Projeto Parque Tematico do Imigrante

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Projeto Parque Tematico do Imigrante Powered By Docstoc
					       Parque Temático
        DO IMIGRANTE




Imigrantes no porto de Gênova a espera do embarque. Ilustração: Neusa Welter Bocchese.




                        Linha 10 de Julho – Capela São Roque
                                 Antônio Prado – RS
                                                                                                              2

SUMÁRIO


1. PARQUE TEMÁTICO DO IMIGRANTE................................................                          03
2. O POVOAMENTO DA COLÔNIA ANTÔNIO PRADO........................                                         04
   2.1 AS ESTRADAS....................................................................................   09
   2.3 AS PRIMEIRAS CONSTRUÇÕES...................................................                       11
   2.4 SABERES E FAZERES......................................................................           19
3. A TRILHA ECOLÓGICA ÁGUAS LIMPAS DA ESTÂNCIA
HIDROMINERAL DAS CHAGAS LTDA...................................................                          20
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     1. PARQUE TEMÁTICO DO IMIGRANTE

     O Parque Temático do Imigrante será construído próximo a Capela São Roque, na
Linha 10 de Julho, Município de Antônio Prado, em uma área de 38 hectares.
O parque trata da reconstituição histórica da chegada, do povoamento e das casas dos
imigrantes italianos que se estabeleceram no Nordeste do Rio Grande do Sul,
especialmente no Município de Antônio Prado. Também serão reconstituídos aspectos da
vida dos imigrantes, seus saberes e fazeres desde o período da chegada na colônia Antônio
Prado -1880 - até a década de 1980.




     Capela São Roque – Linha 10 de Julho – Antônio Prado - RS




     Área onde será construído o Parque do Imigrante - Antônio Prado - RS
                                                                       4




Área onde será construído o Parque do Imigrante - Antônio Prado - RS


                            Localização de Antônio Prado-RS
                                                          5
              Mapa Rodoviário da Região da Serra Gaúcha
                      Rio Grande do Sul - Brasil




 Distância aproximada
 entre Antônio Prado e:

 Caxias do Sul   58 Km.
 Vacaria         65 Km.
 Porto Alegre    178 Km.
 Rio Grande      460 Km.
 Uruguaiana      720 Km.
 Florianópolis   420 Km.
 Curitiba        520 Km.
 São Paulo       924 Km.
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         2. O POVOAMENTO DA COLÔNIA ANTÔNIO PRADO
         A criação da colônia de Antônio Prado sucedeu a de outros núcleos coloniais, já
instalados na região da Serra gaúcha. Já haviam sido criadas as colônias Conde D’Eu
(Garibaldi), Dona Isabel (Bento Gonçalves), e Colônia de Caxias e, nas proximidades de
Santa Maria, a colônia Silveira Martins.1 Antônio Prado é a extensão da colônia Caxias
confirmado pelo traçado do mapa que apresenta o território unido ao de Caxias.
         Antônio Prado foi a sexta colônia imperial a ser criada na Serra gaúcha. A migração
interna de colonos italianos, especialmente do Campo dos Bugres (Caxias do Sul), e a
chegada de novas famílias de imigrantes exigiram do governo provincial a destinação de
novas terras para serem ocupadas. O território escolhido situava-se à margem direita do rio
das Antas e passou a ser chamado de Paese Nuovo pelos recém-chegados, isto é, num
primeiro momento, ainda informalmente, os imigrantes e descendentes referiam-se à nova
colônia como Paese Nuovo, pois ainda não havia sido atribuído um nome oficial para esse
lugar.
         Mesmo antes de ter sido criada a colônia Antônio Prado em 1886, já havia ocupações
de terras à margem direita do rio das Antas. Por volta de 1880, lá já se encontrava
assentado nas terras planas que costeavam a margem direita do rio das Antas, próximo à
foz do rio Leão, Simão David de Oliveira, cidadão solteiro, analfabeto, com idade de 43
anos, procedente de São Paulo, que juntamente com um agregado de nome Joaquim,
casado e tendo um filho, fundaram um pequeno povoado. 2 Nesse local onde se estabeleceu
Simão de Oliveira criou-se um passo para a travessia do rio. Esse passo ficou conhecido
popularmente como “Passo do Simão”.




                   Passo do Simão – Rio das Antas – Antônio Prado - RS

1
    Ibidem, p. 36.
2
    Ibidem, p. 13-14.
                                                                                     7



      Outro ponto de povoamento registrado na mesma época foi nas proximidades de
Nova Roma onde foi identificada a presença de imigrantes poloneses e suecos, que
posteriormente fundaram a primeira capela denominada Santa Ana Velha.
      O traçado do território da Colônia Antônio Prado foi divida em Linhas longitudinais;
as linhas divididas em travessões e os travessões em lotes rurais. Os lotes foram
demarcados em um tamanho médio de 275 m x 1.100 m, o que soma uma área de 302.500
m2.




                                             Mapa do território de Antônio Prado com
                                             divisões das Linhas e Travessões.
                                                                                             8



         Ao receberem os lotes em concessão da Comissão de Medição de Terras, os
imigrantes trataram de recomeçar suas vidas, construindo suas casas uma vez que, até
então, estavam abrigados no barracão dos imigrantes à espera do despacho. De acordo com
Bertussi,3 o barracão era um alojamento precariamente construído, geralmente, em madeira
de pinho lascada, dispunha de cozinha comum e tinha o objetivo de abrigar os imigrantes
que chegavam à sede da colônia, até que fossem designados para o respectivo lote rural.
         Conforme Mário Gardelin, o barracão para receber os primeiros imigrantes foi
contratado na sede da colônia, com Luiz Amoretti e Stefano Alberti. Posteriormente, em 3
de maio de 1888, foi planejado a construção de mais 24 pequenos barracões nas diversas
linhas que foram criadas na divisão da colônia, para dar apoio aos imigrantes que
chegavam.




    Colônia Antônio Prado, 1890.




3
  BERTUSSI, Paulo Iroquez. Elementos de arquitetura da imigração italiana. In: WEIMER, Günter
(Org.). A arquitetura no Rio Grande do Sul. 2 .ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. p .124.
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      2.1 AS ESTRADAS
      A construção de estradas foi decisão estratégica para o acesso à nova colônia. Foram
destinadas verbas para a construção de 43 km de estradas entre a colônia Caxias e Antônio
Prado, passando pelas léguas 9, 10 e 16. A construção de balsas também foi planejada, pois
a nova colônia era rodeada por rios. Transpor o rio das Antas foi considerado um problema
para o acesso ao novo território. A balsa era uma espécie de transporte flutuante, preso a
um cabo, que faz a travessia de veículos ou pessoas em rios onde não há ponte.
A dificuldade que a balsa oferecia não estava ligada somente ao perigo, mas também à
capacidade de carga, à demora e, sobretudo, às grandes chuvas que elevavam o rio
impedindo a passagem, muitas vezes por várias semanas, prejudicando o tráfego e o
transporte de cargas.




Vale do Rio das Antas – Antônio Prado – Rio Grande do Sul - RS




Camilo Marcantônio foi contratado em 1887, pela Comissão de Terras e Colonização para a construção
de um barracão e abertura da estrada para a criação da colônia Antônio Prado.
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Balsas utilizadas para a travessia do Rio das Antas.
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2.3 AS PRIMEIRAS CONSTRUÇÕES
         Instalados no respectivo lote colonial, os colonos iniciaram a construção de suas
casas. Primeiro as provisórias, feitas de varas e cobertas de capim. Depois, as casas de
madeira rachada e cobertas com tabuinhas denominadas scàndole e, por fim, a casa
definitiva. Os processos construtivos utilizados pelos imigrantes e seus filhos deu
origem a uma arquitetura singular no conjunto da arquitetura do Rio Grande do Sul e
mesmo do Brasil.
         A arquitetura da imigração italiana no Rio Grande do Sul é tema de investigação
de vários arquitetos especialistas. Entre eles destacam-se os estudos de Julio Posenato e
Paulo Iroquez Bertussi, e por isso são aceitos como orientadores para as descrições a
seguir.
          Ao tratar da arquitetura da imigração italiana no Rio Grande do Sul, Posenato4
informa que a madeira teve intensa utilização na arquitetura da colonização italiana.
Diversas madeiras de lei existentes na região foram utilizadas na construção das casas.
Dentre essas, o pinheiro (Araucária angustifólia) foi a madeira mais importante desse
ciclo arquitetônico da imigração italiana.




    Pinheiro Araucária angustifólia.

4
 POSENATO, Júlio. Pesquisa patrocinada pela Fondazione Giovanni Angelli: imigração italiana no
Rio Grande do Sul. Turim, Itália, 1982.
                                                                                                  12

O mesmo autor propõe uma divisão do ciclo arquitetônico em períodos distintos, como
se verá mais adiante. A grande concentração dessa árvore na região, combinada com
sua característica favorável de tronco avantajado, madeira macia, com fibras regulares
e fácil de trabalhar, proporcionou sua vasta utilização nas diversas etapas da
construção: estruturas, paredes, pisos, esquadrias e até na cobertura. Em áreas onde não
havia o pinheiro araucária, como na região de Santa Maria, na ocasião 4ª Colônia
Silveira Martins, o pinheiro foi substituído por outras madeiras como a timbaúva que
também propicionou a construção de casas nas colônias que iam surgindo. Nesse
contexto, a madeira podia ser falquejada, rachada, serrada à mão ou beneficiada em
serrarias, constituindo assim quatro períodos distintos de edificações em madeira:
      As construções primitivas que antecederam ao que Posenato denomina o ciclo da
arquitetura da imigração italiana, atendiam às necessidades imediatas de instalação da
família no lote; um abrigo provisório, hábitat que servia inicialmente para comer e
dormir. Conforme Posenato,5 essas edificações eram construídas tanto nos que vieram
a ser os núcleos urbanos como no meio rural. As construções provisórias, para os
primeiros dias, ou até mesmo para alguns meses, eram construídas com copas de
árvores, saliências e escavações em barrancos, galhos e ramos entrelaçados
grosseiramente, lençóis armados como tenda. Essa condição de moradia deveria ser
modificada, ampliada e melhorada, assim que, algumas prioridades essenciais, como
plantar as roças de milho e de trigo, fossem atendidas. Enquanto esperavam as
colheitas, outros componentes eram acoplados ao ambiente com vistas a um
alojamento um pouco mais duradouro, do que o que caracterizava as choupanas e
palhoças construídas com troncos de coqueiros, xaxim, estacas amarradas com cipó e
taquara tramada, taipas, cobertas com palhas, ramagens, samambaias. Quanto às
construções provisórias para os primeiros dias, Carlin Fabris,6 em seus escritos Istoria
de Conceição descreve o seguinte:




                          [...] E ansim acompanhado de seus familiares botou mão em obra comessó a
                          desmatar, fasendo a primeira derubada a margem Estado do Rio Belo e
                          construio a casa para colocar sua família disia-se casa mas era uma Taba
                          feita de chassin e taboa de cortissera (Maria mole) e coberta de samanbaia
                          (Faleti) acin mesmo gosava a vida como grande milionário.


5
 POSENATO, op.cit., 1982.
6
 FABRIS, Carlin. Istoria de Conceição. In: DE BONI, Luis A. La Mérica. EST. La Salle: Canoas, 1977.
p. 75.
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         Em seguida, surgiram as cabanas para acomodação por um período um pouco
mais longo, cerca de 10 a 20 anos, onde eram empregados materiais como pedras
grosseiras para as paredes e madeira maciça rachada ainda verde, cobertas com
tabuinhas (scándole).
         O primeiro período desse ciclo arquitetônico da imigração italiana foi
denominado por Posenato, como o período primitivo. Esse período se caracterizou pela
utilização da madeira de forma rachada ou serrada à mão, sucedendo-se as construções
provisórias. Essas edificações eram exclusivamente de madeira, pelo uso de cavilhas,
cunhas, chavetas em substituição aos pregos. Nesse período, a cozinha era construída
separada da casa de dormir ou ligada a ela por um corredor coberto. A separação
devia-se ao medo de incêndios pelo uso do focolare ou larin, fogão primitivo de chão.
Essa condição foi confirmada por Dyonisio Pastore,7 em seu depoimento, quando trata
das construções no período primitivo:


                            [...] E, com isso eles faziam a roça, preparavam a casinha, e quando o milho
                            estava pronto, iam pegar a esposa e a família para levar nessa pequena
                            casinha, que eles faziam de qualquer jeito, porque, naquele tempo o governo
                            dava um machado a cada família, um serrote a cada três famílias, e um ferro
                            de rachar as “torrinhas”. Então eles rachavam aquilo, prego não tinha, tinha
                            umas puas à mão, e faziam os furos, e depois cortavam aqueles tarugos,
                            enfiavam no lugar do furo, aquilo prendia, segurava as tábuas, porque
                            ninguém trazia pregos lá da Itália.




              Construção do período primitivo




7
    PASTORE, entrevista, 2000.
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       No período denominado de apogeu, a madeira empregada era aquela ora
artesanal, ora industrializada, correspondendo às construções de maior porte, com dois
critérios definidos a saber: a expressão arquitetônica austera, limitada ao essencial, e
aquela em que a linguagem decorativa, constituída por trabalhos em serra-de-fita,
especialmente os lambrequins colocados nos beirais, áreas e puxados destinava-se a
ornamentar e embelezar a construção.




Construções do período do apogeu. O coberto de scandoles – tabuinhas de madeira – foi modificado para
telhas de barro. Residência de Armindo Zen - Linha 21 Alto – Antônio Prado – RS.
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No período tardio as madeiras provêm de serrarias, quando as tábuas são serradas em
um padrão uniforme em comprimento e largura. Nessa etapa registra-se o emprego de
janelas envidraçadas e telhas de barro que generalizam-se nas construções, aparecendo
também como elemento característico um corredor coberto que unia a casa de dormir
com a cozinha. A influência do chalé manifestou-se cedo nos núcleos urbanos,
estendendo-se ao meio rural com o decorrer do tempo em cópias literais. Houve
também manifestações híbridas, com formas de chalés e outras misturas, utilizando-se
especialmente lambrequins mais singelos.
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       A organização da habitação no seu aspecto formal, ou seja aquele que servia a
seu traço distintivo na evolução da arquitetura da Região Colonial Italiana, mereceu de
Bertussi uma cuidadosa análise interpretativa. Essa análise está ancorada na hipótese
de que foi pela evolução do fogão que se alterou o modelo inicial da construção, isto é,
duas edificações distintas: a casa de comer ou cozinha e a casa de dormir. Como ensina
Bertussi,8 ao iniciar a organização da habitação, o colono constrói uma pequena casa
cujas características atendiam inicialmente às funções de comer, dormir, estar. À
medida que construíam novas casas, a função da cozinha por muitas vezes continuou
sendo na casa primitiva. A cozinha separada da casa de dormir, no entendimento de
Bertussi, acompanhou a evolução dos fogões. Primeiro, o fogão de chão primitivo
(focolaro, focoler ou larin), passando para o fogão de chapa de ferro e finalmente ao
fogão à lenha e a gás. À medida que acontecia essa evolução, a cozinha foi se
aproximando da casa de dormir até incorpora-se definitivamente a ela. Inicialmente a
aproximação aconteceu com a construção de uma cobertura (corredor) que unia a casa
de dormir com a casa da cozinha. Mais tarde a cozinha grudou (sic) na casa de dormir
em forma de meia-água ou de corpo baixo menor e por último a cozinha integrou-se ao
corpo da casa como a concebemos hoje.




Focolare - fogão de chão, Linha 40, Antônio Prado,   Fogão a lenha, período em que a cozinha se
propriedade de Ângelo Cavazzola e família – 2002     incorporou definitivamente a casa de dormir.
                                                     Rosa Costa Martello, Linha 10 de Julho –
                                                     Antônio Prado.




8
  BERTUSSI. Paulo Iroquez. Elementos de arquitetura da imigração italiana. In: WEIMER, Günter.
(Org.). A arquitetura no Rio Grande do Sul. 1987. p. 125-126.
                                                                                       17




                    Forno a lenha utilizado para cozinhar o pão, cucas e
                    derivados de farinha de trigo e milho.



        Segundo os estudos realizados por Frosi,9 a região da Itália que forneceu o maior
número de emigrantes foi a Região do Vêneto, cuja característica orográfica se
assemelha à do Nordeste do Rio Grande do Sul. Era comum, entre os vênetos, o
domínio da técnica construtiva em cantaria. Então, talvez a isso se deva ao fato de a
pedra basalto ter sido usada nas alvenarias na Região Colonial Italiana do Rio Grande
do Sul.
        Não obstante o uso da alvenaria em pedra talhada, o que de fato predominou nas
áreas urbanas, especialmente em Antônio Prado, foram as edificações de madeira. A
matéria-prima era abundante, os mestres construtores carpinteiros parecem ter
sobrepujado os pedreiros e o custo inicial da mão-de-obra mais barato concorreram
para que houvesse a supremacia das edificações de madeira.




9
    FROSI; MIORANZA, op. cit., p. 36.
                                                                                        18

       Nas primeiras décadas do século XX as cidades iam ganhando forma e as
construções de madeira tomando conta do espaço urbano e rural: colégios, casas,
clubes, hotéis, cinemas, cooperativas, moinhos, igrejas, capelas, campanários, capitéis,
pontes, galpões, cercas, telhados, quase tudo de madeira, dando forma às pequenas
vilas e às cidades.




Vista parcial da cidade de Antônio Prado, década de
1920. Construções de madeira predominavam no
centro urbano de Antônio Prado.



       Conforme a cidade crescia, novas casas de madeira iam sendo acrescentadas
seguindo as mesmas características das anteriores que, construídas geralmente com
dois pisos, abrigavam quase sempre a numerosa família na parte superior, e o térreo era
destinado ao local de trabalho como (lojas comerciais de secos e molhados, sapatarias,
funilarias, ourivesarias, selarias, barbearias, relojoarias, cantinas, etc). O porão, como
regra, era construído com paredes de pedra, possuía aberturas para ventilação
permanente, condições ideais para guardar o vinho, mas também era usado como
depósito de alimentos, como queijo, salame, copa, além de outros materiais como
lenha e ferramentas.
       Assim, a Região de Colonização Italiana, especialmente a do Nordeste do Rio
Grande do Sul, fez da madeira o principal material na construção das moradias. Um
mundo de madeira consolidava-se na maioria das cidades colonizadas por imigrantes
italianos.
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      2.4 SABERES E FAZERES
      Ao chegarem ao Brasil, os imigrantes tiveram que recomeçar praticamente do
nada uma nova vida em terra estrangeira. Segundo Ribeiro, na Serra gaúcha, o
imigrante passou a viver uma experiência inteiramente nova de agrupamento espacial,
de adaptação ambiental, de relacionamento social, de proprietário rural, bem como de
convivência com outros camponeses provenientes de outras províncias e regiões da
Itália. A vida social e cultural do imigrante foi sendo reconstruída tendo como ponto de
referência à capela quando já organizada. Ali desenvolviam-se atividades religiosas, de
lazer, da política. Antes disso, na ausência de recursos materiais para prática de
esportes e atividades recreativas, fez com que nas primeiras décadas, o lazer sob forma
de encontros familiares o filó recebesse a primazia. O filó como institucionalização do
lazer, reunia várias famílias para conviver, conversar, comer, jogar e cantar. As
famílias combinavam de se encontrar, ao entardecer, para juntas, fraternizarem as
próprias experiências. Nesses encontros floresceu a música, a poesia, o humorismo, os
jogos, próprios de sua cultura. Os jogos típicos dos italianos e seus descendentes, ao
final de tarde na semana, ou aos domingos após a missa eram os da mora, a bocha e o
baralho (bisca, trissete, quatrilho, canastra, escova, entre outros).

      Nesse sentido, alguns dos saberes e fazeres desses imigrantes serão
reconstituídos no Parque Temático Aldeia do Imigrante conforme a época que será
tratada na evolução do ciclo da arquitetura da imigração italiana construída em
Antônio Prado.




                                         Ferraria dos Marsílio – Linha 21 de Abril – Antônio
                                         Prado - RS




Jogo da Mora – Linha 21 de Abril –
Antônio Prado - RS
                                                                                       20



   3. A TRILHA ECOLÓGICA ÁGUAS                                  LIMPAS      DA   ESTÂNCIA
HIDROMINERAL DAS CHAGAS LTDA

      As paisagens naturais que encontramos na superfície da Terra, como praias,
morros, florestas ou desertos, são resultantes da combinação das rochas, da água, e do
ar. A biosfera é formada pelos solos, pela vegetação e pelos animais que vivem no
planeta Terra. As comunidades humanas como partes da biosfera transformam o meio
ambiente para atender suas necessidades de sobrevivência.
      Na Linha 10 de Julho – Capela São Roque do Município de Antônio Prado será
organizada A TRILHA ECOLÓGICA ÁGUAS                              LIMPAS     DA ESTÂNCIA
HIDROMINERAL DAS CHAGAS LTDA, tendo como objetivo utilizar a trilha
ecológica como uma ferramenta para a educação ambiental, preservação e conservação
do meio ambiente do PARQUE DO IMIGRANTE; Identificar as diferentes espécies
vegetais e sua relação com a preservação da mata e do ambiente; Estudar a relação
entre plantas, bichos, solos, regime de chuvas, clima, o homem, a cidade e o ambiente
para a salvaguarda do Patrimônio Natural do parque.




Vegetação do Parque do Imigrante – Linha 10 de Julho – Antônio Prado - ES
21
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A Trilha Ecológica está inserida na política de preservação e desenvolvimento
sustentável do Patrimônio Natural da Agência de Desenvolvimento do Patrimônio
Cultural e Natural do Município de Antônio Prado – ADESP. A política de
salvaguarda do Patrimônio Natural conta com o Fundo de Desenvolvimento do
Patrimônio Cultural e Natural, o qual se destina ao desenvolvimento do patrimônio
cultural e natural do Município de Antônio Prado como: desenvolvimento e apoio a
projetos culturais e ambientais, salvaguarda do patrimônio cultural e natural (proteção,
preservação, restauração, conservação, revitalização, etc.), apoio à pesquisa, e tudo
mais que se referir e se adequar ao patrimônio cultural e natural, material e imaterial
segundo a Conferência de Paris – Patrimônio Mundial de 1972, e a Constituição
Federal Brasileira, Art. 216. O Fundo dará suporte financeiro para os objetivos da
Agência.




               TRILHA ECOLÓGICA
               ÁGUAS LIMPAS DA
            ESTÂNCIA HIDROMINERAL
               DAS CHAGAS LTDA
                                                                                     24



     4. ROTEIRO OS CAMINHSO DA FÉ

     O roteiro Os Caminhos da Fé que será criado na Linha 10 de julho, próximo a
Capela São Roque, no interior do Município de Antônio Prado, está fundamentado na
obra “Os Caminhos da Fé”, cujo conteúdo contempla o resgate da memória coletiva e
reconstituição de parte da história das comunidades que se formaram em diversos
pontos do território pradense. Esse fenômeno se deve em grande parte pela religiosidade
do povo imigrante que aqui se instalou.
     A vinda do imigrante ao Brasil, especialmente o que saiu do Norte da Itália e se
instalou na região Nordeste do Estado do Rio Grande do Sul, ocorreu em condições
adversas. O sofrimento acompanhou os imigrantes não só nas despedidas e na partida da
terra natal, mas ao longo do percurso, ou seja, do momento da saída até a instalação na
nova pátria.
     Na bagagem, os imigrantes trouxeram tudo o que tinham e era possível carregar:
fé, muita fé, o Santo Protetor, a Santa Mãe, imagens que orientavam para o caminho da
superação das dificuldades, da conquista de cada novo dia, trouxeram também a
saudade, os valores culturais, seus usos e costumes, entretanto, o bem de maior valor
foi, sem dúvida, a fé. Os santos e santas que não vieram na bagagem material, foram
esculpidos com base nas lembranças e habilidades dos que aqui construíram o mundo
que estava à espera de mãos hábeis, marcadas pela força do trabalho.
     Chegando ao Brasil, o colono imigrante enfrentou as mais sérias dificuldades,
lidando com o desconhecido e com a necessidade de sobrevivência, dentre elas o desejo
de reconstruir sua identidade, por meio da edificação de sua casa, de sua comunidade.
Assim, fez do trabalho seu maior aliado na conquista de seu espaço, de sua terra. Por
meio dele conseguiu ser proprietário, ter segurança material, ocupar seu lugar. Destaca-
se, entretanto, que as conquistas tinham na religião, na fé, um instrumento de força, de
determinação, de alívio do sofrimento que lhe dava esperança para continuar.
     As comunidades de imigrantes italianos devem à religião seu modo de
organização. Os povoados e vilas nasceram, quase sempre ao redor de uma capela, cuja
construção foi uma das primeiras preocupações do imigrante. Esta era dedicada ao santo
ou santa de devoção do idealizador. Como conseqüência, o nome da localidade, na
maioria das vezes, originava-se do nome do santo ou santa da capela. E a partir dela,
como ponto de referência, é que a comunidade se organizava. A sua volta construíam o
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salão, a escola, suas casas. Lá tinham seus encontros religiosos, sociais e de lazer. Era
possível rezar, conversar, aprimorar as habilidades manuais, culinárias, namorar, casar,
divertir-se, aprender e ensinar, reconstruir a identidade. Pode-se compreender, na vida
em comunidade, os diferentes papéis sócio-culturais de homens e mulheres, mas as
reuniões ocorriam após a missa ou o terço. Para os homens, os encontros possibilitavam
a expressão da cultura, socialização dos conhecimentos do trabalho na terra e na criação
de animais, bem como dos costumes e do lazer, que envolvia jogos de bocha, cartas,
bola, mora. As mulheres aliavam o lazer aos trabalhos manuais e à preparação da
liturgia dos encontros religiosos.
     Da Pátria deixada com saudades e, “quiçaá”, esperança de volta, trouxeram
santinhos, orações, livros, imagens, quadros, estampas, rosários, a fé e a devoção nos
mais diversos santos. Os mais conhecidos na região são: Nossa Senhora das Graças,
Nossa senhora da Saúde, Nossa Senhora Consoladora, Nossa Senhora do Carmo, Nossa
Senhora de Lourdes, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora das Dores, Nossa
Senhora do Rosário, Nossa Senhora Imaculada Conceição, Nossa Senhora do
Caravágio, Nossa Senhora de Monte Bérico, Nossa Senhora da Satele, Santo Antônio de
Pádua, São José, São Paulo, São João, São Jorge, São Caetano, Santo Isidoro, Santa
Libera, Santa Lúcia, São Pedro, São Roque, Santa Ana, São Brás, São Domingos, São
João Bosco, São Judas Tadeu, Santa Luzia, São Marcos, Santa Maria Goretti, São
Mateus, São Pelegrino, Santa Rita de Cássia, São Sebastião, Santa Tereza, São Valentin
e outros.
     Pode-se dizer que a educação sistemática, ministrada junto à capela, exerceu papel
fundamental, devido a sua importância na divulgação de conhecimentos básicos para
que o filho do descendente italiano pudesse rezar, ler, escrever e fazer contas para
melhor desempenhar seu trabalho, em especial no comércio, que surgia nas relações de
trocas.
     A obra “Os Caminhos da Fé” traz à tona o processo histórico imigratório, cujo
enfoque é a religiosidade. Na busca de Deus, os imigrantes erigiram Igrejas, e Capelas,
e os santos e santas trazidos da Itália serviram para nomeá-los, bem como grutas e
capitéis do Município de Antônio Prado e região. Os capitéis também chamados
oratórios ou ermidas são marcos de fé e religiosidade representados em pequenas
construções à beira de estradas, que abrigam imagens de santos e santas. São erigidos
com a finalidade de homenagear um ou mais santos, escolhidos pelo grupo da
localidade ou a pessoa que queira agradecer alguma conquista espiritual ou material. A
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maioria dos capitéis representa o cumprimento de uma promessa por uma graça
alcançada.

     A obra “Os Caminhos da Fé” contribui para a compreensão do modo de
organização do interior de Antônio Prado, que cultiva a tradição, que trabalha para
restaurar e construir santuários e salões comunitários, pois lá são realizados os
encontros religiosos e de lazer.
     Herdamos dos primeiros imigrantes a fé, a força, a coragem, a esperança. São as
palavras proferidas por descendentes de italianos, que lembram o convívio com seus
pais, os próprios imigrantes, o quanto a religião foi um valor a ser passado e vivido
pelos familiares, reveladoras da real significação do viver nos Caminhos da Fé, do ser
um homem de fé.
     Dentro deste contexto, a criação do roteiro Os Caminhos da Fé no Parque do
Imigrante, tem com objetivo reproduzir alguns exemplares de capelas, campanários e
capitéis construídos em território pradense com suas respectivas histórias. Passar aos
visitantes um pouco da alma do lugar, as vivências dos imigrantes e suas relações com a
religiosidade. Esse caminho irá representar e contar parte da história da religiosidade do
imigrante italiano que se instalou na Colônia Antônio Prado.
     A seguir, algumas fotos de Capelas e Capitéis que representam o roteiro Os
Caminhos da Fé em Antônio Prado.




   Capela Nossa Senhora das Graças, Linha Guerra/ Passo do Zeferino – Antônio Prado – RS - 1888
                                                                                                27




Capela São Paulo, Linha Guerra/ Passo do Zeferino – Antônio Prado – RS - Início do Século XX.




Capela Santo Antônio, Linha Guerra – Antônio Prado – RS.1892
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Capitel Nossa Senhora de Lourdes - Linha 10   Capite Santa Bárbara, Linha Gomercindo -
de Julho, Antônio Prado, 1880.                Antônio Prado, 1961




Capitel Santo Antônio - Linha 2 de Julho,     Capitel Santo Antônio – Linha Silva
Antônio Prado, 1909.                          Tavares, Antônio Prado, 1906.
                                                                                       29




                                             Capitel São Domingos – Estrada
Capitel Santo Antônio – Zona Michelon –      Protásio Alves – Antônio Prado,
Linha Gomercindo Saraiva – Antônio Prado,    1950.
1950.




                                            Capitel Santo Expedito, Estrada Protásio
Capitel São Luiz Gonzaga, Linha 10 de       Alves, Antônio Prado, 2003
Julho, Antônio Prado, 1950.
                                                                                                       30




                               Parque Temático



                          Travessia do Rio das             Derrubada        das
                          Antas pela balsa.                matas e construção      Abrigo provisório
                                                           das primeiras casas     década 1880



                                      TRILHA ECOLÓGICA
                                       ÁGUAS LIMPAS DA
Chegada dos imigrantes
a pé e a cavalo
                                    ESTÂNCIA HIDROMINERAL
                                       DAS CHAGAS LTDA
                                                                                          Construção        do   período
                                                                                          primitivo
                                                   ROTEIRO OS
                                                 CAMINHOS DA FÉ


                                                                                       Construção
                                                                                       do período
                    Construção    do    período                                         apogeu
                    contemporâneo década 1980.

                                                    Construção do período tardio




                                 DO IMIGRANTE

				
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