusive com apresentações para a comunidade. Em setembro de 2002 teve a segunda edição e
estamos trabalhando para realizar a terceira este ano.
Os alunos já internalizaram a proposta e desde o início do ano ficam perguntando quando será o
festival, pedindo livros novos de poesias e algumas professoras incentivam e levam propostas de
produção de texto partindo de poemas. Na década de 80 houve produções acadêmicas que
questionavam o uso da literatura como pretexto para a produção de texto. Conforme LAJOLO (1991, p.
52) : “O texto não é pretexto para nada. Ou melhor, não deve ser. Um texto existe apenas na medida em
que se constitui ponto de encontro entre dois sujeitos: o que escreve e o que o lê; escritor e leitor,
reunidos pelo ato radicalmente solitário da leitura, contrapartida do igualmente solitário ato de escritura.”
Ainda que a grande pesquisadora de leitura tivesse, naquele período, essa posição, podemos
dizer que o texto, inclusive o texto literário, poético, pode e deve ser pretexto para a produção de texto.
Desse modo, muitos alunos produzem as suas poesias que são colocadas em murais no saguão da
escola, de forma que todos que circulam por ali tenham acesso à leitura, isto também estimula os alunos
a escreverem porque vêem que seus textos são lidos, então cada vez mais querem escrever porque
sabem que têm leitores para os seus textos.
Principalmente perto do festival, a escola fica respirando poesia, pelas paredes dos corredores
podem ser vistas além das produções dos alunos, muitos poemas de autores renomados, os quais as
professoras trabalham com os alunos e afixam os textos pelas paredes da escola, bem como trabalhos
com pinturas e dobraduras feitos partindo de um poema. Vendo a escola enfeitada para o festival, uma
professora que trabalhava com uma classe de aceleração (alunos fora da idade/série, desinteressados e
indisciplinados, na grande maioria) fez com essas crianças um rap sobre a escola e o festival, a
apresentação desta classe foi o rap que ficou muito criativo e onde as crianças fizeram e apresentaram
com orgulho, porque foram elas que inventaram.
Em 2002 passei a trabalhar com uma classe de 6 anos no período da tarde e quarta série no
período da manhã e dentro desta proposta de realizar o segundo festival de poesia na escola, comecei a
trabalhar textos poéticos com estas crianças, desde o início do ano. Com a classe de 6 anos a leitura era
feita sempre por mim, porque nesta fase as crianças ainda não estão alfabetizadas.
Neste ano de 2003, estou dando seqüência ao trabalho com as crianças da tarde, porque os mesmos
alunos estão na classe de 7 anos, e com os quais eu continuo trabalhando como professora regente de
classe. Os alunos, como já dissemos são de uma comunidade pobre, de periferia, onde praticamente não
têm acesso a leitura literária, a textos poéticos. Sendo assim, a escola tem um papel importante em
proporcionar o contato das crianças com esse tipo de texto.
Lia poemas para as crianças em sala de aula e nas reuniões com as mães pedía que elas
também lessem para seus filhos em casa, numa atividade que chamamos de ciranda da poesia (são
poemas xerocados que as crianças levavam uma vez por semana para as mães lerem com elas em
casa). Assim as crianças já foram escolhendo dentre os poemas que iam conhecendo o qual elas iriam
apresentar, declamar no festival.
Nesta fase trabalhei especialmente os poemas de Cecília Meirelles, do livro “Ou isto ou aquilo”,
as crianças se interessaram muito pelos poemas, então propus que fizéssemos uma pesquisa sobre a
autora. No festival de 2002, os meus alunos declamaram muitos poemas de Cecília Meirelles, sendo que
os alunos (um menino e três meninas) que declamaram o poema “As meninas”, tiraram em primeiro lugar
na sua categoria.
Pensamos (nós professoras, junto com a equipe técnico-pedagógica da escola) o festival de
poesia em várias categorias, a primeira integrando os alunos de seis e sete anos, a segunda de oito anos
e classe de aceleração, a terceira de terceiras e quartas séries e a quarta dos alunos das séries finais do
ensino fundamental. O primeiro e segundo lugar de cada categoria ganhava um prêmio (um livro
literário). Convidamos pessoas de fora da escola, da comunidade e da Secretaria Municipal de Educação
para fazer parte como jurados. Muitos alunos da escola foram convidados para declamar poesias dentro
de festividades envolvendo a Prefeitura Municipal, abertura de eventos, etc...
Com a classe de 7 anos, neste ano, o primeiro poema que levei para a sala de aula foi “Convite”
de José Paulo Paes. Escrevi o poema num papelógrafo, coloquei num envelope grande escrito CONVITE
e fixei no quadro antes das crianças entrarem para a sala de aula. Aí eles entraram e viram o envelope e
disseram “olha professora tem um convite aqui, o que será que é?”
CONVITE
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de Poesia?
(1990, p.1)
Ao que todos responderam: “Vamos”. Conversamos, então, sobre poesia, sobre a liberdade que
ela dá ao autor de imprimir outros e novos significados as palavras já existentes, e o como é de bom
brincar com as palavras. Apresentei em seguida o poema “A foca” de Vinicius de Moraes, estes poemas
do livro ”A arca de Noé” são muito interessantes para as crianças pequenas porque aliam poesia e
música. Bem, a partir desse poema, convidei as crianças a brincar de poesia e escrever uma estrofe
(com quatro versos), trocando a foca por outro animal e que deveríamos pensar em combinação de
palavras (rima).
Vejamos algumas produções das crianças:
Quer ver a vaca
Dar um leitinho?
É só ela ter
Um bezerrinho.
Quer ver o beija-flor
Beijar a flor?
É só olhar
Ele é mesmo um amor.
Quer ver o tatu
Entrar na toca?
É só ele ouvir o ronco
De uma motoca.
Quer ver a cabrita
Ficar bonita?
É só colocar na sua cabeça
Um laço de fita.
Em outra ocasião levei o poema “A casa e seu dono” de Elias José, do qual propus que cada
criança pensasse uma combinação para o seu nome, criando assim uma estrofe de poema com dois
versos com o seu próprio nome. Algumas produções das crianças:
Nesta casa tem janela
Quem mora nela é a Rafaela.
Nesta casa tem jardim
Quem mora nela é a Yasmin.
Nesta casa tem céu aberto
Quem mora nela é o Paulo Roberto.
Nesta casa tem poesia
Quem mora nela é a Maria.
Nesta casa tem uma árvore de maçã
Quem mora nela é o Ivan.
Esta casa é bem bacana
Quem mora nela é a Diowana.
Assim todas as crianças inventaram uma estrofe com o seu nome. Este trabalho levava em
média uma semana com cada poema até chegar na produção, pois outros conteúdos eram trabalhados
concomitantemente com o projeto de poesias, embora esta parte da aula era a preferida de todos.
Outro poema, ou melhor, livro de poesias que trabalhei, foi “Classificados Poéticos” de Roseana
Murray. Antes de iniciar a leitura dos poemas, trabalhei com os alunos classificados de jornal, para que
os mesmos aprendessem, formassem conceito do que é um classificado. Levei vários cadernos de
classificados de jornais para a sala de aula, lemos com as crianças, recortamos, colamos, fizemos um
mural. Só então comecei a ler o livro de Murray. O poema “Colecionador de cheiros troca”, resultou nas
seguintes produções:
Colecionador de cheiros troca
Um cheiro de guerra
Por um cheiro de paz.
Colecionador de cheiros troca
Um cheiro de pássaro ferido
Por um cheiro de jardim florido.
Colecionador de cheiros troca
Um cheiro de festa
Por um cheiro de floresta.
Colecionador de cheiros troca
Um cheiro de tempestade
Por um cheiro de amizade.
Colecionador de cheiros troca
Um cheiro de poluição
Por um cheiro de paixão.
Cada uma das estrofes e outros que não coloquei aqui foram criados por um aluno.
Neste ano, as crianças já estão se apropriando da leitura e da escrita, assim elas mesmas já
conseguem ler sozinhas e produzir os seus textos também sozinhas, com a mediação da professora. Os
poemas criados pelos alunos são afixados no saguão da escola, num mural onde quem por ali passa
pode ler. As crianças ficam contentes de ver que seus poemas são lidos e antes do início da aula sempre
é possível encontrar algumas mostrando e lendo para as mães, irmãs e tias que os levam para a escola.
Fizemos também alguns poemas coletivamente partindo de outro, como por exemplo depois da
leitura do poema “As tias” de Elias José, as crianças propuseram que fizéssemos um com os tios, que
ficou assim:
Os tios
O tio Jucemar
Adora pescar.
O tio Joel
Come pão com mel.
O tio Paulinho
Ama os passarinhos.
O tio João
Só come arroz com feijão.
O tio Mário
Tem um grande armário.
O tio José
Tem chulé.
O tio Benedito
Chupa pirulito.
O tio Luis
Mora em Paris.
O tio Quima
Acaba esta rima.
Trabalhar com a poesia proporcionou não só o desenvolver da leitura, da escrita, da sensibilidade
com o mundo que nos cerca, como um prazer maior em ir à escola, estudar e trabalhar nela.
BIBLIOGRAFIA
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