Fernanda Kincheski rf

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                                     INTRODUÇÃO
       As feridas têm a mesma história que a humanidade e a atenção para com o seu
tratamento tem sido crescente em todos os meios. Prova da insuficiência dos tratamentos
disponíveis na prática clínica é que a literatura médica apresenta uma chuva periódica
interminável de propostas para um problema tão antigo e comum do ser humano.
       O estudo de plantas medicinais tem espaço de relevância na pesquisa médica atual,
visto que segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 80% da população mundial
utiliza plantas medicinais (Barata, 2005). Sabe-se que algumas comunidades são
depositárias de rico acervo de práticas fitoterápicas empíricas, preservadas pela tradição e
folclore (Carvalho, 1988). Sabe-se também que é próprio da Região Amazônica o uso de
plantas regionais (Santos, 2000). Segundo Carvalho 1988, no seu trabalho sobre plantas
medicinais pela população das áreas de unidades elementares da Fundação SESP, 92,14%
das famílias pesquisadas confirmaram o uso de plantas para fins terapêuticos.
       Quanto ao uso de plantas medicinais em feridas; uma pesquisa na literatura mostra
inúmeros estudos de plantas que influenciam positivamente no processo de cicatrização
das feridas (Capo et al., 2004; Coelho et al., 2001; Foro, 1988). Existem muitos estudos
que exploram propriedades cicatrizantes de plantas existentes no Brasil, como o óleo de
girasol (Marques et al., 2004), a arnica (Neto, 2001), calêndula (Neto et al., 1996), rosa
mosqueta (Marchini et al., 1988), além da própolis, que provêm de resinas de plantas
(Azevedo et al., 1986). Algumas destas plantas são típicas da região Amazônica, como o
óleo de copaíba (Brito et al., 1999) e outros (Villegas et al., 1997), inclusive o óleo de
Copaíba já está sendo alvo de estudo na cicatrização de feridas cutâneas em ratos (Brito et
al,1999).
       Como fazemos parte da população que reside na região Amazônica, a nossa
realidade impõe o estudo das plantas medicinais regionais, a popularização e preservação
dos conhecimentos já existentes sobre essas plantas.
       Já GERTSCH et al. (2004) salientam a eficácia e baixo custo da Phyllanthus
piscatorum contra doenças dermatológicas relacionadas à Cândida Albicans, e alertam
para o fato de que o cultivo desta planta tem sido relegado devido à aculturação dos
Yanomamï na Amazônia, próximos ao rio Orinoco.
       Segundo SCHULTES (1994) as florestas tropicais oferecem enorme perspectiva de
descobrimento de novas drogas para uso na medicina ocidental. A Amazônia provê oitenta
mil espécies de plantas superiores e uma população indígena diversificada. Atentam para o
fato de que o estudo das plantas usadas como medicamento por povos indígenas é a
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maneira mais eficiente de identificar plantas que contenham componentes bioativos.
Salientam a urgência de que mais profissionais da etinobotânica e da etinofarmacologia
sejam treinados para documentar tanta informação quanto possível, pois muita informação
é perdida pela destruição das florestas e pela aculturação dos povos indígenas.
       Muitas comunidades e grupos étnicos utilizam-se de plantas como único recurso
terapêutico (Maciel et al, 2000), logo identificar a freqüência e quais as plantas que a
população de Porto Velho utiliza para cicatrização nos mostra a realidade local quanto ao
conhecimento e uso das mesmas, contribuindo de forma relevante para a divulgação das
virtudes terapêuticas.
       A classe médica Brasileira em sua maioria não prescreve plantas medicinais e até
mesmo as desconhecem, devido aos seus currículos não apresentarem estudos sobre
fitomedicamentos e a baixa disponibilidade desses no mercado farmacêutico (Barata,
2005) . Isso nos remete a grande importância de pesquisar a utilização, pela população, de
plantas e quais são, para que possamos desenvolver e demonstrar a partir do conhecimento
popular a eficácia dos mesmos.
       O interesse no conhecimento sobre plantas medicinais é uma fonte de pesquisa e
riqueza à qual devemos mais atenção, tendo em vista que muitas plantas medicinais
bastante populares não tiveram sua eficácia comprovada e podem até ser tóxica. Estudá-
las academicamente e desenvolvê-las é o caminho. Cabe à Universidade dar resposta a
estas necessidades e transformar-se em referência regional dentro da responsabilidade
Institucional de geração de conhecimento, da estratégia cultural de formação de valores, e
da política das ações de saúde pelo SUS.
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                                      OBJETIVO

Objetivo geral

             Conhecer as plantas da Amazônia adotadas medicinalmente no Município

              de Porto Velho, usadas por diferentes grupos sociais, para o tratamento de

              feridas.

Específicos

             Conhecer a utilização de plantas medicinais como agente cicatrizante.

             Definir quais as plantas da Amazônia são as mais utilizadas.
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                                  MATERIAL E MÉTODOS

       Após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa teve início o projeto.
       Foi realizado um estudo piloto, em uma escola noturna pública no município de
Porto Velho. Na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio 4 de Janeiro foram
aplicados 50 questionários em duas salas de aulas. Primeiramente, um dos pesquisadores
explicou os objetivos do trabalho apresentando uma condição hipotética: “a presença de
uma ferida ou um corte, acidental, na pele”, então foi solicitado que todos os que
desejassem participar da pesquisa assinassem o termo de consentimento esclarecido e
respondessem ao questionário.
       Os dados levantados foram então analisados pelo programa Epi Info 3.3.2., para
que se pudesse estabelecer através da freqüência do uso de plantas medicinais pelos
estudantes o “n” da amostra que deveria ser utilizada para o município de Porto Velho. E
falhas no questionário foram então detectadas e corrigidas.
       Foram obtidos os dados sobre o tamanho da população de cada bairro da zona
urbana da cidade de Porto Velho, Secretaria Municipal de Planejamento (SEMPLA), com
estas informações foi possível à divisão do número de pessoas entrevistadas em cada
bairro. Como o município de Porto Velho está dividido em nove setores, a população de
todos os bairros de cada setor foi somada, e feita uma relação da porcentagem que cada
setor representa para a população total do município, sendo que esta razão encontrada foi
utilizada para a divisão da nossa amostra. Ou seja, se um setor detém 30% da população
da cidade, este deveria, então, representar 30% da nossa amostra. Realizou-se um sorteio
aleatório para selecionar um bairro de cada setor, e nestes foram realizadas as entrevistas.
Alguns bairros que apresentavam um perfil interessante (desejado) para o trabalho como:
populações tradicionais, bairros mais populosos, tiveram suas chances dobradas de serem
escolhidas através do sorteio. Dois setores foram excluídos devido ao fato de apresentarem
uma população pouco representativa e por serem distantes.
       O espaço amostral ficou definido em 200 pessoas assim divididas por setores e
bairros: setor 1- bairro Arigolândia- 31 pessoas; setor 2- bairro Flodoaldo P. Pinto- 36
pessoas; setor 3- bairro Mucambo- 29 pessoas; setor 4- bairro Tiradentes 33 pessoas; setor
5- bairro Tancredo Neves-33 pessoas; setor 6- bairro Ulisses Guimarães- 12 pessoas; setor
7- bairro excluído da pesquisa; setor 8- bairro Caladinho- 26 pessoas; setor 9- bairro
excluído da pesquisa.
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       Nestes bairros, iniciamos a pesquisa pela primeira rua depois do primeiro ponto de
ônibus do bairro, iniciando sempre pela primeira casa à direita no sentido horário.
       Um ou no máximo dois indivíduos, acima de dezoito anos, responderam ao
questionário em cada “casa”, até que se completasse o número de pessoas que deveriam
ser abordadas naquele bairro. Portanto o número de “casas” abordadas não foi previamente
estabelecido, e sim o número de pessoas.
       O critério de inclusão foi: residir naquele bairro, ter idade acima de dezoito anos.
Não era necessário que o participante fosse portador de uma ferida.
       Indivíduos com ferimentos tiveram prioridade em entrar na amostra, se duas
pessoas com feridas residissem na mesma casa, as duas teriam prioridade.
       O questionário utilizado foi do tipo estruturado (anexo 1) e, somente após a
explicação por um dos pesquisadores e concordância por parte do participante da amostra
em responder as perguntas e assinatura do “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido”
(anexo 2), foi aplicado, sempre por um dos pesquisadores: Fernanda Kincheski, Patrícia
Guedes Torres ou Igor Ribeiro Barcelos .
       O programa no qual os dados foram inseridos como “banco de dados” foi o
Microsoft Office Excell 2003.
       As variáveis analisadas são qualitativas, para isso utilizou-se o teste Qui-quadrado
χ², usando hipótese de aderência, com nível de significância (α) igual a 5%. Para o cálculo
do χ² foi utilizado o programa estatística 6.
       Procurou-se na Internet as plantas citadas pela população a fim de descobrir se já
existem trabalhos científicos comprovando sua eficácia, e saber quais as suas propriedades
terapêuticas segundo a medicina popular.
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                                     RESULTADOS

       Os dados encontrados foram analisados a partir de características da população
estudada: origem, idade, sexo, cor, nível de instrução. Assim pudemos desenhar o perfil da
amostra e então buscar respostas para os objetivos da nossa pesquisa.


Tabela 1 – Origem da população entrevistada quanto às formas de tratamento de feridas,
em Porto Velho.

      Número de pessoas               PVH           RO Não PVH               Outros Estados

              200                      89                 21                        90
             100%                    44,5%              10,5%                     45%
                                     χ² = 2,000000 p < 0,157300
       Quanto à origem a população participante da pesquisa ficou assim descrita dados:
55% são do estado de Rondônia, sendo 44,5% do município de Porto Velho e 10,5% do
interior. Os 45% restantes são de outros estados.
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Tabela 2 – Origem da amostra por Regiões e Estados da população entrevistada quanto ao
uso de plantas em feridas.
        Regiões              Estados                  População            Percentual
        Norte                Rondônia                 110                  55
                             Pará                     8                    4
                             Amazonas                 20                   10
                             Acre                     10                   5
        Nordeste             Pernambuco               2                    1
                             Ceara                    16                   8
                             Maranhão                 8                    4
                             Piauí                    3                    1,5
                             Bahia                    2                    1
                             Rio Grande do            1                    0,5
                     Norte
        Centro               Goiás                    3                    1,5
Oeste                        Mato Grosso              3                    1,5
                             Distrito                 1                    0,5
                     Federal
        Sudeste              Minas Gerais             2                    1
                             São Paulo                4                    2
                             Espírito Santo           1                    0,5
                             Rio de Janeiro           2                    1
        Sul                  Paraná                   2                    1
                             Rio Grande do            1                    0,5
                     Sul


        Peru                                          1                    0,5
                                      χ²= 492,53   p< 0,0000000
        Dividindo a amostra por regiões a população ficou distribuída desta forma: Norte -
74%, Nordeste - 16%, Centro - Oeste- 3,5%, Sudeste – 4,5%, Sul – 1,5% e Peru – 0,5%.
                                                                                           8

Tabela 3 – Grupos de Idade da população entrevistada quanto às formas de tratamento de
feridas, em Porto Velho.

       Grupos de Idade             Número de Pessoas                 Percentual
 Jovens 18-24                                59                          29,5
 Adultos 24-59                              121                          60,5
 Idosos >60                                  20                           10
            Total                           200                         100,0
                                    χ² = 77,83000 p < 0,000000
       A idade ficou divida, segundo a classificação do IBGE, em jovens(18-24) 29,5%,
adulto (25-59) 60,5% e idosos (60 ou mais) 10%.


Tabela 4 – Distribuição das categorias de cor da população entrevistada quanto às formas
de tratamento de feridas, em Porto Velho.
              Cor                    Número de Pessoas                Percentual
 Branco                                       65                         32,5
 Pardo                                       120                         60,0
 Negro                                        14                          7,0
 Indígena                                      1                          0,5
 Total                                       200                        100,0
                                    χ² = 176,4400 p < 0,000000
       As pessoas entrevistadas se declaram 60% como pardo, 32,5% branco, 7% negro e
0,5% indígena.


Tabela 5 – Distribuição, quanto ao sexo, da população entrevistada quanto às formas de
tratamento de feridas, em Porto Velho.
           Sexo                            Masculino                         Feminino
Número de pessoas                              80                              120
Percentual                                    40,0                             60,0
                                  χ² = 8,000000 p < 0,004678
       Predominantemente feminina 60%.
                                                                                       9

Tabela 6 – Grau de Escolaridade da população entrevistada quanto às formas de
tratamento de feridas, em Porto Velho.

          Grau de Escolaridade               Número de Pessoas          Percentual
 Ensino Fundamental Incompleto                       65                     32,5
 Ensino Fundamental Completo                          8                      4,0
 Ensino Médio Incompleto                             30                     15,0
 Ensino Médio Completo                               62                     31,0
 Ensino Superior Incompleto                          18                      9,0
 Ensino Superior Completo                            17                      8,5
 Total                                              200                    100,0
                                   χ² = 89,38000 p < 0,000000
       O nível de escolaridade ficou assim distribuído: 1º Grau Incompleto - 32,5%, 1º
Grau Completos – 4%, 2º Grau Incompleto – 15%, 2º Grau Completos – 31%, 3º Grau
Incompleto – 9% e 3º Grau Completo – 8,5%.


Tabela 7 – Distribuição da população quanto às diferentes formas de tratamentos adotadas
para o cuidado de feridas.
         O que Usaria                  Número de pessoas              Percentual
 Não usaria nada                             46                          23,0
 Usaria medicamento
                                              72                          36,0
 comprado na farmácia
 Somente usaria medicamento
                                              40                          20,0
 prescrito pelo médico
 Usaria planta regional                       42                          21,0
 Total                                       200                         100,0
                                   χ² =13,28000 p < 0,004069
       Quando perguntado o que a pessoa usaria 23% não usaria nada, 36% usaria
medicamento comprado na farmácia, 20% somente usaria medicamento prescrito pelo
médico e 21% usaria planta regional.
                                                                                   10

Tabela 8– Plantas usadas em feridas pela população entrevistada de Porto Velho.
       Plantas                         Freqüência
       Copaíba                         9
       Crajiru                         5
       Babosa                          5
       Andiroba                        4
       Mastruz                         3
       Ampicilina                      3
       Sangue de Dragão                2
       Terramicina                     2
       Corama                          2
       Amor crescido                   1
       Folha do abacaxi                1
       Folha     de    goiaba          1
torrada
       Ginkgo biloba                   1
       Pião                            1
       Cana do brejo                   1
       Melão      de      São          1
Caetano
       Total                           42
       χ²= 28,09524    p< 0,020984
       As quatro plantas mais usadas foram à copaíba – 21,5%, Crajiru e Babosa – 11,9%
e Andiroba – 9,5%.
                                                                                  11

Tabela 9 –Via de administração das plantas usadas na cicatrização de feridas pela
população entrevistada de Porto Velho.
Vias de Administração           Número de Citações                 Percentual
       Via oral                              7                     16,6
       Via tópica                            35                    83,4
       Total                                 42                    100,0
                                  χ²=18,66667     p< 0,00016
       A via de administração mais usada é a tópica com 83,4%.


Tabela 10 – Forma de preparo usado para a administração das plantas usadas em feridas
pela população entrevistada de Porto Velho.
       Forma de preparo        Número de citações                Percentual
       Pó                                3                       7,1
       Pasta                             9                       21,4
       Infusão                           16                      38,1
       Óleo                              14                      33,4
       Total                             42                      100,0
                                  χ²= 9,619048 p< 0,022099
       A forma de preparo ficou assim distribuída: Infusão – 38,1%, Óleo – 33,4%,
Pasta – 21,4% e Pó – 7,1%.
                                                                                       12

Tabela 11 – Como o entrevistado aprendeu a usar a planta citada por ele, em feridas.
        Com quem aprendeu        Número de citações                   Percentual
        Pais                            20                            47,62
        Avós                            10                            23,80
        Amigos                          9                             21,42
        Quartel                         1                             2,40
        Sogros                          2                             4,76
        Total                           42                            100,0
                                        χ²= 27,76190   p< 0,00014
                 A forma de difusão do conhecimento é predominantemente familiar (pais e
        avós) 71,42%.
                                                                                        13

                            DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

       Realizou-se um estudo estatístico (χ²) das variáveis qualitativas coletadas no
estudo, incluindo o perfil da população, isso nos permitiu testar e comprovar algumas
hipóteses levantadas por esse trabalho.
       A caracterização da população do município de Porto Velho participante da
pesquisa ficou assim descrita segundo os dados coletados: 55% das pessoas entrevistadas
são do estado de Rondônia, sendo 44,5% do município de Porto Velho e 10,5% do
interior. Os 45% restantes são de outros estados, o que demonstra as diversas origens da
população do município de Porto Velho (χ² = 2,000000, p < 0,157300).
        A maioria da população entrevistada é originária da região Norte (χ²= 492,53    p<
0,0000000), sendo 74% da amostra assim dividida: 55% do estado de Rondônia; 4% do
Pará; 10 % do Amazonas; e 5 % do Acre, logo a maioria da população é advinda da região
Amazônica com supostos conhecimentos das plantas regionais. A região Nordeste foi a
segunda região mais representativa ficando com 16% da população, sendo: 8% do Ceará;
4% do Maranhão; 1,5% do Piauí; 1% de Pernambuco; !% da Bahia e 0,5% do Rio Grande
do Norte. A região Sudeste ficou com 4,5% da amostra dividida em: 2 % São Paulo; 1%
Minas Gerais; 1% Rio de Janeiro e 0,5% Espírito Santo. A região Centro Oeste
representou 3,5% da população entrevistada sendo que: 1,5% Goiás; 1,5% do Mato Grosso
e 0,5% do Distrito Federal. A região Sul apresentou o menor número de entrevistados
oriundos dessa região sendo 1,5% da amostra divididas em 1% do estado do Paraná e
0,5% do Rio Grande do Sul. Uma das pessoas entrevistadas era do Peru representando
0,5% da amostra. Encontramos dentro da amostra pessoas advindas de todas as regiões do
país com culturas diferentes e verificou-se que apenas os entrevistados da região Norte,
Nordeste e Centro Oeste citaram a utilização de plantas para cicatrização de feridas.
       Quanto à idade, a população é predominantemente adulta (25-59) 60,5%, sendo
que os jovens(18-24) representam 29,5%, e os idosos (60 ou mais) 10% (χ² =77,90 p<
0,0000000), o que condiz com a população de Porto Velho segundo o IBGE.
       A maioria da população entrevistada se declarou como parda representando 60%
da amostra ( χ²=176,4400 p< 0,0000000). Os brancos ficaram com 32,5%, os negros 7%
e como índio apenas 1 pessoa 0,5%. A cor amarela não foi citada, pois nenhum dos
entrevistados se declarou amarelo. A nossa amostra está de acordo com os valores do
IBGE onde se afirma que aproximadamente 60% da população de Porto Velho é parda.
                                                                                        14

       O sexo feminino foi predominante na amostra: 60%. Os questionários foram
aplicados durante o dia, e é mais comum encontrar mais mulheres nesse horário em suas
residências. Segundo dados do IBGE 60 % da população de Porto Velho é feminina.
        Tivemos todos os graus de escolaridade na pesquisa, sendo que o 1° grau
incompleto e o 2° grau completo foram predominantes com 32,5% e 31%
consecutivamente (χ²=89,25812      p< 0,0000000). Com 1°grau completo ficaram 4%, 2°
grau incompleto 15%, 3° grau incompleto 9% e 3° grau completo 8,5% representado ao
todo 36,5% da amostra. As pessoas de menor grau de escolaridade (1° completo e
incompleto) em sua maioria usavam planta ou não passavam nada na ferida, já os
representantes do 2° completo ou incompleto, em sua maioria usavam medicamentos
comprados em farmácia ou não usavam nada. As pessoas com 3° completo e incompletos
em sua maioria procuravam o atendimento médico.
       O questionamento levantando quanto ao que usaria na ferida para cicatrização foi
assim respondido: 23% não usaria nada; 36% usaria um medicamento comprado na
farmácia; 20% usaria somente um medicamento prescrito pelo médico e 21% da
população usaria uma planta regional (χ²= 13,28000 p< 0,004069), logo se conclui que a
maioria da população usaria um medicamento comprado na farmácia e não uma planta
regional para cicatrização de suas feridas. Tendo em vista que 80% da população mundial
utiliza-se de plantas pra fins terapêuticos (Barata,2005) e que estamos dentro de uma
região com enorme biodiversidade (Região Amazônica), esperávamos um número maior
de adeptos aos fitomedicamentos, de tão fácil acesso nessa região.
       Foram citadas, pelas 42 pessoas que responderam que usariam plantas para
cicatrização, 16 tipos de plantas, sendo que a planta mais utilizada pela população e por 9
vezes citada foi a copaíba, representando 21,5% da amostra e 56,2% das plantas, o que
representa que a copaíba é a planta mais utilizada pela população (χ²= 28,09524, p<
0,020984) para cicatrização de feridas. Crajiru e Babosa foram citadas por 5 pessoas,
representando 11,9% da amostra. Andiroba foi mencionada 4 vezes, representando 9,5%
da amostra. Mastruz e Ampicilina foram citadas 3 vezes representando 7,1% da amostra.
Sangue de dragão, Terramicina e Corama foram mencionados 2 vezes, o que representa
4,7% da amostra. As outras plantas: Amor Crescido, Folha do abacaxi, Folha de goiaba
torrada, Ginkgo biloba, Pião, Cana do Brejo e Melão de São Caetano foram mencionadas
apenas uma vez representando 2,3% da amostra.
       Das 42 pessoas que se utilizam plantas para cicatrização, a sua maioria faz uso
tópico dessas plantas 83,4%. A infusão e o óleo são a forma de veículos mais utilizados
                                                                                            15

38,1% e 33,4% consecutivamente( χ²= 9,619048 p< 0,022099). A infusão é uma forma
prática e fácil de preparo por isso é tão utilizada, e os óleos são de fácil acesso, nos
raízeros (explicar o que são os raizeiros) nessa região.
       A planta mais citada pela população pesquisada é a copaíba (copaifera sp), que já
era utilizada como agente antiinflamatório e cicatrizante desde o século XVI, quando os
primeiros colonizadores chegados nas Américas relatavam que as índias aplicavam este
óleo no umbigo dos recém-nascidos e nos ferimentos dos guerreiros após as
batalhas.(Carvalho, 1988). Segundo Maciel et al (2002) atualmente o óleo de copaíba vem
sendo usado para tratar diversas enfermidades, porem diante dessas variadas aplicações
terapêuticas, são poucos os estudos farmacológicos descritos para esse óleo. Isso nada
mais é do que incentivo para continuarmos as pesquisas e comprovarmos cientificamente
as propriedades atribuídas ao óleo de copaíba, que já tem sido alvo de estudo como agente
cicatrizante em feridas cutâneas em ratos (Brito et al, 1999). Na medicina popular a
copaíba é utilizada como agente antiinflamatório, antibiótico, cicatrizante entre outros.
       Babosa (Aloe Barbadensis Mill), já era usada no antigo Egito servindo para fins
Medicinais e religiosos, bem como para a conservação de cadáveres mumificados.
Existem    vários   estudos   científicos   comprovando     sua   ação    como:    antiúlcera
(Martinez,1996), antibiótico (Ramos Ruiz,1996), analgésico (Guardarrama,1994),
infecções bucais (Sanchez,1993), asma (Furones Mourelle,1996), antiinflamatório e sobre
sua ação cicatrizante, o que confirma a medicina popular (Léon, 1999).
       Andiroba (Carapa guianensis Aubl.), é tradicionalmente utilizada para cicatrização
de feridas, febre, vermífugo e como um potente repelente. No estudo realizado por Brito et
al (2001), onde ele avaliou a cicatrização de feridas com óleo de andiroba, concluiu-se que
a andiroba era um antiinflamatório, porém acarretava um prejuízo no processo de
cicatrização. A andiroba foi citada pela população por quaro vezes, uma das mais citadas,
como agente cicatrizante, porém vimos no estudo de Brito et al. (2001) que ela causa um
prejuízo no processo de cicatrização, logo o conhecimento popular está equivocado? Em
outro trabalho de Brito et al (2001) ele testava o óleo de andiroba como antibióticos,
porém os resultados não confirmaram essa hipótese.
       Mastruz (Chenopodium ambrosioides Lineu): cientificamente estudos tentam
comprovar sua eficácia em tratamentos de leishmania (França,1996), e tratamento para
tuberculose (Storey, 1997), porém não foi encontrado nenhum estudo que indique sua
utilização como agente cicatrizante.
                                                                                       16

       Ginkgo Biloba é um dos fitoterápicos mais populares em todo o mundo e essa
planta já era usada pela medicina chinesa há mais de 4 mil anos. Existem vários estudos
com essa planta comprovando sua eficácia na memória (Forlenza 2003), vertigem
(Becerra 1996), pró mnemônica e pró cognitiva ( Nassir et al, 2001) e antioxidante (Bride,
2001). Quanto a sua ação cicatrizante não foi encontrado, em uma busca rápida em
periódicos científicos ( LILACS E MEDLINE), nenhum trabalho que confirme sua
utilização para esse fim. Apesar da Ginkgo Biloba ter sido citada, lembramos que no
presente estudo, o interesse é sobre plantas próprias da Amazônia.
       As outras plantas citadas, Crajiru (Arrabidaea chica Verlot – usado na medicina
popular ela realmente é muito usada para lavagem de feridas), Ampicilina (nome
encontrado como “planta” apenas nos raizeros), Sangue de dragão, Terramicina, Corama,
Amor crescido (Portulaca Pilosa L), Folha do abacaxi, Pião (Jatropha curcas L), Melão
de São Caetano (Mormordica charantia L.), folha de goiaba torrada e Cana do Brejo,
apesar de apresentarem inúmeras propriedades terapêuticas segundo a medicina popular,
não foram encontrados, em uma busca rápida realizada em periódicos científicos, estudos
que comprovem seus fins terapêuticos. Dessas plantas, somente Corama e Folha de
abacaxi são conhecidas na medicina popular, como agente cicatrizante.
        A diversidade de plantas mencionadas nos remete ao grande conhecimento da
medicina popular, que infelizmente ainda não é amplamente abordada cientificamente.
Comprovação deste fato é que somente sobre cinco das dezesseis plantas citadas, foram
encontrado trabalhos científicos, em uma busca rápida realizada no site da bireme. Fica
nítido que o conhecimento popular deve ser pesquisado pela ciência a fim de comprovar
suas propriedades terapêuticas para ampliar seu uso e torná-lo seguro para a população,
sem riscos de toxicidade.
       Assim, na amostra de 200 pessoas entrevistadas, moradoras da cidade de Porto
Velho, apenas 42 utilizam-se de plantas medicinais para cicatrização de feridas.
       As plantas mais citadas pela população como agentes cicatrizantes de feridas
foram: copaíba, crajiru, babosa, andiroba, mastruz.
                                                                                      17

                             CONSIDERAÇÕES FINAIS

       O estudo conseguiu atingir seu objetivo, tendo em vista que conseguiu conhecer as
plantas medicinais utilizadas para cicatrização de feridas pela população do município de
Porto Velho.
       Coletar essas plantas junto à população, catalogá-las e fazer uma abordagem
cientifica desses fitoterápicos com estudos clínicos para verificar a sua eficácia é o
caminho para descoberta de novos tratamentos para cicatrização de feridas e outras
enfermidades.
                                                                                       18




                     DIFICULDADES ENCONTRADAS

       A aplicação do questionário foi uma dificuldade encontrada, pois apesar do fácil
acesso as regiões entrevistadas a população se negava a nos atender e muitas vezes quando
atendiam se negavam a responder, por não acreditarem que éramos estudantes em busca
de dados para pesquisa.
        Muitos que respondiam se negavam a assinar o termo de consentimento, o que
invalidava o questionário feito. Outra dificuldade foi que em alguns bairros quem nos
atendia não era morador da região, era funcionário da casa, o que também invalidava o
questionário.
       O número de estudos científicos com as plantas medicinais ainda é pequeno, o que
tornou difícil a comparação e discussão dos dados encontrados. Muitos nomes populares
das plantas citadas são desconhecidos dos autores e não foi encontrada literatura, logo
seria necessário coletar as plantas citadas para catalogar descobrindo ao certo que planta
está sendo mencionada.
                                                                            19

                                  CRONOGRAMA


    ATIVIDADE            Ag. Set. Out. Nov. Dez. Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul.
   Levantamento
                         X    X    X
    bibliográfico
Submissão ao Comitê                X    X    X
        de Ética
     Aplicação de
 questionário projeto                        X
         piloto
     Aplicação de
   questionário do                                X    X
        projeto
   Apresentação do                                          X
   Relatório Parcial
  Análise dos dados                                         X    X
       coletados
Redação de Relatório                                                  X    X
 referente ao período
   Apresentação do
relatório referente ao                                                           X
        período
   Submissão para                                                                X
      publicação
                                                                                       20

                                    REFERÊNCIAS

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