Escola dominicana de teologia by t20EW7

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Jesus, “um leigo sacerdote” de acordo com a Carta aos
Hebreus
Orientado: Marcelo Alves

Orientador: Pedro Lima Vasconcelos

Escola Dominica de Teologia




ALVES, Marcelo. Jesus, um “leigo sacerdote” de acordo com a carta aos
Hebreus.
     Monografia de conclusão de curso, Escola Dominicana de Teologia,
São Paulo, 2010.
       O presente trabalho expõe os resultados dos esforços de seu autor em
lidar com uma temática particularmente complexa e delicada. Complexa por
pretender enfrentar um dos escritos de mais difícil compreensão do Novo
Testamento, a chamada “Carta aos Hebreus”, centrando-se naquilo que seu
desconhecido autor afirmava ser o centro de sua exposição, a saber, o
sacerdócio do “leigo Jesus”, como Marcelo acentua já no título de seu trabalho;
ainda por buscar estabelecer um nexo com aquilo que na pesquisa é chamado
de “Jesus histórico”; delicada, pelas óbvias implicações que tal tema traz para
discussões no campo da eclesiologia, que o autor cuidadosamente evita tratar
de forma explícita e que talvez merecessem ao menos uma menção indicativa.
       Complexo e delicado, o tema que Marcelo tratou de desenvolver
recebeu do autor uma aproximação entusiasmada, que, se de um lado se
ressentiu de algumas dificuldades na elaboração dos argumentos,
especialmente de ordem redacional, por outro expressa de forma clara
convicções de seu autor que se dirige ao sacerdócio ministerial e opções
inspiradas na sua percepção do Jesus messias e profeta caracterizado como
sacerdote único pelo autor de Hebreus. Daí que, como orientador, tenha de
salientar principalmente o que, a meu ver, emerge como principal característica
deste trabalho que me coube acompanhar: ele revela o ideário que anima seu
autor a assumir seu lugar na Igreja e na Ordem Dominicana como ministro
ordenado. A reflexão que esboça sobre a entrevista concedida por um seu
confrade, que teve a oportunidade de acompanhar em momento
particularmente expressivo, é indicativa dessa orientação bem prática, mais
que especulativa, que o trabalho parece ter assumido para seu autor, que
procurou fazer o melhor que estava nas suas possibilidades.
Isso posto, considerado as dificuldades encontradas, alguns limites não-
transpostos, mas principalmente o sentido existencial que essas páginas têm
para seu autor e seu ideal de vida, e a disposição de enfrentar tema
particularmente desafiador (pelas razões expostas acima) com satisfação
aprovo este trabalho, atribuindo-lhe a nota 9,0 (nove).
                                                                                                  8



                                                                 Pedro Lima Vasconcellos

                                            ÍNDICE



Introdução --------------------------------------------------------------------------------------10

Capítulo 1: O escrito aos Hebreus -------------------------------------------------------14

               I) Uma exortação que não é de Paulo ---------------------------------14

               II) Destinatários e o seu contexto-----------------------------------------19

               III) A organização do texto e a objetividade de suas molduras----28

               IV) Recapitulação--------------------------------------------------------------32

Capítulo 2: Jesus de Nazaré ---------------------------------------------------------------33

                A diversidade de grupos no contexto de Jesus ------------------35

                A revolução de Jesus --------------------------------------------------37

                Jesus um messias diferente do esperado--------------------------39

                Jesus um profeta ---------------------------------------------------------42

                Recapitulação -------------------------------------------------------------44

Capítulo 3: O centro da atenção de Hebreus ------------------------------------------45

                1. Jesus é semelhante à Melquisedec ---------------------------------46

                2. A imperfeição do sacerdócio levítico --------------------------------49

                3. A perfeição do sacerdócio de Jesus --------------------------------51

                4. A consequência da mediação sacerdotal de Jesus--------------52

                5. Henri des Roziers, aquele que vai ao encontro do Cristo------54

                6. Recapitulação -------------------------------------------------------------63
                                                                                                   9



Conclusão --------------------------------------------------------------------------------------65

Anexo---------------------------------------------------------------------------------------------67

Referências Bibliográficas ----------------------------------------------------------------82
                                                                                        10




                                   Introdução

       Um fator que aguça a curiosidade dos enamorados pelos textos do Novo
Testamento é o fato de notarmos que o título de Sumo Sacerdote atribuído a
Jesus de Nazaré encontra-se em apenas um deles: o escrito denominado de
Carta aos Hebreus.

       A proposta desse trabalho é a de observar detalhadamente uma
problemática que surge envolvendo esse título – Jesus de Nazaré, um dos
filhos da Tribo de Judá, que não fazia parte da classe sacerdotal judaica é
nomeado como Sumo Sacerdote segundo a ordem do rei Melquisedec. Para o
judaísmo era impossível Jesus ser um sacerdote.

       Na atualidade, em especifico na Igreja Católica, quando se fala de
sacerdócio, imediatamente no nosso imaginário surge a figura do padre, que é
um sacerdote institucional. O leigo também é um sacerdote, mas muitos
esquecem que existe um sacerdócio comum, dentro do qual emerge o
institucional.

       O exercício de observar a figura laical como um sacerdócio dentro da
Igreja, parece que raramente é feito, para quem não exercita essa observação,
ou talvez ignore, esses esquecem que o centro das nossas atenções, Jesus
Cristo, quando estava encarnado na história foi um leigo. Somente um texto o
chama de sacerdote, a chamada Carta aos Hebreus.

                     Cristo Senhor, Pontífice tomado dentre os homens (cf. Hb 5, 1 – 5),
                     fez do novo povo “um reino e sacerdotes para Deus Pai” (Apoc 1,6;
                     cf. 5,9 – 10). Pois os batizados, pela regeneração e unção do Espírito
                     Santo, são consagrados como casa espiritual e sacerdócio santo,
                     para que por todas as obras do homem cristão ofereçam sacrifícios
                     espirituais e anunciem os poderes d’Aquele que das trevas os
                     chamou à sua admirável luz (cf. 1 Pd 2,4 – 10). Por isto, todos os
                     discípulos de Cristo, perseverando em oração e louvando juntos a
                     Deus, (cf. At 2,42 – 47) ofereçam-se como hóstia viva, santa,
                     agradável a Deus (cf. Rom 12,1). Por toda parte dêem testemunhos
                     de Cristo. E aos que pedirem dêem as razões da sua esperança da
                     vida eterna (cf. Pd 3,15). (LUMEN GENTIUM 10).
                                                                                        11



      E mais, a visão que temos de sacerdócio na atualidade não tem muito a
ver com a concepção que os primeiros cristãos possuíam de sacerdócio.

                     Quando se fala de “sacerdote” e “sacerdócio”, o católico
                     espontaneamente pensa logo no sacerdote de paróquias e em seu
                     ministério. Nós sabemos que todos os cristãos participam de certa
                     forma de sacerdócio, o que foi recordado pelo Vaticano II. Por fim
                     sabemos que Cristo possui a perfeição do sacerdócio e que existe
                     uma missa votiva de “Cristo, soberano e sacerdote”. Por isso, temos
                     certa dificuldade para perceber que nossa mentalidade sobre todas
                     essas questões está muito distante da mentalidade dos cristãos dos
                     primeiros tempos. Quando se falava de “sacerdote” e “sacerdócio”, os
                     cristãos dos primeiros tempos pensavam espontaneamente nos
                     sacerdotes judeus e nas imolações de animais no Templo de
                     Jerusalém. Eles também podiam pensar nos sacerdotes pagãos e
                     nas imolações de animais nos templos dos ídolos. Não lhes viria a
                     mente a idéia de colocar nessa mesma categoria o senhor Jesus ou
                     os apóstolos de Jesus. O que lhes saltava aos olhos eram muito mais
                     as diferenças (VANHOYE, 1983:14).

      Vanhoye, estudioso do Novo Testamento, também destaca que o
sacerdócio cristão difere totalmente do estilo clássico de sacerdócio. A principal
diferença é nítida. O sacerdócio cristão não tem a necessidade de imolar as
artérias do pescoço do animal e o oferecer o seu sangue para amenizar a fúria
dos deuses ou de sua divindade especifica como era a prática religiosa do
judaísmo, no intuito de reparação das suas falhas pessoais e comunitárias. É
muito forte essa constatação, mas o que acontecia nos sacrifícios de animais
era basicamente isso.

      Mas o que vem a ser a experiência sacerdotal das primeiras
comunidades cristãs? Descrever a respeito das primeiras experiências
sacerdotais cristãs requer um exercício hermenêutico, pois os textos do Novo
Testamento que mencionam sobre um provável sacerdócio cristão são apenas
três: a denominada carta aos Hebreus, a Primeira Carta de Pedro e o Livro do
Apocalipse. Além de serem somente esses, para dificultar, não existe uma
sintonia entre Hebreus e os demais.

                     Em Hebreus, o título de “verdadeiro sumo sacerdote” é atribuído a
                     Jesus de forma metafórica e não histórica, institucionalizada. O autor
                     não deduz um “sacerdócio comum dos fiéis” a partir do sacerdócio de
                     Cristo. Mas vê o exercício desse sacerdócio único de Cristo se
                     realizando, concretamente, por meio das lideranças da comunidade,
                     que fazem o papel de Cristo, pois “iniciam” os cristãos na fé e na
                     salvação, por seu zelo pastoral e por sua conduta (Hb 3,12) e
                     representam o Cristo, pela autoridade de sua pregação (Hb 13,7). A
                                                                                          12



                      Epístola aos Hebreus alude à iniciação batismal e à liturgia cristã,
                      como elementos unificadores da comunidade (Hb 6,4-5), onde as
                      “lideranças” deviam exercer um papel litúrgico, iluminado pelo
                      “grande Pastor das ovelhas” (Hb 13,20). Porém, o fato de aplicar às
                      “lideranças” da comunidade o papel de representantes de Cristo
                      sumo sacerdote não os constitui “sacerdotes”, no sentido institucional,
                      não faz deles uma classe sacerdotal dentro do povo de Deus, à
                      semelhança da classe sacerdotal levítica dentro do judaísmo. Apenas
                      ressalta que eles devem testemunhar esse Cristo, único sacerdote,
                      com a sua maneira de conduzir a comunidade. Constituir uma nova
                      classe sacerdotal cristã seria voltar ao esquema anterior do judaísmo,
                      que Hebreus insiste em mostrar que já foi suplantado por Cristo.
                      Assim sendo, a epístola nunca dá a essas “lideranças” o título de
                      “sacerdotes” (SOARES, 2008:126-127).

        No texto de Hebreus o único sacerdote é o Cristo, metaforicamente
como afirma o comentário acima e não existe nenhuma menção ao sacerdócio
comum no decorrer do escrito. Enquanto a Primeira Carta de Pedro e o Livro
do Apocalipse ressaltam um sacerdócio comum. Surgem, portanto, duas
posições distintas.

       Esse desencontro entre Hebreus, de um lado e a Primeira Carta de
Pedro e o Apocalipse, de outro, não é o único nos primórdios do cristianismo.
Os desacordos fazem parte da história do cristianismo nascente. Intuir que os
seguidores de Jesus, o Nazareno, viveram harmoniosamente bem no decorrer
da formação do cristianismo é uma ingenuidade, pois “no cristianismo primitivo,
não havia apenas dois partidos, mas, sim, uma porção de correntes, entre as
quais havia tensões e conflitos” (THEISSEN, 2009: 338). Alguns desses
conflitos, entre as correntes cristãs tiveram a sua amenização, na formação do
cânone cristão. Este foi organizado devido aos desencontros entre as
comunidades, embora estudos recentes constatem que a formação do cânone
não trouxe a unidade para a Igreja, mas ao menos o reconhecimento da
pluralidade do cristianismo, expressa na organização dos seus textos
(TREBOLLE BARRERA, 1999:54).

      Por outro lado, acontecendo ou não a unidade da Igreja, a organização
do cânone possibilitou aos cristãos familiarizar-se com as reflexões elaboradas
pelas diversas comunidades.

      Só a partir da organização canônica podemos imaginar um possível
encontro entre as comunidades de Hebreus, 1Pedro e Apocalipse, sendo que
                                                                                       13



as duas últimas possuem uma reflexão semelhante, enfocando ao chamado
sacerdócio comum:

                      Já a Primeira Carta de Pedro e o Apocalipse (...) aplicam o conceito
                      de sacerdócio e de sacerdote, respectivamente, ao conjunto de povo
                      de Deus (sacerdócio comum dos fiéis na Primeira Carta de Pedro) e a
                      cada cristão em particular (participação no sacerdócio de Cristo, no
                      Apocalipse). Segundo os três textos, então, toda a Igreja é
                      sacerdotal, em virtude da sua união com Cristo, único e eterno
                      sacerdote, e cada cristão, homem e mulher, é sacerdote ou
                      sacerdotisa, enquanto participa desse único sacerdócio de Cristo.
                      (SOARES, 2008: 127)

      Para o autor de Hebreus a participação nesse único sacerdócio de Cristo
era vivenciada na comunidade: “velemos uns pelos outros, para nos estimular
ao amor e às boas obras” (Hb 10,24). Ele não fala em um sacerdócio comum,
como a Primeira Carta de Pedro e o Livro de Apocalipse, mas entre eles o
ponto em comum é o amor e às boas obras.

      Levantamos esses pontos acima, somente para termos uma noção do
tamanho do problema que teremos pela frente. Jesus Cristo não poderia ser
sacerdote, pois não era da linhagem sacerdotal, no caso a dos levitas. Portanto
por que o autor da denominada Cartas aos Hebreus, sabendo que Jesus não
era levita o elenca como Sumo Sacerdote?

      Antes de respondermos a esse problema, é importante verificarmos a
denominada Carta aos Hebreus, dada a sua complexidade e importância, as
quais direcionam para o centro de sua atenção que o próprio autor elenca
como centro de sua reflexão e, por que não afirmar, de sua vida (Cf. Hb 8,1).
      No segundo capítulo, devido ao fato de o autor destacar a sensibilidade
do Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, verificaremos rapidamente a
experiência que o Jesus histórico teve no seu contexto, e dois dos títulos que
lhe foram conferidos a partir dos seus feitos.

      No terceiro capítulo destacaremos o motivo pelo qual em Hebreus Jesus
é chamado de Sumo Sacerdote, título que para os outros escritores do Novo
Testamento era incabível. Após a resposta refletiremos a respeito das
consequências que a comunidade teve ao seguir Jesus como Sumo Sacerdote.
E por fim uma atualização dessa mensagem, quando focaremos a pessoa de
                                                                           14



Frei Henri dez Roziers. Um testemunho de vida que se encaixa perfeitamente
na objetividade da exortação de Hebreus.

                              I)   O escrito aos Hebreus



      O texto nomeado de Carta aos Hebreus é um escrito com “perguntas
intrigantes” (Vasconcellos, 2003: 07). Chamamos de carta e trata-se de uma
exortação que não é de Paulo, embora possua um legado do próprio. Não
sabemos para quem foi escrito e muito menos a localidade geográfica precisa
desses enigmáticos destinatários, situados em algum local do Mediterrâneo no
final do primeiro século d.C., âmbito em que acontece o encontro entre o
cristianismo com o mundo grego, propriamente dito, o helenismo.

      Além desse encontro, há outro fator preponderante naquele momento, a
imposição política romana, conhecida como Pax Romana. Realidade a qual os
povos normalmente eram forçados a vivenciar, pois os romanos tinham o
hábito de impor um modo de ser, forçando os seus conquistados a ter um bom
comportamento.

      Após observação do contexto veremos a estrutura do texto, no caso a
sua organização. Nesse ponto destacaremos a genialidade do anônimo autor
de Hebreus. Ele lida com dois mundos bem distintos. O seu contexto, que é o
mundo mediterrâneo, e o contexto das diversas experiências do Antigo
Testamento. No decorrer da leitura será possível perceber porque ele realiza
essa peripécia intelectual.




                       7. Uma exortação que não é de Paulo




      O escrito aos Hebreus, carta que não é carta. Diversos comentadores
desse texto bíblico são unânimes em afirmar que esse escrito não é uma carta.
Alguns afirmam que é um sermão. Comentadores mais atualizados, sobretudo
                                                                                       15



católicos que dialogam com estudiosos de outras denominações cristãs,
apoiados no texto bíblico, ou seja, na redação do próprio autor, concluem que é
uma exortação. Surge, portanto um problema: O texto é um sermão, ou, uma
exortação? Faremos, no entanto uma breve diferenciação entre esses dois
termos.

      O sermão como finalidade doutrina, direciona, repreende e censura, no
caso temos a famosa chamada de atenção. Normalmente é enfadonho, pesado
e desagradável para quem escuta, pois sabemos que poucos são abertos para
escutar a respeito de seus defeitos. A maioria das pessoas gosta de ouvir
apenas suas qualidades, dado que isso é mais cômodo. Entretanto se um
discípulo deseja o aperfeiçoamento, passará pelo crivo do orientador; a
personagem mais clássica de discipulado é a de Pedro nos Evangelhos,
inúmeras vezes os evangelistas destacam-no sendo repreendido por Jesus. E
mais, o próprio termo “sermão” traz consigo um ar de autoridade, pois são as
observações da visão de alguém que exerce algum tipo de autoridade sobre
uma determinada pessoa, ou, grupo (Michaelis, 2002: 718).

      Por outro lado a exortação volta-se mais para finalidade de entusiasmar,
animar e encorajar. Busca demonstrar para uma pessoa, ou um grupo a sua
potencialidade, isto é, o que o sujeito, ou o grupo possui para sobressair a
qualquer obstáculo. Numa exortação pode haver também aspecto de um
sermão, no caso a chamada de atenção, embora a finalidade da exortação não
seja essa (Ibid, 2002:333).

      Mencionamos que há os que colocam o texto como um sermão e os que
afirmam ser uma exortação. Nada melhor do que destacarmos as duas
posições para um melhor esclarecimento.

      Portanto vejamos as argumentações:

                     Em geral, o titulo tradicional é completado com o termo “epístola”.
                     Fala de “epístola aos Hebreus” ou mesmo, para torná-la mais atual,
                     “carta aos hebreus”. Trata-se de outro equivoco. Na realidade o texto
                     “aos Hebreus” não é uma epístola, mas sim um sermão, no fim do
                     qual foi transcrito um bilhete de acompanhamento, redigido quando o
                     texto desse sermão foi enviado a alguma comunidade distante. Tal
                     bilhete é composto de poucas e breves frases. Ele ocupa apenas
                                                                                         16



                     quatro últimos versículos do texto atual (13, 22 – 25), aos quais deve-
                     se acrescentar uma breve frase (13,19), inserida imediatamente antes
                     da conclusão solene do sermão (13, 20 – 21). As feições simples e
                     familiares desses poucos versículos (13,19. 22 – 25) os distingue
                     claramente do conjunto do sermão, que foi elaborado... de acordo
                     com todas as regras da arte oratória.(VANHOYE, 1983: 10).

      O outro apontamento:

                     Mas o que é o texto de Hebreus? Como poderíamos classificá-lo? Ele
                     se apresenta em nossas Bíblias como uma epístola, uma carta. Mas
                     muito provavelmente estes termos não correspondem a nosso
                     escrito. Também não é um tratado doutrinário, nem um escrito que
                     quer entrar em conflito com outras religiões, mesmo o judaísmo. Nem
                     encontramos grupos cristãos sendo criticados, como ocorre em
                     outros textos do Novo Testamento. O que temos então? Em 13,22
                     vemos que o escrito se apresenta como uma “palavra de exortação”.
                     Esta expressão aparece também em At. 13,15, onde se faz um
                     convite a Paulo e Barnabé para que dirijam a palavra ao povo reunido
                     na sinagoga de Antioquia da Prisídia. Se tomarmos essa indicação,
                     teríamos em Hebreus uma meditação, talvez uma homilia, já que
                     parece ter sido escrita para ser lida diante da comunidade (2,5; 5,11;
                     6,9) e animá-la em seu caminho e testemunho. Isso faz sentido com o
                     conteúdo do escrito. Assim, não se trata de uma simples teoria ou
                     apresentação doutrinal, mas de um escrito que tem uma finalidade
                     muito prática: orientar a comunidade diante de alguns dilemas que ela
                     estava vivendo. Isso explica por que em Hebreus temos às vezes a
                     impressão de que autor está repetindo o assunto: ele trata de temas
                     semelhantes, aqueles que ele considera importantes para a
                     comunidade, usando imagens diferentes, passagens diversas da
                     Escritura. (VASCONCELLOS, 2003: 12).

      É notória a diferença do posicionamento dos comentários acima. Por
outro lado ambos afirmam que Hebreus não é uma carta. Quanto ao escrito ser
um sermão, ou, uma exortação optamos pela constatação de Pedro Lima
Vasconcellos, pois ele nos mostra que no conjunto do texto de Hebreus há
algumas chamadas de atenção e orientações, sobretudo entusiasmo para os
destinatários do texto, evidenciando que a finalidade do texto é exortativa. No
entanto um dos temas preferidos do autor de Hebreus é a esperança, virtude
que podemos considerar como motor propulsor do entusiasmo.

      Visto que não é uma carta e sim uma exortação, o escrito traz consigo
uma experiência religiosa, proveniente de um trabalho bem elaborado de
comunidades cristãs pré-existentes. O próprio autor destaca esse fato.
“Recordai vossos guias, que vos transmitiram a palavra de Deus” (Hb 13, 7).
                                                                                           17



        O autor de Hebreus indiretamente recebe o legado de Paulo, que se
trata de uma importante herança. Algumas lideranças religiosas nos primórdios
do cristianismo devido a essa influência chegam a afirmar que o texto foi
escrito por ele.

        Hebreus possui uma herança paulina, embora não haja uma
dependência direta frente ao principal propagador do cristianismo, para além
das fronteiras do universo judaico. O texto é para um grupo que se encontra
entre a oitava e nona década após o nascimento de Jesus, ou seja, a segunda
geração das comunidades que aderiram à sua proposta de vida, o cristianismo.

         No intuito de demonstrarmos que o escrito não é paulino, por isso não
depende de Paulo, recorremos a um pequeno apontamento elaborado por
Vanhoye, o qual mostra a diferença do estilo de Paulo e do autor de Hebreus.
A observação do estilo, maneira como se escreve, é um dos melhores métodos
para observação da autoria de qualquer escrito.


                       Paulo:                                        O Autor de Hebreus:

- estilo impetuoso e irregular                  - estilo tranquilo e sempre bem cuidado

- gosta das oposições bem marcadas              - gosta das transições suaves

- frequentemente coloca-se à frente             - apaga-se atrás de sua obra

- defende sua autoridade de apóstolo (Gl 1,1-   - não pretende ser apóstolo (Hb 2,3)
12; 2 Cor 11)
                                                - nunca emprega essas expressões
- diz com frequência “em Cristo”, “Cristo       elaborando fórmulas originais para preparar o
Jesus”, “Jesus Cristo nosso Senhor” ou          nome de “Jesus” (Hb 2,9; 3,1; 4,14; 6,20;
“nosso Senhor Jesus Cristo”                     7,22; 12,2. 24)

- ao citar o antigo Testamento, usa amiúde as   - nunca emprega essas expressões, usando
expressões “as Escrituras” e “está escrito”     comumente o simples verbo “dizer”

- nunca fala de “sacerdote”, “sumo sacerdote”   - fala constantemente de “sacerdote”, “sumo
ou “sacerdócio”                                 sacerdote” e “sacerdócio”

                                                (VANHOYE, 1983: 08)




        Com o apoio dessa elaboração (aplicada em Hb 1,1 – 13,21, sendo que
Hb 13,19.22-25 poderia ser de autoria paulina) constatamos que o texto de
                                                                                        18



Hebreus não é de autoria paulina. Mas é importante destacarmos a influência
paulina.

                    O conteúdo de Hebreus tem relação também com a continuidade da
                    tradição das igrejas de Paulo, fato que não implica que seu autor
                    conhecesse o corpus paulino. Mas ele se refere seguidamente a
                    conceitos religiosos básicos originários das igrejas que haviam sido
                    fundadas pela missão de Paulo e seus colaboradores. É natural que a
                    vida cristã se baseie na fé; citação fundamental sobre a justificação
                    pela fé de Hab 2,4 (Rm 1,17) também aparece em Hebreus (10,38). A
                    compreensão da conversão como perdão dos pecados, proeminente
                    em outros escritos deuteropaulinos (Ef 2,1 SS; Cl 1,21SS; cf. a
                    fórmula citada por Paulo em Rm 3,25), é tão comum em Hebreus
                    quanto o destaque da morte expiatória de Cristo, especialmente em
                    relação ao conceito da nova aliança (Hb 1,3; 8 – 10; para Paulo, ver 1
                    Cor 11, 24 – 25). Entre os fundamentos da fé está também a
                    expectativa da ressurreição dos mortos e do julgamento final (Hb 6, 1
                    – 2). Tudo isso aponta para uma familiaridade com conceitos
                    religiosos fundamentais das igrejas paulinas – freqüentemente em
                    materiais citados por Paulo – mas não revela um conhecimento
                    específico da teologia de Paulo como ela é desenvolvida em suas
                    cartas. (KOESTER, 2005: 292).

      O escrito indiretamente tem a participação de Paulo, como não é dele,
quem será o autor de Hebreus? Ninguém sabe o seu nome. Há inúmeras
possibilidades de nomes para autoria de tal exortação. No decorrer da
caminhada do cristianismo, na história, uma ou outra autoridade cristã dos
primórdios e alguns modernos sugeriram vários autores:

                     Naturalmente, o primeiro candidato é Paulo, recomendado pela
                     tradição alexandrina. Esse problema da autenticidade paulina de Hb
                     relaciona-se ao da acolhida no cânon, de que falará mais adiante.
                     Os outros candidatos são: Lucas, já indicado por Clemente de
                     Alexandria como tradutor para o grego do escrito de Paulo,
                     originalmente em hebraico (EUSÉBIO, Hist., III, 38, 2-3; IV, 14,2; cf.
                     o códice da biblioteca do museu de Budapeste, século IX, porém
                     sobre a base de um texto latino dos séculos IV – V, com breves
                     anotações que representa o primeiro comentário a Hb. redigido por
                     um discípulo de Cromásio de Aquiléia - H.J. FREDE, Ein neuer
                     paulustext und kommentar, Friburgo, 1973); Clemente Romano, ao
                     qual se atribuem duas cartas aos coríntios; segundo Eusébio de
                     Cesaréia, na primeira carta aos Coríntios de clemente haveria
                     citações de Hb; indicado por alguns, diz o mesmo Eusébio, como
                     tradutor da carta escrita por Paulo em hebraico (Eusébio, hist., III,
                     38, 2 – 3; cf. Erasmo de Roterdã. Barnabé, de que se fala em At
                     4,36, como “filho da exortação”, é proposto por Tertuliano (De pud.,
                     XX, PL 2,1021; cf. Jerônimo); sob o mesmo nome é registrada uma
                     carta do período subapostólico, Pseudo – Barnabé; Estevão de
                     quem se fala em At 6,1 – 7,50 como líder do grupo judeu – cristão
                     helenista que iniciou a missão na Samaria (Moule); Filipe, cf. At 8, 5
                     – 40; 21, 8 – 9 (Ramsay); Judas, a cujo nome se atribui uma carta
                     apostólica (Durbale); Silas ou Silvano, colaborador de Paulo (At 15,
                     22. 40; 1 Ts 1,1), redator ou secretário da primeira carta de Pedro
                                                                                        19



                      (5,12) (Renner); Priscila a mulher de Áquila, proveniente da Itália –
                      Roma, colaboradora de Paulo em Corinto e Éfeso (At 18, 1 – 4. 18 –
                      26; cf. 1Cor 16,19; Rm 16,3; cf. R. HOPPIN, Priscila, Author of the
                      Epistle to the Hebrews, Nova Iorque, 1969); Aristião, um cristão do
                      século I, a quem também é atribuído também o final do evangelho
                      de Marcos (FABRIS, 1992: 353).

      Rinaldo Fabris coleta vários dados que até o momento foram verificados
a respeito da autoria de Hebreus, mas fica de certa forma muito amplo e solto.
Vejamos também o parecer a respeito da autoria de Hebreus, da exegeta
Elizabeth Fiorenza que é mais objetivo e esclarecedor.

                     Os estudiosos, tanto católicos como protestantes, concordam hoje
                     que a carta, apesar de suas ressonâncias formais e teológicas nas
                     cartas paulinas, não pode ter sido escrita por Paulo. Além, disso não
                     se conseguiu até hoje entrever o autor em nenhuma pessoa
                     conhecida da Igreja primitiva. Todos os nomes até agora
                     apresentados pelos estudiosos como o de Clemente romano, Lucas,
                     Silas, Apolo, Barnabé. Judas ou Priscila são tão hipotéticos, que
                     parece ainda valida a sentença de Orígenes sobre a questão da
                     autoria: só Deus sabe quem escreveu a carta (Eusébio, HE 25, 11ss).
                     Apesar de ser impossível determinar o autor, uma coisa seria certa,
                     isto é que ele seria um cristão helenista culto, com “dotes pastorais”
                     como mostram a língua, o estilo e a argumentação teológica
                     (FIORENZA,2004:328).

      Com o apoio de Alberto Vanhoye, de Elizabeth Fiorenza, de Helmut
Koester, de Pedro Lima Vasconcellos e de Rinaldo Fabris, concluímos que a
chamada Carta aos Hebreus, não é uma carta. É uma exortação que tem o
propósito de animar uma determinada comunidade. Não é de autoria paulina,
embora tenha alguma influência de Paulo. E que o autor de tal exortação, como
Fiorenza afirma, com apoio de Orígenes, “só Deus sabe”.

      Vamos agora verificar quem são os destinatários de determinada
exortação e o seu contexto.




                         8. Destinatários e o seu contexto




      Os destinatários do texto de Hebreus podem ser residentes de
Alexandria no Egito, dado que há uma influência de um ilustre residente dessa
                                                                                           20



cidade, em partes do escrito, pois é aplicado “uma terminologia filosófica
relacionada com Fílon (Hb 1,3)” (KOESTER, 2005: 293).

      Fílon era um judeu da diáspora (grupo de judeus que viviam fora da
Palestina), contemporâneo de Jesus de Nazaré, mas não teve nenhum contato,
ou conhecimento dos feitos do Nazareno. Fílon foi um grande conhecedor do
Pentateuco e do pensamento helênico. “Não é fácil decidir se Fílon é um
filósofo que se serve da Escritura, ou um exegeta da Bíblia que lança mão da
filosofia. (TREBOLLE BARRERA, 1999:556)”:

                     Fílon era um platônico formado na técnica “dierética”, que lhe permitia
                     classificar e ordenar a realidade em estruturas piramidais, desde o
                     mais universal até o mais particular e específico (I. Christiansen).
                     Move-se dentro dos marcos da filosofia dualista, com preferência
                     pelos conceitos do platonismo médio. Insiste na transcendência
                     divina e na dependência do homem com relação a Deus, pelo que
                     seguramente preferia o platonismo ao estoicismo que mostrava-se
                     mais propenso ao imanentismo (TREBOLLE BARRERA, 1999:557).

      Alexandria como um possível endereço para os destinatários da
exortação aos Hebreus é somente uma hipótese.                    É certo que há uma
influência filosófica de Fílon, entretanto essa não confirma que a comunidade
residia em determinada cidade em que pelo menos os letrados conheciam as
suas reflexões filosóficas. Enfim não se tem certeza sobre a localidade onde
residiam os destinatários.

       Essas informações são para afirmar que o endereço em o qual Hebreus
foi dirigido é desconhecido. E mais, independente de serem chamados de
Hebreus, não quer dizer que este grupo é exclusivamente feito de cristãos
provenientes do judaísmo, judeus que reconheceram Jesus de Nazaré como o
Messias.

                     Que se trate de cristãos provenientes do judaísmo ou, de alguma
                     forma, familiarizados com a cultura bíblica e as instituições judaicas, é
                     algo que poderia ser confirmado pelo recurso constante aos textos
                     bíblicos e pela referência a imagens e realidades religiosas da
                     tradição hebraica. Mas esse fato não exclui que os destinatários
                     possam ser também pagãos convertidos, se tem presente que Paulo
                     e os outros cristãos, como o autor de Ap, se dirigem a comunidades
                     formadas predominantemente por ex – pagãos, com esquemas e
                     modelos linguístico – culturais inspirados na tradição bíblica e judaica
                     (FABRIS, 1992: 351 – 352).
                                                                                             21



      Esse texto chamado de Carta aos Hebreus é um dos escritos do Novo
Testamento que traz uma complexidade significante, pois incita muito a nossa
curiosidade. E mais, trata-se de um texto escrito numa época em que o
pensamento grego influenciava muito a região do mediterrâneo, ou seja, leva-
nos a conhecer até a cultura predominante, no primeiro século dC, onde esses
receptores da exortação viviam.

      Hebreus é um escrito que está no começo do encontro entre cristianismo
e o mundo helênico, no qual sobressaía o platonismo. Este termo está ligado à
pessoa de Platão, discípulo de Sócrates que fundou uma das principais escolas
filosóficas do mundo grego. Um dos fatores que mais chamam atenção no
platonismo é a dualidade entre o mundo das idéias e o mundo sensível. O
primeiro é o real, enquanto o segundo é visto como simulacro do primeiro. O
ser humano que busca a realidade do mundo das idéias, busca a verdade, na
concepção platônica.

                       Platão distingue quatro formas ou graus de conhecimento, que vão do
                       inferior ao superior: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual.
                       Para ele os dois primeiros graus devem ser afastados da Filosofia –
                       são conhecimentos ilusórios ou das aparências, como os dos
                       prisioneiros da caverna – e somente os dois últimos devem ser
                       considerados válidos. O raciocínio treina e exercita nosso
                       pensamento, preparando-o para uma purificação intelectual que lhe
                       permitirá alcançar uma intuição das idéias ou das essências que
                       forma a realidade ou que constituem o Ser. Para Platão, o primeiro
                       exemplo do conhecimento puramente intelectual e perfeito encontra-
                       se na matemática, cujas idéias nada devem aos órgãos dos sentidos
                       e não se reduzem a meras opiniões subjetivas. O conhecimento
                       matemático seria a melhor preparação do pensamento para chegar à
                       intuição intelectual das idéias verdadeiras, que constituem a
                       verdadeira realidade. Platão diferencia e separa radicalmente duas
                       formas de conhecimento: o conhecimento sensível (crença e opinião)
                       e o conhecimento intelectual (raciocínio e intuição) afirmando que
                       somente o segundo alcança o Ser e a verdade. O conhecimento
                       sensível alcança a mera aparência das coisas, o conhecimento
                       intelectual alcança a essência das coisas, as idéias. (CHAUÍ,
                       2000:112).

      O platonismo valoriza o raciocínio e a intuição intelectual, descarta a
opinião e a crença que estão ligadas à sensibilidade humana, que para Platão
era meramente aparências. A contingência humana é parte da natureza, ou,
um simulacro da verdade. A verdade só é possível de ser alcançada no mundo
                                                                                     22



das idéias que transcende a própria natureza. Esse pensamento contagiou as
civilizações.

                     A influência do platonismo é provavelmente, a mais poderosa que
                     exerceu sobre a concepção clássica do homem, e até hoje a imagem
                     do homem em nossa civilização mostra indeléveis traços platônicos.
                     A antropologia platônica pode ser considerada uma síntese na qual
                     se fundem a tradição pré-socrática da relação do homem com o
                     kósmo, a tradição sofistica do homem com o ser de cultura (paidéia)
                     destinado a vida política, e a herança dominante de Sócrates do
                     “homem interior” e da “alma” (psyché). (VAZ, 1991:35-36)

       Pensamos que essas constatações que descrevemos a respeito do
platonismo e sobre Fílon contribuem para justificação da riqueza e
complexidade do texto de Hebreus. Embora essas constatações sejam apenas
um dos aspectos preponderantes da realidade do Mediterrâneo, ou seja, ao
destacar Platão e Fílon mostramos a influência da cultura grega no escrito aos
Hebreus. A chamada Carta aos Hebreus possui também mais dois aspectos
que a tornam mais rica, a influência política romana e os textos sagrados do
judaísmo que aparecem interpretados através de midrash.

       Enfatizamos o pensamento que sobressaia naquele momento, local na
história em que aconteceu o encontro do cristianismo com o mundo helênico.
Vejamos o que estava acontecendo na dimensão sócio-político-religiosa.

                     O mundo mediterrâneo fora unificado politicamente pelo poder
                     imperial romano e tornara-se um enorme cadinho de raças,
                     civilizações e crenças sobre a qual pairava a pax romana. A
                     necessidade religiosa mostrava-se a mais poderosa força espiritual
                     dos primeiros séculos da era cristã. As grandes escolas filosóficas
                     haviam cumprido uma trajetória histórica diversa. O platonismo,
                     depois da brilhante geração da Primeira Academia conhecera a fase
                     cética da Nova Academia (século I a.C) e renascera vigorosamente
                     no século II d.C., no chamado platonismo médio, que precede e
                     prepara o neoplatonismo (VAZ, 1991: 47 e 48).

       O mundo mediterrâneo era uma junção de várias culturas. Eram povos
que viviam na encosta do Mar Mediterrâneo, compreendido entre a Europa
meridional, a Ásia ocidental e África ocidental. Esse “enorme cadinho” que
Lima Vaz cita, são os egípcios, os cartagineses, os macedônios, os berberes,
genoveses, venezianos, os gálios, os fenícios, os cananeus, os hititas, os
judeus, os gregos, os malteses e mais uma infindável lista de povos.
                                                                                        23



       Naquele contexto, tratava-se de uma localidade privilegiada de contatos
culturais e comerciais, por outro lado os conflitos políticos marcavam também a
sua presença, sobretudo na rivalidade entre os grupos, pois não tenhamos
dúvida que cada um buscava defender o seu território e se possível ampliá-lo.
A amenização dos conflitos, ou estimulo para tolerância entre esses povos era
a denominada Pax Romana.

       Para entendermos o que venha a ser essa Pax, basta observarmos um
monólogo de um dos imperadores romanos escrito por Sêneca.

                     De todos os mortais fui eu o único que encontrei graça e fui escolhido
                     para exercer na terra a função de deuses? Sou senhor de vida e
                     morte para os povos? Está posto na minha mão a quem vai ser
                     atribuído de tal destino e tal estado? O destino anuncia através da
                     minha boca o que quer dar e a quem? A minha decisão é motivo de
                     alegria para os povos e cidades? Sem a minha vontade benevolente
                     nada pode prosperar? As milhares de espadas que a minha paz
                     retém podem ser brandidas a um aceno meu? Que povos são
                     completamente exterminados, a quais são concedidos direitos de
                     liberdade, a quais são retirados, que reis se tornaram escravos, com
                     que séquito a dignidade real se pode cercar, que cidades devem
                     decair, quais devem surgir – tudo isto decide a minha sentença?
                     (SÊNECA apud WENGST, 1991: 71)

       Sêneca foi um dos grandes pensadores do império romano, chegando a
ser conselheiro de Nero; o monólogo acima é escrito para este imperador.
Através do diálogo consigo mesmo, o imperador demonstra a sua vanglória.
Quem elabora o texto em momento algum deixa de dar crédito a determinado
poder, pois “Sêneca é da opinião: Tu, César, podes afirmar ousadamente, que
tudo aquilo que se subordina à tua fidelidade e à tua proteção está em
segurança (Ibid, 1991:71)”.

                     Numa situação em que o imperador ocupava posição tão saliente,
                     dificilmente se podia evitar que sua pessoa fosse sublinhada em
                     sentido especialmente religioso e, depois, cultualmente venerada. O
                     culto do imperador mostra-se, deste modo, qual elemento inseparável
                     da Pax Romana (Ibid, 1991:72).

       A alternativa que determinados povos possuíam, devido à inferioridade
diante da Pax Romana que trazia consigo um aspecto religioso, dado a
veneração divina ao imperador, era apenas uma – submissão, pelo menos na
aparência, pois o poder bélico romano era algo monstruoso. E mais, era um
modo    de   governar,    subentendido        como     harmônico       com      aspectos
                                                                                          24



preponderantes de injustiça, pois poucos vassalos eram favorecidos, enquanto
a maioria da população padecia, sem o direito de reivindicar melhorias para
suas tribos e regiões.

      Os aspectos de suposta harmonia são detalhados, em um estudo sobre
o Apocalipse de João realizado por Wengst, na sua obra, Pax Romana:
pretensão e realidade:

                      A situação experimentada como uma situação de tribulação e a
                      expectativa de tribulação ainda muito maior oferecem a João a
                      perspectiva pela qual ele contempla e valoriza o Império Romano e
                      que o faz perceber perspicazmente alguns aspectos da Pax Romana.
                      Realça o poder universal de Roma. Ela é “a Grande cidade que reina
                      sobre os reis da terra” (17,18). Tem “autoridade sobre toda tribo,
                      povo, língua e nação” (13,7). Assim não é de admirar que todos os
                      habitantes da terra lhe prestem homenagem como ao poder vitorioso
                      e que dobra tudo, e perguntem cheios de admiração: “Quem é
                      comparável à Besta, e quem pode lutar contra ela? (13,4).
                      Evidentemente ninguém, o poder da violência impressiona e encontra
                      automaticamente seus adeptos, participantes e propagandistas.
                      Assim os reis da terra entraram em relação com Roma, fazem os
                      seus negócios e vivem em abundância. Sobretudo, porém, a própria
                      Roma vive magnificamente em abundância. Com o grande luxo da
                      cidade enriqueceram os comerciantes da terra e os armadores. O que
                      é que eles não trouxeram para Roma: carregamentos de ouro e de
                      prata, pedras preciosas e pérolas, linho e púrpura, seda e escarlate:
                      todo tipo de madeira perfumada, de objetos de marfim, de madeira
                      preciosa, de cobre, de ferro, de mármore; canela e amomo, perfumes,
                      mirra e incenso; vinho e óleo, flor de farinha e trigo, bois e ovelhas,
                      cavalos e carros, escravos e vidas humanas. Enquanto, portanto,
                      Roma e seus vassalos vivem em abundância, como também aqueles
                      que fazem negócios e lucros com ela, na província há carestia e
                      fome: “um litro de trigo por um denário e três litros de cevada por um
                      denário” (6,6). Se os preços dos alimentos básicos sobem desta
                      maneira, isso significa fome para grande parte da população.
                      (WENGST, 1991: 180 - 181).

      O Livro do Apocalipse foi escrito aproximadamente no mesmo período
que o escrito aos Hebreus. Leva-nos a pensar que a situação política das
comunidades     que      receberam    o    Apocalipse      seja    semelhante       aquela
experimentada pelos destinatários de Hebreus.

       Lima Vaz, ao falar do que era o mundo mediterrâneo, afirma que “a
necessidade religiosa mostrava-se a mais poderosa força espiritual dos
primeiros séculos da era cristã” (VAZ, 1991:47). Pensamos que diante de uma
situação como apresentamos acima, um sistema político opressor e injusto que
concede privilégios apenas alguns grupos e inibe qualquer manifestação de
                                                                                          25



indignação da parte dos desfavorecidos, haja alguma alternativa e essa é a
religiosidade.

       O platonismo naquela conjuntura está se refazendo depois de tantas
críticas por parte de outras escolas filosóficas e acaba se popularizando como
apoio para as religiosidades vigentes, pois a dicotomia entre o Ideal e o
Sensível casa-se muito bem com a separação entre o Sagrado e o Profano.
Nesse momento poderíamos fazer referência a Fílon que já citamos acima,
mas esse não é o nosso objetivo. Mas para quem deseja explorar a influência
desse judeu de Alexandria sobre o autor de Hebreus, o momento ideal é esse.

       As forças espirituais, no mínimo possibilitavam que as pessoas tivessem
esperança de saírem de uma situação de injustiça. A fome era um dos grandes
problemas daquele momento, fome essa proveniente do sistema econômico
que não dava trégua nem possibilidade de sonhar com outra realidade, numa
dimensão imanente. O que era determinado pela Pax Romana devia ser
cumprido. O deus Cesar pouco se importava com os que padeciam. No entanto
surgem na região do Mediterrâneo movimentos religiosos que de certa forma
traziam um conforto para as pessoas, mas por outro lado as acomodavam e as
deixavam alheias às suas realidades. Plutarco (50 – 120 dC) chega a
descrever como era um desses cultos. A principal conseqüência nesses cultos
era o individualismo e uma fuga do seu próprio cotidiano, deixando o sujeito
totalmente alienado.

                       A alma, no momento da morte, tem a mesma impressão que os
                       iniciados nos grandes mistérios (...). Primeiro são corridas ao acaso,
                       desvios penosos, caminhadas inquietantes e sem fim através das
                       trevas. Depois antes do fim, o terror chega ao auge; os arrepios, o
                       tremor, o suor frio, o pavor. Mas, em seguida, uma luz maravilhosa se
                       oferece aos olhos, e ela passa por lugares puros e por pradarias onde
                       ressoam vozes e danças; palavras e aparições divinas inspiram
                       respeito religioso. Desde então o homem perfeito, tornado livre e
                       caminhando sem constrangimento, com a coroa na cabeça, celebra
                       os mistérios. Ele vive com os homens puros e santos e vê, na terra, a
                       multidão daqueles que não são iniciados e purificados se afundarem
                       e se esmagarem na lama e nas trevas e, pelo temor da morte, se
                       retardarem nos males, por desconfiança da felicidade do além.(J.
                       COMBY & J.P. LEMONON, op. cit.p.27. apud DOBBERAHN,1992:
                       16).
                                                                                     26



      Pelo que descreve Plutarco, o iniciante era colocado num local escuro e
esse ficava perambulando aceleradamente sem sentido, e logo em seguida
começa a desacelerar e passa a caminhar em meio às trevas. Essa
experiência de terror e tremor o deixa em estado de êxtase, sendo esse o
ponto máximo. Ao ser alcançado o auge, o encaminha para um local luminoso,
onde lhe são apresentadas belas paisagens com sonoridades e danças que se
tornam sagradas para o novo adepto. Esse ritual é uma alusão à saída do
homem do mundo da caverna (mundo sensível) que sai da obscuridade e
encontra a verdade no mundo das idéias. Após esse ritual torna-se um bem
aventurado junto aos outros que já se encontravam nessa realidade. Os que
recusam determinado culto devem padecer nas atrocidades da vida.

                      É bem significativo que, segundo Plutarco, a participação nestes
                    mistérios acabou sendo para o indivíduo algo como a antecipação da
                    passagem da morte para o além, o que resultava em uma alienação
                    da pessoa de sua realidade. No entanto, tais cerimônias eram
                    literalmente “irrelevantes” para a realidade histórico-social, pois
                    transpunham a salvação para uma “terra-de-ninguém”, em que o
                    ponto de referência estava no transcendente, quer dizer, em uma
                    esfera desonerada de preocupações histórico-sociais. Por alguns
                    momentos, isto sim, o aparecimento das divindades afastava a
                    pessoa de sua dura realidade; não a deixava entregue a uma
                    realidade sem sentido e inumana; procurava-se, pelo menos, salvar o
                    indivíduo por si, ou seja sua alma, submetendo, porém, o corpo à
                    exploração.(DOBBERAHN, 1992: 16 e 17).

      Os cristãos imersos na região do Mediterrâneo estavam começando a
participar de alguns desses rituais. O próprio autor de Hebreus chama a
atenção da comunidade a respeito desses cultos estranhos: “Não vos deixeis
levar por doutrinas diferentes e estranhas” (Hb 13,9). O que se destaca nessas
expressões religiosas é o individualismo, algo que não recebe acento maior na
dinâmica da vida cristã. Ninguém vivencia o cristianismo isolado de uma
comunidade.

                    Em um mundo em que a maioria se situava no contexto de
                    escravidão, miséria e fome, também muitos cristãos se entregavam a
                    esta forma de “escapismo” para encontrarem ali seu deus pessoal
                    que lhes segurasse felicidade e salvação. Pelas entrelinhas da Carta
                    aos hebreus ouvimos de perseguições (cf. Hb 10, 32s) o que
                    provavelmente se refere à perseguição da comunidade cristã sob
                    Domiciano (81 – 96 dC). Como a “parusia”, a vinda de Jesus, se
                    atrasava, as comunidades desanimavam (cf. 10, 23,s. 35s; 12,12s
                    etc.), e, aderindo a tal forma de culto, não respeitavam mais, como
                                                                                        27



                     deviam ter feito, as bases da própria fé ( cf. Hb. 5,11-6,12), nem
                     exigências do amor solidário (cf. Hb. 13,1).(Ibid, p. 17).

       Hebreus, portanto é dirigido como exortação a uma comunidade
situada, num contexto de perseguição, fome e cultos religiosos que deixavam
as pessoas alheias a sua realidade. E por mais que o autor não faça a relação
com Roma, a nossa intuição nos leva a pensar na influência desse império,
independente do seu local de origem e de quem são seus membros. Essa
comunidade não está sem dificuldades internas e externas. Dado o seu
contexto recebe uma exortação significativa, que tem o objetivo de encorajar,
convidar, conclamar, implorar e também o de confortar, consolar e apelar. Eis
um pequeno trecho da exortação:

                    Visto que temos um sumo sacerdote excelente, que penetrou no céu,
                    Jesus, o Filho de Deus, mantenhamos nossa confissão. O sumo
                    sacerdote que temos não é insensível à nossa fraqueza, já que foi
                    provado como nós em tudo, exceto no pecado. Portanto,
                    compareçamos com confiança diante do tribunal da graça, para obter
                    misericórdia e alcançar a graça de um auxílio oportuno. Durante sua
                    vida mortal dirigiu pedidos e súplicas, com clamores e lágrimas, àquele
                    que podia livrá-lo da morte, e por essa precaução foi ouvido. Embora
                    sendo filho, aprendeu sofrendo o que é obedecer, e já consumado
                    chegou a ser causa de salvação eterna para todos que lhe obedecem
                    (Hb 4,14-16; 5,7-9; BÍBLIA DO PEREGRINO, 2002: 2876-2878).

      Palavras de conforto e encorajamento que destacam a figura de um
novo Sumo Sacerdote, que conhece muito bem a realidade humana, pois fez
questão de sofrer o que o outro sofre, ele é sensível, isto é, não lida somente
com a dimensão do sagrado, conhece muito bem a dimensão profana,
propriamente dito o cotidiano do ser humano. Entretanto não cometeu as falhas
grosseiras que costumamos cometer, o orgulho, a inveja, etc. Ele não pecou
como nós. Para todos que o conhecem e vivencia a sua proposta, Ele garante
a salvação. Enfim um sumo sacerdote que faz questão de estar junto do povo.
Não se trata de um ser distante e sim muito próximo, e ele é o próprio Filho de
Deus que se fez criatura para estar junto da sua criação (Fl 2,6-8).

      Um pequeno trecho repleto de entusiasmo não é por acaso. Entretanto a
comunidade em situação de harmonia, não necessitaria de uma exortação.

      O desconhecido autor dessas palavras de entusiasmo está percebendo
alguns pontos preponderantes que estão lhe incomodando. Pontos como as
                                                                                     28



experiências, de cansaço e desanimo das pessoas. Ainda mais, perda de seus
bens materiais, martírio e desistência por parte do grupo. No fundo o autor está
percebendo grande sofrimento no grupo, e ele tenta animá-los.

                     Não faltemos às reuniões, como fazem alguns; pelo contrário,
                     tomemos tanto ânimo quanto mais próximo vedes o dia. Recordai os
                     primeiros dias , quando, recém iluminados, suportastes o duro
                     combate dos sofrimentos, uns expostos publicamente a injúrias e
                     maus tratos; outros solidários dos que assim eram tratados.
                     Partilhastes as penas dos encarcerados, aceitastes alegremente que
                     vos privassem de vossos bens, sabendo que tínheis bens maiores e
                     permanentes. Portanto não renuncieis à vossa confiança, que conta
                     com uma grande confiança, que conta com uma grande recompensa.
                     Precisais de paciência para cumprir a vontade de Deus e alcançar o
                     prometido. Ainda um pouco, muito pouco, e aquele que há de vir virá
                     sem tardar. Meu justo viverá por crer; mas, se voltar atrás, não me
                     agradará. Nós não pereceremos por voltar atrás, mas salvaremos a
                     vida pela fé (Hb 10, 25. 32-39; Ibid: 2884-2885).

      E mais, algumas das lideranças da comunidade, responsáveis pela
organização e direcionamento não estavam sendo coerentes. Quem escreve
esperava que houvesse mestres na comunidade, ou seja, pessoas maduras,
convictas, esperançosas e corajosas para vivenciarem qualquer situação que o
contexto de suas vidas lhes propusesse. Mas ele sabe que se trata de um
grupo infantil, que ainda não desenvolveu a capacidade lidar com seus
sentimentos.

                     Pois, quando devíeis com tempo ser mestres, é necessário que vos
                     ensinem rudimentos da mensagem de Deus; estais precisando de
                     leite, e não de alimento sólido. Quem vive de leite é criança e não
                     entende de retidão. O alimento sólido é para maduros, que com
                     prática e o treinamento dos sentidos sabem distinguir o bem do mal.
                     (Hb 5, 12-14; Ibid: 2878).

       Vimos a influência cultural e política que os destinatários de Hebreus
viveram. A cultura helênica dominava o pensamento através do platonismo que
era parte constitutiva das religiosidades populares. Fora essa matriz, para
piorar a situação, havia também a imposição política dos romanos, denominada
de Pax Romana. Podemos afirmar que as dificuldades internas de Hebreus,
acima descritos, tiveram influência desse contexto, por mais que o autor não
afirme explicitamente.
                                                                                       29



        Vejamos agora a organização do texto, que é uma obra genial, de um
autor que conhecia muito bem o mundo mediterrâneo e também a história do
povo de Israel, um povo peregrino que caminha em busca da terra prometida.




          9. A organização do texto e a objetividade de suas molduras.




      Além da complexidade do mundo mediterrâneo, pois determinada
realidade como pano de fundo, ou seja, os seus referenciais é o mundo grego,
no qual o autor e a comunidade estavam presentes, o texto de Hebreus traz
outro fator complexo consigo: o universo semita. O autor elenca uma série de
personagens bíblicas, entre elas estão Abel, Henoc, Noé, Abraão, Isaac, Jacó,
José, Moisés, Josué e Raab, outros e até os Macabeus. São destacadas
rapidamente suas experiências de caminhada na história, repleta de obstáculos
em seus contextos. O próprio autor faz questão de elucidar que o povo de
Deus caminhava.

       A leitura do texto nos leva a entender que a caminhada é a própria vida,
vivenciada numa comunidade que busca algo que está para além de seu
cotidiano, ou seja, sua existência. Sobretudo esses nomes no texto são
referencias de fé, virtude teologal que é intrínseca às outras duas, a esperança
e o amor. Praticamente o autor quer elucidar nessa caminhada a relação do ser
humano com Deus, no decorrer da história. Para alcançar esse fim o autor
mostra um pouco de sua genialidade.

                      O autor da epístola aos Hebreus revela espírito de síntese fabuloso.
                     Sua visão teológica contempla a totalidade da História que ele
                     descreve sob forma de um “afresco histórico”, cujas três variantes
                     distinguem e ordenam as temporalidades, segundo “um código
                     temporal” fortemente polarizado cada uma destas temporalidades –
                     qualificadas por uma relação especial do homem a Deus, na História
                     – é confrontada com Cristo, cuja fisionomia e ação revelam-se
                     progressivamente. (DUSSAUT, 1988:325).

      Nessa capacidade fantástica de síntese, ele mostra a sua genialidade,
pois faz uma caminhada de ida à outra realidade através de um estudo
apurado da história do Povo de Deus relatada no Antigo Testamento, com seus
                                                                                    30



diversos contextos históricos. E após esse exercício ele retorna para o seu
contexto que é o mundo mediterrâneo marcado, politicamente pelos romanos e
culturalmente pelos gregos. No regresso percebe que é necessário atualizar a
mensagem. Mas nessa atualização surge outro desafio. Apresentar a Boa
Nova que no caso é a própria encarnação de Deus que se fez homem no Filho,
o qual é o caminho, o ápice e centro de sua atenção. O motivo pelo qual os
peregrinos do Antigo Testamento caminharam. Para deixar clara essa
mensagem, na caminhada de retorno, esse peregrino e autor, demonstra outra
grande qualidade, a de ser conhecedor da técnica do Midrash.

                     O Midrash, por sua vez, pode romper os limites apenas citados e
                     deter-se mais longamente no seu verdadeiro propósito: comentar o
                     texto da Escritura bem como atualizá-lo constantemente e aplicá-lo
                     ao maior número de situações possíveis a fim de que o texto sempre
                     tenha uma resposta a dar a qualquer situação, real ou possível...
                     Midrash, portanto, é a exegese ou “hermenêutica do judaísmo
                     antigo”. Exegese porque busca a plenitude de sentido da Escritura;
                     hermenêutica,     porque   utiliza técnicas     e   procedimentos
                     determinados... (SILVA, 2000:334).

       O autor, conhecedor dessa técnica rabínica e de seu contexto
influenciado pelo retorno do pensamento platônico em conjunto com uma
religiosidade alienante, elabora uma mensagem de esperança para um grupo
que está entre a década de oitenta e noventa d.C.. A maneira como escreve
também é fantástica, pois além do midrash, na organização faz uso de
molduras para deixar o texto bem claro e objetivo. Mostrando uma grande
eficácia na elaboração do escrito, não tenhamos dúvida de que ele quer deixar
as suas intuições bem claras.

      Mas o que são as molduras? Quando é expressa a palavra moldura,
instantaneamente recordamos de um objeto de metal ou madeira envolvendo
uma estampa com a finalidade de sustentação, propriamente dito a moldura de
um quadro. Em Hebreus observaremos molduras literárias que são palavras
expressas ou temas que, expostos uma e outra vez delimita uma parte de
determinado texto, parte essa que, portanto, acaba por se constituir numa
unidade interna ao texto. No texto de Hebreus à primeira vista temos três
partes fundamentais, cada uma delas emoldurada pela apresentação de um
tema em seu início e fim.
                                                                                     31



      A primeira parte constitui-se de Hb 1,1 - 4,13, nela está presente o Povo
de Deus, nas pessoas de Moisés, Josué e Davi. Destaca também o Filho e a
inferioridade dos anjos perante a sua grandiosidade (1,2). Ela tem a sua
moldura.

                     Num primeiro momento temos o convite a ouvir a palavra de Deus,
                    que se revelou nesses últimos tempos por meio de seu Filho. Note-se
                    que no começo temos a apresentação da palavra de Deus e das
                    pessoas pelas quais Deus fala. No fim temos coisas semelhantes: um
                    reconhecimento da força da palavra de Deus e da necessidade de
                    escutá-la (4,12 – 13). É a “moldura”, o tema que abre e fecha está
                    parte de Hebreus. Ela sustenta as outras duas que virão: a escuta da
                    palavra é o início de tudo (VASCONCELLOS, 2003:15 e 16).

      Na segunda parte Hb 4,14 - 10,31, não perdendo o nexo com o quadro
apresentado anteriormente, o autor direciona os ouvintes da palavra para
observarem detalhadamente o Filho que é o novo Sumo Sacerdote, ponto
central de toda exposição e moldura desse quadro.

                     A palavra ouvida convidou a olhar para a frente e para o alto. De
                    maneira especial ela ajudará a comunidade a descobrir o sentido da
                    obra de Jesus, o sumo sacerdote. Ela é exortada a se aproximar de
                    Deus com a certeza de que o sumo sacerdote Jesus lhe abriu essa
                    possibilidade. Veja a moldura desta parte: a menção do sofrimento do
                    filho de Deus em 4,14 – 15 e em 10, 29. Ele é o “sumo sacerdote dos
                    bens futuros” (9,11): eis outra moldura em 4,14 e 10,21 (Ibid).

      Temos a terceira parte em Hb 10,32 - 13,16. Nesse quadro o autor
enfatiza a importância da memória, do que foi relatado nos quadros anteriores.
A moldura é “lembre-se” e “não se esqueçam”.

                     A conseqüência da profissão de fé é a necessidade de seguir a
                    Jesus e perseverar no caminho, apesar das dificuldades e
                    sofrimentos. A moldura desta parte: o “lembrem-se” de 10,32 e o “não
                    se esqueçam” de 13,16, que se referem a realidades da comunidade,
                    no passado e no presente (Ibid).

      Conclusão geral Hb 13,17-25. Após a apresentação o autor da os
recados finais:

                    nestes versículos fazem-se alguns pedidos, uma saudação e são
                    dados alguns recados finais. Veremos que, na verdade, estamos
                    diante de suas conclusões! (Ibid).

      Através da organização do texto, tentamos mostrar a genialidade do
autor da Carta aos Hebreus assim deixa uma mensagem bem clara, facilitando
questões complexas para a percepção dos membros da comunidade.
                                                                              32



      Vimos que ele tinha uma capacidade fantástica de sintetizar, era
conhecedor da técnica do midrash, e para completar possuía uma pedagogia,
pois as molduras as quais detalhamos acabam por ser um método eficaz que
encontrou para compreensão da mensagem.

      O que ele escreve é plausível de percebermos que se trata de uma
experiência de vida. Um caminho que ele está percorrendo e orienta os
destinatários a fazer o mesmo. Ele é alguém que está preocupado em
transmitir uma mensagem para um determinado grupo que está com
dificuldades variadas, num mundo regido pela Pax Romana e influenciado pela
cultura grega.

      Ele é um anônimo, esse fato de certa forma deixa claro que o mais
importante não é a sua pessoa, mas o assunto que é o de sua atenção. Centro
esse em relação ao qual ele faz questão de destacar a humanidade (Hb 1,9;
2,7; 2,9; 2,14; 2,16; 2,17-18; 4,15-16; 7,27; 13,12-14). Nesse ponto se distancia
da influência platônica de Fílon, pois ressalta a sensibilidade do Filho de Deus.
Afirmando que ele sofreu e padeceu fora das portas, ou seja, fez questão sofrer
como o ser humano sofre. E exorta os seus ouvintes a prestarem atenção a
esse fato, no intuito de seguir os mesmos passos do Filho.




                                Recapitulação




Nesse capítulo, vimos uma exortação que não é de Paulo. Um escrito que
apresenta a genialidade de um anônimo que conhece muito bem o seu
contexto, o mundo mediterrâneo e a caminhada do povo de Deus na história da
humanidade.

     Essa caminhada que o povo realiza tem um fim por excelência, que é
Jesus Cristo, o sumo sacerdote. Mas para a comunidade vivenciar esse fim é
necessária a sua adesão ao próprio fim Jesus o Filho de Deus. Aderir a ele é
                                                                            33



seguir os passos que o mesmo teve na história. Ele era sensível, portanto a
comunidade não pode deixar a sensibilidade de lado.

     Como o nosso genial autor destaca a humanidade do Filho, pois é o
objetivo da comunidade seguir os seus passos. Faz-se jus que apresentemos o
Jesus histórico, o modelo por excelência, que através de sua obra e movimento
provocou muita admiração no seu contexto.




                                II)    Jesus de Nazaré

      Independente do credo, ou a religião que alguém venha a seguir, seja o
hinduísmo, o judaísmo, o budismo, o islamismo e os ritos africanos, os seus
adeptos mais esclarecidos já ouviram algum comentário a respeito de Jesus de
Nazaré. Alguns até expressam uma admiração por Ele. Ele foi um homem que
teve um papel preponderante. A admiração faz parte da vida do Jesus
histórico, o nosso Jesus de Nazaré.

          Admiração no sentido de contentamento e assombro se deu devido a
esse nazareno ter feito uma revolução que virou o mundo de pernas para o ar,
através da sua proposta que era de igualdade e dignidade para todos, e para
alcançar esse feito teve uma vida subversiva, pois relativizava a lei, pregando
um Reino diferenciado dos moldes de sua época, fazendo questão de ser
humilde, outrora não gostava de ostentação, tudo isso com objetivo de mostrar
para os seus, que a vida só é especial a partir da convivência amistosa com os
outros.

      Ele era um homem errante (vivia peregrinando), de Nazaré, embora
existam relatos informando que possuía uma residência em Cafarnaum, mas
no conjunto dos evangelhos sinóticos e no texto de João destaca que ele ficava
peregrinando pela Palestina. Era um sábio judeu que frequentava a sinagoga,
e o templo como qualquer um daquela época. Mas Ele frequentava também,
aqueles que nem perto podiam passar de determinados recintos, como
                                                                                     34



exemplo os leprosos, prostitutas e cobradores de impostos. É apresentado
conversando com uma samaritana (cf. Jo 4, 7 - 26), justo uma mulher, que
sendo um ser humano era vista como propriedade do varão, normalmente
outro homem não se aproximava para conversar e ainda samaritana, os
samaritanos eram um povo desprezado pelos judeus. Concede cura à filha de
uma cananéia (cf. Mt 15, 22 - 28 e Mc 7, 26 - 30), pelo que dá para entender,
os cananeus eram visto como cachorros pelos seus compatriotas.

      Esse homem foi influenciado pela sua cultura, dado que era judeu e
camponês. Como um bom semita o seu referencial eram as Escrituras
Sagradas, o relato do povo de Deus na história, o Antigo Testamento.

                    Jesus era um camponês judeu. A sua espiritualidade terá tido a sua
                    inspiração original nas Escrituras hebraicas. O mundo em que ele
                    vivia era judeu, embora isso não significasse que fosse
                    completamente fiel às Escrituras hebraicas. Não podemos pressupor
                    que tudo aquilo que encontramos nas escrituras hebraicas fosse
                    entendido e praticado na Palestina do século I, tal como não se pode
                    pressupor que as sociedades ou instituições que atualmente se
                    denominam cristãs vivam o Sermão da Montanha (NOLAN, 2008: 85).

      Nolan levanta uma questão pertinente, que desperta para outras, que
virão aguçar a curiosidade de todo aquele que seja inquieto para saber cada
vez mais sobre o Mestre de Nazaré e o seu tempo. E também incomoda os
convictos de que Jesus Cristo, enquanto homem e seu movimento eram
assíduos praticantes dos cânones hebraicos ao pé da letra. Outrora se os que
se sentem incomodados possuem o espírito que buscam constantemente as
fontes, caso não, esse apontamento é irrelevante. Todavia deixemos esse
problema para outro momento. Vamos verificar qual foi à revolução que o
nazareno promoveu, pois essa se trata de uma questão mais significativa e
objetiva, outrora essa é uma das grandes facetas, ou seja, qualidades desse
homem de Nazaré.

      O universo desse homem é o judaico, já vimos. O judaísmo implicava
uma diversidade de culturas que nem sempre eram harmoniosas, se hoje
temos declaradamente inimizades entre judeus e judeus ortodoxos, podemos
imaginar que naquela época havia correntes pouco amistosas entre si. A
                                                                                       35



propósito, essa diversidade conflitante faz parte de igual modo de nosso
universo cristão, sobretudo no próprio catolicismo romano.

      Não fujamos do ambiente de Jesus, o qual por si só era complexo,
devido à diversidade da própria cultura judaica composta de diversos grupos,
dos quais é importante fazermos uma rápida menção. Destacaremos também a
revolução que o próprio proporcionou no seu contexto; um Messias diferente do
esperado e Jesus um profeta.




                    1.     A diversidade de grupos no contexto de Jesus




      Os grupos eram os fariseus tidos como sábios normalmente ligados aos
escribas, esses eram também homens letrados. Saduceus os senhores do
templo, no caso os sacerdotes, possuíam também a instrução. Herodianos,
estritamente ligados ao poder romano. Essênios, pessoas que viviam uma vida
ascética, a respeito desses não existe relatos nos evangelhos, embora o estilo
de vida de João Batista recorde muito o jeito de ser deles. Esses grupos eram
a minoria na época de Jesus, talvez nem chegassem a 5% da população.
Entretanto alguns deles detinham o poder, através da formação de opinião,
sobretudo o sumo sacerdote com os seus sacerdotes que tomavam conta do
centro das atenções daquela época que era o Templo de Jerusalém e os
herodianos, fies escudeiros do império romano.

      Havia também os revoltados, conhecidos como bandidos, no caso os
mais violentos que acreditavam na superação das dificuldades a partir da
violência, os bandidos são citados rapidamente no Evangelho de Marcos (cf.
Mc 14, 48 e 15, 27), porém o evangelista não destaca o feito social que estes
promoviam. O bandido naquele contexto é bem diferente da noção que temos
hoje desse termo.

                         O banditismo social surge em sociedades agrárias tradicionais, em
                         que os camponeses são explorados por governos e proprietários de
                         terras, particularmente em situações nas quais os camponeses são
                                                                                   36



                    economicamente vulneráveis e os governos administrativamente
                    ineficientes. Esse banditismo pode aumentar em épocas de crise
                    econômica, incitado pela fome ou elevada tributação, por exemplo,
                    bem como em períodos de desintegração social, talvez resultante da
                    imposição de um novo sistema político ou econômico – social... os
                    bandidos fazem justiça, muitas vezes funcionam como campeões da
                    justiça para o povo simples e geralmente gozam do apoio dos
                    camponeses locais. (HORSLEY, 2007: 57 – 58).

      Os bandidos eram emergentes das classes populares, no caso a
maioria. E a maior parte da população é o foco dos evangelhos.

                    De fato, os evangelhos dão a palavra àquela maioria do povo sem
                    expressão na sociedade, e que no século I, somava provavelmente
                    os 95% da população. Quem são os heróis em Mateus, Marcos,
                    Lucas e João? São cobradores de impostos, pecadores, pastores,
                    prostitutas, viúvas, crianças, leprosos, aleijados, cegos, doentes
                    mentais e estrangeiros. Com razão Jesus reza: “Eu te louvo, Pai,
                    Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos
                    sábios e inteligentes, e as revelastes aos pequeninos” (Mt
                    11,25).(VASCONCELLOS & SILVA, 2003: 239).

      Esses grupos e as classes populares viviam numa tensão constante
dentro do próprio judaísmo. Para piorar um pouco mais o contexto de nosso
mestre de Nazaré, fazia-se presente no cotidiano em específico na vida da
minoria da população a mentalidade helenista, no caso a cultura grega que
dominou a Palestina por um bom tempo sendo presença marcante,
principalmente por causa do pensamento grego que expandiu através de
Alexandre Magno a partir 333 a.C, que desejou dominar todos os povos
através da força bruta e impôs o pensamento de sua cultura. Mas após a sua
morte, o seu império perdeu forças e foi dominado pelos romanos.

      Em 63 a.C esse novo império toma posse da região da Palestina, sob o
comando do general Ptolomeu. Roma é a nação que reassume o desejo de
Alexandre o Grande, e impõe uma globalização a todos os seus conquistados.

      A determinação romana era a seguinte: os povos seguem o seu modo
de governo, ou, no mínimo estariam à margem da sociedade, quando não
dizimados. Esse modo de governo implicava impostos, humilhação que no
caso era a subordinação, pois os outros tinham que reconhecer seu poderio.

      A organização romana além de violenta e exploradora (pois essas eram
algumas de suas características) tinha a pretensão de ser também divina,
                                                                               37



colocando-se acima do bem e do mal. As conseqüências de determinada
pretensão, sobretudo nas classes populares da época era a exclusão. Essa
consequência justifica a atitude dos revoltados que desejavam sobressair à
determinada idolatria na base da força, pois essa causava a fome da maioria,
além de atingir a sua crença, pois o imperador romano pretendia colocar-se no
lugar do Deus único (a relação de Roma com o contexto da Carta aos Hebreus,
sendo que esse é posterior ao de Jesus de Nazaré, parece que continuou a
mesma).

      Entretanto havia um pequeno grupo de judeus que gostava de
determinada subordinação. “Os Herodes, os Sumos Sacerdotes, os Anciãos
(nobreza) e os ricos proprietários de terras. A maioria deles levava uma vida de
luxo e corrupção” (Horsley, 2002: pp60-62 apud Nolan, 2008). Roma para eles
era tudo de bom, pois esses eram os privilegiados, entre os 5% da população.




                                 2. A revolução de Jesus




      É esse o universo nada simples que Jesus vem revolucionar. Mas qual
foi a revolução que este homem promoveu? Não foi de uma política partidária,
aquela onde ocorre normalmente a troca de lideranças, uma cabeça por outra,
situação corriqueira no contexto da minoria dominante dos judeus que
realizavam conchavos para determinado feito. E dos revoltados que faziam a
troca na base da força.

      Jesus de Nazaré promove uma revolução de cunho social, pois atinge a
todas as camadas da sociedade de sua época, tanto do universo judaico
quanto gentil. “A sua revolução era mais social do que política” (HORSLEY,
198: p. 324 apud NOLAN, 2008: p. 86). Pedia para os seus darem a outra face
quando agredidos. Amar a todo aquele que lhe estivesse promovendo o mal, e
fazer o bem a quem quer que seja. Pede também para abençoar aos que
amaldiçoam e perdoar toda e qualquer ofensa que vierem a sofrer (Mt 5, 38 -
43; Lc 6, 27 - 37; Mt 18, 22). E o interessante é que ele não vai até a minoria, o
                                                                                          38



mestre de Nazaré faz questão de ficar no meio da maioria, aqueles, os quais,
os evangelistas destacam que são os mais pobres e desfavorecidos de sua
época.

                      Tudo isso, por si só, teria revolucionado as relações sociais entre os
                      camponeses a quem ele pregava, bem como as relações entre os
                      diversos grupos e classes, entre religiões e nações. Mas não ficou
                      por aí. Ainda mais revolucionário foi aquilo que Jesus disse acerca
                      dos ricos e dos pobres. A idéia vigente é que Deus tinha abençoado
                      os ricos com bens de fortuna e que os mais felizes eram eles. Jesus
                      pôs-se de pé e proclamou precisamente o oposto. “Felizes vós, os
                      pobres” (Lc 6,20). Em outras palavras, não são os ricos que são
                      abençoados ou felizes, mas os pobres. Isso não quer dizer que seja
                      bom ser desvalido ou necessitado, nem é uma promessa de que um
                      dia os pobres serão ricos. Significa, ao contrário: “Deveríeis dar-vos
                      por felizes por não pertencerdes ao grupo dos ricos e abastados. Os
                      infelizes são os ricos: “Ai de vós, os ricos” (Lc 6,24). Deles é que se
                      deve ter compaixão, pois são eles que vão ter muita dificuldade em
                      viver no mundo futuro (Reino de Deus), onde tudo será partilhado. Os
                      ricos terão muita dificuldade em partilhar. Serão como camelos
                      tentando passar pelo buraco de uma agulha. Os pobres são felizes
                      porque terão facilidade em partilhar. (NOLAN, 2008: 87).

      Com isso Jesus inverte totalmente a mentalidade das pessoas de seu
contexto, o qual era influenciado pelo mundo Greco – romano e demais, pois
esses eram convictos de que quanto mais possuíam é porque mais
abençoados foram pelos deuses.

      Jesus faz essa revolução, pois não aceitava a desigualdade entre os
seres humanos, indo totalmente na contramão duma teologia da prosperidade
que já era criticada no ambiente judaico, critica que é explicitada no livro de Jó.
A igual dignidade era muito cara para Jesus de Nazaré. Os evangelistas
mostram que ele fazia questão de acolher mendigos, enfermos, mulheres,
crianças e prostitutas – do grupo dos desprezados. No evangelho de Marcos
em diversos momentos determinado evangelista faz questão de mostrar Jesus
tocando aqueles que a lei proibia de estarem até próximo, mostrando que ele
subvertia a lei, quando essa prejudicava o seu próximo, todavia as leis não
eram para serem obstáculos, pelo contrário tinham o papel de facilitar o dia a
dia das pessoas.

                      Jesus sentia-se perfeitamente livre, portanto, para transgredir a lei,
                      sempre que observá-la fosse nocivo para as pessoas, porque a
                      intenção da lei nunca fora fazer mal às pessoas. O comportamento de
                      Jesus, porém, era considerado irremediavelmente escandaloso,
                                                                                     39



                    sobretudo quando ele ensinava os seus discípulos a fazerem o
                    mesmo (Mt 12, 1 – 5)...Jesus via todas as leis de pureza ritual como
                    tradições humanas que distorciam as intenções da lei de Deus (Mt
                    15, 1 – 20 par.). “Não é aquilo que entra pela boca que torna o ser
                    humano impuro. O que sai da boca é que torna o ser humano impuro”
                    (Mt 15, 11). Jesus não só ignorava a distinção entre alimentos puros
                    e impuros, e a lavagem ritual das mãos antes de comer, mas tocava
                    em cadáveres, em leprosos e em mulheres menstruadas – tudo
                    coisas que eram tabu em termos do Código de Santidade. O que
                    importava para Jesus eram as pessoas e as suas necessidades.
                    Todo o resto girava à volta disso. (NOLAN, 2008: 93).

      Jesus, com a transgressão de alguns costumes que se tornaram lei,
mostra que ao viver um legalismo as pessoas acabam se aprisionando e não
compreendem mais o que em princípio está por trás de cada lei que tem o
objetivo de facilitar a vida de todos. A subversão de Jesus começa a destacar
quem ele é, o esperado messias.




                      3. Jesus um messias diferente do esperado




      Depois desses pontos levantados acima é notório que a situação da
Palestina, no contexto de Jesus de Nazaré não era muito agradável, no que diz
respeito a seu sistema sócio-econômico e religioso. A sensação é de um
recipiente fechado que está prestes a explodir e motivos para isso há de sobra
– exploração, descriminação, favorecimento de alguns e exclusão. Tudo isso
podemos definir com apenas um termo: insatisfação. E quando uma realidade
de insatisfação começa a sobressair-se, surgem organizações, ou movimentos
que pretendem mudar determinado contexto, principalmente na base da força,
pois esse é o principal modelo que eles possuíam. No caso a força bélica
romana.

      As classes populares, os mais desfavorecidos, desejavam muito a vinda
de um messias poderoso que, além de acender o pavio, após a explosão faria
a restauração do Reino de Deus no seu contexto.

                    Jesus viveu numa época em que o povo judeu estava em “alerta
                    máximo”, à espera da chegada eminente de um messias que viria
                    restaurar o Reino ou Reinado de Deus, há muito esperado. As
                                                                                         40



                      expectativas acerca de o que, quando, onde e como é que isso seria
                      variavam imensamente. As especulações multiplicavam-se. Haveria
                      alguma intervenção divina milagrosa? Os romanos seriam
                      derrotados? O rei – messias marcharia, triunfante, sobre Jerusalém,
                      seguido pelo seu exército? Ou Reino de Deus seria instaurado de
                      qualquer outra forma? Os essênios tinham-se refugiado no deserto
                      para purificarem-se, preparando-se para esse acontecimento. João
                      Batista esperava que o juízo de Deus descesse sobre o próprio Israel.
                      As pessoas simples e comuns esperavam e rezavam pela libertação
                      de Jerusalém dos romanos (Lc 1, 68.71.74; 2,25. 38). No fim do
                      evangelho de Lucas, os dois discípulos a caminho de Emaús
                      confessam que esperavam que Jesus fosse aquele que viria libertar
                      Israel (Lc 24, 21) (NOLAN, 2008: 94).

      Estavam aguardando um messias triunfante, igual ou mais poderoso do
que César, no fundo um imperador poderoso da casa de Israel para sobressair-
se ao imperador romano, era esse o principal modelo daquela época. Mas
Jesus caminhava por outros caminhos, como já vimos. Amava o seu inimigo,
abençoava quem lhe amaldiçoava e não fazia questão de ajudar apenas os de
seu grupo e sua família, além de estar próximo das prostitutas e, sobretudo dos
leprosos. Portanto:

                      Jesus virou essas expectativas de pernas para o ar. Ele tinha uma
                      idéia muito diferente sobre o significado Reino de Deus sobre a terra,
                      e a razão fundamental para isso era fato de ele ver Deus com olhos
                      diferentes. Deus não era semelhante a um grande imperador, nem
                      àqueles que dominam o povo fazendo prevalecer a sua autoridade
                      (Mc 10,42 par.). Deus nem mesmo se parecia com um ditador
                      benevolente. Jesus experimentava Deus como um Pai amoroso,
                      como seu abbá. Por conseguinte, Jesus via o Reino de Deus mais
                      como o “reino” do pai amoroso da parábola, que perdoa ao seu filho
                      perdido, sem querer pensar em castigo ou retribuição, e que não quer
                      ouvir mencionar a vida devassa e o esbanjamento de dinheiro a que
                      seu filho se entregara. A única coisa que quer é celebrar com a
                      família (Lc 15, 11 – 32).( NOLAN, 2008 :pp. 94 -95).

        Jesus apresenta um Reino de Deus que não se realizaria a partir da
minoria da população, ou seja, de alguns privilegiados. Mas o realizará através
dos pequenos, um tomando conta do outro. Tendo consciência que sem o
outro não há uma relação de amor. Uma realidade onde a solidariedade se
sobressairá à exclusão. O Reino de Deus que Jesus propõe é o de uma grande
família universal, quebrando todas as barreiras possíveis que aparta os seres
humanos uns dos outros. Jesus no fundo propõe um humanismo vivenciado
com muito contentamento pelos povos. Os povos formarão a grande família do
Pai amoroso.
                                                                                         41



       Nolan o chama de “messias de pernas para o ar”. Todavia Jesus não
queria privilégio para si próprio. Jesus servia não era servido, normalmente um
rei é cheio de súditos para servi-lo, no caso de Jesus ele era cheio de amigos
com os quais compartilhava a sua vida.

       Normalmente os romanos realizavam cultos religiosos à divindade do
imperador; os cultos antigos eram repletos de sacrifícios de animais inclusive
de seres humanos em honra de César. No caso de Jesus ele não recebe
sacrifício, torna-se o próprio sacrifício.

                       Do ponto de vista do mundo em que vivia, Jesus era um fracassado.
                       Prenderam-no, condenaram-no e executaram-no por traição. Nada
                       abalou de forma mais radical o mundo do seu tempo do que o fato de
                       esse tipo de fracasso ter sido tratado como um êxito. Foi sua vontade
                       de fracassar que revolucionou a espiritualidade de sua época. A
                       morte de Jesus foi o seu triunfo. A vontade de Jesus de morrer pelos
                       outros significava que ele próprio estava vivo e os seus executores
                       estavam mortos. (NOLAN, 2008.p. 99).

       Esse Jesus, o de Nazaré, ensina que é doando a vida pelo outro que se
ganha à vida, e não obtendo a vida dos outros que se realiza, pois tomar posse
da vida do outro era mentalidade vigente do império romano e dos insatisfeitos
naquele momento na Palestina, os quais basicamente esperavam um messias
com as características de um dominador. Jesus mostrou através da sua morte
que o caminho é outro, é entregando a sua vida para o irmão e irmã,
independente do credo, língua e etnia.

       A entrega de si mesmo requer um desprendimento de tudo àquilo que
uma     mentalidade      romana      vivenciava.     Quanto       mais     acontecer      o
desprendimento melhor as pessoas compreenderão o que venha a ser o Reino
de Deus, do contrário também nunca compreenderão que messias diferenciado
é Jesus.

       O mais impressionante é o fato de um camponês e não um membro da
elite, ser o messias esperado. Jesus de Nazaré, um camponês que fez uma
revolução significativa como a apresentada. Eis porque esse homem fascinou,
fascina e continuará fascinando. Um rei que morre pelos seus, e não o
contrário, que é a prática de César.
                                                                                     42



      Apresentamos aspectos da dimensão messiânica de Jesus, agora
tentaremos demonstrar alguns pontos que destacam Jesus, como um profeta.




                                    4. Jesus um profeta




      A admiração e o assombro é fruto da dimensão messiânica de Jesus,
pois ele é um messias, ou, um rei que se faz de súdito dos desprezados da
sociedade de sua época, e devido a mostrar aos seus que por mais que ele
seja o senhor, de modo algum deixou de ser amigo. Normalmente César
conquistava várias batalhas, todavia nem pelo campo de batalha passava, a
não ser quando um general assumia a frente do império, mesmo assim ele
tinha os seus como escudos. No caso de Jesus ele se faz de escudo.

      Outro aspecto do nazareno que fascinou muito seus contemporâneos foi
a sua semelhança com os profetas do passado de Israel.

                    Nas suas especulações acerca de quem era Jesus, os seus
                    contemporâneos concordavam que pelo menos, ele era um profeta
                    (Mc 8, 27 - 28 par. ; Lc 7,16). Alguns poderiam ter pensado que ele
                    era um falso profeta, mas era óbvio que Jesus falava e agia como um
                    profeta, e também era assim, certamente, que nunca contradisse
                    ninguém que se lhe tivesse referido como um profeta. Na sua
                    inspiração básica, portanto, a espiritualidade de Jesus assemelhava-
                    se à dos profetas hebreus. (Nolan, 2008: 101).

      Há diversos relatos destacando que, em momentos significativos da
história dos povos, sobretudo do povo de Israel surgiram alguns seres
humanos extraordinários, os quais sobressaíram ao coletivo quando esse
direcionava as pessoas a ficarem acomodadas diante das injustiças. Esses
extraordinários não se acomodavam e cruzavam os braços diante de
determinadas situações de calamidades, as quais o ser humano estava sendo
prejudicado. Essas pessoas de intuições bem aguçadas liam os sinais de seus
contextos, percebiam situações desagradáveis que estavam prestes a
                                                                                        43



acontecer com os seus. Esses humanos são os profetas e as profetisas, que o
autor de Hebreus faz questão de destacar bem no início do texto (Hb 1,1).
Vejamos um pouco mais a respeito dessas pessoas extraordinários.

                      ... No AT não era tão claro o que vinha a ser um profeta! Em alguns
                     textos, o profeta parece ser uma pessoa meio doida, que dança, tira
                     roupa, cai em delírio (1Sm 19,24), interpreta sonhos (Dt 13, 2.4),
                     consulta a Deus (1Sm 28, 6.15), e ganha a vida com suas profecias
                     (Am 7,12). Em outros textos, porém, ele parece ser uma pessoa
                     importante como Samuel (1Sm 3,20), chamada para guiar o povo
                     como Moisés (Dt 18, 15-18). Moisés quer que todo povo seja profeta.
                     (Nm 11, 29) e Joel garante que todos, um dia, vão profetizar (Jl 3,1).
                     Mas Amós não aceita ser chamado de profeta (Am 7,14) e Zacarias
                     manda matar a quem se diz profeta (Zc 13, 3-6). Havia profetisas;
                     Mirian (Ex 15,20), Débora (Jz 4,4), a esposa de Isaías (Is 8,3), Hulda
                     (2Rs 22,14), Noadias (Ne 6,14), as profetisas que fala Ezequiel (Ez
                     13, 17 – 19). Havia os profetas de Javé os quais se destacaram:
                     Elias, Amós, Miquéias, Isaías, Jeremias e outros. Eles viviam em
                     grupos (1Sm 10, 10) ao redor de Samuel em Ramá (1Sm 10, 20), ou
                     de Elias e de Eliseu, em Betel e Jericó (2 Rs 2,3.5),eram casados
                     (2Rs 4,1) e eram chamados irmãos ou filhos dos profetas (2Rs 4,
                     1.38). Havia os profetas de Baal (1Rs 18,22), igualmente numerosos
                     (1Rs 18, 13.22). O povo chegou a reconhecer a ação da profecia em
                     pessoas que nem eram do povo de Deus; por exemplo, Balaão (Nm
                     22, 2 – 35). (CRB, 1994:15 -16).

      Esses extraordinários são homens e mulheres de brilho próprio que
irradiam seus raios por gerações, além de transformarem seus próprios
contextos, sócio, histórico e econômico.

                     O termo profeta já foi definido como crítico religioso da realidade. É
                     pessoa crítica porque não se conformar com o erro, a injustiça e a
                     opressão. Sua critica é religiosa porque se expressa em nome da
                     transcendência, de Deus. É critica religiosa da realidade, pois se
                     destina a seres humanos precisos, em determinado momento
                     histórico bem concreto. (VASCONCELLOS & SILVA, 2003: 120).

      Jesus fascinou os seus contemporâneos porque foi uma dessas pessoas
que transformava seu contexto e os seguintes. Mas para os que o
reconheceram como Messias, no caso os cristãos, o que esse homem de
Nazaré realizou foi tão significante que esses o reconheceram como Deus
encarnado (Mt 1, 23; Jo 1,14), o Cristo. O próprio texto de Hebreus, um dos
apoios de nosso estudo, o coloca acima dos profetas (Hb 1, 2).

                    ... as palavras proféticas foram além de seu tempo e serviram de
                    referencial quando as primeiras comunidades seguidoras de Jesus
                    procuravam entender seus ensinamentos, seus gestos, sua morte
                    violenta. As palavras do passado recuperavam vida e ganhavam
                    atualidade na prática de Jesus; isso os escritos do Novo Testamento
                                                                                    44



                  quiseram comunicar. Não se trata de ver em Jesus um cumprimento
                  mecânico do que estava escrito nos textos, como se ele tivesse um
                  roteiro previamente determinado a cumprir. Mas as palavras dos
                  profetas, com sua contestação e suas propostas alternativas para vida
                  do povo, foram luz que possibilitou a compreensão da trajetória de
                  Jesus, reconhecido como profeta em algumas oportunidades (cf. Lc
                  7,16; Jo 4,19; 6,14). (VASCONCELLOS & SILVA, 2003: 138 – 139).




                                    Recapitulação




      Esse capítulo destacou a vida de Jesus de Nazaré, a diversidade de
grupos no seu contexto e a proposta revolucionária de Jesus, um camponês de
Nazaré. E também as dimensões messiânicas e proféticas desse homem.

      Verificaremos no próximo capítulo, o porquê o genial autor da Carta aos
Hebreus o chama de Sumo Sacerdote e, sobretudo o porquê Jesus é o centro
de sua atenção e modelo por excelência da comunidade cristã.
                                                                           45




                         III)     O Centro da atenção de Hebreus

       O centro da atenção do autor do escrito de Hebreus e da comunidade
que recebe a exortação era um camponês judeu, filho da tribo de Judá que
realizou tantos feitos no ambiente de sua atuação (o qual apresentamos no
segundo capítulo) que muitos no mínimo o reconheceram como profeta.

       O anônimo escritor de Hebreus e os membros da comunidade além de
reconhecê-lo como profeta, um reconhecimento significativo, professam sua fé
Nele, pois o aceitam como Messias, o Filho de Deus, a própria realização da
caminhada do povo de Deus na História.

       Para afirmarmos essa constatação fizemos uma caminhada e nos
deparamos com dois contextos distintos, o de Jesus e o do escrito de Hebreus.
As duas realidades estão situadas no Mediterrâneo e subordinadas à Pax
Romana. O diferencial entre elas são quatro, ou cinco décadas, fora toda uma
influência cultural e política.

       No decorrer desses anos houve o importantíssimo trabalho de Paulo,
como vimos no primeiro capítulo. Trabalho que influenciou o autor do texto de
Hebreus, pois ele compreendeu muito bem o que é ser discípulo Jesus através
da influência paulina.

       E ser discípulo de Jesus é viver o cristianismo, o qual propõe uma vida
comunitária como experiência de Deus, além de ser comunitária, trata-se de
uma vivência encarnada na história, contrapondo uma realidade na qual não
existe diálogo e sim imposições e um platonismo exagerado que sai da
                                                                                 46



realidade, ou seja, a fuga do cotidiano. O texto de Hebreus, fruto da inquietude
do autor, é praticamente uma resposta ao seu mundo.

      Vimos a organização do texto de Hebreus e o seu propósito, que
explicita o conjunto da intencionalidade do autor, ele é o único a chamar Jesus
Cristo, o Filho de Deus de Sumo Sacerdote. Titulo incabível para os demais
textos do Novo Testamento, sobretudo porque o próprio Jesus não teve um
bom relacionamento com os sacerdotes, e também não era levita, membro da
família sacerdotal. Fato que o autor destaca: “é sabido que o Nosso Senhor
procede de Judá, uma tribo que Moisés não menciona quando fala de
sacerdotes” (Hb 7,14).

      O motivo pelo qual o autor de Hebreus chama Jesus de sumo sacerdote
está num dos momentos importantes de sua elaboração, que é o sétimo
capítulo. Nesse capítulo é feita uma síntese do que venha ser o sacerdócio
judaico e sua objetividade. Sabendo que Jesus não era da tribo de Levi, motivo
pelo qual não podia ser sacerdote vem à tona a personagem enigmática de
Melquisedec, a qual ele passa a relacionar com Jesus para demonstrar o
motivo pelo qual denomina Jesus sendo leigo como Sumo Sacerdote.

                     Hebreus é o único escrito do Novo Testamento que chama Jesus de
                     Sumo sacerdote, e a surpresa maior vem do fato de sabermos que
                     Jesus era leigo e em sua vida teve inúmeros conflitos com os
                     sacerdotes de seu tempo. (VASCONCELLOS, 2003: 51).

      Nada melhor do que analisarmos nesse momento o próprio capítulo (que
também possui suas molduras), sendo esse capítulo sequência e explicação do
seguinte versículo do escrito: “onde nosso senhor entrou como precursor
nomeado sumo sacerdote perpétuo na linha de Melquisedec” (Hb 6,20). Na
análise notaremos em conjunto com as molduras o uso do midrash, sem o que
a reflexão do autor não seria possível.




                         1. Jesus é semelhante a Melquisedec
                                                                                     47



      Logo nos três primeiros versículos do texto (o capítulo sete), já vemos
um midrash, pois o escritor cita Gn 14,18-20 e atualiza está passagem para o
seu tempo, no intuito de mostrar a semelhança de Melquisedec com Jesus,
quanto à grandiosidade e o mistério, pois Melquisedec não tem principio nem
fim e a Escritura não menciona quem foi seu pai e sua mãe. Esse ser
misterioso abençoa Abraão. Melquisedec significa “rei da Justiça” e “rei da
Paz”, que caminham de mãos dadas com seu sacerdócio, implicando que a
Justiça e a Paz não têm princípio nem fim. Melquisedec ao abençoar concede
essas virtudes para o abençoado. A Justiça e a Paz para quem escreve o texto
são regidas pelo próprio Filho de Deus, eterno e semelhante a Melquisedec.

                     Melquisedec é o rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu
                     ao encontro de Abraão, quando voltava após a derrota dos reis, e o
                     abençoou; Abraão lhe deu um décimo de todos os despojos.
                     Primeiro, ele se chama Rei da Justiça, a Seguir Rei de Salém (que
                     significa Rei da Paz). Sem pai, nem mãe, sem genealogia, sem
                     princípio nem fim de vida. À semelhança do Filho de Deus, continua
                     sendo sacerdote para sempre (Hb 7,1-3, BÍBLIA DO PEREGRINO,
                     2002: 2879-2880).

      O que está por trás dessa interpretação do autor, que também é o único
a citar o nome de Melquisedec no Novo Testamento? O que Melquisedec tem a
ver com o seu contexto? Na literatura canônica veterotestamentária (AT), há
apenas duas referências a Melquisedec, Gn 14 e Sl 110, mas o canônico é o
texto oficial reconhecido pelas as lideranças religiosas, em específico os
rabinos (nem entre esses existia uma concordância, pois havia as lendas
rabínicas, histórias que sobressaiam ao canônico). Sabemos que o imaginário
do ser humano sobressai-se à legalização no âmbito do sagrado. Melquisedec
era muito popular na época de Hebreus, o seu nome foi registrado em alguns
livros apócrifos (livros que não foram reconhecidos pelo cânone) com
aprovação e devoção popular. Pelo que menciona F. Dattler, no seu
comentário aos três primeiros versículos do capítulo 7 de Hebreus, a referência
ao enigmático Melquisedec nos apócrifos é muito ampla.

                     Afastar-nos-íamos demasiadamente do objetivo deste comentário se
                     quiséssemos arrolar tudo quanto Melquisedec significa nos apócrifos
                     judaicos e samaritanos, em Qumran e nas lendas rabínicas
                     (DATTLER, 1980:112).
                                                                                     48



      No mesmo comentário F. Dattler apresenta alguns significados
interessantes para o nome de Melquisedec, “meu rei é Sedec”, sendo Sedec
uma divindade cananéia, assim como Adonisedec (“meu senhor é Sedec”), rei
de Jerusalém no tempo de Josué (Js 10,3)”. Fora algumas interpretações
visionárias que elencavam Melquisedec como um anjo. F. Dattler chega a
mencionar que o autor de Hebreus não está muito longe dessa interpretação.

      Apresentamos o midrash e subsequente todo o histórico por trás da
exegese da época, mas onde está a moldura desse trecho? O próprio nome do
enigmático Melquisedec é a moldura, pois abre o primeiro versículo e fecha no
décimo, o que significa que devemos ainda dentro dessa moldura continuar a
análise pelos versículos seguintes.

      O assunto deles é a ênfase na superioridade de Melquisedec sobre Levi,
pois o patriarca Abraão, bisavô de Levi, paga o dízimo para Melquisedec e
recebe as bênçãos desse misterioso sacerdote, e quem concede benção é
superior a quem recebe.

                     Observai como Melquisedec devia ser grande, visto que o patriarca
                     Abraão lhe deu um décimo dos despojos. Os descendentes de Levi
                     que recebem o sacerdócio têm ordem de cobrar legalmente dízimo do
                     povo, isto é, de seus irmãos, que também descendem de Abraão. Ao
                     contrário aquele que não está incluído em sua genealogia cobra
                     dízimos de Abraão e abençoa o titular da promessa. Sem discussão,
                     o menor é abençoado pelo maior. Num caso recebem dízimos
                     homens que morrerão, em outro caso alguém de quem se declara
                     que vive. Por assim dizer, Levi aquele que cobra dízimos, os pagava
                     na pessoa de Abraão, pois já estava nas entranhas do antepassado
                     quando Melquisedec lhe foi ao encontro (Hb 7,4-10, BÍBLIA DO
                     PEREGRINO, 2002: 2880).

      Os levitas são delegados a receber o dízimo e a abençoar os demais de
Israel, pois são o grupo dos descendentes de Abraão responsável pelo culto
religioso. Esses, na trajetória do povo de Deus, foram os únicos que não
receberam nenhuma posse, no intuito de ficarem a disposição do rito judaico
(Dt 14,22 - 27). Quanto à questão de quem abençoa ser maior do que o
abençoado, a família sacerdotal acabou tendo uma grande projeção social no
meio do povo, os levitas tornaram-se homens de destaque. Embora o autor de
Hebreus desconsiderasse a sua grandiosidade enfatizando que esse grupo se
compõe de homens que são inferiores a Melquisedec, pois quando o pai
                                                                                       49



Abraão pagou o dízimo ao “rei da Paz” e “rei da Justiça”, Levi também o pagou,
pois se encontrava no corpo de seu bisavô. No caso de Levi toda a sua gênese
era de Abraão, portanto ele já se fazia presente no patriarca quando esse foi
abençoado por Melquisedec.

       Há outro aspecto muito interessante, que derruba a questão do
exclusivismo levita. Quem está recebendo o dízimo não faz parte da
genealogia dos sacerdotes; e mais os levitas que recebem dos irmãos não são
perenes; no caso de Melquisedec, ele é eterno.

                       Nas entrelinhas do relatório veterotestamentário o autor descobre
                       claros indícios da superioridade de Melquisedec sobre Levi e os
                       sacerdotes, filhos de Deus, não apenas a prioridade cronológica que
                       afinal de contas, possui o seu peso teórico. Abraão pagou o dízimo!
                       Reconheceu em Melquisedec um ser superior (DATTLER, 1980:112 e
                       113).

       A maestria do autor na elaboração desta crítica tem uma finalidade:

                       Toda essa conversa para se chegar ao ponto que realmente
                       interessa: para Hebreus, existe um sacerdócio que não é ligado à
                       descendência de Levi. Muito pelo contrário: o sacerdócio de
                       Melquisedec é superior ao de Levi seja porque este pagou o dízimo e
                       foi abençoado por Melquisedec, seja porque este é um personagem
                       que está vivo, ao contrário dos sacerdotes de Levi, que precisam
                       estabelecer genealogias e descendências porque são mortais. É a
                       partir daí que Hebreus vai continuar sua comparação e apresentar e
                       comentar o outro texto a respeito de Melquisedec, o salmo 110,4
                       (VASCONCELLOS, 2003:56).

       Antes de vermos, outras passagens que falam detalhadamente de
Melquisedec, é preciso que tratemos a respeito da imperfeição do sacerdócio
de Levi.

                       2. A imperfeição do sacerdócio levítico




       O intuito de mostrarmos a imperfeição do sacerdócio de Levi requer que
seja realizada uma análise Hb 7,11-19. A moldura desse quadro é o termo
“perfeição” no início e no final.

       Nesses versículos o texto de Hebreus provoca, recordando que no
imaginário religioso dos antepassados a mediação entre Deus e os homens se
                                                                                         50



dava no ofício dos levitas, a única mediação para os antepassados não era a
mediação por excelência. Os antepassados não haviam compreendido essa
questão e ficavam à mercê dos filhos de Levi, fato que favoreceu muito os
sacerdotes do Templo no período de Jesus, no âmbito social chegando ao
ponto de influenciar as questões políticas e até se venderem à Pax Romana.
Observamos esses dados no segundo capítulo.

                    Portanto, se a perfeição fora atingida pelo sacerdócio levítico – pois é
                    nele que se apóia a Lei dada ao povo – que necessidade haveria de
                    outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec, e não “segundo a
                    ordem de Aarão”? Mudado o sacerdócio, necessariamente se muda
                    também a Lei. Ora, aquele a quem o texto citado se refere pertencia a
                    outra tribo, da qual membro algum se ocupou com o serviço do altar.
                    É bem conhecido, de fato, que nosso Senhor surgiu de Judá, tribo a
                    respeito da qual Moisés nada diz quando se trata dos sacerdotes.
                    Mais claro ainda se torna isto quando se constitui outro sacerdote,
                    semelhante a Melquisedec , não segunda regra de prescrição carnal,
                    mas de acordo com o poder de vida imperecível. Pois diz o
                    testemunho: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de
                    Melquisedec... Assim sendo, está ab-rogada a prescrição anterior,
                    porque era fraca e sem proveito. De fato, a Lei nada levou à
                    perfeição; e está introduzida uma esperança melhor, pela qual nos
                    aproximamos de Deus (Hb 7,11 - 19; BÍBLIA DE JERUSALÉM,
                    2002:2091).

      A mediação por excelência esteve presente em Israel, sendo humana e
divina ao mesmo tempo, e a esperança brotou dela. E essa mediação traz uma
nova legislação, uma nova moral e um novo jeito de ser. Mediação vinda da
tribo de Judá segundo a ordem de Melquisedec, linhagem indestrutível sem
começo e fim. Enquanto o modo de ser e de coordenar dos levitas era inútil.

                    Os eventos narrados em Gn 14 certamente precederam a Levi e a
                    sua descendência. Se o argumento apoiado na potencialidade
                    geradora de Abraão não é lá muito convincente, resta ao autor outro
                    cartucho, ou seja, o Sl 110. Este foi composto depois de Levi e toda a
                    sua linhagem histórica. A argumentação é de clareza meridiana: se o
                    sacerdócio levítico tivesse trazido a salvação autêntica, para que
                    então falar em outro sacerdócio? Supõe-se que o sacerdócio faz
                    parte integrante da Lei mosaica e de toda a economia de salvação
                    nela encerrada. Para Hb, tudo é precário e insuficiente; a instituição
                    da Lei não teve força, por que seu expoente máximo, o sacerdócio,
                    falhara lamentavelmente... (DATTLER, 1980: 113 e 114).

      Outra argumentação semelhante reforça a percepção de que a prática
sacerdotal dos levitas para o autor de Hebreus estava ultrapassada:

                    Para reforçar essa certeza, Hebreus prossegue. A fraqueza do
                    sacerdócio levítico é que estabelecia o critério da filiação para poder
                                                                                        51



                     permanecer. Se ele não fosse frágil e limitado, não haveria na
                     Escritura o anúncio de um outro sacerdócio, justamente no Salmo
                     110,4. Esse sacerdócio diferente, o de Melquisedec, é baseado numa
                     vida indestrutível, que não termina e que alcança o mundo divino. Por
                     isso Jesus, o sacerdote do jeito de Melquisedec, está junto de Deus,
                     sentado a sua direita (lembre-se da afirmação feita já em 1,3!). Com a
                     presença desse sacerdote não são mais necessárias. Pelo contrário:
                     o novo sacerdote dá razões para a esperança da comunidade (mais
                     uma vez), que é poder se aproximar de Deus (entrar no repouso dele,
                     atravessar o véu: quantas expressões para afirmar a esperança da
                     comunidade!) (VASCONCELLOS, 2003: 57).

      Vista a inferioridade do sacerdócio levítico, vejamos a perfeição do
sacerdócio de Jesus, a partir da argumentação do próprio autor de Hebreus.




                      3. A perfeição do sacerdócio de Jesus




      Enfim, chegamos ao nosso objetivo. Mostrarmos por que o autor de
Hebreus compreende que Jesus, filho da tribo de Judá, um leigo para aquele
período, é denominado como sumo sacerdote. Um fracassado segundo a visão
de mundo estabelecida pela Pax Romana, pois foi tido como um marginal que
incomodou a imposição romana, com isso recebeu a pior pena que havia no
seu contexto, a cruz. Um homem do povo, que não fazia parte de uma elite.

                     A família de Jesus não era sacerdotal como a de Zacarias, pai de
                     João Batista (Lc 1,5). Jesus não pertencia ao clero que cuidava do
                     Templo. Não era doutor da lei, nem pertencia ao grupo dos fariseus e
                     essênios. Ele nasceu leigo, pobre, sem a proteção de uma classe ou
                     de uma família poderosa. Muito provavelmente, a família de José era
                     migrante, vinda de Belém da Judéia (Lc 2,4) para Galiléia em busca
                     de melhores condições de vida, como acontece tanto no Brasil. Jesus
                     não teve oportunidade de estudar como o apóstolo Paulo (At 22,3).
                     Teve que trabalhar. Como todo judeu do interior, trabalhava como
                     agricultor. Além disso, aprendeu a profissão de seu pai (Mt 13,55) e
                     servia ao povo como carpinteiro (Mc 6,3); (MESTERS, 2008:17)

      Vimos esses detalhes no capítulo anterior, estamos recordando para
enfatizar que não havia nenhum pressuposto que possibilitava Jesus ser
sacerdote segundo a lei judaica. O genial autor, de Hebreus, desfez a lei que
garantia a eficácia do sacerdócio levítico, afirmando a sua inutilidade. O motivo
pelo qual Jesus é o sumo sacerdote já está pressuposto acima, mas a ênfase
será dada agora entre os versículos 20 e 28. Nada melhor do que deixarmos o
                                                                                        52



próprio texto falar. Mas antes da resposta do texto, alertamos que há uma
moldura e um midrash. A moldura está no termo juramento, o midrash consiste
na atualização do salmo 110,4 (O Senhor jurou e não se arrependerá: “Tu és
sacerdote eterno segundo o rito de Melquisedec”.) para o contexto de Hebreus.

                     E como se faz sem que falte um juramento, aqueles recebiam o
                     sacerdócio sem juramento, este, com o juramento daquele que disse:
                     O Senhor jurou e não volta atrás: tu és sacerdote perpétuo, assim é
                     mais valiosa a aliança que Jesus garante. Aqueles sacerdotes eram
                     numerosos, porque a morte os impedia de continuar. Este, ao
                     contrário, visto que permanece sempre, tem um sacerdócio que não
                     passa. Assim pode salvar plenamente os que por meio acorrem a
                     Deus, pois vive sempre a interceder por eles. Tal é o sumo sacerdote
                     que necessitávamos: santo, irreprovável e sem mancha, separado
                     dos pecadores, exaltado acima do céu. Ele não necessita, como os
                     outros sumos sacerdotes, oferecer sacrifícios a cada dia, primeiro por
                     seus pecados e depois pelos do povo, pois isso ele o fez de uma vez
                     para sempre, oferecendo-se a si mesmo. A lei nomeia a sumos
                     sacerdotes a homens fracos; o juramento que substitui a lei nomeia
                     para sempre um Filho perfeito (Hb 7,20-28, BÍBLIA DO PEREGRINO,
                     2002: 2881).

      Jesus é o intercessor dos intercessores. A intercessão é propriamente a
função sacerdotal, mas Jesus fez questão também de ser amigo e defensor
dos seus, como vimos no capítulo anterior. No mesmo mostramos a diferença
que há entre César (o imperador romano) e com o nosso intercessor por
excelência. Enquanto César era protegido por escudos diante de um campo de
batalha, Jesus era o escudo dos seus amigos e discípulos. E mais, Jesus não
sacrifica um animal e apresenta o sangue da vítima para expiação dos seus
pecados e da comunidade, rito praticado diariamente no Templo de Jerusalém,
Ele é a própria oferta, o próprio sacrifício. Ele entrega a própria vida em favor
dos seus, de uma vez para todo sempre.

      Jesus é o Sumo Sacerdote fiel e misericordioso, segundo a ordem do rei
Melquisedec, porque entregou sua vida pelos seus. O ato de doação é o que o
torna Sacerdote, e não uma linhagem familiar. Essa é a resposta do problema
que levantamos bem no começo da nossa elaboração. Entretanto, seguir os
passos de Jesus implicará algumas consequências.



              4. A consequência da mediação sacerdotal de Jesus
                                                                                           53




      O autor de Hebreus para mostrar a perfeição do sacerdócio de Jesus
recorre ao enigmático Melquisedec, destaca a fragilidade do sacerdócio
levítico, que é efêmero, enquanto o sacerdócio de Melquisedec é eterno, sem
genealogia. Mostra também que o próprio Levi é inferior a Melquisedec, pois
Abraão é abençoado por Melquisedec e quem abençoa é maior, o grande pai
Abraão ao ser abençoado trazia consigo Levi nos seus rins. O sacerdócio
segundo a ordem de Melquisedec não é coordenado por mãos humanas, o
próprio Deus é quem direciona. O sagrado sobressai. E o Sacerdote por
excelência é o Filho de Deus, o Senhor Jesus que se oferece a si mesmo e
concede a sua vida em favor daqueles que o procuram. Esse é o motivo pelo
qual ele é o Sumo Sacerdote. Com o seu sangue concede a quem o procura o
acesso direto a Deus. Não existe mais um templo com uma cortina para
separar o sagrado do profano. Novamente podemos observar a superação da
dicotomia platônica.

                       Pelo sangue de Jesus, irmãos, temos livre acesso ao santuário, pelo
                       caminho novo e vivo que inaugurou para nós através da cortina, ou
                       seja, de seu corpo. Temos um sacerdote ilustre e encarregado da
                       casa de Deus. Portanto, aproximemo-nos de coração sincero e
                       cheios de fé, purificados por dentro da má consciência e lavados por
                       fora com água pura. Mantenhamos sem desvio a confissão de nossa
                       esperança, pois aquele que prometeu é fiel. Velemos uns pelos
                       outros, para nos estimular ao amor e as boas obras (Hb 10,19-24,
                       BÍBLIA DO PEREGRINO, 2002: 2884).

      É certo também que essa comunidade estava aguardando o retorno do
centro de suas atenções, Jesus Cristo o Filho de Deus. Hebreus é um escrito
de referência quando tratamos de Escatologia. Mas até a chegada dessa
realidade à sugestão proposta no texto é não parar no tempo, evitando ficar
sem as realizações caritativas, ou melhor, acomodados esperando a vinda
escatológica de Jesus.

                        Jesus, para consagrar o povo com seu sangue, padeceu fora das
                       portas. Saiamos, pois, ao encontro dele fora do acampamento,
                       carregando as suas ofensas; pois não temos aqui cidade
                       permanente, mas buscamos a futura. Por meio dele ofereçamos
                       continuamente a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto de lábios
                       que confessam seu nome. Não descuideis a beneficência e a
                       solidariedade: tais os sacrifícios que agradam a Deus (Hb 13, 12-16;
                       Ibid, 2002,2890-2891).
                                                                          54



      Em outras palavras, a comunidade não deve ficar parada e refugiada em
algum local seguro. Como cristãos devem viver o que Jesus viveu no mundo, e
não fugir do mundo. O cristianismo é uma experiência religiosa vivenciada no
mundo e não fora dele, por isso a solidariedade e a vida comunitária são
sacrifícios que agradam a Deus. Doar a vida pelo outro é o que torna cada
pessoa da comunidade um cristão, ao passo que se consagrando ao outro
principalmente ao mais desfavorecido é ao próprio Deus que estará se doando.
O cristão só terá noção de quem é Jesus a partir dessa experiência.




           5. Henri des Roziers, aquele que vai ao encontro do Cristo




      Após uma peregrinação no contexto de Jesus de Nazaré e no de
Hebreus, não podemos ficar presos em qualquer das duas realidades, mesmo
porque a mensagem que o genial escritor de Hebreus escreveu foi para o seu
mundo em particular, o mediterrâneo, de igual modo aos outros escritores do
Novo Testamento.

      A mensagem de Hebreus exorta os ouvintes a se sacrificarem,
lembrando a eles que o sacrifício que mais agrada a Deus é o amor ao
próximo, vivenciado na vida comunitária.

      No entanto, façamos uma caminhada de retorno para o nosso mundo,
para vermos se necessitamos desta exortação, ou melhor, se alguém vive tal
experiência no mundo “pós-moderno”, sendo referencial para os demais,
referencial que chamamos de testemunho, ou seja, um exemplo concreto que
saiu do acampamento e foi ao encontro de Jesus Cristo.

      Nós temos, ainda bem, alguns exemplos concretos, que fizeram e
continuam fazendo a experiência de buscar o Cristo, bem distante do seu
acampamento (Hb 13,12).

       Entre esses destacamos a pessoa de Henri Burin des Roziers, frade
dominicano francês com setenta e nove anos de idade que há três décadas
                                                                             55



luta pela causa dos mais empobrecidos, numa das regiões mais conflituosas do
Brasil – o Bico do Papagaio, no estado do Pará. Como advogado defende
muitos    lavradores   e   camponeses     anônimos    que    normalmente    são
desfavorecidos perante a atual conjuntura da política agrária do nosso Brasil.
Nessa sua luta em conjunto com a CPT (Comissão pastoral da terra), já foi
ameaçado de morte algumas vezes.

         Alguns informativos de cunho nacional e até internacional afirmam que
ele é um homem marcado para morrer, pois incomoda os grandes
latifundiários. É marcado para morrer devido a não admitir que o mais pobre
seja injustiçado, pois esse mais pobre é o próprio Jesus Cristo para ele.

      Henri, nosso confrade, esteve internado por volta de vinte dias entre os
meses de julho e agosto de 2009, na cidade de São Paulo, no hospital São
Camilo do Ipiranga. A sua internação foi devido a um AVC. Quando as equipes
médicas detectam este quadro encaminham o paciente diretamente para UTI
(Unidade de tratamento intensivo). Henri ficou durante seis dias nessa unidade.
Havia dois momentos no decorrer do dia em que podíamos visitá-lo. Nesses
momentos ele aproveitava para trabalhar, pois ditava um texto e aquele que o
acompanhava nas visitas anotava e transmitia para as secretárias da CPT de
Xinguara, no estado do Pará.

      Henri estava entre a vida e a morte. Como ele é alguém que já lida com
algumas ameaças de morte, não seria uma UTI que o assustaria. Consciente
de tudo que se passava, não perdeu a elegância de um cavalheiro, pois tratava
com muito carinho os funcionários que o assistia, ou seja, o contato que os
funcionários tinham com ele era de uma reciprocidade de atenção e carinho.
Sempre de bom humor e agradecendo pelas mínimas assistências que recebia.

      Ficava enérgico quando começava a ditar as mensagens para serem
enviadas à Xinguara, a seriedade tomava conta dele. Em determinado
momento o advogado, o defensor dos mais desvalidos e menosprezados do
sistema agrário vigente, sobressaía e até quem anotava as mensagens para
serem enviadas esquecia que os dois estavam dentro de uma UTI. Henri
                                                                             56



trabalhava para manter vivo três senhores, camponeses que estavam sendo
ameaçados de morte no estado do Pará.

      Antes de ser internado já havia emitido uma carta para a governadora do
Estado do Pará exigindo segurança pessoal para esses homens, do contrário
estaria disposto a abrir mão do esquema que o próprio governo do Pará
montara para ele. Não aceitava que ele tivesse segurança enquanto esses
“três companheiros”, como ele os denominava, não tivessem, pois esses
corriam muito mais risco do que ele.

      Essa questão era apenas uma das que Henri articulava na UTI. Buscava
resolver também as questões econômicas da CPT de Xinguara, o que pagar e
como pagar, as despesas do local, pois independente de sua ausência o
trabalho tinha que continuar. Todos os trabalhos eram coordenados
diretamente do leito da UTI.

      Outro dado interessante – ele ficava muito feliz quando um posseiro, o
seu segurança e suas secretárias enviavam-lhe abraços. Outro ponto curioso:
estava ele no leito da UTI desejando saber como havia sido a cirurgia da irmã
de uma de suas secretárias, a viagem de sua amiga Aninha junto com Frei
Xavier Plassat pela Índia e também como estava sendo o processo de
recuperação da saúde do vice-presidente da República José de Alencar.

      Henri, depois de ter alta da UTI, ficou internado em um apartamento do
mesmo hospital, por um bom tempo nesse local. Como sempre muito simpático
para com todos, desde os diretores do hospital, que o visitavam com
frequência, as senhoras que faziam arrumação do quarto eram tratados com
muito carinho por ele, ele acabou constituindo um fã clube no hospital. Sem
contar a quantidade de visitas que teve. Nas proximidades de sua saída do
hospital concedeu para nós um presente inesquecível, uma entrevista.

      As perguntas da entrevista foram elaboradas pelo professor Domingos
Zamagna, pois tinha como destino o site da Escola Dominicana de Teologia.
Frei Matheus Domingues; op. foi quem perguntou e gravou, a transcrição ficou
a cargo de Frei Marcelo Alves; op. e a correção por conta do próprio Frei Henri
                                                                               57



com a colaboração de Aparecida Almeida, no dia 15.09.09 no Hospital Sarah
Kubitschek, em Brasília.

        Essa entrevista ele concedeu para nós no dia 16 de agosto de 2009.
Chamamos de presente essa entrevista, porque se trata de um magnífico
testemunho que vem de encontro com a mensagem exortativa do escrito de
Hebreus e a prática de Jesus de Nazaré.

        A entrevista traz treze respostas e nelas Frei Henri relata parte de sua
vida, antes de ser dominicano e depois. Ações pastorais na França e no Brasil,
todas elas que vêm de encontro à saída do acampamento em busca de Jesus
fora dos portões.

        Faremos aqui um apanhado da entrevista, entretanto ela estará anexada
por inteiro no final deste trabalho.

        Segundo a entrevista Henri, começa a sua peregrinação fora do
acampamento no período da sua juventude, entre os anos de 1954 e 1964.
Num momento nessa década teve que servir às forças armadas francesas,
serviço militar obrigatório para os jovens de sua geração.

        Esteve no continente africano, particularmente no Marrocos, na Argélia e
na Tunísia. Quase foi para Indochina, atual Vietnan. A experiência que teve
nesses locais lhe provocou certo desconforto e indignação, pois era obrigado a
lutar contra um povo que desejava ardentemente a sua liberdade. A situação
era incabível para ele, pois se tratava de restringir o direito de liberdade de um
povo.

        Na sua visão, independente de o governo francês ter possibilitado
recursos materiais favorecendo o desenvolvimento dos países dominados, isso
não justificava a pretensão de ser dono de determinados países e explorar os
verdadeiros proprietários e restringir a liberdade do povo. Isso mexeu muito
com Henri, a partir dessa indignação começou a direcionar a sua vida para
outros caminhos. Estava sendo preparado para ser professor na área do
direito, seria um acadêmico. As injustiças que presenciou por onde esteve o
desanimaram da carreira de professor universitário.
                                                                                       58



      No momento de mudança de perspectivas e de sentido para sua vida,
começa a ter contato com os dominicanos em Paris e a vida religiosa começou
a chamar a sua atenção. Por mais que a carreira de acadêmico não fosse mais
o centro de sua atenção, pelo fato de ser um grande estudioso ganhou uma
bolsa de estudos em Cambridge na Inglaterra para estudar o direito inglês no
decorrer de um ano. Os dominicanos de Paris recomendaram que tivesse
contato com um frade que se encontrava exilado na mesma cidade.

      O frade era o padre Congar, que estava proibido de lecionar, publicar e
dar palestras pelo governo institucional da Igreja. Esse padre vivia no convento
dos “Black Friars” dentro da universidade de Cambridge. Naquele período o
governo institucional da Igreja não estava compreendendo as suas intuições, já
que ele possuía um espírito de liberdade e um pensamento muito avançado, os
responsáveis pela Cúria Romana o silenciaram. Fato que a própria Igreja
depois reconheceu, pois Congar mais tarde tornou-se um dos principais nomes
do Concílio Vaticano II, sendo um dos seus peritos, em conjunto com Chenu e
outros dominicanos que possuíam a mesma liberdade de espírito.

      Congar e Chenu também apoiaram o movimento dos padres operários
na França, sobretudo com a argumentação teológica. Batista Mondin em seu
livro, Os grandes teólogos do século: teologia contemporânea escreve um
capítulo para cada um deles.

      Chenu é um teólogo preocupado com os sinais dos tempos, convicto de
que a teologia funda-se na fé, mas não se resolve na fé, pois está sempre se
construindo através do diálogo constante com o momento presente.

                     A mesma imutável verdade é proclamada na sua presença atual e
                     não mais ensinada abstratamente, fora do tempo e do espaço, no céu
                     de um idealismo platônico. A referência à época, às suas conjunturas,
                     aos seus reclamos, às suas curiosidades, às suas necessidades, não
                     é uma modalidade minúscula, externa à verdade substancial, mas
                     entra no tecido da verdade. Com efeito, a verdade, tanto divina
                     quanto humana, não é uma ‘coisa’ deposta nas inteligências, em
                     objetivismo que não tem nenhuma referência ao espírito; mas é
                     implantação viva de uma realidade objetivamente definida, à luz da
                     inteligência que apreende (CHENU, La parole de Dieu, II, p.192 apud
                     MONDIN, 2003: 570).
                                                                                        59



      Congar, discípulo de Chenu, é voltado mais para a eclesiologia, estudou
a fundo as temáticas da Igreja no decorrer da história (Sagrada Escritura e
tradição). O laicato, o ecumenismo e a reforma da Igreja são seus assuntos
prediletos. Como estamos falando de um Jesus leigo foquemos nossa atenção
nesse assunto.

                     “Enquanto membros do povo de Deus, os leigos, como os clérigos e
                    os monges, por seu estado e de maneira direta, estão em função das
                    realidades celestes. Uns e outros foram tornados capazes ‘de
                    participar da herança dos santos na luz’ (Cl 1,12).Todavia, não o
                    estão do mesmo modo. Seria biblicamente, dogmaticamente e
                    inexato dizer: ‘os clérigos e os monges, por seu estado e de maneira
                    direta, estão em função das realidades celestes; os leigos em função
                    das realidades terrestres por seu estado de maneira direta, se bem
                    que não exclusiva. Mas é verdadeira a afirmação de que: 1) os leigos
                    não vivem exclusivamente para as realidades sobrenaturais, como
                    fazem os eclesiásticos, na medida em que a situação atual o permite;
                    2) mesmo vivendo plenamente em Cristo, os leigos não têm
                    competência ou só têm uma competência limitada no que se refere
                    aos meios propriamente eclesiais da vida em Cristo: esses meios são
                    de competência do clero. Os leigos são chamados ao mesmo fim dos
                    clérigos ou monges, isto é, a desfrutar a nossa herança de filhos de
                    Deus, mas sua condição consiste em perseguir e alcançar tal fim sem
                    absterem-se de se empenhar no movimento do mundo terreno, nas
                    realidades da primeira criação, nas etapas e nos meios da história
                    (Congar, 1967: 37. Jalons pour une théologie du laïcat, trad. it. Per
                    una teologia del laicato, Morcelliana, Bréscia, apud Mondin, 2003:
                    609-610).

      Mondin a partir desse apontamento de Congar a respeito do laicato
complementa afirmando o seguinte:
                    Com base nessa definição, Congar enfrenta a questão das funções
                    dos leigos coloca-o em condições de distinguir entre funções
                    genéricas e específicas, genéricas são aquelas que, como cristão, o
                    leigo tem em comum com todos os outros membros do corpo místico:
                    são as funções sacerdotal, régia e profética, que nosso teólogo
                    examina com grande profundidade e originalidade. As funções
                    específicas são aquelas que derivam para os leigos em virtude do
                    seu “empenho no movimento do mundo terreno” (...) Junta e
                    paralelamente com tema do laicato, em Jalons pour une théologie du
                    laïcat Congar também trata do tema das “realidades terrestres” ele
                    não entende só o mundo material, mas também, e sobretudo, o
                    mundo da cultura, da ciência da arte, da política e da técnica. A
                    doutrina não é apresentada sistematicamente, mas só
                    tangencialmente ao tema principal. Constitui, porém, uma das
                    doutrinas mais célebres do nosso autor e serviu de base à
                    constituição conciliar sobre a Igreja no mundo contemporâneo.
                    Contrariamente à concepção tradicional, que só viu nas realidades
                    terrestres instrumentos a serviço da Igreja e da religião, e não coisas
                    dotadas de um valor próprio e intrínseco, Congar propõe uma nova
                    concepção, que aprecia as coisas assim como são, que crê nas
                    coisas, respeita sua natureza, suas leis, suas exigências; que
                    sustenta que, mesmo havendo necessidade de homens que se
                                                                                          60



                     dediquem completamente ao serviço de Deus, o conjunto dos
                     homens deve ir a ele através das coisas do mundo e da história. É
                     com base nessa nova concepção das realidades terrestres que, como
                     se viu, Congar edifica a sua teologia do laicato. (Ibid, pp. 610 - 612).

      Congar e Chenu, dois homens que foram ao encontro de Cristo fora do
acampamento (Hb 13,12-14), direta e indiretamente incentivaram o jovem Henri
a ser dominicano. Os dois dominicanos, com os seus brilhantes trabalhos na
Igreja, acabaram influenciando, a vida de um dos principais nomes contra o
trabalho escravo no Bico do Papagaio. Os dois fizeram com que Henri
percebesse que a acomodação não faz parte da vida cristã, sobretudo quando
a questão é dogmática. Para Henri o cristianismo não está fora da história, é
uma fé encarnada no cotidiano das pessoas; isso interpretamos ser o “estar
fora do acampamento” a que se refere Hebreus.

      Em 1963, Henri é ordenado padre dominicano. Os seus superiores o
mandaram para o centro de estudantes cristãos, em Paris, na Faculdade de
Direito e Ciências Econômicas, uma das responsabilidades pastorais
dominicanas. Esteve neste local por sete anos, de 1963 a 1970. Henri, com frei
Jean Raguènés participou e viveu a revolução dos estudantes de 68, aberto
para escutar as indagações dos estudantes a respeito da política, da
universidade, da religião e de qualquer problemática da época, questões bem
inseridas na realidade. Enquanto outros centros de estudantes condenavam a
atitude revolucionaria deles, o centro, o qual Henri fazia parte era aberto para o
diálogo.

      Após essa experiência no centro de estudos Saint Yves, Henri foi para
Besançon e começou a trabalhar como motorista de caminhão sendo padre
operário.

      Nessa nova experiência, a indignação voltou a fazer parte de sua vida,
pois tomou consciência de que os trabalhadores árabes não tinham o direito de
receberem o mesmo salário que os trabalhadores franceses, muito menos as
horas de descanso e a mesma segurança no trabalho, fora o preconceito racial
por parte dos franceses.
                                                                              61



       Nos anos de 1973 a 1978, centrou as suas forças na defesa dos direitos
desses trabalhadores, que eram árabes das regiões do Marrocos, Argélia e
Tunísia, ou seja, de maioria mulçumana.

       Em 1978 vem para o Brasil. Aqui, como já mencionamos, tornou-se um
dos principais articuladores contra o trabalho escravo na região da Amazônia.
Mas a sua preocupação não é só com os trabalhadores rurais que padecem
nessa região, que para ele são o Cristo encarnado na história. Outra de suas
preocupações refere-se ao desmatamento, pois esse é fruto de uma
exploração desastrosa feita pelo sistema econômico vigente, que evidencia um
egoísmo, que faz com que os próprios exploradores fiquem cegos e não
compreendam que sem o meio ambiente não existe vida.

       São três décadas no Brasil, foram mais momentos difíceis do que
agradáveis. Nesses anos lutou contra ditadura militar, grandes latifundiários e a
alienação do clero.

       A ditadura era o poder vigente, isso quer dizer que o poder legislativo da
nação brasileira era dirigido pelas autoridades militares. A justiça era conforme
as suas determinações. Normalmente o judiciário ficava do lado dos grandes
latifundiários. Os posseiros eram os mais desfavorecidos, a miséria fazia parte
da vida deles. A maior parte do clero fazia vistas grossas e às vezes ficava do
lado dos latifundiários.

       Henri trabalhava na organização das comunidades de posseiros e,
sobretudo, conscientizando-os dos seus diretos. Chega a ser proibido de
conviver e atuar nessas comunidades pelo bispo local, Dom Cornélio Chizzini
que, pressionado pelo clero, não permite mais o seu contato com os posseiros.
Com a intervenção de Dom Celso Pereira, bispo dominicano, Henri consegue
mostrar outra realidade para o bispo que o havia proibido de trabalhar.

       Pelo que vimos, a esperança sempre fez parte da vida desse homem
que nunca se deu por vencido, nem num leito de UTI. A sua persistência é
admirável. Como esse homem obtém tanta força? Ele faz uma sugestão aos
alunos de teologia. Ao lermos a sugestão na entrevista perceberemos que o
                                                                                        62



segredo de toda a sua vida é a objetividade que ele busca alcançar, pois nos
recomenda a buscar o Senhor Jesus Cristo em todos os nossos estudos, ou
seja, diante de qualquer conteúdo a ser estudado o fim último seja o Cristo que
se encontra principalmente no mais pobre.

      Não temos dúvida que Frei Henri Burin des Roziers é um testemunho de
vida que nos exorta a ir até o Cristo que se encontra fora do acampamento. É
possível ver a intencionalidade do escritor da Carta aos Hebreus nos nossos
dias, foi isso que tentamos mostrar com o pequeno testemunho de nosso
confrade dominicano. Um sacerdote ordenado, que não esqueceu o seu
batismo, a que a Carta aos Hebreus alude: “os que foram uma vez iluminados
saborearam o dom celeste e participaram do Espírito Santo. Saborearam a boa
palavra de Deus e o dinamismo da era futura” (Hb 6,4-5). Henri, ao fazer
memória do seu batismo, busca o Cristo no mais empobrecido e doa sua vida
por esses independentes de serem cristãos, pois se trata do ser humano que é
imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26).

      Seguir as recomendações finais da exortação aos Hebreus é um
desafio, pois colocaremos a nossa vida em risco, somos apegados a
segurança, por outro lado a segurança nos deixe em estado de inércia, o ser
humano não foi feito a imagem e semelhança de Deus para ser um ser
atrofiado, pois quem fica parado acaba não desenvolvendo as suas qualidades.
Com testemunho de Henri, Congar e Chenu, tenhamos coragem de sair de
nossos acampamentos e ir ao encontro do Senhor Jesus fora do muro, no
intuito de vivermos

                      AS ALEGRIAS E AS ESPERANÇAS, as tristezas e as angústias dos
                      homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem,
                      [que] são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as
                      angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada
                      verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração. Com
                      efeito, a sua comunidade se constitui de homens que, reunidos em
                      Cristo, são dirigidos pelo Espírito Santo, na sua peregrinação para o
                      Reino do Pai. Eles aceitaram a mensagem da salvação que deve ser
                      proposta a todos. Portanto, a comunidade cristã se sente
                      verdadeiramente solidária com o gênero humano e com sua história
                      (GAUDIUM ET SPES 1).
                                                                            63



      Henri e muitos outros perceberam o que vem a ser essa mensagem de
Salvação. Com isso comprovamos que a mensagem de Hebreus é bem atual,
ou seja, o mesmo Espírito que assistiu o escritor de Hebreus continua nos
assistindo. Não importa onde estamos. Independente do tempo e do lugar, o
ser humano continua sua caminhada sempre buscando o Bem maior. Esse
Bem Maior é o Mistério. Só teremos noção do que venha a ser esse inaudito,
numa experiência de doação para com outro, pois esse é o melhor sacrifício.
Assim faremos, ou, não chegaremos perto do que Jesus Cristo fez pela
humanidade, pois se nos denominamos cristãos, discípulos do Jesus de
Nazaré, somos desafiados a realizar alguns feitos que Homem-Deus realizou.

                                Recapitulação




      Nesse capítulo buscamos responder a nosso problema: o motivo pelo
qual Jesus é chamado de Sumo Sacerdote. Descobrimos que, sobretudo, Ele
possui esse título devido à doação de sua vida em favor dos seus. Mas o
brilhante autor da chamada Carta aos Hebreus, para fundamentar essa sua
convicção fez um esforço fantástico. Recorre a Melquisedec figura enigmática
que estava presente no imaginário das pessoas; como Vasconcellos destaca,
foi um meio para apresentar o novo Sumo Sacerdote que abre caminho para
todos aqueles que o procuram.

      Não existe mais um Templo em Jerusalém, com o novo Sumo Sacerdote
não é mais necessária uma estrutura física para conseguirmos a mediação
com Deus. Com a doação do seu próprio corpo Jesus deixa o acesso livre para
nos dirigirmos a Deus, no intuito de cada um exercitar o seu sacerdócio
comum, mas para que esse seja concretizado requer um novo sacrifício, a
busca do amor para com próximo, principalmente o mais desprezado.

      Atualizamos a mensagem com o testemunho de Frei Henri Burin des
Roziers; op. Homem que compreendeu muito bem, quais são os meios que a
Igreja deve seguir para alcançar seu fim último que é Jesus Cristo o centro da
atenção do autor de Hebreus e nosso.
                                                                          64



      Acreditamos que o mesmo Espírito que assistiu, ao escritor de Hebreus,
assiste a Henri, pois o que esse dominicano mais deseja é que sobressaiam a
Justiça e a Paz. Virtudes que não tem princípio nem fim e muito menos
qualquer aspecto da Pax Romana que traz consigo uma justiça interesseira e
uma paz forçada. Não iludamos, as intencionalidades da Pax Romana
permanecem no nosso meio, sobretudo no mundo cristão. Oxalá que a nossa
consciência chame a atenção, permitindo notarmos a diferença entre a
proposta de Jesus Cristo e a da Pax Romana. Recordando que a proposta de
Jesus direciona para dignidade do ser humano, principalmente daquele que se
encontra fora do acampamento, humilhado e desprezado pelos sistemas que o
próprio homem constrói.
                                                                          65




                                   Conclusão



       Propusemo-nos a fazer uma caminhada. A principal motivação para a
peregrinação era enfrentar o seguinte problema: por que o autor da Carta aos
Hebreus chama Jesus de Sumo sacerdote? Sendo que Ele era leigo, pois era
da família de Judá, na tradição judaica os membros da família sacerdotal eram
os levitas...

       As coordenadas que seguimos para realizar o percurso foram as
seguintes: primeiramente tratamos de estabelecer uma familiaridade com o
texto denominado de Carta aos Hebreus, carta que não é carta e sim uma
exortação que não é de Paulo, o autor só Deus sabe quem seja. Embora tenha
discordância em ser um sermão ou uma exortação. Optamos por exortação,
pois há mais motivação no texto do que doutrinação e chamada de atenção.
Vimos também o contexto da carta, situados no âmbito mediterrâneo regido
pela Pax Romana e por uma religiosidade voltada para subjetivismo. Nessa
primeira coordenada percebemos também a genialidade do autor que deseja
com o centro de sua atenção mostrar para os seus que o cristianismo é vivido
comunitariamente. Para deixar essa mensagem clara ele organizou muito bem
o conteúdo do texto.
                                                                           66



      Na segunda coordenada fomos atrás de Jesus de Nazaré e seu contexto
para destacarmos a sua sensibilidade, a qual o autor de Hebreus menciona no
decorrer do escrito.

      Após ter seguido essas coordenadas tentamos dar a resposta do
problema enfrentado, que tem tudo a ver com a experiência do Jesus histórico
na vida. Jesus é o Sumo Sacerdote, porque ele doou a própria vida em favor
dos seus. E ao tornar-se o Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec,
pois nessa ordem quem direciona todo o culto é o próprio Deus, não tem
participação humana, por isso é eterno, ele abre o caminho para todos que o
procuram para estarem ligados diretamente a Deus, aspectos significativos que
nos mantém à temática do sacerdócio comum, algo que aqui não
desenvolvemos.

      E, finalizando, atualizamos essa mensagem com o testemunho de Frei
Henri des Roziers, o qual tem buscado viver as recomendações do autor de
Hebreus, pois se trata de alguém que sai do acampamento (expressão
marcante da exortação de Hb 13,13), localidade de sua segurança, que pode
ser no caso de Henri a sua carreira acadêmica, a Igreja ou a Ordem
Dominicana com seus conventos. Rompendo esses portões chega ao norte do
Brasil em busca de Jesus Cristo o filho de Deus, no Bico do Papagaio no
estado do Pará defendendo os anônimos que o sistema econômico vigente
excluiu.
                                                                           67




                                  Anexo



Entrevista feita pelos estudantes Dominicanos ao Frei Henri Burin des
Roziers OP para o site da EDT, realizada no Hospital São Camilo do
Ipiranga, São Paulo, 16 de agosto, no dia em que a Igreja comemorava o
dia do religioso.




   1) Quando senhor estudava na Sorbonne, em Cambridge e no
      Saulchoir, que idéia o senhor fazia do Brasil?


      Nesta época, entre os anos de 1954 até 1964, não tínhamos muita idéia
      do Brasil e da América Latina. Nossas preocupações na França estavam
      voltadas para África e Indo-China, o atual Vietnan, onde tinha muitos
      problemas, entre eles, as violentas guerras. A América Latina não era o
      assunto principal.

   2) Quando o senhor chegou ao Brasil para ficar? Já estivera antes no
      Brasil ou na América do sul?
                                                                        68



  Não tinha vindo ainda ao Brasil e a nenhum outro país da América do
  Sul. A primeira vez foi quando cheguei em 1978 no Brasil. Vim com o
  acordo dos meus superiores da França e do Brasil para ficar um tempo
  indeterminado.




3) O senhor quis antes ir para África e Indo-china, ou não pensou
  nessa possibilidade?



   Nunca pensei viajar para esses países. Mas em alguns momentos
  estive na África, no Marrocos, Argélia e na Tunísia, por causa das
  guerras de independências que estavam havendo nesses países.
  Devido à obrigação do serviço militar que tínhamos que cumprir, os
  jovens da minha geração eram enviados para esses países, prestando
  serviços às forças armadas francesas. Eu fui para Marrocos, Tunísia e
  Argélia. Quase estive na Indo-China, mas felizmente alcançaram os
  tratados de trégua e não foi preciso a nossa inda para essa região.

4) O senhor era advogado no tribunal de Paris. O que fez tornar-se
  religioso dominicano e sacerdote?



  Primeiro, eu nunca fui advogado no tribunal de Paris, poderia ter sido,
  mas o meu estudo tinha outro rumo, estava voltado para o concurso de
  agregação para ser professor de direito na faculdade. Meus professores
  me incentivavam para o mundo acadêmico. Eu acho que foi
  principalmente o questionamento extremamente forte que provocou em
  mim e em toda a minha geração, essas guerras de independência dos
  países que eram colônias francesas, como Marrocos, Tunísia e Argélia.
  Porque lá descobrimos a tragédia da guerra e as lutas de povos que
  queriam a sua liberdade. A Argélia teve 130 anos de colonização
  francesa. Não tenho dúvida que materialmente neste país aconteceram
  coisas importantes com o povo. Antes de tudo, um povo deseja a sua
                                                                      69



independência. Então lá nos refletimos, pois fomos muito provocados e
questionados sobre isso. Com qual direito em fim, a França, e outros
países da Europa, como Portugal e Inglaterra se dizem donos de uma
região, sendo que lá já tem um povo que tem direito a sua liberdade, um
povo de origem local que deseja a sua independência. Isso me fez
questionar sobre a minha própria vida e minha opção de vida.         Eu
pouco a pouco descobri em fim que meus estudos de direito em
comparação com tudo que estava vendo como injustiças, não faziam
mais sentido: não me senti mais animado para o mundo acadêmico.
Comecei devagar a busca de outro sentido para minha vida. Tive a sorte
naquele momento de encontrar alguns dominicanos em Paris e comecei
a pensar então na vida religiosa. Devido aos meus estudos, tive a sorte
de ganhar uma bolsa de estudos em Cambridge na Inglaterra, para
estudar o direito Inglês por um ano.         Nesta época, um grande
dominicano   estava   exilado   em    Cambridge,    no   convento   dos
dominicanos, conhecido como “Black Friars”, sem o direito de publicar,
fazer palestras e conferências. Esse dominicano era o Padre Congar.
Ele, que era um homem muito ocupado, se tornou muito disponível para
me receber. Como eu estava na mesma cidade, os dominicanos de
Paris me aconselharam a visitá-lo para conversamos. Ele me ajudou a
aprofundar a minha busca de um sentido para a minha vida, no rumo da
vida religiosa. Então eu acho que são esses os fatores, essas grandes
figuras que tive a sorte de encontrar que me ajudaram muito no meu
esclarecimento   da   vocação    da   vida   religiosa   e   dominicana.
Complementando, o que me impressionou muito no encontro e no
contato que tive com o padre Congar, foi o grande sentido de liberdade
que ele possuía. Suas idéias e percepções que foram reconhecidas
depois no Concílio Vaticano II, na época eram negadas pelo próprio
Vaticano. Ele sempre obedeceu, mas continuava seus estudos, pois em
nome da liberdade evangélica e dominicana, ele tinha que continuar
aprofundando o que ele achava importantíssimo na teologia que não
estava reconhecido pelo Vaticano.     Este sentido da importância da
                                                                      70



liberdade me impressionou muito. Foi uma graça poder ter conversado
tranquilamente com Padre Congar. Depois eu soube um pouco mais da
vida dele, sobretudo do seu compromisso de apoiar teologicamente a
experiência do movimento dos padres operários na França, junto com o
padre Chenu e outros. Isso me ajudou a perceber que na vocação
dominicana tem sempre essa opção, vamos dizer, pelos pobres,
oprimidos e marginalizados que era o caso do mundo operário da
França na época, o povo que sofria muita exploração e que
reivindicavam os seus direitos. Eu achei belíssima essa ação, que me
fez refletir muito: a opção do padre Congar como do padre Chenu em
favor dos padres operários, justificando teologicamente o valor desta
presença do sacerdote junto aos operários que buscavam os seus
direitos, a dignidade e a justiça. Além disso, eu vi o padre Congar no
exílio sofrendo muito, por não poder publicar o que queria e não fazer
suas palestras, pois ele era sempre convidado, eu vi o sofrimento dele.
E depois, quando começou o Concílio Vaticano II, em 1958, logo ele foi
chamado como um dos seus peritos, junto com padre Chenu, padre
Ferret e outros. Ele se tornou um dos principais peritos, um dos mais
importantes do Concílio. E todas as suas idéias, convicções, intuições e
opções foram reconhecidas pelo Concílio Vaticano II. Inclusive sobre o
ecumenismo, o diálogo entre as Igrejas. Isso me fez perceber que não
podemos simplesmente acomodar as interpretações dogmáticas da
Igreja do momento. Temos que estar sempre na busca da verdade,
aprofundando cada vez mais o Mistério do Reino de Deus.           Outra
intuição que tive também é a de que temos que ser lúcidos e presentes
na realidade humana, histórica e sócio-econômica na qual vivemos. Isso
me ajudou muito a perceber que a fé Cristã, não é uma fé fora da
realidade. O cristianismo fora da realidade não tem sentido. Tem que ser
uma fé encarnada na história, na vida dos homens de cada época.
Então o padre Congar junto com padre Chenu, influenciou toda a minha
geração, a do estudantado de Le Saulchoir. Eu, pessoalmente considero
que as ousadias deles, aos poucos me ajudaram na vida.
                                                                      71



5) Antes de vir para o Brasil, que trabalhos o senhor realizou como
  frade dominicano na França?



  Logo que fui ordenado padre, em 63, meus superiores me mandaram
  para o centro de estudantes cristãos, em Paris, na Universidade, na
  Faculdade de Direito e Ciências Econômicas, que era tradicionalmente
  uma responsabilidade pastoral dos dominicanos de Paris. Fiquei neste
  centro de 63 até 70. Esse momento foi muito importante, pois com meu
  confrade Jean Raguenés, participamos e vivemos a revolução dos
  estudantes de 68 que nos marcou profundamente, porque o centro Saint
  Yves foi o único centro dos estudantes de Paris que não fechou e nem
  condenou tudo que buscavam e questionavam os estudantes. Outros
  dominicanos da nossa região nos ajudaram, e ficamos sempre abertos
  para escutar o que os estudantes questionavam a respeito da política,
  da universidade, da religião e de qualquer problema da época. Esse
  período foi também muito importante para mim. Depois, questionados na
  nossa vida religiosa por Maio 68 sobre a distância do nosso mundo
  religioso da vida do mundo do trabalho, vários jovens dominicanos, em
  pequenas equipes, foram se inserir no mundo do trabalho e das
  periferias das grandes cidades. Eu fui com o frei Jean Raguenés para a
  região leste da França, numa cidade chamada Besançon. Lá durante um
  ano fui padre operário, exercendo a profissão de motorista de caminhão
  e depois trabalhei seis meses na Rhodia, que tinha sua matriz nesta
  cidade. Trabalhei e convivi com os imigrantes árabes da África do Norte
  que trabalhavam nessa mesma empresa. Nessa experiência fiquei
  impressionado com o preconceito racial que se fazia presente, pois os
  trabalhadores estrangeiros árabes, não tinham o direito ao mesmo
  salário que os trabalhadores franceses, nem as mesmas horas de
  descanso, a mesma segurança no trabalho. Isso também me deixou
  profundamente indignado. Depois de 1973 até 1978, fui trabalhar em
  outra região no sudeste da França, onde tinha também muitos operários
  árabes em pequenas fábricas metalúrgicas. A maioria desses operários,
                                                                            72



  cerca de 80% era estrangeira, árabes do Marrocos, Argélia e Tunísia,
  que eram vítimas de uma exploração muito forte e de uma terrível
  descriminação e de uma perseguição feroz por ser árabes. Trabalhei
  durante todos esses anos em defesa dos seus direitos frente a essa
  violência racial e descriminação. Depois eu viajei para o Brasil.




6) O senhor foi trabalhar na Amazônia, no Bico do Papagaio. Que
  realidade encontrou na região (do ponto de vista sócio – político e
  eclesial)?



  Encontrei uma situação que seja sócia – econômico, política, ou
  religiosa que me marcou profundamente. O povo desta região realmente
  sofria uma pressão terrível, não de grandes fazendeiros, não havia
  grandes fazendeiros por lá, eram médios, mas o povo há muitos anos
  estava sendo oprimido como arrendatário, como posseiro e empregado.
  O que me impressionou mais foi uma pobreza imensa, trágica, de um
  povo resignado na sua imensa maioria, acomodado, sem nenhuma
  esperança. Por um lado, uma opressão feroz sobre um povo resignado.
  No outro lado uma Igreja que na imensa maioria de seu clero não se
  preocupava com isso, achava isso normal e muitas vezes era ligada aos
  opressores, que eram os fazendeiros, a polícia e a justiça. Essa foi a
  realidade que encontrei e que me impressionou muito. A exceção de
  algumas religiosas e padres admiráveis, como as Irmãs Mada, Bia,
  Lourdes e principalmente do padre Josino Tavares. Mas eles eram
  realmente    uma    exceção.   O    próprio   bispo   desta   diocese    de
  Tocantinópolis, dom Cornélio, no início não apoiava o trabalho da
  Comissão Pastoral da Terra, mas ele mudou.            Ele começou       a se
  converter em função da realidade que esses agentes da Pastoral da
  Terra mostravam para ele através de fatos e testemunhos. Ele se
                                                                         73



   converteu e depois mudou a sua visão e passou a apoiar o trabalho da
   Comissão Pastoral da Terra.

7) Essa realidade chocava mais ao jurista ou ao dominicano Henri?



   Aos dois, porque eu vi como as autoridades oficiais, principalmente a
   justiça, eram totalmente ligadas aos opressores, aos fazendeiros da
   época. Isso me revoltou muito, ainda mais porque era na época da
   ditadura. O exército tomou oficialmente conta da região através do
   organismo chamado GETAT, Grupo Executivo das Terras do Araguaia e
   Tocantins. Então, por causa da resistência do povo de lá que começou a
   se organizar, e da resistência do povo da região vizinha do sul do Pará,
   com a preocupação do que poderia acontecer, o exército tomou conta
   de toda região. Então não tinha mais lei, o judiciário era totalmente
   submetido às decisões do exército. Percebi que nesta época não tinha
   nenhum advogado para defender o povo. Depois descobrimos um
   advogado extraordinário, Oswaldo de Alencar Rocha. Essa situação era
   um escândalo: o judiciário e a polícia oprimindo o povo e a Igreja da
   região não fazendo nada para mudar a situação. Na região de Porto
   Nacional onde estava o centro da CPT na época, lá era diferente, pois
   Dom Celso Pereira de Almeida tomou parte com muita coragem, em
   defesa de milhares de posseiros que os poderosos da região junto com
   o exército tentavam despejar. Mas lá no Bico do Papagaio, do então
   norte de Goiás não acontecia isso.




8) Quando e como o senhor achou que estava na hora de intervir
   como advogado?



   No início de meu trabalho com a CPT no Bico do Papagaio não cheguei
   a advogar. Logo percebi que era indispensável ter um advogado para
   assegurar alguns direitos fundiários para o pessoal. Encontramos um
                                                                     74



advogado extraordinário de Imperatriz, cidade vizinha do Bico do
Papagaio, chamado Oswaldo de Alencar Rocha, advogado brilhante que
era de uma família pobre do Maranhão, perseguida pelos fazendeiros da
região. Este advogado era na época presidente da Ordem dos
Advogados de Imperatriz, muito reconhecido por seu valor. Advogava a
favor de várias empresas comerciais, como exemplo os Armazéns
Paraíba e outros. Nós o procuramos porque estávamos com um grande
problema jurídico no Bico do Papagaio: a realização de uma ação
discriminatória. E para não perder essa ação, era indispensável a
atuação de um advogado, para que os milhares de posseiros da região
pudessem ser parte nesta ação. Na época meus diplomas franceses não
estavam reconhecidos. Encontramos o Dr. Oswaldo em Imperatriz e ao
explicarmos a situação, imediatamente ele aceitou nos ajudar. Ele
esteve no Bico do Papagaio, fez palestras espetaculares para milhares
de trabalhadores rurais informando-os dos seus direitos, que eles tinham
direito a terra porque a ocupavam a muitos anos, que eles tinham que
resistir e se defenderem, que ele os defenderia como advogado na
justiça. Ele dinamizou todos os posseiros desta região e nós
começamos então a providenciar a documentação jurídica para que os
posseiros pudessem ingressar nesta ação discriminatória, com a ajuda
do Dr. Oswaldo. Logo Oswaldo foi objeto de muitas perseguições e
ameaças. No ano de 1984, ele foi chamado para ser assessor, em
Goiânia, da CPT nacional que descobriu o seu valor. Então foi para lá
com sua mulher e seu filho, e começou a atuar na CPT nacional. Logo
ele foi também chamado para ser professor de direito da Universidade
Católica de Goiânia, onde deixou também uma memória muito forte.
Então não tínhamos mais advogados; nesse momento procurei fazer
reconhecer meus diplomas da França, para poder advogar no Brasil.
Através da Universidade Federal de Goiânia, com apoio de alguns
professores, inclusive do deputado federal Pedro Wilson que foi também
Reitor da Universidade Católica de Goiânia, consegui revalidar meus
diplomas franceses no Brasil. Fiz somente uma prova de Língua
                                                                          75



   Portuguesa, a Faculdade me dispensou de fazer outro curso de direito,
   pois fizeram uma boa avaliação dos meus diplomas franceses, e
   concluíram que eu poderia ser integrado na Ordem dos Advogados do
   Brasil. Então foi em 1984 que comecei a atuar como advogado.
   Assessorado por outros advogados com bastante                competência,
   principalmente Oswaldo de Alencar Rocha, que foi meu mestre, como
   também foi o mestre de vários jovens advogados que o admiravam, na
   região de Gurupi.      Infelizmente perdemos este grande amigo e
   companheiro no ano 2000, ele faleceu em Goiânia, de câncer.

   Foi nesse período que comecei a atuar como advogado dos
   trabalhadores rurais e continuo até hoje no sul do Pará.

9) Que dificuldades mais graves o senhor encontrou para realizar seu
   trabalho pelo povo, no sentido de promoção social?



   As dificuldades foram dos dois lados, do lado do poder público que
   nessa época era a ditadura e depois continuou mesmo na vinda da
   democracia. Realmente as autoridades do poder público, executivo e
   principalmente o judiciário eram contra o povo pobre, os posseiros, os
   trabalhadores rurais. O poder público realmente ficava do lado dos
   fazendeiros. Este funcionamento desigual, parcial e injusto, foi um
   obstáculo muito grande. Havia repressão dura da polícia militar, prisões
   e humilhação, foi um obstáculo muito forte para fazermos a defesa dos
   direitos dos posseiros. Outra dificuldade, pelo menos na região norte,
   no Bico do Papagaio, foi à omissão da Igreja, do clero e às vezes dos
   bispos. Foi também um obstáculo muito doloroso, impedindo o trabalho
   da CPT, a exceção, como já falei, de algumas irmãs, do padre Josimo e
   alguns outros do Bico do Papagaio. Na região de Gurupi e de Porto
   Nacional foi diferente, por causa de Dom Celso Pereira de Almeida,
   bispo de Porto Nacional, que apoiava a luta dos posseiros.
                                                                        76



10)Como o senhor conseguiu vencer a omissão da hierarquia da
  Igreja?



  Não lembro o ano exatamente, mas foi por volta de 1984 e 1985. O
  Bispo de Tocantinópolis, pressionado pelo clero, me proibiu de andar
  pela região de sua diocese e visitar as comunidades. Visitas que já
  realizava a uns dois anos, que eram extremamente importantes para a
  luta em conjunto com os posseiros. Percebi que meu trabalho seria
  impossível, e a defesa jurídica dos posseiros iria acabar. Realmente isso
  foi doloroso para mim. Mas tive a seguinte graça: a sede da CPT era em
  Porto Nacional e o Bispo era Dom Celso. Na época, dom Celso era o
  coordenador da CPT de toda a região do Araguaia e Norte de Goiás que
  hoje é o estado do Tocantins e que me parece abrangia a região de São
  Felix do Araguaia. Dom Celso me deu todo apoio. Saiu de sua diocese e
  foi até a Tocantinópolis, a mais de mil quilômetros, para encontrar Dom
  Cornélio, bispo dessa Diocese. Dom Celso foi muito feliz, pois conseguiu
  reverter a posição de Dom Cornélio, que estava influenciado por parte
  do clero, oposto ao trabalho da CPT. Dom Cornélio era um homem
  muito sensível ao sofrimento do povo e penso que ele pessoalmente não
  era contra o nosso trabalho. Ele voltou atrás. Ainda na presença de dom
  Celso, ele me chamou e deu autorização para continuar o nosso
  trabalho, realizando as visitas, e continuando a conscientização dos
  trabalhadores rurais sobre seus direitos e sua defesa na justiça. Então
  isso foi um exemplo. A partir desse exemplo outros bispos começaram a
  nos apoiar, abrindo os olhos das Igrejas mais fechadas sobre a
  realidade do povo lavrador tão injustiçado e oprimido. Depois me lembro
  muito bem que dom Cornélio mudou muito. Ele começou a dar um apoio
  total ao padre Josimo contra o clero oposto. Uma vez num despejo
  trágico, onde a polícia queimou todos os barracos de uma comunidade
  de posseiros, nós conseguimos levar Dom Cornélio que era um bispo
  muito doente e robusto, locomovia-se com dificuldades, a ir até o povo
  que havia perdido todos os seus pertences. Chegando lá nós
                                                                          77



   percebemos que ele chorava na presença dessas famílias que não
   tinham mais nada. Isso me impressionou muito. No contato com uma
   realidade trágica, as pessoas as vezes mudam e se convertem. Sou
   testemunho que isso aconteceu também com alguns bispos no sul do
   Pará. Até a sua morte dom Cornélio foi um bispo que deu todo apoio ao
   padre Josimo que era praticamente sozinho, muito ameaçado e sem o
   apoio da maior parte do clero. Com esse apoio ao Padre Josimo que
   nessa época era coordenador da CPT Araguaia e Tocantins, os
   posseiros tiveram um forte apoio nas suas lutas.




11) Quais são os desafios e sinais de esperança hoje?



   A maior dificuldade hoje é que a reforma agrária não existe mais. Ela
   está parada. Inclusive no segundo mandato de Lula, o governo não
   definiu ainda um segundo plano da reforma agrária. O governo federal,
   apesar das palavras não tem interesse pela reforma agrária, não tem
   interesse pelo direito a terra dos pequenos agricultores e dos Sem Terra,
   não tem interesse pela agricultura familiar sustentável. O maior desafio e
   preocupação é o modelo de desenvolvimento agrário que está
   promovendo o governo federal e consequentemente os governos
   estaduais, mesmo sendo do PT. Isso é trágico. Esse desenvolvimento é
   o desenvolvimento do agro – negócio, para promover o máximo as
   exportações de monocultura: soja, milho, álcool e gado para o exterior.
   Esse desenvolvimento provoca concentração de terra. E concentração
   de terra significa marginalização dos trabalhadores rurais. Isso significa
   exclusão, exploração e até trabalho escravo. Significa devastação da
   floresta pelo desmatamento. A recente decisão do governo federal em
   2009 sobre a regularização fundiária da Amazônia favorece claramente
   os grandes fazendeiros e vai acrescentar a concentração de terra. Os
   recentes relatórios do Ministério Público Federal, em maio de 2009,
   mostram que a grande maioria das terras do Pará é grilada. Mas o
                                                                       78



  governo federal decidiu que até 1500 hectares, essas terras públicas
  griladas poderão ser regularizadas sem nenhuma prova de títulos e
  poderão ser vendidas após três anos. Os grandes fazendeiros, através
  de laranjas, e vários membros das suas famílias vão conseguir
  apropriar-se de vários lotes de 1500 hectares e pressionar os pequenos
  a vender. Esta decisão é a legitimação da grilagem de terra pelo
  latifúndio, a incitação a concentração de terra consequentemente ao
  desmatamento e a violência. Essa é a maior preocupação. Sinais de
  esperança? Apesar de tudo, existe resistência dos trabalhadores rurais,
  dos sem terra, dos quilombolas, das reservas indígenas e dos
  ribeirinhos. Esses últimos que são já demasiadamente atingidos
  continuarão a ser atingidos pelas barragens que serão construídas. Esta
  resistência é a que Dom Cappio tomou partido, ele é um exemplo muito
  forte. Na nossa região tem a resistência dos Sem Terra, que ocupam
  várias fazendas desse famoso e triste Daniel Dantas, dono do banco
  Oportunity.   Terras que tudo indica foram griladas; terras compradas
  com lavagem de dinheiro; terras bloqueadas pelos juízes federais.
  Muitas delas são ocupadas pelos sem terra, que sabem que a
  legitimidade está a seu favor, porque são terras que foram roubadas e
  que deveriam ser destinadas à reforma agrária.     Esta resistência do
  povo, principalmente do movimento dos Sem Terra, organização que
  tem a avaliação mais profunda da perversidade do modelo de
  desenvolvimento rural do governo federal. Também, resistências de
  muitas equipes da CPT que realizam um trabalho extraordinário junto às
  organizações dos trabalhadores.




12)Baseado na sua experiência de três décadas no Brasil, o que o
  senhor pode sugerir para um estudante de teologia em face dos
  grandes problemas da Igreja no Brasil?
                                                                     79



Para os estudantes de teologia, acho que nunca devemos perder de
vista, a nossa motivação fundamental, que é uma busca constante de
conhecer e viver mais a presença do Senhor Jesus e segui-lo. Pois
Jesus se identificou com os pobres. O documento de Aparecida, de
2007, possui dimensões profundas, afirmando que no rosto do pobre
descobrimos o rosto de Jesus. O objetivo e finalidade da nossa vida
religiosa, dos nossos estudos filosóficos, teológicos e bíblicos têm que
ser sempre voltados para Jesus. Esses estudos têm que nos ajudar a
identificar-nos e vivermos mais com Jesus, aprofundar esta opção pelos
pobres, pois Jesus se identificou com os pobres. Todos os nossos
estudos da realidade, sócio – econômica, política e religiosa é para
encontrarmos, onde na realidade da nossa região, da nossa época estão
as vítimas dos sistemas humanos, os quais sempre marginalizam os
pobres e favorecem as classes dominantes. É isso que nós dominicanos
não podemos esquecer, porque foi realmente uma opção profunda de
São Domingos, procurar aqueles que no contexto de sua época eram os
mais isolados e marginalizados. Como os Cátaros que eram eréticos.
Mas Domingos soube perceber os valores que possuíam, e como
prioridade aproximou-se deles, sem violência e condenação. Aproximou-
se através do diálogo, conhecendo cada vez mais seus valores, pois de
certa maneira eram os pobres de sua época. Outra grande preocupação
de Domingos foram os Cumanos, povo desconhecido e isolado do Norte
da Europa medieval. Esses gestos proféticos e cheios de compaixão
devem nos motivar e iluminar a nossa caminhada, a compaixão de São
Domingos, grande intelectual que vendeu seus livros para ajudar os
pobres, proclamando que não servia ficar estudando em peles mortas,
enquanto outros morriam de fome. Este questionamento tem que estar
sempre muito, muito vivo e presente na nossa vida dominicana. Pois
essa é a motivação da compaixão de São Domingos pelos pobres.
Também não podemos esquecer que estamos na América Latina, e
temos a sorte incrível de ter o testemunho do dominicano Bartolomeu de
Las Casas, o defensor dos índios, dos pobres na América Latina.
                                                                          80



  Inclusive é ele o verdadeiro inspirador da Teologia da Libertação. Ele
  tem que ser para nós uma referência. A realidade que ele descobriu na
  sua época, graças também ao testemunho de dominicanos entre eles
  Montesinos e Pedro de Cordoba, transformaram Las Casas e abriu seus
  olhos sobre a realidade das vítimas de um sistema de opressão. Esta
  mesma realidade existe hoje de maneira diferente. Os pobres, as
  vítimas, os oprimidos existem hoje na nossa América Latina, vítimas
  também de um sistema opressor como era o sistema da colonização da
  época. Isso é a nossa graça e nossa responsabilidade, por causa de
  São Domingos, por causa de Bartolomeu de Las Casas: não podemos
  escapar disso, é essa a nossa missão descobrir hoje o pobre
  concretamente na realidade, o qual se identificou Jesus, se identificou
  Domingos e se identificou Bartolomeu de Las Casas. Então os estudos
  de um jovem dominicano não podem perder de vista essa meta. Sejam
  eles bíblicos, teológicos, antropológicos e filosóficos, são meios para nos
  ajudar a estar ao serviço do povo pobre de hoje para torná-los
  protagonistas,   como   fez   são   Domingos.    Protagonistas    de   sua
  transformação e libertação. Nunca podemos esquecer que Jesus veio
  para que todos, todos tenham vida e a vida em abundância. Talvez a
  vida em abundância possa ser só no fim dessa vida terrestre. Mas a
  vida, a vida sempre concreta hoje tem que ser de todos. E nós temos
  que ser lutadores para que os pobres de hoje alcancem o seu direito a
  vida.

13) Aos estudantes dominicanos que pediram essa entrevista.



  Como são os jovens dominicanos que pediram essa entrevista, dei um
  pouco do meu pequenino testemunho pessoal. Eu quero dizer algo mais.
  Eu não sei o que fiz na minha vida, mas queria testemunhar a alegria e
  coerência que senti no meu trabalho na América Latina, no Brasil. A
  motivação que tenho em mim, eu sei que devo a Ordem Dominicana e a
  compreensão dos meus superiores dominicanos seja da França, ou do
                                                                       81



Brasil. Então se eu consegui a dar um pequeno testemunho, através
dessa pequena ajuda na defesa do direito dos pobres do campo, estou
convicto que é absolutamente graças a Ordem Dominicana e a vários
testemunhos autênticos que tive a graça de encontrar na minha
caminhada    aqui,   junto   com    as   lutas dos   pobres   do   campo,
principalmente no testemunho e apoio de dom Tomás Balduino, tão
motivador, na luta pela terra. Eu tenho um profundo agradecimento e
reconhecimento, a tudo que obtive na vida dominicana através de meus
irmãos e também da história de São Domingos e Bartolomeu de Las
Casas, pois me fizeram perceber a importância dessa luta.

Quando falo da minha gratidão a Ordem Dominicana, estou falando do
apoio, da motivação e do testemunho de vários dos confrades que
convivi principalmente no Brasil.

Não posso deixar de falar também do testemunho das irmãs
dominicanas, de diversas congregações. Várias irmãs dominicanas
tiveram um papel importante na minha vida e no meu compromisso.
Como qualquer um, passei por dificuldades e desânimo, elas me deram
muita força, através do carinho, da presença e do testemunho, inclusive
algumas que trabalharam comigo. Irmãs dominicanas e irmãs de outra
congregação como as irmãs Mada e Bia de uma congregação do leste
da França cujo testemunho de vida me marcou e me motivou
profundamente. Temos a tendência de falar de nossos irmãos
dominicanos, e às vezes não falar das irmãs, isso é uma verdade, mas
nos temos a graça no Brasil através da intuição de São Domingos, de ter
as irmãs dominicanas.

Outro grupo que quero destacar no fim, em especial é a família
dominicana, marcada pela presença importante de leigas e leigos. A
comissão justiça e paz da família dominicana – que está celebrando
seus vinte anos de fundação - foi importantíssima para mim, pois ela foi
concretamente solidária, em momentos de grandes dificuldades que a
nossa equipe da CPT e eu pessoalmente passamos. E uma das minhas
                                                                                   82



alegrias é ver que algumas de minhas colegas da CPT, como Aninha,
possuem como fonte de espiritualidade a família dominicana, com sua
comissão de Justiça e paz no Brasil.

(Revista pelo Frei Henri com a ajuda de Aparecida Almeida no Hospital Sarah Kubtschek,
15.09.09 Brasília, Brasil)




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