AT EORIA DAS CRISES EA S TRANSFORMA��ES NA HIST�RIA DA
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TRABALHO E EDUCAÇÃO: UM ESTUDO SOBRE A FORMAÇÃO DOS
TRABALHADORES NA REGIÃO DE UBERLÂNDIA (1930 – 2006)
GT: UBERLÂNDIA
LUCENA, CARLOS
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA
FAPEMIG
carloslucena@centershop.com.br
FRANÇA, ROBSON LUIZ
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA
rlfranca@ufu.br
PREVITALE, FABIANE SANTANA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA
fabianesp@netsite.com.br
Introdução
O capitalismo monopolista está em discussão nas últimas décadas. Os processos
econômicos, políticos e sociais voltados à acumulação constante do capital produzem e
reproduzem desigualdades e contradições que se manifestam no âmbito da ciência, da
tecnologia, do trabalho, da distribuição da riqueza, etc. O mesmo toma uma dimensão
mundializada cujos impactos principais são sentidos na produção e socialização da
ciência capitalista.
A ciência, desdobramento da razão iluminista, atenta à sobrevivência ou não de
milhares de seres humanos. Ao mesmo tempo em que busca o sentido da vida,
materializa as condições para morte. Isso se verifica nos próprios desdobramentos e
mediações dialéticas que as crises manifestam nas relações sociais do mundo capitalista.
O crescimento das guerras e da violência, as revoltas contra a fome e o desespero, a
expansão do fundamentalismo e seu acesso a armas, colocam limites à atuação das
Instituições, mesmo utilizando um poder policial internacional. (Kurz, 1992, p.186–
187) A ciência, um constructo humano da humanidade para a humanidade, ao assumir
uma dimensão privada, apresenta seus resultados de forma sobrenatural e contraditória.
A sua marcha coloca em cheque as próprias matrizes iluministas que defendem a sua
expansão como pressuposto para a construção da sociedade “mais avançada de toda
existência humana”, voltada para o desvendar dos segredos da natureza e do universo: a
busca do significado da origem e da existência humana.
O avanço do capitalismo problematiza essas concepções iluministas. O mesmo
não inventou a ciência, até porque a mesma é tão antiga quanto o homem, mas inventou
formas de explorá-la, subjugando seus resultados aos seus interesses. Esse movimento
consolidou uma contradição em que a liberdade criativa se contradiz aos interesses de
reprodução do capital. Tal qual bem afirma Antunes em “Os sentidos do trabalho”, o
que produzir, para quem produzir e como produzir, se transformaram em grandes
desafios para a humanidade. Uma problematização além das concepções pessimistas da
racionalidade frankfurtiana, ou mesmo da denúncia das amarras burocráticas propostas
pelos princípios da sociologia do conhecimento. A saída para os homens não consiste na
simples negação da ciência por ela mesma: agir no intuito de “apagar as luzes do
mundo” e decretar a volta ao “fundo das cavernas” ou ao “topo das árvores”. O fundo
da caverna só possibilita ver o mundo através das representações daquilo que ele é, e, no
topo das árvores, apesar da esplêndida visão que o céu estrelado proporciona, as
próprias estrelas não estão onde o olho humano imagina que estejam: seu brilho e sua
beleza são ilusões que possibilitam os homens adorarem algo que talvez nem mais
exista a séculos.
É nesse sentido que a problematização da ciência e seus resultados é
fundamental para uma análise da sociedade capitalista. Os crescentes movimentos das
crises cíclicas, as estratégias dos homens de negócios para recompor a acumulação e a
resistência manifestada através da luta de classes, que por mais que a neguem e
decretam a sua morte, insiste em intervir nas mediações da marcha da história, afetam
diretamente a ciência, interferindo nos seus resultados e questionando a sua
neutralidade. Mészáros (2004, p. 284) em “O poder da ideologia” afirma que o controle
da ciência pelo Estado cresceu ao tal ponto que não se compara com os estágios
passados do desenvolvimento histórico. A própria liberdade dos cientistas entrou em
discussão. Os cientistas humanos têm mais liberdade inventiva do que os cientistas
naturais. Os primeiros podem escrever livros críticos à ordem estabelecida mesmo que
encontrem dificuldades de financiamento em agências de fomento de pesquisa. Os
cientistas naturais perdem as condições instrumentais e institucionais de trabalho, se
ousarem criticar a ameaça à sobrevivência da humanidade, especialmente quando
desafiam os interesses da pesquisa destrutiva militar.
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Mesmo o crescimento e socialização das tecnologias produzidas são passíveis de
críticas. Deve-se levar em conta que três bilhões de pessoas nunca fizeram ou receberam
uma ligação telefônica. No Afeganistão, apenas cinco a cada mil pessoas têm acesso a
um telefone. As próprias tecnologias que circulam o planeta não são homogêneas e de
última geração. Os países de terceiro mundo têm acesso a tecnologias obsoletas, ou
semi-obsoletas, já abandonadas pelas nações que possuem uma posição predominante
na divisão internacional do trabalho no planeta (Goron, 2002, p. 48-58). Esse
movimento se explica através de um processo complexo, dialético e contraditório entre
a produção e a circulação das mercadorias. Mészáros em “Para além do capital” afirma
que o modo de produção capitalista apresenta uma tendência de reduzir drasticamente as
práticas produtivas voltadas para a durabilidade das mercadorias produzidas. “Desse
modo, a sociedade de mantém como um sistema produtivo manipulando até mesmo a
aquisição dos chamados ‘bens de consumo duráveis’ que necessariamente são lançados
ao lixo (ou enviados a gigantescos ferros-velhos, como os ‘cemitérios de automóveis’
etc.) muito antes de esgotada a vida útil”. (2002, p. 640)
Para Mészáros o capitalismo possui uma incapacidade de estabelecer limites a sua
própria produção. Dialogando com a Lei de Tendência à superprodução de mercadorias
apresentada por Marx no “Livro III de O capital”, defende que o capital tem dificuldade
em estabelecer as diferenças entre consumo produtivo e improdutivo.
Tal inadmissibilidade prática de limites no sistema do capital emerge do modo
pelo qual a prevalência da relação produtiva anterior com o uso é alterada de
maneira fundamental no curso do desenvolvimento histórico. Como resultado,
‘útil’ torna-se sinônimo de ‘vendável’, pelo que o cordão umbilical que liga o
modo de produção capitalista à necessidade humana direta pode ser
completamente cortado, sem que se perca a aparência da ligação.
Simultaneamente, as formas de troca anteriormente praticadas -, até então
diretamente relacionadas à necessidade humana, quaisquer que fossem suas
limitações sob outros aspectos – são superadas pelo domínio do valor de troca,
de tal modo que, depois disso, não se pode mais conceituar a troca em si a
menos que seja definida em termos de transações formalmente equalizadas de
mercadorias que ocorrem na estrutura estritamente quantificadora das relações-
de-troca reificadas. (Mészáros, 2002, p. 659)
Com efeito, se consolida o império do valor de troca sobre o valor de uso. Uma
mercadoria num extremo da escala pode estar constantemente em uso, ou dependendo
das circunstâncias, nunca ser usada, sem perder com isso sua utilidade no que diz
respeito à expansão e reprodução do capital. Isso tem sérios desdobramentos em termos
do atendimento das necessidades humanas. Uma vez que os meios de produção são
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convertidos aos interesses do capital, os mesmos, caso os imperativos do capital assim
determinem, têm que se opor às próprias necessidades humanas. Assim, em alguns
casos, linhas de pesquisa e invenções que melhorariam a vida das pessoas são
arquivadas, ou inteiramente reprimidas desde que atente aos interesses reprodutivos do
capital. Mészáros (2002, p. 663–664) afirma que esses princípios materializam a lógica
da produção destrutiva baseada no fetichismo e na alienação do homem pelo trabalho. O
império dos interesses do capital como determinantes da produção científica e
tecnológica proporcionam um movimento auto-expansivo do capital que se contradiz
aos interesses da própria humanidade. Tendo como referência essa necessidade de
expansão do capital que se justifica por um retorno lucrativo em sua totalidade, o capital
desenvolve formas que garantam a circulação e renovação de mercadorias. Quando uma
mercadoria nasce, é decretada sua morte em detrimento da criação de outras
mercadorias.
Todo esse processo se desenvolve em nome da inovação tecnológica, que toma
uma dimensão sobrenatural, imutável e inquestionável. A tese de redução da vida útil
acompanhada dialeticamente ao aumento da velocidade de circulação das mercadorias é
fundamental para a problematização de sérios problemas sociais que se materializam
com o avanço do capitalismo. A mesma se articula a uma dimensão complexa que se
refere à utilização ou não da força de trabalho disponível. Mészáros afirma que o
trabalho não e apenas um fator de produção, mas também uma massa consumidora
fundamental para a reprodução do capital e a realização da mais-valia. Nesse sentido, se
desenvolvem conflitos dentro do próprio capitalismo, no qual um homem de negócios
aposta na elevação do poder de compra do trabalhador que vende sua força de trabalho a
outro homem de negócios como garantia do escoamento da sua produção e acúmulo do
seu próprio capital. Porém, a taxa decrescente de utilização da força de trabalho, que
tem como base o desemprego estrutural, não muda apenas por iniciativas conjunturais.
“De forma desconcertante para o capital, não se pode tratar indefinidamente o
trabalho como um mero ‘fator de produção’, nem mesmo explorando ideologicamente a
oposição fictícia entre trabalhador e consumidor, de modo a submeter o trabalhador
em nome da mítica do ‘Consumidor’ com letra maiúscula.” (2002, p. 673–674)
Todo esse movimento produz uma contradição na acumulação do capital que se
manifesta na necessidade crescente de consumidores em massa acompanhada da
redução do trabalho vivo. Assim, o desemprego assume uma dimensão de disfunção
temporária, cuja base é tecnológica e as soluções também se encontram nas fronteiras da
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tecnologia. A redução da capacidade de consumo relacionada ao crescente desemprego
estrutural coloca, a princípio, sérios problemas em termos da potencialidade
acumulativa do capital. Porém, como esse processo não é mecânico, mas sim dialético,
iniciativas são construídas visando a superação dessa situação. É nesse sentido que se
constroem estratégias para a circulação de mercadorias tão bem problematizadas por
Goron e Mészáros. Em primeiro lugar, a redução da capacidade de consumo de parcela
dos trabalhadores expulsos do mercado de trabalho é substituída pelo aumento da
velocidade daqueles que ainda podem consumir. Esse é o princípio da tese de redução
da vida útil das mercadorias, acelerar a velocidade daqueles que ainda podem consumir,
garantindo a reprodução do capital investido na produção. Em segundo lugar, tal qual
afirmamos anteriormente, a heterogeneidade das tecnologias que circulam pelo planeta.
Apesar das alternativas de um considerável segmento de empresas impulsionadas pelos
princípios toyotistas de organização técnica e gerencial da produção, as bases da
produção em massa ainda permanecem na produção de mercadorias, até porque a
própria dimensão do toyotismo varia de país para país. Tomando como referência a
dimensão internacional presente na circulação de mercadorias, a própria divisão
internacional do trabalho garante um movimento de utilização máxima das tecnologias
que são produzidas, mantendo a velocidade de circulação sobre controle. Com efeito, ao
mesmo tempo em que são criadas como novidades em países desenvolvidos, o seu
processo destrutivo não implica no seu desaparecimento, mas sim o envio dessas
tecnologias para países subordinados em termos de desenvolvimento tecnológico. A
contradição entre a produção e a destruição garante a subordinação de continentes para
continentes, de grupos transnacionais para Estados nacionais, etc.
A indústria armamentista é um exemplo dessa afirmação. A mesma pode ser
problematizada tendo como referência a circulação de tecnologias obsoletas e sua
essência destrutiva enquanto processo de mediação do homem com a natureza. Com a
queda do Leste Europeu, os estoques de armamentos obsoletos, de países que o
compunham, foram vendidos para grupos de poder que implementaram lutas internas
pelo controle político de seus países no continente africano, entre outros. Essas armas
foram vendidas também ao narcotráfico internacional que as utilizou como garantia de
circulação de suas mercadorias: a cocaína, o crack, a heroína, entre outras. As mesmas
proporcionaram a consolidação de um círculo vicioso da morte, que tem início pela
adoção de armas tanto contra a repressão do Estado, como pela garantia da supremacia
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dos conflitos entre traficantes rivais pelos pontos de venda e consumo, e se completa
pelo provável destino daqueles que a consomem e não conseguem se libertar: o óbito.
As dimensões da produção científica armamentista são preocupantes, uma vez
que atentam ao próprio futuro da humanidade. Em conferência realizada na Anped
(Associação Nacional de Pesquisa em Educação) em 2004, José Dias Sobrinho relatou
que dois dias de investimento dos EUA nas indústrias bélicas norte-americanas são
suficientes para financiar toda a universidade pública da América Latina durante um
ano. Boron (2004, p. 144) afirma que os Estados Unidos são responsáveis pela metade
dos gastos mundiais em armamentos, e mantém bases e missões de treinamento militar
em 121 países do planeta. Mészáros (2004, p. 285) aponta que o complexo militar-
industrial controla 70% de toda a pesquisa científica dos EUA. Ao mesmo tempo, na
Grã-Bretanha os índices percentuais correspondem a 50%.
Mészáros realiza uma crítica à concepção armamentista que influencia a ciência
capitalista e sua produção. Ao realizar este percurso, afirma que uma sociedade baseada
em uma divisão do trabalho consolida um movimento dialético ao qual as forças
materiais correspondem às determinações estruturais fundamentais da sociedade que
produzem os homens que necessitam, mesmo no âmbito da ciência. Esse é um
movimento que possibilita a imposição de imperativos estruturais destrutivos sobre toda
a sociedade, desconsiderando as conseqüências.
Problematizar a indústria armamentista implica em conceber que sua produção é
voltada para a elaboração de mercadorias da morte, a materialização da irracionalidade
humana pela transformação da natureza. Em um processo, tal qual discutimos acima, ao
qual a sociedade produz os homens que ela necessita, constatamos um triste prognóstico
que se explica pela própria divisão de classes sociais: os pobres constroem as armas
que matam os próprios pobres, mas se esquecem que são os ricos que as vendem. Com
o avanço da destrutividade do capitalismo, apontamos um prognóstico que infelizmente
supera o acima enunciado: os pobres constroem as armas que matam os pobres, os
filhos dos pobres, os filhos dos ricos e os próprios ricos que as vendem. A criação que
se volta contra o próprio criador.
À ciência capitalista se colocam grandes desafios. Como dar uma dimensão
social a sua produção? Como garantir que seus resultados se voltem ao benefício de
toda a sociedade, evitando os genocídios armamentistas por um lado, e garantindo, por
outro lado, que milhares de seres humanos não morram em virtude de patologias, cujo
remédio esteja ao seu lado, porque não tem condições de adquiri-lo. Como já
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afirmamos, não acreditamos que a simples de negação da ciência seja o caminho. O
próprio Marx, dentro de suas raízes iluministas, afirmava que a ciência e tecnologia
eram vitórias do homem sobre a natureza. No livro primeiro de “O capital”, capítulo
XIII, apontava que a tecnologia manifestava uma atitude ativa do homem para com a
natureza. Esse processo significava a produção da sua vida e, por conseguinte, das suas
condições sociais de vida e das representações espirituais que delas derivam. Nesse
sentido, o desafio consistia não na simples negação, mas em uma socialização e
humanização dos seus resultados tal qual alertou o próprio Einstein: “por que a ciência
aplicada, que é tão magnífica, economiza trabalho e torna a vida mais fácil, nos
proporciona tão pouca felicidade? A resposta é simples: ainda não aprendemos a utilizá-
la adequadamente” (Apud Mészáros, 2004, p. 288).
A teoria marxiana das crises econômicas do capitalismo monopolista.
Todo esse processo de mediações entre a ciência e a sociedade pode ser debatido
tendo como referência as crises cíclicas do capitalismo. Marx se propôs a analisar a
construção das crises tomando como referência a superprodução de mercadorias e a lei
de tendência decrescente da taxa de lucro. O ponto de partida de Marx foi a produção
capitalista. Para isso, dedicou-se a problematizar o modo de produção capitalista e suas
mediações dialéticas entre as relações de produção e circulação de mercadorias. A
compreensão desta contradição era fundamental para o entendimento da gênese das
crises do capitalismo.
Quando Marx debate o conceito de crise de superprodução, parte do princípio
que o capitalismo teria uma tendência em aumentar a produção em larga escala,
desencadeando um processo de desequilíbrio entre a produção e o consumo. As massas
possuiriam uma tendência em encontrar dificuldades para o acesso às mercadorias,
ocasionando desajustes no sistema. A crise de superprodução corresponde ao processo
em que o desenvolvimento das forças produtivas supera as necessidades de valorização
do capital. Essa crise só é superada quando se desenvolve uma dupla estratégia do
capital. Um processo de destruição forçada da massa das forças produtivas
acompanhadas pelo aumento da exploração dos antigos mercados e a conquista de
novos mercados, restabelecendo as condições de valorização do capital.
Com referência à conquista de novos mercados, verifica-se um processo
histórico que aponta a tendência à internacionalização do capital. Marx afirma em
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“China: fósil vivente o transmissor revolucionário?” que desde o começo do século
XVIII todas as grandes transformações sociais e revoluções desenvolvidas na Europa
ocorreram antecipadas por crises comerciais e financeiras que se consolidaram a partir
de causas supranacionais. Dialogando com a lei do contato dos extremos apontada por
Hegel, aponta que o modo de produção capitalista possibilita que locais distantes no
planeta se relacionem, toquem-se e se liguem. Com efeito, o mercado britânico é
influenciado pelo chinês e ambos podem ser influenciados por uma crise na Índia.
(Mello, 2000, p.110 –114)
Marx (1966, p. 248) afirma em “O capital” que o capital possui uma tendência a
consolidar o desenvolvimento total das forças produtivas. A consolidação desse
processo coloca ao próprio capital a necessidade de ultrapassar constantemente os
limites por ele mesmo criados. Ainda com referência à necessidade de ampliação
constante do capital, Marx (1973, p. 375) discute no volume I dos Grundisse que o
capital é uma contradição viva, pois determina ao trabalho e à criação de valores que se
constrói a partir dele uma barreira que contradiz sua tendência constante de ampliação.
Essa tendência à superprodução e à negação do trabalho apontada por Marx
apresenta contradições relativas à produção que aparecem, resolvem-se e retornam
novamente nas crises, pois são ligadas dialeticamente à produção. O aumento absoluto
das forças produtivas proporciona que a expansão do capital ultrapasse sua
concretização como valor-capital. A característica do capital de produzir sem ter o total
controle dos limites do mercado aponta a consolidação do processo de superprodução de
mercadorias. (Mazzuccheli, 1983, p. 16–23)
A análise da constituição da crise no capitalismo monopolista através da
superprodução de mercadorias ganha maior complexidade quando relacionada à
discussão da tendência histórica de redução das taxas de lucro na reprodução do capital.
A lei da tendência decrescente da taxa de lucro é fundamental para a elaboração da
concepção marxiana das crises.
Marx problematiza em o “livro III de O Capital” que a teoria da tendência
decrescente da taxa de lucro materializa uma contradição. Quanto maior o
desenvolvimento do capitalismo, maior o decréscimo da taxa média de lucro do capital.
Esse processo se consolida em virtude da existência do excedente de capital. O
crescimento de capital acumulado, em virtude do aumento da mais-valia, encontra uma
redução de possibilidades de investimento que proporcionem uma rentabilidade
adequada. Com efeito, desenvolve-se uma redução contínua do investimento produtivo,
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provocando uma redução dos empregos e dos salários dos trabalhadores. A redução da
massa salarial impulsiona uma crise na venda das mercadorias que já foram produzidas.
Instaura-se, como desdobramento desse movimento no âmbito da circulação das
mercadorias, uma crise de superprodução em virtude do desequilíbrio entre a produção
e o consumo que faz com que o capital reduza a sua produção, determinando a
paralisação e a depressão dos mercados. Como a produção capitalista subordina o valor
de uso ao valor de troca, a economia somente se reativará quando ocorrer os seguintes
fatores: a paralisação e depressão dos mercados gerarem salários reduzidos; quando
ocorrer a desvalorização do capital fixo em virtude das falências de várias empresas;
quando o Estado intervier ou quando ocorrer um acontecimento inesperado, como uma
guerra, que eleve a produção capitalista. (Castells, 1979, p. 26)
Marx afirma que se desenvolve uma redução da taxa média de lucro porque o
resultado final do processo de acumulação do capital é determinado pelo aumento da
composição orgânica do capital entendida como a relação entre o trabalho morto e o
trabalho vivo. A substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto provoca uma
tendência ao decréscimo da taxa de lucro, uma vez que o trabalho morto apenas
transmite à mercadoria uma mesma quantidade de valor já incorporada nos meios de
produção. Mesmo com o crescimento da mais-valia obtida no capitalismo, a relação
entre o investimento e a mais-valia obtida será cada vez menos favorável ao detentor
dos meios de produção. Em virtude das taxas de lucro dependerem da taxa de mais-
valia, elas tenderão a cair em longo prazo. (Idem, p. 26 – 27)
Os estudos de Marx sobre a consolidação das crises cíclicas do capitalismo
monopolista teve como referência a análise da Inglaterra. Seus resultados e
considerações foram obtidos a partir de mais de uma década de estudo dos “livros azuis
de contabilidade britânica”, dos quais foram retirados dados que levaram à formulações
sobre a acumulação do capital, as teorias da mais-valia, entre outras. Com a marcha do
capitalismo expressa por um movimento crescente de acumulação que se contradiz ao
processo também crescente de resistência e luta de classes, ela ainda é referência para
análises no final do século XX e início do XXI. Os grandes avanços tecnológicos
propiciados pela ciência, a consolidação da inclusão acompanhada de uma crescente
exclusão social, colocam desafios em termos da problematização da sociedade e seus
rumos futuros. Até que ponto uma sociedade tecnológica tem como base o
estranhamento da humanidade com o resultado daquilo que ela mesma produz?
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Todo esse processo destrutivo que articulam as crises do capitalismo, a ciência e
a tecnologia são pressupostos para a problematização da precarização do trabalho. A
mesma não se entende por si só, mas sim como um desdobramento em que o particular
se explica no geral e vice-versa. A precarização do trabalho é o resultado dessas
complexas mediações dialéticas que se manifestam tanto no âmbito das crises do
capitalismo, como na utilização dos resultados e aplicação da ciência.
Trabalho e precarização na região do Triângulo Mineiro.
A problematização do trabalho em Uberlândia, Triângulo Mineiro, estado de
Minas Gerais, implica em conceber a própria história da região. Uberlândia, uma cidade
de aproximadamente 500 mil habitantes no início do século XXI, é movimentada
basicamente pelo setor de serviços. Com uma média salarial em torno de 450 reais,
pouco menos de 200 euros, convive com as contradições presentes no discurso das suas
elites que na década de 1950 imaginavam a cidade como um pólo industrial com mais
de 1 milhão de habitantes. Entendida como “Suíça brasileira” em Minas Gerais, o nível
de renda da população desmente essas afirmações. É na materialização da sociedade que
as concepções idealistas são postas em cheque.
O programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de
Uberlândia desenvolve um conjunto de pesquisas que tomam como referência a história
e precarização do trabalho na região. As mesmas são desenvolvidas por professores,
alunos do mestrado e doutorado, bem como alunos de graduação, bolsistas de Iniciação
Científica do CNPQ e da Fapemig, que ajudam a recuperar a história do trabalho da
região.
Entre essas pesquisas estão os estudos de Carlos Lucena que recuperam a
história do trabalho e da precarização no Triângulo Mineiro. Seu recorte enfatiza a
formação profissional dos trabalhadores na região, problematizando a permanência de
formas precarizadas e alienadas na sua formação. Ao realizar esse percurso,
problematizam-se, a partir dos princípios do materialismo histórico e dialético, as
relações e mediações dialéticas das transformações do capitalismo monopolista e seus
impactos na formação dos trabalhadores. Merece destaque as pesquisas em
desenvolvimento, com financiamento da Fapemig, sobre a formação dos operadores de
refinaria da Petrobrás no estado de Minas Gerais e a formação dos trabalhadores na
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região de Uberlândia, com referência à investigação sobre os garimpos de diamantes em
Coromandel, Minas Gerais.
As pesquisas de Fabiane Santana Previtali visam discutir as transformações nas
economias capitalistas nas últimas décadas, particularmente o processo de
reestruturação produtiva e como a classe trabalhadora vem respondendo às mudanças, o
que implica também na reconstituição de sua representação sindical e política. Busca-se
compreender, a partir de estudos de casos empíricos, as novas formas de controle e
organização do processo de trabalho, os novos requisitos de educação e qualificação
profissional, o novo perfil da força de trabalho, bem como as formas de resistência,
individual e coletiva, da classe trabalhadora às transformações impostas pelo capital no
âmbito da dinâmica das classes sociais. Como não poderia deixar de ser, essas
transformações encontram correspondência nas políticas neoliberais que visam, à
propósito de garantir a acumulação do capital, cujo objetivo é a sua própria valorização,
a desregulamentação do trabalho e o retrocesso de conquistas sociais adquiridas pela
classe trabalhadora ao longo de sua trajetória histórica. Os projetos de pesquisa que
estão sendo desenvolvidos são: Reestruturação Produtiva e Mudanças no Mundo do
Trabalho: o caso do setor de fumo. Período: 2005 – 2007. (Apoio: DIRP/UFU);
Valorização do Capital e Trabalho Imaterial: o caso do setor de telemarketing em
Uberlândia,MG. Período: 2006-2008 e História, Trabalho e Educação: um estudo sobre
a formação profissional nas instituições não escolares na região de Uberlândia, MG
(1960 a 2006).
Os trabalhos de Robson Luiz de França discutem questões referentes à cidadania
e suas contradições na sociedade brasileira, numa perspectiva dialética, na qual as
relações sociais são analisadas, não apenas em partes, mas na sua totalidade
considerando à questão do trabalho e da Educação. Contradições estas que vão
emergindo a partir de relações macro e micro-estruturais, num movimento dinâmico e
de troca ininterrupta. Neste sentido, destaca-se a necessidade de verificar como se dá a
relação entre as mudanças no mundo do trabalho e as lógicas exigidas pelo mercado de
trabalho para o setor educacional a partir das reformas educacionais implementadas nos
últimos anos e a questão da cidadania. Traz duas discussões: a relação entre as políticas
de qualificação profissional e a reforma do Estado brasileiro e, a cisão entre educação
escolar e formação do trabalhador. Analisa-se o impacto das mudanças nos conceitos de
cidadania e trabalho e o papel da educação a partir dos processos de reestruturação
produtiva no mundo do trabalho considerando os programas de formação profissional,
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no que se refere às concepções e mecanismos de implementação. O estudo considera o
período a partir de 1994. Parte-se da premissa que ao enfocar as questões referentes à
cidadania e suas contradições na sociedade brasileira, numa perspectiva dialética,
necessita-se discutir as relações sociais e analisá-las, não apenas em parte, mas na sua
totalidade relação à questão do trabalho e da Educação. Contradições estas que vão
emergindo a partir de relações macro e micro-estruturais, num movimento dinâmico e
de troca interrupta.As contradições se tornam evidentes na relação Estado/Indivíduo,
pelas políticas sociais desenvolvidas ou pelos movimentos sociais originados do
cotidiano que agem e propiciam as transformações sociais.
Todos esses trabalhos apontam para o crescimento da precarização das
condições de trabalho na região, precarização que se estende desde a escola formal, ao
setor de serviços e atinge a produção fabril. É nesse sentido que a discussão das
mediações e contradições entre a ciência, a tecnologia e as crises cíclicas do capitalismo
se materializa. Até que ponto as exigências de um trabalhador dotado de conteúdos
intelectuais mais elevados é pressuposto para o exercício de diferentes profissões e,
realmente, se materializa naquilo que o trabalhador faz? Inúmeros desafios são
colocados e ainda não foram respondidos.
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