Imprensa do Grande ABC: 100 anos depois by y1XU1qF7

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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho
     Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004




           GT História da Mídia Impressa
 Coordenação: Prof. Luís Guilherme Tavares (NEHIB)
                                                                                                                     2


                            Imprensa do Grande ABC: 100 anos depois...

                                                    Valdenizio Petrolli

            Quinta-feira, 4 de agosto de 1904. Circula o primeiro número do semanário, O Monitor,
órgão dedicado aos interesses do município e devotadamente republicano. Esse tablóide, com
quatro páginas, foi impresso numa modesta tipografia instalada na Rua Marechal Deodoro,
centro do Município de São Bernardo. Esse acontecimento marcou o nascimento da imprensa
na região Sudeste de São Paulo, formada atualmente, por sete municípios, conhecida como
Grande ABC. Nesses cem primeiro anos, a História da Imprensa local registrou dezenas de
títulos de jornais, revistas, fanzines e boletins diversos. Atualmente, são editados três jornais
diários (ABC Repórter, Diário do Grande ABC e Diário Regional), além de várias revistas,
destaca-se a Coop Revista, com tiragem de 150 mil exemplares. Funcionam três emissoras de
rádios sendo duas AM e uma Comunitária; três canais de televisão por cabos: TV São Caetano,
ABC-3 e TV Mais. Seis escolas na região mantém cursos de graduação e pós-graduação nas
áreas do Jornalismo, Rádio e TV, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. A
Universidade Metodista de São Paulo abriga a Cátedra Unesco de Comunicação para o
Desenvolvimento Regional, a única nessa área do conhecimento no Brasil.
            A imprensa do Grande ABC nasceu sob o signo do oficialismo, o que se repetiria ao
longo dos anos, por mais de meio século, com vários semanários que circularam pelas sete
cidades. Muitos jornais não passaram do primeiro número. O Monitor resistiu por 15 meses
sendo o último número datado de 28 de janeiro de 1906, com uma longa matéria na primeira
página, redigida em italiano, assinada pelo editor se queixando da falta de ajuda dos poderes
constituídos, ou seja, as publicações editais da Câmara e da Intendência Municipal. A
publicidade captada junto ao comércio ou vendagem dos exemplares na modesta Vila de São
Bernardo não dava para cobrir os custos das tiragens semanais.
            Essa tática de redigir em italiano quando se queriam atacar alguns figurões da Velha
República fez se escola no jornalismo do Grande ABC nos primeiros tempos da imprensa
regional. O português João Domingos Tavares fundador do semanário O Imparcial, em 1933,
usou e abusou desse método.
            Carlos Rizzini argumenta que os pasquins podiam traduzir um juízo comum, de efeito
sedativo e atemorizador no ânimo dos governantes, equivalente ao dos editoriais da imprensa
livre.1 Essa forma de “mandar recados” em italiano justificava-se por várias razões: a colônia

1
    RIZZINI, Carlos. Hipólito da Costa e o Correio Braziliense. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1957. p. 97
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italiana era representativa na região, o medo de falar alto e da livre manifestação de
pensamento junto a uma sociedade conservadora poderia representar um risco para os editores
que por motivo de cautela suscitaram nos pasquins o uso de uma linguagem cifrada. Mais
tarde, a linguagem cifrada nos jornais foram substituídas pelas charges, que nos dias atuais, são
encontradas ao lado dos editoriais dos principais jornais brasileiros.
                      Daí em diante, até o final da década de quarenta, a imprensa da região viveu
maneira modesta sempre a serviço de grupos políticos locais. Nessa etapa inicial, a imprensa se
caracteriza por jornais artesanais, constituídos por firmas individuais ou proprietários de
gráficas. O editor era um tipo faz-de-tudo acumulando funções, desde redator, publicitário,
tipógrafo e entregador de jornais.
            No Grande ABC, o primeiro jornal a usar regularmente a charge como ilustração foi o
semanário O Município, fundado em 1947, com redação inicialmente, em São Caetano e
depois transferida para Santo André. A partir da edição de 8 de novembro de 1947, o jovem
artista do lápis, Jayme da Costa Patrão inicia sua carreira de chargista e apresenta o seu
personagem "Zé Caetano", cujos traços aproxima-se do chargista Belmonte, criador do Juca
Pato. Meses depois, Jayme da Costa Patrão transfere-se para a redação do Jornal de São
Caetano as suas charges tem como motivo principal à luta pela emancipação de São Caetano,
não faltando críticas ao prefeito Antônio Flaquer, o último membro dessa família que por mais
de meio século dominou a política.
            A partir do pioneiro - O Monitor - foi intensa e diversificada a produção de jornais
impressos pelo velho processo tipográficos. O conteúdo desses jornais artesanais, como dos
demais jornais embrionários que circularam nas três primeiras décadas deste século no Grande
ABC, limitou-se a "informações epistolar", isto é, noticiários sociais e religiosos, poesias,
contos, crônicas, orações, notas de falecimentos etc. Isto porque, no ensinamento de Carlos
Rizzini a "informação não possuía meios adequados de projetar os fatos presentes, limitado-se
aos novos, isto é, aos que, embora velhos de semana e meses, ainda se mantinham
irevelados".2
            Com o desaparecimento do O Monitor, em 1906, foi lançado o semanário O São
Bernardo, que passou a publicar os editais da municipalidade. No momento que passou a
condição oposicionista do governo municipal, perdeu a concorrência para O Progresso,
lançado em 1911, de propriedade do Professor e Capitão Joaquim Lopes da Silva. Ambos, os
jornais, tiveram vidas efêmeras.

2
    RIZZINI, Carlos. O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil, 1500-1822; com um breve estudo geral sobre a informação. São
        Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1988. pp. 31-32
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            Enquanto O São Bernardo fazia criticas ao Intendente Municipal, Coronel Alfredo
Flaquer dizendo que "desde 1911, as ruas da estação estão intransitáveis com as últimas
chuvas", o outro, O Progresso, comentava, num linguajar prosaico, sobre a concorrência
pública para os serviços de água e esgoto no Distrito de Santo André e que "as opiniões andam
por aí se arrastando, ulceradas por má vontade injustificada, numa influência dispersiva,
repulsão obstinada de impermeabilidade ao progresso (sic)".3
            O primeiro jornal a ter sua redação no Bairro da Estação, então Distrito de Santo André
foi O Município, em 1913, propriedade do subdelegado de polícia Francisco de Souza Mello
Freire e Ulysses Gomes Vieira. Pela primeira vez um jornal local faz um destaque para a
industrialização do Município.
            A inauguração da iluminação pública foi o principal motivo para a circulação do
primeiro jornal no Distrito de São Caetano em 13 de junho de 1915, Dia de Santo Antônio. O
próprio nome já justificava o lançamento do tablóide: O Progresso. Pelo projeto do seu diretor
Alfredo Moacyr de Godoy, a sua publicação seria quinzenal, mas não passou do primeiro
número.
            Depois de O Progresso, os moradores do Distrito de São Caetano do Sul tiveram que
esperar 13 anos para ganhar um novo jornal. O São Caetano Jornal apareceu em 15 de janeiro
de 1928, com o único objetivo: ser o porta-voz do movimento de emancipação do daquele
distrito. O semanário dirigido por Raimundo Cyriaco de Carvalho, com a colaboração de
Bonifácio Paulino de Carvalho e do Engenheiro Armando de Arruda Pereira, que
posteriormente foi prefeito de São Paulo.                        Com o fracasso da primeira tentativa de
emancipação, o jornal circulou até 1929.
            Somente em 24 de outubro de 1948, São Caetano conseguiu a sua emancipação e se
tornou município. Na segunda tentativa os autonomistas contaram com o apoio do Jornal de
São Caetano fundado em 1946, em princípio com esse objetivo depois da instalação do
município, um órgão oficioso da municipalidade que durante toda a sua trajetória, sobreviveu,
em parte, com a publicação dos editais da municipalidade.
            Em 1927, alguns meses após                 assumir o governo, o presidente Washington Luiz
Pereira, promulgava a "Lei Celerada" que cerceia a liberdade de imprensa e de reunião, reforça
os poderes de repressão, anula as conquistas sociais e políticas anteriores. Essa medida
aumento ainda mais a oposição que pode contar com o apoio do Partido Democrático. Em
1929, forma-se a Aliança Liberal que lança a candidatura Getúlio Vargas a presidente da

3
    GAIARSA, Octaviano Armando. A cidade que dormiu três séculos. Santo André, Prefeitura Municipal de Santo André:
        Tipografia Bandeirantes, 1968.
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República. O candidato da situação, o paulista Júlio Prestes, pelo Partido Republicano vence as
eleições. No dia 3 de outubro de 1930, em Porto Alegre, irrompe a Revolução de 30: inicia a
era Vargas.
       O único semanário que sobreviveu após a queda da chamada República Velha foi a
Folha do Povo. Era um jornal situacionista e como tal, apoiou a administração do prefeito
Coronel Saladino Cardoso Franco, colocando-se contra o movimento revolucionário de 30.
Com a vitória getulista, a Folha do Povo ficou três anos quase três anos sem circular e seu
Nicolau Arnoni, juntamente com outros funcionários filiados ao PRP, foram demitidos da
Prefeitura pela Junta Governativa Revolucionária. Vários jornais brasileiros não apoiaram o
movimento revolucionário de 1930 encerraram suas atividades ou foram empastelados. Em
São Paulo foram empastelados os jornais A Gazeta e a Folha da Manha; no Rio de Janeiro, o
jornal a Crítica de Mario Rodrigues.
       Os jornais que circularam na chamada Fase Artesanal da imprensa no Grande ABC
(1904 a 1947) tinham influência reduzidíssima ou nada, junto aos seus leitores. Utilizavam-se
de uma linguagem prosaica para descreverem os noticiários, sem analisar com mais rigor os
problemas e provocar o debate entre os seus leitores, mesmo porque esses jornais eram
mantidos pela oligarquia local que estava mais interessada no seu status quo e na manutenção
da hegemonia política e social. Não havia motivo para que mudar esse sistema enraizado.
       E, aqueles que sonhavam com uma imprensa independente no Município de São
Bernardo no inicio do século XX, se é que existia alguém com essa pré-disposição, não tinha
como mantê-la, a menos que tivesse muitos          recursos financeiros para investir sem se
preocupar com o retorno ou apoio de algum mecenas idealista que o financiasse.
       A história da imprensa sempre provou que para manter um jornal, além do idealismo,
seja ele ideológico ou não, é necessário, antes mais nada, de recursos: humanos e financeiros,
ou seja a captação publicidade de particulares ou públicas, e a vendagem dos exemplares aos
leitores por via direta ou por assinatura.
       Na Fase Artesanal da imprensa no Grande ABC a captação dos recursos vindo da
venda de espaço publicitário aos particulares - aqui se entende o comércio e indústria - não
tinham nenhuma significação para os proprietários dos pequenos jornais para aquilo que
poderia representar na sua independência econômica, ao contrário do que acontece nos dias
atuais, porque eles não tinham uma mentalidade empresarial e nem uma visão da importância
da publicidade. Uma pessoa quando se dispunha a fazer um jornal, ela já estava comprometida
com um político ou com um grupo político com a promessa de receber alguma vantagem
pessoal e financeira. Na realidade era um "jornal de aluguel".
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            A oposição ao governo municipal não era de cunho ideológico; representava uma
facção partidária do PRP - Partido Republicano Paulista, na disputa pelo poder local. A
oligarquia disputava entre si os cargos políticos e administrativos e também o controle da
imprensa. No Município de São Bernardo, como no restante do País, o controle político estava
em mãos dos militantes do Partido Republicano. Os cargos eram disputados por pessoas
escolhidas, em círculo restrito e de cujo decidir não cabia recurso. Os principais cargos eram
reservados pelos "coronéis" para os filhos, os genros, os irmãos, os sobrinhos etc. Desde
1894, o Partido Republicano Paulista manteve São Paulo como um Estado monopartidário até
1926, quando foi eleito para presidente da República, Washington Luiz Pereira e "continuou
fraca até depois da Revolução de 1920, que derrubou o PRP nos níveis local, estadual e
nacional".4
            Se foi difícil e tardia a introdução da imprensa no Grande ABC, o mesmo aconteceu
com relação ao Brasil, com a Província de São Paulo, com relação à demais províncias do
Império Brasileiro. Isso se justifica pela falta de equipamentos gráficos, papel e profissionais
especializados. Os raros jornais que circulavam pasquins artesanais, pertencente a classe
dominante, facções políticas, associações diversas, literatos e religiosos, que ao longo do
tempo, constituíram importante fonte de informação histórica de uma época da região do
Grande ABC.
                                               Censura do Estado Novo


            Os jornais que circulavam no Município de São Bernardo sustentados pelos coronéis
apoiaram os políticos da República Velha que resistiram ao movimento que levou Getúlio
Vargas ao poder. Contudo, os poucos jornais que sobreviveram após a Revolução de 30,
independente de sua posição política anterior, como a Folha do Povo, O São Bernardo e O
Imparcial, aderiram a Revolução Constitucionalista, em 1932, liderada por São Paulo que
exigia a convocação de uma nova constituinte e conseqüentemente a eleições para todos os
cargos.
            Depois da assinatura do armistício com os paulistas, Getúlio Vargas, convocou a
Assembléia Constituinte e promulgou a nova Constituição, em seção solene realizada em 17 de
julho de 1934. Na mesma data, os deputados à Assembléia Constituinte proclamaram Getúlio
Vargas presidente da República, com mandato de quatro anos. O presidente da Assembléia,
deputado Antônio Carlos, não perdeu a oportunidade para rasgar elogios aos jornalistas que


4
    LOVE, Joseph. O poder dos Estados. Análise Regional. In: FAUSTO, Boris org. O Brasil Republicano. v.1. Estrutura de
       Poder e Economia (1989-1930). 2.ª ED. São Paulo, Diefel, 1977. p.57.
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"dignificam a gloriosa imprensa brasileira".5 A eleição presidencial já estava marcada para
1938, mas alguns fatos mudaram o curso da história e levaram o país a ditadura Vargas.
            Em 1935, o Brasil iria vivenciar a experiência da chamada Intentona Comunista que
"embora prontamente esmagada, deixou trauma profundo na memória política brasileira",
porque sempre serviu de pano de fundo para o governo brasileiro, em várias ocasiões para
calar a oposição - e aqui entende-se os políticos e principalmente a imprensa - com objetivo
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afastar o Brasil do perigo comunista.                            Outro motivo, entre tantos que não faltavam ao
presidente para a decretar o Estado Novo em 10 de novembro de 1937, foi a candidatura de
Armando Salles de Oliveira, que era cunhado de Júlio Mesquita Filho, diretor do jornal O
Estado de S. Paulo. Vargas nunca teve apoio da imprensa conservadora e dos políticos
paulistas.
            A primeira medida do Estado Novo foi outorgar uma nova Constituição que dissolvia o
Poder Legislativo e controlava o Poder Judiciário, suspendia a realização de eleições em todos
os níveis, com nomeação de interventores nos Estados e nos municípios e criava o Conselho de
Imprensa para controlar o serviço político dos jornais.
            No mesmo dia do golpe, o Ministro da Justiça, Francisco Campos, se reunia com os
jornalistas, depois de uma reunião extraordinária na ABI - Associação Brasileira de Imprensa,
para distribuir cópias da nova constituição que ele mesmo elaborou, sigilosamente meses antes,
para mandar o seguinte recado para aqueles profissionais que insistiam em resistir a nova
ordem política.
            Muitos jornais insistiram em posicionar contra o Estado Novo e a censura foi
implacável exigindo que todos os jornais fossem registrados junto ao DIP - Departamento de
Imprensa e Propaganda e os originais das materiais fosses submetidos ao chefe de polícia
local, antes de serem publicados. E muitos jornais que não atendessem o "interesse público
seriam fechados". Entre as dezenas de jornais no Brasil que foram censurados ou fechados
estavam dois do Grande ABC: O Município, O São Bernardo e O Imparcial. O jornal O Estado
de S. Paulo, o principal adversário de Getúlio Vargas, foi ocupado e desapropriado da Família
Mesquita e os interventores editaram o jornal de 7 de abril de 1940 até 1945.
            O respeitável jornalista, João Netto Caldeira, autor do livro - O Álbum de São Bernardo
- foi primeiro na região a ser severamente advertido pelo subdelegado de Santo André, porque
não se dignou a submeter o primeiro número do seu semanário, lançado em 1937, a censura. A
primeira edição do O Município circulou livremente, mas a segunda, além de ter passado pela
5
    Folha da Manhã, 18 de julho de 1934. Primeira Página.
6
    COSTA, Homero de Oliveira. A insurreição comunista de 1935: Natal, o primeiro ato da tragédia. São Paulo, Ensaio; Rio Grande do
        Norte: Cooperativa Cultural Universitária do Rio Grande do Norte, 1995. Prefácio.
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censura, traz nota do editor justificando-se: Do Sr. Luiz de Freitas Garcia, digno subdelegado
local, recebemos ofício comunicando-nos que os originais desta folha devem ser apresentados
à censura daquela zelosa autoridade, medida perfeitamente legal, com ela concordamos sem o
menor constrangimento.
       O semanário, O São Bernardo, fundado em 1932, com redação em Santo André se dizia
órgão independente e que por vários anos publicou os editais da municipalidade, publicou:
Longe pois, de partidários, aceitará artigos, publicando-os, uma vez que os mesmos venham
assinados, com responsabilidade de seus autores. Não temos interesse de defender esse ou
aquele partido, e sim colher deste ou daquele idéias, sugestões, que venham trazer benefícios
à coletividade.
       Em 14 de julho de 1938 suspendeu a sua circulação, reaparecendo depois de quase 15
meses, em 1.º de outubro de 1939, estampando em destaque clichê de Getúlio Vargas,
Adhemar de Barros e do prefeito interventor, Armando Ferreira da Rosa, com a seguinte
explicação: O reaparecimento do O São Bernardo” -, que deixou de circular por motivos de
caráter interno estava agora integrado nos postulados do Estado Novo, este jornal procurará
constituir-se neste recanto abençoado da terra paulista um arauto da nova ordem política,
consubstanciada na Constituição de 1937, outorgada ao país pelo corajoso patriotismo de
eminente chefe da nação, Dr. Getúlio Vargas, aplicada e defendida em nosso estado pelo
ilustre paulista Adhemar Pereira de Barros, cujo delegado entre nós é a figura simpática do
conhecido e não menos ilustre homem público, o senhor prefeito municipal, Dr. Armando
Ferreira da Rosa. Diz ainda o O São Bernardo que assim procederá, porque reconhece na
esplêndida Carta Magna o roteiro seguro e limpo, capas de levar o nosso idolatrado Brasil as
cumeadas de potência de primeira grandeza, lugar que o destino por certo lhe reservou, no
conceito das nações cultas. E, finaliza, comprometendo-se a colaborar com os poderes
constuídos e a obedecer as leis com prazer e patriotismo, propugnando para que todos façam
o mesmo, com idênticos sentimentos.
       Em 21 de julho de 1940, anuncia na primeira página, que obteve o registro do jornal
junto ao DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, com a devida aprovação do Conselho
Nacional de Imprensa, ressaltando a importância do fato, nesta hora em que o governo da
República manda fazer um corte rigoroso de jornais que não correspondem às necessidades
públicas.
       José Tabarelli vende o jornal em 1.º de janeiro de 1941, para Henrique Pinto Pereira,
que contrata como principal redator jovem professor Nicolau Tortorelli. Por motivos nunca
revelados, o jornal foi denunciado por pessoas “anônimas” e perde o seu registro junto ao DIP
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e para restaurá-lo contrata como redator e advogado, Generoso Alves Siqueira, ex-vice-
governador do Estado de Mato Grosso; ex-prefeito de São Bernardo e diretor do Expediente da
Prefeitura. Pelas suas páginas não poupa apoio ao interventor municipal, José de Carvalho de
Sobrinho, pessoa que tem livre trânsito junto ao interventor Estadual e presidência da
República. Restaurado o seu registro, o jornal é vendido para Nicola Tortorelli, em 31 de
dezembro de 1942.
       Depois de 13 anos de circulação, a partir do domingo, 23 de abril de 1944, edição n.º
553, o jornal passa a chamar Borda do Campo é dá na primeira página a explicação dessa troca
de nome: Em janeiro de 1939, pela Divisão Territorial que se processou, o então Município de
S. Bernardo passou a denominar-se Santo André, e desde aí deveria o periódico adotar novo
cabeçalho, de vez que, desde essa época, a vila de S. Bernardo passou a constituir um distrito
do grande e importante Município, em cuja cidade - sede Santo André - o jornal editava, como
se edita. Nessa ocasião, porém, nenhuma providência foi tomada nesse sentido, pelos antigos
diretores e proprietários, naturalmente ante o propósito de se conservar a tradição do
hebdomadário. Inúmeros eram os pedidos de pessoas de relevo na sociedade sntoandreense,
para a mudança do nome do jornal, chegando algumas até a enviara redação desenhos a
respeito. Diante desta circunstância, a atual direção tratou desde logo de normalizar o
assunto, datando de 3 de agosto do ano passado o primeiro requerimento às autoridades
competentes. Borda do Campo foi o título lembrado para o jornal em homenagem ao nome do
primeiro núcleo criado pelos nossos antepassados em 1549, em terras de Piratininga.
       O jornal coloca-se contra os movimentos emancipatórios dos distritos de São Bernardo
e São Caetano, mas uma vez vitoriosos, passou a prestigiar os novos municípios. E, a partir de
1945, o jornal reserva maior espaço para as notícias de caráter cívicos, literárias e históricas.
Depois de 20 anos de circulação, o Borda do Campo, encerra suas atividades em meados de
1952. O ex-diretor do jornal, Nicola Tortorelli passa a editar a Folha de Mauá, órgão dos
autonomistas daquele distrito, que se torna município em 1953.
       Na história da imprensa do ABC, na primeira fase, ninguém foi mais briguento do que
o português João Domingos Tavares que era comerciante e proprietário do jornal O Imparcial,
fundado em 1933, com redação em Santo André. Pelas páginas do seu jornal, que circulava as
quintas-feiras, não poupava criticas a ninguém, principalmente a administração do prefeito
interventor, Felício Laurito. Não poupava também, severa crítica ao Secretário da Prefeitura e
ex-diretor da Folha do Povo, Nicolau Arnoni, de quem certa ocasião, deu-lhe uma surra, que
teve como resultado a perda de um olho e 34 dias em repouso.
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       Com promulgação da Constituição de 1934, que proibiu a estrangeiros serem
proprietários de jornais, João Domingos Tavares transferiu a direção do O Imparcial para
Francisco Carneiro. O jornal nesse período é impresso em papel de melhor qualidade,
aumentando o número de clichês e há um tratamento melhor nas páginas de classificados:
todos aparecem contornados por tarjas fortes e com melhor destaque. A página de esportes
igualmente tem melhor diagramação e o seu logotipo e escrito em letras “art-deco”, que
representa o modernismo da década de 30. Em setembro de 1939, o jornal inicia a publicação
de atos oficiais da Prefeitura Municipal de Santo André.
       Um ano depois, em julho de 1940, assume a direção José Alves de Oliveira e o jornal
inicia uma fase de publicação de noticiários internacionais, principalmente, no que se refere
aos Estados Unidos e Inglaterra, fornecidas pelo Serviço Especial da Interamericana, que tem
como coordenador de Relações Comerciais e Culturais, Nelson Rockfeller.
       Devido as suas posições políticas, contrárias aos interesses do prefeito interventor, José
Carvalho Sobrinho, nomeado pelo governo getulista, em 20 de dezembro de 1941, por
determinação do Diretor Geral do DIP, o jornal teve seu registro cancelado. O jornal ficou
quatro anos sem circular e o título e seus acessórios foram vendidos para o ex-prefeito de
Santo André e Advogado, Décio de Toledo Leite.
       No final do Estado Novo, O Imparcial o jornal volta a circular em 8 de novembro de
1945, com redação, em Santo André. O novo diretor é Francisco Ângelo Antônio Barone
justifica o seu reaparecimento: O jornal foi proibido de circular e Carvalho Sobrinho ficou
tranqüilo na sua vida aventureira, por conseguir tão indecorosamente livrar-se de um fiscal
vigilante e implacável à sua existência de comédia e sua capacidade de administrador.
       Com a queda de Getúlio Vargas o Brasil entra num processo de redemocratização e
uma nova constituinte e convocada. Os ânimos políticos voltam a fervilhar em todo o país. Em
Santo André, o prefeito é ainda o interventor José Carvalho Sobrinho, que de muito já tinha se
incompatibilizado com a classe política e imprensa local. Em 1946, o jornal só tem um
objetivo: a destituição do interventor municipal é constantemente bombardeada com severas
criticas e com manchetes do tipo: O aventureiro Carvalho Sobrinho não sabe o que é
dignidade e vergonha. As críticas são encerradas em abril de 1947, quando é nomeado novo
prefeito, Alfredo Maluf, um industrial de São Caetano. Carvalho Sobrinho ao deixar a
prefeitura dedicou o resto da sua vida dirigindo o seu cartório na capital e nas horas vagas
fazendo poesias. O jornal não sobreviveu aos anos 50, quando a imprensa da região já estava
na Fase de Transição.
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                  O primeiro bi-semanário e diário do Triângulo do ABC


       A princípio as notícias do mundo e do resto do Brasil chegavam ao Município de São
Bernardo velhas de meses. O noticiário regional até que fossem devidamente editado, já tinha
sido transmitido oralmente antes de publicado. Aquelas famílias mais abastadas faziam
assinaturas de algum jornal com sede capital que era enviado pelo correio e chegavam com
alguns dias de atraso. Assim, alguns privilegiados mantinham-se informados do que ocorria no
cenário nacional, principalmente, na capital do país, ainda a cidade do Rio de Janeiro.
       Os anos 50 marcaram uma fase de transição para o Triângulo do ABC, porque a região
deixava de ser um apenas um subúrbio da Capital com uma economia calcada em atividades
agrícolas de subsistências, pequeno comércio varejista e industrias artesanais para se tornar um
grande centro industrial, que abrigaria as mais modernas multinacionais automobilísticas e de
auto-peças.
       O Triângulo do ABC começava a se modernizar ao mesmo tempo em que passa ser o
novo Eldorado do país, atraindo cada vez uma corrente migratória vinda de todos os estados
brasileiros. A partir da década de 50 inicia o êxodo da população rural para os grandes centros
urbanos. O trabalhador rural troca à lavoura, onde não tem nenhum amparo social, para ser um
peão de uma multinacional, onde encontra melhores condições para sua manutenção.
       Destaca-se que nos anos 50, a agricultura cafeeira paulista mostrava-se em declínio e a
Norte do Paraná, que começava a ser castigada pelas grandes geadas que obriga as famílias do
campo a procurarem novos lugares para se estabelecerem, sendo a primeira e talvez, a única
opção vir para o subúrbio da Grande São Paulo. O mesmo acontece com os trabalhadores
Nordeste que historicamente são castigados pelas secas. E, conseqüentemente, a indústria em
expansão a recrutava cada vez mais essa farta mão-de-obra disponível.
       A corrente migratória provocou a expansão à malha viária do Triângulo do ABC e as
antigas chácaras passaram a ser loteadas e os bairros multiplicavam-se exigindo cada vez mais
atenção dos órgãos públicos. É interessante, que a medida que o subúrbio expandia-se, os
novos moradores e operários começavam a ser organizar em Sociedade Amigos de Bairros e
um também em sindicatos.
       A Fase de Transição da imprensa na região inicia com a circulação da Folha do Povo,
em 26 de novembro de 1948, com redação em Santo André. Esse jornal, idealizado pelo
jornalista Paulo Zingg, que já tinha uma certa experiência em lidar com a grande imprensa,
porque passou pelas redações do Diários Associados, da Folha da Noite, do Correio
Paulistano e da Última Hora.
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        Paulo Zingg, descendente de franceses, educado na França quando menino era uma
pessoa muito educada, que gostava de freqüentar gabinetes de prefeitos, vereadores,
deputados, autoridades militares e empresários. Era um articulador político, anticomunista e
um conspirador de direita. Foi por vários anos presidente da API - Associação Paulista de
Imprensa. Na última administração do prefeito Jânio Quadros, na Capital, Paulo Zingg foi seu
Secretário de Educação.
        A Folha do Povo era um jornal moderno para os padrões da época quando comparados
com os pequenos artesanais que existiam na região. E os motivos básicos dessa comparação
eram:
               1 - O jornal já nascia com independência editorial, porque não estava ligada a
nenhum grupo político da região.
               2 - Possuia uma redação organizada e contava com um grande número de
colaboradores não remunerados, que exerciam a função de redatores                em troca uma
"carteirinha de jornalista" que possibilitava a ter um maior status junto à sociedade.
               3 – Se preocupava com uma cobertura jornalística maior dos problemas da
comunidade e apresentando noticiários ilustrados com clichês.
               4 - A outra grande inovação era o fato de ser impressa por sistema de rotativas
(sistema quente) ao contrário dos jornais artesanais que eram impressos em tipografia em
chapas planas (sistema frio).
               5 – Havia uma melhor distribuição dos jornais, seja por bancas ou por
assinaturas.
        Tão logo chegou a região, Paulo Zingg, procurou tomar posição frente aos problemas
locais e passou a apoiar as candidaturas dos prefeitos Fioravante Zampol (Santo André), Lauro
Gomes de Almeida (São Bernardo do Campo) e Anacleto Campanella (São Caetano do Sul).
Esses três políticos por mais de três décadas foram os principais líderes da região. Todos eles
foram pelo menos duas vezes, prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais.
        Quando a Folha do Povo completou o seu primeiro aniversário, o jornal fazia parte da
rede São Paulo Jornais Reunidos, idealizada por Paulo Zingg, com sede em São Paulo. Essa
rede com vários jornais do interior, numa tentativa de imitar o impetuoso e controvertido
jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, dono dos Diários e Emissoras
Associadas e fundador da TV Tupi, a primeira estação de tevê da América do Sul.
        Apesar da articulação de Paulo Zingg junto aos políticos, os três primeiros anos de
existência da Folha do Povo não foram nada fáceis e houvera momentos em que sua
sobrevivência esteve em jogo. Mas, mesmo assim, em 27 de abril de 1951, a Folha do Povo
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anuncia a fusão com o semanário A Semana, de São Caetano do Sul, fundado em 1950 pelo
integralista Ítalo Dal´Mas e os seus diretores Nobil Marcacini e José Pereira Martins, passam a
ser os responsáveis pela Folha do Povo, naquele novo município.


                                  O primeiro bi-semanário


       Com circulação as terças e sextas-feiras, a partir de 25 de março de 1952, a Folha do
Povo foi o primeiro jornal da região a ser bi-semanário. Para ampliar a cobertura jornalista e a
captação de publicidade, a Folha do Povo toma uma decisão inédita, em termo de imprensa
regional: mantém redações descentralizadas em Santo André, em São Bernardo do Campo, em
São Caetano do Sul, além de agências em Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da
Serra, Paranapiacaba, Rudge Ramos; e ainda nos distritos paulistanos do Ipiranga, Vila
Prudente, Vila Alpina Vila Califórnia, Vila Bela, São João Climaco e outros.
       Essas redações ou sucursais como se chamam modernamente, não passaram de pontos
de referências para o jornal, mesmo porque, não tinha nenhum profissional contratado. Na
realidade, nesses endereços funcionavam pequenos escritórios de despachantes ou imobiliárias
que representavam o jornal naquela localidade em troca de um prestígio que o jornal pudessem
lhes dar.


                                  O primeiro jornal diário


       Em 7 de janeiro de 1953, edição n.º 249, a Folha do Povo transforma-se também, no
primeiro jornal diário publicado no Triângulo do ABC. É impresso na Gráfica Tibiriçá Ltda.,
em São Paulo, na mesma medida usada no início de suas atividades; 32,5 x 37 cm, seis
colunas, 4 páginas, tiragem de 3.000 exemplares.
       Sempre procurando inovar, espelhando-se nos grandes jornais paulistanos e cariocas,
Paulo Zingg, em 9 de novembro de 1953, apresenta uma novidade a seus leitores: inicia a
publicação de tiras com o título idealizado por Gedeone, ilustrado as peripécias daquele
personagem em distantes planetas do universo. A segunda historieta em quadrilhas apresentava
“As aventuras de Milton Ribeiro - O Cangaceiro”, baseado no romance de José de Alencar e
desenhos do Caiçara Estúdio.
       Em 22 de novembro de 1953, anuncia a realização do plebiscito em Mauá e Ribeirão
Pires, no qual deram origem aqueles dois municípios. A data do seu quinto aniversário, em 25
de novembro de 1953, é assinalada com uma edição especial com cinco cadernos, totalizando
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40 páginas. Na primeira página desta edição sobre um mapa estilizado, afirma: “Nesta região,
a Folha do Povo é a porta-voz das aspirações do meio milhão de paulistas”.
       Nessa fase diária a Folha do Povo procura manter a hegemonia no Triângulo do ABC e
mais do que nunca, procura influenciar na opinião pública dos três municípios, ao mesmo
tempo em que publica editais oficiais das Prefeituras Municipais de Santo André, São
Bernardo do Campo e São Caetano do Sul.
       Num longo editorial de primeira página, o Jornal de São Caetano protesta afirmando
que sua conduta jamais foi de comercializar com o jornal “fruto do idealismo de jovens
desejosos de lutar pelo bem da cidade”. O jornal que tinha se transformado em bi-semanário a
partir de 15 de agosto de 1952 só para poder atender o edital de concorrência pública, retorna a
condição de semanário a partir de 9 de maio de 1953. Os editais voltam a ser publicados no
Jornal de São Caetano depois de 1955.
       Depois de seis anos investindo em seu jornal, Paulo Zingg tinha uma grande
credibilidade junto à comunidade e a classe política. A Folha do Povo desfrutava de uma boa
estabilidade econômica pela publicação dos editais da municipalidade e pela captação de
publicidade junto as industrias, comércios e prestadores de serviços.
       Contudo, uma posição política, do qual Paulo Zingg, veio se arrepender e lastimar pelo
resto de sua vida, foi o apoio que o seu jornal emprestou a campanha de Jânio Quadros a
governador de São Paulo, em 1955. A Folha do Povo transformou-se num órgão de circulação
estadual, apesar da sua redação continuar em Santo André, para dedicar-se exclusivamente a
divulgação da campanha de Jânio.
       Jânio uma vez eleito ignorou o jornalista Paulo Zingg que investiu na sua campanha e
que de certo modo esperava algum tipo de recompensa pelo seu investimento feito com o seu
jornal e entra numa difícil crise financeira. Não tendo como pagar a Impressora São Paulo os
seus títulos são protestados e o jornal deixa de circular em 9 de outubro de 1955.
       Dois anos depois tendo superado as suas dificuldades financeiras, a Folha do Povo
volta como semanário, em 2 de julho de 1957, e o novo diretor responsável é César Maida e o
diretor administrativo José Di Pacce. Os novos proprietários, imbuídos de boa vontade,
tentaram recuperar o prestigio do jornal e adotaram como slogan “um jornal a serviço da
região” e anunciavam que a sua distribuição é gratuita atingindo10 mil leitores. Em 1967,
transfere sua redação e administração para a Rua Antônio Cardoso Franco, 96-A, em Santo
André, onde instala sua oficina própria. Circula até 1969 em plena decadência.
       Paulo Zingg, bem que tentou recuperar o seu prestigio junto aos políticos e aos seus
antigos leitores, mas o tempo já era outro. O seu jornal se espelhando na escola dos Diários
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Associados já estava ultrapassado para os padrões jornalísticos do final dos anos 50. A grande
novidade jornalismo era a Última Hora de Samuel Wainer, que apresentou uma serie de
inovações "a começar pela diagramação moderna, paginação acessível, com grandes coberturas
fotográficas ainda não usadas na época pela imprensa brasileira".7 O espaço deixado pela Folha
do Povo é ocupado pelo News Seller, que inicia a Fase da Imprensa Industrial no Grande ABC.
          Na Fase de Transição alguns semanários marcaram presença: A Voz dos Esportes
(1949), Jornal de Santo André (1951), A Voz de Ribeirão Pires (1956) e A Vanguarda (1956),
sendo que esses dois últimos são considerados os mais antigos ainda em circulação. Nesse
período ocorre uma grande incidência de revistas que tentam estabelecer-se, destacando-se:
Moldura (1953), Notícias Pirelli (1956), Panorama (1956), ABC Ilustrado (1958).
          Paschoalino Assumpção, um dos idealizadores do GIPEM - Grupo Independente de
Pesquisadores da Memória do Grande ABC foi responsável pelo do primeiro jornal
exclusivamente dedicado ao esporte amador do Triângulo do ABC. O tablóide A Voz do
Esporte circulou entre 1949 a 1950. Com desaparecimento desse semanário às quintas-feiras,
os esportistas tiveram que esperar pelo menos mais de 10 anos, para contar um novo jornal
especializado, quando foram lançados os tablóides: Tribuna Esportiva, Flan Esportivo, News
Seller Esportivo. Nenhum dos três passaram da quinta edição.
          Na década de 70 novos títulos foram lançados, mas, nenhum teve sucesso. Nessa
ocasião, o Grande ABC se destacava no cenário nacional pelas suas equipes de esportes
amadores, destacando-se basquete, vôlei e atletismo apoiados pela empresa Pirelli, Sesi e
prefeituras locais. Além disso, três equipes de profissionais disputavam os campeonatos
organizados pela Federação Paulista de Futebol: EC. Santo André. EC São Bernardo e Saad de
São Caetano do Sul. Nesse período destaca-se: O Esportivo, Jornal da Liga, Santo André
Esportivo, Jornandré, Jornal Esportivo e Jornal do Esporte.
          O Jornal de Santo André só é lembrada por dois motivos: pela publicação dos editais da
municipalidade de André e pela oposição que fez junto com o News Seller, ao prefeito
Oswaldo Gimenez até na sua cassação, na década de 60. Fundado em 1951, transformou-se em
bi-semanário em janeiro de 1956 só para atender a publicação dos editais e voltou a ser
semanário em 1965, quando perdeu a concorrência exatamente para aquele que era o seu
aliado. Fechou em abril de 1970.
          O semanário A Voz de Ribeirão Pires lançado em 15 de julho de 1956 é o mais antigo
jornal em circulação no Grande ABC. O seu fundador Geraldo Antão Piedade iniciou suas


7
    GOLDENSTEIN, Gisela Taschner. Do jornalismo político à indústria cultura. São Paulo, Summus, 1987. p.46
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atividades no Município de Ribeirão Pires como proprietário de um serviço de alto-falante na
cidade e mais tarde instalou uma tipografia, onde começou a imprimir o seu jornal. Em 1970,
lançou A Voz de Mauá e dois anos depois A Voz de Santo André, que teve vida efêmera.
       Pela iniciativa do dentista Everaldo S. Ramalho e Antonio Mendes de Oliveira na
segunda -feira dia 1 de outubro de 1956 começa a circular o semanário A Vanguarda de
Rudge Ramos. Posteriormente, suprime o nome do bairro e distribuído em todo o Município de
São Bernardo do Campo. Em 1980, faz fusão com a Folha do ABC de Antônio Manieri e o
título A Vanguarda desaparece, mantendo, contudo a sua numeração, sendo dirigido pelo
jornalista Alberto Floret, descendente de uma família de jornalistas fundadores do centenário
jornal Correio de Jaú.
       A Vanguarda na véspera do Natal de 1957 circulou com uma edição especial com 32
páginas. Na primeira página estampa um clichê colorido com o tema: “A Cena de Natal". Essa
foi a primeira foto colorida publicada num jornal do Grande ABC. Nos dois anos seguintes,
repetiu as edições natalinas, sendo que em 1959, era uma vista área da fábrica Mercedes-Benz
do Brasil na Vila Paulicéia, em São Bernardo do Campo. Mais tarde, o News Seller, faria a
mesma coisa nas primeiras páginas suas edições natalinas.
       Ainda nos anos 50 registra-se grande número de revistas, tais como Moldura, ABC
Ilustrado, ABC em Revista e da Casa Publicadora Brasileira - Atalaia, Mocidade e Nosso
Amiguinho, as mais conhecidas - e os house organ em Notícias Pirelli e Vida GM. A imprensa
estudantil marca sua presença com os tablóides Escrevem o Estudante (1950), Acadêmico
(1952), O Universitário (1955) e Folha Acadêmica (1957). É importante ainda ressaltar que a
imprensa do Grande ABC encerra sua fase transitória (1948 – 1957), contando ainda com a
instalação e funcionamento de quatro emissoras de rádio: Rádio Clube de Santo André,
Emissora ABC, Cacique de São Caetano do Sul e Independência. A CTBC, como meio de
comunicação, inicia seu plano de expansão e a televisão começa a penetrar, timidamente, nos
lares da região.
       Os jornais no início da década de sessenta - fase de consolidação da imprensa no ABC -
são influenciados pela Última Hora e quase todos apresentam seus títulos e manchetes em duas
ou mais cores, quando não matérias contornadas em tarjas ou com fundo coloridos. Aumenta-
se o número de páginas, o que implica uma maior cobertura dos fatos e maior circulação, com
a possibilidade de maior encaixe publicitário. Os jornais obedecem a um planejamento visual e
se valem dos modernos recursos da indústria gráfica. Organizam-se as redações e editoriais e
adota-se o uso de laudas padronizadas. Começam as grandes coberturas jornalísticas. Dentro
dessa visão de imprensa industrial (a partir de 1958), aparecem jornais como a Folha de São
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Bernardo, Jornal do Lar, O Arauto do Pentágono, A Gazeta de São Bernardo, A Vanguarda, O
Repórter, Correio Metropolitano, Folha Metropolitana, Folha do ABC, ABC Shopping-Jornal,
Jornal de Mauá, Rudge Ramos Jornal, Correio do ABC, Folha de São Caetano, Gazeta de São
Bernardo e Diadema Jornal.
       O semanário e depois bi-semanário News Seller, lançado em 1958, foi uma exceção na
imprensa da região, porque foi o único que já nasceu como empresa jornalística. Em 1968, o
nome mudou para Diário do Grande ABC, transformando-se numa das maiores empresas
jornalísticas do país, ao lado de outras tradicionais de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio
Grande do Sul. A partir de 1988 entrou no processo de informatização e modernização de sua
apresentação gráfica. A partir de 1996, de acordo com pesquisa realizada pelo Ibec - Instituto
Brasileiro de Estudos de Comunicação - publicada na revista Imprensa Mídia, o Diário do
Grande ABC passa a ser o jornal com o maior volume de anúncios classificados do país. O
segundo colocado, Gazeta do Povo, de Curitiba e ficando à frente de O Globo, O Estado de S.
Paulo, Folha de S. Paulo, O Dia, O Estado de Minas, Zero Hora, Diário Popular, Jornal do
Brasil, Correio Popular, Diário Catarinense, Correio Braziliense, O Liberal e Folha de
Londrina.
       Entre 1972 e 1974, no auge do crescimento econômico, aconteceram quatro tentativas
de estabelecimentos de jornais diários para concorrer com o Diário do Grande ABC. A
primeira iniciativa foi o lançamento do Jornal da Região do ABC, pelo ex-vereador de Santo
André, Serafim Vicente, mas teve curta direção. A segunda tentativa partiu de um grupo de
empresários de Santo André que criaram uma sociedade anônima para editar o Correio
Metropolitano, um jornal moderno que em determinado momento chegou ameaçar a
hegemonia do Diário do Grande ABC. Empolgados pelo sucesso propuseram a fusão com o
semanário O Repórter, que desde 1974, já circulava como jornal diário e também com o
semanário Folha de São Bernardo. Dessas três fusões, em 1974, surgiu a Folha Metropolitana,
que logo em seguida foi vendida para o Grupo Guaru-News de Guarulhos, transferindo sua
redação e administração para o Município de Guarulhos e deixou de circular no Grande ABC.
Em 1989 surgiu outra iniciativa sem sucesso: Jornal ABC Paulista. Depois, o Jornal da Cidade
e a partir de 1992, a Folha Regional, com sede em Diadema. A partir do dia 2 de março, o
ABC Repórter transformou-se em jornal diário.
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                                        Bibliografia

CANTERO, Francisco. Arte e Técnica da Imprensa Moderna. São Paulo, Editora Jornal dos
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Grande do Norte, 1995. Prefácio.

FOLHA DA MANHÃ, 18 de julho de 1934. Primeira Página.

GAIARSA, Octaviano Armando. A cidade que dormiu três séculos. Santo André, Prefeitura
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GOLDENSTEIN, Gisela Taschner. Do jornalismo político à indústria cultura. São Paulo,
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FREITAS, Affonso A. de Freitas. A Imprensa Periódica em São Paulo. São Paulo. São
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FREITAS NOBRE, José. História da Imprensa em São Paulo. São Paulo, Edições Leia,
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1977.


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Nacional, 1957. RIZZINI, Carlos. O Livro, o Jornal e a Tipografia no Brasil, 1500-1822;
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PETROLLI, Valdenizio.História da Imprensa no ABC Paulista.Dissertação de Mestrado,
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___________________. A participação da imprensa na emancipação política (1928 – 1959).
São Caetano do Sul, Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul, Revista Raízes, Ano I, n.º
2, Dezembro de 1989.

__________________. ZYR-41, Rádio Cacique. São Caetano do Sul, Prefeitura Municipal de
São Caetano do Sul, Revista Raízes, Ano III, n.º 6, Janeiro de 1992.

___________________. Diário do Grande ABC: a construção de um jornal regional. Tese
de Doutorado, Umesp, São Bernardo do Campo, 2000.


VALDENIZIO PETROLLI
Jornalista e Advogado. Mestre em Metodologia da Comunicação com a dissertação A História da
Imprensa no ABC Paulista e Doutor em Teoria e Ensino da Comunicação com a tese Diário do Grande
ABC: a construção de um jornal regional.

								
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