Tuberculose_DiaMundial-24marco-PNCT

					   Eliminar a tuberculose durante as nossas vidas
Escrever sobre o lema escolhido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como mote para a
celebração do dia mundial de mobilização contra a tuberculose, o 24 de março, pode parecer
anacrônico para a nossa insaciável carência de modernidades, afinal, uma doença milenar, cujo
agente etiológico, o bacilo de Koch, foi descoberto há exatos 130 anos pelo cientista alemão que lhe
emprestou o nome, e cujo tratamento está disponível há mais de 50 anos, não deveria ter apelo
midiático num mundo ansioso por inovações tecnológicas, em que investimentos milionários são
realizados em novas técnicas diagnósticas e em tratamentos de alta complexidade tecnológica.

Novos vírus, bactérias, protozoários e seres mutantes resultado de manipulação genética ou do
acaso conspirador, seriam mais adequados ao cenário contemporâneo e condizentes com as
expectativas de epidemias potencialmente devastadoras e ameaças de fim de mundo neste inseguro
2012. Mas não, voltamos ao tema da “peste branca”, doença devastadora sim, mas da era medieval
ou do período que antecede à revolução industrial. Depois, mais recentemente, ainda afetaria
incautos românticos ou boêmios de hábitos pouco recomendáveis...

Parecia tratar-se de uma doença do passado? Eis que surge a epidemia da aids e nos faz recordar que
a tuberculose (TB) ainda existe. Agora como uma aparente “doença oportunista” registra
mundialmente números de sete dígitos: mais de nove milhões de casos novos e quase dois milhões
de óbitos em 2009. Considerada pela OMS como uma emergência global em 1993, o Ministério da
Saúde a acompanha alguns anos depois e elege a TB como uma de suas prioridades - afinal o país
figura entre os 22 países que concentram mais de 80% dos casos globais.

Um olhar mais cuidadoso, no entanto, consegue perceber que não vivemos uma catástrofe nacional,
mas que outras medidas precisam ser adotadas. A tuberculose, de fato, ainda ostenta números
inadmissíveis para o país. São mais de 70 mil casos novos e quase cinco mil óbitos todos os anos. A
quarta causa de morte dentre as doenças infecciosas e a doença que mais mata as pessoas vivendo
com o HIV. Mas se olharmos para trás, há 15 anos consecutivos temos diminuição dos números de
casos e de óbitos pela TB e a OMS acaba de reconhecer que o Brasil atingiu um dos objetivos de
desenvolvimento do milênio: o de reduzir pela metade a mortalidade pela doença em relação aos
números de 1990.

O que, então, ainda nos faz voltar ao tema? A compreensão de que a tuberculose não é uma doença
do passado e que persiste não apenas como um problema de saúde pública, mas, principalmente,
como um problema social.

No Brasil, assim como em quase todo o mundo, a doença acomete, principalmente, as populações
mais vulneráveis econômica e socialmente. Os negros são duas vezes mais acometidos do que os
brancos; os índios quatro vezes; a população privada de liberdade tem um risco 27 vezes maior de
desenvolver a doença do que a população geral; as pessoas vivendo com HIV/aids têm um risco 30
vezes maior; e a população em situação de rua, 67 vezes. Os analfabetos têm um abandono do
tratamento 50% maior que os que têm nível universitário e uma taxa de letalidade três vezes maior
do que estes.
Na cidade do Rio de Janeiro, apenas para dar um exemplo bem emblemático, a taxa de incidência da
tuberculose na Cidade de Deus, em 2011, foi de 202,7 casos por 100.000 habitantes. No bairro da
Lagoa, com quantitativo populacional semelhante à da Cidade de Deus, porém com o maior índice de
desenvolvimento humano da cidade, a taxa de incidência é de 28,3 casos para cada 100.000
habitantes.

Considerando estas evidências, ações exclusivas da esfera da Saúde não são suficientes, medidas de
caráter social precisam ser ampliadas para a solução do problema. Auxílio transporte para o
deslocamento dos pacientes entre suas casas e as unidades de saúde, para a realização do
tratamento; o apoio alimentar, seja por meio da doação de cestas básicas ou da articulação com
restaurantes populares, para garantir a necessária suplementação alimentar daqueles que
necessitem; a inclusão destes pacientes em programas sociais para aumentar a adesão e êxito do
tratamento, dentre outras, são medidas extremamente efetivas para o controle e posterior
eliminação da doença em nosso país.

O Conselho Nacional de Saúde, com o aval do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já recomendou a
adoção de uma série de medidas de suporte social aos pacientes com tuberculose. Discute-se no
Congresso Nacional a criação de uma frente parlamentar para apoiar os afetados por esta doença
milenar, inclusive com a inclusão destes em programas sociais existentes. Agora precisamos passar
das intenções aos gestos. O tempo, principalmente daqueles acometidos pela doença, assim o exige.

Nestes tempos em que o Brasil tornou-se exemplo global de inclusão social, de esforço e mobilização
nacional para a eliminação da miséria, é chegada a hora do governo brasileiro, coerentemente com
seu slogan, “País rico é país sem miséria”, radicalizar seu discurso de intolerância com a miséria e a
exclusão social e incluir a tuberculose como prioridade dos seus programas sociais. Assim, além da
pobreza extrema que pretendemos erradicar, podemos também eliminar a tuberculose como
problema de saúde pública e por analogia dizer que País rico é país sem tuberculose.

                                                                                   Draurio Barreira
                                                   Coordenador Nacional do Programa Tuberculose
                                                                               Ministério da Saúde
                                    24 de março – Dia Mundial de Luta pelo Controle da Tuberculose




                                    Divulgação do texto produzido por solicitação da Diretoria de Saúde Preventiva
                                                                                   Club de Regatas Vasco da Gama

				
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posted:3/25/2012
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Description: O Centro de Apoio ao Tabagista divulga artigo para leigos produzido pelo Coordenador Nacional do programa de Controle da Tuberculose, Dr. Draurio Barreira, redigido por solicitacao da diretoria de saude Preventiva do Club de Regatas Vasco da Gama, que se associa aos esfor�os nacionais de controle da doen�a tuberculose. No dia 24 de mar�o consagra-se a descoberta do agente causador da doen�a, o bacilo de Koch, nome alusivo ao alem�o Robert Koch, pesquisador que nesta data, em 1882, revelou ao mundo a grande conquista.