FERNANDO PESSOA NO CINQUENTEN�RIO DA SUA MORTE by 1O96mDP0

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									Fernando Pessoa no cinquentenário da sua morte

DO MESMO AUTOR;
Luts Peruo -- Acrónios. Poemas com prefácio de FERNANDO PESSOe, 1932.
Algumas notas biográficas sobre Fernando Pessoa, 1954.
Lufs PSllRO-Poemas que o vento há-de lcaar, 1955.
Fernando Pessoa e a magia. Separata do Boletim da Academia Portuguesa de Ex-Libris,
1959.
Um poeta esquecido: Francisco Bugalho. Separata do Boletim da Academia Portugaiesa
de Ez-Libris, 1960.
L. P. MOITINHO DE ALMEIDA
FERNANDO PESSOA
NO CINQUENTENÁRIO DA SUA MORTE
COIMBRA EDITORA, LIMITADA 1985
POR EXPRESSO DESEJO DOS EDITORES ESTA OBRA É RUBRICADA PELO AUTOR
0908
omposição e impressão COIMBRA EDITORA, L.DA
PREFtíC10
Tanto quanta sabemos, encontra-se ainda par fazer a análise grafológica da escrita
de FERNANDO PESSOA. Talvez o exame das longas barras dos tt em forma de lança,
dos dois manuscritos do poeta que acompanham o presente trabalho, nos venha a
revelar que FERNANDO PESSOA, não obstante a sua falta de calma e de moderação,
tinha suficiente confáança em si próprio, a ponto de ter a pré-ciência de vir a
atingir a glória, ainda que eà la longeu e mesmo fora deste mundo.
0 poeta, de resto assim no-lo dásse:
oQuero - terei - Se não aqui, Noutro lugar que inda não sei. Nada pedi.
Tudo sereiH (I).
0 certo é que FERNANDO PESSOA, sem favor a maior figura literáráa de Portugal no
século XX, atingáu a glória a ponto de já termos visto anunciar que o seu corpo
(que alguns d%zem incorrupto) vai ser trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos,
para túmulo que ficará ao lado do de LUÍS DE CAMÕES, ficando ambos a representar
o princápio e o fim do ciclo imperial português. É natural que, na altura em que
6
estas páginas sejam publicadas, já tenha havido tal trasladação (Q).
Dada a altura que atingiu FERNANDO PESSOA, é privilégio raro trr convivido com
ele e ter sádo credor da sua amizade, E eu tive esse privilégio, como as páginas
que vão seguir-se o mostrarão. Daí que eu távesse dedicado as poucas horas livres
da minha já longa vida a relembrar com saudade aspectos da vida do poeta e a procurar
compreendê-lo nos múltiplos aspectos da sua obra. Por isso fui escrevendo, pouco
a pouco, sobre aspectos biográficos de FERNANDO PESSOA e focando zonas pouco
conhecidas por onde pairou e se deteve o seu pensamento. Alguns desses escritos
foram publicados em jornais, à medida em que me era solicitada a respectiva
publicação. Esses e os que não chegaram a ser publicados constituem o presente
volume, com o qual pretendo, à minha maneira, e embora numa modesta homenagem,
participar nas manifestações do cinquentenáráo da morte do poeta, que vão ter
início em 30 de Novembro de 1985. E dedico este trabalho a todos os pessoanos que,
em maior número de cada vez e com interesse crescente, se debruçam sobre a vida
e a obra do poeta.
Cómo eu prezo a memória de FERNANDO PESSOA, com todos os seits complexos humanos
contrabalançados com o seu quê de centelha divinal Nasceu cheio de génio, aceátou
a vida eom o fatalismo de um mussulmano, viveu modesta e
honradamente como um bom cristão, raciocinou como um herege, teve assomos de
orgulho intelectual como um demónio, morreu com a tranquilidade de um justa e
deixou-nos, através dos seus escritos, um halo de bondade e de ternura que
permanecerk através dos tempos.
E não hk que esquecer a humildade (apanágio dos grandes) com que o poeta se comportou
perante a vida e perante a morte e que se traduz nestas simples mas profundas
palavras qut ele poz na boca do seu heterónimo ÁLVARO DE CAMPOS:
~Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?s (3)
Lisboa, Setembro de 1985,
L. P. MOITINHO DE ALMEIDA
NOTAS
(1) FERNANDO PESSOA-Poesias inéditas (1930-1935), Edições Atica, 1955, p. 118,
(') A trasladação j£ teve lugar na manhã de 16 de Outubro de 1985.
(8) FERNANDO PESSOA-Poesias de ÁLVARO DECAMPO$, Edições Ática, 1944, p. 23.
BREVE NOTfCIA (1)
FERNANDO PESSOA, de seu nome completo FERNANDO ANTóNIO NOGUEIRA PESSOA, nasceu
em Lisboa (freguesia dos Mártïres), filho de f OAQUIM DE SEABRA PESSOA e de sua
mulher D. MARIA MADALENA PINHEIRO NOGUEIRA PESSOA, no Largo de S. Carlos, n.~ 4-4.~
andar, onde hoje uma lápide comemora o acontecimento.
0 nascimento teve lugar em 13 de funho de 1888 às 15 horas e vinte minutos. Não
é despicienda a precisão de horas e minutos porque taïs dados têm a ver com o tra
çado do signo ascendente do poeta e da posição dos astros no momento do seu
nascimento, o que tudo tem interesse para quem se disponha a traçar e comentar
o horóscopo de quem tantos horóscopos txaçou, inclusive de heterónimos seus, Tenho
alguns livros de astrologia que me teriam permitido comentar o horóscopo de
FERNANDO PESSOA se dïspusesse dos dados respeitantes ao momento do seu nascimento.
Porém taïs livros só contêm dados muito posteriores. É claro que se me dïspusesse
a perder tempo peregrinando por livrarias, acabaria por encontrar livros com os
dados que pretendo. Mas como tempo é coïsa de que não disponho, escrevi a dois
astrológos de Lisboa com nomes na berra a pedir o traçado dos dados pretendidos,
pagando, claro está. Nenhum déles, porém, me respondeu. Fica deste modo o campo
aberto a que estudiosos de FERNANDO PESSOA - e muitos são - tracem o horóscopo
do poeta e o comen-
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1- FERNANDO PESSOA como sempre o conheci.
tem, o que será de inegável interefse. Aqui deixamos o repto (2).
0 Largo de S. Carlos, onde o poeta nasceu, como dissemos, fica a dois passos do
Largo das Duas Igrejas (dos Mártires e do Loreto}, cujo badalar de sinos sempre
ïmpressio nou o poeta, a quem muitas vezes ouvi referir que a aldeia do seu poema
uÓ sino da minha aldeia, Dolente na tarde calma, Cada tua badalada
Soa dentro da minha almao (g)
era o Largo de S. Carlos.
00 Sino da minha aldeia, GASPAR SIMÕES, é o da Igreja dos Mártires e a aldeia onde
nasci foi o Largo de S. Carlos...o (a).
Falecido que foi o pai de FERNANDO PESSOA, sua mãe viria a casar depois em segundas
núpcias, por procuração, com o Comandante JOÃO MIGUEL ROSA, então ausente em
Durban, África do Sul, para onde mâe e filho se deslocaram em 6 de Janeïro de 1896.
Dai resultou que a infância do poeta fosse toda passada na África do Sul, onde
ele apreendeu primorosamente a língua inglesa e foi galardoado com importantes
prémios escolares, designadamente o Queen Victoráa Memorial Prize.
Em 1905 FEaxnxno PESSOA regressa definitivamente a Lisboa, matriculando-se em
1906, no Curso Superior de Letras, que acaba por não tirar.
Em 1907, FExxnxno PESSOA, dispondo então de alguns capitais de uma pequena herança,
cria a Empresa Ibis-Tápografia Editora-Oficánas a Vapor, que teve curta duração.
Readaptado pouco a pouco à língua e ao ambiente portugueses, FERNANDO PESSOA começa
a escrever, colabo-
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rondo assiduamente na revista Águia. Trava conhecimento e amizade com o poeta MÁRIO
DE SÁ CARNEIRO, com quem vem a colaborar na revista Orfeu, de cujo grupo faziam
também parte, além de outros, Luís DA SILVA RAMOS (Luís DE MONTALVOR), JOSÉ DE
ALMADA NEGREIROS, SANTA RITA PINTOR, ARMANDO CORTES RODRIGUES, JOSÉ PACHECO, Dr.
RAÚL LEAL e Dr. ALFREDO GUISADO.
oÉ curioso destacar que, no grupo do Orfeu, FERNANDO PESSOA não surgia como poeta
(o poeta do movimento sendo, por assim dizer, SÁ CARNEIRO) mas sim como o que devia
imprimir pensamento filosófico ao dito movimentou IFRANclsco PEIXOTO BOURBON,
Evocando Fernando Pessoa, in Cidade de Tomar, de 14-5-1984).
A consagração geral de FERNANDO PESSOA como poeta, só viria, porém, a surgir mais
tarde, com a revista Presença, em que ele também colaborou, tendo antes colaborado
no
número único da revista Portugal Futurista e na revista Contemporânea e dirigido,
com RuY VAZ, a revista Athena, da qual saíram 5 números, com colaboração sua e
dos seus heterónimos.
Em 31 de Dezembro de 1934 é atribuída a FERNANDO PESSOA, pela publicação do livro
Mensagem, pelo Secretariado de Propaganda Nacional, o prémio ANTERO DE Quax TAL,
considerado d° segunda categoria, quando o prémio considerado de primeira
categoria foi atribuído ao livro Romaria, do Padre VASCO REts, do qual nunca mais
ninguém falou, enquanto a Mensagem ficou para a posteridade.
Contrariamente ao que sucedia a muitos dos seus camaradas de letras, FERNANDO
PESSOA, para sobreviver, teve de trabalhar e fazia-o primeiramente como tradutor
de livros e, depois, como correspondente de línguas (inglês e francês) em vários
escritórios comerciais da baixa lisboeta. Um desses escritórios, da empresa FÉLIX
VALADAS & FREITAS, LDA., era na Rua da Assunção. Foí nele que o poeta conheceu
OFÉLIA QUEIROZ, personagem do seu único
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romance de amor (Cartas de Amor de Fernando Pessoa - relato de OFÉLIA QUEIROZ,
recolhido e estruturado por MARIA DA GRAçA QUEIROZ, Ed1çÕ2S Át1Ca).
Outro desses escritórios era o do meu pai, na Rua da Prata, onde o poeta compôs
parte da sua obra, o que me levou a escrever os seguintes trabalhas:
- Algumas natas biográficas sobre Fernando Pessoa,1954; - Os vales à Caixa de
FERNANDO PESSOA, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 29 de Setembro a 12 de
Outubro de 1981;
- FERNANDO PESSOA e a Coca-Cola, in Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 16 a 19
de Março de 1982; - A casa da Baixa que foi elan> de Fernando Pessoa, in Jornal
de Letras, Artes e Ideias, de 19 de Novembro a 5 de Dezembro de 1983:
Desde muito novo que FERNANDO PESSOA sentiu que era portador de dons mediúnicos,
pelo aparecimento de personagens que existiam dentro dele, cujas mensagens
captava.
Surgiram ,assim, os heterónimos, primeiramente um tal ALExnNDER SEARCH, que se
expressava em inglês e, mais tarde, além de outros, aqueles que haviam de celebrizar
o poeta: RICARDO REIS, ALBERTO CAEIRO, ÁLVARO DE CAMPOS e BERNARDO SOARES.
oE corno são estilhaços do ser, as coisas dispersas quebro a alma em pedaços e
em pessoas dïversasu (s),
Foí com o argumento de que estava atravessando uma fase inspïrada em que servia
de umediumu reduzindo a escrito as poesïas que lhe eram ditadas, que FERNANDO PESSOA
se
desculpou perante o Eng.o Agra FRAxetsco PEIXOTO BOUR-
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sor de ter faltado a um encontro em que ambos deviam deslocar-se, ao solar daquele,
na região de Basto, região que o poeta tanto desejava conhecer e onde iria visitar
amïgos, entre os quais 0 poeta TEIXEIRA DE PASCOAIS (FRANCISCO PEIXOTO Bouxsox,
Invocando FERNANDO PESSOA, in 0 Comércio de Gaia, de 27-7-1984).
Bousoxx, no local citado, conta o episódio:
(!FERNANDO PESSOA havia aceitado o convite quando as suas relações com TEIXEIRA
DE PASCOAIS não se haviam envenenado, como ulteriormente veio, ïnfeliz mente, a
suceder. Deviam pelo contrário ser então 0 mais afectuosas possíveis mas,
ulteriormente, teria chegado ao conhecimento de PESSOA uma campanha muito bem
orquestrada tentando desacreditá-lo como poeta. Era apresentado como sendo autor
de uma poesia pesada e sobretudo indigesta. De uma poesia hermética e de um
intelectualismo excessïvo, que tinha muito pouco a ver com a poesia: Que por último,
a sua poesia carecia de ritmo, de harmonia e de expontaneidade e simplicidade,
considerados como sendo atributos de um vérdadeiro poeta.
Ora, FERNANDO PESSOA teria ficado sobretudo chocado com a virulência e o tom azedo
das malévolas críticas que lhe eram dirigidas e com grande surpresa sua conseguiu
detectar que era TEIXEIRA DE PASCOAIS quem dera cobertura às ditas críticas e
estaria mesmo na base das mesmas, pois que aos outros falhavam, por completo,
qualidades intelectuais para levarem a efeito tão acervas como, em alguns pontos,
tão certeiras críticasu
......................................................... „.,. o0ra.
prejudicado..o principal objectïvo da viagem -o visitar TEIXEIRA DE
PASCOAIS-FERNANDO PESSOA era suficientemente educado para não ix cometer a
15
grosseria de visitar FRANCISCO CARDOSO, o Cxlco DE MANHUFE, e não visitar PASCOAIS.
Seria uma desconsideração que jamais PESSOA cometeríar>.
Que a poesia de FERNANDO PESSOA é, nalguns pontos, hermética, ninguém o nega. Para
compreender esses pontos tem o intérprete de conhecer, pelo menos em linhas gerais,
as zonas maïs ou menos ocultas por onde passou o pensamento do poeta. Foi no sentido
do conhecimento dessas mesmas zonas, que também senti a necessidade de percorrer,
que elaborei alguns trabalhos, alguns inéditos, mas com os seguintes artigos já
publicados:
- A teoria da reincarnação e a literatura, in 0 Cronista, de 22 de Fevereiro de
1958;
- A religiosidade em Fernando Pessoa, in 0 Cronista, de 30 de Maio de 1958;
- Fernando Pessoa, o politeísmo e o emanantismo, in 0 Cronista, de 28 de Junho
de 1958;
- Fernando Pessoa e a Magia, separata do n.~ 12 do Boletim da Academia Portuguesa
de Ex-Libris;
- 0 Pensamento platónico de Fernando         Pessoa, in 0 Comércio de Gatia, de 27
de Julho de 1984.
Mas nem por ter pontos herméticos deixa a poesia de FEBNANDO PESSOA de ser rítmica
e harmónica, expontânea e simples, acessfvel a todos na sua maior parte e por isso
mesmo cada vez mais apreciada.
Monárquico osui generisa que era, mas grande entusiasta das sociedades inciáticas
(Rosa Crux, Maçonaria e Templários), algumas vezes FERNANDO PESSOA meteu a
colherada na vida política nacional, mas as suas intervenções mais importantes
foram a publicação, em 1928, do folheto 0 interregno, em que defendia a dïtadura
salda do golpe militar de ~ de Maio de 1926 (mais tarde viria a mudar de ideias)
(°)
16
2. - Horóscopo de ALBERTO CAEIRO, traçado p0i FERNANDO PESSOA.
17
e a publicação, no Diária de Lisboa, de 4 de Fevereiro de 1935, do artigo de fundo
AssociaÇões Secretas, em que saiu à Pça em defesa da Maçonaria quando ainda não
tinha sido aprovado, na Assembleia Nacional, o projecto de leï do deputado JosÉ
CABRAL contra as associações secretas e que visava sobremodo a Maçonaria, do qual
veio a resultar a Lei 1901, de 21 de Maio de 1935, que vigorou até à liberdade
de associação resultante do 25 de Abril.
Espírito curioso por excelência e ansioso de saber-só isso justifica a incursão
do seu espírito pelas ciências ocultas (gnose, alquimia, cabala, teosofia, teorïa
da xeen carnação, astrologia, espiritismo,          magia, etc.) - até pelas
pequeninas coisas FERNANDO PESSOA denotava desusado interesse.
$ ainda FRANCISCO PEIXOTO BOIIRBON (Evocando Fernanda Pessoa, ïn Cidade de Tomar,
de 29-6-1984) que nos conta:
uUm dia DA CUNHA DIAS agrediu-o dizendo: oh homem, você é muito curioso pois em
tudo quer meter o nariz.
E assim era de facto, poïs, não raro, perguntava onde estávamos hospedados, se
estávamos bem alojados, quanto pagávamos de renda do quarto, o que havíamos
almoçado e se a alimentação era abundante e variada e, em contraposição, nada dizia
no tocante à vida dele e nunca se sabia, ao certo, onde, de momento, se encontrava
instalado>s.
Nos últimos tempos da sua vida o poeta estava instalado na Rua Coelho da Rocha,
16-1.~ D.to, onde não tinha telefone, pelo que, nos cartões de visita, indicava
o número de telefone 41350, da sua vizinha D. VIRGÍNIA SENNA PEREIRA (mãe do poeta
JORGE DE SENNA), com a indicação de upedïr o favor de chamar, ao lado, o Senhor
FERNANDO PESSOAA.
a
IS
Em 28 de Novembro de 1935 o poeta é internado, com uma cólica hepática, no Hospital
de S. Luís, em Lisboa, onde faleceu em 30 do referido mês.
r      l (~, v,     ~~ P~~
Os momentos finais do poeta são-nos contados por João GASPAR SIMÕES (Vida e obra
de Fernando Pessoa, n, l.a ed., pp. 350 e 351) e bem denotam que o poeta saiu da
vida terrena com a mesma curiosidade que sempre o acompanhou:
FEMNANDO ~ESSOA
,~wt C°.o~ll e d•~ íntecaC~c, l~ l_•, c~.
~; p u; a
~foG.r ~~~~, .EvaY~.
3. - Cartão de visita de FERNANDO PESSOA, por ele próprio manuscrito: na face,
a direcção do poeta em Lisboa e o número do telefone; no verso, a direcção do cunhado
do poeta, a quem devia ser comunicada qualquer ocorrência grave relativa ao autor
da aMensagema. D. VIRGÍNIA SENNA PEREIRA era a mãe do poeta JORGE DE SENNA.
uAgonizava, e no meio da sua agonia, repuxando a dobra do lençol, teve, de súbito,
uma pausa de estranha inquietação, abriu os olhos, olhou em roda, e vendo
NOt17AL teAN¢Ali ~ uu weiw»a a: u~w~
d~ t 9 M~. ow h dr~.,
~~ ..Q,r.. ~ D~. ~ S r
19
4. - Factura das despesas do tratamento de FERNANDO PESSOA no Hospital de S. Luis.
J~,~n ~{.~IVV~tiv
20
Na véspera, dia 29 dé Novembro, o poeta éscrevera, pela última vez, utilïzando
lápis:
5. - OS óCnloS de FERìQANDO -PESSOA (dO livro de MARIA JOSÉ DE LExensTRE-Fevnatitdo
Pessoa-uma fotobiogvafia).
NOTAS
(r) Artigo publicado no jornal Poetas fr Tvouadovea, ano vI, Fevereiro de 1985,
sob o título 0 poeta do mês - Fernando Pessoa.
21
(~) Soube depois que existem horóscopos de FERNANDO PESSOA, possivelmente traçados
por ele próprio. Um foi exposto na exposição 0 2íltimo ano, BIBLIOTECA NACIONAL,
figurando no respectivo catálogo entre páginas F4 e páginas 65.         Outro foi
exposto na exposição dedicada a FERNANDO PESSOA na FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN.
Neste último os planetas estão colocados de modo a permitir mais fácil leitura
astrológica.
(3) Poesias de FERNANDO PESSOA, Edições Ática, 1945, p. 95.
(5) (s)
SALAZAR. JOÃO RUI DE SOUSA (Fernando Pessoa-empvegado de escvitóvio, nota 3, a
p. 10) escreve: rvEmbora certos factos indiciem que em FERNANDO PESSOA-talvez
perante aquilo que iam pondo em prática, desde 1926, o despotismo e o
ultranacionalismo cada vez mais vigentes-já estava a amadurecer, aliás em
concorrência com o lado «liberais e aabsolutamente antì-reaccionários da posição
política por ele definida no contexto de uma conhecida nota autobiográfica com
data de 30 de Março de 1935, em crescente distanciamento em relação à ideologia
em que se perfilava o novo regime. Entre esses factos sobressai a composição de
três textos poéticos de acutilaste sátira contra o Estado Novo e o seu chefe.
       Um deles, o poema «Sim, é o Estado Novo, e o povo...a está datado de 29/7J1935.
       Um outro, uma tripla sequência sobre «António de Oliveira Salazarn, tinha
por sua vez a data de 29/3/1935. 0 terceiro, «Poema de Amor em Estado Novos foi
escrito em 8 e 9J11f1935, portanto a poucos dias da sua mortes.
Cautas de Fernando Pessoa a João Gaspav Simões, p. 100. Obra poética, Rio de
Janeiro, 1960, p. 517.
FERNANDO PESSOA, nunca levou a sério o regime de
que não via, serenamente, como quem"rão esquecé qué os míopes, para ver, precisam
de óculos, pediu-que lhe dessem as suas lentes:
«Dá-me os cculos> murmurou, semicerrando os olhos enevoados.
Foram estas as suas últimas palavras».
uI know not what fo=morrow will bring».
2
ALGUMAS NOTAS BIOGRÁFICAS (1)
Começa o meu depoimento em 1923, ano em que entrei para o Liceu. Foi nesse ano
que conheci FExrrnrvno PESSOA. Nessa altura o meu pai tinha um escritório comercial
no 1.~ andar do prédio n.~ 71 da Rua da Prata, que torneja para a Rua dos Retroseiros
ou da Conceïção, para onde dão algumas das janelas do lado esquerdo,
Quando o ano lectivo acabava, e antes de irmos para férias, eu passava dias inteiros
no escritório, para não fazer asneiras em casa, e ali me entretinha a aprender
a escrever à máquina... e a fazer disparates. Mais de uma vez joguei à pancada
com o paquete, que pouco mais velho era do que eu. Foi no escritório que conheci
u0 Senhor Pessoav>, como nós ihe chamávamos. Ele fazia a correspondência em inglês
e francês e recordo-me que o seu estilo era muito apreciado. Os óculos, que mais
pareciam lunetas, davam-lhe um ar tfmido, apesar da agressividade do seu bïgode
ruivo cortado à americana, contrastando com os poucos cabelos grisalhos que tinha
na cabeça, mas eu gostava dele, e, apesar da diferença de ïdades, falávamos muito
sobre as coisas mais variadas, sem que eu supusesse, todavia, que u0 Sr, Pessoaa>
que me aturava, era, já nessa altura, aïnda que conhecido de poucos, um poeta de
extraordinária personalidade. Era visitado, frequentemente, pelo seu «cercleo de
amigos, com quem, aliás, se encontrava, quase diariamente, no Martinho da Arcada,
o seu café predilecto. Assim conheci
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AUGUSTO FERREIRA GOMES, sempre jovial, a quem PESSOA chamava ~~0 Almeirim», em
comemoração de um passeio que ambos haviam dado a essa terra Ribatejana, ANTÓNIO
Borro, 0 D?'. RAÚL LEAL, DA CUNHA DIAS, o então capitão CAETANO DIAS, cunhado do
poeta, e poucos mais, de quem não me recordo.
Muitas vezes assisti a cenas como esta:-0 oSr. PESSOA» que estava trabalhando,
em vïa de regra, à máquina de escrever, vïsto que não minutava o que dactilografava,
levantava-se, pegava no chapéu, compunha os óculos, e dizia com ar solene: - aVou
ao Abel». Ninguém estranhava essa atitude excepto eu, que a vi pela vez primeira
num verão não multo longe de 1923.
Continuei a ir para o escritório nos verões dos anos seguintes e uma vez vïm a
desvendar o mistério daquela atitude do uSenhor Pessóa», que se foi mantendo, como
um h! bito, pela vida fora e que, afinal, não tinha mistério nenhum. FERNANDO PESSOA
ia muito simplesmente ao depósito mais próximo da casa ABEL PEREIRA DA FONSECA,
na Rua dos Correeiros, para tomar uns cálices de aguardente, o que lhe fazia mais
falta do que o café do Maninho da Arcada.
Num único dia foram tantas as idas oao AbeL~ que me permiti dizer ao aSenhor Pessoa»,
num dos seus regressos ao escritório: e0 Senhor aguenta como uma esponja!», ao
que ele imediatamente respondeu, com as suas habituais ixonia e gxaça e com o osense
of humour» que lhe ficara da educação brïtânica:-0omo uma esponja? Como uma loja
de esponjas, com armazém anexo».
Era o único defeito - se era defeito - que lhe conheci. Tïnha sempre uma palavra
amiga para todos e, no escritório, todos o querïam, o respeitavam e o apreciavam
como bom companheïro de trabalho e um magnífico correspondente em inglês e francês.
Até o meu pai, que não o tomava a sério como poeta, o apreciava e estimava muito,
dando-lhe carta branca para sair sempre que lhe apetecesse porque - dizia - voltava
sempre mais em forma para trabalhar.
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6. - FERNANDO PESSOA no ABEL - Fo#ografia tirada por Mnxuat MARTINS DA HORA. No
verso do exemplar que o poeta dedicou a OFÉLIA QuEtxoz, escreveu: oEm flagrante
delitroo,
zs
Os anos foram passando e, todos os verões, antes de íi para fora, continuei a ix
paia o escritório do meu pai, Agora, que eu já fazia a barba e tinha peneiras de
conheci rr~ento, as minhas conversas com o ~~Senhor Pessoas passaram ater mais
substância e os assuntos que versávamos já tinham um certo sumo espírïtual.
Quando, numas férias do liceu, lhe pus o dilema em que me encontrava, sem saber
ainda se devia escolhei ciências ou letras, embora gostasse mais de letras, PESSOA
deu-me
o conselho de não fazer como EDCAx PõE. E contou-me esta anedota: - PõE vívïa na
América, em precária situação económica, quando lhe apareceu a oportunidade únïca
de ir para a Austrália, onde lhe era garantida posição. PóE pensou e repensou mas,
não querendo decidir levianamente, reduzïu a escrito as razões que tinha para
partïr para a Austrália e as que o levavam a fïcar na América, Aquelas eram 52;
estas 5, Resultado:-fïcou na América,
PESSOA, cujos horizontes espirituais eram sobejamente rasgados, troçava do
mesquinho feitio nacional de pretender compreender o mundo e decidir do seu destino
à mesa do café.    E contava, a propósito, que, uma vez, ao chegar à Brasileïra
do Chiado, foi censurado por um amigo, não me recordo a propósito de quê,
estabelecendo-se, então, mais ou menos este diálogo entre eles:
Interlocutor: De toda a Europa, irão. Pessoa: Então de todo o Portugal?
Interlocutor: De todo o Portugal, também n"ao. Pessoa: Ao menos de todas as
freguesias de Lisboa? Interlocutor: Isso também não.
A censura circunscrevia-se, afinal, a esse retoda a gente» que já então ezam os
«habituésa da Brasileira do Chiado.
Nos últimos anos do liceu e, depois, já na Universidade, eu ia compreendendo
gradualmente o génio de PESSOA, que havia deixado de ser para mim o curioso
empregado de meu pai, tão cheio de personalidade, paia passar a ser a fonte de
toda a minha orïentação filosófica de então. Apesar disso, tudo discutíamos, raras
vezes com unanimidade de ïdeías e muitas vezes em franco desacordo.
Interlocutor: Toda a gente te censura!
Pessoa: Toda a gente? Das 5 partes do mundo? Interlocutor: Das 5 partes do mundo,
não. Pessoa: De toda a Europa?
Sob o ponto de vista filosófico-religioso, muito há a dizer sobre FERNANDO PESSOA,
mas isso tem de ser arredado da modéstia e da extensão das presentes notas.
Tenciono abordar o problema numa pequena conferência que tenho em preparação, paia
proferir algures, e que ïntitulei, Alguns aspectos da teodiceia de Fernando Pessoa
(a).
Socialmente, FERNANDO PESSOA tinha peneiras de fidalguïa, sendo a sua ascendência
um omisto de fidalgos e judeuso -no seu próprio dizer-na qual há a contar um astró-
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logo e ocultísta cristão novo que, no século xviu, fora condenado à pena de confïsco
pelo Santo Ofício. 0 poeta ostentavá na mão, com certo orgulho, um anel de prata
com o brasão de armas dos Sousas Camisões e dos Araújos.
Em política, FERNANDO PESSOA era monárquico (s), porque entendia que a monarquia
era a única solução para conseguir barmonizar a Unidade de dïrecção com a Variedade
centrífuga dos indivíduos e das ideias que, em seu entender, devïam ser
absolutamente livres, sendo aquela Unidade de direcção a garantia das mesmas
variedades e liberdades. Por isso detestava o sindicalismo (4) e o dirigismo
porque, dizia, eram maneiras de exercer tirania (s).
Apesar das suas convicções pessoais, riüriCa FERNANDO PES soA militou na poli-,
3. - Brasão
de armas de FERNANnO PESSOA (do livro de MARIA Jos> DE LENCASTBE - Fernando Pessoa
-uma folobïografïa), a...um escudo esquartelado, no primeiro quartel as armas dos
PExEiaAS, no 2.~ as dos CAMISÕES, no 3.~ as dos Sousns e no ~1.~ as dos AxAÚJos,
como consta do Arquivo Herkldico Genealógico e do brasão pintado pelo próprio
FERNANDO PESSOA, ainda hoje conservado pela sua famíliao (Jogo GASTAR SIMÕES, Vida
e obva de Fernando Pessoa, l.a edição, I, p. 22).
tico, embora nela tivesse metido algumas colheradas. Todavia, em 1928, publicou
um manifesto, que intitulou 0 interregno, no qual defendia o regime saído do golpe
militar de 28 de Maio de 1926, argumentando que o seu ecletismo era a solução que
então convinha ao pais, meio monárquico e meio republicano. Posteriormznte, porém,
mudou de ideias, passando a encarar, com desprezo, o salazarismo (s),
E em 1934 havia o poeta de sair à liça com um artigo de fundo do Diário de Lisboa
(de 4-2) em que defendia a Maçonaria quando estava para sair a lei sobre Associações
Secretas, baseada no pxojecto do Deputado JosÉ CABRAL. 0 monarquismo de FERNANDO
PESSOA era, porém, antí-hereditário (o rei deveria ser eleito como qualquer
grão-mestre), anti-saudosista, antipassadista e, em muitas circunstâncias, mesmo
antitradicíonalïsta.
Muitas vezes o ouvi dizer, a propósito, estes versos:
«0 passado,
0 que já passou,
é um relógio parado posto de lado
por meu avô».
Nunca soube se a poesia era ou não dele, porque nunca lho perguntei. Seja, porém,
como for, ela aquï fica a colorir uma das muitas atitudes mentais do biografado
das presèntes onotas~:
Deliberadamente procuxei não imiscuir nestas ~+notasN qualquer análise à obra
poética de FERNANDO PESSOA, o que não me inibe de, e a despeito de qualquer opinião
em con trário, localizar no escritório de meu pai, onde aquele tanto poetou
directamente para a máquina de escrever, sem minùtar, a elaboração do poema
Tabacaria, de ÁLVARO DE CaM-
29
30
Pos, ~+o meu amigo ÁLVARO DE CAMPOSA, como dïzía PESSOA ao refererír-se ao seu
heterónimo.
S. -A máquina de escrever ROYAL do escritório da Rua da Prata, hoje pertença do
autor, que FERNANDO PESSOA tantas vezes dedilhou.
Na Rua dos Retroseiros, pela qual passam carros eléctricos, esquina para a Rua
da Prata, no canto fronteiro ao do escritório, no local onde é hoje a CASA PAMPAS,
exis tia, ao tempo, uma tabacaria, a HAVANESA DOS RETROSEIROS. Foi essa, quanto
a mim, a que deu o nome poema.
ao
aA Tabacaria do outro lado da rua»,.. achego.,à.janela.e,vejo'a.rua.com~uma
nitidez absolutas.
31
aQuem me dera encontrar-te como coïsa que eu fizesse, E n"ao ficasse sempre defronte
da Tabacaria defronte».
São raros os autógrafos manuscrïtos-passe o pleonasmo - de FERNANDO PESSOA porque,
como disse, ele poetava directamente para a máquina de escrever, pelo que a maior
parte do orígïnal da sua obra deve estar, ao que suponho, dactilografada, Eu tenho,
porém, a dita de possuir, no meu livro de autógrafos, um poema de FERNANDO PESSOA
e Uma máXlma d0 Seu heterónimo ÁLVARO DE CAMPOS, que se encontram escritos pelo
próprio punho do poeta e são datados, respectivamente, de 10 de Novembro de 1930
e de 12 de Novembro de 1930.
As máquinas de escrever do meu pai tiveram a honra de ser dedilhadas pelo poeta
em inúmetos momentos de inspiração, porque ele tinha a chave do escritório e estava
autorizado a ír alï a qualquer hora do dia ou da noite.
Por mais de uma vez quïs eu dactilografar qualquer apontamento da Faculdade mas,
a certa altura, as teclas da máquina emperravam. Diagnostïcava-se, porém, ïmedia
tamente, o mal, procurando e extraindo a ponta do charuto que FERNANDO PESSOA,
na véspera ou na madrugada do próprio dia, deïxara cair dentro da máquina de
escrever, num momento de abstracção e inspiração.
Em 1930, se a memória não me traí, contando com a colaboração financeira de meu
avô paterno, pensei em publicar uma revista cultural, daquelas que não geram
corifeus nem fazem monopólïo do génio literário nacional. Troquei impressões com
FERNANDO PESSOA, que seria um dos colaboradores, sobre o nome da publïcação.
Disse-me
32
ele que, se um dia voltasse a fazer uma revista - o penado da Athena já tinha
passado-chamar-lhe-ia Átrio e dar-lhe-ia também a colaboração das mais variadas
correntes. É que o Átrio é, em arquitectura, o ponto de entrada numa casa, muito
embora, através dele, haja acesso para as mais variadas salas. Ficou assente, pois
que a revista se chamaria Átrio. Mas nunca chegou a sair.
Em 1931, tinha eu 19 anos, propus-me, ao abrïgo do crédito que não chegara a utilizar
para a saída da Átrio, publicar um livro de poemas, Eu dizia ~~de vexsoso, mas
FERNANDO PESSOA, estabelecendo a distinção técnica entre uma coisa e outra
(distinção que ele próprio, aliás, nem sempre respeitou), emendou-me para
epoemasv> e eu, vencido e convencïdo, acatei a emenda.
Hoje ainda não me envergonharia de voltar a subscrever alguns dos poemas daquele
livro, assim como não me envergonho de reconhecer que a maior parte deles se
ressente dos verdes anos em que os compus e que até o título do livro, Acrónios
(isto é, astros que nascem após o ocaso do Sol) foi rebuscado no dicionário onde,
a partir da letra A, procureï uma palavra pouco vulgar que não fosse de todo
descabida.
Entre os poemas que haviam de constituir o livro, figuravam - já era atrevimento
- alguns em francês.
Não me decidi, porém, à publicação, sem submeter o original ao aïmprimaturn de
FExrrANno PESSOA. Deixei-lho no escritório de meu pai, onde ele ainda ia, embora
com menos frequência, porquanto, na altura, fazia correspondência comercial em
mais casas, sobretudo no BANCO BURNAI'. Passado tempo, bastante tempo mesmo, recebï
o nau original, acompànhado de uma carta de PESSOA. Fiquei com o nervosismo próprio
do estudante que, no exame,
C. E. Momxxo a'Assues
Neu oarc'Lnis:
nsnuacreptq, que, eüís, á, tono dizem os lngiesee, un
tgpoecripto. LS tado cúm a moior ettengio, e o conse
lho çue posso dor-lhe á eztrene:a,Fnte fecal de expor:
publicar todos os versos qne estão em portuguez, nïo pu
büaer nenhcn doe versos çue estie em froncez•
no volume intereesonte. oe poerue em trenoez rãa fórmom
(o reu vór) aaiee newanmo. Nunaa se deve eearever -
enténdendo•ee por "escrever" o "eearever 1lterariarante"
em uma lingus que se nio poeeuo de dentro, feto é, eóm
'os peneementos forredoa orge:~emente nello.
francez, mee nïo escreverie un ldvro aeeea lingur, i nió
ser sob ameoge de fusillnento enrmrrio, ou coins pareai
da. Pybllguei traz poemas qn Poncez - por cambre de
brincedgira • am um nunero á "Contemporenee", e um amigo
nau, profundo conhecedor do fronces, pediu-ne pers não
repetir a proeza. Os nous paemoe eram decentemente em
trenoez, rue, apesar d'ieeo, eimpleemente nia existiam•
tereeeente. Kss isto nia óbeta a que hrla nelhor Opinião .
menoa alaooliao, ppr exelpló...
Koito seus .        /
lle+xo•lhe (e jí uio é eara tanpo) a sau
Os poerue em port~uez formam um pegae
~u mesmo, como sebe, sei alguma ooiea de
"'iroate o tirado, o seu livro ficorí in•
33
9. - Carta de FERNANDO PESSOA para o autor, datada de 9 de Novembro de 1931.
a
34
não andou nem bem nem mal e aguarda, ansiosamente, que seja afixado na pauta se
passou ou ficou reprovado, isto porque FERNANDO PESSOA era capacíssimo para me
regrovar e me convencer da reprovação, como já o fizera anteriormente, algumas
vezes, em dïferente matéria. Resolvi-me a abria a carta. Era datada de 9 de Novembro
de 1931 e senti um forte reconforto interior ao ler estas palavras, cuja ortografia
antiga mantenho por ser a propositadamente usada por FERNANDO PESSOA:
~~Lí tudo com a maior attenção, e o conselho que posso dar-lhe é extremamente fácil
de expôr: publicar todos os versos que estão em portuguez, não publicar nenhum
dos versos que estão em francezu.
Após o uimprïmatur» para os poemas portugueses achei-me com coragem para pedir
a FERNANDO PESSOA um prefácio para o livro. 0 pedïdo foi deferido e esse prefácio,
onde são histerïados com pximor os vários estágios da evolução da poesia, 1á está
a valorizar bibliograficamente o livro, como prémïo de consolação para quem teve
a bondade de o adquirir.
k
Por essa altura FERNANDO PESSOA e eu caturrávamos com mais frequência no escritório
de meu paï, onde ele agora ia menos vezes, como disse. 0 meu pai, se não levava
PESSOA a sério, como poeta, a mim muito menos ainda, e várias vezes me reprovou
de lhe atrasar a correspondência, encurtando-lhe o já curto tempo de que ele
dispunha de PESSOA para o seu serviço.
Eu lastimava-me então da atitude de meu pai para comigo, e FERNANDO PESSOA, para
não me desconsolar, dado que eu me arrogava a qualidade de valioso vate, ia-me
a
PRSF~ACIO
0 rroCrec^o da poecin, isto d, c das fdrr,as pceticaa - pais J:, :ne~;,n nccsia,
que E a verù.+de viva, n;it ,9Ec haver provires^.o, neri Éortra fci ainda supera
dó -, abedeée áqueila dure'lei a qae todo pregrteso obedece; em outras, palavras,
! um caso particular de u,:.'p.".tnrr.enn Cerol. llesi~na-ac per progrtsso a
a:quieiç6a de yaa coisa que E u a vantaCem caiai por :áeio dt perda de cetra coisa,
gneY era a~a: cantogte aceial taw bea,       E .cosa ty•picc o da fcneçso da Europa
madorna; surCiu atravaz.ùa crouçúo, ùicersa e celoriùn, das re
do . ~.`°
tio..°,alidadas dis:1.^.ctas; rtsultou nr, gorda ~ na+aàida ranain~ c do ueo
universal da língua latino, pel~.s gores es nações de Saropa tinhan~ naturajaente
a fraterhidade que hoje ee bueas em vâo, pcrgae srtüiclalsentt,
As fóraaa pcetàcaa, a dentro da naesa civ>~itação da
. isto E, daadeue Grecía aiá nda •,atravessaram trez estsàica dietinctos; o eatadio
quantitativa, da pateia grega t latina, em que o rhythmo et ihrdnra na quant!•
dade das syllnbas, presuppondo e erigindo ume e~usctid5o a ausioalidadc de dicçrïo
e proriançia Que boja nem sequer cenccbauae; o estadip eyllabico, em Que o nu^~ero
dam eyllabae no vtrao, a accentuaçãc,e artifícios como a rime e s strophe rimada
faziam por compensar a perda da antiga precisão q.uzntitativ0~ o estadia rhythmico,
em que st nEo cara da quanto seja regrl, ou o pareça, ano®se reduz a pateia,
tamaE;nente, n uas prosa coro peu
10. --- Primeira folha do original dactilografado do prefácfo do livro Acrónios,
com emendas manuscritas por FEBNANI)0 PESSOA,
36
dizendo que as pessoas de família nunca levam os poetas a sério, e contou-me a
seguinte anedota:
No século xvl, na velha Rua Nova, estavam dois espadachins conversando, quando
viram passar um 3.~ espadachim. Díz o 1.~ para o 2.~: «Lá vai o grande poeta Luís
DE CAMÕESO. 0 2.~ espadachïm olha para quem ia passando de forma a certïficar-se
da sua identidade, e acabou por retorquir : - oAquele?           Esse é mas é o meu
prima Luso.
Não me recordo, ao certo, quando, mas foi entre 1931 e meados de 1934, que VALENTINO
DE SÁ, o estudante indiano que viera para Lïsboa estudar medicina e que poetava
sob o pseudónimo de EUGÉNIO MORENO, tendo colaborado nalgumas edições de livros,
se propôs editar a obra poética de FERNANDO PESSOA. Conhecendo as minhas relações
com o bïografado, VALENTINO DE Sti pediu-me uma apresentação. Provoquei o encontro
de ambos, que teve lugar no vão da escada de um prédio da Rua dos Fanqueiros onde
funcionavam secções do BANCO BURNAY, e assistï à conversa: PESSOA pretendïa que
todos os seus poemas, incluindo os dos seus heterónimos, fossem reunidos numa única
obra, que se intïtularia Cancioneiro e que se comporia de determinados volumes
numerados. Ficaram de se encontrar de novo, mas não sei se voltaram a conferenciar.
Todavia o Cancioneiro, tal como FERNANDO PESSOA o gizara, nunca chegou a sair.
E VALENTINO DE Sé, que já deixou de pertencer ao número dos vïvos, está inibido
de prestar o seu depoimento, que serïa deveras interessante se ambòs chegaram a
pensar, a sério, na publicação do Cancioneiro.
Numa fria manhã de Dezembro (') recebi, com surpresa, a notícia da morte de FERNANDO
PESSOA.
Lá fui ao funeral, que foi para o Cemitério dos Prazeres, Pequeníssimo
acompanhamento: - algumas pessoas de família e alguns amigos. Ali me recordo de
ter visto CAETANO DIAS, AUGUSTO FERREIRA GOMES, DA CUNHA DIAS, LUÍS DE MONTALVOR,
Dr. JOSÉ JAYME NEVES e J0~0 GASPAR SIMÕES.
Enquanto, na capela do cemitério, o sacerdote entoava o versículo da liturgia dos
mortos do rito católico-romano
aRequiescat in pace»
e o acólito continuava
oÁmena
passava-me na memória, com uma ponta de ironia, a orgulhosa declaração datada de
30 de Março de 1935, em que o poeta fixara assim a sua posição religiosa:-uCristão
gnóstico e, portanto, inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas e,
sobretudo, à igreja de Romao (s).
Espírito aristocrático por excelência, vivendo do isoterismo dos seus conceitos,
poeta apara os raros apenas» - como dlrla EUGÉNIO DE CASTRO-FERNANDO PESSOA, Um
tOrtUradO de todas as filosofias (apesar de confessadamente neóplatópico) nunca
podia ter agradado ao grande público seu contemporâneo, mais preocupado com o
futebol do que com os altos problemas do espírito.
Daí o deficiente nível económico em que o poeta viveu, apenas atenuado pelo carinho
de alguns parentes e a bondade de alguns amigos.
Conservo, com ternura, a hoje relíquia de alguns vales à caixa que o poeta se via
obrïgado a passar quando as necessidades materiais apertavam.
37
38
Pode afoitamente afirmar-se que o grande público ou o desprezou, ou, pior ainda,
nunca teve a curiosidade de conhecer a sua obra, quanto mais não fosse para a
criticar.
E todavia, brilhando na penumbra da mesquinhez do nosso meio intelectual, a
inteligência e a sensïbilidade artística de FExNANDO PESSOA, na sua obra
proficientemente reveladas, fazem com que esta atinja um nível mental raramente
alcançado pelos cultores da inteligência de todo 0 mundo.
I4Ias as massas que compõem o ogrande público», por um estranho paradoxo que também
é fatalismo hfstcrico e leï de compensação, têm a tendência para, após a morte
dos Grandes que desprezaram, os guindarem a elevados cumes de conceito. Foi o que
sucedeu a CAMÕES, a AFONSO DE ALBUQuERQuE, e a tantos outros grandes
ïncompreendidos da História cuja enumeração encheria resmas e resmas de papel.
Foi o que sucedeu também a FERNANDO FESSOA. Volvidos poucos anos sobre a sua morte
já existia uma bibliografia fernandina, à qual nem sequer faltava polémica (s).
As edições da sua obra poética sucedem-se. 0 seu nome está em todas as bocas.
Os seus poemas abun--dam nas selectas escolares.
Em determinado meio, com certas responsabilidades intelectuais, mas eivado do
vício nacional do superlatïvo, até ouvi discutir qual serïa o maior poeta
português, se CAMÕES se PESSOA, acabando os contendores, prudentemente, por
concluir que cada um no seu género,
Agora que as letras portuguesas estão vivendo a euforia de FERNANDO PESSOA, já
não ocorre a ninguém que, apesar da sua grandeza espiritual, o poeta viveu infeliz,
pelintra e quase desconhecido.
Por ïsso, e para finalizar-que já vai sendo tempopermíto-me dedicar-Ihe o poema
final- Balada da celebyi
dade póstuma - do livro que ele bondosamente prefaciou em 1932:
NOTAS
(') Palestra proferida, sob o título Algumas notas biográficas sobre FERNANDO
PESSOA, no ROTARY CLUB DE SETLiBAL, em 3 de Abril de 1954, repetida do Cenáculo
TÁBUA RASA em 10 de Dezembro de 1957, e publicada, sob o título Um depoimento sobre
Fernando Pessoa, na revista Viagem, n.~ 207.
(~)    Afinal moca cheguei a escrever esta projectada conferência. Escrevi, sim,
vários artigos focando aspectos da teodiceia do poeta, que fazem agora parte do
presente trabalho.
(9) JoEt Srxxno (A'as origens do projecto cultural de Pessoa (1910-1912), in Actas
do I Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, pp. 329 é ss.) apoda FExxnxno
PESSOA de republicano,
39
oNo tempo em que vivi eu vi
que era indiferente
àquele mundo que jamais entendi: - a toda a gente.
Permaneci sempre diferente de tudo o que é fácil e acessível.
Vivia
num outro nível. onde via
tudo e todos multo em baixo. Hoje, porém, eu acho, infelizmente,
que desci
ao nível daquela gente
que em vida nunca entendi».
40
porque ele considerava a Monarquia caída em 1910 a causa dos males nacionais. Isso
não passa, porém, de uma das aparentes contradições do poeta. Se ele era contra
determinada Monarquia, não se segue necessariamente que o fosse contra todas as
Monarquias. Que PESSOA era monárquico, dizem-no, além de nós, as Cautas de Amor
de FERNANDO PESSO-A (p. 31) e FRANCISCO PEIXOTO BOURBON (Fernando Pessoa e a Ideia
Monkvquica, in Consciência Nacional, n.~ 99, Janeiro de 1984). FERNANDO PESSOA,
porém, põe os pontos nos ü nesta matéria, embora pelo modo desconcertante que lhe
era peculiar, ao definir a sua ideologia politica na nota biográfica datada de
30 de Março de 1933 e glle pode ler-se a pp. 361 e 362 do 2.a volume da l.a edição
da Vida e obus de Fernando Pessoa, de Jono GASPAR SIMÕES: aConsidera que o sistema
monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é
Portugal. Considera, ao mesmo tempo a Monarquia completamente inviável em
Portugal. Por isso a haver um plebiscito entre regimes votaria, embova com pena
(o sublinhado é nosso), pela Repúblicas.
(') Aos sindicalistas FERxeNDO PESSOA chamava aSubgente° (A Nava Poesia
Povtuguesa, in FERNANDO PESSOA, Textos de Crítica e Intervenção, p. 41. 0 mesmo
testemunha o seu biógrafo FRAN clsca PEIXOTO BOURBON (A abusiva apropriação da
figura impar de FERNANDO PESSOA, in Cidade de Tomar, de 8-2-1983).
(fi) Para melhor se compreender o que FERNANDO PESSOA entendia por tivania (tirania
já existente e tirania nova), há que Ler o seu Banqueivo A~aarquista. Era contra
a criação de tirania nova que FERNANDO PESSO.^. se insurgia.
(°)    ANTóNIO QUADROS     (Fernando Pessoa - vida, personalidade e génio, 2.°
edição, p. 104), dá-nos nota da seguinte irónica poesia de FERNANDO PESSOA, aliás
divulgada por JoEL SERRÃO (Fernando Pessoa e o Fascisma,in Dikvio de Notícias,
de 29-5-1979):
pANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR Três nomes em sequência regular... António é António
Oliveira é uma árvore. Salazar é sb apelido. Até aí está tudo bem. 0 que não faz
sentido É o sentido que tudo isto teme.
f )    No original, em vez de anuma fria manhã de Dezembro° estava escrito anuma
fria manhã de Novembro», o que era, evidentemente, errado. Porque o poeta falecera
em 30 de Novembro de 1935,
41
às 20,30 horas, nunca o seu funeral podia ter tido lugar nesse mesmo mês.
Nunca nos apercebemos do erro até que para ele foi chamada a atenção por MANUEL
VILHENA DE CARVALHO, rio artigo Pessoa maltvatado no registo civil, in Jornal de
Letras, Artes e Ideias, de 6
a 12 de Dezembro de 1983. Damos, evidentemente, a mão à palmatória.
(°) Nota biográfica do próprio FERNANDO PESSOA, in 1.a edição de Vida e Obra de
Fernando Pessoa, de João GASPAR SIMÕES, vol, II, p. 362.
(°)    Já houve até um 1 ~ Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, realizado
no Porto de 3 a 5 de Abril de 1978 pelo CENTRO DE ESTUDOS PESSOANOS, cujas Actas
foram publicadas pela BRASÍLIA EDITORA. E, em 1983, Josá BLANCO, no seu livro de
476 páginas, Fernando Pessoa - Esboço de uma bibliograjïa, dá-nos conta da
numerosíssima literatura até então existente (e alguma ficou de fora) sobre a vida
e a obra do poeta.
É também de assinalar o aparecimento, em 1981, de FERNANDO PESSOA-uma
fotobiogvafia, de MARIA JOSÉ LENCASTRE, onde, pela primeira vez, é apresentado,
em 319 páginas, um con junto de fotografias respeitantes à vida do poeta e à
respectiva época.
Houve mesmo um 2.° Congresso Pessoano, em Lisboa, em 1985.
3
OS VALES À CAIXA (1)
No n.~ 3 da Revista de arte, Athesta, que então dirigia com RUY VAZ, publicava
FERNANDO PESSOA, em 1924, o poema Gládio, onde começava por dizer:
rBeu-me Deus o Seu gládio, porque eu faça A Sua santa guerra.
Sagrou-me Seu em génio e em desgraça As horas em que um fio vento passa Por soba
a fria terraa.
E no poema de p. 57 das Poesias inéditas (1930-1935), das Obras completas de
Fernando Pessoa, Edições Ática, diz o poeta:
aVem dos lados da montanha Uma canção que me diz
Que, por mais que a alma tenha, Sempre há-de ser infeliz.
0 mundo não é seu lar E tudo o que ele lhe der São coisas que estão a dar A quem
não quer recebera.
Nos referidos poemas denotou FERNANDO PESSOA, com grandeza, a consciência do génio
que era, ao mesmo tempo
44
que, humildemente, reconheceu que era um desgraçado, um infeliz.
E, pelo menos em certa medïda, foi-o.
Não falo já dos problemas familïares que o devem ter atormentado, porque esses
transcendem o meu conhecimento. Mas posso testemunhar as dificuldades económicas
que acompanhavam a sua desgraça.
Por isso escrevï nas minhas Algumas notas biográficas sobre Fernando Pessoa (1954),
onde referia que o poeta prestava serviços no escrftórío comercial de meu pai,
onde fazia a correspondência em inglês e francês, vivia só, de costas viradas para
o mundo que o rodeava e apenas preocupado com o seu grande universo interior:
abai o deficiente nível económico em que o poeta viveu, apenas atenuado pelo carinho
de alguns parentes e a bondade de alguns amigos,
Meu pai conserva, com ternura, a hoje relíquia de alguns avales à caixa» que o
poeta se via obrigado a passar quando as necessidades materiais apertavam».
Na altura em que tal escrevi não tinha ainda visto os vales, apenas sabendo da
sua exístêncïa pelo que meu pai dizia.
Porém, por falecimento de meu pai, quando minha mãe sentiu necessidade de se
desfazer de uma cave cheia de livros e papéis (alguns irrecuperáveis e de inegável
interesse mas que não havïa onde os meter) vieram parar à minha mão os vales,
acompanhados por uma relação manuscrita dos mesmos, não assinada, mas em cuja
grafia suponho reconhecer a letra do guarda-livros, Sr. ANTÓNIO Tollés.
Aí se referem 17 vales totalizando 510$00, 14 dos quais correspondem aos que recebi.
Destes me desfiz, porém, de um (cuja fotocópia conservo todavia), de 30$00, datado
de 22 de Junho de 1935, que ofereci ao meu amigo Dr, FERNANDO ABRANCHES FERRÃO.
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45
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Zo.QO ~0~ u o v:
~do,oo
11. - Relação dos vales,
Os montantes de cada um dos vales que recebi varïam entre 10$00 (um único, datado
de 17-8-1934) e 70$00 (um único, de G-9-1934).
46
Em todos eles, com excepção dos vales de 20$00, datado de 14 de Setembro de 1934,
e de 30$00, datado de 24 de Junho de 1935, se encontra o visto de meu pai.
Entre os vales que recebi e os constantes da relação, faltam 3 vales,
respectivamente de 20$00, 20$00 e 30$00.
12. - 0 primeiro vale.
13. -- 0 último vale.
47
A relação não refere datas, mas suponho que os vales sejam anteriores a 24 de Junho
de 1935, data do último vale que tenho e dado que os vales foram relacïonados por
ordem de datas, embora sem referir as mesmas. Ignoro para onde foram tais vales.
Talvez o meu pai, em vida, os tivesse oferecido a alguém.
Note-se que FERNANDO F~ssoe foi internado no Hospital de S. Luís dos Franceses
em 29 de Novembro de 1935 e faleceu em 30 do referida mês. Isto me leva a concluir
que os últimos vales antecederam por pouco tempo os últimos dias de vida do poeta.
Note-se também que a série de_ vales se inicia em 3 de Agosto de 1934 e se interrompe
em 15 de Setembro de 1934, para apenas continuar em 22 de Jirnha de 1935, com a
passagem do vale dessa data.
Existe assim o período de cerca de 1 ano em que FERh~nrrno PESSOA não meteu vales
à Caixa no escritório de meu pai. Te-los-ia metido à Caixa de qualquer dos outros
escritórios para os quaïs também trabalhava? Ignoro.
0 certo porém é qüe foi pzecïsamente nos últimos meses de 1934 que FEarrANno PESSOA
publïcou a Mensagem de que me ofereceu um exemplar em 6 de Dezembro do referïdo
ano.
Ora a Mensagem foi premiada com um prémio pecuniário pelo então SECRETARIADO DE
PROPAGANDA NACIONAL, onde pontificava Axróxro FERRO. Tal per mitiu ao poeta um
ligeïro desafogo, embora pouco lhe sobrasse depois de pagar as suas dívïdas,
conforme nos relatou o seu barbeiro, na entrevista que, na televïsão, Lufs nE STTAU
MONTEIRO Ihe fez, salvo erro, em Fevereiro de 1981.
Deste modo se explica, em meu modesto entender, que FERNANDO PESSOA não tivesse
apresentado vales à Caixa, no escritório de meu pai, no período compreendido entre
14 de Setembro de 1934 e 22 de f unho de 1935, que deve ter sïdo o período áureo
do seu relativo bem-estar económico.
4$
Os vales, pelo simples facto de existirem em poder do credor, denotam que nunca
chegaram a ser pagos.
São porém de quantïas diminutas, mesmo em relação à época em que foram emitidos,
que bem denotam quanto FERNANDO PESSOA, que nunca poderia ter sido integrado numa
sociedade de consumo, desdenhava a vida matexial, da qual só exigia o indispensável
à sua sobrevivência, já que todo o seu pensamento, todo o seu entusiasmo e todo
o seu
estro poético, em suma, todo o seu génio, iam para o seu        I grande universo
interior, do qual a sua poesia e a dos seus         Í heterónïmos são apenas uma
afloração.
Por isso o poeta disse uma vez, através do seu extro- I vertido heterónimo
ÁLVARO DE CAMPOS, que FERNANDO PES
soA é oum novelo enrolado para o lado de dentro (z). I
NOTAS
(1)   Artigo publicado no Jornad de Letras, Artes e Ideias, ano t, n,~ 16, de 26
de Fevereiro de 1982, p. 21,
( s ) ÁLVARO DE CAMPOS, Notas para a recordação do meu mestre Caeiro, in FExxnxno
PESSOA, Textos de trinta e intervenção, p. 269.
4
A COCA-COLA (')
Na página necrológica do Diário de Notícias de 18 de Julho de 1981, vinham as
participações da Adminïstração e dos empregados de Mc CANN-ERIKSON~HORA partïcipar
o
falecimento do fundador da referida empresa, MANUEL MARTINS DA HORA.
0 falecido era um homem bondoso, que cheguei a ver, de saco na mão, à porta da
igreja de Nossa Senhora de Fátima, a pedir para os pobres da Conferência de S.
Vicente de Paulo.
MANUEL MARTINS DA HORA, embora não fosse um intelectual, fazia parte do ncercleo
de amigos de FERNANDO PESSOA que o visitavam assiduamente no escritório comercïal
de meu pai, onde PESSOA então trabalhava.
Por altuxas de 1927 ou 1928, andava eu nos últimos anos do liceu, como ïa com muita
frequência ao escxítório de meu paï, passei a notar que entre ele, MANUEL MARTINS
DA HORA e FERNANDO PESSOA havia muitos conciliábulos. Pouco tempo depoïs meu pai
aparece como agente da Coca-Cola em Portugal e estou convencido que foi MANUEL
MARTINS DA HORA que, por certo com combinada participação, levou esse negócio para
o escritório, tanto maïs que, já depoïs do 25 de Abril, quando a Coca-Cola assentou
defínïtívamente arraiaïs em Portugal, o nome de MANUEL MAR4
50
TIxS DA HoxA volta a aparecer mais ou menos ligado ao produto.
Na sua qualidade de agente da Coca-Cola, meu pai fez várias encomendas da
mercadoria, que vinha então dos Unidos da América em garrafões e em garrafas, estas
muito parecidas, se não iguais, àquelas em que actualmente se serve a bebida no
nosso país.
0 mercado (pelo menos o de Lisboa) foi abastecido de mercadoria e eu recordo de
tê-la tomado, mais de uma vez, na companhia de condiscípulos do liceu, na esplanada
da PASTELARIA VERSAILLES, que então existia na Avenida da República.
Da propaganda comercial do produto foi encaz.regado FERA'ANDO PESSOA que era,
aliás, quem fazia a correspond€ncia com a empresa americana representada.
FERNAxDO PESSOA colaborava assiduamente na Revista de Conaéycio e Contabilidade,
dïrigida pelo seu cunhado, o então Capitão FaAxetsco CAETANO DIAS. Sabia de
comércio como gente grande e era exímio em oslogans» de propaganda comercial. 0
seu parente e meu amigo Dr. JosÉ JAIME NEVES ainda conserva algùmas oplaquetes»
de propaganda de artïgos do escritório de meu pai (pelo menos das tintas e vernizes
13ERRYLOID),_ onde se pressente a linguagem inigualável dè FERNANDO PESSOA. Tenho
pena de não ter consetvado nerìhuma déssas aplaqùettës» (z).
Estados
14. -- Um reclamo da Goca-Gola no princípio do século.
51
Paxa anunciar a Coca-Coda, PESSOA imaginou o seguinte eslogana:
nPrimeiro estranha-se, depois entranha-sea.
A mercadoria começou a vender-se em ritmo animador, mas o oslogann de FEaxnxno
PESSOA ajudou à morte da representação da Coca-Cola por meu pai,
15. - FExxnr no PESSOA, à esquerda e o pai do autor, à direita, Ao centro: o inglês
Mr. FALLON, com quem o pai do autor negociava em tabacos e a sua secretária, Miss
HARRIES,
52
É que nessa altura era Dizector de Saúde de Lisboa o Dr. RICARDO JoxcE, que mandou
apreender o produto existente no mercado e deitá-lo ao mar, No escritório de meu
pai ainda me recordo de ter visto alguns garrafões do precïoso líquido selados
pela Direcção de Saúde.
0 Dr, RICARDO JORGE-contava-me FERNANDO PESsoA - justificava o seu entendïmento
argumentando: se do produto faz parte a Coca, da qual é extraído um estupefa
ciente, a cocaúia, a mercadoria não podia ser vendida ao público, para não intoxicar
ninguém; mas se o produto não tem Coca, então anuncìá-lo com esse nome paia o vender
seria burla, o que igualmente justificava que ele não fosse permitido no mercado.
Perante o oslogan» de FERNANDO PESSOA, o Dr. RICARDO JORGE enteridla - contava
igualmente FERNANDO PESSOA - que ele era o próprio reconhecimento da toxidade do
pro duto pois que, se primeiro se estranhava e depois se entranhava, ïsso é
precïsamente o que sucede com os estupefacientes que, embora tomados a primeira
vez com estranheza, o paciente acaba por adquirir a habitualidade deles,
Escusado será referir que meu pai teve um enorme prejuízo com a interdição da
Coca-Cola e com o consequente fim da respectiva representação em Portugal.
Já não exïstem os arquivos de correspondência do escrïtórío de meu pai, o que hoje
seria interessante de consultar. Mas talvez ainda exista o processo da Coca-Cola
na Direc ção de Saúde de Lisboa. Se assim for, a história de Fernando Pessoa e
a Coca-Cola ainda pode ser melhor contada.
NOTAS
(I)    Artigo publicado no Jornal de Lett~as, Artes e Idetias, de 16 a 29 de Março
de 1982, sob o título Fernando Pessoa e a Coca-Gola. fa) Um interessante artigo
de Jono Rvr DE Sousn, Fernando Pessoa empregado de escritório, in Ac¢ão Socialista,
de 16 de Agosto
53
de 1984, reproduz-nos o texto de FERVANI)0 PESSOA, o Automóvel ia desaparecendo,
de propaganda às tintas BERRYLOID, o qual nos permitimos transcrever:
nEu explico como foi (disse o homem triste que estava com uma cara alegre), eu
explico como foi...
Quando tenho um automóvel, limpo-o. Limpo-o por diversas razões: para me divertir,
para fazer exercício, para ele não ficar sujo.
0 ano passado comprei um carro muito azul, Também limpava esse carro. Mas cada
vez que o limpava ele teimava em se ir embora. 0 azul ia empalidecendo e eu e a
camurça é que ficávamos azuis. Não riam... A camurça realmente azul; o meu carro
ia passando para a camurça. Afinal, pensei, não estou limpando este carro: estou-o
desfazendo.
Antes de acabar um ano, o meu carro estava metal puro: não era um carro, era uma
anemia. 0 azul tinha passado para a camurça. Mas eu não achava graça a essa
transfusão de sangue azul.
Vi que tinha de pintar o carro de novo. Foi então que decidi orientar-me um pouco
sobre esta questão dos esmaltes. Um carro pode ser muito bonito, mas, se o esmalte
com que está pintado tiver tendências para a emigração, o carro poderá servir,
mas a pintura é que não serve. A pintura deve estar pegada, como o cabelo, e não
sujeita a uma liberdade repentina, como um chinó. Ora o meu carro tinha um esmalte
chinó, que safa quando se empurrava.
Pensei eu: quem será o amigo mais apto a servir-me de empenho para um esmalte
respeitável? Lembrei-me que devia ser o BAS1os, lavadeira de automóveis com uma
Caneças de duas portas nas Avenidas Novas. Ele passa a vida a esfregar automóveis,
e deve portanto saber o que vale a pena esfregar.
Procurei-o e disse-lhe: BASros amigo, quero pintar o meu carro de gente. Quero
pintá-lo com um esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável. Com
que esmalte é que hei-de pintar?
Com BERRYLOID, respondeu o BASTOS, e só uma criatura muito ignorante é que tem
a necessidade de me vir aqui maçar com uma pergunta a que responderia do mesmo
modo o primeiro chauf feur que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata
de sardinhas~.
Vimos depois (in José Br.Atvco, Fernando Pessoa - Esbcço de uma bibliografia, p.
80) que o referido texto havia sido também publicado in Fclhas de Poesia, tr, pp.
22 e 23,
5
A CASA DA BAFA LISBOETA QUE FOI «LARn DE FERNANDO PESSOA (t)
Há pedras, há lugazes que falam. A mim, nenhum lugar me fala tanto como o prédio
da Rua da Prata, n.~ 71, em Lísboa, tornejando para a Rua dos Retroseiros ou da
Conceição.
16. - 0 prédio n.°6 67, 69 e 71 da Rua da Prata.         Os n.Pe 67-e 69
correspondem à Ourivesaria Moitinho. 0 n.~ 71 é a entrada para os vários andares.
A esquerda vêem-se perfeitamente as quatro janelas deitando para a Rua dos
Retroseiros. Do artigo de Jono Rut nE Sousn, Fernando Pessoa ewpvegado de
escritório, in Notícias Sitese, n.~ 23, de Agosto de 1989.
56
Nesse prédio viveram meu 4 ~ avô LUCAS XAVIER FERREIRA, ourives contrastador da
prata, que ali fundou, nas respectivas lojas em 1790, uma ourivesaria que mais
tarde viria a ser denominada Ourivesaria Moitinho (2), nome que ainda hoje
conserva; sua filha MARIA DA CONCEIçÃO FERREIRA e seu genro ISIDORO DA SILVA
CARDoso, nascido em 6 de Abril de 1799, também ourives da prata, contrastador;
a filha destes MARIA DA GLÓRIA DA SILVA CARDOSO e marido Luís FINTO MOITINHO,
nascido em 26 de Janeiro de 0 bisavô do autor, Lufs PINTO Mor-        1837,
      também       ouxi
Trxxo (1837-1905),       ves da prata e que fundou o Asilo de Santo António de
Lisboa, pelo que tem uma- rua com o seu nome na freguesia dos Anjos, desta cidade;
e ainda meUS AVÓS paternos ANTÓNIO JOAQUIM SIMÕES DE ALMEIDA e ISABEL MARIA PINTO
MOITINHO, filha do já referido Lufs PINTO MOITINHO, que habitaram os 3.o e 4.~
andares, cujas escadas os emïssários do rei Eduardo VII de Inglaterra subíxam para
entregar a meu avô as ïnsígnías de Cavaleïro Comendador da Ordem Vitórïa (K. C.
V. 0.), que tinha por ínerêncïa o tratamento de oSix».
Em princípios do século, todo o prédio se encontrava ocupado pela minha família:
nas lojas era a ouzïvesaría, nos 1.~ e 2 ~ andares viviam meus bïsavós Lufs PINTO
MOITI
57
xxo e mulher e nos 3.o e 4.o andares viviam meus avós ANTÓNIO JOAQUIM SIMÕES DE
ALMEIDA e mulher.
A pouco e pouco a situação foi-se modificando.
Meu pal, CARLOS EUGÉNIO MOITINHO DE ALhIEIDA, em 1907, passou a ocupar todo 0 1.~
andar onde estabeleceu um escritório comexcïal de comissões, consignações e conta
própria.
Meu aVÔ ANTÓNIO JOAQUIM SIMÕES DE ALDIEIDA trespassou a loja, que todavia conserva
ainda hoje, como disse, o nome de OURIVESARIA MOITINHO.
A certa altura meu pai constituiu a sociedade MOITIda qual cheguei a ser sócio
~árr
NHO D'ALDIEIDA, Lda., nomineo. Fora essa sociedade entrou mais tarde outro sócio
que virou a sociedade do avesso. Como, por morte de meu pai, nem minha mãe nem
meu irmão nem eu nos conseguimos entender com aquele sócio, cedemos as nossas
quotas, a ele e a quem ele indicou, contra a obrigação por ele assumida
da inteira responsabïlidade pelo passivo. Foi assïm o prédio ficando livze da minha
família.
Porém, um personagem não da família, mas ïndivïduali dade marcante, havia de passar
a fazer
16. - 0 avô do autor, AxTGNIO JoAQurM SIMÕES DE ALMEIDA (1858-1934). Quadro do
pintor CusT6DIO DE CARMO existente na Associagão Comercial de Lisboa,
58
parte, e de que maneira, do drama do prédio. Refiro-me a FERNANDO PESSOA.
E o seu drama situa-se precisamente no 1.~ andar onde foi o escritório do meu pai,
de quem FERNANDO PESSOA era correspondente de línguas (inglês e francês).
A seguir à sala grande dos empregados, para o lado da Rua dos Retroseiros, havia
uma sala de espera, seguida de um gabinete que FERNANDO PESSOA usava quando não
queria utilizar o dos restantes empregados e onde eu cheguei a ter escritório de
advogado, seguindo-se outra sala, onde era o gabinete do meu pai; todas as referidas
salas com 4 janelas deïtando para a Rua dos Retroseiros, onde havia ao tempo a
tabacaria Havaneza dos Retroseiros.
0 outro lado do andar era o direito, onde o moço do escritório, 0 ANTÓNIO, um rapaz
de cor, trabalhava no copiar da correspondência e nas demais tarefas que lhe
incumbiam. Nes quartos interiores do mesmo lado direito um havia com uma estante
rudimentar onde FERNANDO PESSOA tinha arrumados váxios exemplares da revista
Athena, da Revista do Comércio e de Contobi~idade e do livro Antinous.
Naquele emaranhado de desarrumações havia até, não sei porque bulas, um microscópio
onde eu, em menino, me fartei de ver os micróbios da água do recipiente com água
suja de um pïncel destinado a molhar as folhas do copïador. Havia ainda ali um
selïm, guardado na respectiva caixa. Um dïa, autorizado por meu paï, quis ir
buscá-lo, mas no lugar onde ele devia estar só se encontrava a respectiva caixa.
Meu pai era a antítese do ïntelectual, mas tinha jeito para negócios, alguns dos
quais lhe foram rendosos, embora outros lhe fossem fatais.
Mas ele e FERNANDO PESSOA, pela lei dos contrastes, impressionaram-se muito,
mutuamente. 0 escritório do meu paï serviu, em grande parte, de pano de fundo á
obra de
FERNANDO PESSOA. 0 primeiro volume do Livro do desassossego, do seu heterónimo
BERNARDO SOARES, recentemente
59
publïcado, mas do qual já eram conhecidos alguns trechos em tempos publicados na
Solução Editora, veio confïrmá-lo. Para tal podermos compreender temos de
considerar, previamente, a confissão do poeta:
00 poeta é um fingidor Mente tão completamente Que chega fingia que é dor A dor
que deveras sentes.
Podemos então descortïnar, no Livro do desassossego, um misto de realidade e de
ficção que não deïxam de nos permitir a visão exacta e deprimente do drama de dor
do poeta.
Nem FERNANDO PESSOA era ajudante de guarda-livros, mas correspondente de línguas;
nem o escritório era num 4.~ andar da Rua dos Douradores, mas num l.~ andar da
Rua da Prata; nem o patrão se chamava VASQUES; nem o guarda-livros se chamava
14IoRErRA. Essas são as únicas ficções. 0 resto é realidade: até o caixeiro de
praça tinha o apelido VrEIRA e o moço se chamava ANTÓNIO, como no Livro do
desassossego.
Lembro-me perfeitamente de ter ouvïdo dizer um dia no escritório que o ANTÓNIO
tinha dito ao caixeiro de praça que oo Senhor PESSOA» lhe tinha confidenciado que
estava
a escrever um livro cujas personagens ~~somos nóss (as pessoas do escritório).
A p. 81 do volume 1.~ do Livro do desassossego, lemos:
nSurge dos lados do orïente a luz loura do luar de ouro. 0 rastro que faz no rio
largo abre serpentes no mar».
Ora não era da Rua dos Douradores, mesmo de um quarto andar, que se via com
facilidade o mar, neste caso rio, o Tejo, porque a referida rua desemboca a sul
na Rua
60
dos Retroseïros ou da Conceïção, cujos prédios tiram a visibilidade do rio. 0 mar
via-se bem, sim, mas era das sacadas do escritório do meu pai que deitam para a
Rua da Prata.
Era aliás a referida rua que mais impressionava FERNANDO PESSOA-BERNARDO SOARES:
nNos cestos poisados à beira dos passeios da Rua da Prata as bananas de vender,
sob o sol, eram de um amarelo grandeo (p. 58, n.° 54).
E quando o autor fala em sumir-se, como outras personagens, da área da Baixa
lisboeta, é a Rua da Prata aquela que põe em primeiro lugar. Ouçamo-lo:
a0 velho sem ïnteresse das polainas sujas, que cruzava frequentemente comïgo às
nove e meia da manhã? 0 cauteleiro coxo que me maçava inutilmente?
0 velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? 0 dono pálido da
tabacaria? 0 que é feito de todos eles, que, porque os ví e os tornei a ver, foram
parte da minha vïda? Amanhã também eu me sumirei da Rua da Prata, da Rua dos
Douradores, da Rua dos Fanqueiros».
0 patrão VASQUES era o mett pai. Só quem não a conheceu pessoalmente é que o não
reconhece neste retrato:
00 patrão VASQUES. Vejo-o de lá hoje, como o vejo hoje de aqui mesmo - estatura
média, atarracado, grosseiro com limites e afeições, franco e astuto, brusco e
affavel-chefe, àpaxte o seu dinheiro, nas mãos cabeludas e lentas, com as veias
marcadas como pequenos músculos coloridos, o pescoço cheïo mas não gordo, as faces
coradas e ao mesmo tempo tensas, sobre a barba escura sempre feita a horas. Vejo-o,
vejo os seus
61
gestos de vagar enérgico, os seus olhos a pensar para dentro coïsas de fora; recebo
a perturbação da sua ocasião em que lhe não agrado, e a minha alma alegra-se como
o applauso de uma multidão.
Será, talvez, porque não tenho próxïmo de mim figura de mais destaque do que o
patrão VASQt~ES, que, muitas vezes, essa figura comum e até ordinária se me
emmaranha na inteligência e me destrahe de mim, Creio que há symbolo. Creio ou
quase creio que algures em uma vida remota, este homem foi qualquer coisa na minha
vïda mais importante do que é hojen (p. 96, n.° 81).
Meu pai ia frequentemente a Benfïca, onde morava então o meu avô paterno. Nem esse
pormenor escapou, quando FERNANDO PESSOA-BERNARDO SOARES nOS descreve um dia de
tempestade, após ter caído uma faísca que iluminou o escritório:
«0 escriptorio ficou illuminado. 0 patrão Vasques atirou com o guarda-vento do
gabinete e disse para fora sahindo: `(? Moreira, eu tinha que ír a Benfica mas
não vou; vae-se fartar de chover'. `E é lá desse lado', respondeu o Moreira, que
morava ao pé da Avenida» (p. 48, n.° 46).
0 estar frequentemente FERNANDO PESSOA só, no escritório, flui em dïversos passos
do 1.° volume do Livro do desa ssossego:
uSozinho nao escri~torio, passo em revista a minha vida, e o que vejo nella é como
o dia que opprime e me afflige» (p. 138).
o0ue é isto? Sou eu que, sozinho no escri~toria deserto, posso vïver imaginando
sem desvantagem da
62
ïntelligencía. Não soffro interrupção de pensar das carteiras abandonadas e da
secção de remessas só com papel e cordeis em rolos. Estou, não no meu banco alto,
mas recostado, por uma promoção por fazer, na cadeïra de braços redondos do Moreïra.
Talvez seja a influência do lugar que me unge de dístxahido. Os dias de grande
calor fazem sonho; durmo sem dormïr por falta de energia. E por isso penso assim»
(p. 193).
nNão sei porquê - noto-o subitamente - estou sozinho no escri~torio. Já,
indefïnidamente, o pressentira. Havia em qualquer aspecto da minha consciÊncia
de mim uma amplitude de allívío, um respirar mais fundo de pulmões diversos» (p.
197).
63
digma a então existente Havaneza dos Retroseiros (na Rua dos Retroseiros, no local
onde é hoje a Casa Pampas) que logo via assomando às janelas do escritório que
deitam para a Rua dos Retroseiros onde, fronteixamente, estava a tabacaria.
oJanelas do meu quarto, / Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém
sabe quem é».
EEstou hoje dividido entre a lealdade que devo J / A Tabacaria do outro lado da
rua, como coisa real por fora, / E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real
por dentro».
0hego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta, / Vejo as lojas, vejo os
passeios, vejo os carros que passam».
oEssência musical dos meus versos ïnúteis, / Quem me dera encontrar-te como coisa
que eu fizesse / E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte».
A página 50 do 1.~ volume do Li~;ro do desassóssego também FERNANDO PESSOA-BERNARDO
SOARES se refere ao trânsito na Rua dos Retroseiros:
u0uvia-se a voz dos carroceiros, e eram realmente gente.
Nïtidamente, na rua ao lado, as campainhas dos eléctricos tinham também uma
sociabilidade eonnoscon.
0 mesmo a pp. 126 e 127 do dito volume:
«Oiço, coados pela minha desatenção, os ruídos que sobem, fluídos e dispersos,
como ondas interflúentes ao
0 estar FERNANDO PESSOA usozinho no escritório deserto», sem ninguém nem nada que
o perturbasse, acontecïa porque meu pai lhe confiara uma chave precisamente para
o efeito,
Se é certo que FERNANDO PESSOA deixou manuscritos elaborados no seu quarto da Rua
Coelho da Rocha, não é menos certo que a maior parte do original da sua obra con
siste em ty~oscritos, como ele próprio dizia referindo-se aos origïnais escritos
à máquina de escrever. Eram muitas as noites que PESSOA passava sozinho, a poetar,
no escritório do meu pai, isto, bem entendido, no período correspondente aos factos
mais narrados no 1.~ volume do Livro do desassossego. E fazia-o directamente para
a máquina. Algumas vezes sucedeu que, no dia seguinte, quando eu ia utilizar a
mesma máquina para dactilografar apontamentos de estudo, a maquina emperrava
porque FERNANDO PESSOA, na véspera, num momento de êxtase, havia deixado cair a
ponta de um charuto sobre o teclado.
Foi nessa mesma máquina, yue conservo ciosamente, qUe FERNANDO PESSOA-ÁLVARO DE
CAMPOS eSCreVeü, em 15 de Janeiro de 1928, o poema Tabacaria, tomando por para
64
E a página G8 do mesmo volume nova referência à tabacaria
FEaNnNnO PESSOA considerava o escritório da Rua da Prata o seu lar, em'oora
fïctíciamente o continuasse a fïxar na Rua dos Douradores:
acaso e de fóra como se vïessem de outro mundo: gritos de vendedores, que vendem
o natural, como hortaliça, ou social, como as cautelas; riscar redondo de rodas
- carroças e carros rapidos por saltos -; automoveis, maís ouvidos no movimento
que no gyro; o tal sacudir de qualquer cousa panno a qualquer janela; o assobio
do garoto; a gargalhada do andar alto; o gemido metallico do electrico da outra
rua; o que de misturado emerge do transversal; subidas, baixas, silencíos do
variado; travões tropegos do transporte; alguns passos; principíos, meios e fïns
de vozes - e tudo exïste para mim, que durmo pensai-o, como uma pedra entre a herva,
em qualquer modo espreitando de fóra do lugara.
t~0 velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? 0 dono pálido da
tabacaria? 0 que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver, foram
parte da minha vida?a
eE recolho-me, como ao lar que os outros teem, à casa alheïa, escriptorïo amplo,
da Rua dos Douradores, Achego-me à minha secretaria como a um baluarte con tra
a vida. Tenho ternura, ternura até às lágrimas, pelos meus livros de outros em
que escripturo, pelo tïnteíro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do
Sergio, que faz guias de remessa um pouco para alem de mim. Tenho amor a isto,
talvez porque não tenha maís nada que amar - ou talvez, tambem, por
65
que nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto
vale dal-o ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das
estrelara (Luro do desassossego, 1.~ volume, p. 85).
0 amor ao escritório é uma constante:
aErgo do livro, que cerro lentamente, obras cançadas do choro que não tiveram,
e, numa mixtura de sensações, soffro que ao fechar o escrïptorío se me feche o
sonho tambem, que no gesto de mão com que cerro o livro encubra o passado
irrepaxavel; que vá para a cama da vida sem sonho, sem companhia nem socego, no
fluxo e refluxo da minha consciência misturada, como duas marés na noite negra,
no fim dos destinos da saudade e da desolaçãoa (op. cit., p. 113),
~~Que de vezes o proprio sonho futil me deixa um horror à vida interior, uma nausea
physica dos mystícísmos e das contemplações. Com que pressa corro de casa, onde
assím sonhe, ao escríptorio; e vejo a cara do Moreira como se chegasse a um porto.
Considerando bem tudo, prefiro o Moreira ao mundo astral; prefiro a realidade à
verdade; prefiro a vida, vamos, ao mesmo Deus que a creou. Assim m'a deu, assím
a vivereía (o~, cit., p. 125).
eSe houvesse que inscrever, no lugar sem letras de resposta a um questíonario,
a que influencias lítterarias estava grata a formação do meu espírito, abriria
o espaço ponteado com o nome de Cesario Verde, mas não o fecharia sem nelle inscrever
os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Víeíra Caíxeïro de praça
e do Antonio moço do escriptorio, E a todos poria, em letras magnas, o endereço
chave Lisboaa (p. 144).
f
66
Se fossemos alguém na edilidade lisboeta não hesitaríamos em bater-nos para que
no 1.~ andar (de preferência do lado esquerdo) do prédio n.e 71 da Rua da Prata
fosse descerrada uma lápidé que' assim dissesse:
tvNesta casa trabalhou FERNANDO PESSOA como empregado de escritório e aqui compôs
grande parte da sua obra».
NOTAS
(1) Artigo publicado, sob o titulo A casa da Baixa que foi alar» de Fernando Pessoa,
in Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 1983.
Nâo quis alterar o textó, tal como ele foi publicado no Jornal de Letras, Artes
e Ideias. Mas meu irmão, FERxANDO Molrtxxo DE ALMEIDA; que se tem dedicado ao estudo
da Ouri vesaria em Portugal e até publicou, em 1974, com MANUEL GoxçALVES VIDAL,
os dois volumes de Marcas de Contrastes e Ouriaes Portugueses, chamou-me a atenção
para duas inexactiões, a saber:
A propósito da seguinte nota:
aJ
bJ
aLucAS XAVIER FERREIRA, mestre do ofício de ourives da prata, com loja no seu
arruamento, morador na Rua dos Fanqueiros, rogistou a sua marca (L. X. F.) em 28
de Abril de 1825 na Secrètaria do Senado da Câmara de Lisboa.
Portanto; não pode ter fundados a lója em 1790. Não sabemos quando nasceu, mas
para já ter a sua loja, admita
67
mos que teria então 30 anos, o que daria 1795 para o nascimento, apenas menos 4
anos que o genro ISIDORO DA SILVA CARDOSO, pelo que admito 1780-1785.
ISIDORO DA SILVA CARDOSO (1799-1874), OUrÌVeS da prata e Contrastador da Cidade
de Lisboa, Juiz da Confraria e Hospital de Nossa Senhora da Assunção e Santo Elói,
com loja no seu arruamento n.~ 20 e 21 (antiga numeração)a.
I,ucns XAVIER FERREIRA era ourives da prata, mas não contrastador, pelo menos que
se saiba. Quem foi, ourives da prata é contrastador, de certeza, foi seu genro,
ISIDORO DA SILVA CARDOSO;
Embora a ourivesaria tivesse efectivamente sido fùndada em 1790, não pode
afirmar-se que o tivesse sido por LUCAS XAVIER FERREIRA.
inexactidão bf escreveu meu referido irmão a
ANT6NI0 BOTTO, FERNANDO PESSOA, OUTROS E EU (1)
ConheCl ANTÓNIO BOTTO Vla FERNANDO PESSOA, Mas o que é que, nessa altura, digno
da posterïdade, não me advinha através de FERNANDO PESSOA?
Dentre os muitos amigos e confrades do poeta da Mensagem que o procuravam no
escritório de meu pai, distinguiam-se dois, com os quais tive a dita de privar:
AUGUSTO FERREIRA GOMES e AxT6NIO $orno, 0 primeiro deixou-me a impressão de ser
o melhor amigo de PESSOA, ou, pelo menos, aquele com quem PESSOA maïs frequentemente
privava. FERNANDO PESSOA chamava-o «o meu amigo ALMEIRIM», em memória de um passeio
que ambos deram àquela terra Ribatejana,
ANTÓNIO Borro, seguido de RAÚL LEAL, vinha logo a seguir na hierarquia da privança
com FERNANDO PESSOA,`
Confesso que, embebido como estava no ambiente hostil contra ANróxIO Borro que
tinha culminado com uma apreensão afrontosa da 1.s edição do seu livro CanFões,
a prïmeira vez que o vi entrar no escritório para falar com o amïgó FERNANDO, lá
para os anos de 1924 ou 1925, eu estãva a escrever à máquina e toquei as teclas
com mais intensidade em sinal de protesto,
70
AxTóxto Borro continuava frequentando assiduamente o escritório. E quando
publicava um livro, oferecia-o ao meu pai, muito bem encadernado, levando dentro
um cartâo que dizia assïm: uEste livro custou ao Sr. MOITINHO DE ALMEIDA a quantia
de 50$00». Tenho alguns dos livros oferecidos por ANTÓ$IO Borro ao meu pai. Mas
aqueles cartões, infelizmente, extraviaram-se.
Nas sucessivas idas de ANTÓNIO Borro ao escritório
fui convivendo com ele, conversando a três com ele e PER=
Não esqueçamos que ANTóxIO Borro cantava:
aElle olhava-me scísmando; E eu,
Placidamente, fumava, Vendo a lua branca e nua Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo Que a beïjar se recusou.
Arrastou-me para Elle,
E, encostado ao meu hombro, Falou-me d'um pagem loiro Que morrera de saudade
A beira-mar, a cantai...
Deram-se as bocas num beijo, Um beijo nervoso e lento... 0 Homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento» (a)
71
mino PESSOA e comecei a ter-lhe admïração, sobretudo após a leitura dos livros
que éle oferecia a meu pai e que me revelaram um poeta ïnteressante, com vincada
personalidade e com ritmos atraentes e ditados por grande estetícismo.
Por essas alturas eu fazia parte do cenáculo Dos novos, com sede na casa de Lïsboa
dos pais do meu condiscípulo MIGUEL PÁDUA RODRIGUES BAST09, na Avenida El1aS Gar
cia, 62-r~c,-Esq., se não estou em erro, Do cenáculo faziam também parte os irmãos,
hoje juízes conselheiros, Dis. MIGUEL RODRIGUES BASTOS e JACINTO RODRIGUES BASTOS,
0 Juiz Conselheïro Dr, DANIEL JAIME FERREIRA, o jornalista JosÉ AUGUSTO, OS DrS.
ARTUR AUGUSTO SILVA, JÚLIO CÉSAR VILELA, VIRGÍLIO CRESPO DE LACERDA, ABÍLIO PEREIRA
DA SILVA, FRANCISCO EUSÉBIO LEÃO REGALO FRANCISCO LEÃO), GUY DE RAYMOND e Out10S
que, de momento, não consigo recordar.
Embora não fïzesse propriamente parte do cenáculo, 0 DF: ANTÓNIO VITORIND DE
ALMEIDA aSSlStla a algumas das suas reuniões, dando o ar da sua graça.
A cárta altura o cenáculo passou a publicar uma revïsta, que também se intitulava
Dos novos, da qual saíram dois números.
Sucedeu que um desses números trazia, como artigo, um trabalho meu, escrïto sob
o pseudónimo FERNANDO TRIGUEIROS, sobre ANTÓNIO Borro (a), a quem enviei um
exemplar.
AxTóNIO BOTTO agradeceu-me com a seguinte carta, datada de 27 de Junho de 1931:
oMeu Exm,~ Camarada
Não tenho o hábito de responder a críticas que apareçam em jornais ou revistas
literárias sobre a minha já discutidíssïma personalidade artística. Mas esta a
que vou referia-m,e e que é assinada por FERNANDO TRIGUEIROS meTeCe-me um largo
agradecimento
72
a de apost scríptum~, dizia assim
Mas, não sei porquê, ou porque talvez a índole do semanário Reporter X não me
entusiasmasse, nunca aproveitei a porta que se me abüa para me ïnïciar no
jornalismo.
Maïs tarde, quando quis fazê-lo, encontrei todas as portas fechadas.
Em Setembro de 1931 AxTóxto Borro ofereceu-me o seu livro Dandysmo, com a seguinte
dedicatória:
feito de ternura e de admiração. No atropelamento mesquinho aos valores
ïntelectuais da geração a que pertenço ainda o que me anima profundamente é ouvir
de vez em quando, uma voz certa - erguendo-se com aquela galhardia da independência
e da justiça. Disponha da minha sympathía e creia na minha admiração.
a) ANTÓNIO BOTTO~
A carta fazia-se acompanhar de uma folha de papel que,
aDíz-me aqui o meu amigo Reparler X (') que nas colunas do seu jornal FERNANDO
TRIGUEIROS terá todo o acolhïmento desde que envie colaboração de acordo com a
índole do refexïdo semanário.
Cumprimentos.
apara
Lulz MARTINEZ (s), ao seu juvenil espírito de artista com maior sympatía de
a) ANTÓNIO BOTTOù
a) ANTÓNIO BOTTOB
catóría, tendo-me ANTóxro Borro dito então que me chamava MARTINEZ por supor esse
um adjectivo derivado de MARTE. Esclarecidas as coisas, AxTóxro BOTTO entrelinhou
na dedicatória do livro as palavras aD4oITIxxo nE ALMEID.4~). Ficou tudo certo,
Passámos a encontrar-nos periodicamente, para conversarmos. 0 nosso ponto de
encontro era a LIVRARIA BERTRAND. Mas, marcados os encontros, AxTóxro Borro faltava
por sistema, para depois se desfazer em desculpas. Guardo algumas missivas nesse
sentido.
Quando Axróxro BOTTO não faltava aos encontros, alï ficávamos algum tempo ria
BERTRAND, a cavaqueai. Naquela altura eu sabia conversar, dom que fuï perdendo
com o decorxer do tempo.
Por vezes saíamos juntos da BERTRAND, descendo 0 Chiado, eu para me dïrígir ao
escritório de meu pai o AxTÓxro BOTTO não seï para onde. ANTÓNIO Borro, que era
um homem alto e eu baixo, punha-me então a mão no ombro, gesto que me constrangïa
imenso porque não desejava encontrar pelo caminho amigos ou condiscípulos da
Faculdade a toparem comigo na companhia de Axróxro Borro em tal posição.
Em 25 de Fevereiro de 1932, na sequência de um convite para o teatro, ANTÓNIO BOTTO
(a quem eu lembrara o encontro, na dúvida sobre se ele faltarïa, como de costume),
escrevia-me o seguinte, em cartão da EMPRESA DO ANUÁRIO COMERCIAL:
aCaríssimo Luls PEDRO:
Agradeço a lerr~brança mas eu não estava esquecido. Logo às 9 e um quarto, á porta
do theatro S, Carlos - Não faltarei para entrarmos.
a) ANTÓNIO~
Lá fui ao S. Carlos porque, desta vez, ANTÓNIO Borro não faltou. Não ie~ordo, de
todo em todo, qual fosse a
Ao agradecei pessoalmente o livro a AxTóxro Borro, chamei-lhe a atenção paia o
nome que ele atribuía na dedi
74
~ ~ ~ ~: X ~~ ~1~t.~ ~ ~ - I~.         ~,    r~
Cul ~..u.    ~      ~ r~ . ~ ,
19. - Blhete de ANTÓNIO BOTTO para o autor, datado de 11 de Fevereiro de 1932.
~~V'tjl e~íl,o 11
Co~,n~..e n ~.,SL~ e      ~ ~n~
peça ali representada então. Mas o que não esqueço é que, ao entrarmos num camarote,
ANTÓxIO Borro me apresentou sua mulher, D. CARMINDA (e), que já ali nos aguardava.
Nunca me tinha passado pela cabeça que ANTÓxIO $orno fosse casado. b'fas já ele
tinha escrïto:
KO casamento convém A todo o homem
Que é formoso e decadente» (~)
Um dia, numa das nossas cavaqueiras da BERTRAND, participou Ceanoso MARTHA, que
ANTÓNIO Borro então me apresentou. Ambos procuraram convencer-se que tanto ANDRÉ
GIRE como AxTÓxIO Borro não eram homossexuais mas tomavam atitudes lïterárías como
se o fossem, por uma necessidade estética, meramente aparente, o que fazïa sentido
com o poema em que o poeta diz;
NQue importa que o mundo fale.
Deixa dizer.       Um sorriso, - e nada mais. Quando alguém,
Só por suposições, Afirma
Alguma coisa má de nós,
É porque tem a conscïência De que posto no mesmo caso Nele seria uma verdade
0 que em nós é aparência. Um sorriso, - e nada mais. Sim, faz o mesmo que eu façoo
(s).
Como nessa altura eu acreditava em tudo o que as pessoas me diziam, acreditei também
no que AxTóxIO Borro e Carnoso MexTxa me contaram e fui transmiti-lo ao poeta
Fxaxclsco BUGALHO, que ao tempo era meu companheiro de estudo.
75
76
FRANCISCO BUGALHO aceitou com relutância o que eu lhe contara mas, passados dias,
disse-me triunfante: aVocê a dizer que a homossexualidade de ANTÓNIO Borro era
apa
rente, não passando de mera atitude estética, e eu a vê-lo ontem num carro eléctrico
agarrado a um marinheiro!v> Claro está que a partir de então - porque FRANCISCO
BUGALHO era um homem sério, incapaz de mentir-não voltei a impingir a tese a mais
ninguém.
Mas que ANTÓNIO BOTTO tinha certo fraco pelos nheiros, lá isso tinha:
mari
o01ha aquele marinheiro a dançar embriagado!... EIa parece uma quilha, Ele é belo!
Os olhos verdes, São como duas estrelas
No oval do rosto queimado» (s).
No meio disto tudo, a verdade é que, conquanto ANTóxIO BOTTO fosse considerado
por muitos um inïmigo temível, o certo é que sempre foi meu amigo, mostrando-se
sempre
pachorrento e compreensivo para comigo, a ponto de se dispor a ouvir alguns poemas
meus dos quais me dizia que lhes devia dar publicidade e tendo-se até proposto
- e cumpriu-enviar alguns ao seu amigo JosÉ RÉGIO, para publicação na Presença.
77
Deu-me depois a carta-resposta de JosÉ RÉGIO, datada de 10 de Março de 1932, que
guardo ciosamente e onde se diz:
«Os versos de Lufs PEDRO são evidenterAente interessantes. Mas nestas coisas de
Arte, - eu não sei nem quero mentir; o que ainda me parece faltar aos versos do
Lufs PEDRO é a sinceridade duma alma, a força dum temperamento, a revelação duma
personalidade. Você bem sabe, querido amigo, que sem isso não pode haver verdadeira
e duradoira poesia. Pode ser que eu me engane? Pode bem ser. Sobretudo, eu não
quero afirmar que ao autor faltem estes predicados. Longe de mïm afirmá-lo! Só
me parece que os seus versos, embora talentosos, ainda os não revelam. Que o Luís
PEDRO tenha a indulgência e a ïnteligência de perdoar estas opiniães a um camarada
que deseja merecer a sua amizade. Quanto à publicação de alguns desses poemas na
Presença... eu não sou só a decidir: Terei de consultar o SIMÕES (rr) e o CASAIS
MoxTEIRO~,
Escusado será dizer que a Presença nunca publicou qualquer poema meu e, pelo
contrário, fustigou-me mais tarde com o látego de ADOLFO CASAIS MONTEIRO.
Quando, nesse mesmo ano de 1932, publiquei o meu livro Acrónios, prefaciado por
FERNAxno PESSOA; AxTóxto BOTTO foi inexcedível nos conselhos que me deu para o
respectivo envio a jornais e revistas e até me aconsélhou a enviar um exemplar
para França, ao lusófïlo PHILÉAS LEBSESGUE, que lhe fez uma simpátïca critica no
Mercure de France ('2).
Num P. S, à sua carta de 27 de Fevereiro de 1932, uma daquelas em que Axróxlo BOTTO
pedia desculpa de não ter
uAo longo do cais
Um vulto viril de marinheiro
Tange à guitarra uma saudade quente. E a doca,
Cheia de barcos, mastros, e rumores, Atrai o meu mais íntimo sentir Preso à maré
altíssima e soturna De proibidos amores~> (ro).
78
comparecido a um encontro na BERTRAND, escrevia ele, revelando evidente interesse:
eJá publicaram os jornais algum comentário sobre o seu livro?»
Foram atenções que não poderei esquecer, tanto mais que o amparo moral que senti
nesses primeiros passos de vida literária me veio exclusivamente de FERNANDO PESSOA
e de ANTÓNIO BOTTO,
Conquanto muito amigo de ANTÓNIO BoTTO - e provou-o não só no seu Sobre um manifesto
de estudantes (ia} mas também no seu trabalho António Botto e o ideal esté tico
em Portugal, que publicou na Contemporâ~aea (ra}-FERNnNDO PESSOA não deixava de
contar em tom gozão - e até aflautava a voz quando reproduzia a fala do
amigo-anedotas a respeito dele. Eis algumas:
Em 1922 a editora OLISSIPO publïcava a 2.a edição das Canções de ANTÓNIO Borco.
A 1.a edição fora apreendïda, conforme já deixei dito.
A 2.a edição abria com um retrato do poeta, a melo corpo, mostrando
sOs meus hombros florentinos»
que o poeta cantava na Canção XII, do referido livro, dedicada aEnternecidamente
- a FERNANDO PESSOA». FERNANDO PE550A, referindo-se ao mencionado retrato de
ANTÓNIO $oTTO não resistia à echarge» de, aflautando a voz, atrïbuír a este a
expressão : e~Se não fosse este maldito pendurïcalho, tirava o xetrato todo nún.
Um dia estava ANTÓNIO Borro assistindo a um; espectáculo de ópera no COLISEU DOS
RECREIOS.
Num intezvalo, cem o ar absorto como de quem não estivesse ali, ANTÓNIO BOTTO tinha
o olhar virado para determinado lugar. Eís senão quando sente uma forte sacudi
79
dela num braço e vê um indivíduo que lhe diz com ar irado:
eQue tem o Senhor que estar a olhar para a minha mulher?»
Ao que ANTÓNIO respondeu de imediato, sem se desmanchar:
eNão era para a sua mulher que eu estava a olhar, era para si».
Outra vez, um amigo de ANTÓNIO BOTTO (rb), numa Sexta-feira Santa, encontrando-o
no Terreiro do Paço, de braço dado com um marinheiro, d s~e-lhe:
~ANTÓNIO, parece impossível comer carne à Sexta-feïra Santa!»-ao que ANTÓNIO BOTTO
respondeu emas o marujo não é carne, é peixe».
Um dïa ANTÓNIO Borro foi consultar o médico. Este perguntou-lhe qual a parte do
corpo de que se queixava, tendo aquele respondido que do ânus, Então o médico teria
dito:
eAh, esse é um sitio muito f...» (is},
Outra vez determinado indivíduo perguntou a ANTÓNIO BOTTO coma gostava do membro
viril, se grandé e grosso, ao que Borro teria respondido:
ePequenino, muito pequenino, para poder fazer déle um rebuçado».
ANTÓNto BOTTO, que era bom amigo quando era amigo mas que era um terrível inimigo
dos seus inimigos, não andava de boa amizade com o poeta CAxI,os QvElaós, nunca
eu soube porquê.
80
Um dia, à mesa do café MARTINHO DA ARCADA, onde AxTóxro Borro se encontrava
frequentemente com FExxnxno PESSOA e com outros confrades das letras, determi nado
indivíduo começou a referir-se elogiosamente a CABLos QuErxós, Como AxTóx>:o Borro
não se mostrasse impressionado, o tal indivíduo disse-lhe:
ql: o COnheCfdO poeta CARLOS QUEIRÓS. Não conhece?»
Ao que ANTÓNIO Borro retorquiu, cheio de veneno:
nAh, bem sei! Esse rapazinho na cama não se mexe mah.
Claro está que ANTóxto Borro estava sendo altamente injusto para CARLOS QuErxós,
apenas para o enxovalhar, já que ninguém lhe atribuía homossexualidade.
Após a minha formatura, diminuíram os meus contactos com ANTÓNIO Borro, a quem
passei a encontrar apenas esporadicamente mas sem deixar de acompanhar a sua
actividade literária com a leitura dos seus livros que iam saindo, até que ANTÓNIQ
Borro foi para o Brasil, onde lhe perdia pïsta. Uma vez, tendo sabido que ele se
encontrava hospitalizado na BENEFICÊNCIA PORTUGUESA, no Rio de f aneiro, para ali
lhe mandei, pelo correio, um exemplar do meu livro Poemas que o vento há-de levar,
saído pouco antes, Mas o volume foï-me devolvido, com a indicação de que tinha
falecido o destinatário.
Já porém a infausta notícia me tinha chegado dias antes através dos jornais.
Muito me condoeu a morte do meu amigo e nessa altura, como se de mim próprio tivesse
sido emanado, senti no intimo da alma este poema de ANTÓNIO BOTTO:
uTive um coração amigo, -E era um nobre cotação! Os meus males entendia
Sem que eu tivesse de os dizer;
NOTAS
(')
n.~ 14.
(') Canções, 2.8 edição, III.
(°) Não posso reproduzir de cor o nome do artigo, que era de apreciação à poesia
de ANTóxro BOTTO. Os dois números de DOS 1VOVOS, bem como outras revistas que
traziam trabalhos meus, e
outros papéis vários, arrumei-os em casa de minha avó materna, por não ter lugar
para eles em casa de meu pai (eu era solteiro/. Porém, por morte de minha avó,
a casa dela desfez-se por virtude de partilhas e eu perdi para sempre os meus papéis
que lá tinha guardados.
(') Semanário dirigido por REINALDO FERREIRA, que a ele próprio se chamava de
Repórter X.
(a)    0 meu nome oficial é LUIZ MARTINEZ MOITINHO DE ALMEIDA, nome que uso apenas
quando não pode deixar de ser, porque, fora diSSO, uso sempre o nome de LUIZ PEDRO
MOITINHO DE ALMEIDA,
Sempre todos me disseram, na família, que o meu nome Lulz é homenagem ao meu bisav8
Lulz PINTO MOITINHO, pai de minha avb paterna, e que o meu nome PEDRO é homenagem
ao meu bisavó. PEDRO ANTóxto ALONSO CnsQuEIRO, pai do meu avS materno. Mas o meu
pai, não sei por que bulas, embirrou com o PEDRO e omitiu-o no meu registo de
nascimento.
(o) ANTóxro BOTTO deixou-lhe as Tristes Cantigas de .4mor, última parte da edição
das Canções de 1930.
(') Curiosidades Estheticas, Canção VIh (°) Ibidem, Canção X,
(°) A Vida que te dei, 1938, Canção II. (I°) Ibidem, Canção IX,
Artigo publicado no jornal dos Poetas e Trovadores, ano n,
e
Minhas dúvidas quebrava; E nos momentos
Difíceis da minha vida Com ele me confrontava. Mas, um dia,
-Tudo se rompe, afinal. Esse grande coração. Quebrou-se
Como um crystal~ (I').
8i
82
(11) JOÃO GASPAR SIMÕES.
(12) Tive um exemplar d0 MERCURE DE FRANCE com a nota bibliográfica sobre o livro
Acrónios. Mas extraviou-se, como os demais papéis que guardei em casa de minha
avó materna, entre
eles as notas bibliográficas sobre o livro, publicadas nos jornais e revistas
portuguesas de então.
(ia) Trata-se de uma defesa de AxTÓx10 BOTTO e RAóL LEAL a um manifesto da Liga
da Acçdo de Estudantes de Lisboa.
(in) E que, também na Contemporânea, recebeu o látego de ÁLVARO MALA, in Litevatura
de Sodoma--o Sr. Fernando Pessoa e o Ideal Estético ean Portugal.
(ls) Se bem me lembre, FERxANDO PESSOA identificava este amigo de AxTóxro BOTTO
como sendo o poeta FRANCISCO CABRAL METELO.
(18) (ia)
Particípio passado de um verbo obsceno.
Canções, 1930, Poema XV, das oPiquenas Esculturasa.
POR DUAS VEZES...
As minhas relações pessoais com FERNANDO PESSOA sempre foram das mais amistosas.
Todavia, por duas vezes, e sem que o poeta nada me tivesse dito ou dado a enten
der, eu tive a sensação de que ele #ficara sentido comigo. Ambas as referidas vezes
se localizam nos anos de 1934-1935. Vejamos a primeira.
Eu formara-me em Díreïto em Julho de 1934, tendo-me seguidamente inscrito na ORDEM
DOS ADVOGADOS como candidato á advocacia, o que me permitia intervir em pro cessos
de pouca monta.     0 meu primeiro cliente foi uma conhecida sapataria de Lisboa
e o segundo cliente foi um comerciante, também de Lisboa, de máquinas de escrever.
Em nome do último propus uma acção contra um determinado senhor que havia comprado
uma máquina de escrever sem todavia a ter pago. Tratava-se de pessoa de quem um
amigo meu e parente de PESSOA dizia ser um homem de letras... protestadas.
Claro está que o devedor foi condenado a pagar ao credor quanto lhe devia.
Uma tarde, no escritório do meu pai, onde também era, ao tempo, o meu escritório,
FERNANDO PESSOA, timidamente, disse-me ser parente do devedor. Talvez com isso
quisesse pedir-me qualquer coisa, no sentido de amortecer o ataque que eu lhe estava
dando.
Nessa altura, começara eu a aprender os princípios deontológicos da profissão de
advogado e tinha bem pre-
84
sente que a pior atitude de um advogado é a de trair o mandato do seu cliente.
Por isso continuei o ataque e, como o devedor não tivesse cumprido a condenação,
intentei execução contra ele, nomeei bens à penhora, tendo eu próprio assistïdo
ao auto de penhora, em casa do devedor, do que resultou que ele viesse a pagar
ao meu cliente quanto lhe devia. Ainda hoje a minha atitude seria a mesma, cem
excepção de que não assistirïa ao vexatório auto de penhora.
A segunda vez coincidiu com a publicação da Mensagem.
85
FERNANDO PESSOA dedicou-me um exemplar, com data de 6 de Dezembro de 1934.
Nessa altura eu, sob o pseudónimo de FERNANDO TRIGUEIROS, fazia a crítica literária
no jornal Avante, da ASSOCIAÇÃO ESCOLAR nVANGUARDA,>, que havia de ante ceder.
a MOCIDADE PORTUGUESA. Eu havia-me desin
e
20.-Dédicatória de FLRNANDO PESSOA da Mensagem que lhe ofereceu.
ao
autor, no
exemplar
NOTA
teressado por política desde os últimos anos da Faculdade (para mim qualquer
governo serve desde que governe beml. Mas o director do jornal era o meu amigo
e condiscípulo Dr. ERNESTO DE OLIVEIRA E SILVA e eu não tinha outro jornal onde
escrever.
Quando saiu a Meyasagena fiz-Ihe a respectiva crítíca literária no Avante, onde
dizia que a Esfinge falou (FERNANDO PE5S0.° ainda não havia, até então, publicado
qual quer livro em português) mas que o poeta, talvez para ïr de encontro ao prémio
do SECRETARIADO NACIONAL DE INFORMAÇÃO que acabou por lhe ser atribuído, se adaptou
aos respectivos parâmetros nacionalistas, descurando a sua verdadeira
personalidade interior.
Hoje reconheço que fui injusto, porque não se pode falai de uma personalidade de
quem, como FERNANDO PESsoA, tinha várias, sendo uma delas precisamente a que se
integrava nos mitos do Encoberto e do Quinto Império, que o poeta já vinha
desenvolvendo desde 1913 (r), portanto desde uma data muïto anterior à onda de
nacionalismo oriunda do 28 de Maio,
Por isso, se FERNANDO PESSOA, que sabia ser minha a crítica à Meaasagena, assïnada
por FERNANDO TRIGUEIROS, se sentiu comigo por virtude dessa rr~esma crítíca, talvez
não tivesse propriamente razão para se sentir mas tinha, pelo menos, razão para
considerar que eu não fui então um crítico à altura da sua personalidade e da sua
obra.
Depois da crítíca de FERNANDO TRIGUEIROS, FERNANDO PES30A e CU ainda ri0S
enCOntxámOS d1Vet'SdS V2Z2S e conversámos como bons amigos sem que todavia nenhum
de nós tivesse tocado no assunto.
(')   ANTÓNIO QuADxos (Fevnando Pessoa-Vidtt, pevsonalidade e génio, 2.a edição,
p. 243) diz-nos que as poesias componentes da Mensagem foram escritas entre 1913
e 1934.
3
FRANCISCO PEIXOTO BOURBON - BI6GRAF0 DE FERNANDO PESSOA (r)
oIn illo temporeo, que é como quem dïz no tempo em que FERNANDO PESSOA andava pelo
mundo, existia, na Baixa Lisboeta, nas traseiras do BANCO DA AGRICULTURA, na Rua
Augusta, o CAFÉ MONTANHA (2}, que era sobretudo frequentado pelos comerciantes
da área. Ali, todavia, se reunia uma tertúlia literária onde pontificava o veterano
GUALDINO GAMES que, envolvido no seu cachecol e embora ultrapassados os oitenta
anos, ainda dizia os seus «chisteso. Dessa tertúlia fazia parte FERNANDO PESSOA
e, tanto quanto seï, além dele e de GUALDINO GOMES, mais, pelo menos, o Dr. MANUEL
MENEZES DE VASCONCELOS, VICTORIANO BRAGA, GASTÃO DE MELLO E MATOS, MÁRIO SAA, 0
MARQUEZ DE PENAFIEL, DA CUNHA DIAS, ANTÓNIO BOTTO, JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS, Di.
ALFREDO GUISADO, JOAQUIM PALHARES, 0 Dr. CARLOS LOBO DE OLIVEIRA e 0 El]g.a ROGÉRIO
CALDEIRA SANTOS.
Dessa tertúlia também fazia parte o jovem FRANCISCO PEIxoro BouxsoN, de seu nome
completo FRANCISCO PEIxOTO DA SILVA BOURBON (Lindoso), então estudante de
Agronomia, que ali fora introduzido pelo Eng.o ROGÉRIO CALDEIRA SANTOS.
Nessa tertúlia não podia ser ïntroduzido um novo membro sem que houvesse audiência
de todos os que a frequen-
88
tavam e o Eng.o CALDEIRA SANTOS temia que o Dr. ALFREDO GUISADO e um lavrador do
Alentejo obstassem à admissão de PEIXOTO BouxsoN, mas este acabou por ser admitido,
vindo então a conhecer pessoalmente FERNANDO PESSOA, que apenas conhecia de nome
- escreve-me PEIXOTO BOURBON em sua carta de 14 de Abril de 1955,
Eu, que nunca fiz parte de tertúlias, só fui ao CAFÉ MONTANHA uma vez, com m,eu
paî, o outro interlocutor e, precisamente, FERNANDO PESSOA, numa altura em que
no escritório de meu pai se estava a processar um negócio de venda de milho colonial
para Espanha, em que rr~eu paï me havia interessado com uma pequena percentagem.
0 Eng.o ROGÉRIO CALDEIRA SANTOS, grande admirador do poeta, pretendeu adquirir
por subscrição pública o CAFÉ MONTANHA, para ser transformado em museu de FER NANDO
PESSOA (F. PEIXOTO BouxsoN, Evocando Fernanda Pessoa, ín Eco de Estremoz, de
12-5-1973).
Uma vez, no CAFÉ MONTANHA, estando FERNANDO PESSOA e FRANCISCO PEIXOTO BouxsoN
sentados à mesma mesa, o último desenhava, numa folha de papel encimada pelas armas
reaïs porluguesas, figuras abstractas e heráldïcas. Na figura heráldica que se
vê à direita, em baixo, na mesma folha, FERNANDO PESSOA desenhou uma garrafa de
vinho tinto e um copo melo cheio.
FRANCISCO PEIXOTO BOURBON, da sua Casa de Melhorado, em Fermil de Basto, fala-nos
dos seus contactos com FERNANDO PESSOA em inúmeros artigos publicados nos jor nais
Eco de Estremoz, Cidade de Tomar, Consciência Nacional, Notícias de Guimarães e
0 Comércio de Gaia, dos quais, que conhecemos, nos permitimos respigar algumas
passagens.
Conta-nas PEIXOTO Bouasox (Evocando Fernanda Pessoa, in Eco de Estremoz, de
6-1-1973) -e o Dr, ~TANUEL MENEZES DE VASCONCELOS COriflrnlDU-m0 - que uma vez,
na tertúlia do CAFÉ MONTANHA, todos consideravam ALEXANDRE HERCULAxO 0 malOr
historiador português yuando FERNANDO PESSOA se coibiu de dar a sua opinião.
89
21, - Folha com desenhos de Pmxoro Bouxsorr, na qual FERN2.ND0 PESSOA, em baixo,
à direita, desenhou nma garrafa e um copo de vinho.
90
Então GUALDINO GOMES ter-lhe-ia dito: você não considera ALEXANDRE HExcur.Axo o
maior historiador português? Ao que PESSOA teria respondido que o considerava um
grande historiador, mas não o melhor, Então qual é para si o melhor? -teria
perguntado GunLDixo GOn1ES. Ao que FERNANDO PESSOA, com o seu sentido
quintimperial, teria respondido: o Padre ANTÓATIO VIEIRA, com a História do futuro.
GUALDINO GO&IES ter-se-ia lïmítado a retorquir, de modo seco e sacudido: aCada
um tem a sua opinião; e são critérios».
Conta-nos também PEIXOTO BOURBON (Evocando Fernando Pessoa, in Eco de Estyemoz,
de 10-2-1973), que FERNANDO PESSOA sentia amargamente o ter de fazei cor
respondência estrangeira em escritórios comercïaís para sobreviver, o que lhe
gerava aquilo que o poeta designava por ~aevolta sagrada» e, para se libertar desse
peso frustre que o esmagava, confidenciou, relativamente aos seus patrões, que
os tinha ludibriado, evadindo-se e libertando-se. E acrescentava: uE aïnda lhes
usava as máquinas de escrever, o papel vulgar e o papel químico para passar os
versos nas horas de serviçoo. Um dia estava tão desesperado que chegou a cair de
borco em cima da mesa do CAFÉ MONTANHA, chorando. Foï quando lhe falhou o ingresso
como bibliotecário, no DNSEU DE CASTRO GUIMARÃES, em Cascais.
Nos seus apertos de dinheiro FERNANDO PESSOA vendia, muitas vezes, livros.
usou tzstemunha que assim era de facto. De uma vez FERNANDO PESSOA encarregou o
JoAQuIM PALHARES de lhe vender um lote de livros. 0 JoAQuInI PALHARES percorreu
uma série de livreiros e, finalmente, quem pagava mais confortável preço era um
Santeiro-Li~~reiro com loja aberta nos Poiaïs de S, Bento e que havia sido o editor
dos Cadernos do Padre MARIOTTE. E o livreiro disse: se o Senhor não rasgar a primeira
página do livro, o que muito o desvaloriza para coleccionadores, e a conservar
com a dedicatória, eu pago o dobro, 0 PALRARES foi conversar com FER
91
xnxDO PESSOA pedindo-Ihe que em nova remessa não cometesse a selvajaria de rasgar
as páginas com dedicatória. Mas nada demoveu FERNANDO PESSOA e sempre que vendia
um livro que lhe havia sido ofertado procedia, de forma religiosa, à inutilização
da primeira pággnno (Evocando Fcynando Pessoa, in Eco de Estyemaz, de 26-5-1973;
Evocando Fernando Pessoa, in Notícias de Guimarães, de 10-2-1984).
Todos sabemos que FERNANDO PESSOA compôs a maior parte da sua obra em máquinas
de escrever. Não eram manuscritos mas uTyposcritos>, como ele dizia. 0 que a maior
parte das pessoas não sabe é que era com lápis (não havia aïnda esferográficas)
que escrevia FERNANDO PESSOA quando não tinha à mão as máquinas de escrever que
habitualmente utilizava nos escritórios onde trabalhava. PEIXOTO BouRBoN
conta-no-lo (Evocando Ferna~ado Pessoa, in Eco de Estrcmoz, de 17-2-1973)
«Vem a propósito falar dos lápis de FERNANDO PESSOA, pois que nunca o vi com um
lápis novo. Exibia sempre bocadinhos de lápis aparados de um e de outro lado, muito
bem aparadinhos, vendo-se que punha todo o seu desvelo e carinho em semelhante
operação.
Um dia em que não encontrava o lápis, pediu-me um emprestado e entreguei-lhe um,
acto ïmediato. Era um lápis novo KO-Hl-NOOR-HB, como todos os estu dantes então
usavam. Ele a breve trecho devolvia-mo, dizendo desoladamente: -Não presta: é duro
e áspero. E não mo quis aceitar.
Nunca o vi fazer uso que não fosse de um bocadinho de lápis aparado nas duas
extremidades e nunca percebi se obedecia a um princípio de economia ou espi rito
prático e até, como gracejo, ouvi dizer que o prímeíro cuidado quando comprava
um lápis era parti-lo em três ou quatro bocadinhos e, afiados nas duas extxemidades,
passavam a multiplicar-se como se de cinco
92
ou seïs lápis se tratasse, Esta era, sem dúvida, mais uma das suas pequenas
originalidades.
E um dia um desses lavradores da Alentejo que também conviviam muito com o Dr.
MÁRIO DE SAA e o DA CUNHA DIAS, deu-lhe de presente uma linda lapiseira.
PESSOA nunca a utilizou e acabou, ao que dizia, por perdê-la, confessando que não
a podia utilizai, pois lhe provocava uma desagradável sensação de cócegas na ponta
dos dedos.
E sucedia que quanto mais o bocado de lápis se encontrava reduzido, sendo quase
não manuseável, mais parecia estar afeiçoado ao mesmo. Um dïa, um deles
caiu inadvertidamente ao chãc e, como era de reduzidas dimensões e havia rebolado,
ninguém o encontrava. Pois obrigou todos a levantarem-se e a procurarem-no, e só
teve descanso quando o mesmo apareceu. Nlas ficou decepcïonado ao verificar que
não se encontrava íntegro e teve até este desabafo:-Os senhores não tiveram o devïdo
cuidado e tem um dos bicos partido. E quase ficou ofendido quando alguém sugeriu
que deitasse aquele bocadinho de lápis fora.
Também não trazia os lápis, cómo toda a gente, nos bolsos ëxteriores do casaco,
mas sim a esmo nos bolsos exteriores e promiscuamente misturados com os
lenços e o porta-moedas. E dizia: - Assïm é mais prático e apenas tem o inconveniente
de se perderem muitos>.
Como gïande parte dos portugueses do seu tempo, não escapou FERNANDO PESSOA à
vigilâncïa policial, parece que por virtude da sua correspondência trocada com
ALEISTER
CROWLEY. PESSOA queixava-se dessa vïgilância, como se ele fosse perigoso espião
ao serviço de uma potência estrangeira e dizia a PEIXOTO BOURBON:
«Ora pode calcular a depressão e irritação que me causava ter sempre alguém na
minha peugada e a fixar
93
atentamente tudo o que eu fazia. Mas davam-me também o prazer de os despïstar,
o que ainda mais os exasperava, Outras vezes obrigava-os a dar esgotantes voltas;
e quando surgia um agente gordo e obeso, então, sadicamente, sujeitava-o a penosos
exercícios deambulatórïos» (Euocando Fernando Pessoa, ïn Eco de Estyemoz, de
21-7-1973).
Refere PEIXOTO BOURBON, em carta que me escreveu em 14 de Abril de 1985, que o
Dr. CARLOS Loso DE OLIvEIRA que, além de notável poeta, era genealogista, desco
briu que PEIXOTO BOURBON e FERNANDO PESSOA eram parentes pelo lado ARAÚJO e tendo-se
PESSOA interessado pelo assunto, ficou entusiasmado por saber que um tio-avô d0
Eng.° BOURBON-GASPAR LOBO DE AZEVEDO E ARAÚJOera dado à Alquimia. Quando PEIXOTO
BOURBON ïa a férïas, trazia livros manuscritos sobre Alquimia que confiava a
FERNANDO PESSOA, que nunca maltratou um livro emprestado.
Conta-nos também PEIXOTO BouasoN (Eco de Estreanoz, de 3-3-1973) que FERNANDO
PESSOA não tinha consideração por ANTÓNIO FERRO, desde os tempos em que este era
colaborador e admïrador fanátïco de AFONSO COSTA, tanto mais que estava convencido
de que ANTÓNIO FERRO não foca alheio ao frustrado assalto ao restaurante IRMÃOS
UNIDOS em que procuravam linchar FERNANDO PESSOA, e isso não obstante este haver
subscrïto, com ANTÓNIO SÉRGIO, AQUILINO RIBEIRO, TAIME CORTESÃO, RAÚL PROENçA e
RAÚL BRANDÃO, um protesto contra a proibição da representação de uma peça de ANTÓNIO
FERRO. Quando uma vez foi pedïda ao poeta a sua opinião sobre ANTÓNIO FERRO. PESSOA
acabou por declarar : - oMas que poderei eu dizer, afinal, que não seja que foi
o SÃO PAULO do Sr. Doutor OLIVEIRA SALAZAR e da presente situação política?o
PEIXOTO BouxsoN interpretou o xeferïdo dito de PESsoA como atribuindo a ANTÓNIO
FERRO ser a arauto de
94
SALAZAR. MaS 0 Dr. MANUEL DE VASCONCELOS, disse-lhe, dias depois, que Mele desejava
ser mais profundo e contundente e aludia ao facto de que o novo convertïdo havia
sido primitivamente um dos maiores perseguïdores dos cristãos e de se haver
locupletado mesmo com os seus despojos~>.
Segundo PEIXOTO BOURBON, a pouca simpatia que a FERNANDO PESSOA merecia a figura
de OLIVEIRA SALAZAR radicava-se mais a partïr do momento em que ANTÓNIO FERRO paSSOü
a ocupar uma posïção de destaque no salazarismo. FERNANDO PESSOA deixara de ser
amigo de ANTóNIa FERRO, sendo mesmo este o únïco amigo com quem, tendo cortado
relações, não as reatou: considerava-o um oportunista e um ambicïoso (Abusiva
apropriação da Esquerda da figura ímpar de Fernando Pessoa, ïn Eco de Estremoz,
de 8-2-1980).
A hïstória do referido frustrado assalto cm que procuraram linchar FERNADO PESSOA
no restaurante IRMÃOS UNIDOS conta-se em poucas palavras:
22. - SALAZAR.      Caricatura de ALMEIDA NEGREIRos para a capa de um livro de RoLão
PRETO, 1932.
Em 6 de Julho de 1915, FERNANDO PESSOA, escrevendo sob o heterónimo de ÁLVARO DE
CAMPOS, respondeu a um artigo do jornal A Capital, que consi
95
derou insultuoso para o movimento futurista, referindo-se ao desastre de carro
eléctrico de que fora vítïma o Dr. AFONSO COSTA (nessa altura os governantes
deslocavam-se de carro eléctrico). 0 deflagrar de uma bomba obrigou o Dr. AFONSO
COSTA a sair pela janela do eléctrico, fracturando a cabeça, A gente daqueles tempos
aplicava ao Dr. AFONSO COSTA a adivinha do botão: uqual é coisa qual é ela que
entra pela porta e sai pela janela?n Pois FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS -
não deixou de escrever na sua resposta a A Capital.' «De resto, seria de mau gosto
repudiar ligações com o futurismo numa hora tão deliciosamente mecànïca em que
a própria Providência Dívína se serve dos carros eléctricos para os seus altos
desígniosn.
Tal frase escandilïzou a imprensa afonsina e não faltaram fanáticos admiradores
do Dr, AFONSO COSTA que, em desforço, quiseram linchar o poeta numa altura em que
sabïam que ele ia ao restaurante IRMÃOS UNIDOS. Mas FERNANDO PESSOA, prevenido
a tempo, saiu pela porta traseira do restaurante, refugiando-se na extinta Praça
da Figueira, junto de uma galinheira que o ocultou, saindo assim ileso (Evocando
Fernando Pessoa e o atentado de que saiu ipso, in Cidade de Tcmar, de 22-2-1985).
ANTÓNIO QUADROS (Fernando Pessoa - Vida, personalidade e génio, 3.a edição, p.
41), diz-nos que foi precisamente devido às referências frénicas de FERNANDO PESSOA
- ÁLVARO DE CA14rPOS na referida resposta ao artigo de A Capital que se deu a
primeira cisão entre os componentes do antigo grupo do Orfeu, que jó, dava sinais
de desagregação, dele se tendo então desligado ALFREDO GUIZADO e ANTÓNIO FERRO.
0 mesmo autor, que é filho de ANTÓNIO FERRO, afirma (op, cit., p. 253), escudando-se
em Jono GASPAR SIMÕES, que foi graças à amizade de seu pai, então director do SECRE
TARIADO DE PROPAGANDA NACIONAL e membro do respectivo júri, que, apesar de tudo,
foi concedido um prémio ao
96
livro Mensagem, de FERNANDO PESSOA. E também diz (p. 53) que PESSOA enviou a
Mensagem a ANTÓNIO FERRO com uma dedicatória afectuosa (3) e que ANTÓNIO FERRO
foi um dos poucos acompanhantes do enterro do poeta (a~, cit., p. 273), o que aliás
eu próprio, que também assisti ao funeral, posso confirmar e até consta da notícia
necrológica Morreu Fernando Pessoa, grande poeta de Portugal, in Diário de
Notícias, de 3 de Dezembro de 1935.
Malhas que o Império tece...
Com PEDRO TEOTÓNIO PEREIRA as relações do poeta não eram melhores das que ele tinha
com ANTÓNIO FERRO:
nTEOróxIO PEREIRA, ainda como académico hav!a tomado uma atitude de extremo ataque
contra FERNANDO PESSOA e os seus amigos de então. FERNANDO PESSOA vingava-se e
quando diante dele diziam que TEOTÓNIO PEREIRA tinha um certo valor e talento,
ele respondia célere e por forma invariável: - 0 que nele choca, na verdade, é
o facto de ter uns pés despropositadamente grandes. E concluía: -Tem realmente
uns pés muito grandes» (Evocando Fernando Pessoa, in Eco de Estresnoz, de
9-6-1973). Pés tão grandes, mesmo descomunais, deveriam levar longe PEDRO TEOróxIo
PEREIRA na caminhada da vida, dizia também o poeta (Evocando Fernando Pessoa, in
Eco de Estremoz, de 29-9-1973).
JOSÉ DE ALMEIDA NEGREIROS também não era pessoa da muita simpatia de FERNANDO
PESSOA, que dizia não saber no que ele era pior (A abusiva a~ro~riação de Fer
nando Pessoa, ïn Cidade de Tomar, de 24-4-1980; Acerca do projectado retrato de
Fernando Pessoa, in Cidade de Tomar, de 29-7-1983).
Com tal afirmação PESSOA estava, porém, sendo injusto para com ALMADA NEGREIROS.
Este poderia não ser um
97
grande escritor mas foi, sem dúvida, um excelente artista plástico, que ficou para
a posteridade como tal.
Um dia, tendo PEIXOTO BOURBON levado para o CAFÉ MONTANHA um programa das Festas
da Cidade de Lisboa, contendo desenhos de JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS, o qual
andou de mão em mão, todos os da tertúlia, de forma unânime, puseram defeitos aos
respectivos desenhos. uUns entendiam que as caras eram inexpressivas, os olhos
bugalhudos, os pés e as mãos defeituosos e de proporções monumentais. Para outros
eram os corvos cujas asas mais pareciam pentes de senhora. Mas eram sobretudo os
cavalos, aliás tão pródigos nos desenhos, que eram objecto dos maiores sarcasmos.
Mas lembro-me, como se fosse hoje, que um dòs maiores sarcasmos foi proferido por
FERNANDO PESSOA que chegou à conclusão de que os focinhos ou ventas dos cavalos
mais se aproximavam dos de um Tapir do Brasil ou do Paraguai. E disse mesmo: nãò
são ventas de um equino que se preze e tenha um mínimo de raça mas sim as ventas
de um proboscídeo» (Evocando Fernando Pessoa, in Cidade de Tomar, de 4-1-1985).
Todavia, com data de 1 de Março de 1913, FERNANDO PESSOA escrevera (Páginas intimas
e de Aatto - Introdução, p. 42) : ~~Fuí com o ALMADA NEGREIROS a0 quarto dele ver
os trabalhos para a exposição; achei-os muito bons».
FERNANDO PESSOA fez mesmo uma crítica à referida exposição de ALMADA NEGREIROS,
da qual recortamos as seguintes palavras:
aQue ALMADA NEGREIROS não é um génio - manifesta-se em não se manifestar»,
oMas que este artista tem brilhantïsrrao•elinteligêncía muito e muita - eis o que
está fora de se querer negar: Mas terá talento? 0 ponto para quem quer dïscutír
é este.
98
ALMADA acompanhou PESSOA à última morada, como eu próprio posso testemunhar e se
pode ver em ANTÓNIO QUADROS (Fernando Péssoa - Vida, personalidade e génio,
p. 273) e na já referida notícïa necrológica do Diário de Noticias, de 3 de Dezembro
de 1935. E foï pródigo em dese
Eu creio que ele tem talento. Basta réparar `que ao sorriso do seu lápis se liga
o polimorfïsmo da sua arte para voltarmos as costas a conceder-lhe intelïgêncía
apenas» (Páginas de Doutrina Estética, p. 47).
99
nhar e pintar FERNANDO PESSOA, o que é prova do seu grande apreço pelo poeta. Haja
em vista o célebre quadro que esteve no restauranre IRMÃOS UNIDOS e que hoje
pertence à CÁMARA MUNICIPAL DE LISBOA.
24. - FERNANDO PESSOA no Restaurante Irmãos Unidos. Quadro de ALMADA NEGREIROS,
Museu Municipal de Lisboa.
Em carta que me dírïgiu em 22 de Abril de 1985, PEIxoTO BouxsoN lamenta-se de não
ter assistido ao funeral do poeta seu amigo. E explïca:
uDeu-se a triste circunstância de no dia 1 de Dezembro, como era feriado nacional
não se publicarem jornais e quando os bons e autênticos amigos de FER-
23. - FERNANDO PESSOA. Desenho de ALMADA NBGREIRos feito no regresso do enterro
do poeta.
100
FERNANDO PESSOA era monárquico, como aliás MARIo Sn CARNEIRO também o era. Mas
FERNANDO PESSOA era-o osui generis» e os integralistas não lhe merecïam sïmpatia.
Um facto, porém, pouco conhecido é o de que PESSOA foi, com SEMIÃO PINTO DE MESQUITA,
no tempo da Monarquia do Norte, agente de ligação entre os elementos
revolucionários monárquicos do Norte e os do Sul, conferenciando no Maninho da
Arcada (Evocando Fernando Pessoa, ïn Eco de Estremoz, de Z8-7-1973; A abusiva
apropriação da Esquerda da figura impar de Fernando Pessott, in Eco de Estremoz,
de 8-2-1980).
Por isso PEIXOTO BOURBON o levou a visitar a Junta Escolar Monárquica do Instïtuto
Superior de Agronomïa, que se encontrava instalada na Rua dos Lusíadas, tendo-se
FERNANDO PESSOA comprometido a fazer ali duas conferências subordïnadas aos temas
de que só nas monarquias houve autênticas democracias e de que as artes e as letras
só também numa monarquia poderïam voltar a ter de novo a expressão que outrora
tiveram em Portugal. Como, porém, a referida f unta Escolar Monárquica deixou de
éxïstir, não mais PEIXOTO BOURBON voltou a falar a FERNANDO PESSOA nas referidas
conferências (Evocando Fernando Pessoa, ín Eco de Estremoz; de 17-2-1973;
Consciência Naciànal, de Janeiro de 1984).
Um, dia o DT. CARLOS LOBO DE OLIVEIRA eXlblü a FERxANDO PESSOA a árvore genealógïca
deste, em que provava a sua ascendência judaïca. FERNANDO PESSOA fïcou visivel
mente contrariado e desabafou: oPreferia n"ao a ter mas não é por isso que me vou
atirar ao Tejo» (Abusiva aproj~riação da Esquerda da figura impar de Fernando
Pessoa, in Eco de Estremoz, de 8-2-1983).
PEIXOTO Bouxsox abastecia FERNANDO PESSOA de sabonetes KLife Boy» por, segundo
dizia EDUARDO FREITAS
xANDO PESSOA tomaram conhecimento da sua morte. já o funeral havia sido realizado».
DA C05TA, parente do poeta, ser um sabonete de marinheiros e FERNANDO PESSOA gostar
muito do mar (A abusiva a~ropriação de Fernando Pessoa, in Cidade de Tomar, de
8-5-1980).
Conta PEIXOTO Bouxsox que uma vez apontaram torpemente FERNANDO PESSOA como
homossexual, tendo 0 CoxDE DA TORRE, com o seu ar impulsivo, tido intervenção
física em desforço eficaz do poeta, pelo que oos maldïzentes perderam o pïo pois
que temeram pela sua integridade física» (Evocando Fernando Pessoa, in Cidade de
Tomar, de 18-10-19$2).
Agora um facto verdadeiramente desconcertante:
Na obra de FERNANDO PESSOA sentimos grande pudor, mesmo aversão, relativamente
aó sexo, o que até poderia significar impotência sexual. Pois PEIXOTO Bouxsox
arreda tal entendimento ao contar-nos:
~~Um dia por parte dos componentes da tertúlia fomos para um bordel da Rna do
Ferregial. FERNANDO PESSOA não nos acompanhou. E com supresa minha vim a descobrir
que frequentava o dito bordel e até nele tinha uma apaixonada. Ora tornou-se visível
que se nos tivesse acompanhado se descobriria parte da sua vïda privada e esta
última para FERNANDO PESSOA era sagrada e não devia ser violada. Assim como
respeitava a vida privada dos outros e nela, de forma alguma, se imiscuía, também
não suportava que lhe devassassem a sua» (Evocando Fernando Pessoa, in Cidade de
Tomar, de 15-7-1983).
Seria deveras interessante que todos aqueles que privaram com FERNANDO PESSOA e
que ainda vivem também escrevessem qualquer coisa relatando o seu contacto humano
com o poeta. Esse conjunto de depoimentos seria altamente interessante e útil para
focar a biografia do poeta. Tenho em mira o Dr. MAxuEL DE MExEZES VASCOxCELOS,
na sequência de igual repto que lhe dirigiu PEIXOTO Bouxsox
102
no artigo intitulado A abusiva apropriação da Esquerda de Fernando Pessoa, in
Cidade de Tomar, de 9-5-1980).
Claro está que não podemos ter a pretensão de que todos aqueles que privaram com
FERNANDO PESSOA escrevam, porque nem todos têm o dom de serem escritores. Mas,
quanto
a esses, conviria que se recolhessem os seus depoimentos enquanto é tempo,
NOTAS
(1) Artigo publicado no jornal 0 Comércio de Gaia, de 2 e 9 de Julho de 1985, e
no jornal Cidade de Tomar, de 19 e 26 de julho de 1985.
(2)    0 CAFÉ MONTANHA situava-se na Rua da Assunção, 74 (JoXo Roi nE Sousn, Fernando
Pessoa-empregado de escritório, 38
p.     (.a) A dedicatória, que pode ler-se a p. 36 (n.~ 24) do Catálogo da exposição
Fernando Pessoa-o último ano, da BIBLIOTECA NACIONAL, é do teor seguinte:
aA AxTóxro FERRO, artista in partibus ìnfideltium, um grande abraço do FERNANDO
PESSOA, 13-XII-1934n.
com
9
0 PENSAMENTO PLATÓNICO DE FERNANDO PESSOA (1)
Para bem se compreender determinado aspecto - a teodíceïa-da poesia de FERNANDO
PESSOA, necessáxio se torna ter presentes estas duas pedias angulares: - PLATÃO
(427 a. C.-347 a. C.) e ARisTÓTELES (384 a, C.-322 a. C.) - os dois filósofos gregos
que tanto contrïbuíram, pela originalidade das suas doutrïnas, paia a criação da
teoria do conhecimento.
Por isso - e embora isto não constitua novidade para nïnguém - há que retrogradar
o pensamento, embora em rápidas pinceladas, à Grécia do século lv a, C. e só depois
xegressar à teodiceia do poeta.
A parte os hebreus, que prestavam culto a JEOVá, o deus únïco e invisível, e
condenavam a idolatria, os povos da antiguïdade eram politeístas. Na nobre Grécia,
onde a filosofïa começava a desabrochar, não podïa fazer-se sentia o influxo da
religïão monoteísta dos hebreus, considerados um povo inferïor. Os numerosos
deuses Breco-romanos, seres antropomoxfos com assento no Olimpo, dados a
adultérios e a crimes, não eram, de todo em todo, um modelo de dïgnidade, de
equidade, de justiça, do Bem. Bulir no Olimpo e nos seus deuses eia ytabun. Aí
de quem ousasse derrubar os mitos...
É neste ambïente que temos de localizar a prestigiosa personalidade de SócRnTES
(470 a, C.-339 a. C:).
104
Como o ilustre ateniense não deixou escritos, a sua filosofia é hoje conhecida
através das obras dos seus discípulos PLATÃO e XENOFONTE (430 a. C. -355 a. C.),
sobretudo do primeiro. Mas como PLATÃO faz falar a sua filosofia pela boca de
SÓCRATES, é difícil discernir onde acaba este e começa aquele.
Todavia parece poder afirmar-se que a principal particularidade da filosofia de
SÓCRATBS consiste nisto; -em vez de estudar o mundo físico, como os filósofos
anteriores, considerou que os nossos sentidos apenas nos dão a aparência das
coisas, cujo verdadeiro sentido temos de procurar foxa delas, numa abstracção de
ideias, formando conceitos. Por isso, paia SÓCRATES, o pensamento tem que ír ao
âmago das coisas, buscando-lhes o sentido. E neste espírito crítico o homem foi
sendo instruído a respeito da sua verdadefira natureza, libertando-se dos erros
que obscureciam a sua inteligência. Era o primeiro passo para o conhecimento dos
antigos se encaminhar no sentido do monoteísmo. 0 Olimpo, com os seus deuses
matreiros e adúlteros, não pôde resistir à crítica serena do grande pensador. A
sua intangibilidade foi afectada. E daí a condenação de SÓCRATES à morte por não
adorar os deuses que a cidade adorava e pretender introduzir outra divindade: -
0 BEM.
No caminho do monoteísmo, PLATÃO, aliás iniciado em mistérios religïosos, parece
ter completado o pensamento de SÓCRATES, com os oArquétipos» e a vReminiscência».
Para aquele, os dados dos nossos sentidos são mera sombra ou aparência das coisas,
e não as próprias coisas. Estas preexistem em «Ideias Puras», ou oArquétipos».
Para PLATÃO a causa primária de tudo é um Deus único no seio do qual se encontram
aqueles uArquétïpos» ou oIdeias», que sâo seres reais, etexrios, incorruptíveis
e indestrutíveis.
0 Olimpo dos deuses era, assïm, substituído por um Olimpo espiritual. 0 espírito
humano teria vivido também, no seio de Deus, outra vida anterior à vïda terrena,
na qual lhe teria sido dado contemplar os eArquétiposn. Essa con
105
templação é, porém, esquecida com a vinda ao mundo,- mas a observação das coisas,
pela uRem,íniscêncïa», pode lembrar aos homens a recordação daqueles oArquétipos»,
ARISTÓTELES, aliás discípulo de PLATÃO, avança novo passo no sentido do monoteísmo:
- abandonando os oArquétipos» e a oReminiscência», defende que a essência do conhe
cimento não está fora das coisas mas nas próprias coisas. Para compreendermos um
facto, procuramos-lhe as causas, o seu porquê. Relacionamos um facto desconhecido
com um facto que já conhecemos a este nos explicará aquele. Assim estabeleceu
ARISTÓTELES, com critérïo científico, urna ~~suma» de todas as ciências do seu
tempo, entrando afoitamente no caminho de Deus e deduzïndo a sua natureza: Deus,
que é realmente único, é a causa não criada, portanto primeira e eficiente, do
movimento do Universo, é o nm,otor não movido» do mesmo movimento. Por isso é
imutável, perfeito, transcendente e eterno.
Para AxrsTbTELES, PLATÃO riã0 Cra ainda lritelr'amerite monoteista porquanto o
Olimpo das ideias era ainda politeísmo, embora já evolucionado da fase antropomorfa
para a fase espiritual.
A dïferença de conceitos, em relação ao conhecimento, é tão profunda entre PLATÃO
e ARISTÓTELES, que não é para admirar que nos séculos que se seguiram e ainda hoje
se tenham formado barricadas entre os sequazes de ambos os mestres, nos anais da
filosofia.
PLATÃO é dispersivo e indutivo; como iniciado que é, parte do essencial para o
acidental; argumenta «a priori»; para ele o espírito humano é intelecto passivo,
capaz de
registar sensações. ARISTÓTELES, pelo contxárïo, é compreensivo e dedutivo, parte
do acidental para o essencial; argumenta ua posteriori» e o espírito humano é
ïntelecto activo, capaz de elaborar ele próprio as sensações.
Os campos extremaram-se de tal forma, entre os ensinamentos dos dois filósofos,
que nem até a Igreja, na criação da sua filosofia próprïa, cons~guïu evitar que,
à sua
106
sombra, e por largo tempo Pr.ATno e ARISTÓTELES Contlnuassem a sua dialéctica,
aquele através da patrística de 5t.° AGOSTINHO, este através da escolástïca de
S. TOMÁS DE AQuIrro,
Cabe aqui dizer, tódav a, que, já no século passado e por duas vezes - de 18 de
Setembro de 1861 e 14 de Dezembro de 1887 - a Igreja acabou por condenar, por
intermédio do Santo Ofício, a tese platónica de que a alma humana conhece directa
e imediatamente a Deus e, nele e por ele, todas as demais coisas (Z).        -
Mas voltemos a FExNAxna PESSOA, De que lado da barricada fïlosófica se desenvolveu
a sua posição mental? Neo-Platónico, se confessou algures. E a tal ponto que, no
n ~ 3 da Athena (pp. 113 a 115) o seu heterónimo ÁLVARO DE CAMPOS chegou a publicar
uns Apontamentos para uma esthetica não aristotélica, onde começa por dizer que
assim como há geometrias não euclideanas, não há razão para que se não formem
estéticas não aristotélïcas. A estética aristotélica é baseada na ïdeía de beleza,
enquanto que a estética não aristotéliça tem de se basear na ideia de força, a
força da vida e da sensibilidade,
aAssim, ao contrario da esthetïca aristotélïca, que exige que o índividuo
generalise ou humanize a sua sensibilidade, necessariamente particular e pessoal,
nesta theorïa o per curso indicado é inverso: é o geral que deve ser
partïcularizado, o humano que se deve pessoalizar, o aexterio n que se deve tornar
unterior.o
Mas FERNANDO PESSOA ele próprïo é maïs ,concludente. Ao escrever:
aHá um poeta em mim que Deus me disse...h (s).
faz puro e declarado platonismo, na tese que a Igreja condenou, pela forma atrás
referïda. .
A teoria da aRemiuïscência» ressalta destoutra poesia, constante das çaxtas do
poeta a ARMANDO CORTES RODRIGUES,
p. 60, e que vem reproduzida a pp, 83 e 242 do voh II da l.a edição da Vida e obra
de Fernando Pessoa, de GASrAa SIMÕES:
aE a ideia de uma Pátria anterïor A forma conscïente do meu sera,
Mas onde o platonismo é maïs flagrante é nas poesias seguintes, onde vamos topai,
com impressionante nitidez, os oArquétiposn e a aRemíniscênciao.
Ouçamo-lo:
aEmíssário de um rei desconhecido,
Eu cumpro ïnformes instrucções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anónïmo sentido...
Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem, E a glória do meu Reí dá-me o desdém Por
este humano Povo entre quem lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou. Minha missão será eu a esquecer
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas ah! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida ser... f á viram Deus as mïnhas sensaçõeso...
(a),
aNeste mundo em que esquecemos Somos sombras de quem somos, E os gestos reais que
temos
No outro em que, almas, vivemos, São aqui esgares e assomos,
107
108
Tudo é nocturno e confuso No que entre. nós aqui há, Projecção, fumo difuso Do
lume que brilha ocluso Ao olhar que a vïda dá.
Mas um ou outro, um momento, Olhando bem, pode ver
Na sombra e seu movimento (s). Qual no outro mundo é o intento Do gesto que o faz
viver,
E então encontra o sentido Do que aquï está a esgarar, E volve ao seu corpo ido,
Imaginado e entendido,
A intuição de um olhar.
Sombra de corpo saudosa, Mentira que sente o laço Que a liga à maravilhosa Verdade
que alcança, ansiosa, No chão do tempo e do espaço» (s).
oAh, tudo é símbolo e analogia!
0 vento que passa, a noite que esfria, São outra coüsa que a noite e o vento Sombras
de vida e de pensamento,
Tudo o que vemos é outra coisa. A maré vasta, a maré ansiosa, É o éco de outra
maré que está Onde é real o mundo que há.
Tudo o que erros é esquecimento. A noite fria, o passar do. vento,
Sâo sombras de mãos; cujos gestos são A realïdade desta Ilusão» (s e').
Até FERNANDO PESSOA observa a teoria platónica do amor, tão bem cantada por Luís
DE CAMÕES (soneto X, ín Obras de Luís de Camões, Biblioteca Portuguesa, 1852, t,
2, p. 10)
uTyansforma-sé o amador na cousa amada, Por virtude de muito imaginar.
Não tenho logo maïs que desejar. . Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada, Que mais desejada o corpo de alcançar? Em
si somente pode descansar,
Pois com ele tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semidea,
Que como o acidente em seu sujéito, Assim com a alma minha se conforma;
Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca. a forma».
Pois FERNANDO PESSOA exprïme idêntico pensaménto no poema Eyos 'e Psique (Poesias
de Fernando Pessoa; edições Ática, 1945, p. 239):
uConta lenda que dormia Uma Princésa Encantada A quem só despertaria Um Infante,
que viria
De além do rr~uro da estrada.
109.
Mas cada urn cumpre o Destino - Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino
Que faz existir a estrada,
E, se bem que seja obscuro Tudo estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora.
E, inda tanto do que houvera, A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.
das pessoas e das coisas que passam em frente da entrada. Não conhecendo senão
as referidas sombras, os pobres cativos tomam-nas por realidade, e se os trouxessem
para fora da gruta para lhes mostrar o sol ou até os objectos cujas sombras
contemplavam, ficariam espantados e não veriam nada. Só após um período de educação
- iniciação - é que viriam a ser capazes de fixar os ditos objectos e então é que
conheceriam que eles eram a realidade, enquanto que as sombras que viam na caverna
não passavam de uma opa• réncia enganadora (in ReQública, liv. vu).
(.s) Poesias de Fernando Pessoa, Ática, 1945, p. 197.
(')   Poemas Dramáticos de Fernando Pessoa, Ática, 1962, p, î6.
0 pensador que, nas poesias transcritas, tão bem soube exprimir, como seus
próprios, os conceitos platónicos dos aArquetipos~> da oRemíníscêncïao e do
oAmora, não pode dei
xar de ser considerado, como o consideramos, um pensadox platónico.
NOTAS
Artigo publicado no jornal 0 Comércio de Gaia, de 27 de Julho de 1984.
(z)   Suma Teológica; edição da B. A. C., tomo r, eIntroduccion a la cuestion rra,
p. 104.
(') Poesias de Fernando Pessoa, Atica, 1945, p. 37. (~) Op. cit., p. 59.
(6)   Repare-se na precisão com que o poeta se refere à célebre alegoria da Caverna,
em que PtnTAo nos apresenta uma gruta profunda em que estão encarcerados
prisioneiros desde a nascença,
virados para a parede do fundo sobre a qual o sol projecta a sombra
10
FERNANDO PESSOA E 0 PANTEÍSMO (1)
Para explicar a relação de Deus com o mundo, surgem duas teorias: o ~anteísnao
e a doutrina da criação (z). Segundo os panteístas, o conjunto de coisas a que
chamamos Mundo, ou melhor, a Natureza, não passa, na realidade, de vários aspectos
do Ser, isto é, de Deus, que, por ser infinïto, está em toda a parte e nada existe
fora dele, que evolui por si próprio.
0 filósofo holandês Bnxucx SPirrozn (1632-1637), de ascendëncia judaico-portu
guesa, pode considerar-se o expoente máximo da filosofia panteísta, que
brilhantemente defende, na Ética (16%7), Para ele Deus é uma substáncia constituída
por uma infinidade de atributos, dos quais só conhecemos dois: O~ensamento e a
extensão. 0 mundo é o conjunto dos modas desses elementos e o Homem é uma colecção
de modos da extensão
e do pensamento. 25. - Bnxucx SPINOZn Segundo a doutrina da
criação (a), Deus é distinto da natureza porque é perfeito em sumo grau e, por
consequência, não pode sofrer as imperfeições do mundo, nem ser imperfeito em sï
próprio, na dor e no mal que no mundo existem. Assïm, o mundo,
embora criado por Deus, foi-o uad extrao, isto é, fora do Criador, e isto em
contraposição aos movimentos uad istmo, em que se filia o mïstério da Santíssima
Trindade.
Criador e Criatura têm, pois, de ser diferentes, até pela própria definição.
Todavia o argumento panteísta de que nada pode existir fora de Deus visto que tudo
faz parte dele, que tudo enche com a sua infinidade, impressiona à primeira vista.
Uma doutrina, porém, para poder admitir-se, sobretudo tratando-se da teoria do
conhecimento, tem de resolver todos os problemas. Ora a verdade é que o panteísmo
não os
resolve, pois deixa sem explicação os problemas da Liberdade, do Mal, da Dor e
da Morte e, consequentemente, não explica o pecado nem a redenção. Com efeito,
atentas as supremas perfeições: bondade, justiça e incorruptibilidade, que são
atributos de Deus, como poderia ser lógico atribuir-lhe a origem e a manutenção
do Mal, que é a própria negação dos atributos divinos, da Dor, que apenas pode
existir onde exïste imperfeição, e da 1~Morte, que conduz directamente à corrupção
da matéria?
Os comentadores da Suma Teológica de S. TODIÁS DE AQmNO (edição da Biblioéeca de
Autores Cristianos), respodem ao argumento panteísta, escrevendo a p.169 do tomo
i, na Introdução à questão III:
uLa transcendência de Dios signïfïca dïstïnción real y substancial del Mundo, lo
cual no impide que Dios esté intimamente presente a todas Ias coisas, como
invadíéndolo todo con su acciono.
A Igreja, por diversas vezes, condenou a doutrina panteísta, por herétïca e insana,
tendo o Concílio Vaticano 1 definido solenemente a distinção entre Deus e o Mundo:
uSe
alguém dïsser que é uma e idêntica a substância ou essência de Deus e a de todas
as coisas, seja anátama, Se alguém dïsser que as coisas, quer corpóreas, quer
espirituais, ou pelo menos as espirituais, emanaram da substância divina, ou
que a essência divina, pela manifestação e evolução de si própria, faz todas as
coisas, ou que, finalmente, Deus é o ser universal e indefinido que,
determinando-se a sí próprio constitui a universalidade das coisas distintas em
géneros, espécies e indivíduos, seja anátemas (Denz. n.~e 183-184).
Noutro lugar, dissera-se também no Concílio Vaticano I: uDeus deve sex tido como
real e essencialmente distinto do munda> (Denz. n.~ 1782).
Feito este mal alinhavado mas essencïal introito ao problema do panteísmo, vejamos
como se comportou FExNANI)0 PESSOA em relação a ele, ou melhor, qual foi a sua
atitude mental,
ÁLVARO DE CAMPOS revela assomos panteístas na seguinte poesia (°)
untais análogo serei a Deus, seja ele quem for, Porque, seja ele quem for, com
certeza que é tudo, E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco, Cada alma
é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor - Universo para Deus, Cada alma é um rio correndo por margens
de Eterno Para Deus e em Deus com um sussurro soturnos.
Mas nestoutra, parece aderir à doutrina da criação, quando, nas seguintes palavras,
reconhece a transcendência de Deus:
uAquilo que, quando se abrange tudo, ainda ficou fora~> (e).
Em ALBERTO CAEIRO, a questão é abordada através de uma séxie de dúvidas. Ouçamo-lo
(s)
uNão acredïto em Deus porque nunca o vi. Se ele quïsesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou!
Mas se Deus é as árvores e as flores E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; Porque, se ele se fez, para eu
o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol. E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), Obedeço-lhe a viver,
expontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê, E chamo-lhe luar e sol e flores e E amo-o sem pensar
nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora».
árvores e montes,
Dir-se-ia mesmo que o poeta esteve quase a enfileirar no panteísmo com expresso
repúdio da doutrina da criação, quando o seu heterónimo ALBERTO CAEJRO escreveu
('):
oDiz-se que Deus não percebe nada Das coïsas que criou -
Se é que ele as criou, do que duvidou.
se tivesse
A verdade, todavia, é que embora PESSOA
colocado à beira do problema e o tivesse sentido com toda a intensidade, não o
resolveu. Ele próprio o confessa pela boca de ALBERTO CAEIRO (s):
alma
«Que tenho eu meditado sobre Deus e a E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas)».
0 olhos
Poderíamos assim concluir que, apesar do aparente aspecto panteísta dos poemas
dos seus heterónimos, FERxArrDO PESSOA nem era panteísta, nem seguïa a doutrina
da criação nem tão-pouco criou qualquer doutrina nova para explïcar a relação
existente entre Deus e o Mundo. ltilas, por outro lado, uma vez que FERNANDO PESSOA
se confessou o:cristão>, embora gnóstico (s), e dado que a doutrina da criação
é a única adaptável a qualquer forma de cristianismo, segue-se impIïcïtamente que
era essa também a doutrina filosófíca de FERNANDO PESSOA, com a consequente
exclusão do panteísmo, que apenas aparece incidentalmente na sua obra através dos
seus heterónimos e por forma que reputo desprovida de convicção.
A menos que convenhamos em que FERNANDO PESSOA, que muïtas vezes afïrma o ser e
o não ser, tenha adoptado a seguinte máxima do seu heterónimo ÁLVARO DE CAMP05,
escrita no meu livro de autógrafo em data de 12 de Novembro de 1930:
oTer opiniões é estar vendido a si próprio. Não ter opiniões é exístïr. Ter todas
as opiniões é ser poeta»,
NOTAS
(') Artigo publicado com este título, no jornal Cidade, de Tomar, de 9 de Novembro
de 1984.
BERNARDO BOEDDER, S. J. _ NRl1e,Mal TÏ2e0lOgy, 1906, pp. 109 e ss.; J. BUJANDA,
S. J.-Manual de Teologia Dogmática, Porto, 1952, p. 22.
(3)    Cabe aqui dizer que a doutrina da criação embora seguida pelos hebreus desde
tempos imemoriais, era todavia desconhecida dos filósoïos da antiguidade,
designadamente PLAnno e ARtsTóTELEs
e tudo indica ter sido St.~ AGOSTINHO quem a trouxe para o campo da especulação
filosófica, não obstante Pr nTne, no Pclltico, admitir a existência de um Criador
ou Ordenador, que pode variar conforme os ciclos, tendo o ciclo de Zeus sucedido
ao de Saturno. Por isso 0
poeta disse (Obras Completas de Fernando Pessoa-Poesias de Fevnando Pessoa,
Edições Mica, p. 218)
aNasce um Deus. Outros morrem. A verdade Nem veio nem se foi; o Erro mudoun.
(~) Obras Completas de Fernando Pessoa-Poesias de Álvaro de Campos, Edições Ática,
p. 104.
(6) Obras Completas de Fernando Pessoa-Poesias de Álvavo de Campos, Edições Âtica,
p. 93.
(e)    Obras Completas de Fernando Pessoa -- Poesias de Alberto Caeivo, Edições
Atica, p. 28.
(~) Op. cit., p. 33. íe) Op, cit., p. 28.
(s)    Jono G9SPAR SIMÕES, Vida e obva de Fernando Pessoa, ri, 1,8 edição, p. 361,
FERNANDO PESSOA, 0 POLITEÍSMO E 0 EMANANTISMO (1)
Uma leitura superificial da poesia de FExNnNDO PESson pode, para o observador menos
atento, colocar o poeta, em relação ao conhecimento divino, em pleno paganismo,
no politeísmo religioso do Olimpo dos Deuses da mitologia greco-romana.
A leitura das Odes de Ricc,rdo Reis não nos deixa outra ëxpressão.
Peguemos na edição da Ática das referidas Odes, que fazem parte da Colectânea de
poesias de FERrrnrrDO PESso2 e vejamos:
A expressão deacses é quase permanente, porquanto aparece a pp. 16, 29, 37, 41,
42, 43, 44, 45, 46, 48, 49, 53, 54, 55, 57, 58, 69, 70, 71, 74, 75, 88, 126, 128,
130, 137, 163, 164, 166, 167, 169, 170, 172 e 173.
0 Olirra~o vem referido a pp, 43 e 53.
ÜBANO, pai dos ciclopes e de Serax~ro, que o venceu iniciou por isso novo ciclo
divino, vem referido a p. 49. SATURNO ou CRO~ros, deus do Tempo, que devorava os
filhos, que considerava rivais, mas que não impediu que seu filho JÚPITER o
destronasse, iniciando outro ciclo divino, ao qual todavia gregos e romanos
atribuíam a bênção das colheitas, vem expressamente referido a pp, 16, 50, 71,
75,
120
81, 105 e 164. E a p. 14, também RICARDO REIS se lhe refere ao dizer:
eNão se resïste Ao deus atroz Que os próprïos filhos devora sempreo,
JúPITER ou JovE, o pai dos deuses, deus do céu, supremo senhor e governador do
universo, vem referido a pp. 16, 40 e 163.
NEPTUNO, também filho de SATURNO, deus des mares, vem referido a p. G6.
APOLO, filho de JúPITER, deus da luz e da música, simbolïzando origïnaríamente
o Sol, vem referido a pp. 16, 19, 21, 34, 49, 162, 163 e 164.
V~NUS, também filha de JúPITEx, deusa da Beleza e do Amor, equiparada à ASTARTE
dos fenícios, vem referida a p. 163.
DIANA, igualmente filha de JÚPITER, deusa da caça, deidade da luz que dispensa
bênçãos mas também envia a morte e a perdição, vem referida a p. 163.
PLUTÃO, filho de SATURNO, deus da terra e subterrâneo, vem referido a pp. 27 e
36.
Além dos deuses maiores, RICARDO REts também se refere aos deuses menores. Assim:
A pp, 19, 21, 49, 162, 163 e 164, refere PÃ, deus das forças fecundantes da natureza,
equiparado ao ATts frígio. A pp. 50, 66 e 121 vem referido SOLO, deus dos ventos.
FLORA, deusa das flores e da maternidade, vem referida a p. 162.
E CERES, deusa da agricultura, vem referida a pp. 162 e 164.
Outras figuras da mitologia greco-romana nos refere ainda RICARDO REIS:
A pp. 27, 88 e 163, fala-nos das PARCAS, fïlhas de JúPtTER, que eram em número
de 3 e que designam propriamente
do mundo
a porção de vida e a qualidade desta que a cada indivíduo é assinalada ao nascer.
As PARCes eram imaginadas como fiandeïras do fio da vida e anunciadoras de oráculos.
E a pp. 71, 95 e 96, refere RICARDO REIS o barqueiro CARONTE e a sua barca, em
que transportava os mortos pela lagoa ESTIGIA do Inferno, pelo que era costume
pôr uma moeda na boca do morto precisamente para pagar a CARONTE a barcagem com
a finalidade de a sua alma não fïcar na margem da ESTIGIA e poder passar paia o
outro lado.
RICARDO REIS faz-nos lembrar, nesta matéria, CAUÕEs que, nos Lusíadas, entrecruza
o maravilhoso cristão com o maravilhoso pagão.
CRISTO, referido a pp, 19, 48, 49, 71, 74 e 75 é posto em paralelo com as demais
deuses:
oNão matou outros deuses 0 trïste deus cristão. Cristo é um deus a mais. Talvez
um que faltava».
Mas não é só RICARDO REIS que nos fala de deuses. ÁLVARO DE CAMPOS, a p. 261 das
Poesias de Ávaro de Cambos, edição Ática, dïz:
aE caí, como caem os deuses, no chão do de9tíno~.
Por seu turno, ALBERTO CAEIRO (Poemas de Alberto Ca~ivo, Edições Ática, p. 70),
diz:
~~E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme,
E FERNANDO PESSOA ele próprio (Poesias de Fernando Pessoa, Edições Ática, p. 236)
não se esquiva também a falar-nos em deuses.
nPor fim, na funda caverna, Os Deuses despem-te maís~.
122
Não é menos desconsertante do que as poesias referidas este pedaço de prosa de
FERNANDO PESSOA, que transcrevemos de p. 11 do Suplemento à análise da vida mental
por
tuguesa (Porto, 1950) : - oNão queiramos que fora de nós fique um único deus!
Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar, resta que conquistemos o Céu,
ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os
europeus que ruão são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as
maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar aïnda alguma coisa! Creemos
assim o Paganismo Superïor, o Politeísmo Supremo».
Mas o monoteísmo parece expressamente afirmado pelo poeta, como se vê das seguintes
passagens das Poesias de Fernando Pessoa:
P. 37:
dizer, através do seu heterónimo RICARDO REIS (p. 54 das respectivos Odes):
oAnjos ou deuses, sempre nós tivemos, a vïsão perturbadora de que acima de nós
e compelindo-nos
agem outras presenças».
A seguinte passagem de RUDOLF STEINER (Au seuil de la théosophie, p. 55) que
Fernando Pessoa, pela sua cultura teosófica, não podia deixar de conhecer, parece
vïr dar maior consistência à conclusão sobredita;
oSur l'ancienne lune (l'état planétaire qui a précédé notre terre actuelle),
existaïent des êtres plus élevés dans l'évolution que ne l'étaient les ancêtxes
de l'huma nïté.     Ils composaient les deux catégories de dieux que la terminologïe
chrétienne a appélés les anges et les archanges».
Mas a carta que o poeta escreveu, em faneíro de 1935, a ADOLFO CASAIS MONTEIRO
(ln GASPAR SIMÕES, Vida e obva de Ferroando Pessoa, It, pp. 232 e 233), permite-nos
encarar o problema mais etn profundidade. Alí dïz PESSOA:
uCreio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos,
em experiêncïas de diversos graus de espirïtualidade, subtilizando-se até se
chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja
outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses
universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não, ou seja, a Maçonaria,
evita (excepto a Maçonaria Anglo-Saxónïca) a expressão Deus, dadas as suas
implicações teológicas e populares, e prefere dizer Grande Arquitecto do Universo,
expressão que deixa em
123
oSou grato Ao que do pó que sou me levantow~.
P. G2:
aE, perto ou longe, grande lago mudo,
o mundo, o informe mundo onde há a vida... e Deus, a Grande Ogiva, ao fim de tudo...».
Podemos, assim, ser levados a concluir que, por deuses, PESSOA subentendia apenas
os Arquétipos ou Ideias existentes no seio de Deus segundo PLATÃO, o Olimpo dos
Ideias que substituía, na filosofia platónica, o Olimpo dos Deúses, segundo a
crítica de ARISTÓTELES; ou os seres espíritos puros, anjos ou demónios, que todas
as filosofias, excepto a materialista, sentiram a necessidade de admitir. Parece
ser o próprio poeta a inculcar esta conclusão, ao
IZ4
Faca que se veja nitidamente a fonte dos conceitos que acabam de ser transcritos
(a crença que tinha o poeta na verdade revelada através de sociedades secretas
iniciáticas)
comparemo-los com os Artigos de fé e acto de vcligiãa do Credo íl~Iaçónico que
BENJANItM FxANxttrr redigiu, em 20 de Novembro de 1728, aquando da sua iniciação
numa loja maçónica de Fidadélfia e que podem ler-se a p. 50 de A Idade Maçónica,
de LusoL:
oPrimeiros princípios : - Creio que existe um Ser Supremo, absolutamente perfeito,
autor e pai dos próprios deuses.        .„.„„...,..„,.,
Concebo.pois,que.o,infinito.críou muitos seres ou deuses muito superiores ao
homem, os quais podem conceber as suas perfeïções melhor do que rés e apre
sentar-lhe as suas homenagens de maneira mais racional e mais gloriosa. Estes
deuses, criados pelo Infinito, são talvez imortais ou mudam talvez após
longuíssimos períodos e são substituídos por outros.
Ficamos agora habilïtados a compreender porque razão FERNANDO PESSOA escreveu,
nas referidas Possias:
P. 218:
branco o problema se Ele é Criador, ou simples Governador do Nlundo».
aNasce um Deus. Outros morem. A verdade Nem veio nem se foi: o Erxo mudou».
P. 252:
t~Deus é o Homem de outro Deus maior».
P. 253:
oEntão, senhores do limiar dos Céus, Podemos ìr buscar além de Deus
0 segredo do iVlestre e o Bem profundos.
PESSOA era, consequentemente, um adepto da chamada teoria do emanatismo, trazido
para o Ocidente através da Kabala (a Santa Kabbalah, como ele dizia) e espalhada
entre os gnóstícos, segundo a qual a substâncïa emana de Deus, sendo as crïaturas,
assim, substâncïas desprendidas do ser divino. A Kabala, que significa
t+tradição», era o processo pelo qual os judeus interpretavam misticamente a
Bíblia, sendo o repositório das doutrïnas místicas dos sábios hebreus da Idade
Média mas as suas
origens remontam ao recebimento das leis por MOISÉS, que teria sido proibido por
ELOInI ( JEOVÁ) de revelar toda a cïência, para que ficasse algo para os sábios
descobrïrem, a fim de que a salvação não constitufsse apenas o património dos
obedientes, mas também o dos sábios (ÉMILE SCHAUB-Koex, Contribuição fiara o estudo
do ~~ntástica no romance, Pp. 214 e 215).
A Kabala pressupõe quatro mundos: - o da emanação, o da criação, o da formação
e o da acção ou da natureza. Estes mundos, bem como as forças ocultas que neles
exis tem, são representados simbolicamente por uma árvore (a da ciêncïa), por
letras do alfabeto hebraico, pox figuras geométricas ou ainda por sïn.ais ditos
cabalísticos (The lE. Donzel, 11lagis et science secrets, pp, 158 e ss.; P. V.
Ploss, Formulaire de haute magie, pp, 44 e ss.).
Um dos mais ilustres cultores do emanatismo foi ORIGENES, que o divulgou através
de várias obras, desígnada
s`T 1 t1 ~
26. - A chave geral da Kabala que consiste na maneira de escrever JEOVn em caracteres
hebraicos.
125
126
mente A criação eterna e o número infinito dos mundos sucessivos.
~~. - As vinte e duas letras usadas nos ideogramas cabalísticos.
Porém, o Concílio Vaticano I condenou expressamente a teoria como herética, ao
prescrever (ut Suma Teológica, edição espanhola B, A. C., i, pp. 165 e 166)
aSe alguém disser que é uma e idêntica a substância ou essência de Deus e de todas
as coisas, seja anátema. Se alguém disser que as coisas, quer corpóreas
quer espirituais, ou pelo menos as espirituais, emanaram da substância divina,
ou que a essência divina é origem de todas as coisas pela manifestação e evolução
de sï mesma, etc., etc. ... seja anátema».
Essa deve ter sido uma das razões porque o poeta, ao referir a sua posïção religiosa,
na nota biográfica transcrita a p. 362 do volume II da referida obra de GASPAR
SIMÕES,
se intitulou aCristão Gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas
organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma.
?5. - 0 pentagrama de Irliphas Levi, repleto de sinais cabalísticos.
127
E FERNANDO PESSOA disse, continuando a carta a CASAIS MONTEIRO:
abadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas,
segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando cada vez maïs
altos»...
NOTA
Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do
Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta de Israel (a Santa
I~abbalah) e com a essência oculta da Maçonaria».
(') Artigo publicado no jornal 0 Cvorzásta, de 28 de Junho de 1955.
lz
A TEORIA DA REENCARNAÇÃO E A LITERATURA (r)
A teoria da reencarnação ou da transmigração das almas consïste no facto de estas,
após a morte, voltarem de novo à vida terrena, mediante reencarnações sucessivas,
tantas quantas as necessárias para ascenderem a outras vidas de mais amplos
horizontes e de explêndïdas possibilidades. $ o Purgatório na terra.
Já admitïda por PITÁGORAS, que falava das suas existências anteriores, a
reencatnação foi cantada por PfNDnao como mito popular mas só PLATÃO, iniciado
nos mistérios órficos, que aprendera em Itália, e nos mistérios de ELEUsts, lhe
veïo a dar certa consistência filosófica. A teoria da reencarnação completa, de
resto, a teoria da reminiscência, e é fundamento da doutrina das ïdeías: - saber
é recordar; no fundo da alma jazem em dormência as xecordações (reminiscência)
do aprendido em anteriores existências e, ao encontrar-se ante experiências
similares, a alma vai acordando aquelas recordações. 0 princípio nsaber é
recordares baseia-se em que a alma conhece o Arquétipo de Igualdade e de Beleza,
isto é, o Ser.
Influenciado pelos pítagáricos, PLATÃO defende, como eles, que para ser objecto
de prémio ou de castigo após a existência humana, a alma, além de poder passar
de pessoa para pessoa, pode igualmente passar duma pessoa para um animal, e
vice-versa. Por isso PLATÃO defendia o vegetarianismo. EMPÉDOCLES, também sequaz
da doutrina, ia mais longe, porque estendia a transmigração até aos vegetais. 9
130
É impossível afirmar, ao certo, onde e como nasceu a teoria da reencarnação
porquanto, se ela era conhecida no Oriente desde tempos imemoriais, também a mesma
crença existia entre os druidas da Gália e es povos nórdicos que a cantavam nas
suas t~Sagas» (lendas) e até mesmo entre os uPeles Vermelhaso da América, os
esquimós e os ïndígenas do Hawai, da Austrália e das Ilhas da Oceania. Foï, porém,
na gnose que a teoria da reencarnação atïngiu maior vulto, ao divulgar-se quando,
em .~lexandria, as doutrinas platónicas foram renascidas e revigoradas com a
influência oriental e até com a próprïa influência egípcia, a cuja antiga religião
HERÓDOTO atribui a génese da teoria. Então puderam os gnósticos entrar em contacto
com a doutrina, tal como fora aperfeiçoada na Índia, onde já havia alcançado, muito
tempo antes, tal vulgarização e influência que se tornou a doutrina fundamental
do maior número de religiões e sistemas filosóficos ali nascïdos. Assim passou
a teoria para os cristãos gnósticos e, através deles, para todas as heresias
ocidentais, como a Teosofia, a Magia, o Espiritïsmo e a Cientologia.
Entre os cristãos da gnose, a teoria da reencarnação era admitida como uma das
suas doutrinas filosóficas secretas, só transmissível aos oniciadoso. Um desses
cristãos, ORIGENfiS (1~5-254), doutor e mártir da Igreja, que ensinava que a Fé
precede a Gnose, ensinava também que a cada um de nós é dada existëncia num corpo,
no qual recebemos a recompensa dos merecimentos e procedimentos anteriores. Há
porém a considerar que uma corrente tradicional afirma que as obras de ORIGENES
foram condenadas peio Papa SeNTo ANASTÁCIO, o que todavia não é pacífico, porque
outra corrente defende a inexistência de tal condenação. ALFREDO PIMENTA, a p.
398 dos seus Estudas filosóficos e cyitticos, escreveu a propósito:
oNão era homem de grandes luzes, o Papa ANASTÁCIO I, para poder julgar se as obras
de ORIGENES
eram mais prejudicïais aos insensatos do que úteïs aos sábios, na hipótese, claro,
de ele ter condenado as obras de ORIGENES).
0 Dr. GÉRARD ExceussE (Perus); seguindo na esteira do Dr. ROZIER, afirma, a p.
99 da 3,a edição do seu Traité méthodique de coagi; pratique, que nunca foi
condenada pela
Igreja a doutrina que diz que o Purgatórïo pode ser para a alma uma sérïe de
reencarnações terrestres. Não vemos, porém, como tal doutrina possa ser
conciliável com a da ressurreição da carne, contïda no Credo dos Apóstolos e
constituindo matéria de fé, nem com a da eternidade das penas, tantas vezes aflorada
no Novo Testamento (vide, por exemplo: MAT, xxv, 41 e Ix, 11; Luc, xvl, 19; n TESS.
I, Aroc. xm, 9 e xxx, 9). Por isso argumenta o P. Jorro OLIvEIRe, a p, 60 do número
de Junho de 1956 da revista Magnificat, que, a admitir-se a transmigração das almas,
graves embaraços haveria na ressurreição final dos corpos pois se a alma, após
a morte do seu corpo, vai reencarnar noutzo, haverá no fim mais corpos do que almas.
PLeTno influenciou por tal forma os poetas que sobre as suas teorias se debruçaram
que a literatura mundial é hoje rica de poemas cantando a nostalgia das Ideias
ou Arqué tipos noutra encarnação contemplados, dos quais ficou a reminiscência.
A conhecida redondilha de Lufs DE CAMÕES nSobre los rïos que vãoo é um exemplo
típico dessa influência:
aE tudo bem comparado,' ,... ~ ~ . Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado.
Alï lembranças contentes n'alma se representaram; e minhas cousas ausentes se
fizeram tão presentes como se nunca passaram,
132
Outro exemplo frisante de idêntica influência é a poesia dedicada a FRANCISCO
SALINAS por FxAY Luíz DE LÉOri, que pode ler-se a p. 46 de Las ciei muares ~oestias
líricas de la leaag~tia Castellana, de MENENDES y PELAIO (Colecção Austral)
Aquele instrumento ledo deïxei da vida-passada, dizendo: Música armada, deixo-vos
neste arvoredo à memória consagrada. Ficareis oferecida
à Fama, que sempre vela, frauta de mi tão querïda, porque mudando-se a vida, se
mudam os gostos dela. Que se vida tão pequena s'acrescenta em terra estranha; e
se Amor assi ordena,
razão é que canse a pena descrever pena tamanha. Mas ó, tu, terra de glória, s'eu
nunca vi tua essência, como me lembras na ausência? Não me lembras na memória senão
na reminiscência».
oA cuyo són divino
mi alma que en olvido está sumida, torna a cobrar eI tino,
y memória perdida
de su orígen primem esclarecidas,
Na literatura portuguesa contemporânea foi FERNANDO PESSOA, como platónico e
gnóstïco que era, quem, mais se deïxou ïnfluencïax pela teoria da reencarnação,
aflorada aqui
e além na sua obra, através dos arquétipos e da reminiscência,
~ .~..~. ~ti.~
í~.c v.,„G,.o a,' f ~,~.
MLA ~ ~ I~~r ~. ,rw7 ~~ I~Mn yw o(
a,~n.. ....~. ,.,.~.,... ~„."-o ,....,
~6 F ' c.~...~-u
lo/x ~/~3.r ,
29. - Autógrafo de FExhn:vno PESSOA contendo 0 no texto. Do livro de autógrafos
do autor.
aos quais, segundo o platonismo arreigado no poeta, se encontra intimamente ligada.
Mas em nenhum outro lugar dessa obra ressalta tão nitidamente aquela teoria como
no poema inédito, datado de 10 de Novembro de 1930, a que deï pabli
~.~ N..~. ~„... n.~,u-. w,.N-.-, ~.~.         .c    ~s.~.z       ,'. , ,
r
•u-vaycr
N M.M Lfii- ,
poema citado
133
134
cidade com as minhas Algumas notas Biográficas sobre Fernando Pessoa, em cuja p.
19 pode ler-se;
oE„esta, dor que não tem magoa, esta tristeza intangível,
passa em mim como um som de água ouvido num outro nível.
Por certo que outros escritores se preocuparam e se continuam a preocupar com a
teorïa da reencarnação. Mas os exemplos que ficam referidos são suíïcíentes para
demons
trar quanto ela deixou de vestígios marcados na lïtexatura, designadamente na
portuguesa.
NOTA
(1)    Artigo publicado no jornal 0 Cronista, de 22 de Fevereiro de 1958.
E, de ahí, talvez que seja uma nova antiga dor
que outra vida minha esteja lembrando no meu torporo.
OCULTISMO E GNOSE
Nalgumas poesias de FERrrArrDO PESSOA há referências a sociedades secretas e a
iniciações (i).
Outra poesia acaba assim:
aNão procures nem creias: tudo é ocultou (a).
Na declaração datada de 30 de Março de 1935, que é uma autobiografia do poeta e
que se encontra reproduzida a p, 361 do volume u de Vida e obra de Fernando Pessoa,
de foÃO GASTAR SIMÕES, pode ler-se:
uPosição religiosa; - Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas
as igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais
adiante estão ïmplfcitos, à Tradição Secreta do Cristïanismo, que tem íntimas
relações com a Tradïção Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta
da 11Taçonaríao.
Em face do que fica transcrito, e do muito mais que se não transcreveu para não
alongar este trabalho, há que ter presente o aspecto ocultista e gnóstico da
formação filosófico-religiosa de FERNANDO PESSOA,
136
0 que é o ocultismo ou ciência oculta?
Parece que não andamos longe da verdade se afirmarmos que é o conjunto de teorias
e práticas derivadas da ciência primitiva e que, com o decorrer dos tempos, nunca
se adaptaram à discïpIina moral, social e ïntelectual que a Igreja impõe aos seus
fïéis. A teosofia, a magia, o espiritismo e, com elas, as teorias do duplo e da
reencarnação, consideramo-las, poïs, como fazendo parte da Ciência oculta.
A Cíêncïa, primïtívamente, não tinha o carácter profano que hoje tem, ao alcance
de todos os estudiosos. Nem havia especialização; - a medïcina, a gramática, a
liturgia e o
estudo das coisas invisíveis, faziam parte dum todo que era ensinado, nos templos,
pelos sacerdotes, mediante iniciações e só ia sendo revelado aos iniciados à medida
em que estes iam subindo de grau. Daí o primitivo carácter ïniciátíco e oculto
da Cíêncía, que os antigos atrïbuíam à revelação dïvína. Daf também a criação de
sociedades secretas, para a propagação da Ciência pelos nelas iniciados, as quais
foram evoluindo com o decorrer dos tempos, chegando até nós sob os nomes de
Maçonaria, Rosacruz, Martinismo, etc
Em plena Idade Média era em Paris, junto ao pórtico esquerdo da Igreja de Notre
Dame, que se encontravam os várïos ocultístas espalhados pela Europa, que trocavam
entre si sinais misteriosos (s).
A gnose - e não esqueçamos que PESSOA se considerava afinal de contas, senão uma
a vimos considerando. Era o
cristão gnóstico-não era, parte da Cïêncía, tal como saber religioso.
0 gnosticïsmo nasceu na Escola neopïtagóríca Alexandria, quando, nos séculos ti
e III da nossa era, ali se fundiam as ideias orientais, cristãs e gregas, após
a fusão, doïs séculos atrás, do Judaf smo com a fïlosofia Breco-romana (a). Assim,
como solução filosófïca para o enigma do mundo, respeitando embora a revelação
de Cristo, a fantasïa dos orientais dïspunha das noções das suas religiões
(emanação, distin
de
137
ção dum princípio do bem e doutro do mal, jerarquia angélica, etc.) que, à mistura
com filosofemas gregos, puderam constituir uma imagem do processo cósmico (4).
TERTULIANO, ORIGINES, e St.° AGOSTINHO São frutos intelectuais da gnose.
A gnose não é, pois, herética em si própria, ou, melhor, no seu conjunto, mas é-o
na medida em que os filósofos desta escola, na formação dos seus conceitos,
contrariam as verdades estabelecidas pela Igreja. Por isso, e em contrário do que
C()riCIUl FERNANDO PESSOA ria sua declaração atrás transcrita, não se segue
necessarïamente que um cristão gnóstïco, só pelo seu gnosticismo tenha de sex
~ãnteïramente oposto a todas as igrejas organizadas, e sobretudo à igreja de Romao.
Se a gnose aparece tão
ligada à Ciência Oculta é que 30. - Snrrro AaosTixxo (354 ambas são produto da
assími-      -~30). fação das mesmas ideias reli
gïosas orientais. É, por certo, correspondem sinais e pxátícas secretas e por elas
trazidas até referida declaração, FERNANDO ção Secreta do Cristianismo.
A nota do inicio da evolução de FERNANDO PESSOA nos caminhos do ocultismo e da
gnose é-nos dada pela carta que escreveu, em 16 de Dezembro de 1915, a MnRIO Sn
CARNEIRO: o poeta acabava de tomar, extasiado, conhecimento das doutrinas
teosóficas através de traduções de livros de que se
a esta convergêncïa, à qual conservadas pelas sociedades aos nossos dias que, na
sua PESSOA dá o nome de tyadi-
138
encarregava e ligou a sua sensação à que lhe tinha causado a leïtura, havia muito
tempo, dum lïvra sobre os Ritos e os Mistério dos Rosacruz (s}.
NOTAS
(i) Vide, por exemplo, Poesias de Fernando Pessoa, Edições Ática, 1945, pp. 235
e 251.
(z) Poesias de Fernando Pessoa, Edições Ática, 1945, p. 218. (') Dr. PxtLtrrx
ErrenussE-Sciences Occultes ou 25 années d'Occultirsme Occiddental, Paris, 1948,
p. 110.
(°) FVn.xacM DrLTxEY-História de la Filosofia, 112éxico, 1951, p. 105.
(6)    Jono GASPAR SIMÓES, Vida e Obra de Fernando Pessoa, vol, n, pp. 229 e 230.
14
A RELIGIOSIDADE EM FERNANDO PESSOA
u0 século assistiu a um renascimento da preocupação pelos problemas
transcendentais com uma intensidade rara na hïstória, e de que não se via sinal
desde o século xvn, Ao contrário do século xzx, que tinha esses problemas como
defïnítivamente ultrapassados e indignos de m,aiox interesse - não merecïam, nem
ao menos, o trabalho da refutação - a presente centúria conheceu uma renovação
ampla e entusiástïca destes problemas, em várias formas e modalidades. Somos um
século de grande vitalidade religïosa, esta a verdades. Deste modo se exprime Jono
CAMILO nE OLIvErRA TOxxES, a p. 7 da TriUuna dos livras, do Rio de Janeiro, de
27 e Z8 de Abxíl de 1957. Não saberíamos dizer melhor.
Curiosamente, porém, não são as igrejas institucïonalizadas mas as seitas
religiosas que têm, nos últimos tempos, obtido o maior número de adeptos. Pelo
menas em relação
à Inglaterra, é elucidativo o artigo denomãnado Vayieties of Belief, publicado
no jornal New Society, de Londres, de 9 de Agosto de 1984, do qual extraímos o
seguinte trecho:
~dllanïstream ïnstïtutionafized religion seams to be fading ati~ay. Between 1878
and 1980, all the main chuxches in Britain Iost active members. In the church of
England, active membership fell frorr~ 2,158,000 to 1,821,000, Catholíc membership
fell from 1,900,000 to 1,655,000, and Methodíst membership fell from 617,000 to
488,000. In contrast, even the old-establíshed sects have ïncreased their numbers,
Mormons membership
140
FERNANDO PESSOA, a grande revelação literária portuguesa do nosso século, não podia
furtar-se ao clima espiritual do seu tempo. Mas embora enquadrado, por uns, numa
corrente espiritual dita nacionalista, o certo é que a religiosidade de PESSOA
não era ortodoxa, sendo antes herética, isto é, contrária, em certos pontos, àquela
ortodoxia. Ele o confessou na sua nota bïográfica, datada de 30 de Março de 1935
e que pode ler-se a p. 361 do volume Ii da Vida e obra de Fernando Pessoa, de Jorro
GASPAR SIMÕES, l.a edição.
oposição religiosa: - Crïstão gnóstíco, e portanto inteiramente oposto a todas
as igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais
adiante estão ímplicitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntïmas
relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta
da Maçonariao.
Tivesse o poeta vivido dois séculos antes e teria tido pior sorte que o seu
antepassado SANCHO PESSOA (astrólogo e ocultísta cristão-novo que, no século
xvIII, fora con
denado a confisco pelo Santo Ofício) poïs não deixarïa, por certo, de envergar
a carocha e o sambenïto e de ser queimado vivo por hereje e relapso, situação a
que teria sido fatalmente levado pelo seu excessivo orgulho intelectual. 14Ias
a verdade é que, apesar de hereje, FERNANDO PESSOA sentiu a religiosidade com
vibração invulgar no nosso meio.
0 princípio básico de toda a religião é a vïda para além da morte e este princípio
encontra-se claramente expresso, por exemplo, no poema Iniciação, que pode ler-se
a p. 236 das Poesias de Fernando Pessoa, das Edições Ática:
oNão dormes sob os ciprestes
in Bxitain is up from 617,000 to 438,000 and Jehovah's ~Vítnesses have increased
their number f1~om 62,000 to 84,000.»
0 corpo é a sombra das vestes Oue encobrem teu ser profundo. Vem a noite, que é
a morte, E a sombra acabou sem ser. - Vaïs na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
A sombra .das. tuas. vestes „..„ Ficou entre nós na sorte.
Não estás morto entre ciprestes. Neófito, não.há'morte».„"„'.."~.
No poema de p. 21 das respectïvas Poesias (Edições Ática), o seu heterónimo ÁLVARO
DE CAMPOS encarrega-se de completar o quadro:
oPrïmeïramente é a angústïa, a surpresa da vinda Do mistério e da falta da tua
vida falada... Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali, Depois a família a velar,
inconsolável e contando anedotas, Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito maïs morto que calculas... Muito maïs morto aqui
que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vïvo além...n
A crença na vida para além da morte leva, necessariamente, à submissão a Deus (2tit
FERNANDO PESSOA, Gládio, in Poemas inéditos destinados ao n.~ 3 do Oyfeac, p. 13)
oDeu-me Deus o Seu Gládio, porque eu faça A Sua sonda guerra.
Sagrou-me Seu em génio e em desgraça As horas em que um vento frio passa Por sobre
a fria terra.
142
Poz-me as mãos sobre os hombros e domou-me A fronte com o olhar: -
E esta febre de Além, que me consome, E este querer-justiça são Seu Nome Dentro
de mim a vibrar.
E eu vou, e a luz do Gládio erguido dá Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá, Poïs, venha o que vier, nunca será Maior do
que a minha Alma.
143
Eternas ou contingentes, Verdadeiras ou falsas! aquilo que, quando se abranger
tudo, aïnda ficou fóra, Porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa, porque
há qualquer coisa!
FERNANDO PESSO ~, como aliás antes dele ANTExO no QLENTAL, foi um poeta que, num
dos seus multíplices aspectos, ficou na literatura portuguesa como um verdadeiro
tor turado nos caminhos de Deus.       Ele próprïo o dïsse, através do seu
heterónimo ÁLVARO DE CAMPOS (ui p. lOG das respectivas Poesias):
eAscendo por todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo De chamas explosïvas
buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica, A minha inteligência limitadora
e gelada.
Sou uma grande máquina movida por grandes correias De que só vejo a parte que pega
nos meus tambores,
0 resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis, E nunca parece chegar
ao tambor donde parte...u
Em face da ânsïa de Deus claramente manifestada pelo poeta nos trechos que ficam
transcritos (e muïtos mais haveria a transcrever se nos não minguasse o espaço),
parece ser de
justiça considerarmos FExNANDO PESSOA, não obstante a sua heresia, como figura
de primeira fila da galeria dos místïcos portugueses contemporâneos.
Apesar de todo o seu mïsticismo, o poeta não conseguiu furtar-se a acabrunhastes
momentos de dúvida, como os do poema que pode ler-se a p. 53 das aludidas
Álvaro de Cambos:
Poesias de
aSe ao menos eu tivesse uma religião qualquer! Por exemplo, aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África. Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nela a divindade de tudo o que se crê. Se eu pudesse crer num manípanso
qualquer - JÚPITER, JEOVÁ, a Humanidade -
Qualquer sezvíríaN.
Mas a dúvida, avolumando-se, cedia, por um estranho paradoxo, lugar à certeza,
como, por exemplo, no poema de p. 93 das mesmas Poesias de Álvaro de Cambos:
aUma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino - Aquilo que faz
que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver Aquilo que sabsiste através de
todas as formas De todas as vidas, abstractas ou concretas,
seres,
15
DUALISMO RELIGIOSO (')
Um fruto herético da gnose é o manïqueísmo, seita secreta inicïátíca que deve o
seu nome a Mnxi ou MANBS, um iluminado nascïdo em 215 em Mardinu, lugarejo da Babï
lónïa, que dïzia ter recebido, de um anjo, a revelação da Verdade. Depois de ter
entrado na seita dos Megtasilos, com afinidades cristãs, andou pela Pérsia, onde
tomou contacto com a religião dos princípios antagonistas do Bem e do Mal,
simbolizados, respectivamente, pelos deuses Oanauz e AHRInanxE, acabando por ser
decapitado, também na Pérsia, em Março de 275.
Segundo o maniquefsmo, os nossos vícios e pecados, e bem assïm toda a matérïa,
são obra do princípio do Mal, do deus das trevas, inimigo do Deus da luz, do
eSpiritus Vivens». Estes do~s princípios - o luminoso e o tenebroso - encontram-se
em todas as coïsas, quer animadas quer inanimadas. Até o próprio homem tem duas
almas: uma brilhante e outra obscura. Cristo teria encarnado para ensinar aos
homens o contraste dos dois mundos mas, como os homens o não compreenderam, foi
então Mnxi encarregado de continuar a missão profétïca (z).
Primeiramente maniqueu, St.~ Acosrtxxo acabou por abandonar a seita, ingressando
humildemente na Igreja Católica, onde chegou a altos cargos eclesiásticos. Nas
suas io
146
0onfissõesu, o santo filósofo considera o maniqueísmo diabólïco e os maniqueus
~~soberbos, delirantes, carnais e loquazesu. Foi quem mais e melhor combateu esta
seita que, aIïás, foi condenada como herétïca em várïos coneflios (a).
Os ocultistas gnósticos também não ficaram indiferentes ao influxo da doutrina
de Mnm. Ainda durante a Escola neopitagórïca de Alexandria, reagïndo contra a
nascente filosofia cristã, os mais sábios dentre eles adoptaram carro pseudónimo
colectivo o nome de Hermes Trismegista (a), que significa três vezes grande, e
que era o nome dado pelos gregos ao deus egfpcio ToTx. Dai a expressão herrnetasmo,
como sinónimo de ocultismo.
Se bem que os ocultistas sempre denotaram entre si profundas divergências, têm
todavia, de comum, e apesar do seu apregoado racíonalismo, determinados dogmas,
pre cisamente atribuídos a Hermes Tyisnaegista. Deles faz parte este, relativo
aos dois princípios, de profunda influe"ncia maniqueua:
u0 que está em baixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que
está em baixou.
Devido à influência da Kabala hebraica que sofreram os ocultistas na gnose, estes
representavam os dois princípios cósmïcos por dois triângulos ïnvertidos, contidos
dentro dum círculo que representa o Pentáculo Universal, a Unïdade do Cosmos. Ë
o Hexagrama, signo de Salomão, ou signo Saimão, tão usado em Portugal, na orla
marítima, para marcar embarcações. 0 triângulo com o vértice para cima, tem os
lados cheios a branco e representa o prïncípio da evolução; o triângulo
descendente, tem os lados cheios a preto e representa o princípio da involução.
147
Esta figura geométrica havia de, mais tarde, constituir o símbolo da ordem secreta
martinísta (a), Símbolo análogo se pode ver caracterizando as publicações
portuguesas da Biblioteca de Vulgari
zação Teosófíca, das Edições Ísis, que hoje supomos extintas.
Cedo se fez sentir na nossa península a heresia de MnNt, atra vés das prédicas
iniciadas em 379 por PRISctr,texo, galego nobre, erudito e asceta, que conseguiu
adeptos em copïoso número.
A Igreja condenou o Priscilïanísmo, em 381, no Concílio de 31. - 0 Hexagrama.
Saragoça, tendo sido
encarregado de cumprir os decretos deste concílio, IDáCiO, Bispo de Ossonoba (hoje
Faro).
Condenado pelo Concílio de Bordéus, em 384, PRISCILIANO foi decapitado em Trévaris,
por ordem do Imperador M~xrnzo, em 385, mas a propagação da sua doutrina con tinuou,
a ponto de causar a ïntervenção do 1.~ Concílio de Braga, durando, como socïedade
secreta, até à invasão dos árabes (s),
Onde, porém, o maniqueísmo teve maïor repercussão foi entre os Albigenses ou
Cataros, segundo os quais do Deus bom emanaram todas as coisas boas e do Deus mau
todas as coisas más, designadamente a matéria. Como maniqueus que eram, os
albígenses consideravam o mal não como coisa negativa dependente da imperfeição
das criaturas, mas como coisa posïtiva, emanando do princípio do mal. Além disso
os albígenses negavam a Trindade e a encarnação do Verbo,
148
esta porquanto, sendo a matéria absolutamente má, Cristo não terïa podido assumir
um corpo humano, quando muito, um corpo aparente e não real.
Os albigenses ou Cataros estavam constïtuídos em sociedades secretas, eram
vegetaxianos, defendïam o suícfdio e chamavam prostïtuição ao matrimónio,
afirmando que o maior pecado de Adão e Eva fora a unïão sexual de ambos porque
engendrava criaturas e, por isso, a Sodomïa se lhes afigurava preferível ao
matrimónio ('). Como é do conhecimento geral, esta heresia diluiu-se bastante com
a célebre cruzada capitaneada por Srntno DE MONFORTE, em 1213, sob o pontificado
de lxiocfincro III.
Os albigenses, porém, continuaram a existir noutras regiões da Europa e, com eles,
outras seitas maniqueias, como os patarenos, leonïstas, cïrcuncisos, etc., etc.
Os mais ardentes e argutos combatentes doutrinaïs das referidas heresias foram
S. DoMirrcos, St.o ANTóNio D~ LISBOA (e) e S. ToMnz D'AQum7a.
Mas só as inquisições, começadas sob o pontificado de GFEGÓBIO IX, e que aqui nos
aparecem como um mal menor, conseguiram pôr cobro, na Europa, ao mal maior da infec
ção herética, com o seu cortejo de satanistas que então proliferavam através de
várias sociedades secretas.
Em linguagem cristã herética, chamemos-lhe assim para melhor comodidade de
exposição, podemos dizer que o princípio dualista atravessou a Idade Média sob
o seguinte aspecto ;
Colocado em oposição a Deus, que é representado ao alto por ser superior a tudo
e criador constante da vida na natureza, Satanás encontra-se em baixo, nos lugares
infe riores - em latïm, uinferi~>, donde a palavra inferno-por ser o destrutor
da vida, autor de todo o mal que o homem padece.
149
Dessa oposição resulta um valor de consideração quase igual para Deus e para o
Diabo. Daí, ao passar o princípio oposicionista dos filósofos para as massas, estas
ïntroduzï rem as suas ideias egoístas no que até então não passava de
impassibilïdade me
tafísica. E logo este raciocínio devia ter surgido:-Estar bem com Deus é, por certo,
útil, para aproveitar dos seus benefícios; mas conciliar-se com o Diabo também
se afiguxa prático, para evitar desgraças.
Como nunca faltaram homens perversos e desequilibrados, daquela contemporização
ao culto do demónio bastou um passo. Daf o Satanismo, a magia negra on feítíçarfa
e a goecia que encheram de pavor a Meia Idade (s).
Acreditava-se então que as feïtíceiras, sacerdotisas do Diabo, se reuniam à sua
volta, em lugares isolados, nos campos, para lhe          de cartas do TnxoT,
xenderem homenagem,
Á festa se associavam vários indivíduos. Seguia-se um deboche que terminava pela
manhã, Era o oSabbatn (lo),
Uma seita herética de origem alemã - os lucïferíanos -
32. -- 0 Diabo, tal como figura no baralho.
150
profanava as espécïes sagrarias, tiradas dolosamente dos altares. Vários processos
da Inquisição Espanhola foram levantados com tal fundamento (rr).
Era tal a preocupação do culto ao contrárïo que o culto a Satanás chegou a ser
prestado através de missas negras, datas par padres apóstatas e com sacrifícios
humanos, sobretudo de crianças e mulheres.
Verdade ou lenda, é bem conhecida a hïstóría de Gilles de Laval, Marechal de Raïs,
o ~~Barba Azul», assïm conhecido pelo tom azulado da sua barba negra. Supondo que
o Marechal pafrtîxa para uma cruzada, sua mulher subiu a uma torre cuja entrada
lhe fora expressamente interdïta. Alí foi encontrar uma capela com a cruz posta
ao contrárïo, com velas negras, e tendo, no altar, uma fïgura horrível que devia
personífïcar o Demónïo, Maïs acima vïu um compartimento com retortas e recipïentes,
num dos quais tocou num líquido espesso que depois viu ser sangue. E no andar
superior foi encontrar bacias de cobre cheias de sangue, com os nomes das vítimas
e as datas dos sacrifícios, o que veio explïcar a razão porque haviam desaparecido
tantas mulheres e crianças. Ivo meïo da sala, sobre uma mesa de mármore negro,
jazïa o cadáver duma crianaa recentemente estrangulada. M.me de Rais escapou, por
milagre, a ser sacrificada também, porquanto a saída do Barba Azul fora simulada
para maïs facilmente a apanhai na Torre (r2).
Alguns processos da Inquisição são eiucidatívos sobre feitiçaria, relatando factos
esquisitíssimos que levaram os seus autores à fogueïra. É certo que, sob a ameaça
ou influ€n
cia da tortura, então em voga no sistema judiciário, tudo se pode confessar. B~Ias
o que não deïxa é de transparecei à posteridade o espírito da época no que respeita
às mais complïcadas histórias de bruxas e lobïsomens, em que quase toda a gente
mostrava acreditar.
FERNANDO PESSOA, cuja honrada memória não quero denegrir atribuindo-lhe actos de
feitiçaria, tanto mais que, pelo contrário, na convivencia que com ele tive sempre
Ihe
conheci sentimentos elevados e nobres, não pôde todavia fuïtar-se, como hermetista
que se dizia, a uma verdadeira desorïentação dualista.
Foi ÁLVARO DE CAMPOS quem sofreu a crise. Esta passagem da Ode Marítima chega a
arripíar:
~+Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contrário, Um Deus monstruoso e
satânïco, um Deus dum panteísmo de sanguuo.
(A. C., p. 133).
A desorieraação metafísica é tal nesta ïnversáo, que ÁLVARO DE CAl14POS até chega
a interpretar, ao contrário, os arquétipos de PLATÃO, isto é, não emanando de Deus
mas constituindo o próprio Deus:
oE as metaffsïcas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte, as filosofias
solitárïas de tanta trapeïra de falhado, as ideïas casuais de tanto casual, as
inten
ções de tanto ninguém - um dia talvez, em fluído abstracto, e substância
ïmplausivel, formem um Deus, e ocupem o mundoo (A. C., p, 26).
E o Hino a Pã, de Mestre THERION (ALEISTER CROWLEY), que FERNANDO PESSOA se deu
ao trabalho de traduzir (13), não é maïs de que unia oração dïabólïca e, ao mesmo
tempo, uma descrição poética, mas sórdida e lúbrica, dum osabbats>.
152
Por respeito ao pudox de quem lê, apenas reproduzo alguns versos da aludida poesia:
«Ao luar do bosque, em marmóreo monte, manhã malhada de âmbrea fonte!»
«Diabo.ou,deus,,vem.almím,,a mim!n
Razão tinha St.~ AcosTirrxo paia, pelo menos, adjectivar os maniqueus de
«delirantes}>.
NOTAS
(7) Artigo publicado no Boletim da Academia Portuguesa de Ex-Libris, n.~ 6, de
Agosto de 1957.
(a)    AUGUSTIN ESCLASANS - San
Agustin,
Barcelona, 1947,
pp 42 a 46.
(a) Op. cit., p. 46.
(°)    V. P. Ploas- Formatlaire de Haute Magie, Paris, Dangles, 1937, p. 50.
(a) Dr. PHILIPPE ENCAUSSE-Sciences d'Occultisme Occidental, Paris, 1949, p. 105.
(s) VICENTH Rlsco-História de Galicia, pp. (°) WILLIAM THOMAS WALSH-Personajes
de Madrid, 1953, pp. 53 e 54.
(e) G. BALDAN-Vita di S. Aníónio
Occultes ou 25 années
47 In9uisición,
e
ss.
la
di Padova, Pádua,
1943,
PP~
285 e ss, (IS) In
PP~
Pessoa, II, p.
60 e ss.
(e)    V. P. Ploas - ob. cit., pp. 52 e ss.
(iu) P. CHRISTIAN-Historie de la Magie, Paris, Fume, p.
~11) WILLIAM THOMAS ~~ALSH-Ob. e2t., pp. ú8 e 204. (aa) EI,IPHAS L~vI-Historie
de la Magie,
393. Alcan, obra de Fernando
Paris,
Jorro GASPAR SIMõES - Vida e 368;      Presença, n ~ 33, p. 11.
16
FERNANDO PESSOA E 0 ESPIRITISMO
0 meu amigo Eng.e-Ag.e FxAhcrsco PACHECO Bocrasorr (Lïndoso) é um dos raros amigos
sobreviventes do poeta, com ele tendo convivido, nos últimos tempos de vida do
mesmo, na tertúlia do CAFÉ MONTANHA, frequentada, entre outros, por GUALDINO
G01fES. É autor de vários curiosos e interessantes artigos sobre a biografia do
poeta, que alguns jornais têm publicado, designadamente a Cidade de Tomar e o Eco
de Estremoz.
Ultimamente, e porque mantemos correspondência sobre vários aspectos da vida do
poeta, escreveu-me dizendo que FERNANDO PESSOA, na época da tertúlia do CAFÉ MON
TANHA, frequentava, com o Eng.e ROGÉRIO CALDEIRA SANTOS, a Sociedade Espírita
Portuguesa, então situada num 3.e andar de uma rua da Baixa. Nas sessões espíritas
então alï realizadas chegaram a invocai os espíritos de doïs ïrmãos que haviam
assassinado a própria mãe, sendo que um deles se mostrava arrependido do crime
cometido, enquanto 0 outro, pelo contrário, se mostrava orgulhoso pelo infame acto
praticado.
0 interessar-se FERNANDO PESSOA, que era essencialmente curioso, pelo espírïtïsmo,
não foi para mim novidade, muito embora, no período em que eu convivi com FERNANno
PESSOA ele já tivesse ultrapassado a verdadeira fase espírïta.
Para ele o espiritismo faz parte da magia (YFETTE CENTENO, Fernando Pessoa e a
filosofia hermética, p. 64).
154
Mas o que é o espiritismo? Muito simplesmente, a crença de que os vïvos podem
comunicar com as mortos, e vice-versa, o que pressupõe a vida para além da morte,
base de todas as religiões.
A morte surge, assim, não como o termo da vida de unt ser, mas sim como uma etapa
entre duas vidas. Desde a antiguidade que são conhecidos casos de comunicação.
Já. MOISÉS, no Levítico ( JosÉ MARIA BOVER, S. I, e FRANclsco CANTER9 BuReos,
Sagrada Bíódica, ed. B. A. C., p. 198), prescrevia que oo homem ou a mulher em
quem resida espírito de morto ou de adivinho serão réus de morte; serão lapidados;
serão responsáveis pela sua própria morte (27-Zi)n.
Mas o espiritismo moderno, em que os mortos comunicam com os vivos e vice-versa
através de pancadas ou através de um médium, pessoa especialmente dotada para
o efeito, teve início numa casa de campo de Hydesville, Nova Iorque, em 31 de Março
de 1848.
Ali viviam, com seus pais, as jovens MARGARET e KATE Fox com, respectivamente,
cerca de 15 e 11 anos. As jovens ouviam à noite em casa estranhos ruídos. Na noite
de 31 de Março de 1848, KATE resolveu responder às pancadas, fazendo estalar os
dedos na escuridão e dïzendo em voz alta; uMr. SPLITFOOT, faça como euo. E bateu
palmas, ao que se seguiram palmas batidas ao mesmo ritmo. Imediatamente se seguiu
um entendïmento entre ambos os comunicastes através de pancadas. Comunicações
posteriores permitiram identificar o morto comunicaste como o espírito de um homem
que, anos antes, fora assassinado na casa e cujo esqueleto havia de ser encontrado
mais tarde.
Dai à captação de mensagens através da mesa de pé-de-galo ou do pires vibrando
ao redor de um abecedário, tudo por imposição das mãos dos cïrcunstantes, foi-se
num passo,
Mas o grande divulgador do espiritismo moderno foi o franCéS de LyOn,
DENIZARD-HIPPOLITE-LÉON RIVAIL, que
155
adoptou o pseudónimo de ALLAN KARDEC por virtude - diz-se - de uma revelação do
seu espírito-guïa que lhe dera a conhecer que ele já havia usado o referido nome
no tempo dos Dluídas (1),
33. - Uma sessão de espiritismo.
156
Foi sob o pseudcnimo de ALLAN KARDEC que ele publicou, em 1857, Le livre des esprits,
que teve enorme repercursão.
3~. - ALLAN KARDEC.
Daí em diante o espiritismo teve grande voga e, segundo nos conta João GASPAx
SIMÕES, in Vida e obra de Fernando
157
Pessoa (1.a ed,, vol. II, pp. 218 e 225), a tia do poeta, D. LufsA NOGUEIRA DE
FREITAS, a titia Anica», em cuja casa ele vïveu, praticava o espiritismo nessa
sua casa, onde o sobrinho, levado por ela às mesmas práticas, era todavia
considerado um oelemento arrasador» das sessões espfrïtas ali realizadas, o que
não admïra, atento o seu acrisolado espírito crítico.
Segundo JOÃO GASPAR SIMÕES (ap, cit., p. 218), foï em 1916, quando soube que sua
mãe fora acometida, em Pretória, de um oinsulto apoplético» que FERNANDO PESSOA
se voltou mais para o espírítïsmo, primeiro estádio da evolução orelígiosa» que
se ia operar na sua consciência. Mas a evolução não terminara ainda. 0 espiritismo
levara-o à teosofia e da teosofia passara ao ocultïsmo, forma derradeïra da
iniciação esotérica a que se entregará.
Porém o parente do poeta, EDUARDO FREITAS DA COSTA (Fernando Pessoa - Notas a uma
biografia romanceada, 1981, pp. 161 e 162), escreve:
«0 que, em verdade, se passou foi apenas isto: FERNANDO PESSOA-cuja curiosidade
intelectual, cuja insatisfação espírïtual, cuja agudeza crítïca, se compra ziam
no estudo e exame dos problemas mais diversos e muito especialmente dos que tocavam
ato ocultou - encontrou sempre em sua tia ANA LUÍSA uma ~~camaradagem» intelectual,
compreensiva e disposta a recolaborar» em quantas experiências o poeta resolvia
fazer; prestou-se, por isso, a ser iniciada por FERNANDO PESSOA nos fenómenos da
escrita automática, como se sujeitou a quantas mensurações cranianas ele entendeu
fazer quando se interessou pela frenologia, como dedicou uma atenção cuidadosa
às explicações de astrologia que o poeta quis dar-lhe. Eïs aí a cespíríta confessa»,
industriando 0 sobrinho nos «segredas do espiritismo h~ As sessões da Rua Passos
Manuel-a que FERNANDO PES50A, discretamente, chama semi-espiritas e que o Dr.
GASPAR SIMÕES traduz por usessões de espiritismo da tia ANICA»- eram
158
Por virtude do seu espirito crítico, não podia contudo FExxAxDO PES50A deixar de
apontai os cmlaso do espúitismo. Assim, na eNota do Tradutor» das Conferências
Teo sóficas, que ele traduziu para português e que se pode ler a p. 231 da obra
citada de GASPAR SIMÕES, o poeta aponta os inconvenientes das comunicações
espíritas, como segue:
0 que são, porém, essas cossas, sombras, elementais, etc.o, também chamadas larvas
ou lemacyes?
Para a resposta, passemos a palavra a PAUL-C. JACOT, que nos diz a pp. 110 e 111
do seu livro Science Occupe et Magie Pratiq~we:
simples e pacatas conversas de serão à volta da mesa de jantar, que o poeta preenchia
com as tais experïêncras de uescrita automáticas feitas com a intervenção de uma
aprancheta» que o próprio FExNnrrDO PESSOA tinha trazido».
ePara as entïdades que comunicam: intensificação das suas paixões e desejos
ïnferiores pelo facto de voltarem a sua atenção para a vida terrestre, atraso na
sua vida espixïtual, e muïtas vezes o doloroso despertar de lïndos sonhos em que
a entidade está mergulhada. Para o médium e circunstantes: diminuição da
vitalidade, desorganïzação orgânica, perturbações ro sistema nervoso
cardío-vascular, nas funções psíquicas e finalmente a loucurao.
KQuanto às fraudes, estas podem ser físicas e extrafísïcas. As últïmas são devidas
a forças astrais etéricas, espíritos da natureza, cascas, sombras, elementais,
etc. Tudo isto nos pode intrujai e enganam (a).
kLe moment est venu d'aborder l'étrange question des invisibles que peuplent
l'astral, Si nous poissions les voir l'air en serait obscursi, Autour de nous,
à tra
159
vers les masses et les organismes matériels, leur multitude se presse et
s'entrec,roïse.
Quelques considérations vont nous aider à concevoir l'existence de certaines
espèces d'indigènes astraux. De mime que certaines modalités de Ia matière tendent
à se cistalizer autour d'un centre d'attract, de même que tout embryon végétal,
animal ou humain at+.ire à lui, pour se les incorporer, les atomes nécessaires
à sa croissance, la substance astrale, qui tend de par sa foncïère propriété à
la vie differenciée, se conglomère instantanément en formes variées dès qu'un foyer
potentïel vient, en s'y projectamt, féconder, pour ainsi dúe, une portion de cette
substance.
Ainsi le plan astral élabore incessamment une infinité d'ébauches entítaúes,
d'êtres sans consistence et sans individualïté maïs fixement polarisés par la
tendance dynamique que Leur donna naïssance.
A côté des âmes humaines ou anïmales en ïnstance d'incarnation terrestre, déviés
de toute fïliation ontologique et qui chercent obscurément à s'afïrmer: quel que
chose comme des foetus à l'état de monstrueuse ébauche en cours de gestation. Qu'on
fournisse à l'une de ces larves un potential soustentateur: Sa propriété vampïríque
l'absorbe, sa corporété se densïfique, sa forme se précise, sa motilité et sa
pusiance s'accroíssento.
Do mesmo modo se exprime Ar.LA:~ KARDEC, embora englobe na expressão espíritos
os elementais:
nLe spïritisme est fondé sur l'existence d'un monde invisible, formé d'êtres
incorporels qui peuplent l'espace, et quï ne sont pas autres que les ámes de ceux
qui ont vécu sui la terre ou dans d'autres globes où ils ont laissé leur enveloppe
matérielle. Ce sent ces êtres auxquels nous donnons le nom d'Esprits. Ils nous
enfournent sans cesse, exercent sui les hommes et à leur ïnsu une grande influence;
ils jouent un rôle très actïf dans le
160
Resta dizer que, segundo o espiritismo, a teosofia, o ocultismo e a magïa, a
natureza do homem é tríplïce, porque, além do corpo físico, possui a alma e o corpo
astral ou perespíríto, sendo este um elemento fluído que, laxante a vida terrestre,
serve de intermediário entre a alma e o corpo físico e, depois da morte, possïbílita
as aparições (4). Para alguns, a natureza do homem é mesmo quádrupla ou plúrima.
Isto habilita-nos a compreender o poema de FERNANDO PESSOA, Tniciação, a p, 235
das Poesias de Fernanda Pessoa, Edições Ática, 1945:
monde moral, et jusqu'à un certain point dans le monde physiques (a),
Não dormes sob os ciprestes, Pois não há sono no mundo, 0 corpo é a sombra das
vestes Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte, E a sombra acabou sem ser, Vais na noite só recorte.
Igual a tí sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro Tiram-te os Anjos a capa, Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada Despem-te e deixam-te nu. Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna, Os Deuses despem-te mais, Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes Ficou entre nós na Sorte, Não'stás morto entre os
ciprestes. Neófilo, não há.morte»...,.,...,.
E mesmo a usombra das tuas vesteso (o corpo), que ofícoü entre nós na Sortes, isto
é, ccntinuando a fazer parte dá natureza, terá, por virtude da lei da transformação,
o das= tino perdurável e consolador de toda a matéria: twolando pelos oceanos,
flutuando nos ares, manando nas fontes, correndo nos rios, agregado nas pedras,
sumido nas mïnas, misturado nos solos, viçando nas hervas, rindo nas flores,
rescendendo nos frutos, cantando nos bosques, rugindo nas matas, rojando dos
vulcões, etc.», como refere CAMILO CASTELO BRANCO no Preâmbulo da 3.a edição do
romance Coração, cabeça e estomago, pp. 21 e 22, eí~ando JosÉ FELICIANO n~ CASTILHO.
NOTAS
(I) PHILIPPE ExeeussE (Sciences Ócculles; 1949; p. 142). (a) José Btnxco (Fernando
Pessoa-Esbo¢o de uma bibliografia, p. 72) diz-nos não ser ~e FERNANDO PESSOA, mas
de FER= ramo DE CASTRO; a anota do tradutora incluída no volume ConfeYCnG1aS
TeoSÓf2CaS; de ANNIE BESANT. M3S MARIA DE FÁTIMA S~i E MELO FERREÍRA ( Fernando
de Castro, outro Fernando Pessoa? in Actas do 1.° Congresso Internacional de
Estudos PessoanosJ leira em suspenso a interrogação de ser ou não ser FERNANDO
DE CASTRd üm dos muitos heterónimos de FERNANDO PESSOA. 0 estilo chá anota do
traduton~ é, de resto, perfeitamente pessoano.
(3) ALLAN KARDEC, in aQu'est ce que le Spiritismea, cita~d POr PHILIPPE ENCAUSSE,
op. Gtt., p. ]EiB.
(+) PHILIPPE ENCAUSSE (Op. Git.; p, ]67).
17
FERNANDO PESSOA E A MAGIA (1)
Que FERNANDO PESSOA empregou o melhor da sua inteligência em especulações poéticas
de metafísica e teodiceia, não resta a menor dúvida. É, porém, ponto controvertido,
afirmar que PESSOA se imbuiu de doutrinas espírïtas e praticou espírïtísmo, se
bem que nos não repugne atribuir práticas mediúnicas a quem, desdobrando a
personalidade, concebeu medíunícamente os seus vários heterónimos.
Espírita ou não, o certo é que FERNANDO PESSOA, em dada altura da sua evolução
mental, se imbuiu de ideias teosóficas, traduzindo para português vários lïvros
da Colec~ão Teosófica e Esotérica, publicada peia uLívraria Clássica Editoza~~.
Vemo-lo, depois, ímbuïr-se de ocultismo através da Alquïmia e da Kabala e,
finalmente, entrar deliberadamente na Magia, sendo neste estádio evolutïvo do seu
pen~ sarnento que a morte o veio buscar. E nada nos autoxíza a presumïr que, se
o poeta tivesse vïvido mais alguns anos, teria alcançado um novo estádio evolutïvo,
despindo-se, para tanto, do seu incomensurável orgulho intelectual: a rendição
à graça santíficante.
Precisamente porque o estádio evolutivo dentro do qual FERNANDO PESSOA deixou este
mundo, fora atingido havia relatïvamente pouco tempo, poucas das suas produções
trou xeram para a literatura portuguesa aquele maravilhoso provindo da Magia, que
enriqueceu as literaturas estrangeiras com as obras de JOSEFINO PÉLADAN, HUYSMANS,
MARCEL
1 ó4
SCHWOB, MAURICE SANDbZ, HANS-HEINZ EWERS e GUSTAVO MEYRINK, para citarmos apenas
os mais represeni:ativos (2).
Quanto à influência da Magia na obra de FERNANDO PESSOA, apenas vamos encontrar
algumas aflorações no Hino a Pan (Presença, n.~ 33, p. 11), traduzido pelo poeta
é atribuído no orïgínal inglês a ALEISTER CROWLEY (Mestre THERION), e em 0 última
sortilégio (Poemas de Fer»uando Pessoa, Ed. Ática, p. 229).
Na carta que escreveu ao Dr. GASTAR SIMÕES em 26 fle Outubro de 1930 (Cartas de
Fernando Pessoa a João Gaspar Simões, p. 64), em que faz referência ao poema 00
últïmo sortilégios, PESSOA diz ter mais 3 poemas do mesmo género e que são os
seguintes: Um poema incompleto, já antigo, chamado ~~Lucïfer»; o conjunto de poemas
chamado uAlém-Deus», destinado ao n,~ 3 do Orfeu, que não chegou a sair; e um soneto
sobre ~cGomes Leal». Todavia quere-nos parecer que FERNANDO PESSOA atribuía magia
indevidamente a poemas em que o seu espírito se lïmitava á planar, passivamente,
perante o5 mïstéríos do Além, sem ali haver a mínima alusão ao exercido da vontade
nem às invocações e às demaïs práticas que transformam in acto, segundo a Magia,
a comunicação com as potências do Além: 0 poema «Lucifern não o conhecemos, porque
não foi - que saibamos - ainda publicado (a). Os poemas destinados ao n.~ 3 do
Orfcu foram publicados pela Inquérito em 1953, e também em nenhum deles assistimos
ao facto dum agente humano-no caso de o0 últïmo sortilégio» uma bruxa, como o
próprio FERNANDO PESSOA explica na sua carta de 16 de Outubro de 1930 ao Dr. GASPAR
SIMÕES (Cartas citadas, p. 60) -praticar os tais actos que imprimem o maravilhoso
mágico à composição literária, Aliás os poemas referenciados são de 1916 e 1917,
altura em que FERNANDO PESSOA, embora já se debatendo com os problemas teosóficos
do Absóluto, ainda não havia atingido o seu estádio evolutivo final de aceïtação
das teorias da Magia, Quanto ao soneto
ió5
ccGomes Leal» (Condo-neiro do primeiro salão de independentes, p. 22), tem, é
certo, relação com a astrologia, mas é o contrário duma intervenção do maravilhoso
mágico, pois, enquanto para a verificação desta é essencial, segundo a teoria,
uma atitude volitiva activa, o soneto apenas revela uma das muitas atïtudes
passivas de FERNANDO PESSOA, de fatalismo, de conformação com o determinismo
cósmico.
Ficam-nos, portanto, como únicas poesias a analisar na elaboração deste nosso
modesto pequeno estudo, «0 últïmo sortilégioo, que PESSOA classificou de ~~poema
a respeito de magia» (Cartas citadas, p. 77) e o oHino a Pan», que teria sido uma
espécie de prefácio a um trabalho intitulado Magick, publicado em Parïs, que PESSOA
classificou propriamente cum poema mágico» (loc. cít.). Mas, para os podermos
compreender, teremos de divagar primeiramente pelas regiões maravilhosas dos
magos,
Há duas espécies de Magia: a Alta Magia, Magia Branca ou 1tlagia Usual, em que
o agente, dirigindo a sua vontade no sentido do bem, invoca os espíritos bons e
se submete aos desígnios de Deus; e a Magia Negra, Magia de transgressão,
feitiçaria, goecia ou nigromância, em que a posiçãó é precisamente a inversa, com
a inerente invocação do Demónio, embora o processo seja essencialmente idêntico.
Das duas espécies, aquela que se identifica com a fase evolutiva final de FERNANDO
PESSOA, é, sem dúvida nenhuma-afirmação a que me habilita o meu trato pessoal com
o poeta-, a Alta Magia, Mas a verdade é que os dois únicos poemas mágicos que o
poeta nos deixou são interpretações dramáticas da Magia de Transgressão, gomo o
próprio FERNANDO, PESSOA reconhece, relativamente a o último sortilégio, na sua
já referida carta de 16 de Outubro de 1930.
A Magia Negra foi expressamente reprovada por Jeová,, çgnforme Moisés escreveu
no levítico (JOSÉ MARIA BOVER,.
166
S. I, e FRANCisco CANTERA Bvxsos, Sagrada Bíbláa, Ed. B. A. C., pág. 198)
«Se uma pessoa recorre aos nïgxomantes e aos adivinhos para prostituía-se com eles,
eu virarei o meu rosto contra essa pessoa e extexminá-la-eï no meio do seu povo>
(20-6).
00 homem ou a mulher em quem resida espírito de morto ou de adivinho serão réus
de morte; serão lapidados; serão responsáveïs pela sua própria morte~> (27-27).
É evidente que a Magia, mesmo a Magia Branca, difïcilmente conseguirá deixar de
resvalar para aquelas heresias que a Igreja desde há muïto condenou. Por isso o
católico VALErrTix BRESLE, que vem escrevendo sobre artes mágicas, no ante-rosto
do seu livro Le Tarot révélé dans son intégralité théorique et pratique, escreveu
prudentemente:
1cJe crois que l'Église est Une, Apostolique et Romaine.
Je ne reconnais pour autorité légitime par l'autorité de l'Église,
Je reconnais l'ïnfalíbïlité du Pape pour ce qui concerne le Dogme et
Je me déclare prêt à condamner et á expurger de mon oeuvre tout ce qui serait
condamné par Rome ou par toute autorité ecclésiastique qui en Son Nom auraït pouvoïr
de condamner».
Sainte, Catholique,
que celle reconnue
0 sentido etímológïco da palavra Magia vai buscar as suas raízes próximas à palavra
gxega magos, mas tem como raízes maïs profundas as palavras megh e magh que, nas
167
velhas línguas orientais, significavam sacerdote sábio, excelente. Também a
palavra caldaïca maghim é traduzida por alta sabedoria (PASCAr. FORTHUNY,
Sorcellerie, p. 3). Na prática, porém, a Magia pode definir-se, como o têm feito
alguns autores, como o meio de que o engenho humano se serve para dispor, na medida
das suas possibilidades, das energáas existentes, seja sob que forma for, no
Univexso (P. V. Ptoss, Formulaire de Haute Magie, p. 19).
Tal defínïção traz-nos logo á ïdeia a exïstência de três factores essenciais:
1.~ Um sujeito activo que exerça a vontade de dispor das energias exïstentes;
2.~ Um sujeito passivo, que são as energias existentes de que o agente se propõe
dispor;
3.~ 0 meio que habilita o agente a praticar o acto a que se dispõe.
Segundo o Dx. GÉRARD ExceussE (PArus) no seu Traité méthodique de Magie pratique
(pp. 1 e ss.), paia compreendermos a 11lagia nos seus três factores essenciais,
basta-nos ver um trem deambular nas ruas de Paris. E explica: se o sujeito activo
(o cocheiro) quisesse fazer andar o trem sem o cavalo (sujeito passivo), o trem
não andarïa. 0 cavalo é mais foxte que o cocheiro e todavia este domina a foiça
brutal daquele, utilizando as rédeas, 0 ponto nevrálgico da questão, o meïo que
habilita o agente é, na hipótese, a arte de guiar o animal, a maneira de evitar
os seus entusiasmos e os seus desvios, a maneira de conseguir dele um máximo de
esforço em determinado momento, ou de regular os seus esforços quando a viagem
deva ser longa, etc., etc. Passa-se, segundo PAPUS, o mesmo com a Magia: o agente
tem de socorrer-se da arte mágica se quiser, com êxito, dispor das energias
universais, ocultas mas exïstentes.
Os segredos dessa arte mágica, a princípio transmitidos através dos vários graus
das sociedades secretas inicïáticas ou pela tradição oral de algumas famílias,
estão hoje ao alcance de toda a gente através dos inúmeros gri-m6rios
168
publicados, um dos quais existe até em língua portuguesa e se chama 0 livro de
S. Cipriano.
35. - Feiticeiras transformadas em anima'is (gravura do século xv).
Antes, porém, de levantarmos o véu desses soit disant segredos, dirijamos a nossa
atenção para as energias existéntes, seja sob que forma for, no Universo, de que
nos fala a definição e que correspondem ao sujeïto passivo dos três factores
essenciais à operação mágïca. Tais energias são, nada mais nada menos, do que as
seguintes: -os anjos bons e os anjos maus, as almas dos defuntos, os duplos das
pessoas vivas (°), a amizade e inïmïzade dos astros (astrologia), ás virtudes de
certas pedras, e de certas ervas (s), as larvas ón lemures, etc., etc. (Perus,
op. cit,, pp. 226 e ss.; PASCAL FoxTxuxY, op. cit., pp. 24 e ss.).
De todas essas energias apenas nos vamos ocupai de duas, as únicas que oferecem
relação com os poemas de
169
FERNANDO PESSOA em análise: os duplos das pessoas vivas e as larvas ou lemures.
Por processos mágicos, desïgnadamente através de unguentos, é possível-segundo
os grïmóríos, bem entendïdo-separar em vida e exteriorizar até materialmente o
próprio duplo, perespírito ou corpo astral (4). Este duplo pode assumir a forma
dum lobo ou de qualquer outro animal. É o que os nossos camponeses chamam o
lobisomem. 0et être - escreve PASCAL FORTHUNY (op. cit., p. 29) - ainsi mué en
animal, dégagerait, sous cet aspect, une forme visibue, qui courrait les campagnes
la nuit, sans que rien ne puísse l'arreter, et cependant pas insensible aux effects
des balles sorties du fusil d'un adroit tireur. Alors, la blessure se reporte de
la bête apocalyptique sur l'home qui est resté bien tranquíle chez lui,
profondément endormia.
É exteriorizando assim o duplo, assumindo as mais variadas formas que, segundo
a magia, as bruxas galgam distâncias enormes para acorrerem ao sabbat, com o fim
de ali atingirem o êxtase mágico com o próprio Demónio. É bem elucidativa sobre
este aspecto a seguinte passagem do poema n0 último sortilégio>, em que a bruxa
em vias de reforma dïz com ar saudoso:
(cfá me falece o dom com que me amavam. f á não me torno a forma e o fim da vida
A quantos que, buscando-os, me buscavam. f á, praia, o mar dos braços não me inunda.
Nem já me vejo ao sol saudade erguida, Ou, em êxtase mágico perida,
Ao luar, â boca da caverna funda».
Do mesmo êxtase mágico, mas na pessoa dum bruxo, também é exemplo edificante toda
a poesia nHíno a Paria, a seguïr ~ parte meramente evocatória.
170
Vejamos agora o que são, na iVlagía, essas energias ocultas chamadas larvas ou
lemures, para o que vamos passar a palavra a PAUL-C. JAGOT, que nos diz a pp. 110
e 111 do seu livro Science occulte et Magie pratique:
uLe moment est venu d'aborder l'étrange questïon des invisibiles qui peuplent
I'astral. Si nous pouvions les voir l'air en seraït obscurci. Autour de nous, à
travers les masses et les organismes matériels, leur multitude se presse et
s'entrecroise.
Quelques considérations vont nous aider à concevoir l'existence de certaines
espèces d'indigènes autraux. De même que certaines modalités de la matière tendent
à se cristalliser autour d'un centre d'attract, de même que tout embryon végétal,
animal ou humain attire à lui, pour se les incorporer, les atomes nécessaires à
sa croissance, la substance astrale, qui tend de par sa foncière propriété à la
vïe dïfférenciée, se conglomère instantanément en formes variées dès qu'un foyer
potentiel vient, en s'y projectamt, féconder, pour ainsi dire, une portion de cette
substance,
Ainsi le plan astral élabore incessamment une infinité d'ébauches entitaires,
d'êtres sans consistente et sans individualité mais fixement polarisés par la
tendence dynamique qui leur donna naissance.
À côté des âmes humaines ou animales en instance d'incarnation terrestre, l'astïal
charrie d'innombrables germes d'existence, dévïés de toute fílïation ontologi que
et qui cherchent obscuïément à s'affïrmer: quelque chose comrr~e des foetus à
l'état de monstrueuse ébauche en cours de gestation. Qu'on fournisse à l'une de
ces larves un potentiel sustentateur: sa propriété vampiri
que l'absorbe, sa corporéité se densifie, sa forme se précise, sa motilité et sa
puissance s'accroissent.
Les rites sanglants ou obscures de la magie noire remplissent cette condition et
offrent aux larves astrales une source où elles puisent l'énergie accumulée à haute
tension dans les vehïcules physiologiques de la vie. Les seuls moyens du mage noir
suffïsent à constituer de véritables phantasmes larvaires. Il tire leur corporéité
des condensations fluïdiques, libéré par le sang ou la semence répandus et fournit
de son verbe pervers leur simulacre animique. Ces coagulats austraux se désignent
avec les précédents, sous le nom de lémures.
Foi longa a transcrição. Mas estamos já habilitadcs, sem mais explicações, a
compreender a bruxa de o0 último sortilégio», quando ela diz:
n Já as sacras potências infernais,
Que, dormentes sem deuses nem destino, A substância das coisas são iguais,
Não ouvem minha voz ou os nomes seus>.
Dito, como fica, o essencial sobre as energias ocultas, é a altura de desvendarmos,
na medida que interessa à compreensão dos poemas referenciados, o véu dos mistérios
da arte mágica. Vamos, finalmente, responder à pergunta: - 0 que há a fazer, segundo
a magia, para dispor das energias ocultas?
Como instrumental, o realizador ou agente deverá munir-se sobretudo da varinha
mágica, também chamada de condão, embora impropriamente, e da espada mágica.
A varinha é feita com madeira e ferio magnético e destina-se a indicar e dïrigir
a projecçâo da própria vontade, agindo sobre o astral. Não deve ter pontas. eCette
172
baguette - escreve Pnrus (off . c t., p. 204) - n'a d'autre but que de condenser
une grande quantité de fluide emané de l'opérateur ou des substances dïsposés par
lui à cet effet, et de diriger la projection de ce fluide sur un point determiné.
C'est le soutien de la force astrale condensée par l'opérateur autour de lui, et
cet instrument facïlïte beaucoup les expériences, Mais par lui même il n'a aucun
pouvoir mystérïeux et ne subit que les réactions des forces physiques». A projecção
da vontade através da varinha é apresentada nos seguintes termos pela bruxa de
o0 últïmo sortilégio»;
«Minha varinha, com que da vontade falava às existências essencïais».
A espada mágica pode ser uma espada marcial, mas pode ser também um simples prego
na ponta de um pau. 0 que é essencial é poder o agente dispor de uma ponta metálica
para sua defesa própria, isto porque, segundo a teoria, as pontas metálicas
dissolvem a matéria astral, que às vezes se pode tornarembaraçosa ou contrárïa
aos desejos de quem opera (loc, cit., p. 205). Embora já munido de varinha e espada,
não pode ainda o candidato a mago fazer coisa nenhuma. Antes de desenainda de
proceder ao traçado
36.-Circulo mágico para quarta-feira (dia de Mercúrio).
çadear as forças astrais, do círculo mágico.
aCe cercle - escreve Pnrus      (loc, cit., p. 479) - peut être tracé, soït avec
l'épée magique seule dans les cas urgents,
terá
soit avec un mélange de charbon pulvérisé et de poudre d'aimant, soit avec du
charbon, isolant magnétique par éxcellence».
37. -Selos ou sinais gráficos dos anjos dos elementos.
~~~~r~~ ~tlr~v~w
ai~.du~,     >~t~Ciia$.
ne~~yLtiá,`~o      c~r~6b~h~ •
LA LUN&
0 círculo - continua PnrUS - deve ser feito de forma a que possam ser traçados
dentro dele mais dois círculos, separados todos os três círculos um palmo entre
si. No primeiro dos três círculos; a contar de fora, haverá que escrever, nos
173
174
locais correspondentes aos quatro pontos cardeais, nomes dos anjos do ar do dia
em que se opera, taïs como Balidet, Assaibí, Zebul, Gutxix, Macuth, Passeran,
Ciníbal, etc., etc. No círculo do meio haverá que escrever o nome do anjo da hora
da operação, o selo ou forma gráfica pela qual esse anjo é representado, o nome
do anjo e dos ministros do dia, o nome dos espíritos que presidem à operação, o
nome do signo zodiacal reinante, etc., etc. No círculo interior haverá que escrever
quatro nomes de Deus, separados uns dos outros por cruzes, tais como Adonai, Eloim,
Tetragramaton, Agla, etc., etc. Fora do círculo, e 'imaginando que o inscrevíamos
dentro dum quadrado, a cada um dos quatro cantos do mesmo, haverá que desenhar
um pentagrama e, na parte interior do círculo, que será dividida, para o efeito,
em duas, haverá que escrever Alfa na metade oriental e Ómega na metade ocidental.
Com esta explicação de PAPUS, que resumimos tanto quanto possível, já nos
encontramos aptos a compreender porque razão disse a bruxa de (c0 último
sortilégio»;
~~Já, se o Círculo traço, não há nada»,
Resta porém esclarecer que não basta o traçar do círculo para, segundo a teoria,
passar a haver alguma coisa: -Traçado o círculo, o pretendente a mago fica apto
a agïr
dentro dele mas, para tanto, terá de proferir primeïro determinadas palavras de
ïnvocação e de encantamento, orações e exorcísmos. Eis um exemplo dessas palavras
mágicas, que PAPUS (loc. cit., p. 495) aponta como sendo a conjuração de terça-feira
(dia de Marte)
0onjuro et confirmo super vos, Angeli fortes et sanctï, per nomen Ya, Ya, Ya, He,
He, He, Va, Hy, Ha, Ha, Va, Va, An, An, An, Ase, A.ie, Aïe, El, Ay, Eliba, Eloim,
Eloim; et per nomma ipsius alti Dei qui fecit aquam andam apparere, et vocavit
temam, et
produxit arbores et herbas de ea, et sigillavit super eam cum pretioso, honorato,
metuendo et sancto nomme suo: et per nomen angelorum dominantium in quintu
exercïtu, qui serviunt Acimoy, angelo magno, forti, potenti et honorato, et per
nomen stellae, quae est Mars; et per nomma praedicta conjuro super te, Samael,
angele magne, qui praeposïtus ei dïei martis, et per nomína Adonay Dei vivi et
verï, quod pro me labores labores et adímpleas, etc.».
FERNANDO PESSOA, porém, na ïnvocação ao Demónio do oHïno a Pan», só emprega palavras
simplórias, que aliás dão tanta vontade de rir como as dos rituais. Eí-las:
~dô Pan! Iô Pan! Do mar de além Vem da Sicília e da Arcádïa vem! Vem com Baco,
com fauno e fera
e ninfa e sátiro à tua beira,
num asno lácteo do mar sem fim, a mim, a mim!»
A bruxa de ~c0 último sortilégio», todavia maïs prudentemente, em vez de proferir
quaïsquex palavras mágicas, limita-se a dizer:
aJá repetï, nas pausas do amplo vento As orações cuja alma é um ser fecundo»
Após as palavras mágicas de invocação e encantamento é a altura de se revelar o
Maravilhoso em toda a sua pujança. Eis a transcrição que recortamos de PAPUS (o~.
cit., p. 491)
n...On verra plusieurs fantômes remplissant l'air de clameurs, afïn d'épouvanter
et faire fuïre Ies assistants du Cercle; on en verra armés de flèches et une infinité
en forme de bêtes horrïbles; mais que l'on n'ait aucune
175
916
Transpostas as aparições para a poesia de FERNANDO PÈSSOA, eïs o que nos diz a
bruxa de u0 último sortilégio»:
FïCam assim - cremos - aptas a serem compreendidas por todos as duas poesias
aparentemente mais abstrusas de FÈRNANDO PESSOA:
E agora uma pequena história, para terminar: - a Cena passou-se na Alemanha ou
na Suíça, não me recordo bem, porque lí a noticia, já há anos, num jornal francês.
Alguns
frayeur, parce que le Maítre, contre lequel ils ne pouvent rien, les contiendra
en disant, la main sur le Pentacle: oFugiat hine iníquitas vestra, vïrtute vexilli
Deï», Que vos prestïges cessent par la vertu du Dieu crucifié, Alors ils seront
forcés d'obéir».
~cAlors.ils,víendront ,dans leurs formes ordinaires et naturelles, et quand vous
les verrez ainsi autour du Cercle, montrez-leur le Pentacle couvert d'un Saint
Suaire, découvrez-le; disant: aEcce conclusionem vestram, nolite, fieri
inobedientes». Voici votre condamnation, soyez obéissants. Après cela vous les
vérrez pacifiques dans leurs formes naturelles, et ils diront : ordonnez et
demandez ce que vous voulez, parce que nous voilà prêts à faire tout, parce que
Dieu tout puissant nous l'ordonne».
o0utrora o meu condão fadava as sarças E a minha evocação do solo erguia Presenças
concentradas das que esparsas Dormem nas formas naturais das coisas: Outrora a
minha voz acontecia.
Fadas e elfos, se eu chamasse, vias:
jovens apaixonados pela Magia, com todo o entusiasmo da sua mocidade e com o seu
espírito metódico de germânicos; resolveram seguir à risca as prescrições dum
grimório para fazerem aparecer as entidades astrais que Ihes havïam de satisfazer
determinados desejos. Apás uma abstinência de quarenta dïas como preparação
prescrita, escolheram o local maïs apropriado para a operação, traçaram o círculo
mágico e proferiram as palavras rituais, mas a verdade é que nada se passou de
misterioso, pelo que acabaram por ír cada um para sua casa. Pois julgam V.~ Ex.a
que esses aprendizes de feïticeiro deixaram de crer na prática da Magia? Pois não
senhor, apenas se convenceram que, para levar avante tais práticas, era precïso
ter nascïdo feiticeïro, isto é, dotado dum sexto sentido que mingua ao comum das
pessoas e que permite exteriorizar o duplo e impressionar a matéria astral.
É por estas e por outras que o nosso povo, meio ingénuo e meio sabido em demasia,
mas que não é céptïco como nós, quando quer dizer que alguém foi imprudente e sofreu
as consequêncïas dum acto impensado, emprega com frequência esta expressão:
NOTAS
(I) Artigo publicado no Boletim da Academia Portuguesa de Ex-Libis, n.~ 12, 1959.
Conferência anteriormente proferida na mesma Academia.
(a)    Sobre o maravilhoso traduzido para a literatura, inclusivamente através da
Magia, v. o interessante livra do Prof, ÉMILE Scxnus-Kocx, Contribuição para o
estudo do Fantkstico no romance, tradução portuguesa d0 Dr. ANTÓNIO GOMES DA ROCHA
MADAHIL. 0 A, prefere, à conhecida expressão maravilhoso, vulgarmente empregada
em crítica literária para designar qualquer actuação sobrenatural, estoutra
expressão, j'antástico, correspondente à realidade metamorfoseada e que
desconcerta mas que, por ser explicada pelo ficcionista, perdeu o seu aspecto
sobrenatural.
I2
177
uEle não quer crer que há bruxas...».
178
(a) JoaGE NEMÉSIO (A obra poética de Fevnando Pessoa, p. 26) diz tratar-se de um
original com duas páginas.
(')   Para a Magia, como aliás para a Teosofia e para o )espiritismo, é Tríplice
a constituição da natureza humana:
l. Corpo físico;
2. Corpo astral ou perespúito, exteriorizar;
3. Alma ou espúito.
(S) Donde as pedras preciosas, unguentos.
que nalguns casos
os perfumes,
os venenos e os
se
pode
18
FERNANDO PESSOA E AS ASSOCIAÇÕES SECRETAS: ROSACRUZ- MAÇONARIA-TEMPLÁRIOS
Por assim dizer tão velha como a História da Humanidade é a Hïstórïa das Associações
Secretas. Dir-se-ia que elas proliferam onde o homem lobo do homem se olha com
desconfiança e desaparecem, se diluem ou adquirem diferentes matizes mais
civilizados na medida em que a lealdade, a confiança e o amor do próximo estabelecem
o seu império entre o género humano.
Ainda hoje, é entre os povos menos civilizados e mais oprimidos que vamos encontrar
a tendência para se associarem secretamente: haja em vista as várias seitas
secretas afri canas, como os Homens Leões, as Machial, os Mau-Mau, etc. (i). É
curioso notar que em todas as associações secretas existem, quando não verdadeiros
actos de liturgia, pelo menos ritos que vão filiar-se em antigas celebrações
litúrgïcas. A ciência, considerada revelação divina, primitivamente não estava,
como hoje, ao alcance de todos os estudiosos. Nem havia especialização. A medicina,
a gramática, a liturgia e o estudo das coisas invisfveis, faziam parte de um todo,
que ia sendo ensinado, nos templos, pelos sacerdotes, mediante iniciações, e só
ia sendo revelado aos iniciados à medida em que estes, entrando como neófitos,
iam, sucessivamente, subindo de grau. Daí a criação de a propagação da Ciência
pelos comunicavam entre si através
associações secretas para nela iniciados, os quais de senha e contra-senha.
180
Na Europa foi, porém, na Idade Média, quando os heréticos se furtavam à discfplïna
da Igreja, que as associações secretas passaram a ter maior importância, influen
ciando alguns meios sociais e até políticos do seu tempo, Outra coïsa não eram
senão associações secretas as seitas dos pyiseilianistas e dos albigenses, para
apenas falarmos das duas que mais estão ligadas, ainda que indirectamente, a
Portugal: a primeira, porque foi a ITe1CI0, Bispo de Ossonuba (hoje Faro) que foi
cometido o encargo de cumprir os decretos do Concílio de Saragoça de 380, que
condenou determinados hábitos dos pxiscilïanistas (2) ; a segunda, porque foi SANTO
ANTÓNIO DE LISBOA Um dos mais argutos pregadores contra a hexesia albigense, que
então grassava no sul da França e na Itália (a).
Na literatura portuguesa quem mais ~e ocupou de associações secretas, mesmo sem
a nenhuma delas pextencer, foi sem dúvida FERNANDO PESSOA, já pelo seu gnosticismo,
já pelos seus conhecimentos de ocultismo através da teosofia e da magia.
0 poema Iniciação (Poesias de Fernando Pessoa, Edições Átïca, 1945, p. 235) mostxa
bem quanto as associações secretas (só nelas há iniciados) ocupavam o espírito
do poeta.
Rosacruz
A Ordem Kabalística da Rosacruz (que não coïncíde com o grau maçónico também chamado
Rosacruz, crïado possïvelmente em homenagem à antiga ordem que fornecera muïtos
membros à Maçonaria) era uma seita religiosa heré
tïca de iluminados que se dedicavam a ciências ocultas. Esta Ordem, que teve o
seu apogeu no século xvu, fora caiada, em fins do século xtv, pelo pxofessor de
Tubingue (Alemanha) Jono VALENTIM ANDREAS (que, tendo viajado muito pelo Oriente
onde se teria iniciado, adoptou o nome de Christian Rosencreuz) mas decaiu,
diluïu-se e, possivelmente até desapareceu a partir de 1717, quando a Maçoncsria
passou a ganhar ïmportância (4).
38. - A insígnia da Ordem da Rosacruz.
Um grupo de ocultfstas gnósticos tendo à frente o MargUêS ESTANISLAU DE GUAITA
e d0 qual fazïam parte GÉRARD ENCALISSE (PAPUS), SAR PÉLADAM, BARLET, JQUVET e
OütroS, fez ressurgïr, em França, em 1888, a Ordem Kabalística da
182
Rosacruz, que passou a compreender três gxaus inïciáticos: o bacharelato, a
licenciatura e o doutoxamente em Kabala (s). Á Ordem renovada pertenceram alguns
dos mais notáveis poetas oSimbolístasr>, tendo EUGÉNIO DE CASTRO sido nomeado seu
Cônsul em Poxtugal pelo Grão Mestxe SAR PÉLADAM (s).
0 poema No túmulo de Christian Resencreuz (Poemas de Fernando Pessoa, Edições
Átïea, 1945, pp. 251 e ss.) mostra bem o credo xosacrucïano do poeta.
FERNANDO PESSOA faz anteceder o poema das seguintes palavras, que atribui a Fama
fyateynitatis Roseae Crucis:
~~Não tínhamos ainda visto o cadáver do nosso Pai prudente e sábio. Por isso
afastámos para um lado 0 altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal
amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto... e tinha na
mão um pequeno livro em pergaminho, escrita a oiro, intitulado T, que é, depois
da $ílbia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censuxa
do mundo».
JÚLIA CUERVO-HEWITT (Fernando Pessoa frente ao Monte Abiegnus, in Actas do 7.°
Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, p. 425) diz-nos que o livro «T» é
o livro da explicação do ~~Tarot» místico.
0 túmulo de CHRISTIAN ROSENCREUZ, o Pai, falecido na idade de 106 anos e depois
embalsamado, só veio a ser descoberto 120 anos depois e nele estava escrito: ePost
CXX annos patebi» (Abrir-me-ei 120 anos depois) (').
Outro poema de FERNANDO PESSOA, nitidamente rosacruciano, é o que começa: oNa
sombra do Monte Abïegno» (Poesias de Fernando Pessoa, Edições Ática, 1945, p. 146).
ESCreve FERNANDO PESSOA:
eA expressão avalle», de que se usa para definir o lugar das instituições maçónicas,
é um acto de humil
dade e verdade que a Ordem seguiu por indicação superior. É a definição da baixa
qualidade da iniciação que ella minïstra, em relação à alta iniciação, nas Altas
Ordens, referida sempre a uma montanha, seja a de Heredom, seja de de Abïegno»
(YVETTE CENTENO, Fernando Pessoa e a filosofia hermética, p. 50).
A montanha é não só o ponto mais alto da terra, mas também o umbigo do mundo, o
ponto de começo ou raiz da criação. Neste sentido neoplatónico a montanha, ou monte,
indica o desejo de um eterno retorno da alma à sua orïgem prefísica numa união
cósmica.
0 Monte Abïegno é a montanha mística Rosencreutz Abïegnus de Iniciação. $ a montanha
de Deus no centro do universo, onde fica o túmulo de CHRISTIAN ROSENCREUZ.
Transpâla sem todavia atingir o castelo que se encontra no seu topo corresponde
ao mais elevado grau de iniciação além do de neófito (JÚLIA CUERVO-HEWITT, op.
cit., pp, 421 e ss.).
No 5.~ Poema de Os Symbolos, o Encoberto (Mensagem, 1.8 edição, p. 80) ainda é
a Rosacyuz que o poeta tem presente. Ouçamo-lo:
oQue symbolo fecundo Vem na auroxa anciosa? Na Cruz morta do bíundo A vida, que
é a Rosa.
Que Symbolo divino Txaz o dia já visto? Na Cyuz, que é o Destino, A Rosa, que é
o Cxisto.
Que Symbolo final Mostra o sol já disperto? Na Cyuz morta e fatal A Rosa do
Encoberto».
183
184
No prefácïo do livro Afinca Errante, de ELIEZER KAMN& vsxv, FERNANDO PESSOA, após
dizer que os Rosïcrúcios, mïstuzados com a Maçonaria na antecâmara da sua vida
emblemá tïca, bem pode ser que a houvessem fundado, ou contzíbuído pata a sua
fundação como sistema especulativo, escreve:
nA grande Fraternidade é cristã no seu nome, cristã nos dois Magnos Symbolos, cristã
e católica (embora não romana), nas suas dedicações. Os Rosicrúcios ezam,
é certo, cabalistas, como ezam, em dois sentidos, alquimïstas; mas eram cabalistas
cristãos, como eram (sobretudo) alquimïstas espirituais. Como vázios outros,
aproveitaram-se da Cabala e lhe deram um sentido e complemento cristãos; por isso
com mais razão se podiam queixar os judeus de que os irmãos se haviam servido da
Cabala pata fins anti-judaicos, do que os cristãos de que eles tenham introduzido
a Cabala na substância do crïstíanísmo, onde, aliás, desde o 4.e Evangelho, já
toda a alma dela exístïa. Acresce, quanto à Rósea Cruz, que os grandes expositores
dela, desde antes do seu aparecimento até aos nossos dias, têm sido declaradamente
místicos cristãos, e, ainda que o voto de castïdade absoluta, a que (por motivos
que nada têm a ver com a vïrtude) a Fraternidade obrïgava o candidato, é a coisa
menos judaica, embora vcabalísticaa que se pode concebeu>.
Tanto a Rosacruz tinha um carácter nïtidamente cristão que adoptava a divisa:
«Ex Deo nascïmur. In Jesu morimur. Per Spiritum Sanctum reviviscímuso.
Assïm no-la aponta GÉRARD SExseNESCO (Histoire de la Franc-Maçonnerie, t, pp. 251
e 253).
Maçonaria
A Maçonaria é outra assocïação secreta que tem a vez com FERNANDO PESSOA, o qual,
não sendo maçou, terçou armas por ela como adiante dïremos.
~~IV, j
IIIIIIIIanUlmll\ ~III!IIIIIIIIIIIYIXXI
39. - Símbolos maçónicos: as colunas, o altar ou lugar do Venerável, o esquadro,
o compasso, a estrela luminosa e a acácia. Na gravura falta a Bíblia, que também
é símbolo maçónico.
Para uns, a Maçonaria teve origem nos cenáculos secretos dos filósofos gnósticos
da escola neopitagórïca de Ale-
185
186
xandria; para outros, nasceu dos conciliábulos dos cruzados; para outros ainda,
é a continuação da Ordem, dos Templários; mas o que parece mais provável é que
o conjunto de associações maçónicas tivesse derivado das corporações de ofícios
medïevaís, designadamente dos arquitectos e pedreiros construtores de catedrais,
cujos símbolos - o Triângulo, o Esquadro, o Compasso e o Maço de duas cabeças -
constituem a sua heráldica (s).
A Maçonaria teve primitivamente, e ainda hoje tem nalguns Orientes e Lojas, um
carácter marcadamente religioso em que aos iniciados de graus vão sendo dadas
noções metafísicas cuja cúpula é o reconhecimento de um Ente Supremo que governa
o Universo e ao qual se encontram subordinados os deuses das várias religiões.
A esse Ente dão os maçons o nome de Grande Arquitecto do Universo, expressão que
deixa em branco o problema de saber se ele é Criador ou simples Governador do Mundo
(°).
Os graus maçónicos são na Maçonaria do Rito Escocês Antigo e Aceite em número de
33 (r°). Tais graus são, por ordem crescente, os seguintes, segundo revelam a edíção
em língua espanhola da revista Lifc, de 11 de Fevereiro de 1957, e A. H. nE OLmEixe
MnxQuES (A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo, 2.a edíção, pp. 27 e 28)
1- Aprendiz ;
2 - Companheiro; 3 - Mestre ;
4 - Mestre Secreto ; 5 - Mestre Perfeito; 6 - Secretário Íntimo ou Mestre por
Curiosidade; 7 - Preboste e Juiz ou Mestre Irlandês;
8 - Intendente do Edifício ou Mestre em Israel; 9-Mestre Eleito dos Nove;
10-Ilustre Eleito dos Quinze;
11- Sublime Mestre Eleito ou Sublime Cavaleiro Eleito ; 12 - Mestre Arquitecto
;
187
13 - Mestre do Novo Arco ou Cavaleiro do Real Arco de Salomão (de Enoch) ;
14 - Grande Eleito da Abóbada Sagrada de Jaime VI ou Perfeito Maçon;
15 - Cavaleïro do Oriente ou da Espada; 16 - Príncipe de f erusalém;
17 - Cavaleïro do Oriente e do Ocidente;
18 - Cavaleiro ou Soberano Príncipe Rosacruz;
19 - Pontífice ou Sublime Escocês da Jerusalém Celeste; 20 - Mestre Ad Vítam ou
da Loja Simbólica ou Venerável Grão Mestre de todas as Lojas;
21- Patriarca noaquita ou Cavaleiro noaquita ou prussiano;
22 - Príncipe do Líbano ou Cavaleiro do Machado Real; 23 - Chefe do Tabernáculo;
24-Príncipe do Tabernáculo;
25 - Cavaleiro da Seïpente de Bronze;
26 - Príncipe da Misericórdia ou Escocês Trínitárïo ou Príncipe da Mercê;
27 - Comandante do Templo ou Soberano Comendador do Templo de Salomão;
28 - Cavaleiro do Sol ou Príncipe Adepto;
29 - Cavaleïro de Santo André da Escócia ou Patriarca dos Cruzados ou Grão Mestre
da Luz;
30 - Grande Eleito Cavaleiro K. H. ou Cavaleiro Kadosk ou Cavaleiro da Águia Branca
e Negra;
31- Inspector Inquisidor;
32 - Sublime Frincipe do Real Segredo ou Mestre do Real Segredo;
33 - Soberano Grande Inspector Geral.
No Rito de York, há simplificação de graus: Aprendiz, Companheiro, Mestre, Mestre
da Marca, Mestre Virtual, Mui Excelente Mestre, Mestre do Real Arco, Mestre
Selecto, Mestre mais Excelente, Ordem da Cruz Vermelha, Ordem
188
dos Cavaleiros de Malta e Ordem dos Cavaleiros Templários (dita revista Life).
No rïto inglês primitivo ainda os gxaus são mais simplificados
Com a crescente influência da Maçonaria, começou ela a sofrei a reacção da Igreja
Católïca, a ponto de o cânon 2335 do Código de Direito Canónico de 1917 punir com
a exco munhão os que pertençam à •seita maçónica», dispondo também a parte final
do cânon 684 do mesmo Código que uSão dignos de Louvor os fiéis que se inscrevam
nas associações estabelecidas ou pelo menos recomendadas pela Igreja; mas fugirão
das associações secretas, condenadas, sediciosas, suspeitas ou que procuram
subtrair-se à legítima vigilância da Igrejas. 0 Código de Dïreito Canónico de 1917
foi, porém, ab-rogado pelo § l.e, n.~ 1, do cânon 6 do Código de Dïreito Canónico
de 1983. 0 novo Código não contém disposições similares às dos cânones 684 e 2335
do Código de 1917.
A Maçonaria, inicialmente de carácter religioso, começou a adquirir, a partir do
século xvul, sobretudo após a decadência da Ordem Kabalística da Rosacruz,
acentuada importância política.        Muitas vezes, primava até por atitudes e
tendências vincadamente irreligiosas e laicistas, o que sucedeu com o Rïto francês
e com o Grande Oriente Lusitano, sendo certo que a índole religiosa se manteve
nos Ritos Escocês, de I'ork, e ïnglês pximitïvo. É de todos conhecido o
preponderante papel do Grande Oriente Lusitano na Revolução de 5 de Outubro de
1910, que implantou a República em Portugal.
As primeiras lojas maçónicas, tais como hoje existem, parecem datar de 1717 e da
Inglaterra se espalharam rapidamente pela Europa (1°). A primeira loja portuguesa
data de 1727 e, entre os nossos primeiros maçons, destaca-se o MARQUîs DE POMBAL,
Primeira-Mïnïstro do Reï D. JosÉ I (rr). Foram Grão Mestres das Maçonarias
Portuguesas, entre OutrOS, GOMES FREIRE DE ANDRADE, MARECHAL DUQUE DE SALDANHA,
COSTA CABRAL, CONDE DE PARATY, JOSÉ ELIAS GARCIA, Dr. BERNARDINO MACHADO, Dr.
SEBASTIÃO DE
189
MAGALHÃES LIMA, Dr. ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA e General NORTON DE MATOS (12). Hoje
o Grão Mestre do Grande Ocidente Lusitano é o Comandante SILVÕES COIMBRA.
Resta dizer que a Maçonaria regular é a primitiva Maçonaria e a maior, isto é,
a angIo-saxóníca, de carácter reIïgioso, que se abstém de intervir em quéstões
políticas e sociais, As demais são conside
radas irregulares, encontrando-se neste caso o GRANDE ORIENTE LUSITANO.
Por isso, nas eleïções do referido Oxïente de 1983, como os jornaïs da época
noticiaram (como, por exemplo, D Jornal, de 30-12-1983 a 5-1-1984; o Diário de
Lisboa, de 2-1-1984 e 17-1-1984; o Diário de Notícáas, de 7-1-1984; e o Ex~yesso,
de 9-1-1985), defrontaram-se duas correntes: uma liderada pelo Prof. ANTERO DA
PALMA CARLos, proposto para Grão-Mestre, que defendia uma Maçonaria meramente
inïciática, sem actividades políticas e sociais, com vïsta à integração na
lllaçonaria regular; e õutra, em que era proposto para Grão-Mestre o Comandante
SIMÕES COIMBRA, que defendia a continuação do GRANDE ORIENTE LUSITANO como
agnóstico e com actïvidades políticas e sociais. Venceu a facção do Comandante
SIMÕES COIMBRA.
Tal vitória para a referida facção deu, porém, lugar a uma dïssidência por vïrtude
da qual muitos maçons, que haviam sido aderentes da facção PALMA CARLOS, fundaram
uma nova obediência, a GRANDE LOJA DE PORTUGAL, com vïsta à sua integração na
Maçonaria regular, para o que elegeram para Grão-Mestre o Dr. PERNÃO VICENTE.
40. -
Selo do Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa do Grande Oriente Lusitano Unido.
190
A GRANDE LOJA DE PORTUGAL adoptou o rito inglês primitivo, enquanto o Grande Oriente
Lusitano continua a adoptar o rito escocês antigo e aceïte.
Claro está que, se FERNANDO PESSOA fosse vivo e fosse maços, teria aderido à GRANDE
LOJA DE PORTUGAL, pois que era a Maçonaría ínicïática e não a política aquela
que lhe servia de fundamento filosófico e aquela por que terçara armas no seu
célebre amiga do Diário de Lisboa. Em 1935, o Deputado da Assembleia Nacional,
Dr. JosÉ CABRAL, insurgiu-se ali contra a Maçonaria, daf resultando a Lei n.o 1901,
de 21 de Maio de 1935, que passou a considerar secretas, devendo ser dissolvidas
pelo Minitério do Interïor, as associações que exerçam a sua actividade, no todo
ou em parte, de modo clanLoja de Portugal,           destino ou secreto, imponham
por qualquer forma a obrigação de ocultar à autoridade pública as manifestações
da sua actividade e ainda aquelas cujos directores ou representantes, depois de
solicitados, ocultarem à autoridade pública os seus estatutos e regulamentos, a
relação dos seus sócios e respectivos cargos, o objecto das suas reuniões e a sua
organização interna, ou prestarem intencionalmente informações falsas e
incompletas sobre tais assuntos.
0 diploma legal visava, evidentemente, apenas a Maçonaria, conforme FERNANDO
PESSOA demonstrou, como veremos e conforme se deduz do respectivo parecer da Câmara
Corporativa (la).
Por isso o Grémio Lusitano, sede do Grande Oriente Lusitano, que já havia sido
assaltado, na noite de 16 de Abril de 1929, por elementos da G. N. R. e da P. S.
P. com
a participação de numerosos civis, passou a sexvír de quar
41. - Insígnia da Grande
tel da LEGIÃO PORTUGUESA, onde pontificava o Dr. JosÉ CABRAL, precisamente o
deputado que motivou a Lei sobre associações secretas,
FERNANDO PESSOA saíra à lïça contra o projecto da referida Leí em artigo de fundo
publicado no Diário de Lisboa, de 4 de Fevereiro de 1935, no qual não deixou de
escrever:
aNão sou maços, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não
sou porém anti-maços, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente
favorável da Ordem Maçónica. A estas duas circunstâncias, que em certo modo me
habilitam a poder ser imparcïal na matéria, acresce a de que, por virtude de certos
estudos meus, cuja natureza confina com a parte oculta da Maçonaria-parte que nada
tem de política ou social - fui necessariamente levado a estudar também esse assunto
- assunto muito belo mas muito dïfícil, sobretudo para quem o vej a de foras,
ANTÓNIO TELMO (História Secreta de Portugal, 1977, p. 115, nota 1) dïz-nos ser
estranho que os dois homens que mais pareciam conhecer, em Portugal, de Maçonaría
- FERNANDO PESSOA e SAMPAIO BRUNO - tivessem ambos declarado que não eram maçons.
Não estamos, porém, a ver FERNANDO PESSOA, que passava vales à caixa no valor de
10$00, a contribuir com jóïa e quotas para a associação.
Também FERNANDO PESSOA logo «pôs o dedo na feridao de que o projecto de lei visava
apenas a Maçonaria, quando escreveu, referindo-se à definição legal de associações
secre tas, que, dentro do âmbito desta, até o Conselho de Minïstros seria uma
associação secreta, E acrescentou:
e0ra no nosso país, caída há muito em dormência a Ordem Templáría de Portugal,
desaparecïda a Carbonárïa - formada para fïns transitórios que se reali zaram-não
exïstem, suponho, à parte uma ou outra
192
Como é evidente que o Estado Novo não ia atacar nem a Igreja nem a Companhia de
Jesus, não podïa deixar de se concluir que o projecto de lei então em análise visava
apenas e tão somente a Maçonaria.
Para FERNANDO PESSOA, a Maçonaria não é uma associação secreta:
Segue dizendo no artigo citado, que, a consequêncïa da aprovação do projecto de
lei seria ocoisa nenhuma», porque também na Itália, na Espanha e na Alemanha se
procedeu con tra a Maçonaria, mas os mortos continuam de perfeita saúde, porque
os governos não têm ~~força para abater colunas simbólicas, vasadas num metal que
procede da Alquimia».
Pol ironia da sorte, eram (ou tinham sido) maçons, quer o Presidente da Assembleia
Nacional que aprovou a Lei n.° 1901, de 21 de Blaïo de 1935, Dr. JosÉ ALBERTO DOS
REIS, quer o Presidente da República que promulgou a referïda lei, General ANTÓNIO
VSCAR DE FRAGOSO CARMONA. A Lei n.° 1901 só veio a ser revogada pelo artigo 18.°
do Decreto-Lei n.° 594f74, de 7 de Novembro, que veio restabelecer a liberdade
de assocïação.
0 artigo de FERNANDO PESSOA teve enorme xepercursão na imprensa do seu tempo, dando
lugar a grandes reacções, nomeadamente à carta-resposta intitulada Chove no
Templo, dirigida pelo apresentador do projecto de leï, Dr. JosÉ CABRAL, ao Dïrector
do Diário de Lisboa, que a publicou em 7
possível loja martinista (la) ou semelhante, maís do que duas «associações
secretas» dessa espécie. Uma é a Maçonaria, a outra essa curïosa organização que,
em um dos seus ramos, usa o nome profano de Companhia de Jesus, exactamente, como
na Maçonaria, a Ordem de Heredon e Kilwïnning usa o nome profano de Real Ordem
da Escócia».
aNão é, A Maçonaria é uma Ordem Secreta, ou, com plena propriedade, uma Ordem
inciática».
193
de Fevereiro de 1935 (ls) ; ao artigo Fernando Pessoa, um ~rraté» qualquer,
publicado na Voz, de 6 de Fevereiro de 1935 (ls); ao artigo de ALFREDO PIMENTA,
A verdade sobre a Franco-Maçonaria, publicado na Voz, de 7 de Fevereiro de 1935
(l'); ao artigo de FERNANDO DE SOUSA, na Voz, de 5 de Fevereiro de 1935, intitulado
Mensagem Pró-Maçonaria; a vários artigos de ARTUR BIVAR, nas Novidades, de 7, 9,
13, 15, 17, 22 e 27 de Fevereiro de 1935 (rs) ; etc., etc.
Por outro lado, no jornal li erárïo Fradique foram publicados artigos de TOMÁS
RIBEIRO COLAçO, MAIA PINTO e RoLno PRETO que salientaram o absurdo da medida legis
lativa tomada contra a Maçonaria e a sua notária ineficácia (19).
Referindo-se ao seu mencionado artigo no Diário de Lisboa, FERNANDO PESSOA escreveu
em Para a compreensão da MMnnsagem> ( JACINTO PRADO COELHO e GEORG RUDOLF LIN,
in Fernando Pessoa -páginas íntimas e de auto-interprestação, citados por A,. H.
DE OLIVEIRA MARQUES, op. cit., p. 235)
n0 artigo é patentemente de um lïberal, de um inimigo radical da Igreja de Roma,
de quem tem para com a Maçonaria e os maçons um sentimento profundamente fraternal».
FERNANDO PESSOA, porém, já se havia ocupado da Maçonaria, em 1932, no prefácio
do livro de poemas Alma errante, de ELIZER KAMNEVSKY (2°), ao dizer que a Maço
nar~a não é judaica em espírito mas apenas em figura (21), atenta a presença de
elementos cabalísticos nos gxaus simbólicos (~a).
Também, na declaração datada de 30 de Março de 1933 (23) FERNANDO PESSOA se havia
declarado adepto da Maçonaria conquanto não pertencesse a nenhuma ordem
iniciática, ao declarar-se 0ristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a
todas as igrejas organïzadas, e sobretudo à Igreja Romana. 13
194
Fiel à tradição secreta em Israel (A Santa Cabbalah) e com a essêncïa oculta da
Maçonariao.
Templários
que a Regra do Templo era, isso sim, santa, justa e católica (~).
195
Quando se trata de sociedades secretas costuma vir à baila a Ordena dos Templários
que, segundo alguns pretendem, foi a forma primátiva da Maçonaria, que lhe sucedeu.
Originada na necessidade de defender a Terra Santa nos intervalos das Cruzadas,
a Ordena dos Templários (freïres guerreiros defensores do Templo de Jerusalém)
apenas pas sou a ter marcada importância a partir do Concílio de Troyes, de 112$,
inspirado por S. Bernardo. A partir de então a Ordem foï um crescendo de favores
e privilégios por parte da Igreja e dos vários monarcas cristãos, em cujos reinos
se estabelecia, até que se iniciou a sua curva descendente, que termïnou com a
supressão da Ordem em 22 de Março de 1313, no Concílio de Vïena, sob o pontïfïcado
de CLENIENTE V e com o suplício, em 1314, do último Grão-Mestre, JACQUES DE MOLAY,
por ordem de FILIPE 0 BELO.
É difícil tomar partïdo nesta questão dos Templários porquanto, se, pox um lado,
as fabulosas riquezas acumuladas pela Ordem do Templo (os Templários foram os
princi pais banqueïros do seu tempo) haviam excitado a cobiça dos poderes civil
e eclesiástico; e se as torturas, em voga no sistema judiciáxío da época,
justïficavam toda a espécie de confïssões, as mais ïnverosímeis, por outro lado
os depoimentos prestados nos mais variados locais conduzem a uma unanimidade que
impressiona.
0 Grão-Mestre JACQUES DE MOLAY que, a princípïo, sob tortura, confessara as graves
acusações feitas à sua Ordem, corajosamente afirmou, no cadafalso, que as heresïas
e os
pecados atribuídos aos Templários não eram verdadeïras e
42.-Os primitivos templários. Dois em'cada cavalo.
GÉRARD SERBANESCO (Histoire de la Franc-Maçonnerie, I, p: 34~ refexe que, em 18
de Março de 1314, quando as chamas atingïam os pés de JACQUES DE MOLAY, este,
encarando
196
0 rel FILIFE o BELO, o Papa CLEMENTE V e NOGARET, o perseguidor dos Templários,
gritou que, dentro de um ano, eles compareceriam à sua presença perante o tribunal
celeste.
Efectivamente o Papa morreu de desintexia em 20 de Abril de 1311, o Rei morreu
em 29 de Abril do mesmo ano e NOGARET também morreu dentro do ano profetïzado por
DE MOLAY.
Qual era, porém, a acusação que, dada então como provada sob o sïstema
inquïsïtol~ial da época, ïmpendia sobre os templários? Era a de a Crdem se haver
trans formado numa associação secreta e herética, na qual todo o novo rüembro depois
das cerimónias rituais da entrada, era levado à sacristia onde, perante o
Grão-Mestre que o beijava na boca, era inicïado em actos de homossexualidade e
na adoração do ídolo de uma estranha divindade, BAFxOMET (25).
0 beijo na boca não era, porém, necessariamente, um índice de homossexualidade,
antes um costume monacal da Idade Médïa. UMBERTO Eco
(0 nome rla rosa, 2.a edição portuguesa), a propósito derecepções numa abadia
beneditina, narra:
197
43. - 0 selo da Ordem dos Templários.
.., 0hegamos ao grande portal da abadia, e no lïmiar estava o Abade, a quem dois
noviços seguravam uma pequena bacia de ouro, cheïa de água. E, como descemos dos
nossos anïmaïs, ele lavou as mãos a GUILHERIIIE, depois abraçou-o, beïjando-o na
boca e dando-lhe as suas santas boas vindas, enquanto o despenseiro se ocupava
de mim» (pp. 28 e 29).
~cLevantou-se com dificuldade e foï ao encontro do meu mestre, aben çoando-o e
beijando-o na boca» (pp. 50 e 51).
Com a supressão da Ordem dos Templários, grande parte dos seus membros seculari
zou-se, entrando outros na Ordem do Hospital e em comunidades monásticas. BEAUJEU,
44.-0 íd010 BAPHO~IET, que a acusação dizia que os templários adoravam
198
sobrinho de JACQUES DE MoLAY, refugïou-se na Escécia, onde parece ter continuado,
secretamente, a Ordem do Templo (25). Erre Espanha, os freires templários e os
seus bens foram integrados nas Oxdens de Santiago e de Calatrava, E, em Portugal,
freires e bens passaxam para a Ordena de Cristo, fundada pelo Rei D. DINIS, a qual
financiou a epopeia marítima das Descobertas.
45, - JncQuES nE MOLAY, o último Grão-b'festre da Ordem dos Templários.
199
0 poema de FERNANDO PESSOA que mais nos diz sobre a Ordem do Templo é o chamado
Eros e Psique (26), que o poeta encima com estas palavras, que diz extraídas do
Ritual do Grau de Mestre do Átrïo na Ordem Templária de Portugal:
,.. «E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de
Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que
opostas, a mesma verdadev>.
Reproduzimos esse belo poema que ainda nos parece estar ouvindo na voz tïmbrada
de MIARIA BETÁNIA:
0onta a lenda que dormia Uma princesa encantada A quem só despertaria Um Infante
que vïria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado, Vencer .o mal e o bem, Antes, que já libertado, Deixasse
o caminho errado Por o que à Princesa vem.
A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera. Sonha em morte a sua vida, E orna-lhe a fronte
esquecida, Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado Sem saber que ïntuito tem, Rompe o caminho fadado, Ele
dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
zoo
Em Carta a ADOLFO CASAIS MONTEIRO (E7), FERNANDO PESSOA escreve, a propósito do
seu referido poema:
Nlas cada um cumpre o DestinoEla dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro.
E, vencendo estrada e muro, Chega onde em sono ela mora.
E,índa tonto do que houvera À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era
A Pxincesa que dormia}>.
uQuanto a aíniciaçãoo ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde
à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao
meu poema Eyos e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em Latim) do
Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente - o
que é facto - que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus
dessa Ordem, extinta, ou em dormência, desde cerca de 1888. Se não estivesse em
dormência, eu não citaria o texto do Ritual, pois se não devem citai (indicando
a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho».
A
d
z01
E aqui temos como FERNANDO PESSOA, sem pertencer a nenhuma associação secreta,
cantou a Rosacruz, texçou aimas pela Maçonaria e conheceu os mistérios dos
Templários a ponto de apontar alguns graus da respectiva Ordem e os ritos das
respectivas iniciações, que pessoalmente consultou na sua versão latina, e de saber
que a Ordem Templária de Portugal caiu em dormência a partir dos fínaïs do século
passado.
NOTAS
(I) A. A. MENDES CORREIA (SOCiedadeS SEGretaS afrZGanaS e Ciência Social, in
Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, série 72, PP~ 29 e ss.),
(2)    VICENTE Rlsco (História de Galicia, l.q ed., p. 47).
(3)    GIUSErrE BALDAN (Vila di S. Antonio di Padova, Pádua, 1943, pp. 93 e ss.).
(°) Lusor. (A Idade Maçónica, Porto, 1943, p. 53).
(b) PHILLIrrE ENCAUSSE (Sciences Occultes ou 25 années d'Occultisme Occidental,
Paris 1949, pp. 109 e ss.),
(e)    Jono GASPAR SIMÕES (Vida e obra de Fernando Pessoa, x, 1949, pp. 239 e 240).
(') C>~RARD SERSANESCO (Histoire de la Fronc-Ma~onnerie, I, p. 2501,
(e)    La Grands Loge de France vous parle, emissão da Radiodifusão francesa de
17 de Outubro de 1948, in PHILIPPE ExceussE (op, cil., pp, 514 e ss.).
(°)    Carta de FERNANDO PESSOA a ADOLFO CASAIS IIlONTEIRO, in Jono GASTAR SIMÕES
(op, cil., x, p. 232); CYedo maçónico de Franklim, in LusoL (op, cil. p. 50); AxTóNIO
QUADROS, (Fernando Pessoa, p. 247).
(lU) LUSUL (Op. Cit., p. 72).
(")    PAULO SIEERTZ (A Maçonaria na luta pelo poder, Porto, pp. 4, 40 e 41); A.
H. OLIVEIRA MARQUES (op, cit., p. 39).
(19) JORGE VERNEX (A Maçonaria e Fernando Pessoa, pp. 47 e ss.); A. H. DE OLIVEIRA
MARQUES (op, cát., pp. 359 a 362).
No já tantas vezes citado artigo do Diário de Lisboa, FERNANDO FESSOA volta a dizer
que a Ordem Templária de Portugal havia caído há muito erl~ dormência.
202
(ia) 0 texto do referido parecer pode ler-se in: A. H. DE OLIVEIRA MARQUES, (o~.
cit., pp. 238 a 311) ; PETRUS (Hyvana, pp. 31 a 50, e Fevnando Pessoa - Defesa
da Ma~onavia, pp. 5 a 24).
(ra) A Ordem Martinista, de carácter ocultista mas pronun~ ciadamente cristã foi
fundada em Lyon, França; pelo Dr. GÉRARD EvcnussE (Papus), senda todavia a sua
origem atribuída a MnR TixEZ nE PASQUALLY, em 1750, que teve por continuadores
SAINT -MARTTN e WILLERMOZ. Tendo ido buscar a sua organização à Maçonaria, a Ordem
Martinista repartia-se por lojas, que se poderiam fixar em grandes concelhos. Não
se ocupava de política nem de questões de culto religioso, dizendo-se
essencialmente espiritualista e disposta a combater o ateísmo e o materialismo.
('s) 0 seu teor pode ler-se em PETRUS (op. cit., pp. 51 a 56); (iz) PETRUS (op.
cit., p. 57).
(") PETRUS (op. cit., pp. 60 a 64). (ra) PETRUS (op. cit., pp. 56 a 68). (is) PETRUS
(op. cit., pp. 69 a 86).
(zo) pode ler-se em PErxus (Fevnando Pessoa-Hyvavn, pp. 11 e ss.).
(ai) PETRUS (Op. Cit., p. 19). (2a) PETRUS (Op. C2t., p. 21). (zz) In PETRUS (op.
cita, p. 107).
(za) MARION MELVII,LE (La vie des Temptievs). (zs) JoRCE VERNEX (ap. cit., p. 66).
(zs) Poesias de Fevnando Pessoa, edições Ática, 1945, p. 239. (z7)             In
Jono GASPAR SIMÕES (Vida e obva de Fev~aando Pessoa, 1.& ed., n, pp. 232 e 233).
ÍNDICE DAS FIGURAS
Páge.
1- Fernando Pessoa como sempre o conheci . . . . . , , . . 10
2 - Horóscopo de Alberto Caeiro traçado por Fernando Pessoa 16 3 - Cartão de
visita de Fernando Pessoa, por ele próprio
manuscrito . . . , . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .         18 4 -
Factura das despesas do internamento de Fernando
Pessoa no Hospital de S. Luís . . . . , . . . , , . . , , , Ig
5 - Os óculos de Fernando Pessoa . . . . . , , , , , , , . . .      20
6 - Fernando Pessoa no Abel    . . . . . . . , , , . , , , , , , , 25
7 - Brasão de armas de Fernando Pessoa . . . . , . . . . . 2g 8 - A máquina de
escrever Royal que Fernando Pessoa uti
lizava no escritório do pai do autor . . . . . . , . . . . ,        30 9 - Carta
de Fernando Pessoa para o autor de 9 de Novembro
de 1931 .............................      33
10 - Primeira folha do original do prefácio do livro Acrónios       35
11- Relação dos vales à Caixa . . . . . . , . . , . . , . , , , . 45
12 - 0 primeiro vale    . . . . . . . . . . , . . . . „ . „ . „ , 46
13 - 0 último vale . . . . . . . . . „ . . . . . . „ „ „ „ ,        46 14 - Um
reclamo da Coca-Cola no princípio do século . . . .     50 15 - Fernando Pessoa,
o pai do autor, o inglês Mr. Fallon
e a sua secretária . . . . . . . . . . . , . „ , . . „ „ . 51
16 - 0 prédio n.~ 71 da Rua da Prata . . . . . . . . , . . , ,      55
17 - Luís Pinto Moitinho . . . . . . . , , , . . , , . , . , , , , .       56
18 - António Joaquim Simões d'Almeida . . . . . . . . . . . .       57 19 -
Bilhete de António Botto para o autor, datado de I 1
de Fevereiro de 1932 . . . . . . . , . . . . . . . , , , , , ,      74 20 -
Dedicatória de Fernando Pessoa ao autor no livro
Mensagem............................... 84 21- Folha com desenhos de Peixoto
Bourbon onde Fernando
Pessoa desenhou um copo de vinho e uma garrafa. .       89
22 - Caricatura de Salazar, por Almada Negreiros . . . . . .        94
23-Fernando Pessoa desenhado por Almada Negreiros . . .       98 24 - Fernando
Pessoa no Restaurante Irmãos Unidos, por
Almada Negreiros . . . . . . . . . . . . , , , . . . . , , . .      99
i     25 - Baruch Spinoza . . . . . . . . . , , , . . . , , . . . . . . . .
      113
206
Páge, 26 - A chave geral da Kabala . . . . . . . . . . . . . . ~ . . . 125 27
- As vinte e duas letras hebraicas usadas nos ideogramas cabalísticos. . . . .
. . . . . . . . . . . ~ ~ ~ . ~ ~ ~ ~ ~ ~ . .    126 28 - 0 pentagrama de Eliphas
Levi . . . . . . . . . . . . . . . 127 29 - Autógrafo de Fernando Pessoa
contendo o poema Tenho
dito tantas vezes . . . . . . . . . . . . ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ .     133
30 - Santo Agostinho    . . . . . . . . . . . . . ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ . 137
31-Ohexagrama .............. ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ 147
32 - 0 Diabo, tal como figura no baralho de cartas do Tarot 149
33 - Uma sessão de espiritismo       . . . . . , . . . . . . , . . .       155
34 - Allan Kardec . , . . . . . . . . . . . . . . . , ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ .      156
35 - Feiticeiras transformadas       em    animais      (gravura    do
século xv) . . . . . . . . . . . . . . . , . . . . . . . . . . . .         168
36 - Círculo mágico para quarta-feira . . . . . . . . . . . . . . 172
37 - Selos ou sinais gráficos dos anjos dos elementos . . . ,       173
38 - A insígnia da Ordem da Rosacruz . . . . . . . . . . . . .      I81 39 -
Símbolos maçónicos . . . . , , . . . . . . . . . . . . ~ ~ ~ .      185 40 - Selo
do Supremo Conselho da Maçonaria Portuguesa do
Grande Oriente Lusitano . . . , . . . . . . . . . . . . ~ ~ .       189
41- Insígnia da Grande Loja de Portugal . . . . . . . . . . .       190
42 - Os primitivos templários . . . . . . . . . . . . . . . . ~ ~ .     195
43 - 0 selo da Ordem dos Templários . . . . . . . . . . . . . .   196 44 - 0
ídolo Baphomet . . . . . . . , . . . . , . . . ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~      197 45 -
Jacques de Molay, o último Grão-Mestre da Ordem dos Templários . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . 198
ÍNDICE DAS MATÉRIAS
Pága,
Prefácio . . . . . , . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ,    5
i - Breve notícia . . . . . . . . , . . . „ „ . . „ „ „ „    g
2 - Algumas notas biográficas . . . . . . . . . , , , , , , , , . 23
3 - Os vales à Caixa . . . . . . . . „ . . . „ „ , . „ „ , 43
4 - A Coca-Cola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   49
5 - A casa da baixa lisboeta que foi lar de Fernando Pessoa 55
6 - António Botto, Fernando Pessoa, outros e eu . . . . . . 69
7 - Por duas vezes . . . . . . . . . . . . . . , , , , , . . . . . .    83
8 - Francisco Peixoto Bourbon, biógrafo de Fernando Pessoa 87
9 - 0 pensamento platónico de Fernando Pessoa . . . . . .    103
10 - Fernando Pessoa e o Panteísmo . . . . . . . . . . . . . .    113
11- Fernando Pessoa, o Politeísmo e o Emanastismo . . . .    119
12 - A teoria da Reencarnação e a Literatura . . . . . . . . .    129
13 - Ocultismo e Gnose . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .    135
14 - A religiosidade em Fernando Pessoa . . . . . . . . . . . .   139
15 -- Dualismo religioso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145
16 - Fernando Pessoa e o Espiritismo . . . . . . . . . . . . . . 153 17 -
Fernando Pessoa e a Magia . . . . . . . . . . . . . . . . . 163 18 - Fernando
Pessoa e as Sociedades Secretas; Rosacruz
- Maçonaria - Templários . . . . . . . . . . . . . . . . . .      179

								
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