Adriana Falc�o na Literatura infanto-juvenil: brincando com as

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					ADRIANA FALCÃO NA LITERATURA INFANTO-JUVENIL: BRINCANDO COM AS
PALAVRAS


Ana Cristina Castex - FACEAR- Faculdade Educacional de Araucária

           A carioca Adriana Falcão aparece no cenário da produção literária infanto-juvenil, após o
reconhecimento como roteirista, cronista e romancista, com A máquina, primeiro livro publicado e
adaptado para o teatro. Já em seu terceiro livro, Adriana produz textos singelos e profundos, capazes de
despertar no leitor não apenas sensações diversas, mas também novos perfis de sensações que já
conhecemos.
           A estréia na literatura infantil aconteceu com Mania de explicação, texto inicialmente publicado
na revista Veja Rio e reestruturado sob um ponto de vista mais lúdico e poético. Assim como as crianças
têm “mania de perguntar”, Adriana Falcão apresenta uma menina filósofa com “mania de explicação” que,
considerando o mundo muito complicado e buscando explicações que o tornem mais bonito, define
poeticamente algumas palavras que podem ser de difícil compreensão: “Simplificar é quando em vez de
pensar em 4/8 a pessoa pensa logo em 1/2”. Conectando uma palavra à próxima a partir da explicação
dada (“1/2, quando é escrito em números, sempre quer dizer ‘metade’. Mas quando é escrito em letras
pode também querer dizer ‘um jeito’.”), os verbetes formam um dicionário das coisas inexplicáveis que,
mesmo sendo sob a perspectiva infantil, atingem qualquer leitor, pois transformam o abstrato em
elementos mais próximos do contexto em que a criança está inserida: “Solidão é uma ilha com saudade
de barco”.
           Adriana Falcão aproveita algumas lembranças da infância (“Lembrança é quando, mesmo sem
autorização, o seu pensamento reapresenta um capítulo”) e reproduz emoções dignas de alguém
extremamente sensível e romântica: “Acho que está tudo tão ruim, que eu quero passar uma coisa legal
para todas as pessoas que me lêem. Botei na minha cabeça que tenho essa missão.”
           Além da clareza verbal, Mania de explicação envolve o leitor – criança ou adulto –
           com as belíssimas ilustrações de Mariana Massarani, que refletem, complementam e
exemplificam a simplicidade do texto (“Exemplo é quando a explicação não vai direto ao assunto”). A
fusão texto-ilustração, neste caso, transcende a função estética para alcançar um valor muito mais
expressivo: a interpretação lúdico-poética da própria personagem, a menina-filósofa. Ricardo Azevedo, no
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artigo “Texto e imagem: diálogos e linguagens dentro do livro” , questiona a função da ilustração no livro
infantil, sugerindo que, em certos casos, as imagens devem ser criadas pela imaginação do leitor, e não
propostas sob o olhar do ilustrador:
           Na literatura infantil há textos que prescindem da imagem e outros em que texto e imagem são
indissociáveis. O que acontece quando um texto que prescinde de imagem é ilustrado? Seu universo de
significação é alterado? Como funciona a parceria da palavra com a imagem na construção da narrativa?
Falando de crianças: uma criança de seis anos, recém alfabetizada, precisa de ilustrações que a ajudem
a compreender o texto. Três anos depois, já lendo com fluência, as ilustrações para ela teriam
exatamente que função?

          Sem dúvida nenhuma, este é um caso em que texto e imagem são indissociáveis, já que as
ilustrações ampliam a interpretação das palavras, caracterizando o formato lúdico de cada página.
          Mania de explicação é, indiscutivelmente, o primeiro passo da autora para o sucesso (“Sucesso
é quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe”) ainda em fase de expansão, pois a
habilidade de brincar com as palavras de Adriana Falcão traz surpresas a cada texto, talvez porque ela
transmita um sentimento que, muitas vezes, é difícil explicar:
                                      Amor
                                      é um gostar
                                       que não diminui de


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 SERRA, Elizabeth D’Angelo (org.). 30 anos de literatura para crianças e jovens: algumas leituras. Campinas:
Mercado de Letras, 1998.
                                         um aniversário pro outro.


                                         Não. Amor é um exagero...
                                         Também não. É um desadoro...


                                         Uma batelada? Um enxame, um
                                         dilúvio, um mundaréu, uma insanidade,
                                         um destempero, um despropósito, um
                                         descontrole, uma necessidade, um desapego?


                                         Talvez porque não tivesse sentido,
                                         talvez porque não houvesse explicação,
                                         esse negócio de amor
                                         ela não sabia explicar,
                                         A menina.


           Enquanto a menina-filósofa não conseguiu definir o amor, Adriana Falcão o faz de maneira
singular, e Luna Clara e Apolo Onze é o retrato perfeito de uma bela história de amor que caracteriza
diversos sentimentos utilizando a “língua do coração”, afinal, “Sentimento é a língua que o coração usa
quando precisa mandar algum recado”.
           Segundo livro da autora na categoria infanto-juvenil, Luna Clara e Apolo Onze conta a história
de muitos amores, todos em torno de um principal, o de Luna Clara e Apolo Onze, dois adolescentes em
situações antagônicas que se encontram no desfecho. Neste longo e agradabilíssimo livro, Adriana
Falcão aproveita sua facilidade em aproveitar a sonoridade, significado e poesia das palavras para
desenvolver um texto, segundo ela, direcionado para o público 10 e 13 anos, mas que, certamente já
provou que pode satisfazer o gosto das mais diversas faixas etárias.
                       Aplaudido pela crítica, o livro funde os limites entre a realidade e o imaginário,
fornecendo uma nova perspectiva na literatura infanto-juvenil, poética e imprevisível, capaz de provocar
admiração, perplexidade e até inveja. Para Ziraldo, por exemplo, Mania de Explicação causou mais do
que um susto, levou-o a ter vontade de ter escrito tudo o que estava ali, com Luna Clara e Apolo Onze
não foi diferente:
           ... E, quanto a mim, tenho um método infalível – meu mesmo – para julgar uma obra de arte:
inveja.
           Ao detectar a sensação, eu a reconheço como inveja por um detalhe muito simples: a salivação.
É como se me falassem de quindim, crepe Suzette ou baba-de-moça.
           ...Isto é inveja! E o Zuenir Ventura vem me dizer que não tem inveja boa?!
           ...Agora, estou diante de Luna Clara e Apolo Onze. Outra vez a sensação. Adriana aqui
reinventa não só a narrativa como a linguagem. Ela reinventa a maneira de contar uma história. E faz isso
com mão de mestre, com um nível de invenção que não conheço em outros autores brasileiros. Ela
chegou arrasando. Sei que este livro é bom, bom mesmo, porque vocês precisam ver a extensão da
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minha nova inveja!

           Destreza em mesclar poesia, humor e romantismo, é assim que podemos definir o desempenho
literário desta escritora. A poesia surge, no texto em prosa, com a ruptura dos valores da estética
narrativa tradicional, para adotar características mais versáteis, equilibrando os variados significados das
palavras e as inúmeras sensações que elas podem despertar no leitor: “Não era à toa que aquele lugar se


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    FALCÃO, Adriana. Luna Clara e Apolo Onze. São Paulo: Moderna, 2002. (apresentação)
chamava Vale da Perdição. Dá para imaginar como eles perderam a graça e o sentido? Talvez não. A
tristeza que o coração de Aventura sentiu quando viu aquele buraco com um rio embaixo e sem ponte em
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cima, essa nem nome tem, só dá para saber sentindo.”
                    Já o humor demonstra a facilidade com que Adriana Falcão cria novos conceitos para
situações comuns em que o realismo mágico compactua com elementos do universo infantil: “(Luna
Clara) Era a portadora dos bilhetes que ele escrevia para as filhas, mensagens como ‘hoje estou com
vontade de almoçar carneiro’, ou ‘por favor, troquem meus lençóis’, ou ‘deixei dinheiro na mesinha para
vocês comprarem vestidos novos’, ou ainda ‘um tijolo pesa um quilo mais meio tijolo; quanto pesa um
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tijolo e meio?’”
          O romantismo pode ser considerado como eixo principal para as aventuras, perdas e buscas,
encontros e desencontros do texto, e está inserido em todos os cantos da história, na qual o amor vence
qualquer tipo de obstáculo e une diversos pares no final.
          Luna Clara, filha de Aventura e Doravante, vive em Desatino do Norte a esperar, há quase treze
anos, pelo pai que nunca conheceu. Doravante se desencontrou de seu amor, Aventura, no dia seguinte
ao do casamento, quando sua sorte foi perdida no meio do mundo, no caminho entre Desatino do Norte e
Desatino do Sul, e o deixou sob uma chuva constante. Apolo Onze, filho de Apolo Dez e Madrugada,
mora em Desatino do Sul, nasceu no dia em que Aventura e Doravante se conheceram e, desde então,
sua cidade está em festa, pois o maior sonho de seu pai era ter um filho homem. Enquanto Luna Clara
vivia a esperar, Apolo Onze não conseguia querer nada, não desejava nada, o que sugere que a distância
entre os protagonistas, a princípio, não era apenas física, mas também as aspirações, famílias,
ambientes e contextos de cada um divergiam para caminhos opostos.
          Luna Clara concentrava sua vida em um único objetivo, ou seja, fechava-se em si mesma a
espera do pai. Apenas no convívio da pequena família – a mãe; o avô, Seu Erudito da Paixão; as tias,
Odisséia e Divina Comédia; e o letrado papagaio Pilhério, que recita de cor verbetes do dicionário - a
menina considerava a lua como sua única amiga de verdade:
          Luna Clara tinha vergonha de andar com seus passos, de falar com sua voz, de balançar seus
cabelos, de ter cabeça (para não atrapalhar a visão de quem estivesse atrás dela), de ocupar um lugar no
espaço, tinha vergonha de existir, para dizer sinceramente. O nome disso é timidez, se for olhar no
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dicionário.

         Luna Clara herdou de Aventura seu sorriso. Do avô, herdou a teimosia. Mas a cabeça aluada
(onde ela sempre usava o mesmo chapéu xadrez) deve ter sido um problema de nascença mesmo. De
Doravante, ela herdou um certo olhar de vaga-lumes num par de olhos verdes que diziam “nossa!”, e o
gosto pela aventura, apesar de nunca ter se aventurado na vida. Por isso, quem sabe, ouvir as histórias
sobre o pai era a coisa de que ela mais gostava no mundo.
         Em segundo lugar era olhar a lua.
         Em terceiro... Não tinha terceiro não. Assim era a vida de Luna Clara.
         Esperar.
         Esperar.
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         Esperar.

           Apolo Onze vivia rodeado de muita gente: os pais; as sete irmãs, Ilha de rodes, Pirâmides,
Muralha da China, Artemísia, Diana, Alexandria e Babilônia; amigos; vizinhos e quem aparecesse no
lugar; afinal, seu pai passou oito anos guardando dinheiro para a festa de nascimento do filho:
           CONVOCAÇÃO GERAL

                               Madrugada e Apolo Dez
                               convidam para a festa de nascimento de Apolo Onze.

3
  op. cit. (p.79)
4
  op. cit. (p. 125)
5
  op. cit. (p. 12)
6
  op. cit. (p. 13)
                               Data; No dia que ele nascer.
                               Hora: Depende da hora.
                               Local: Desatino do Sul.
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                               Traje: Bonito.

          Tanta alegria, quatorze anos comemorando e Apolo Onze não se sentia realizado, alguma coisa
estava faltando, ele “queria querer”, mas não conseguia. Nem mesmo a convivência no ambiente festivo
durante tanto tempo não foi suficiente para mudar o desejo de desejos herdado da mãe:
          Sempre que ficava grávida, Madrugada tinha desejos muito estranhos.
          Na primeira vez, ela desejou manhãs. (Sempre sofreu de insônia, a pobre da Madrugada, talvez
por causa do nome, ou vice-versa.)
          Na segunda vez, ela teve desejos de estrelas cadentes.
          Na terceira desejou girassóis.
          Na quarta, apitos de trem.
          Na quinta gravidez, desejou conchas do mar e Apolo Dez teve que encomendar não sei
quantas, todas vindas do Mar Vermelho, que mais tarde viraram enfeites do quarto da menina.
          Na sexta, ela sentiu desejos lancinantes de bolas de gude e muita gente apostou (e se enganou)
que daquela vez ia nascer um menino.
          Na sétima vez, ela desejou esquilos.
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          Na oitava, Madrugada teve desejos de desejos.

         É claro que Luna Clara e Apolo Onze, envolvidos em teias tão distintas, conseguem realizar
seus desejos e unir seus corações, no entanto, até que tudo se resolva, o vai e vem no tempo e no
espaço da narrativa é intenso. A movimentação é caracterizada inclusive pelo caminho traçado entre os
dois pontos extremos do lugar, que é percorrido por praticamente todos os personagens:

                               MAPA DO MUNDO
                               O ponto de cima é Desatino do Norte.
                               O ponto de baixo é Desatino do Sul.
                               Em cima do ponto de cima é o Norte.
                               Embaixo do ponto de baixo é o Sul.
                               Doravante foi para cima.
                               Aventura veio de baixo.
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                               Foi assim que eles se desencontraram pelo mundo.

          Mantendo o jogo de palavras e definições com os nomes de personagens, aparecem ainda:
Imprevisto e Poracaso, prisioneiros das velhas da ponte e futuros maridos de Odisséia e Divina Comédia;
Noctâmbulo, sujeito rabugento, noctívago, que sofria de amor pelas horas noturnas; Equinócio, cavalo de
Doravante e Leuconíquio Lucrécio de Luxor, inventor e importante, responsável pelo desencontro de
Aventura e Doravante. Todos estes personagens surgem com importância similar, ou seja, nenhum é
inserido no texto por acidente, cada um revela se torna um complemento para o desfecho da narrativa.
          A partir dos exemplos citados acima, já é possível perceber que a viagem histórico-cultural de
Luna Clara e Apolo Onze confirma o investimento de Adriana Falcão na inteligência e sensibilidade de seu
leitor, mesmo que este ainda esteja apurando a sua visão crítica diante da literatura. A fragmentação do
texto, a inserção de flashbacks, o vocabulário apurado, nada interfere para que o jogo lúdico-textual
atinjam a compreensão deste leitor.


REFERÊNCIAS

7
  op. cit. (p. 17)
8
  op. cit. (p.19)
9
  op. cit. (p. 76)
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1997.
CAMARGO, Luís. Ilustração do livro infantil. 2. ed. Belo Horizonte: Lê, 1998.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil:teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
FALCÃO, Adriana. Mania de explicação. São Paulo: Moderna, 2001.
______. Luna Clara e Apolo Onze. São Paulo: Moderna, 2002.
FARIA, Maria Alice (org.). Narrativas juvenis: modos de ler. São Paulo: Arte e Ciência, 1997.
SERRA, Elizabeth D’Angelo. 30 anos de literatura para crianças e jovens: algumas leituras. São Paulo:
Mercado de Letras, 1998.

				
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