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									   PRESBÍTERO, DISCÍPULO E
MISSIONÁRIO DE JESUS CRISTO NA
       AMÉRICA LATINA


                                       “...chamou-os para estar com
                                       Ele e enviá-los em missão...”
                                                     (cf. Mc 3,13-14)




    12º ENCONTRO NACIONAL DE PRESBÍTEROS
           09 a 13 de fevereiro de 2008
              Itaici, Indaiatuba - SP
      Comissão Nacional dos Presbíteros - CNP



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   A CNP - Comissão Nacional dos Presbíteros, responsável por essa publicação,
   agradece a valiosa contribuição do Pe. Tarcísio Rech - Assessor e do Pe. José
    Oscar Beozzo, redator do presente texto, trabalhado e assumido pela CNP,
                   como instrumento preparatório ao 12º ENP.




               Capa: Pe. Paulo Sérgio Vital e Sara Nunes Silva Brito
                   Projeto gráfico: Ana Cláudia de Sousa Santos
                         Revisão: Diác. Ribamar de Moraes




                  Comissão Nacional dos Presbíteros – CNP
    Organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
                      SE/Sul Quadra 801, Conjunto “B”
          70401-900 Brasília – DF Caixa Postal 01067 / 70259-970
Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada
       svm@cnbb.org.br / cnp@cnbb.org.br http://www.cnbb.org.br/

                Fone: (61) 2103-8300 / 2103-8352 / 2103-8326




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                  A P R E S E N T A Ç Ã O


     Queridos irmãos presbíteros da Igreja no Brasil! Com afetuosa saudação em Cristo
a Comissão Nacional dos Presbíteros (CNP) faz chegar a vocês este texto-base, subsídio
de preparação do 12º Encontro Nacional de Presbíteros (ENP).
     Em comunhão com a Igreja na América Latina e no Caribe, que celebra sua V
Conferência em Aparecida, escolhemos como tema do 12º ENP “Presbítero, discípulo e
missionário de Jesus Cristo na América Latina”. A Palavra de Deus nos ilumina dando-
nos o lema em Mc 3,13-14 “... hamou-os para estar com Ele e envia-los em missão...”
      Somos muito gratos ao nosso irmão Pe. José Oscar Beozzo que, com muito carinho
(quando você quiser uma boa contribuição é bom pedir a quem já faz muito) e muita
competência, elaborou o presente texto, trabalhado e assumido pela CNP. Não se trata,
evidentemente de um texto acabado ou conclusivo, ao contrário, pretende provocar a
reflexão e madurecimento pessoal e coletivo da temática, em nossos presbitérios e
                            o
regionais, no processo do 12 ENP.
     Não é demais lembrar, ainda uma vez, que os ENPs são um momento privilegiado
da graça de Deus para nós presbíteros e para toda a Igreja no Brasil. Queremos que esse
encontro nos ajude a nos tornarmos mais discípulos de Jesus e seus missionários no
mundo. A participação e o envolvimento de cada um de nós serão decisivos para isso.
Nesse sentido, preferimos não elaborar questões, mas sugerir que os presbitérios e
regionais definam, de acordo com a própria realidade, a metodologia mais conveniente
para a reflexão deste texto base.
     Caros irmãos presbitéros, nós sonhamos uma Igreja Comunhão de todos: bispos,
padres, religiosos(as), leigos(as); por isso, motivem e envolvam também suas paróquias e
comunidades para que o ENP ultrapasse cada vez mais, como já acontece, o âmbito
presbiteral e se transforme num evento eclesial.
      A preciosa reflexão que temos em mãos torna presentes grandes discípulos e
missionários de Jesus Cristo no Brasil e na América Latina; sejam eles nossos
inspiradores.
     Que Maria Santíssima, discípula fiel; mãe de Guadalupe, Aparecida e de tantas
outras devoções, nos acompanhe com sua ternura.
     Jesus Cristo, Mestre e Pastor, nos ajude a progredir mais e mais no discipulado e no
assumir a missão.

                                                                  † Dom Anuar Battisti
                                                         Arcebispo de Maringá, Paraná
      Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida
                                                                          Consagrada

                                                             Pe. José Pietrobom Rotta
                                       Presidente da Comissão Nacional dos Presbíteros




                                                                                       3
                            I N T R O D U Ç Ã O
        O QUE SIGNIFICA HOJE SER DISCÍPULO E MISSIONÁRIOS DE JESUS CRISTO NO
                    CONTINENTE LATINO-AMERICANO E CARIBENHO?



      O 12º Encontro Nacional de Presbíteros (ENP), que começou a ser preparado às
vésperas da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americana em Aparecida, coloca
explicitamente o chão e o horizonte da América Latina e do Caribe como uma das âncoras
para a sua reflexão e propostas de ação.
      A interrogação principal é saber o que significa hoje ser discípulo e missionário de
Jesus Cristo neste continente, onde a redescoberta do seguimento de Jesus, frente aos
desafios da realidade vivida pelo povo latino-americano, levou muitos a darem a própria
vida, selando com o martírio a fidelidade concreta ao Mestre e ao seu Evangelho.
      Das três dimensões que compõem o segredo e a fecundidade das comunidades
cristãs: o serviço (diakonia), o amor fraterno (koinonia), o testemunho (martiria), coube
à América Latina viver de maneira extrema, o entregar a própria vida no serviço fiel e
destemido aos mais pobres e à sua libertação, em todos os rincões do continente.
      Pessoas humildes, mães de família, catequistas, ministros da Palavra, dirigentes de
comunidades de base, agentes de pastoral, defensores e defensoras dos direitos humanos,
jovens, como também religiosas, presbíteros e mesmo bispos, como Enrique Angelelli 1,
na Argentina; Oscar Ranulfo Romero (24-03-1980), em El Salvador e Mons. Juan
Gerardi na Guatemala, foram chamados a dar esse testemunho radical de entrega das
próprias vidas, em favor da justiça, da paz e da reconciliação. Somos assim
acompanhados na Conferência de Aparecida e no 12º ENP por uma grande nuvem de
mártires, como nos diz o Apocalipse:
                     “Um dos anciãos se dirigiu a mim e me perguntou: Esses que têm vestes brancas,
                     quem são e de onde vêm? Respondi: Tu sabes, Senhor. Ele me disse: Esses são os
                     que saíram da grande tribulação, lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do
                     Cordeiro. [...] Não passarão nem fome, nem sede, o sol não os prejudicará, nem o
                     mormaço, porque o Cordeiro que está no trono os apascentará e os guiará a fontes
                     de água viva. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos”(Ap 7, 13-17).
      No Brasil, alguns colegas presbíteros, nascidos aqui ou vindos do exterior,
engrossaram esta nuvem de mártires: o Pe. Rodolfo Lukenbein (1976), salesiano alemão,
defensor das terras indígenas de Bororos e Xavantes ocupadas por fazendeiros e grileiros,
assassinado ao lado do índio Simão Bororo, na Aldeia de Sangradouro, MT; Pe. João
Bosco Penido Burnier (1976), morto com um tiro na cabeça desfechado à queima roupa,
ao protestar junto com Dom Pedro Casaldáliga contra a tortura de mulheres lavradoras
presas na cadeia de Ribeirão Bonito, MT; Pe. Ezequiel Ramin, comboniano italiano
assassinado na corajosa denúncia da invasão das terras dos indígenas no lado mato-
grossense da diocese de Ji-Paraná em Rondônia; Pe. Josimo Tavares (1986),
coordenador da CPT do Tocantins que tombou na defesa de posseiros ameaçados e
fustigados por fazendeiros da região do Bico de Papagaio.
      O recente assassinato em Anapu (2005), da Ir. Dorothy Stang, que trabalhava na
CPT no sul do Pará, lembra-nos que a temporada dos martírios não se encerrou com as

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   Enrique Angelelli, bispo de La Rioja, na Argentina, foi morto pelos militares no dia 4 de agosto de 1976. Seu
    1

assassinato foi camuflado num inexplicável acidente de carro na estrada da paróquia de Chamical a La Rioja,
onde o bispo fora celebrar pelos dois sacerdotes de Chamical, Gabriel Longueville e Carlos de Dios Murias,
OFMConv, seqüestrados e assassinados no dia 18 de julho e de mais um lavrador leigo Wenceslao Pedernera,
líder de sua comunidade, também assassinado no dia 25 de julho. Morreram todos eles por causa do seu amor
aos pobres e da defesa dos seus direitos. Cfr. AMIRATTI, Padre Armando e LA CIVITA, Padre Miguel Angel,
Monseñor Enrique Angelelli “El corazón de un Mártir. El perfil de un Obispo del Concilio”. Cordoba: Ediciones
Tiempo Latinoamericano, 1996, pp. 91-102.

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conturbadas décadas de 70 e 80, mas que é risco permanente daquelas e daqueles que
continuam seguindo os passos de Jesus no compromisso libertador e na solidariedade
com os pequenos. A conotação pode mudar, mas não as causas do martírio e sua
motivação profunda: o testemunho evangélico em favor da justiça. Hoje, a
denúncia da violação dos direitos humanos e a defesa da vida, ameaçada pela devastação
do meio ambiente, pela destruição da mata, a poluição das águas, pelo risco da
legalização do aborto e da eutanásia e pela manipulação genética, estão substituindo a
resistência às ditaduras militares, na lista dos riscos assumidos que podem levar ao
martírio.
      É pois sob a inspiração e invocação desta nuvem de mártires do Brasil e de toda a
América Latina e do Caribe, colocando-nos sob a sua proteção e animados por seu
exemplo que nos debruçamos sobre o tema deste 12º ENP.
      Dom Pedro Casaldáliga quis oferecer esta oração para todos os colegas presbíteros
do Brasil, em sinal de comunhão fraterna e de bênção para o próximo ENP.

           ORAÇÃO DA IRMANDADE DOS MÁRTIRES DA CAMINHADA LATINO-
                                AMERICANA
     Deus da Vida e do Amor, Trindade Santa:
     Em Irmandade com os Mártires
     da Caminhada da Nossa América,
     vos louvamos e agradecemos
     pela força que derramastes em seus corações
     para darem a vida e a morte
     pela Vida, no Amor.
     Como Jesus, foram fiéis até o fim
     e deram a prova maior.
     Por Ele e com Ele,
     venceram o pecado, a escravidão e a morte
     e vivem gloriosos, sendo páscoa na Páscoa.
     Derramai também em nós o vosso Espírito
     de união, de fortaleza e de alegria,
     para que demos totalmente nossas vidas
     pela causa do vosso Reino.
     Por esses muitos irmãos e irmãs,
     testemunhas pascais.
     Por Maria, a mãe da Testemunha Fiel.
     E pelo mesmo Jesus Cristo,
     o Crucificado Ressuscitado,
     Primogênito vencedor da morte.
     Amém, Axé, Awere, Aleluia!
                                                                        Dom Pedro Casaldáliga
                                            Bispo Prelado emérito de São Félix do Araguaia, MT
                                                              Páscoa da Ressurreição de 2007.




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  1 .  S E G U I R   J E S U S  P E L O S
   C A M I N H O S    D A  A M É R I C A
         L A T I N A   R U M O   A
             A P A R E C I D A

      Somos chamados a nos debruçar sobre a experiência de Jesus como o melhor
espelho e modelo para a Igreja, como um todo, e para cada um de nós, presbíteros, em
particular. O lema escolhido para este 12º ENP foi tirado de Marcos, o evangelista que
centra a força do anúncio mais nos gestos dos que nas palavras de Jesus: “...chamou-os
para estar com ele e enviá-los em missão...” (cf. Mc 3, 13- 14).
      O gesto que precede o envio à missão é o de chamar os discípulos para “estar com
ele”, o que denota privar da amizade e da intimidade nas relações entre as pessoas e a
permanência na fidelidade, promessa implícita de toda relação amorosa. Este chamado
guarda muita semelhança com a passagem do Apocalipse em que o anjo da Igreja de
Laodicéia dirige-se à comunidade dizendo: “Conheço as tuas obras: não és nem frio nem
quente. Oxalá fosses frio ou quente, mas, visto que é morno, nem frio, nem quente, vou te
vomitar da minha boca” (Ap 3, 15-16). Ao final, vem à interpelação dirigida àquela
comunidade e também a nós hoje: “Corrijo e repreendo os que amo. Sê fervoroso e
arrepende-te. Vê: estou batendo à porta. Se alguém escuta meu chamado e abre a porta,
entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3, 19-20). O convite para “estar
com ele” envolve retomar o antigo fervor, deixar de ser nem frio e nem quente e abrir-se
à intimidade daquele que bate à nossa porta para cear conosco, “ele conosco e nós com
ele”.
      A narrativa da escolha dos doze e o seu envio em missão é aparentemente a mesma
nos três evangelhos sinóticos, mas há, em cada um deles, particularidades ausentes dos
demais.

     1.1. Discípulos e missionários de Jesus segundo Lucas
      Lucas diz que Jesus os chamou, já de início, de “apóstolos”, enviados e
missionários. “Quando se fez dia, chamou os discípulos, escolheu entre eles doze e os
nomeou apóstolos...” (Lc 6, 13b).
      Há também em Lucas uma notação típica do seu Evangelho e omitida pelos demais
evangelistas. Antes de escolher os doze, Jesus não apenas subiu à montanha, mas passou
a noite toda em oração (cf. Lc 6, 12). Para Lucas, esta mesma atitude orante e de
comunhão íntima com Deus acompanhou Jesus, noutros momentos chaves de sua vida,
como no batismo: “Enquanto todo o povo se batizava, também Jesus se batizou; e
enquanto orava o céu se abriu, desceu sobre ele o Espírito Santo em figura corpórea de
pomba e ouviu-se a voz do céu: Tu és o meu filho querido, o meu predileto” (Lc 3, 21-22).
É em meio à oração, que acontece igualmente a transfiguração, oito dias depois que
Pedro e os demais discípulos se opõem à subida para Jerusalém, por causa do anúncio de
seus sofrimentos, rejeição e morte: “O Filho Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado
pelos senadores, sumos sacerdotes e letrados, tem de ser condenado à morte e ressuscitar
ao terceiro dia” (Lc 9,22).


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      Assim, narra Lucas este episódio tão central e incompreendido pelos três amigos
mais íntimos e que antecipa, de certo modo, sua ressurreição, depois de passar pela
paixão e morte: “Oito dias depois dessas palavras, tomou Pedro, João e Tiago e subiu a
um monte para orar. Enquanto orava, seu rosto mudou de aspecto e suas vestes
resplandeciam de brancura” (Lc 9, 28-29). Ali, como no batismo, ouve-se uma voz do céu
que repete a afirmação batismal da total benquerença de Deus em relação ao homem
Jesus Cristo, mas acrescida de uma ordem quase peremptória: “escutai-o”, diante da
dificuldade dos apóstolos de acolherem o caminho de sofrimento e morte de onde Deus
faz brotar ressurreição e vida: “Da nuvem veio uma voz que dizia: Este é meu filho
escolhido. Escutai-o” (Lc 9, 35).
      Lucas em vez da longa instrução de como devem comportar-se os apóstolos
enviados em missão, típica de Mateus, no seu “discurso missionário” do capítulo 10,
combina a escolha dos doze, com a entrega do seu programa de ungido por Deus, o
sermão da planície (e não na montanha como em Mateus, 5, 1ss), dirigido para toda a
multidão que o acompanhava. Porém, o olhar de Jesus volta-se para os discípulos, talvez
antevendo nossa dificuldade em assimilar e seguir as consignas radicais do mestre:
Dirigindo o olhar aos discípulos, dizia-lhes: “Felizes os pobres, porque o reinado de
Deus lhes pertence. Felizes os que agora passais fome, porque vos saciareis. Felizes os
que agora chorais, porque rireis, felizes quando os homens vos odiarem, vos desterrarem,
vos insultarem, e difamarem vosso nome por causa deste Homem. Saltai então de alegria,
porque vosso prêmio no céu é abundante. Assim vossos pais trataram os profetas” (Lc 6,
20-23).
      Seguem-se os “ais” que ecoam o destemor e firmeza dos profetas do Antigo
Testamento: “Mas, ai de vós ricos, porque recebeis vosso consolo; ai de vós, que agora
estais saciados, porque passareis fome; ai de vós que agora rides, porque chorareis e
fareis luto; Ai de vós quando todos falarem bem de vós. Assim vossos pais trataram os
falsos profetas” (Lc 6, 24-26).

     No Coração da Missão, a sempre atual opção pelos pobres
      Já ouvimos, com espanto e desconcerto, de colegas presbíteros a expressão: “Já
estou cheio de ouvir falar dos pobres; a Igreja abandonou os ricos; os tempos são outros;
a opção preferencial pelos pobres é coisa do passado, sem lugar na pós-modernidade e no
terceiro milênio. Precisamos nos modernizar”.
      Talvez nem se dêem conta de que estão afirmando que não há mais lugar em suas
vidas e na da Igreja, nem para Jesus de Nazaré, nem para o seu evangelho, pura boa
notícia para os pobres, aos quais Ele veio anunciar a novidade do seu reino, a libertação
dos cativos, a vista aos cegos, a liberdade aos oprimidos e proclamar o ano da graça do
Senhor (Lc. 4, 18-19).
      Estaríamos de acordo se a constatação fosse outra e não menos questionadora para
nós: quão distantes nos encontramos, na nossa prática quotidiana e no nosso modo de
viver, deste mandamento evangélico; quanto precisamos avançar ainda, no profético
caminho de nos juntarmos solidariamente aos oprimidos na sua histórica luta de
libertação!
      Além disso, deve haver certamente dificuldades reais em recuperar o sentido da
opção preferencial pelos pobres e que, por isso mesmo, pensamos retomar ao tratar de
Medellín.

     1.2. Discípulos e missionários de Jesus segundo Mateus
      Em Mateus, a escolha dos doze acontece na seqüência da comoção que tomou conta
de Jesus ao ver o desamparo da multidão e do sentimento de urgência que experimentou,
por se encontrar uma saída para esta situação dolorosa:


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                      “Vendo a multidão, comoveu-se por eles, porque andavam maltratados e
                      prostrados, como ovelhas sem pastor. Então disse aos discípulos: a messe é
                      abundante, os trabalhadores são poucos. Rogai ao dono da messe que envie
                      trabalhadores à sua messe. E chamando seus doze discípulos, conferiu-lhes poder
                      sobre os espíritos imundos, para expulsá-los e para curar todo tipo de
                      enfermidades e doenças” (Mt 9, 36-37; 10, 1).
      As recomendações para a missão começam paradoxalmente com duas proibições e
uma indicação positiva: “Não tomeis os caminhos dos pagãos e não entreis em cidade dos
samaritanos, ide antes às ovelhas desgarradas da Casa de Israel” (Mt 10, 5).
      A consigna é repetida para justificar a recusa de Jesus de falar com a mulher
Cananéia, uma pagã, que corria atrás dele, gritando em favor da filha atormentada por
um demônio e pela qual intercediam os discípulos. A resposta, dá à sua recusa um
fundamento na missão que recebeu do próprio Pai: “Não fui enviado senão às ovelhas
desgarradas da Casa de Israel” (Mt. 15, 24).
      A insistência da mulher que corta o caminho de Jesus, jogando-se aos seus pés e
contra-argumenta com ele, acaba por forçá-lo a mudar a convicção equivocada de sua
missão. Ao receber o tratamento ofensivo de “cachorro” dado pelos judeus aos “goim”,
aos estrangeiros, a Cananéia responde a Jesus com convicção e desassombro: “É verdade,
Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus
donos” (Mt 15, 27). A Cananéia ouve então de Jesus o elogio que só é atribuído nos
evangelho a dois estrangeiros, a ela e ao centurião romano: “Mulher, que fé tão grande
tens. Que teus desejos se cumpram” (Mt. 15, 28).
      A mulher demove Jesus de sua concepção estreita de missão que erguia muros de
separação entre judeus e não judeus, ou seja entre estes e os pagãos e samaritanos. A
partir deste episódio, abre-se Jesus para uma visão da missão que passa a abraçar a todos
os necessitados, mulheres e homens que se dirigem a ele, apoiados não mais na raça ou
no exclusivismo religioso, mas apenas na fé.
      Este evento se enlaça com o de Cornélio nos Atos, para compor a mudança
estratégica dos destinatários da missão nas primeiras comunidades, abrindo-a para os
pagãos (cfr. At 10, 1-48). Pedro, ao entrar na casa de Cornélio, declara: “Sabeis que é
proibido a qualquer judeu juntar-se a pessoas de outra raça ou visitá-las. Mas a mim,
Deus ensinou que eu não considere profano ou impuro nenhum homem. Por isso,
quando me chamastes, vim sem resistir” (At 10, 29).

         1.3. Discípulos e missionários de Jesus segundo Marcos
     Para o autor da tradução e notas da Bíblia do Peregrino, Luís Alonso Schökel, a
passagem do chamado está assim descrita:
                      “A cena é a escolha dos doze, articulada significativamente em dois tempos.
                      Chamado espontâneo e livre de Jesus, ‘os que quis’(cf. Sl 115, 3; Jo 15-16) e
                      nomeação de um grupo restrito de doze (muitos manuscritos acrescentam o
                      título de apóstolos). .... Por ofício e mentalidade, são de origem diversa: honrados
                      pescadores e coletor suspeito, gente pacífica e o extremista Simão zelote, (cf. 1Mc 2,
                      26-27.50; 2Mc 4, 2). Judas projeta já uma sombra premonitória, com o verbo
                      ‘entregar’ como palavra-chave no livro. Para eles e por ora, o importante é
                      ‘conviver’ com Jesus; daí partirá a missão, que prolongará com autoridade delegada
                      a atividade de Jesus. Um fato tão óbvio como estar com outra pessoa começa a ter
                      uma transcendência incalculável, já que o ‘estar com’ é recíproco” 2.
     O típico de Marcos no chamado dos doze é o objetivo primeiro desta vocação:
chamou-os para “estar com ele” (Mc 3, 14). Por isso, é tão desconcertante o registro no
próprio Marcos de que, no momento arriscado e perigoso da prisão de Jesus, “todos o
abandonaram e fugiram” (Mc. 14,50). A traição é de Judas, a negação é de Pedro,


2
    SCHÖKEL Luís Alonso, Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2002, nota a Mc 3, 13-19, p. 2401.

                                                                                                          8
mas o abandono e a fuga covarde, é de todos, ou seja daqueles apóstolos escolhidos um a
um, a dedo e com todo cuidado, como a cada um de nós, presbíteros de hoje!
      Está cheia de pura ironia a narrativa de Marcos, depois que Jesus afirmou: “Todos
tropeçareis, como está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão (Zc 13, 11).
Mas quando ressuscitar, irei diante de vós para a Galiléia” (Mc 14, 27-28). Marcos coloca
então na boca de Pedro a viva reação: “Ainda que todos tropecem, eu não!” (Mc 14, 29).
Acrescenta ainda esta insistência convicta de Pedro: “Ainda que deva morrer contigo, não
te negarei!” (Mc. 14, 31). E, finalmente, de modo lacônico, insere a constatação que
transformava os doze, num só bloco monolítico, prontos para continuar seguindo Jesus,
mesmo no risco e até na morte: “O mesmo diziam os outros” (Mc 14, 31). Nesta hora,
Judas já vai se afastando, para ir de encontro aos inimigos de Jesus, a fim de receber sua
paga e guiá-los até o Mestre pela escuridão do Horto das Oliveiras.
      Na lista dos nomes dos doze (Mt 10, 2-4; Mc 3, 16-19 e Lc 6, 14-16), há oscilações na
ordem seqüêncial, mas duas invariantes: o primeiro nome é sempre o de “Simão,
chamado Pedro” (Mt 10, 2) e o último o de Judas Iscariotes “que se tornou um traidor”
(Lc. 6, 16).
      É dramático constatar, como logo no primeiro dia do chamado já se perfila a
sombra da traição futura de Judas, deixando em aberto o jogo da fidelidade e da traição,
que atravessa o grupo dos doze, a história toda da Igreja e a de nossas vidas pessoais.
      O que Marcos acrescenta ainda em relação aos demais relatos evangélicos é uma
pequena notação, de caráter pedagógico, a meu ver, estratégica.
      Abrindo seu capítulo sobre a missão, Marcos nos diz: “Chamou os doze e os foi
enviando dois a dois...” (Mc 6, 7). Dois a dois, denota a superação do individualismo e
de uma visão estreita de missão, centrada na pessoa do presbítero e tão perniciosa ao
apostolado, que só frutifica como humilde e perseverante colaboração fraterna que une
irmãos presbíteros com irmãs e irmãos leigos e leigas, na ampla diversidade de dons e
carismas, em que um planta, outro rega e um terceiro vai colher os frutos; em que o
melhor testemunho é a comunhão fraterna e amiga dos presbíteros entre si e com os
demais agentes de pastoral e não na feroz disputa pelos melhores lugares, pelas
paróquias mais rentáveis ou na rancorosa inveja dos dons e qualidades dos demais
colegas ou no continuo difamar do trabalho e dos esforços dos demais.
      Esta visão do trabalho mais amplo e diversificado dos muitos ministérios aparece
na perspectiva inovadora de Lucas que apresenta ao lado do envio dos doze, um outro
envio, agora de 72 discípulos.
      Lucas coincide com Marcos, ao afirmar que o trabalho deve ser realizado
comunitariamente e em cooperação, “dois a dois”, insistindo no tema de que a messe é
grande e os operários são poucos, necessitando-se de um grande mutirão, para se
responder às muitas e variadas necessidades, às inúmeras demandas e urgências:
      “Um pouco depois, o Senhor designou outros setenta e dois e os enviou à frente, de
dois a dois, a todas as cidades e lugares onde pensava ir. Dizia-lhes: A messe é muita, os
operários poucos; pedi ao dono da messe que envie operários à sua messe. Ide, eu vos
envio como ovelhas entre lobos” (Lc 10, 1-3).

     Discípulos e missionários na gratuidade
     Coloca-se como fecho desta chamada inicial tirada de Marcos: “...chamou-os
para estar com Ele e enviá-los em missão” (Mc 3,14), aquele diferencial e pedra de
toque que tanto para Mateus como para Paulo constituem o segredo e a exigência maior
do discípulo e missionário, na imitação e no seguimento do Cristo: “De graça o
recebestes, dai-o de graça” (Mt 10, 9b).
     Em tempos em que as leis do mercado tudo dominam e em que os bens mais
necessários se tornam “mercadoria”, objeto de compra e venda, em que só se obtém um
remédio ou um copo d’água, contra pagamento em dinheiro; em que a corrupção atinge o

                                                                                         9
Estado, mas também as igrejas, para escândalo dos pequenos, o testemunho da
gratuidade na missão e na pastoral, na dispensa dos sacramentos, nos demais serviços
e ministérios aliados à simplicidade de vida do presbítero, são exigências maiores no
seguimento de Jesus.
      Os sinais precursores dos tempos messiânicos, em Isaias, acontecem na mudança
concreta das relações econômicas, em que os que são pobres poderão aceder
gratuitamente à água e ao pão: “Atenção, sedentos! Vinde às águas, também vós que não
tendes dinheiro: vinde, comprai trigo, comei sem pagar, vinho e leite, gratuitamente”
(Is. 55, 1).
      Na prática quotidiana, nossas comunidades e nós presbíteros, somos chamados a
subverter a lógica atual que proclama “fora do mercado não há salvação”, pela lógica do
evangelho de Jesus:“fora da gratuidade e da partilha, não há salvação”.
      Não é sem razão que grupos novos habitados por esta radical entrega e testemunho
de pobreza e gratuidade encontram um eco surpreendente e não sabem mais como
acolher tantas pessoas que batem às suas portas, enquanto outros se lançam em custosas
campanhas vocacionais, com muito marketing, pouca eficácia e às vezes escassa
evangelicidade.

     1.4. Discípulos e missionários de Jesus segundo João
      O modo de João tratar o chamado dos primeiros discípulos é diferente dos
evangelhos sinóticos. João parte desde o início de um diálogo pessoal. Destacamos três
verbos que denotam bem a dinâmica vocacional e missionária dos seguidores de Jesus:
procurar, seguir, permanecer.
      Aos dois homens que o seguiam, Jesus voltando-se, pergunta: “O que estais
procurando?” (Jo 1, 38). E quando eles disseram que queriam saber onde Jesus morava,
Ele simplesmente disse-lhes: “Vinde e vede” (Jo 1, 39). Os dois o seguiram, viram onde
Ele morava e permaneceram com Ele naquele dia. Depois dessa experiência, os dois
saíram e encontrando-se com seus companheiros de caminhada, disseram-lhes:
Encontramos o Messias e os conduziram até Jesus (cf. Jo 1,35-42).
      Essa narrativa faz emergir a necessária e permanente busca do sentido original e
pessoal do chamado para ser seguidor de Jesus. Procurar, seguir, permanecer são
movimentos que implicam um dinamismo constante. Nunca estará acabada a nossa
busca, que vai se esclarecendo no seguimento de Jesus e reforça a nossa
vontade de n’Ele permanecer. Trata-se de um desenvolvimento gradual e
permanente. Na verdade, escutar constantemente a voz do Cristo que nos diz: “vinde e
vede”, coloca-nos no cerne do ser Igreja, como Assembléia dos chamados, dos
convocados, a “qahal” do Antigo Testamento. Revela, ao mesmo tempo, que a liberdade e
a experiência da libertação estão na raiz do ser Igreja, pois liberdade é essencial à
resposta a esse chamado; liberdade expressa numa resposta positiva, que qualifica a
adesão pessoal e profunda, como doação de amor e ato consciente do seguimento daquele
que nos chamou para a liberdade.
      Em João, encontramos ainda o amor como qualificativo central do seguimento. É o
amor que faz com que Maria Madalena, o discípulo amado e Maria, Mãe de Jesus,
permaneçam ao pé de Jesus agonizante na cruz. É o amor que arrasta as mulheres
discípulas, de madrugada, no primeiro dia da semana, para o horto onde ele fora
sepultado. É o mesmo amor que faz com que Maria Madalena, chorando continue na
busca do seu Senhor e responda à pergunta do Ressuscitado: “Mulher, por que choras? A
quem procuras?” Ela, tomando-o pelo jardineiro, lhe diz: “Senhor, se tu o levastes, dize-
me onde o puseste e irei buscá-lo” (Jo 20, 15).
      Schökel, assim comenta o capítulo da Ressurreição em João:
                      “O momento e modo da Ressurreição não é descrito: é objeto de
                      fé e transcende a percepção humana sensível. O Ressuscitado,

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                            sim, manifesta-se corporal e gradualmente. Primeiro, com os
                            sinais de ausência: sepulcro vazio, lençóis e sudário
                            abandonados, mensagem por terceiros (vai-se aproximando).
                            Depois, em figura e voz irreconhecíveis. Depois com sua voz e
                            figura de sempre, e as marcas recentes da paixão. É essencial
                            identificar o Jesus vivo com o anterior do ministério, com
                            aquele que padeceu a morte na cruz.
                            Também há progresso na fé. Primeiro crê o discípulo predileto
                            (ideal), depois Maria (Madalena) pela visão, pelo ouvido e pelo
                            tato, e a seguir o grupo todo, finalmente o atrasado e teimoso
                            (Tomé). As manifestações são acompanhadas de dons e
                            encargos. O primeiro para Maria: ser a mulher evangelista da
                            ressurreição. A seus discípulos, o dom da sua paz, do seu
                            Espírito e da missão. A Tomé, a bem-aventurança da fé”3.
      Pedro, igualmente, terá que ser re-confirmado na sua missão, a partir das
exigências do amor: “Simão de João, tu me amas, mais do que estes?” Responde-lhe:
“Sim, tu sabes que te amo”. Diz-lhe: “Apascenta meus cordeiros” (Jo 21, 15). E, assim, por
três vezes, só a partir da nova confissão de Pedro, centrada não mais na fé acerca da
messianidade de Jesus, mas no amor fiel à sua pessoa, é que Jesus renova-lhe a missão
de apascentar suas ovelhas e seus cordeiros.




3
    SCHÖCKEL, ibidem, nota ao cap. 20 do evangelho de João, p. 2617.

                                                                                        11
   2 .  P O V O   D E   D E U S                                                   C O M
J E S U S   L I B E R T A D O R                                                   R U M O
          A   A P A R E C I D A
                          VIDA PLENA PARA TODAS AS CRIATURAS



      Quando foi escolhido para tema da V Conferência em Aparecida, o seguimento de
Jesus, na qualidade de discípulos e missionários, quase três dezenas de pastorais,
entidades e grupos colocaram-se a questão de como suscitar uma participação popular
mais intensa e contínua durante a preparação, realização e posterior encaminhamento e
recepção da mesma. Por isso, resolveram organizar uma grande romaria até Aparecida
durante os dias da Conferência, tendo por lema o horizonte de todo o povo de Deus e a
proposta libertadora de Jesus: Povo de Deus com Jesus Libertador rumo a
Aparecida. Acrescentou-se, nestes tempos de ameaça tão profunda ao meio ambiente,
uma chamada explícita em relação ao direito de todas as criaturas à vida plena e
ao nosso dever de assegurar, preservar e incrementar as condições para que toda a vida
floresça e se multiplique.
      Apoiado na trajetória de nossas comunidades que encontram o norte e o alimento
de suas vidas na Palavra de Deus lida comunitariamente, acolhida, refletida, celebrada e
colocada em prática, este Fórum de Participação na V Conferência solicitou ao Frei
Carlos Mesters que preparasse cinco círculos bíblicos. Deveriam servir de roteiro para
aprofundar a temática da V Conferência, renovando desde já, a caminhada das
comunidades. Mesters e Francisco Orofino fizeram dez Círculos Bíblicos, frente a novas
preocupações, com destaque para a crise ecológica; o lugar das mulheres na Igreja e na
sociedade; a participação mais plena e adulta dos leigos e leigas nos diversos serviços e
ministérios na Igreja, sem desviá-los de suas responsabilidades no mundo.
      No limiar do terceiro milênio, numa entrevista ao jornalista Peter Seewald, o então
Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger, apontava a
Leitura Popular da Bíblia como uma importante contribuição da Igreja da América Latina
e do Caribe e, mais precisamente da teologia da libertação, para o conjunto da Igreja4. À
pergunta do jornalista: “Lembrar a dimensão espiritual não significaria também que
teríamos de voltar a nos lembrar precisamente da fé simples que corresponde aos
elementos fundamentais do cristianismo?”, respondeu textualmente o então Cardeal
Ratzinger, hoje Papa Bento XVI:
                   “Às vezes parece ser tão complicado que se julga que só os estudiosos podem ter
                   uma visão de conjunto. A exegese deu-nos muitos elementos positivos, mas
                   também fez com que surgisse a impressão de que uma pessoa normal não é capaz
                   de ler a Bíblia, porque tudo é tão complicado. Temos de voltar a aprender que a
                   Bíblia diz alguma coisa a cada um e que é oferecida precisamente aos simples.
                   Nesse caso dou razão a um movimento que surgiu no seio da teologia da libertação
                   que fala da interpretación popular. De acordo com essa interpretação, o povo é o
                   verdadeiro proprietário da Bíblia e, por isso, o seu verdadeiro intérprete. Não
                   precisam conhecer todas as nuances críticas; compreendem o essencial. A teologia,
                   com os seus grandes conhecimentos, não se tornará supérflua, até se tornará mais
                   necessária no diálogo mundial das culturas. Mas não pode obscurecer a suprema

4
 Para uma síntese feliz e pedagogicamente rica sobre o método da Leitura Popular da Bíblia, veja-se:
MESTERS, Carlos, Critérios e Método da Leitura Popular da Bíblia, in BEOZZO, José Oscar, Educar para a
Justiça, a Solidariedade e a Paz – XVIII Curso de Verão. São Paulo: CESEP e Paulus, 2004, pp. 143-156.

                                                                                                         12
                    simplicidade da fé que nos põe simplesmente diante de Deus, e diante de um Deus
                    que se tornou próximo de mim ao fazer-se Homem”5.
      Resolveu-se tomar alguns elementos desta Leitura Popular da Bíblia, presente nos
Círculos Bíblicos de preparação à V Conferência, em cuja introdução, Carlos Mesters e
Francisco Orofino assinalam o intuito de se visitar de novo a Palavra de Deus, com vistas
à V Conferência, para iluminar questões centrais do nosso seguimento de Jesus como
discípulos e missionários:
                    O tema desta V Conferência é “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo para que
                    nele nossos povos tenham vida”. O lema é tirado de Jo 14,6: “Eu sou o caminho, a
                    verdade e a vida”. A missão da Igreja é uma só: continuar a missão de Jesus de
                    Nazaré, pois Jesus disse: “Como o Pai me enviou, eu envio vocês!” (Jo 20,21). Como
                    ele, também nós devemos ser uma presença do Reino no mundo de hoje.
                    Os fariseus ensinavam que o Reino só poderia estar presente no mundo como fruto
                    da observância da lei. Jesus ensinava o contrário: “O Reino já está aí no meio de
                    vocês!” (Lc 17,21) Jesus tinha outra maneira de ver as coisas. Dizia que os fariseus
                    eram “cegos guiando cegos!” (Mt 15,14). Jesus veio abrir os olhos dos cegos (Lc
                    4,16). Fazia com que o povo começasse a enxergar a presença do Reino nos fatos da
                    vida. O povo percebia a diferença e dizia: “Ele ensina com autoridade, diferente dos
                    escribas e fariseus” (Mc 1,22.27)6.


      Com qual autoridade fazeis isto?
      Uma das questões que mais afligem o presbítero hoje no seu trabalho pastoral é a
da credibilidade e autoridade do seu ensinamento. Antes o que padre dizia, estava dito,
era a verdade e estava sacramentado. Poucos ousavam discordar de sua opinião ou
orientação. Hoje não só a autoridade do padre, mas da própria Igreja é questionada. O
conhecimento humano desdobrou-se em tantos novos campos e especialidades em que as
competências provêm da pesquisa e do estudo apurado das ciências e do domínio das
novas técnicas. Nestes novos campos da ciência e da técnica, os presbíteros detêm, via de
regra, escasso conhecimento e quase nenhuma competência. Teriam que se colocar com
toda humildade à escuta daqueles que se especializaram; aprender os caminhos do
diálogo interdisciplinar e da função própria da teologia, a de aclarar a esfera do sentido
da vida e do atuar humanos. Mas no campo especificamente religioso e no âmbito de suas
qualificações é o presbítero hoje questionado, via meios de comunicação de massa ou por
intermédio de outras propostas religiosas. Mesmo no campo do religioso popular, há um
leque importante de outras propostas, opiniões e igrejas que continuamente entram em
diálogo, discussão ou confronto acerca do que o padre ensina. A leitura da Bíblia não é
mais monopólio do clero. Encontra-se nas mãos das comunidades e é lida, meditada e
seguida com amor e profundidade por pessoas simples, na linha do que Jesus proclama
no evangelho: “Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra! Porque, ocultando estas
coisas aos entendidos, tu as revelaste aos ignorantes” (Mt 11, 25).
      Pode-se alegar que muitas vezes a leitura popular possa conter um viés por demais
ao pé da letra ou mesmo fundamentalista. O que não se pode negar, porém, é que a
Palavra de Deus tornou-se um patrimônio popular precioso que anima, inspira e guia
diretamente a fé das pessoas e das comunidades. Por esta razão, uma questão crucial
para o presbítero hoje e que foi colocada também para Jesus no seu tempo é acerca da
raiz de sua autoridade. Quanto mais questionada é uma autoridade, maior o risco de
insegurança subjetiva e a probabilidade de enveredar pelo caminho do autoritarismo ou
da irritação com a pessoa que a contesta. É crescente a reclamação do povo de que os
padres “não escutam”; de que por um nada “se irritam” com as pessoas; que são “bravos”
e respondem “com brutalidade” e que se tornaram “nervosos” e “autoritários”. A nossa

5
  RATZINZER, Cardeal Joseph, O Sal da Terra: O cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro
Milênio. Um diálogo com Peter Seewald. Rio de Janeiro: Imago, 1997, p. 210-211.
6
  MESTERS, Carlos e OROFINO, Francisco, Seguir Jesus – Círculos Bíblicos em preparação à V CELAM –
Aparecida 2007. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus e Paulinas; Aparecida: Editora Santuário, 2006, p.

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revisão neste campo, pode partir da pergunta. Qual foi a prática de Jesus, que também
era contestado por doutores da lei, por escribas e fariseus?
                     “O primeiro impacto que a Boa Nova de Jesus causava no povo foi este: “Um novo
                     ensinamento! Dado com autoridade!” (Mc 1, 27). “Ele ensina como quem tem
                     autoridade e não como os escribas e os fariseus” (Mc 1, 22). Parece até uma ironia!
                     Os escribas, quando ensinavam, repetiam as sentenças de doutores e teólogos, isto
                     é, das autoridades da época, mas para o povo, mesmo citando autoridades, eles não
                     ensinavam com autoridade. Jesus nunca citava teólogos nem doutores, mas para o
                     povo, mesmo sem citar as autoridades da época, ele ensinava com autoridade! Pois
                     uma pessoa fala com autoridade não pelo fato de citar as palavras das autoridades,
                     mas sim pelo fato de a sua palavra ter raiz no coração. O que vale não são as
                     palavras, mesmo bonitas, mas sim o testemunho que dá vida e autoridade às
                     palavras. Jesus falava de Deus a partir da sua experiência de Deus e a partir da sua
                     experiência com a vida do povo. O clero da época só tinha poder, não tinha
                                                                                                        7
                     autoridade e, por isso, só sabia ensinar a doutrina oficial que vinha dos doutores” 7.


         Pastoral: irradiar luz na vida do povo e suscitar líderes livres
      Esta problemática da autoridade do presbítero, que deseja ser seguidor da prática
de Jesus, remete a várias questões ao mesmo tempo. Uma primeira, central e
decisiva, é a do exemplo da própria vida e da coerência entre o que se prega
e o que se pratica. Mas está também em jogo a insuficiência da formação de muitos
presbíteros naqueles campos específicos do seu saber: o bíblico, o teológico, o ético, o
litúrgico, o pastoral, o do testemunho no campo social, político, econômico e cultural. Há
casas paroquiais, em que não se encontram à mão bons comentários bíblicos, obras
teológicas atuais ou as clássicas, os documentos recentes do magistério pontifício ou os
documentos da CNBB, uma boa revista pastoral-teológica como a Revista Eclesiástica
Brasileiro, a revista Vida Pastoral e outras que permitam ao presbítero atualizar-se e
acompanhar o debate e a reflexão naqueles campos em que os fiéis têm o direito de
esperar uma resposta competente e atualizada para suas dúvidas e interrogações.
      Encontra-se também em tela de discussão, ao lado da formação permanente do
presbitério, uma mudança de atitude de base. Acostumado a falar do púlpito, num estilo
de pregação com direção única, sem esperar ou admitir que da comunidade surjam
perguntas ou posições diferentes, o presbítero é chamado hoje a exercitar-se na prática
da escuta, do diálogo entre iguais e da busca humilde e paciente da verdade, venha ela do
horizonte que vier.
      Outra questão crucial que a prática de Jesus levanta para nós hoje é a do jeito de se
trabalhar com o povo. Somos convidados a abrir os olhos para ver ao redor:
                     “A palavra ‘pastoral’ vem de ‘pastor’. Pastor é a pessoa que cuida das ovelhas e as
                     conduz para verdes pastagens e águas tranqüilas (Sl 23,2). Jesus se apresentava
                     como o Bom Pastor (Jo 10,11). De fato, o que mais chama a atenção é a bondade e a
                     ternura com que ele acolhia o povo, sobretudo os pobres (Mc 6,34; 8,2; 10,14; Mt
                     11,28-29). Deus se fazia presente nesta atitude de ternura acolhedora. Jesus não só
                     falava sobre Deus, mas também o revelava. Comunicava algo do que ele mesmo
                     vivia e experimentava. Sua “pastoral” valorizava as pessoas e as estimulava a se
                     firmar em Deus e a ter confiança em si mesmas....
                     ....A pastoral de Jesus irradiava sua luz sobre os discípulos e fazia nascer neles
                     maior liberdade de ação frente aos costumes religiosos da época. Eles criavam
                     coragem para transgredir normas caducas e antiquadas que nada tinham a ver com
                     a fé em Deus nem com a vida. Por exemplo, quando estavam com fome, os
                     discípulos colhiam espigas, mesmo em dia de sábado (Mt 12,1); não lavavam as
                     mãos antes de comer (Mc 7,5); entravam nas casas dos pecadores e comiam com
                     eles (Mc 2,15-17); não faziam jejum como era costume entre os judeus (Mc 2,18)” 8.



7
    Ibidem, p. 20.
8
    Ibidem, p. 21.

                                                                                                        14
         Acolhida: esperar que venham as pessoas ou ir ao seu encontro?
     Esta atitude de acolhida e compaixão é o que mais conforta o povo. As pessoas não
se esquecem do padre que entra numa casa humilde, daquele que visita um doente,
daquele que consola a família enlutada, que escuta com paciência uma alma aflita e diz
uma palavra de alento à desanimada.
                         “Ternura, bondade e acolhida caracterizam o jeito de Jesus trabalhar com o povo.
                         São Pedro resumiu a ação pastoral de Jesus com estas palavras: ‘Jesus andou por
                         toda parte fazendo o bem!’ (At 10,38). Impressionam a acolhida e a bondade de
                         Jesus para com as pessoas, sem distinção...
                         [...] O outro lado da acolhida e bondade com os pequenos era a firmeza com que
                         Jesus os defendia contra os desmandos e desvios das autoridades religiosas da
                         época: sacerdotes (Mc 11,15-18), fariseus e herodianos (Mc 12,13-17), saduceus (Mc
                         12,18-27), escribas e doutores da lei (Mt 23,1-36). Estes últimos, em vez de ajudar o
                         povo, o exploravam ainda mais (Mc 12,40). Não se importavam com o sofrimento
                         do povo e diziam que era um povo maldito (Jo 9,49).
                         Jesus sabia que a sua “pastoral”, a sua maneira de acolher o povo, sobretudo os
                         pobres, desagradava aos dirigentes religiosos da época, mas, como o Servo de
                         Isaías, ele não voltou atrás”9.


   Oração: espaço crítico de nossas ideologias e modo seguro de se
manter na intimidade do Pai
     O que sustentava Jesus nos embates e conflitos, decepções e fracassos no seu
anúncio do Reino e na formação da comunidade dos discípulos - “homens de pouca fé”,
“duros para entender e lentos para se converter” - era Sua atitude de intimidade com
Deus.
                         “Jesus era uma pessoa orante. Passava noites em oração (Lc 6,12). Na oração,
                         procurava saber o que o Pai queria dele (Mt 26,39). O seu jeito de rezar era
                         contagiante e provocava nos outros o desejo de rezar.[...] O texto do Pai-Nosso de
                         Mateus (Mt 6,9-13) é uma cartilha orante que resume em forma de sete preces tudo
                         que Jesus nos ensinou:.”10.


    Desafio para o presbítero: encontrar equilíbrio entre ação e
contemplação
      A atitude orante é um desafio na vida do presbítero diocesano que vive sozinho. O
religioso ou a religiosa que vive em comunidade, encontra ali os ritmos da oração
quotidiana. Correm, é claro, o risco de rezar mecanicamente, apenas para cumprir o
horário da oração, sem acrescentar momentos para uma oração gratuita e pessoal.
      O presbítero diocesano corre o risco inverso de ser devorado, como Jesus e os
discípulos, que não tinham mais nem tempo para comer. Corre o risco maior ainda de
não ter aquele lampejo de sabedoria de Jesus que convida os discípulos para se retirarem
para um lugar deserto, para descansar:
                         “Os apóstolos se reuniram com Jesus e lhe contaram tudo o que haviam feito e
                         ensinado. Ele lhes diz: Vinde vós, sozinhos, a um lugar despovoado, para descansar
                         um pouco. Pois os que iam e vinham eram tantos, que não tinham tempo nem para
                         comer. E assim, foram sozinhos de barca a um lugar despovoado” (Mc 6, 30-32).
      Devemos reconhecer entretanto que, se o propósito de Jesus era correto, sua
estratégia fracassou, pois muitos intuíram para onde ele se dirigia com seus discípulos,
talvez um lugar habitual e já conhecido de alguns. Chegando lá, Jesus e os discípulos
encontraram uma grande multidão, que chegara antes.

9
    Ibidem, pp. 23-24.
10
     Ibidem, p. 27.

                                                                                                           15
      Marcos narra que “ao desembarcar, viu uma grande multidão, e sentiu pena,
porque eram como ovelhas sem pastor. E se pôs a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6, 34).
O evangelista comenta ainda que o atendimento de Jesus durou até quase o pôr-do-sol,
quando os discípulos vieram dizer-lhe: “O lugar é despovoado e a hora avançada;
despede-os para que vão aos campos e aldeias dos arredores para comprar o que comer”
(Mc 6, 35-36). A resposta de Jesus foi surpreendente: “Dai-lhes vós mesmos de
comer” (Mc. 6, 37)11. Segue então o convite à partilha e à festa do pão multiplicado, em
que Jesus depois de saciar a fome do povo pelo pão da palavra, sacia igualmente a fome
do alimento terreno, do “pão nosso de cada dia”.

       Caridade pastoral: eixo da vida e espiritualidade do presbítero
      Ao mesmo tempo, que deve o presbítero procurar seu tempo de descanso e
recolhimento, de estudo e oração, é essa “caridade pastoral”, suprema lei na vida de Jesus
e na sua, que faz dele um “pastor” e não um mercenário que só trabalha por dinheiro ou
um funcionário do sagrado, só disponível nos horários de expediente. O funcionário é
aquele que despacha de volta as pessoas, avisando que o horário de atendimento
paroquial está encerrado; que não pode atender porque aquele é seu dia de folga; que o
plantão para rezar com a família de um falecido, no velório é de outro colega e não seu;
que o limite paroquial o impede de solucionar o problema de uma pessoa; que aquele não
é o seu dia de acudir os doentes do hospital ou que a pessoa deve bater à porta da outra
paróquia, porque mora noutro bairro.
      O maior atrativo das primeiras comunidades cristãs, que fazia com que os de fora as
elogiassem (cf. At, 5, 13b), e a elas acudissem indigentes e viúvas, doentes e
desamparados era que entre seus membros não havia necessitados (cf. At. 4, 34), pois
“não chamavam de própria nenhuma de suas posses, ao contrário, tinham tudo em
comum” (At. 4, 32b), além de terem “uma só alma e um só coração” (At. 4, 32a).
      Esse tema nos remete de novo à prática de Jesus e às suas recomendações aos
discípulos, que eram as quatro colunas básicas da vida comunitária nos povoados da
Galiléia daquele tempo:
                    (1) Hospitalidade - Os discípulos e as discípulas não podem levar nada... (cf. Mt
                    10,9-10; Mc 6,8; Lc 10,4). O missionário vai sem nada, porque deve confiar que vai
                    ser acolhido pelo povo. Sua atitude provoca nos outros o gesto comunitário da
                    hospitalidade (Lc 9,4; 10,5-6).
                    (2) Partilha - Não podem andar de casa em casa.(cf. Lc 10,7). Ou seja, devem
                    integrar-se na vida e no trabalho da comunidade local, no clã, e confiar na partilha.
                    (3) Comunhão de mesa - Não podem levar sua própria comida, mas devem
                    comer o que o povo lhes oferece (Lc 10,8). [...] Devem praticar a comunhão de
                    mesa.
                    (4) Acolhida aos excluídos - Finalmente, como tarefa especial os discípulos
                    devem curar os doentes, libertar os possessos, purificar os leprosos (Lc 10,9; Mt
                    10,8). Isto é, devem cuidar dos excluídos, acolhê-los para dentro da comunidade e,
                    assim, refazer a vida comunitária. [....]


       Comunidade: rosto de Deus e presença viva de Jesus no meio de
nós!
                    A base da comunidade ao redor de Jesus não é o saber nem o poder, mas sim a
                    igualdade de todos como irmãos e irmãs (Mt 23,8-10). Quem quiser ser o primeiro
                    deve ser o servidor de todos (Mc 10,44; Lc 22,25-26). Jesus deu o exemplo (Jo
                    13,15): “Não vim para ser servido, mas para servir e doar a vida” (Mt 20,28). A base
                    da comunhão é econômica, o seu ideal é chegarão ponto de não haver mais segredo

11
  Este foi um dos motes escolhidos pela CNBB, no lançamento da campanha e do documento relativo ao
Mutirão para a superação da miséria e da fome: Exigências Evangélicas e Éticas de superação da miséria e da
fome – “Alimento, dom de Deus, direito de todos”. CNBB, Doc. 69.

                                                                                                              16
                      entre os membros da comunidade (Jo 15,15). Por causa dos muitos conflitos e
                      divisões, Jesus insiste para que a comunidade seja um lugar de perdão e de
                      reconciliação, e não de condenação mútua (Mt 18,21-22). Eles rezam juntos, sofrem
                      juntos (Lc 22,28; Mc 14,33; Mc 6,41; Lc 24,30). Juntos freqüentam as sinagogas
                      (Lc 4, 16) e vão em romaria ao Templo (Jo 2,13; 7,14; 10,22-23). A comunidade ao
                      redor de Jesus serviu de modelo para os primeiros cristãos depois da ressurreição
                      de Jesus (At 2,42-47)!
                      A Comunidade é como o rosto de Deus, transformado em Boa Nova para o povo.
                      No Apocalipse, na grande visão inaugural, a primeira coisa que João vê são os sete
                      candelabros, que são as sete comunidades (Apc 1,20), e é “no meio dos candelabros
                      que estava alguém que parecia o Filho do Homem” (Apc 1,12-13). As comunidades
                      são a presença viva de Jesus no meio de nós”12.


         Igreja: Povo de Deus – Povo de Iguais
      O Concílio Vaticano II realizou profunda revolução na compreensão que a Igreja
tinha de si mesma, pelo menos na tradição latina dos séculos mais recentes. O Vaticano II
deslocou o eixo da compreensão e definição da Igreja para a dimensão mais bíblico-
teológica, fundamento primeiro para qualquer ulterior desdobramento jurídico. Alargou
também o horizonte a ser abrangido pela Igreja, ao centrar-se na noção de “Povo de
Deus”, o povo dos batizados e, para além de suas fronteiras, toda a humanidade, alvo do
plano salvífico de Deus e pela qual Cristo derramou o seu sangue.
      Ao inverter a ordem dos capítulos no esquema inicial que começava pela hierarquia,
como se tornara tradicional nos tratados “De Ecclesia” dos cursos de teologia, para
substituí-la pelo capítulo do “Povo de Deus”, do qual a hierarquia faz parte e a cujo
serviço se encontra, o Concílio sinalizava uma perspectiva renovadora e inovadora. Esta
foi prontamente captada no lema da primeira Campanha da Fraternidade da Igreja do
Brasil: “Lembre-se, você também é Igreja”. Este você era o cristão e a cristã comuns. Esta
consciência traduziu-se, em pouco tempo, na expressão alegre e autoconfiante por parte
de muitos batizados: Todos somos Igreja. Leigos e leigas estavam acostumados até
então a pensar “Igreja” como sendo algo privativo dos padres, dos bispos, do papa.
      Essa nova perspectiva, nas celebrações litúrgicas, significou colocar no centro a
Assembléia que celebra e a serviço da qual encontram-se todos os diferentes ministérios:
o da acolhida, o das leituras, o do comentarista, o do canto, o da distribuição da eucaristia
e igualmente o da presidência. O Concílio insiste em que os participantes da celebração
eucarística não a “assistam”, como “estranhos e espectadores mudos”, mas “ativamente”:
“e aprendam a oferecer a si próprios ofertando a hóstia imaculada, não só pelas mãos do
sacerdote, mas juntamente com ele e assim tendo a Cristo como Mediador, dia a dia
se aperfeiçoem na união com Deus e entre si, para que, finalmente, Deus seja tudo em
todos” (SC 48).
      Esta nova visão de Igreja significou redefinir profundamente os papéis dentro da
comunidade eclesial, tornando o sacramento do batismo e não o da ordem, o sacramento
raiz da vocação cristã e da Igreja compreendida como Povo de Deus. Estes deslocamentos
provocaram crise no modo como os presbíteros concebiam seu lugar e seu serviço na
Igreja e sua relação com os leigos e leigas.

         A difícil assimilação do novo modo de ser Igreja
      O próprio Concílio necessitou rever a estrutura de sua assembléia. Concebido como
algo exclusivamente episcopal, com um nicho específico para os “peritos”, todos eles
clérigos e para os “religiosos” ordenados evoluiu para repensar-se como um evento
eclesial e por isto mesmo “inclusivo” em relação ao conjunto do povo de Deus. Por esta
razão, a partir da segunda sessão conciliar (1963) foi prevista uma nova categoria de
participantes, a dos “auditores” leigos. Este avanço deu oportunidade a uma judiciosa

12
     Ibidem, pp. 30-31.

                                                                                                     17
intervenção do Cardeal Leo Joseph Suenens, arcebispo de Malines-Bruxelles na Bélgica,
um dos quatro moderadores do Concílio: “Que se convidem também a fazer parte do
grupo [dos auditores] as mulheres, que constituem a metade do gênero humano e
também os irmãos e as religiosas, que servem a Igreja, como uma parte eleita do rebanho
do Senhor”13.
      De uma Assembléia exclusivamente episcopal e clerical, passava-se a pedir que
também os religiosos não clérigos, membros das congregações religiosas de irmãos; os
batizados homens não clérigos, mas igualmente as batizadas mulheres participassem
daquele grande evento conciliar, assim como já estavam tomando parte “observadores”
de Igrejas cristãs separadas mas irmãs, fossem elas do bloco das antigas Igrejas Orientais
(451), das Igrejas da Ortodoxia (1054), das igrejas saídas da reforma protestante (1517)
ou das dissidências que emergiram após o Vaticano I (1869-1870), como os Vétero-
Católicos.
      Paulo VI respondeu positivamente à interpelação do Cardeal Suenens e a partir da
III Sessão Conciliar (1964), encontravam-se na tribuna dos “auditores”, também as
“auditrices”, mulheres presidentes de Associações Femininas Internacionais e Superioras
Maiores de algumas Congregações Religiosas Femininas. Caprile, importante cronista do
Concílio, num balanço da terceira sessão, escreveu:
                       “...aos auditores foram estreitamente associadas, pela primeira vez na história dos
                       Concílios, também 17 “auditoras”. A sua presença, para algumas delas também
                       ativa nos trabalhos das subcomissões, é um sinal dos tempos: uma chamada à
                       unidade e universalidade do povo de Deus; uma ruptura, se se quer, com costumes
                       seculares que hoje não tem mais razão de subsistir; um reconhecimento da parte
                       insubstituível da mulher na cristianização do mundo e das suas estruturas” 14.
      Esta estrutura mais inclusiva de Igreja está presente, embora de forma ainda tímida
e desproporcional, no formato da V Conferência em Aparecida. Foram convidados a
participar 8 religiosas mulheres e oito religiosos homens, assim como 8 mulheres leigas e
8 homens leigos. Persiste entretanto um desequilíbrio: são 16 religiosos e religiosas e 16
leigos e leigas no total e apenas 4 diáconos, quando no continente existem 22
conferências episcopais. Pelo menos seis destas conferências episcopais chegam
mutiladas e incompletas a Aparecida, quanto à presença de pelo menos 1 religioso ou
religiosa, 1 leigo ou leiga. Isto demonstra o quanto nos falta traduzir, na prática, a nova
imagem de Igreja saída do Vaticano II. Para representar os presbíteros, todas as 22
conferências episcopais foram contempladas, reservando-se dois lugares suplementares,
um para o Brasil e outro para o México, num total de 24 presbíteros. Faltou sensibilidade
para se manifestar, na composição da V Conferência, com toda consistência e
visibilidade, a consciência de que a Igreja é formada por todos seus batizados: leigos e
leigas, religiosos e religiosas, diáconos, presbíteros e bispos, em comunhão com o
sucessor de Pedro.
      A presença ativa, participante, em pé de igualdade das mulheres nas estruturas de
nossas comunidades, movimentos e paróquias, nas celebrações e iniciativas eclesiais, nos
conselhos paroquiais e diocesanos, é reveladora e como a pedra de toque do quanto se
assimilou e do quanto se logrou traduzir na prática as novas estruturas de Igreja nascidas
do Vaticano II.

         Discípulos/as e missionários/as na Igreja de Jesus
      Por isto retornamos à prática de Jesus, para nós o espelho de como devemos ser
seus seguidores, discípulos e missionários, em relação a este ponto tão crucial e revelador
que são as relações que entretemos, como presbíteros, com as mulheres de nossas
comunidades. Ocupam elas um lugar digno e compartilhado, quanto a responsabilidades
e autoridade, escutamos seus anseios e tomamos em conta suas propostas?

13
     CAPRILE, G. (a cura di) Il Concilio Vaticano II, 5 vv., Roma, 1966-1968, III, p. 118.
14
     CAPRILE, IV, p. 470.

                                                                                                       18
Reconhecemos todos seus carismas e ministérios, ou encontram-se elas em postos
apenas subalternos, como “tarefeiras” dentro das estruturas paroquiais ou diocesanas?
                      “No tempo de Jesus, havia muitos preconceitos contra a mulher. Ela era
                      considerada impura (Lv 15,19-30; 12,1-8), causadora do pecado e da morte (Eclo
                      25,24). Na sinagoga ela não participava e na vida pública não podia ser
                      testemunha. Vivia marginalizada.
                      Diferentemente dos mestres da época, Jesus chamava mulheres para segui-lo.
                      Discípulos e discípulas, ambos seguem Jesus em pé de igualdade (Lc 8,1-3). Das
                      mulheres se afirma que elas seguem Jesus, desde a Galiléia até Jerusalém, servem
                      a ele com seus bens e sobem com ele até o calvário (Mc 15,41). A expressão seguir
                      Jesus tem aqui o mesmo significado quando é aplicado aos homens. Depois da
                      ressurreição, Jesus apareceu primeiro às mulheres e deu a elas a ordem de
                      transmitir a Boa Nova da ressurreição aos apóstolos (Mt 28,9; Mc 16,9; Jo 20,11-18;
                      Lc 24,1-11). Mas estes não acreditaram. Diziam que era “tolice” (Lc 24,11). A
                      tradição eclesiástica posterior também teve dificuldade em manter a mesma atitude
                      de Jesus com relação às mulheres, até hoje! Por exemplo, na lista mais antiga que
                      temos das pessoas às quais Jesus apareceu por primeiro, só aparecem nomes de
                      homens. Desapareceram os nomes das mulheres (cf. 1 Cor 15, 2-8). Ou talvez seja o
                      contrário. A redação dos evangelhos é bem posterior à carta de Paulo aos Coríntios.
                      Por isso, pode ser que a insistência dos quatro evangelhos em lembrar as primeiras
                      aparições de Jesus às mulheres e não aos homens tenha sido uma advertência aos
                      dirigentes da igreja para não esquecer a prática de Jesus com relação às mulheres.
                      Mas não adiantou muito. É pena. Até hoje!
                      Os evangelhos conservaram várias listas com os nomes dos doze discípulos que
                      seguiam Jesus. Nem sempre são os mesmos nomes, mas sempre são doze,
                      evocando as doze tribos do novo povo de Deus. Os evangelistas não chegaram a
                      elaborar uma lista das discípulas que seguiam Jesus, mas os seus nomes até hoje
                      estão espalhados pelas páginas dos evangelhos, sobretudo de Lucas, e são sete: (1)
                      Maria Madalena (Lc 8,3; 24,10); (2) Joana, mulher de Cuza (Lc 8,3); (3) Suzana
                      (Lc 8,3); (4) Marta (Lc 10,38); (5) Maria, sua irmã (Lc 10,39); (6) Maria, mulher
                      de Cléofas (Jo 19,25 e Lc 24,18); (7). Maria, mãe de Tiago (Lc 24,10)”15.


         Igreja da América Latina e do Caribe: para onde vamos?
      Outra pergunta importante em relação à V Conferência é saber qual é o nosso
sonho, a nossa utopia em relação à caminhada da Igreja aqui no Brasil e na América
Latina. Paradoxalmente, só temos diante de nós, em nosso dia a dia, o momento
presente. Ele é, porém, uma encruzilhada entre o passado que, pela memória, se torna
presente e o futuro, ou seja, o horizonte, para onde queremos caminhar e que orienta, por
sua vez, o rumo de nossos passos.
      Sem saber para onde se quer ir, dificilmente se pode captar e definir a trajetória e o
caminho. Para muitos, na onda da pós-modernidade, só o presente conta e tem sentido.
Por isso, as pessoas se tornam indivíduos sem raízes e sem identidade. Perdem a ligação
com o próprio passado, a memória histórica de sua comunidade e Igreja. Se o futuro não
conta, deixam igualmente de ter rumo e direção, ficando ao sabor desta ou daquela
moda, desta ou daquela palavra de ordem do momento, ou passam de uma novidade a
outra, sem critério e discernimento. O que podemos esperar da caminhada da Igreja no
contexto da V Conferência?
                      “Espera-se que a V Conferência recupere o Projeto de Medellín, Puebla e Santo
                      Domingo, que é o Projeto do Concílio Vaticano II, e que retome a caminhada com
                      as características de sempre: Leitura orante da Palavra de Deus, Comunidades
                      Eclesiais de Base, Protagonismo dos leigos, Opção pelos pobres, pelos jovens, pela
                      comunhão e participação, pela defesa da dignidade da pessoa humana, pela
                      inculturação; Ministérios não ordenados, Valorização da mulher, Pastorais sociais.
                      Espera-se que a V Conferência se preocupe com os grandes desafios de hoje:



15
     MESTERS, o.cit., pp. 32-34.

                                                                                                      19
                          Justiça e Paz, Ecologia, Globalização, Evangelização da cultura moderna e pós-
                          moderna, Meios de comunicação, Diálogo ecumênico e inter-religioso”16.


         Bem-aventuranças: projeto comunitário dos primeiros cristãos
     Nos debruçamos uma vez mais sobre o projeto de Jesus para nos iluminar e animar.
Projeto que foi apresentado no sermão da montanha de Mateus e no da planície em
Lucas, sob a forma feliz das bem-aventuranças.
                          “As oito bem-aventuranças são a fonte de inspiração que animava o projeto
                          comunitário dos primeiros cristãos. Elas ofereciam um modelo para que as
                          Comunidades pudessem ser para o povo uma amostra do Reino de Deus. Elas
                          continuam sendo a fonte que anima o projeto da V Conferência dos bispos da
                          América Latina.
                          As oito bem-aventuranças indicam oito categorias de pessoas: pobres, mansos,
                          aflitos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os de coração limpo,
                          os que promovem a paz, os perseguidos por causa da justiça. São como oito portas
                          de entrada para o Reino, para a Comunidade. Não há outras entradas! Quem quiser
                          entrar no Reino terá que se identificar com ao menos uma destas oito categorias.
                          Assim, o Projeto do Reino, apresentado por Jesus nas bem-aventuranças, quer
                          reconstruir a vida na sua totalidade: no seu relacionamento com os bens materiais,
                          com as pessoas, com Deus. A comunidade cristã deve ser um ensaio e uma amostra
                          deste Reino!
                          Este projeto já estava sendo assumido pelos pobres e estes, por causa disso,
                          estavam sendo perseguidos. Jesus reconhecia a riqueza e o valor dos pobres (Mt
                          11,25-26). Ele definiu sua própria missão como “anunciar a Boa Nova aos pobres”
                          (Lc 4,18). Ele mesmo vivia como pobre. Não possuía nada para si, nem mesmo uma
                          pedra para reclinar a cabeça (Mt 8,18). E a quem queria segui-lo ele mandava
                          escolher: ou Deus, ou o dinheiro! (Mt 6,24).
                          Pobre em Espírito é o pobre que tem este mesmo espírito de Jesus! Não é o rico.
                          Nem é o pobre com cabeça de rico. Mas é o pobre que diz “Eu acredito que o mundo
                          será melhor quando o menor que padece acreditar no menor”!
                          O evangelho diz exatamente o contrário do que diz a sociedade em que vivemos. Na
                          sociedade, o pobre é visto como um infeliz, e feliz é quem tem dinheiro e pode ir ao
                          supermercado e gastar à vontade. Feliz é quem tem fama e poder. Os infelizes são
                          os pobres, os que choram! Na televisão, as novelas divulgam este mito da pessoa
                          feliz e realizada. E sem a gente se dar conta, as novelas acabam se tornando o
                          padrão de vida para muitos de nós. Será que na nossa sociedade ainda há lugar
                          para estas palavras de Jesus: “Felizes os pobres! Felizes os que choram!”? E para
                          mim, que sou cristão ou cristã, onde está realmente a minha felicidade?” 17
      Este reflexão sobre o projeto de Jesus nas bem-aventuranças nos questiona sobre a
nossa vida e ministério. Por isso nos perguntamos: Nosso projeto de vida e de ministério
presbiteral é iluminado por este espírito das bem-aventuranças? Sentimo-nos animados
a ser a agir de acordo com o espírito presente nas bem-aventuranças?



                    MISSIONÁRIO NO ESPÍRITO DAS BEM-AVENTURANÇAS


         “Nas décadas passadas surgiu e cristalizou-se no Brasil o jeito de ser
         Igreja na simplicidade e na partilha, na dimensão samaritana e profética das
         CEBs, na opção pelos pobres e na solidariedade com os excluídos, nas
         celebrações vivas e participativas que unem fé e vida, no engajamento
         generoso de mulheres e homens, jovens e adultos, nas diversas pastorais.

16
     Ibidem, p. 42.
17
     Ibidem, pp. 44-45.

                                                                                                           20
Ora, isso é obra do Espírito Santo, não só para o gasto brasileiro, mas é um
dom a ser partilhado com outras Igrejas, até em outros continentes. São
talentos que constituem a “riqueza“ da nossa Igreja. Não queremos abrir
uma cova e enterrá-los no chão (cf. Mt 25,14-30) entre o Chuí e Oiapoque,
mas fazê-los frutificar e render também além de nossas fronteiras, dando
                                                                     ”.
novo ânimo e alento à Igreja que se faz presente pelo mundo inteiro.
                                                                      o
                                             Dom Erwin Kräutler - 11 ENP




                                                                               21
    3 .   O  P R E S B Í T E R O   N A S
   C O N F E R Ê N C I A S    G E R A I S
 D O    E P I S C O P A D O   L A T I N O -
              A M E R I C A N O
                        3.1. CONCÍLIO PLENÁRIO LATINO-AMERICANO
                           Roma, 28 de maio a 9 de julho de 1899Erro! Indicador não definido.



     O início da caminhada colegial da Igreja na América Latina e no Caribe é marcado
por dois grandes eventos, porém de caráter diferente: o primeiro, um Concílio Plenário,
no final do século XIX e outro, uma Conferência Geral do Episcopado, na metade do
século XX. O Concílio Plenário Latino-americano reuniu-se em Roma, em 1899; a
Conferência Geral do Episcopado Latino-americano aconteceu no Brasil, no Rio de
Janeiro, de 25 de julho a 4 de agosto de 1955. Leão XIII, ao convocar os bispos para o
Concílio Plenário, explicitou seu objetivo e sentido:
                    “Desde la época en que se celebró el cuarto centenario del descubrimiento de
                    América, empezamos a meditar seriamente en el mejor modo de mirar por los
                    intereses comunes de la raza latina, a quien pertenecen más de la mitad del Nuevo
                    Mundo. Lo que juzgamos más a propósito fue que os reunieseis a conferenciar
                    entre vosotros, con nuestra autoridad y a nuestro llamado todos los obispos de
                    estas Repúblicas”18.
      As primeiras sugestões em relação a um concílio de toda a América Latina partiram
do Arcebispo de Santiago do Chile, Mariano Casanova, já em 1892 e foram reforçadas por
outros bispos.
      Quanto ao local da sua realização, vivia-se um momento de forte centralização
romana após o Concílio Vaticano I (1869-1870), a perda dos Estados Pontifícios e da
própria cidade de Roma, para as tropas de Garibaldi que abriram a brecha da Porta Pia
nas muralhas de Roma, a 28 de setembro de 1870. Roma deixava de ser a capital dos
Estados Pontifícios para se converter na capital do reino da Itália reunificada. O voto de
alguns bispos para que o Concílio se realizasse no México, em Lima ou Santiago do Chile
foi contrastado por muitos outros que sugeriram que o Concílio se realizasse em Roma,
basicamente por dois motivos: “el primero, manifestar su adhesión al Papa, y el
segundo ‘porque a casi todos era mucho más fácil el viaje a Roma que a alguna otra
ciudad de América, por sus dilatadas distancias y difíciles vias de comunicación”’19.
      O Concílio durou de 28 de maio a 9 de julho de 1899 e realizou-se nas dependências
do Pontifício Colégio Pio Latino-americano, fundado por Pio IX em 1858. Dele
participaram 53 bispos, sendo 13 do México, 11 do Brasil, 6 da Argentina, 6 da Colômbia,




18
   Leão XIII, Litterae Apostolicae Indictionis Concilii Plenarii Americae Latinae, Cum diuturnum, in Acta et
Decreta Concilii Plenarii Americae Latinae. Romae, Typis Vaticanis, MDCCCC, pp. XIII-XIV. Citado em
castelhano por ALDEA, Quintin y CÁRDENAS, Eduardo, Manual de História de la Iglesia. Vol. X: La Iglesia
del siglo XX en España, Portugal y América Latina. Barcelona: Herder, 1987, p. 513.
19
   Ibidem, p. 519.

                                                                                                           22
5 do Chile, 4 do Peru, 2 da Venezuela, 2 do Haiti, 1 da Bolívia, 1 do Uruguai, 1 da Costa
Rica, 1 do Equador20.

    Pastorais coletivas: ensaio de uma Igreja de comunhão e
participação
      Do Concílio Plenário, resultaram dois grandes volumes: um primeiro, com as Atas
(CXX páginas em algarismos romanos), seguidas dos Decretos (462 páginas em
algarismos arábicos)21 e um segundo, o Apêndice, com documentos (778 páginas)22. Estes
decretos conciliares passaram a regular de maneira uniforme a vida de todas as igrejas no
continente, até nos seus detalhes. O Concílio Plenário foi publicado imediatamente e
entrou em vigor a partir de 1º. de janeiro de 1900, sem tempo para reciclagem do próprio
clero. Estava vazado em linguagem prevalentemente jurídico-canônica, toda ela em
latim, provocando grandes dificuldades de compreensão e aplicação para os párocos e,
sobretudo os fiéis, acostumados a um regime pastoral e eclesiástico que já durava mais de
400 anos e que havia criado usos e costumes bastante arraigados nas mentalidades e
práticas populares.
      Para tentar traduzi-lo em linguagem mais acessível aos párocos e aos fiéis,
transformando-o em normas pastorais de aplicação mais imediata, e adaptadas à
realidade brasileira, os bispos das duas províncias eclesiásticas então existentes no Brasil,
a da Bahia para todo o norte e o nordeste do país e a do Rio de Janeiro, para o sudeste, o
sul e o centro-oeste (Goiás e Cuiabá), passaram a se reunir a cada três anos. A província
do norte e nordeste por causa das distâncias e dificuldades de transporte não conseguiu
manter o ritmo trienal das províncias meridionais, que se encontraram em 1901, 1904,
1907, 1911 e 1915. Depois de cada uma destas reuniões, foi editada uma pastoral coletiva.
A de 1915, uma síntese amadurecida e prática das quatro reuniões anteriores tornou-se
um precioso vade-mecum pastoral, com a vantagem de estar publicada em português,
numa linguagem clara, concisa e elegante que revela a pena privilegiada de Dom Silvério
Gomes Pimenta, bispo de Mariana, membro da Academia Brasileira de Letras. A
Pastoral, cujo título exato era “Constituições Diocesanas das Províncias Eclesiásticas
Meridionais do Brasil”, mais conhecida como “Pastoral Coletiva”, foi acolhida também
pelas províncias do norte e do nordeste, tornando-se então norma pastoral aplicada a
todo o Brasil. Assim, por primeira vez, ganhava o país uma legislação eclesiástica
uniforme, já que as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia resultantes do
Sínodo celebrado em Salvador, em 1707, e publicadas dez anos mais tarde, em Lisboa,
nunca se aplicaram às dioceses do Maranhão (1677) e Grão Pará (1719). Estas formavam
uma colônia à parte, distinta do Brasil e continuaram sendo regidas eclesiasticamente
pelas Constituições do Arcebispado de Lisboa e pelas Leis e Regimentos de Missão23.
      O Concílio Plenário Brasileiro de 193924, de novo em linguagem estritamente
canônica e em latim, sofreu dos mesmos percalços e dificuldades do Concílio Plenário

20
   Os brasileiros participantes foram Dom Jerônimo Tomé da Silva, arcebispo de Salvador da Bahia, Dom
Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom Cláudio
Gonçalves Ponce de Leão, bispo de São Pedro do Rio Grande (Porto Alegre), Dom Joaquim Vieira de Fortaleza,
Dom Manuel dos Santos Pereira, de Olinda; Dom Silvério Gomes Pimenta, de Mariana MG; Dom Eduardo
Duarte Silva, de Goiás GO; Dom Francisco do Rego Maia de Petrópolis RJ; Dom José Lourenço da Costa
Aguiar do Amazonas (Manaus); Dom José de Camargo Barros de Curitiba PR; Dom Antônio de Castilho
Brandão de Belém, PA. Cfr. Elenchus Patrum Concilii, in Acta et Decreta, o.cit., p. XXXVIII e XXXIX.
21
   Acta et Decreta Concilii Plenarii Americae Latinae in Urbe Celebrati Anno DominiMDCCCXCIX. Romae,
Typis Vaticanis, MDCCCC.
22
   Appendix ad Concilium Plenarium Americae Latinae Romae Celebratum Anno Domini MDCCCXCIX.
Romae: Ex Typographia Vaticana, MDCCCC.
23
   BEOZZO, José Oscar, Leis e Regimentos das Missões - Política Indigenista no Brasil. São Paulo: Ed.
LOYOLA, 1983.
24
   Concilium Plenarium Brasiliense in Urbe S. Sebastiani Anno Domini MDCCCCXXXIX celebratum.
Petropolis: Typis Domus Editricis vulgo “Vozes”, 1940. O Concílio reuniu-se na Igreja da Candelária do Rio de

                                                                                                           23
Latino-americano, como o reconhecem os próprios bispos, dez anos depois: “De acordo
com a natureza dum Concílio, seus decretos foram redigidos na forma árida e puramente
jurídica. Faltam-lhes, além do estilo paternal tão peculiar à “Pastoral Coletiva”, o
repertório preciosismo de conselhos pastorais e a abundante doutrinação moral e
ascética, e os poderosos estímulos para as empresas apostólicas”25.
      Isto levou o episcopado brasileiro, em reunião em São Leopoldo, RS (23-10-1948),
às vésperas do V Congresso Eucarístico Nacional de Porto Alegre, a decidir pela reedição
da Pastoral Coletiva de 1915:
                     “Não admira, pois que tanto nós, os Arcebispos e Bispos do Brasil, como o Clero
                    nacional, suspirássemos por uma reedição da antiga ‘Pastoral Coletiva’,
                    naturalmente atualizada e adaptada ao Código de Direito Canônico e aos Decretos
                    do Concílio Plenário Brasileiro. É o que vemos realizado, com a graça de Deus,
                    depois de 32 anos de expectativa. Apresentando, pois, ao nosso amado Clero,
                    Secular e Regular, este ‘despertador e guia da piedade sacerdotal’, fazemo-lo, com o
                    intuito de promulgar um indispensável complemento dos Decretos do Concílio
                    Plenário Brasileiro, em forma mais popular e acessível a todos os fieis 26.
      Ao apresentarem a nova edição, os bispos escreveram:
                     “A ‘Pastoral Coletiva’ dos Srs. Arcebispos e Bispos das cinco Províncias
                    Eclesiásticas Meridionais do Brasil é um documento que merece, e merece ainda
                    hoje, a simpatia e admiração de todos os que lhe conhecem o conteúdo. Não se
                    trata apenas de uma simples ‘pastoral’, mas de obra que, ultrapassando os limites
                    de uma carta por sua extensão, lhe conserva as suas características por sua
                    apresentação. É fruto de grandes esforços e de sacrifícios ingentes de zelosos
                    Pastores de almas que, em colaboração fraterna e inteligente, estudaram e
                    estabeleceram os alicerces para a reconstrução do gigantesco edifício da vida
                    espiritual e religiosa do Brasil, sob a orientação do Vigário de Cristo sobre a
                    terra”27.


      Falta de síntese pastoral: Igreja sem rumo e fragmentada
      Devemos reconhecer, com toda sinceridade, que depois da profunda revolução
pastoral e litúrgica, doutrinal, disciplinar e canônica resultante do Concílio Vaticano II
(1962-1965); das Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano em Medellín
(1969), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), da rica e copiosa
coleção de documentos da CNBB, falta uma síntese semelhante à Pastoral Coletiva que
sirva de guia e instrumento prático de orientação para vida quotidiana das comunidades,
pastorais, paróquias e movimentos e, de modo particular, para os presbíteros párocos,
coordenadores de pastoral, mas também para os dirigentes de comunidades e agentes de
pastoral em geral.
      O presbítero que sai dos seus quatro anos de estudos teológicos no seminário sente-
se perdido ao ser colocado à frente de uma paróquia ou de alguma outra responsabilidade
pastoral, sem ter, em mãos, um roteiro prático que facilite o exercício do seu pastoreio.
      Este é um desafio que lançamos tanto aos presbíteros, com seu organismo de
articulação, a CNP, como aos diáconos e à CND; aos leigos e ao CNLB, aos religiosos e
religiosas e à CRB e aos bispos e à CNBB. Parte desta exigência de orientações práticas
com embasamento teórico, bíblico e teológico, é cumprida pela longa seqüência dos
Planos de Pastorais da Igreja do Brasil que tiveram início com o Plano de Emergência


Janeiro de 18 de maio a 20 de julho de 1939. Revisto em Roma, foi promulgado no dia 7 de setembro de 1940,
para entrar em vigor, seis meses depois a 7 de março de 1941. O volume do Concílio consta de duas partes, os
decretos em número de 479 e que ocupam da página 1 à 227 e os Apêndices que vão da página [5] à [426].
25
   Constituições Eclesiásticas do Brasil – Nova Edição da Pastoral Coletiva de 1915, adaptada ao Código de
Direito Canônico, ao Concílio Plenário Brasileiro e às recentes decisões das Sagradas Congregações Romanas.
Canoas: Tipografia La Salle, 1950, p. 7.
26
   Ibidem, p. 7.
27
    Ibidem, p. 5.

                                                                                                           24
(1962) e com o bem articulado Plano de Pastoral de Conjunto (1965-1970),
oportunamente reeditados (Documentos CNBB, 76 e 77); das posteriores Diretrizes
Gerais da Ação Pastoral e da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil e dos Planos
Bienais dos Organismos Pastorais. A mesma função cumprem as Assembléias Diocesanas
com a escolha periódica das prioridades pastorais e a elaboração de planos diocesanos de
pastoral. Outra parte destas necessidades vem sendo atendida por alguns excelentes
documentos, com orientações pastorais práticas, como os subsídios para a Pastoral da
Eucaristia (CNBB, Doc. 2); Pastoral dos Sacramentos da Iniciação Cristã (CNBB, Doc.
2a); Pastoral da Penitência (CNBB, Doc. 6); o excelente Diretório para Missas com
Grupos Populares (CNBB, Doc. 11); a Pastoral da Unção dos Enfermos (CNBB Doc. 14); o
Batismo de Crianças (CNBB, Doc. 19); as Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do
Brasil (CNBB Doc. 25); a Catequese Renovada (CNBB, Doc. 26); a Igreja: comunhão e
missão na evangelização dos povos, no mundo do trabalho, da política e da cultura
(CNBB, Doc. 40); Animação da Vida Litúrgica no Brasil (CNBB, Doc. 43); Orientações
para a Celebração da Palavra de Deus (CNBB, Doc. 52); Orientações pastorais para a
Renovação Carismática Católica (CNBB, Doc. 53); Diretório Nacional de Catequese
(CNBB, Doc. 84). Acrescente-se a isso o Guia Litúrgico-Pastoral, recentemente
publicado.
      Para os presbíteros especificamente foram publicados os documentos de número
30, Formação dos Presbíteros da Igreja do Brasil; o de número 55, Formação dos
presbíteros da Igreja do Brasil: diretrizes básicas; o de número 75, Carta aos Presbíteros,
acompanhados do documento 62, Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas (sem
os quais não é mais possível conceber o ministério específico do corpo presbiteral), e o
documento 74, Diretrizes para o diaconato permanente: formação, vida e ministério do
Diácono Permanente na Igreja do Brasil. Estes e outros estudos como o Diretório do
Ecumenismo, já pavimentaram o caminho e estão pedindo uma síntese inteligente que
redunde num Diretório Pastoral, que possa converter-se num guia prático de quantos
assumem os distintos ministérios e serviços na Igreja do Brasil.


         3.2. I CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO
                         Rio de Janeiro, 25 de julho a 04 de agosto de 1955

      A Conferência do Rio de Janeiro começou a 25 de julho de 1955, na semana
seguinte à celebração do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional. Em seqüência, o
Rio de Janeiro estava abrigando, por primeira vez, em território brasileiro, um evento da
Igreja Universal e um primeiro encontro do episcopado latino-americano e caribenho,
aqui no continente.
      A Conferência do Rio durou duas semanas e é a menos conhecida e a menos
estudada das Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano. Sua extraordinária
importância só foi reconhecida mais tarde, quando começou a dar inesperados frutos,
logo na primeira congregação geral do Concílio Vaticano II. A audácia dos dois vice-
presidentes do CELAM na época, Dom Helder Câmara, arcebispo auxiliar do Rio de
Janeiro e secretário-geral da CNBB e Dom Manuel Larrain de Talca no Chile, levou-os, à
revelia das autoridades romanas e do presidente do próprio CELAM, a convocarem uma
reunião geral dos Bispos da América Latina, em Monte Mário, na Casa dos Salesianos,
para elaborarem proposta de nomes para as Comissões Conciliares. Os cerca de
seiscentos bispos latino-americanos, uma vez articulados no CELAM, acabaram sendo
um dos fatores decisivos para a conformação da maioria conciliar que levou avante as
propostas e intuições de João XXIII.
      Foi igualmente a fundação deste organismo de articulação continental, único no
gênero, em toda a Igreja da época que permitiu às autoridades do CELAM solicitarem de
Paulo VI, no décimo aniversário da fundação do Conselho (23-11-1965), uma segunda


                                                                                        25
Conferência Geral do Episcopado Latino-americano que acabou acontecendo em
Medellín, em 1968.
      A Conferência do Rio de Janeiro tinha o dobro de bispos delegados do que o
anterior, Concílio Plenário Latino-americano realizado em Roma, em 1899. Estavam
presentes 23 países, alguns deles ainda sob estatuto colonial de outras nações: Reino
Unido, França e Estados Unidos. O Caribe estava representado por 9 bispos: 2 das
Antilhas Inglesas (Guiana Inglesa e Trinidad Tobago), 1 da Antilhas Francesas (Guiana
Francesa), 3 de Cuba, e 1 para cada um destes três países: Haiti, Porto Rico, República
Dominicana; a América Central, por seis bispos, 1 para cada um destes países: Costa
Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá; a América do Norte por
10 bispos, todos do México. A América do Sul formava o contingente mais numeroso,
com o seguinte número de delegados, em ordem ascendente: 2 do Uruguai, 3 do
Paraguai, 4 da Venezuela e 4 do Equador, 5 do Chile, 6 da Bolívia e 6 do Peru, 7 da
Argentina, 9 da Colômbia e 28 do Brasil, num total de 76 bispos. O total geral de
delegados foi de 101 aos quais devem ser agregados os 2 representantes da Santa Sé, os 7
observadores dos episcopados do Canadá, Estados Unidos, Portugal, Espanha (2) e
Filipinas (2) e os 5 palestrantes. Ao todo, a Assembléia estava composta por 123 pessoas,
todas elas bispos ou clérigos.

     Igreja ainda centrada no clero
      Paradoxalmente, o número de delegados brasileiros, quando o episcopado era
apenas um terço do atual, supera o número de bispos brasileiros eleitos para a V
Conferência de Aparecida. A dinâmica da Conferência previa a intervenção de cinco
palestrantes: dois do Brasil e três da Colômbia. Os dois do Brasil integravam o
Secretariado de Defesa da Fé instituído pelo Cardeal Dom Sebastião Leme: Mons. Agnelo
Rossi, encarregado do combate ao protestantismo e o Frei Boaventura Kloppenburg,
OFM, responsável pelo combate ao espiritismo. Junto com comunismo no campo social,
espiritismo e protestantismo eram apresentados como as grandes ameaças à fé católica
nos meios populares.
      Dez temas especiais foram tratados pelos bispos latino-americanos e caribenhos,
organizados sob forma de grupos de trabalho. O mais importante e decisivo era o
primeiro “Vocações e formação do clero secular”, já que se considerava que a escassez do
clero era o principal problema da Igreja na América Latina. Elencamos abaixo os temas
dos dez grupos de trabalho:
      1. Vocações e formação do clero secular;
      2. Clero não nacional;
      3. Religiosas e Religiosos;
      4. Auxiliares do Clero (Cap. I: Apostolado dos leigos em geral; Cap. II: diversas
      formas de Ação Católica e de obras coordenadas; Cap. III: Apostolado social e
      responsabilidade do cristão na vida cívico-política; Cap. IV: Ouros auxiliares do
      clero: catequistas);
      5. Organização da cura das almas (hoje diríamos da “pastoral”);
      6. Meios especiais de propaganda (imprensa, rádio, cinema, televisão);
      7. Protestantismo e movimentos anti-católicos: preservação e defesa da fé;
      8. Problemas sociais;
      9. Missões, índios e gente de cor;
      10. Imigração e gente do mar (apostolado do mar).
      Um décimo primeiro grupo ficou encarregado de elaborar a proposta de criação de
um Conselho Episcopal, seus objetivos, estrutura, funções e local de instalação. Em
muitos pontos o Conselho se vale da experiência da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, criada há apenas três anos antes (1952). Sobre o local da sede do futuro organismo
houve uma votação em que os votos se dispersaram por várias capitais: 3 – Santiago do
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Chile, 6 – Lima no Peru, 16 – Rio de Janeiro no Brasil, 30 – Bogotá na Colômbia, 32 –
Roma na Itália, 56 votos apontavam para a América Latina, mas a cidade que recolheu
isoladamente o maior número de consensos foi Roma28.
      Na resposta de aprovação das propostas a ele encaminhadas, Pio XII acedia ao
pedido de criação do Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM; aprovava em suas
linhas gerais as propostas de organização e funcionamento deste organismo e, a respeito
da sede, escrevia o Cardeal Adeodato Giovanni Piazza:
                     “Por lo que refiere a la determinación de la sede del Secretariado General, el
                     Augusto Pontífice ha agradecido vivamente los sentimientos de profunda
                     devoción y adhesión filial hacia el Vicario de Cristo que han movido a tantos
                     miembros de la Conferencia a escoger la Ciudad Eterna, capital del mundo
                     católico. Con todo, Su Santidad no cree que el Secretariado General pueda tener
                     residencia conveniente fuera de América Latina, teniendo en cuenta las funciones
                     mismas que está llamado a desempeñar” 29.
      Termina pedindo que todos os bispos, incluindo os que não participaram da
Conferência do Rio de Janeiro, endereçassem seu voto às nunciaturas apostólicas,
indicando a cidade que consideravam a melhor localizada para sediar o Secretariado do
CELAM. Bogotá acabou sendo a escolhida.
      Acerca dos presbíteros, a Conferência padece daquela quase identificação entre a
Igreja e o seu corpo clerical e, partindo do diagnóstico de que a escassez do clero era a
principal causa de todos os males e debilidades da Igreja no continente, concentra grande
parte do seu esforço em delinear estratégias para o aumento das vocações, a
multiplicação dos seminários e a melhoria no nível da formação intelectual, humana,
espiritual e pastoral dos presbíteros. Nessa perspectiva os leigos e leigas entram apenas
como “auxiliares do clero”, naqueles lugares e campos de apostolado em que estes tinham
dificuldade de marcar presença ou exercer seu ministério.


           3.3. II CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO
                             Medellín, 26 de agosto a 06 de setembro de 1968

      Entre Rio de Janeiro e Medellín perfilam-se dois eventos de grande significação e
impacto: a revolução Cubana (1959) e o Concílio Vaticano II (1962-1965).
      A revolução deixou clara a gravidade e profundidade dos problemas sociais da
América Latina, enquanto o Concílio apontava claramente a necessidade de a Igreja
cumprir sua missão plantada no coração do mundo de hoje. No plano interno, o Concílio
definia a Igreja como povo de Deus e definia a colegialidade episcopal, como forma de
reequilibrar as afirmações do Concílio Vaticano I, acerca do primado petrino. Medellín é
fruto também das lacunas do Concílio. Centrados principalmente na realidade e no
desejo de mudar o foco Helder Câmara do Brasil e Manuel Larrain do Chile, vice-
presidentes do CELAM, passaram a sonhar, numa espécie de Concílio para a América
Latina, cuja agenda contemplasse os principais problemas e desafios vividos pela Igreja
no continente. Na etapa final do Concílio, Larrain dizia: “Lo que hemos vivido es
impresionante, pero si en América Latina no somos atentos a nuestros propios signos
de los tiempos, el Concilio pasará al lado de nuestra Iglesia, y quién sabe lo que vendrá
después”.30
      A Conferência de Medellín foi preparada com entusiasmo, mas já sob a sombra da
repressão e dos golpes militares, como o do Brasil em 1964, que iriam ensangüentar o

28
   CELAM, Rio de Janeiro, Medellín, Puebla, Santo Domingo – Conferencias Generales del Episcopado
Latinoamericano. Bogotá: CELAM, 1994, p. 65.
29
   Ibidem, p. 65-66.
30
   Cfr. GUTIERREZ, Gustavo, “Significado y alcance de Medellín”, in DAMMERT, Mons. José et alii,
Irrupción y caminar de la Iglesia de los Pobres - Presencia de Medellín, Instituto Bartolomé de las Casas - CEP,
Lima, 1989, p. 38, nota 17.

                                                                                                             27
continente nas décadas seguintes. Foi vista como a grande oportunidade do continente
para empenhar-se nas transformações urgentes e necessárias de sua realidade injusta,
apoiando-se numa Igreja que saia renovada do Concílio, disposta a repensá-lo à luz dos
desafios da realidade da América Latina e do Caribe.
      O que diferenciou profundamente Vaticano II de Medellín foi o método de trabalho
adotado. Com a teologia dos sinais dos tempos presente na Gaudium et Spes, mas
ausente dos outros documentos conciliares, o ponto de partida, em Medellín, foi sempre
o estudo atento da realidade tanto econômica, política e social quanto eclesial do
continente latino-americano e caribenho.
      O segundo passo consistiu em identificar as interpelações que brotavam da
realidade, analisando-as à luz da Palavra de Deus, do Vaticano II, do magistério
pontifício e da experiência de toda a igreja.
      O terceiro passo, quiçá o mais importante, foi o de propor pistas de ação pastoral,
visando transformar, no sentido do Reino de Deus e da libertação dos pobres, a realidade
atravessada por estruturas de pecado e pelo clamor e esperança dos pequenos.
      Medellín caracteriza-se pela radicalidade com que determinadas orientações de
fundo do Vaticano II foram plenamente assumidas. A primeira delas é a “pastoralidade”,
que o Papa João XXIII quis imprimir ao conjunto da obra conciliar. Nem todos os
documentos conciliares alcançaram assimilar, plenamente, este horizonte que se
encontra melhor expresso naquela que seria chamada de Constituição Pastoral da Igreja
no Mundo de Hoje, a “Gaudium et Spes”. Os 16 documentos de Medellín devem ser lidos
à luz da pastoralidade. Eles arrancam da preocupação pastoral dos bispos frente à
realidade pungente do continente e terminam sempre com orientações, de caráter
prático, para os trabalhos pastorais. Vários deles trazem impressa, no seu próprio título,
a dimensão da pastoralidade: Pastoral Popular, Pastoral de Elites, Pastoral de Conjunto.
Mais do que isto, esta dimensão constitui, explicitamente, a terceira parte de todos os
dezesseis documentos. Ali, vem consignada sob diferentes títulos: Projeções de Pastoral
Social (Medellín 1, Justiça); Conclusões Pastorais (Medellín 2, Paz); Recomendações para
uma Pastoral Familiar (Medellín 3, Família e Demografia); Orientações Pastorais
(Medellín 4, Educação); Recomendações Pastorais (Medellín 5, Juventude) e, assim por
diante.
      Outra dimensão conciliar, plenamente vivida por Medellín foi a colegialidade
episcopal, não enquanto debate teórico ou aprimoramento de sua definição, mas como
exercício prático inovador. Foi todo um continente que buscou, colegialmente, a melhor
maneira de aplicar o espírito e as determinações do Concílio à vida de suas igrejas
particulares. Sob um outro ângulo e comparando a II Conferência à instituição do Sínodo
dos Bispos que, no pós Concílio, buscou concretizar o exercício da colegialidade
episcopal, vemos que Medellín representou, num grau singular e original, a aplicação do
princípio da colegialidade episcopal.
      Durante o Concílio, uma grande corrente do episcopado sonhou em desdobrar a
recém explicitada e aprovada doutrina da colegialidade, em algum tipo de organismo que
associasse os bispos ao Papa, no governo geral da Igreja. Imaginou-se uma espécie de
senado permanente, constituído por bispos dos diferentes continentes que, junto com o
Papa, tomasse, sobre si, a responsabilidade da condução da vida da Igreja. De fato, o
instituto aprovado foi o do Sínodo dos Bispos, com a função, porém, de ser apenas um
órgão de consulta do Romano Pontífice, sem poder de auto-convocação, sem capacidade
de propor sua própria agenda e sem funções deliberativas.
      As conferências gerais do Episcopado Latino-americano, a partir de Medellín
(1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992), ainda que de maneira penosa e sofrendo
crescentes restrições por parte de Roma, conquistaram um espaço de realização da
colegialidade episcopal, em profunda comunhão com a Sé de Pedro, mas sem abdicar do
pleno exercício de sua própria responsabilidade de pastores desta porção do povo de

                                                                                       28
Deus, deliberando e propondo às suas igrejas um magistério próprio e investido de
autoridade.
      Outro desdobramento eclesial decisivo em Medellín é o das Comunidades Eclesiais
de Base. Elas são abordadas no documento de Pastoral de Conjunto, onde os números de
10 a 12 definem a proposta fecunda de uma Igreja de pobres, congregada em pequenas
comunidades cristãs de base: “Assim, a comunidade cristã de base é o primeiro e
fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela
riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é a sua expressão. É ela, portanto
a célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator
primordial de promoção humana e desenvolvimento”. (Medellín 15, 10)
      As Comunidades Eclesiais de Base são já um desenvolvimento eclesial próprio das
igrejas da América Latina e que ultrapassa, visivelmente, os limites formais da
eclesiologia desenvolvida na Lumen Gentium ou, melhor dizendo, dão um rosto concreto
à definição da Igreja, como Povo de Deus, todo ele ministerial, por obra de sua
incorporação batismal ao Cristo, sacerdote, profeta e rei 31. As CEBs são o rosto
eclesial dos pobres dentro da Igreja e merecem dos presbíteros todo o
carinho e atenção que a eles dedicou o próprio Jesus: “Dou-te graças, ó Pai,
Senhor do céu e da terra! Porque, ocultando estas coisas aos entendidos, as
revelastes aos ignorantes” (Mt 11, 25b).
      Outro debate crucial em Medellín é o vínculo que se estabelece entre a injusta e
desumana condição de pobreza das maiorias no continente e o que a Igreja deve ser em
sua vida e missão. O tema da Igreja dos Pobres estava no coração de João XXIII que o
propôs na alocução de 11 de setembro de 1962, um mês antes da abertura do Concílio:
“Outro ponto luminoso. Diante dos países subdesenvolvidos, a Igreja apresenta-se tal
como é e quer ser, a Igreja de todos e particularmente a Igreja dos pobres”.32
      O cardeal Lercaro, em célebre intervenção no Concílio ao final da primeira sessão,
retomou com força o propósito de João XXIII, declarando: “esta é a hora dos pobres, dos
milhões de pobres que estão por toda a terra, esta é a hora do mistério da Igreja, mãe dos
pobres, é a hora do mistério de Cristo sobretudo no pobre”. Por conseguinte, “a mais
profunda exigência do nosso tempo, incluindo nossa grande esperança de promover a
unidade de todos os cristãos, não seria satisfeita, seria ao contrário frustrada, se o
problema da evangelização dos pobres do nosso tempo, fosse tratado no Concílio, como
um tema que se junta aos outros.” Com efeito, “não se trata de um tema qualquer, mas
num certo sentido do único tema de todo o Vaticano II”. 33
      O tema da pobreza foi insistentemente relançado durante o Concílio pelos bispos
que se organizaram em torno a esta preocupação, durante o Concílio, como grupo de
oração, de reflexão e de pressão. O grupo “Igreja dos Pobres”, integrado por um bom
número de bispos latino-americanos, em especial do Brasil, conseguiu escasso sucesso
nos seus intentos de levar o Concílio a fazer desta dimensão o seu eixo estruturante. Sua
influência espiritual e profética foi entretanto bem maior do que seu êxito prático em
fazer passar suas preocupações para os textos conciliares, com exceção do magnífico
número 8 da Lumen Gentium, no seu parágrafo consagrado ao Cristo pobre: “Mas assim
como Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é
chamada a seguir o mesmo caminho a fim de comunicar aos homens os frutos da
salvação. Cristo Jesus, “como subsistisse na condição de Deus, despojou-se a si mesmo,
tomando a condição de servo”(Filip 2, 6) e por nossa causa “fez-se pobre embora fosse

31
   Sobre o rosto atual das CEBs no Brasil, há uma importante pesquisa realizada durante o XXI Intereclesial das
CEBs, em Ipatinga (19 a 23 de julho de 2005) e recentemente publicada: BENINCÁ, Dirceu, CEBs nas trilhas
da inclusão libertadora. São Paulo: Paulus, 2006.
32
   João XXIII, Mensagem de 11 de setembro de 1962, in ALBERIGO, Angelina e Giuseppe, Giovanni XXIII,
profezia nella fedeltà, Querigniana, Brescia, 1978.
33
   LERCARO, Giacomo, Per la forza dello Spirito Santo. Discorsi conciliari (a cura dell’Istituto per le Scienze
Religiose, Bologna, Edizione Dehoniane, 1984, 109-122 (tradução do autor), citado por G. Gutierrez, Densidad
del Presente, CEP, Lima, 1996, 117-118.

                                                                                                             29
rico”(2 Cor 8, 9): da mesma maneira a Igreja embora necessite dos bens humanos para
executar sua missão, não foi instituída para buscar a glória terrestre, mas para
proclamar, também pelo seu próprio exemplo, a humildade e abnegação. Cristo foi
enviado pelo Pai para “evangelizar os pobres, sanar os contritos de coração”(Lc 4, 18),
“procurar salvar o que tinha perecido”(Lc 19, 10): semelhantemente a Igreja cerca de
amor todos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobres e sofredores
a imagem de seu Fundador pobre e sofredor. Faz o possível para mitigar-lhes a pobreza e
neles procura servir a Cristo.” (LG 8).
      Em Medellín, ao contrário do Vaticano II, os bispos que haviam fracassado no seu
intento de colocar os pobres no centro das preocupações da Igreja, lograram seu objetivo.
Os demais temas eclesiológicos, por mais relevantes que fossem, são deixados de lado em
favor deste horizonte dos pobres que se transforma no documento 14, “Pobreza da
Igreja”:
                “O Episcopado Latino-americano não pode ficar indiferente perante as tremendas
                injustiças sociais existentes na América Latina que mantêm a maioria de nossos
                povos, numa dolorosa pobreza e que, em muitíssimos casos, chega a ser miséria
                inumana. Um surdo clamor brota de milhões de homens, pedindo a seus pastores
                uma libertação que não lhes advém de parte nenhuma.” (Medellín 14, 1-2)
     Como resposta a este clamor, propõem os bispos:
                “Queremos que a Igreja da América Latina seja evangelizadora e solidária com os
                pobres, testemunha do valor dos bens do Reino e humilde servidora de todos os
                homens de nossos povos”. […] A ordem específica do Senhor de evangelizar os
                pobres deve levar-nos a uma distribuição tal dos esforços e do pessoal apostólico
                que se dê preferência efetiva aos setores mais pobres, necessitados e segregados por
                um motivo ou outro, estimulando e acelerando as iniciativas e estudos que vêm se
                realizando neste sentido. Os bispos queremos aproximar-nos cada vez mais com
                simplicidade e sincera fraternidade dos pobres, possibilitando-lhes um acesso
                acolhedor junto a nós” (Medellín 14, 8-9).


    Pobreza: sempre um mal
    Solidariedade com os pobres e sua luta: uma necessária opção
evangélica
     A parte dedicada à motivação doutrinal no documento Pobreza da Igreja oferece
uma abordagem que continua nos ajudando até hoje para uma melhor inteligência de
mente, de coração e de compromisso com o que significa concretamente a opção pelos
pobres.
     Diz o documento de Medellín que devemos distinguir:
                a. A pobreza como carência dos bens deste mundo é um mal em si. Os
                profetas a denunciam como contrária à vontade do Senhor e, muitas vezes, como
                fruto da injustiça e pecado dos homens.
                b. A pobreza espiritual é o tema dos pobres de Javé (Cf. Sof 2, 3; Lc 1, 46-55). A
                pobreza espiritual é a atitude de abertura para Deus, a disponibilidade de
                quem tudo espera do Senhor (Cf. Mt 5, 3). Ainda que valorize os bens deste mundo
                não se apega a eles e reconhece o valor superior dos bens do Reino (Cf. Am 2, 6-7;
                4, 1; 5, 7; Jer 5, 28; Miq 6, 12-13; Is 10, 2, etc).
                c. A pobreza como compromisso, que assume voluntariamente e por amor a
                condição dos necessitados deste mundo para testemunhar o mal que
                representa e a liberdade espiritual frente aos bens. Segue nisto o exemplo de
                Cristo que fez suas todas as conseqüências da condição pecadora dos homens (Cf.
                Filip 2, 5-8) e que, ‘sendo rico se fez pobre’ (Cf. 2 Cor 8, 9), para nos salvar.
                Neste contexto, uma Igreja pobre:
                · denuncia a carência injusta dos bens deste mundo e o pecado que a engendra;



                                                                                                 30
                   · prega e vive a pobreza espiritual, como atitude de infância espiritual e abertura
                   para o Senhor!
                   · compromete-se ela mesma com a pobreza material. A pobreza da Igreja sempre
                   foi uma constante da história da salvação. (Medellín 14, 4-6).
      Gustavo Gutierrez que assessorou esta comissão e trabalhou na redação do
documento, comenta que a visão da vida cristã, expressa na opção preferencial
pelos pobres, enquanto prática pastoral, espiritualidade e reflexão teológica,
é a contribuição mais substantiva da Igreja da América Latina para a Igreja
universal. Ela foi mais e mais assumida como parte integrante da vida da Igreja e do seu
magistério e encontra-se repetidamente nos pronunciamentos de João Paulo II e de
episcopados dos vários continentes. Como lembra Puebla: “Os pobres, também alentados
pela Igreja, começaram a organizar-se para uma vivência integral de sua fé e, por isso,
para reivindicar seus direitos” (Puebla 1137). Ela mudou a imagem da Igreja em muitas
partes do mundo, embora lhe tenha custado perseguições, calúnias e martírios, com
assinala Puebla: “A denúncia profética da Igreja e seus compromissos proféticos com o
pobre causaram-lhe, em não poucos casos, perseguições e vexames de vários tipos: os
próprios pobres têm sido as primeiras vítimas de tais vexames” (Puebla 1138).
      Escreve Gustavo Gutierrez:
                   “Esse contexto permite-nos aquilatar o alcance da opção pelos pobres. Trata-se de
                   uma solidariedade com os pobres e insignificantes deste mundo, mas não se limita
                   a ser uma distribuição das forças pastorais nas áreas em que estes se encontram.
                   Isto é, muitas vezes, capital, mas a opção pelos pobres é mais global e exigente. Vai
                   ao cerne da vida cristã, desdobra-se em vários campos: espiritualidade, trabalho
                   teológico e anúncio do evangelho. Esta tríplice dimensão dá vigor e perspectiva à
                   opção preferencial pelo pobre”34.
      Central na opção pelos pobres é o seguimento de Jesus:
                   “Ser cristão é caminhar, movido pelo Espírito, pelos passos de Jesus. Este
                   seguimento, a seqüela Christi, como se dizia tradicionalmente, é a raiz e o sentido
                   último da opção preferencial pelos pobres.
                   Esta opção, - a expressão é recente, o conteúdo é bíblico – é um componente
                   essencial do discipulado. No seu núcleo há uma experiência espiritual do mistério
                   de Deus.
                   [...] A espiritualidade move-se no terreno da prática da vida cristã, da ação de
                   graças, da oração, do compromisso histórico, da solidariedade, especialmente com
                   os mais pobres. Contemplação e solidariedade são as duas vertentes de uma prática
                   animada por um sentido global da existência que é fonte de esperança e de alegria.
                   O sentido mais profundo do compromisso com o pobre é o encontro com Cristo.
                   Fazendo eco da passagem do juízo final em Mateus, Puebla nos convida a
                   reconhecer nos rostos dos pobres ‘os traços sofredores de Cristo, o Senhor, que nos
                   questiona e interpela’ (Puebla 31). E Santo Domingo afirma que ‘descobrir nos
                   rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor’ (cf. Mt 25, 31-46) é algo que desafia
                   os cristãos para uma profunda conversão pessoal e eclesial (SD 178)” 35.
      Medellín compreende igualmente as comunidades eclesiais de base, como o povo
dos pobres que se organiza eclesialmente, dando-nos uma definição, até hoje válida desta
que é uma tradução original e criativa da Igreja como Povo de Deus:

      O presbítero e sua espiritualidade
      No documento sobre os presbíteros, Medellín reforça esta orientação:
                   “Uma das características indispensáveis da espiritualidade sacerdotal,
                   especialmente requerida por nossa situação continental é a pobreza evangélica. Os


34
   GUTIERREZ, Gustavo, Seguimiento de Jesús y opción por el pobre, in PÁGINAS, n. 202, p.2 (tradução do
autor).
35
   Ibidem, p. 6.

                                                                                                          31
                     presbíteros serão testemunhas do Reino: pobres de espírito e imitando a Jesus
                     Cristo, mas valorizando e usando pastoralmente os bens econômicos em favor do
                     Cristo pobre, presente cotidianamente na pessoa dos necessitados” (Medellín 11,
                     27).
      A opção preferencial pelos pobres faz-nos compreender que a evangelização não
pode estar separada da luta pela justiça. Por isso, Medellín agregou de maneira
tão incisiva à vocação presbiteral sua presença no mundo ao lado dos pobres
em suas lutas por libertação. Estas não estão separadas do esforço por organizar e
animar as pastorais sociais e igualmente por respaldar as organizações populares na
esfera do trabalho, das lutas pela terra, pela moradia, por saúde, educação, segurança,
igualdade racial e de gênero.



              “Dar de comer ao faminto, no mundo de hoje significa atender
         diretamente ao necessitado, mas também se comprometer em suprimir
         as causas que produzem pessoas famintas. O ‘combate pela justiça’,
         para empregar a expressão de Pio XI, forma parte dos gestos em
         relação ao pobre que nos fazem encontrar Jesus. O rechaço da injustiça
         e da opressão que ela supõe, está ancorado na fé no Deus da Vida. Esta
         opção foi marcada pelo sangue daqueles que, como dizia Mons. Romero,
         morreram com o ‘sinal do martírio”. Este foi o seu caso e o foi também
         de numerosos cristãos num continente que se pretende cristão. Não se
         pode deixar de lado esta situação martirial numa reflexão sobre a
         espiritualidade na América Latina”36.



             3.4. III CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO
                                Puebla, 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979

      Puebla convocada por Paulo VI para acontecer no décimo aniversário de Medellín,
foi adiada uma primeira vez pela morte do próprio Paulo VI. Re-convocada pelo Papa
João Paulo I foi novamente suspensa pelo seu inesperado falecimento. Finalmente João
Paulo II, recém eleito confirmou-a para fevereiro de 1979, propondo-se a inaugurá-la.
      Os sucessivos adiamentos permitiram uma preparação mais dilatada de Puebla,
convertendo-a num momento privilegiado para a recepção da anterior Conferência de
Medellín, já que instaurou um vivo debate interno e na sociedade. Este pode ser
resumido no embate que se travou entre os que pugnavam pela continuidade de Medellín
e os que propunham uma mudança de rumos para a Igreja da América Latina e do
Caribe.
      Puebla centrou o seu propósito no tema da Evangelização, herdado do Sínodo da
Evangelização de 1974 e da inspiradora Exortação Pós-Sinodal de Paulo VI, a Evangelii
Nuntiandi.
      Medellín apontara a inumana pobreza, as desigualdades sociais e o sistema
econômico que produzia “ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais
pobres” como a principal causa do clamor dos pobres e como a grande chaga humana e
social do continente. A Evangelii Nuntiandi indicava os pobres e sua libertação como o
principal desafio para a tarefa evangelizadora.
      Outros, ao contrário, viam no surgimento de uma moderna cultura urbana,
industrial, técnica e científica, que prescinde de Deus nos seus pressupostos e realizações,

36
     Ibidem, p. 7.

                                                                                                 32
o principal obstáculo para a evangelização. Propunham, neste sentido, que a Igreja
deslocasse sua atenção da esfera sócio-econômico-política para a esfera cultural. A
cultura passou a ser apontada como o campo próprio e específico da esfera religiosa,
estreitando-se o âmbito da evangelização que ficaria confinado a este aspecto da vida. Por
isso, é tão importante a afirmação de Puebla de que todos âmbitos da vida humana,
inclusive o social, o político e o econômico, dizem diretamente respeito à fé e à
evangelização:
                     “A fé cristã não despreza a atividade política; pelo contrário, a valoriza e a tem em
                     alta estima” (Puebla 514). “A Igreja [...] sente como seu dever e direito estar
                     presente neste campo da realidade: porque o cristianismo deve evangelizar a
                     totalidade da existência humana, inclusive a dimensão política. Por isso ela critica
                     aqueles que tendem a reduzir o espaço da fé à vida pessoal ou familiar, excluindo a
                     ordem profissional, econômica, social e política, como se o pecado, o amor, a
                     oração e o perdão não tivessem importância aí” (Puebla 515). “Efetivamente a
                     necessidade da presença da Igreja, no âmbito político, provém do mais íntimo da fé
                     cristã: do domínio de Cristo que se estende a toda a vida” (Puebla 516).
      O deslocamento da temática refletia-se num deslocamento dos atores sociais
envolvidos. Talvez de maneira não deliberada, o eixo das preocupações da Igreja
deslocava-se para os sujeitos desta cultura urbana, industrial, técnica e científica: as
novas classes médias, fruto da urbanização, da intensa escolarização, qualificação
profissional universitária e do amplo acesso aos bens culturais produzidos pela imprensa,
cinema, rádio, televisão. Em termos de estruturas eclesiais a ênfase passava das CEBs
enraizadas nos setores populares, para os Movimentos, cujo nicho principal eram essas
classes médias. Este grupo apontava para problemas reais que deveriam ser
necessariamente enfrentados pela Igreja, mas não de maneira descasada do desafio da
desigualdade e da pobreza e das questões sócio-econômicas e políticas.
      Na esfera cultural, este grupo tinha dificuldades em reconhecer que não existe
apenas uma cultura, mas diversas culturas, em disputa e conflito entre si. Era também
menos sensível às questões que emergiam das culturas nativas do continente que davam
sinais de efervescência, à raiz do ressurgimento dos movimentos indígenas em quase
todos os países do continente. Emprestava igualmente escassa atenção à agenda cultural
e social dos movimentos afro-americanos, ao seu renascimento cultural e à sua
interpelação dirigida à sociedade e às igrejas por conta das discriminações raciais e
culturais herdadas do longo passado escravista do continente.

       Puebla: emergência do debate cultural
      A inserção da Igreja em setores populares e, em meio aos pobres, gerou em alguns
lugares, uma radicalização da questão cultural. Em amplas regiões, ao longo de todo o
continente, não se tratou apenas de passar, na liturgia, da língua latina para o castelhano
ou para o português, mas sim de percorrer um longo caminho de reencontro com as
culturas indígenas autóctones e com as culturas afro-americanas. No Haiti, a liturgia
celebrada em francês correspondia apenas à cultura dos grupos letrados, mas não à
grande massa popular que se exprimia em créole. Ao norte do México, a cultura
tarahumara continuava viva nas aldeias indígenas das montanhas e Mons. José Llaguno
e seu clero empreenderam um paciente esforço de traduzir os livros litúrgicos e repensar
a herança cristã, a partir tradição cultural tarahumara, integrando nas celebrações suas
danças e costumes.37 Imensa tarefa, a de traduzir a Bíblia, recriar o catecismo e de
preparar os delegados da palavra e catequistas tirados da própria população local. O
mesmo aconteceu em Oaxaca, com os mixes e os zapotecos, promovidos a agentes de
pastoral de seu próprio povo e, de maneira mais profunda ainda, com os tsetales, tzotziles



37
  Pedro de Velasco Rivero, Danzar o morir: religión y resistencia a la dominación en la cultura tarahumar,
Ediciones CRT, México, 1987.

                                                                                                             33
ou chamulas de Chiapas e da selva Lacandona, na diocese de San Cristobal de Las Casas,
com o bispo Mons. Samuel Ruiz.
      O bispo Leonidas Proaño, em Riobamba, no Equador, levou adiante uma revolução
semelhante, embora só depois de sua morte tivesse sido concluída e publicada a tradução
completa da Bíblia em quéchua, pela qual tanto lutou em vida. Milhares de catequistas e
responsáveis de comunidades indígenas transformaram o rosto da Igreja de Riobamba
que renasceu não apenas como uma Igreja popular mas como uma Igreja indígena
quéchua.38
      Assim, quando na III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em
Puebla, tocou-se o tema da religiosidade popular, este não estava mais confinado apenas
ao longo processo de simbiose entre a fé cristã e as culturas do continente que resultaram
num catolicismo mestiço, mas estava diante de um novo processo de renascimento de
culturas indígenas e afro-americanas e de sua rica tradição cultural e espiritual. Estava
também diante de um catolicismo que buscava exprimir-se em novos padrões culturais e
religiosos.

      Religiosidade popular: conflito e resgate
      Em Puebla, foi difícil e conflituosa esta discussão cultural, assim como a revisão
histórica das relações entre a Igreja católica, as culturas nativas do continente e as que
foram trazidas da África no bojo do tráfico negreiro. O documento de consulta de Puebla
(1978). conhecido como o “Livro verde”39, pela cor de sua capa, nem sequer menciona, no
capítulo inicial, dedicado à história da evangelização na América Latina, o fato da
escravidão negra, realidade multitudinária e majoritária em muitos países, ao longo de
quase quatro séculos.
      O documento final encontrou dificuldades em abordar a questão, sob o ângulo
histórico. Dedica aos quase quatro séculos de escravidão, apenas uma frase que,
posteriormente, na revisão feita pelo CELAM do texto aprovado na Conferência, acabou
sendo retirada do texto principal, para quase desaparecer numa nota de rodapé.
Conseguiu-se assim, eliminar do texto corrido de toda a primeira parte do documento,
“Visão história da Realidade Latino-Americana”, qualquer referência à escravidão.
      A nota de rodapé é ela mesma eloqüente sobre o tema e sobre seu próprio destino
como discurso, expulso para fora do texto e confinado a uma nota: “O problema dos
escravos africanos não mereceu, infelizmente, a devida atenção evangelizadora e
libertadora da Igreja”.40 Puebla, do ponto de vista da temática cultural, acolhe o grande
tema da religiosidade popular, dando-lhe porém um tratamento ambíguo e tendo sempre
como pano de fundo o que denominou o “radical substrato católico” do continente.

      Os pobres: de objeto a sujeitos e protagonistas da evangelização
      O documento de Puebla abre o capítulo sobre a opção preferencial pelos pobres,
retomando o caminho percorrido desde Medellín e afirmando: “A Conferência de Puebla
volta a assumir com renovada esperança na força vivificadora do Espírito, a posição da II
Conferência Geral que fez uma clara e profética opção preferencial e solidária pelos
pobres […]” (Puebla 1134).


38
   Luis María Gavilanes del Castillo, Monseñor Leonidas Proaño y su Misión Profetico-Liberadora en la Iglesia
de America Latina, Fondo Ecuatoriano Populorum Progressio, Quito, 1992; Mons. Leónidas Proaño, el Profeta
del Pueblo - Selección de sus textos, Fundación Pueblo Indio del Ecuador, Fondo Ecuatoriano Populorum
Progressio, Centro de Educcion Popular, Centro de Investigaciones Ciudad, Quito, 1992; Leónidas e. Proaño,
Concientización, evangelización, política, Sigueme, Salamanca, 1987.
39
   CELAM, III Conferencia General del Episcopado Latinoamericano, Puebla - México - 1978, Preparación:
Documento de Consulta a las Conferencias Episcopales. Bogotá, 1977.
40
   CELAM, Conclusões da Conferência de Puebla - Evangelização no presente e no futuro da América
Latina.São Paulo: Paulinas, 1979, no 8 , nota 40.

                                                                                                           34
         Um dos motivos era que a situação no continente não melhorara, antes se agravara:
                      “A imensa maioria de nossos irmãos continua vivendo em situação de pobreza e até
                      miséria que se veio agravando. Queremos tomar consciência do que a Igreja latino-
                      americana fez ou deixou de fazer pelos pobres depois de Medellín, como ponto de
                      partida para a busca de pistas opcionais eficazes em nossa ação evangelizadora no
                      presente e no futuro da América Latina” (Puebla 1135).
      Puebla recorda a prática evangelizadora de Jesus em relação aos pobres que tinham
toda sua preferência e por isto deveriam gozar da mesma preferência da Igreja: “Ao
aproximar-nos do pobre para acompanhá-lo e servi-lo, fazemos o que Cristo nos ensinou,
quando se fez irmão nosso, pobre como nós. Por isso, o serviço dos pobres é medida
privilegiada, mas sem exclusivismo, de nosso seguimento de Cristo” (Puebla 1145).
      A novidade surge um pouco mais à frente quando se toma consciência do potencial
evangelizador dos pobres em relação à própria Igreja: “O compromisso com os pobres e
oprimidos e o surgimento das Comunidades de Base ajudaram a Igreja a descobrir o
potencial evangelizador dos pobres, enquanto estes a interpelam constantemente,
chamando-a à conversão, e porque muitos deles realizam em sua vida os valores
evangélicos de solidariedade, serviço, simplicidade e disponibilidade para acolher o dom
de Deus” (Puebla 1147).

         Opção preferencial pelos jovens
      Medellín já inovara em relação ao Concílio, ao incluir na sua pauta, no bloco
consagrado à Promoção Humana, um documento específico dedicado à Juventude. No
Vaticano II, o tema fora apenas aflorado num ou noutro documento, como na Declaração
sobre a Educação (Gravissimum Educationis). Deve-se reconhecer, entretanto, que a
juventude foi diretamente contemplada na celebração de encerramento da assembléia
conciliar com a Mensagem do Concílio aos Jovens.
      Medellín declara que “a Igreja vê na juventude a constante renovação da vida da
humanidade e nela descobre um sinal de si mesma: “a Igreja é a verdadeira juventude do
mundo”41. Puebla proclama ao lado da opção pelos pobres, a opção preferencial pelos
jovens, justificando-a: “A Igreja confia nos jovens (EN 72). Eles são a sua esperança. A
Igreja vê na juventude da América Latina um verdadeiro potencial para o presente e o
futuro de sua evangelização. (cf. MED. Juventude, 13)” (Puebla 1186).

         O presbítero em Puebla
      Puebla dedica a I Parte de suas Conclusões a uma “Visão Pastoral da Realidade
Latino-americana”; a II Parte aos “Desígnios de Deus sobre a Realidade Latino-
americana” e a III Parte à “Evangelização da Igreja da América Latina: Comunhão e
Participação”. É nesta terceira parte no capítulo II, “Agentes de comunhão e
participação” que se insere, no “Ministério Hierárquico”, a reflexão sobre os presbíteros,
entre os bispos e diáconos. A novidade da visão de Puebla está expressa no número 665:
“Vai-se adquirindo uma consciência mais profunda do caráter evangelizador e
missionário do múnus pastoral”. A continuidade com a visão de Medellín aparece no
número 670: “Verifica-se um aumento de clareza com respeito à identidade sacerdotal,
que resultou em renovada afirmação da vida espiritual do ministério hierárquico e num
serviço preferencial aos pobres”.
      No tocante às orientações pastorais específicas aos presbíteros Puebla assinala:
                      “No seu ministério, dêem os presbíteros prioridade ao anúncio do Evangelho
                      a todos, mas muito especialmente aos mais necessitados (operários,
                      camponeses, indígenas, marginalizados, grupos afro-americanos), incluindo a
                      promoção e defesa de sua dignidade humana” (Puebla 711).


41
     Mensagem do Concílio aos Jovens, 08-12-1965.

                                                                                                    35
                   “Renove-se a vitalidade missionária dos sacerdotes e sejam eles formados
                   numa atitude de generosa disponibilidade, para que se possa dar uma resposta
                   mais eficaz à desigual distribuição do clero atualmente existente” (Puebla 712).
                   “Dêem prioridade ao trabalho evangelizador da família e da juventude e à
                   promoção das vocações sacerdotais e religiosas” (Puebla 713)
                   “Assumam o compromisso de incorporar o laicato e as religiosas na ação
                   pastoral, numa participação cada vez mais ativa, ministrando-lhes o devido
                   acompanhamento espiritual e doutrinal” (Puebla 714).
     Como fecho para Puebla, tomamos a palavra de Dom Aloísio Lorscheider, um dos
seus presidentes e, com sua fala, na manhã seguinte ao discurso de abertura de João
Paulo II, protagonista fundamental dos rumos e opções da Conferência:
                   “A parte mais importante do documento de Puebla é a IV Parte, em que, além da
                   opção preferencial pelos pobres, da opção preferencial pelos jovens e da ação da
                   Igreja junto aos construtores da sociedade pluralista na América Latina, se trata, de
                   modo muito especial dos direitos fundamentais do ser humano, dos direitos
                   individuais, dos direitos sociais e dos direitos emergentes, sendo arrolados também
                   alguns direitos de índole internacional.
                   Em toda a reflexão pastoral de Puebla, busca-se a comunhão e a participação na
                   Igreja e na sociedade para se chegar à verdadeira e autêntica libertação.
                   O modelo de ação evangelizadora para Puebla é as comunidades eclesiais de base. A
                   nova responsabilidade da América Latina é o aprofundamento da fé. Fé mais
                   operativa, sobretudo por meio da família, da juventude, das comunidades eclesiais
                   de base, sempre animadas pela mentalidade missionária. Nesse esforço eclesial
                   pede-se um diálogo permanente com as culturas vivas do continente latino-
                   americano e com a nova civilização que se vai formando pelo fluxo do mundo
                   técnico-científico”42.



                                           APASCENTAR


            Como presidentes da comunidade, os presbíteros cultivem a
      ascese própria do Bom Pastor e do Servo de Javé, renunciando a
      vantagens pessoais, não procurando o que lhes é útil e agradável, mas o
      útil e necessário para a salvação do povo a eles confiado. Entra aqui o
      exercício da Caridade Pastoral, que o documento de Puebla resume em
      três tópicos: 1º. “ir a frente das ovelhas; 2º. “dar a vida” e 3º.
      “conhecer as ovelhas e ser por elas conhecido”.
                                                               Cardeal Aloísio Lorscheider



          3.5. IV CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO
                             Santo Domingo, 12 a 28 de outubro de 1992

     Santo Domingo foi aberto no dia mesmo em que 500 anos antes os europeus
tocaram pela primeira vez as “Índias”, como acreditava Colombo. A data “feliz” para
alguns, fora ocasião de sofrimentos e lágrimas para o conjunto dos mais de dois mil
povos nativos que perderam ao longo da história suas vidas, suas terras, suas culturas,
sua autonomia e dignidade; sua memória e suas crenças. O Papa João Paulo II pediu

42
  LORSCHEIDER, Aloísio, Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano e do Caribe – Subsídio
preparatório à V Conferência do Episcopado Latino-americano, in VIDA PASTORAL, ano 48, no. 252, janeiro-
fevereiro de 2007, pp. 4.

                                                                                                      36
perdão aos irmãos indígenas e afro-americanos, “perante a infinita santidade de Deus,
pelos fatos marcados pelo pecado, pela injustiça e pela violência”43. Na Assembléia,
entretanto, não passou a proposta de uma celebração penitencial apresentada pelo
episcopado brasileiro. A resposta do Cardeal de Santo Domingo foi taxativa: “Na minha
Catedral, não!”.
      Destacamos como novidade em Santo Domingo a proposta de uma nova
evangelização inculturada. A proposta em si já insinua que a primeira evangelização
não realizou, e nem podia ter realizado, uma evangelização inculturada e libertadora. O
próprio sistema colonial do qual a Igreja era parte, é que implantava, de maneira
opressiva, a exploração econômica, o trabalho escravo, a submissão política e a imposição
cultural e religiosa. Os missionários e bispos, como Bartolomeu de Las Casas no México,
Diego de Medellín no Chile, Antonio Valdivieso na Nicarágua, Pe. Antônio Vieira no
Maranhão, que pugnaram pela liberdade e dignidade dos indígenas foram perseguidos,
expulsos ou assassinados.
      Nos bastidores de Santo Domingo, travou-se um duro embate entre os que lutavam
por conseguir que o episcopado latino-americano produzisse um documento final e os
que se acomodavam em apresentar um rol de “sugestões” a serem encaminhadas a Roma,
ao estilo dos Sínodos, para uma posterior “Exortação pós-sinodal”. Neste esforço por um
documento do magistério episcopal, destacaram-se, entre outros, Dom Luciano Mendes
de Almeida e o próprio CELAM. As Comissões todas já chegaram nomeadas de Roma.
Por insistência da Assembléia, houve votação para a Comissão de Redação, surgindo o
nome de Dom Luciano quase como unanimidade, por indicação de vários episcopados.
Contra o regulamento, que previa cinco integrantes na Comissão, foram mantidos os
cinco bispos já nomeados e acrescentado um sexto, Dom Luciano. Foram muitas ainda as
dificuldades enfrentadas pelos bispos e peritos, como a da proibição de se utilizar o
método “ver, julgar, agir”, já consagrado na América Latina, em favor de um método
dedutivo que começava pela teologia e não pela realidade.
      Diante da surda resistência à elaboração de um documento final pelos bispos e ante
o risco de não haver mais tempo para sua aprovação, Dom Luciano e alguns peritos
vararam a madrugada do último dia trabalhando. De manhã, Dom Luciano foi ao
microfone e apresentou diretamente à Assembléia, passando por cima da Comissão de
Redação, da Secretaria e da própria Presidência da Conferência, um quadro sintético dos
compromissos de Santo Domingo, seguido de uma oração à Virgem de Guadalupe,
“Estrela da Evangelização”, que retomava, sob forma de prece, os pontos anteriormente
elencados. Sua leitura foi seguida de longo e vivo aplauso por parte do plenário que
reconhecia na síntese, muito do que as comissões vinham buscando arduamente elaborar
nas semanas anteriores, sem consegui-lo na realidade.
      Naquela pequena página elaborada por Dom Luciano e que constitui o número 302
das Conclusões de Santo Domingo, com a subseqüente oração no número 303, ficava
aprovado o documento final que os bispos não tinham em mãos, pois na véspera fora
solicitada uma substancial redução do documento existente. A Secretaria não logrou
completar e imprimir a versão abreviada, no apertado espaço de uma noite.
      A página elaborada por Dom Luciano foi redigida sob a forma de compromissos a
serem assumidos pela Igreja no continente, centrados naquilo que foi a novidade de
Santo Domingo, a proposta de uma evangelização inculturada, com protagonismo
dos leigos e leigas, em especial dos jovens, entrelaçada com promoção humana
integral, a partir de uma evangélica e renovada opção pelos pobres, a serviço
da Vida e da Família.
      Reproduzimos este número como a melhor síntese de Santo Domingo e como
homenagem a Dom Luciano por tudo o que fez pela Igreja da América Latina, do Brasil,
pelas CEBs, religiosos/as, população de rua, indígenas, mas de modo particular pelos


43
     JOÃO PAULO II – Alocução na Audiência Geral, quarta-feira, 21 de outubro de 1992 (citado em SD 248).

                                                                                                            37
presbíteros aos quais dedicou muito de sua inteligência, carinho e cuidado pastoral. O
número 302 começa com uma profissão de fé seguida dos compromissos:


           “A Igreja na América Latina e Caribe proclama sua fé:
           ‘Jesus Cristo: Ontem, Hoje e Sempre’ (cf. Hb 13, 8)
          Nossas Igrejas particulares, unidas na esperança e no amor, sob a
     proteção de Nossa Senhora de Guadalupe, em comunhão com o Santo
     Padre e em continuidade com as orientações pastorais das Conferências
     Gerais de Medellín e Puebla, comprometem-se a trabalhar em:
          1. Uma nova evangelização de nossos povos: À qual todos estão
     chamados com ênfase na pastoral vocacional, com especial
     protagonismo dos leigos e, entre eles, dos jovens.
          2. Uma promoção integral do povo Latino-americano e Caribenho:
     A partir de uma evangélica e renovada opção pelos pobres a serviço da
     vida e da família.
          3. Uma evangelização inculturada: Que penetre os ambientes
     marcados pela cultura urbana que se encarne nas culturas indígenas e
     afro-americanas com uma eficaz ação educativa e uma moderna
     comunicação” (SD 302).




        3.6. V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO
                           APARECIDA, 13 A 31 DE MAIO DE 2007


     Sínodo ou conferência, evento episcopal ou eclesial?
      Depois de Santo Domingo aconteceu o Sínodo da América (1997), que interrompeu
a série das Conferências do Episcopado, ficando no ar a dúvida se haveria ainda espaço
para uma nova Conferência Geral do Episcopado Latino-americano.
      Na verdade, quando o CELAM solicitou uma nova Conferência, que no início do
novo milênio permitisse a América Latina e o Caribe pesar as novas circunstâncias e
propor o rumo de sua caminhada a resposta primeira da Secretaria de Estado foi: Sínodo,
sim; Conferência, não; Sínodo em Roma, sim; na América Latina, não, devido à precária
saúde do Papa que gostaria de participar.
      O CELAM levou a questão diretamente a João Paulo II, manifestando o desejo de
uma V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe. Diante do impasse o
Papa pediu que fossem consultados os cardeais latino-americanos e as Conferências
episcopais do continente. Dos cardeais, 12 propuseram a realização de um Sínodo e 18 de
uma Conferência. Das Conferências episcopais apenas uma manifestou-se pelo Sínodo e
21 por uma nova Conferência. O Papa determinou então que se seguisse a tradição da
Igreja latino-americana.
      Esta tradição inaugurada com Medellín, sem similar na África, Ásia e Europa,
forjou um modelo de exercício da colegialidade de caráter deliberativo, mais próximo de
um Concílio Ecumênico do que de um Sínodo apenas consultivo. Manter esta tradição é
crucial para a América Latina, mas também para a Igreja universal, no sentido de que
floresçam, em comunhão com a Sé romana, as Igrejas locais, com sua pastoral, sua
teologia, seu magistério, instrumentos próprios e cada vez mais enraizados e inculturados
na realidade de cada região e do continente.

                                                                                      38
      A V Conferência prevista inicialmente para Quito no Equador e depois para Buenos
Aires, veio para Aparecida, no Brasil. Sua realização num santuário mariano de grande
afluxo popular já provocou alterações significativas: todas as celebrações serão na
Basílica com a presença do povo, permitindo que os bispos sejam acompanhados por
romeiros e pela população local e tenham diante dos olhos a realidade viva das
comunidades e dos fiéis.
      Se o postulado teológico, “lex orandi, lex credendi”, for esquadrinhado na sua
significação, podemos concluir que as celebrações tornam-se elas mesmas um convite
para meditar acerca do caráter mais entranhado do evento. A celebração congrega toda a
assembléia dos crentes na diversidade dos seus ministérios e carismas e aponta para esta
realidade central da Igreja como povo de Deus e para a Conferência como um evento não
apenas episcopal, mas profundamente eclesial.
      Quando dizemos, profundamente eclesial, queremos significar que sua preparação,
seu desenrolar e sua recepção interessam e envolvem a todo o povo de Deus e não apenas
ao corpo episcopal. Durante a preparação, todas as Igrejas particulares e todos os fiéis
foram convocados pelo CELAM a estudar o Documento de Participação (DP), a enviar
suas propostas e reflexões. Umas mais, outras menos, todas as Conferências Episcopais
debruçaram-se sobre o DP e enviaram uma síntese de suas contribuições, com exceção de
apenas uma, a das Antilhas Inglesas. Segundo as autoridades do CELAM, a síntese do
Brasil foi a que chegou de forma mais enxuta e estruturada, ao mesmo tempo, enquanto a
maioria das sínteses chegou de forma muita fragmentada e justaposta.
      Por outro lado, a própria composição da Conferência revela esta imagem eclesial e
não exclusivamente episcopal. Estão convidados a participar, alem dos bispos delegados,
24 presbíteros, um para cada conferência episcopal e mais um para o México e Brasil, os
dois países com o maior contingente de católicos; 16 religiosos, sendo 8 mulheres e 8
homens; 16 leigos e leigas, 4 diáconos permanentes e ainda observadores das Igrejas
irmãs orientais e das Igrejas saídas da Reforma e do Movimento Pentecostal. Foram
acrescentados de última hora, 5 representantes dos Movimentos.

    Povo de Deus, colegialidade, conciliaridade, ecumenicidade e
Reino de Deus
    Nesta composição da Assembléia, estão presentes cinco verdades eclesiais da maior
importância:
    1. Que o bispo é sempre bispo de uma porção do povo de Deus, de uma Igreja
    particular à qual está unido, em comunhão com os demais bispos e com o bispo de
    Roma, com os quais partilha a “sollicitudo omnium ecclesiarum”, a solicitude por
    todas as Igrejas. Neste sentido, não é fora de propósito sonhar que as Conferências
    que já contam com leigos e leigas, religiosos e religiosas, presbíteros e diáconos, se
    aproximem, no futuro, das tão fecundas Assembléias do Povo de Deus, que
    acontecem em muitas dioceses e mesmo países. Santo Agostinho, ao exprimir este
    horizonte e realidade, o faz com muita propriedade, apontando a graça e o risco de
    ser bispo. Comenta o peso de suas responsabilidades, mas também a relação de
    recíproco apoio que une o pastor às suas ovelhas, o bispo com suas comunidades e
    ao povo dos batizados: “Atemoriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou
    convosco. Pois para vós, sou bispo, convosco sou cristão. Aquilo (ser bispo) é um
    dever, isto (ser cristão), é uma graça. O primeiro, um perigo, o segundo,
    salvação”44. (LG 81).
    Que em Aparecida os bispos delegados possam se sentir acompanhados,
    respaldados e inspirados pelo povo fiel que deixaram em suas dioceses, mas

44
  “Ubi me terret, quod vobis sum, ibi me consolatur quod vobiscum sum. Vobis enim sum episcopus, vobiscum
sum christianus. Illud est nomen officii, hoc gratiae, illud periculi est, hoc salutis » (S. Agostinho, Serm. 340, 1 ;
PL 38, 1483). Citado em LG 81.

                                                                                                                   39
     também pelo povo que irá se congregar na Basílica para participar das celebrações,
     ouvindo juntos a Palavra de Deus e partilhando o Pão da Eucaristia.
     2. Em Aparecida estará sendo exercida uma forma rica e mais completa da
     colegialidade episcopal, a deliberativa e não apenas a consultiva, como nos
     sínodos.
     3. Entre os convidados para a Conferência, alguns deles com voz e voto, estão os
     presidentes das Conferências Episcopais do Canadá, Estados Unidos, Espanha,
     Portugal e Filipinas, mantendo uma tradição inaugurada na Conferência do Rio de
     Janeiro, em 1955 e agora ampliada. Para Aparecida, estão também convidados os
     presidentes das Conferências continentais da Ásia, África e Europa. Como em todas
     as Conferências anteriores, a partir de Medellín, com Paulo VI; de Puebla e Santo
     Domingo, com João Paulo II, Bento XVI também quis abrir solenemente a
     Conferência de Aparecida, colocando o selo da missão que foi confiada por Jesus a
     Pedro: “Et tu aliquando conversus, confirma fratres tuos”, ‘[...] e você, uma vez
     convertido, fortalece teus irmãos” (Lc, 22, 32b).
     O local e o universal se dão as mãos num momento eclesial tão
     importante. Aparecida interessa também às outras Igrejas locais espalhadas pelo
     mundo todo e nela resplandece não apenas o rosto latino-americano e caribenho da
     Igreja, mas o rosto da Igreja espalhada por todo o universo. Em Aparecida vão
     brilhar de forma eminente a catolicidade e a conciliaridade da Igreja, guiada
     pelo Espírito Santo.
     4. A Conferência está também convidando as outras Igrejas cristãs vindas da antiga
     tradição oriental, da reforma protestante e da recente tradição pentecostal.
     Assembléias, Conferências, Sínodos ou Concílios de uma igreja cristã interessam de
     perto às demais igrejas cristãs, todas elas, parte do mesmo e único corpo de Cristo,
     que por todos morreu e ressuscitou. Há apenas uma única Igreja de Cristo que
     subsiste, como diz o Vaticano II, na Igreja Católica, mas que está também, nas
     outras igrejas cristãs. O ecumenismo é nota essencial da Igreja de Jesus
     Cristo e a busca da unidade um mandamento solene do Senhor.
     5. Há ainda uma quinta verdade, talvez a mais decisiva, porque diz respeito à
     vocação profunda da própria Igreja e à sua missão. Esta não existe para si, mas para
     os outros e para salvação e libertação do mundo, pois está destinada a seguir os
     passos de Jesus, no anúncio e implantação do Reino de Deus: “Deus tanto amou
     o mundo que entregou seu Filho único, para que quem crer, não pereça, mas tenha
     a vida eterna. Deus não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas
     para que o mundo se salve por meio dele” (Jo 3, 16-17). Anunciar e instaurar o
     Reino de Deus, reino de justiça e de paz, de fraternidade e de
     solidariedade foi o propósito de Jesus e o deve ser de sua Igreja,
     continuadora de sua obra.

     Aparecida escutará os clamores do povo?
     A pergunta, pois, crucial para Aparecida é: Vai a Conferência colocar-se à escuta
dos gritos e clamores do povo latino-americano e caribenho, como nos diz a Gaudium et
Spes no seu preâmbulo? “As alegrias e as esperanças dos homens de hoje, sobretudo dos
pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e
angústias dos discípulos de Cristo, Não se encontra nada verdadeiramente humano que
não lhes ressoe no coração” (GS 1 [200]). Neste sentido, o Concílio dirige a sua palavra
não só aos filhos e filhas da Igreja, mas indistintamente a toda a família humana, de
modo particular aos mais pobres e necessitados.


                                                                                      40
      Persiste por todo o continente escandalosa desigualdade social. Enquanto uns
poucos vivem no luxo e desperdício, parcelas crescentes da população sofrem de
inumana miséria, agravada pelo desemprego estrutural que se instalou na esteira das
reformas e políticas neo-liberais, cada vez mais contestadas pelos seus danosos custos
sociais. Por outro lado, vêm sendo pejorativamente taxadas de “populistas”, pela grande
imprensa, redes de TV e governo dos Estados Unidos, as políticas sociais compensatórias
de governos latino-americanos legitimamente eleitos ou de “ditatoriais” as que tentam
recuperar o controle dos recursos naturais dos seus países e se opõem diretamente à
dominação do capital financeiro, à destruição do meio ambiente e à livre circulação de
capitais e mercadorias como a suprema lei da economia em detrimento das pessoas e das
comunidades locais e nacionais.
      A crise ambiental castiga, de maneira mais dura, os pobres, escorraçados para
terras já devastadas e esgotadas, para a beira de rios poluídos ou para áreas de risco nas
grandes cidades. O acesso à água potável em muitas regiões é um sonho ou só é
disponível a preços cada vez mais proibitivos para a população de baixa renda. Em todas
as cidades latino-americanas, é visível a crise habitacional e o estender-se de favelas,
“ranchitos”, “pueblos nuevos”, “slums” ou quantos nomes se inventem para exprimir a
mesma realidade: os pobres não tem onde morar; sobrevivem pelas ruas ou em abrigos
de papelão e lata, em condições precárias de segurança, higiene e acesso aos serviços
mais básicos como água, luz, esgoto, coleta de lixo, transportes e equipamentos sociais
nas áreas da saúde, educação, transporte, lazer45.
      Nesta fase preparatória de Aparecida, foram feitos muitos esforços no sentido de
analisar-se realidade do continente, de se ouvir o grito dos pobres ou de se debruçar
sobre a situação da Igreja. Assinalamos alguns documentos e estudos que nos parecem
mais relevantes.

      Documento de síntese – desafios para o ministério presbiteral
     Oficialmente, o CELAM lançou o Documento de Participação e depois o de
Síntese46, nomenclatura nova em relação às anteriores conferências cujos documentos
preparatórios foram batizados de Documento de Consulta e de Documento de Trabalho.
     Da Síntese, recém publicada, destacamos os três desafios apontados pelas
Conferências episcopais em relação ao ministério presbiteral:
                    245. a) O primeiro diz respeito à identidade teológica do ministério
                    presbiteral. O Concílio Vaticano II estabelece o “sacerdócio ministerial” a serviço
                    do “sacerdócio comum dos fiéis”, e estes dois como participação do “único
                    sacerdócio de Cristo”. Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, nos redimiu e nos
                    participou sua vida divina. Nele, somos todos filhos do mesmo Pai e irmãos entre
                    nós; também os presbíteros. Antes que pai, o presbítero é irmão. Esta dimensão
                    ontológica fraterna não deveria ficar como pressuposto eclesiológico abstrato, mas
                    transparecer no exercício pastoral. Isso significa que o presbítero não deve
                    esquecer-se de ser e aparecer, em primeiro lugar, como discípulo de Cristo,
                    condiscípulo dos irmãos na fé, e superar a tentação do autoritarismo que o isola da
                    comunidade e da colaboração com os demais membros da Igreja.
                    246. b) O segundo desafio se refere à cultura. O presbítero é chamado a
                    conhecê-la para semear nela a semente do Evangelho, isto é, para que a mensagem

45
   O tema da missão na cidade, já com vistas à V Conferência foi abordado em livro de SANTOS, Dom Benedito
Beni dos, Discípulos e Missionários. Reflexões teológico-pastorais sobre a missão na cidade. São Paulo: Paulus:
2006.
46
   CELAM, V Conferencia General del Episcopado Latinoamericano y del Caribe – Discipulos y misioneros de
Jesucristo para que nuestros pueblos en Él tengan vida. “Yo soy el Camino, la Verdad y la Vida (Jn 14, 6).
Documento de Participación. Bogotá: CELAM, 2005; CELAM, Síntesis de los Aportes recibidos. Bogotá:
CELAM, 2007.

                                                                                                            41
                    de Jesus chegue a ser uma interpelação válida, compreensível, esperançosa e
                    relevante para a vida do homem e da mulher de hoje, especialmente para os jovens.
                    Esse desafio inclui a necessidade de potencializar adequadamente a formação
                    inicial e permanente dos presbíteros, especialmente em vista de sua competência
                    intelectual.
                    247. c) O terceiro é de caráter existencial. Este desafio se refere aos aspectos
                    vitais e afetivos, ao celibato e a uma vida espiritual intensa fundamentada na
                    experiência de Deus; e também ao cultivo de ralações fraternas com os demais
                    presbíteros, com o bispo e com os leigos. Para que o ministério do presbítero seja
                    coerente e testemunhal, este deve amar e realizar sua tarefa pastoral em comunhão
                    com o bispo e com seus pares. O ministério sacerdotal que brota da Ordem Sagrada
                    tem uma “forma comunitária radical” e só pode ser desenvolvido como “tarefa
                    coletiva” (PDV 17).
                    248. Uma resposta para esses desafios ajudará que os presbíteros vivam com maior
                    identidade seu ser sacramentos-pessoas de Cristo Pastor, em união com todo o
                    presbitério da diocese.”47.
      Lamentamos entretanto que a Sintese do CELAM não tenha recolhido a observação
judiciosa da Síntese da Igreja do Brasil acerca dos ministérios e seu atual impasse
pastoral, quando trata do protagonismo dos leigos e das leigas, no ponto 3.5:
                    a) “Sobretudo o êxodo de católicos impõe à Igreja repensar, com urgência, a
                    ministerialidade no seio das comunidades eclesiais. Os ministérios continuam
                    centralizados no ministro ordenado que, por sua vez, é cada vez mais escasso, em
                    comparação com outras denominações religiosas. Além da necessidade da criação
                    de novos ministérios leigos, sobretudo das mulheres que são maioria em nossas
                    comunidades, não é desproposital cogitar a possibilidade de reinsrção na vida
                    pastoral dos padres que deixaram o ministério” 48.
     Tampouco acolheu a incisiva reflexão sobre o acesso das mulheres aos níveis
decisórios na vida da Igreja e aos ministérios das mulheres, inclusive o ordenado:
                    b) “No mundo de hoje, cada vez mais as mulheres vêm tomando consciência de sua
                    dignidade e exigindo igualdade no trato e igualdade de oportunidades. A Igreja não
                    pode ficar insensível a esse novo sinal dos tempos, também em nível interno, pois
                    nela, são os homens os mais privilegiados, que normalmente tomam as decisões. As
                    tendências conservadoras, que rejeitam o pensamento e a participação das
                    mulheres em tarefas de direção e coordenação eclesial, inclusive nas CEBs, não
                    podem inibir a Igreja a gestos proféticos. O acesso das mulheres ao ministério
                    ordenado é uma dívida pendente”49.


      Estudos e publicações em vista da V Conferência
     O CELAM lançou igualmente duas séries de publicações sob o título de Coleção
Quinta Conferência, uma com estudos de caráter social ou institucional e outra de
estudos bíblicos, quase todos já traduzidos ao português50.


47
   CELAM, Síntese das contribuições recebidas. Bogotá: CELAM, 2007, pp. 102-103.”
48
   CNBB, Síntese das contribuições da Igreja no Brasil à Conferência de Aparecida. 61ª Reunião Ordinária do
Conselho Permanente. Brasília - DF, 24 a 27 de Outubro de 2006. CP 06, 01 (Sub), p. 8.
49
   Ibidem, pp. 8-9.
50
   Forneço os títulos em castelhano, embora quase todos já se encontrem em português, publicados pela Paulus e
Paulinas. Na série bíblica, já foram publicados os seguintes títulos: Introducción general al discipulado y la
misión; El discipulado y la misión en Marcos; El discipulado y la misión en Mateo; El discipulado y la misión
en Lucas; el discipulado y la misión en Juan; La misión en Hechos de los Apóstoles; El discipulado y la misión
en Pablo; El discipulado y la misión en la primera Carta de Pedro; Maria, discípula del Señor. Na outra série,
já saíram os seguintes títulos frutos de seminários de estudos convocados pelo CELAM: Realidade Social 1:
América Latina: Sociedades en Cambio. Informe sucinto sobre el escenario cultural, social, económico y político
en América Latina; Realidad Social 2: Católicos y Políticos. Una Identidad en Tensión; Realidad Social 3:
Sectas y Nuevos Movimientos Religiosos. Foi reeditado postumamente, sob a rubrica: Análisis, o livro de
Germán Doig Klinge, De Rio a Santo Domingo. Bogotá: CELAM, 2006 e o ensaio de Joseph-Ignasi Saranyana,

                                                                                                            42
     Sobre os preparativos para a V Conferência, há um relato de Dom Odilo Scherer no
encontro de novos bispos brasileiros reunidos em setembro de 2006 na CNBB51 e um
outro, mais detalhado, apresentado em Roma, pelo presidente do CELAM, o Cardeal de
Santiago do Chile, Mons. Francisco Javier Errázuriz Ossa, durante a Assembléia Plenária
da Pontifícia Comissão para a América Latina (CAL), realizada de 17 a 20 de janeiro de
200752.

      Sinais de esperança
      Ameríndia, uma rede de articulação de teólogos e teólogas do continente publicou,
em castelhano e português, dois volumes de contribuições para a V Conferência que
encontraram um eco bastante favorável53. O segundo, Sinais de Esperança, recolhe oito
pequenos estudos produzidos coletivamente por um grupo de teólogos e se debruça sobre
os “Novos Sinais de Vida e de Morte na América Latina e no Caribe; “O Jesus que
seguimos”, “Nosso Seguimento de Jesus”; “O Espírito que dá vida e continua falando
entre nós”; “A Missão a serviço do Reino”; “Identidade e configuração da Igreja na
América Latina e no Caribe”; “Importância da Bíblia na vida da Igreja”; e um instigante
estudo sobre o significado simbólico, pastoral e espiritual do lugar onde vai se realizar a V
Conferência: “Maria de Aparecida: Rosto dos povos da América Latina e do Caribe” (texto
em anexo). Estes temas foram discutidos com um grupo de bispos católicos e evangélicos
do Brasil e do México e re-elaborados a partir deste intercâmbio, para serem então
divulgados.
      Dentre as muitas publicações suscitadas pelo anúncio da Assembléia e para sua
preparação assinalamos, a excelente análise do Documento de Participação oferecida por
Agenor Brighenti e logo traduzida ao castelhano e difundida em inúmeras publicações, e
cuja conclusão reproduzimos: “É preciso recuperar as intuições e eixos teológicos
centrais do Vaticano II e, com eles, a rica ‘tradição latino­americana’. Daí a importância
deste tempo de preparação da V Conferência, através do processo das comunidades
eclesiais no enriquecimento da proposta do Documento de Participação. Cinco pontos
principais poderiam nortear este esforço: primeiro, colocar a realidade como ponto de
chegada e não como ponto de partida, para que o temporal não perca sua autonomia e
especificidade, em especial a peculiaridade latino-americana; segundo, explicitar a
relação intrínseca da fé com a práxis libertadora, para que a religião não esteja fadada a
continuar relegada à esfera privada de uma espiritualidade intimista; terceiro,
testemunhar uma religião transformadora, que implica uma Igreja viva e profética, que
tem nas CEBs um novo modo de ser Igreja, pois são modo privilegiado de articulação, no
seio da sociedade, entre fé e vida, cristianismo e cidadania; quarto, reavivar a opção
preferencial pelos pobres, que não os vê como objetos mas sujeitos de uma nova
sociedade, não simplesmente um trabalho prioritário entre outros tantos, mas uma ótica,
desde onde se vai a todos de forma profética; e, quinto, porquanto a salvação sempre se
dá na história e existe uma única história, conceber a libertação não como mero sinônimo


Cien años de teologia en América Latina. Todas essas publicações do CELAM saíram em co-edição com as
Editoras Paulinas e Paulus.
51
   SCHERER, Dom Odilo, V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Aparecida. Brasília:
CNBB, 25-09-2006. A conferência está disponível no site da CNBB.
52
   ERRÁZURIZ OSSA, Cardel Francisco Javier, La Preparación de la V Conferencia General del Episcopado
latinoamericano y del Caribe. Osservatore Romano, edição castellana, 23-02-2007. A sexta e última parte da
conferência foi publicada na edição seguinte do Osservatore de 02-03-2007.
53
   AMERINDIA, Tejiendo Redes de Vida y Esperanza. Cristianismo, sociedad y profecía en América Latina y el
Caribe. Bogota: Indo-American Press Service, 2006, com a seguinte tradução em português: SOTER E
AMERÍNDIA (org.), Caminhos da Igreja na América Latina e no Caribe – Novos Desafios. São Paulo: Paulinas
e Soter, 2006; AMERÍNDIA, Aportes para Aparecida. Nuestra Esperanza. Montevideo: Ameríndia, 2007;
AMERÍNDIA, Sinais de Esperança. Reflexão em torno dos temas da Conferência de Aparecida. São Paulo:
Ameríndia e Paulinas, 2007.

                                                                                                       43
de desenvolvimento ou promoção humana, mas como salvação concebida na perspectiva
de Medellín ­ ‘passagem de situações menos humanas para mais humanas’54.

    Reafirmar o Concílio Vaticano II, as opções das anteriores
Conferências e responder aos novos desafios
      Muito notada foi a contribuição da comunidade de professores do ISI de Belo
Horizonte, publicada na sua Revista Perspectivas Teológicas.55 O estudo em duas partes,
propõe, na primeira, que sejam reafirmadas as opções chaves do Concílio Vaticano II
(primado absoluto da Palavra de Deus; afirmação da base laical da Igreja: Igreja Povo de
Deus; afirmação colegial da Igreja; nova relação da Igreja com o mundo) e as opções
básicas das Conferências Gerais do Episcopado latino-americano em Medellín (opção
pelos pobres, opção pela libertação, opção pelas comunidades eclesiais de base, opção
pela centralidade da justiça social; opção por uma Igreja profética); em Puebla (opção
pelos pobres, opção pelos jovens, opção pela comunhão e participação; opção pela defesa
da dignidade da pessoa humana); em Santo Domingo (opção pela inculturação, opção
pelo protagonismo dos leigos, opção pela solidariedade latino-americana e mundial,
opção pela leitura da realidade, a partir dos sinais dos tempos). Na segunda parte:
“Avançar para temas e decisões novas”, o ensaio aponta alguns desafios mais prementes:
animação “carismática” das estruturas internas da Igreja; evangelizar a nova sociedade
globalizada do conhecimento; evangelização da cultura moderna e pós-moderna,
desenvolver eficiente pastoral dos migrantes, investir pesadamente numa pastoral
midiática; impulsionar o diálogo ecumênico e inter-religioso.
      Leonardo Boff elogiou a densidade e pertinência desta contribuição. Chamou,
entretanto, a atenção, de que esta deveria ser completada no seu capítulo dos desafios,
incluindo entre estes o meio ambiente, com as questões ligadas ao aquecimento global e
aos crescentes desastres ambientais, das secas às inundações e à crescente escassez de
água com multiplicação de conflitos a ela ligados. A ecologia nos interpela igualmente
sobre a necessidade de uma nova espiritualidade não só antropocêntrica, mas
cosmocêntrica e para uma relação de fraternidade e não de dominação em relação ao
conjunto da criação, na linha da experiência espiritual e mística de Francisco de Assis.
      O Pe. João Batista Libânio SJ elaborou um artigo mais alentado, em que desdobra e
aprofunda a contribuição dos professores do ISI e cujo propósito explícito vem anunciado
na conclusão: “Este texto visa, neste momento de preparação para Aparecida, a provocar
uma reflexão, discernimento e confecção de subsídios em vista da V Assembléia. Embora
algo amplo, foi redigido de forma sucinta e sumária à espera de ulteriores
contribuições”56.

      Novos desafios, mais decisivos e radicais?
      O número 276 da REB que tem por título: V CELAM – Aparecida – 2007 publica
três artigos que induzem à reflexão e a um debate que promete ser muito vivo. Clodovis
Boff considera que “não basta dar continuidade à preocupação social da Igreja, desde
Medellín”. Propõe “um ponto de partida mais radical: a retomada da experiência da fé” 57.

54
   BRIGHENTI, Agenor, O Documento de Participação da V Conferência. Apresentação e Comentário
Analítico, p. 15.
55
   Professores da Faculdade de Teologia da Companhia de Jesus - FAJE/ISI, Texto alternativo a caminho da V
Conferência de Aparecida. Belo Horizonte, Maio 2006.
56
   LIBÂNIO, João Batista, A Caminho da V Conferência, p. 22. O texto foi publicado inicialmente na revista
Christus do México.
57
   BOFF, Clodovis, Re-partir da realidade ou da experiência de fé? Propostas para a CELAM de Aparecida, in
REB 265, janeiro, 2007, pp. 5-35. A citação foi tomada da Síntese, à p. 5.

                                                                                                         44
Clodovis considera que esta posição “é mais consentânea, seja com a natureza da própria
missão da Igreja, seja com o que caracteriza o momento histórico atual: a busca do
‘espiritual’. Depois sim, se pode e deve recuperar o ‘social’, refundando-o na fé e
conferindo-lhe assim, um novo vigor”58.
      José Comblin questiona o horizonte do Vaticano II, pois, aconteceu num momento
anterior à grande revolução cultural dos anos 70:
                    “A Igreja vive ainda na ilusão do mundo do tempo do Vaticano II, como se não
                    tivesse havido uma revolução tão radical como a Revolução Francesa, logo depois
                    do Concílio. Quem hoje em dia lê certos textos conciliares, por exemplo da
                    Gaudium et Spes, não pode deixar de ficar impressionado pela ingenuidade da
                    concepção do mundo que se fazia naquele tempo. O Vaticano II falou para um
                    mundo que hoje já não existe mais. Entrou na história, mas isto não fornece
                    orientações para o mundo de hoje.
                    A partir dos anos 70 começou o desmoronamento da cristandade. Nos tempos do
                    Vaticano II, alguns apressados tinham proclamado o fim da cristandade. Mas ainda
                    não era o fim. Pelo contrário, o Concílio viveu num ambiente de neo-cristandade.
                    Poucos anos depois começou a grande revolução da sociedade ocidental que
                    repercutiu também dentro da Igreja como um furacão. Muitos católicos separaram-
                    se da instituição, inclusive muitos sacerdotes e muitos religiosos. Os conservadores
                    intransigentes atribuíram esse fato ao Concílio, mas o Concílio não tinha nada a ver
                    com isso. O que aconteceu foi a grande revolução total da sociedade ocidental:
                    revolução na ciência, na economia, na política, na cultura; revolução total e
                    profunda com conseqüências de uma revolução na ética e na religião.
                    Esta revolução abalou todas as instituições: a família, a empresa, a escola, a
                    universidade, o Estado e, naturalmente, as instituições religiosas”59.
      O terceiro artigo da REB de Carlos César dos Santos parte de impressões de viagem,
missões e assessorias e de observações de quem transita pelo chão da Igreja e foi
colhendo expectativas e interrogações acerca da V Conferência, com perspicácia e
pertinência60. Sua pergunta: como adequar a missão, aos novos tempos de globalização,
de neo-liberalismo agressivo, de emancipação humana e social numa sociedade
pluralista, de instauração de um processo conciliar permanente dentro da Igreja? Esses
processos, segundo Carlos César, pedem uma “reestruturação eclesial”:
                    “[...] a partir do seu carisma, Jesus ‘para que nossos povos tenham vida’, por um
                    lado abrindo canais de diálogo sobre temas ainda obscuros, tais como: novos
                    ministérios, a questão da moral sexual, padres casados, etc.; e por outro,
                    simplificando as estruturas internas da Igreja. Como?
                    · Valorizando e promovendo o cultivo de relações mais próximas, fraternas,
                    solidárias, alegres, amigas, acolhedoras e, em especial, de igualdade.
                    · Reconhecendo e fortalecendo o protagonismo dos leigos e das leigas e os
                    ministérios a eles e a elas confiados, inclusive o ministério de ‘animação de
                    comunidades’;
                    · Redimensionando as CEBs, para que respondam aos novos desafios, constituindo-
                    se em comunidades ambientais, por afinidades, e interesses, etc;
                    · Acolhendo o que há de positivo na diversidade das espiritualidades hoje em cena;
                    · Educando adequadamente e disponibilizando projetos concretos para que
                    missionários e missionárias evangelizem a ‘nova cultura’ midiática, globalizada,
                    moderna e pós-moderna...”61.


      A hora da América Latina

58
   Ibidem, p. 5.
59
   COMBLIN, José, As grandes incertezas na Igreja atual. In REB 265, janeiro, 2007, pp. 36-58. Citação da p.
37.
60
   SANTOS, Carlos César, in REB 265, janeiro de 2007, pp. 182-190.
61
   Ibidem, pp. 189-190.

                                                                                                               45
      O Pe. Mário França Miranda SJ, um dos peritos nomeados para a V Conferência e
um dos responsáveis pela “Síntese” das contribuições das Conferências Episcopais e de
outros grupos, publicou um opúsculo onde enfatiza que Aparecida é uma oportunidade
histórica que não se deve desperdiçar: “[...] Estou convencido de que a atual conjuntura
eclesial aponta para um maior protagonismo da Igreja da América Latina. Somos
realmente uma Igreja viva, e nosso povo é um terreno fértil para a semente da Palavra de
Deus, apesar dos sérios problemas socioeconômicos que nos afligem, da pobreza e da
violência que daí decorrem”62. Depois de falar da riqueza das iniciativas pastorais, com
exíguos recursos materiais e humanos, França Miranda se pergunta “[...] como
fundamentar mais tais conquistas? Como comunicá-las a outras Igrejas? Como
enriquecer com nossa parcela a catolicidade da única Igreja de Cristo? Não será a
próxima Assembléia Geral de Aparecida uma oportunidade histórica para esta Igreja
crescer na consciência de sua identidade e de sua responsabilidade para com a Igreja
Universal”63

      Expectativas para Aparecida
      Dentre os bispos, Dom Demétrio Valentini de Jales, SP, veio publicando uma série
de artigos sobre esta etapa preparatória à V Conferência. Destacamos pela sua amplitude,
originalidade e pertinência o texto de conferência, Expectativas da Quinta Conferência,
pronunciada na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, de Belo Horizonte (FAJE), a
06/03/07. Dom Valentini aponta algumas das expectativas e alguns dos desafios de
Aparecida:
                   “Por seu caráter de Jubileu, a Conferência de Aparecida se apresenta com a
                   incumbência de retomar os desígnios iniciais [do CELAM], de refazer a caminhada,
                   de reassumir os compromissos, de recuperar valores perdidos, e de reencontrar a
                   própria identidade.
                   Outra vertente das expectativas que cercam Aparecida é a percepção de que chegou
                   a hora da Igreja da América Latina e do Caribe enfrentar a nova realidade,
                   resultante das profundas transformações acontecidas nas últimas décadas. Elas
                   tiveram grandes repercussões, sobretudo eclesiais. Assim, a Conferência de
                   Aparecida se torna o momento oportuno para a Igreja se posicionar diante da nova
                   realidade de um continente em profunda transformação, cuja identidade vai
                   rapidamente prescindindo de sua vinculação com a Igreja Católica, que por isto se
                   questiona e se pergunta como fazer para continuar tendo significação histórica para
                   um povo que já não se sente obrigado a identificar-se com ela.
                   Assim, Aparecida se apresenta como momento privilegiado, hora da graça,
                   oportunidade imperdível, ocasião propícia para a Igreja ouvir os apelos que o
                   Espírito lhe faz através da realidade, que clama por um reencontro fecundo com o
                   Evangelho de Cristo e por novas formas de expressão eclesial.
                   Aparecida dará conta de tantas expectativas? Certamente os dias da Conferência
                   serão poucos para tudo isto, e o documento esperado, incapaz de responder a todos
                   estes anseios. Tanto mais, então, é importante entender Aparecida não como um
                   acontecimento isolado, mas como um processo, que já começou, e que o
                   documento final precisa, certamente, deixar em aberto, para que continue e se
                   aprofunde”64.
      Estes e outros documentos acima citados, assim como uma ampla gama de notícias
e artigos, podem ser encontrados nos sites da CNBB, http://www.cnbb.org.br; no do
CELAM:            http://www.br.celam.com;          no      da        Ciberteologia:
http://www.ciberteologia.org.br;    no    da    revista  Família  Cristã   On-line:


62
   MIRANDA, Mário de Franca, Aparecida, a hora da América Latina. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 8.
63
   Ibidem, p. 9.
64
   VALENTINI, Dom Demétrio, Expectativas da Quinta Conferência – FAJE, Belo Horizonte (06-03-2007), p.
3.

                                                                                                     46
http://www.familiacrista.org.br         e    no     da    Agência      de     Notícias     ADITAL:
http://www.adital.com.br.

      Contribuições populares para a V Conferência
      Uma iniciativa que acabou congregando três dezenas de entidades, pastorais, CEBs,
conselhos e centros de formação levantou uma outra questão: como assegurar, uma vez
passada a fase de consulta do Documento de Participação, um envolvimento e uma
contribuição específica dos setores populares para a preparação, o desenrolar e a
recepção da V Conferência? Reunidos num Fórum de Participação que se encontrou
regularmente, nas dependëncias da Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo, desde
maio de 2006, o Fórum propôs várias iniciativas que vem sendo levadas adiante com a
participação de todos:
      1. Uma grande Romaria Popular, a cargo das CEBs, da Pastoral da Juventude e
      da Pastoral Carcerária, com apoio das demais pastorais e entidades, para o primeiro
      fim de semana após a abertura da Conferência (19 e 20 de maio), com uma noite de
      vigília e caminhada de Roseira a Aparecida em que serão retomadas as grandes
      intuições de cada uma das cinco conferências gerais do Episcopado, do Rio de
      Janeiro a Aparecida, passando por Medellín, Puebla e Santo Domingo, junto com a
      temática do Seguimento de Jesus, nos evangelhos, culminando com a celebração
      eucarística na Basílica e com a entrega aos bispos da V Conferência das propostas e
      sugestões que emergirem da reflexão e oração dos romeiros.
      2. Uma série de dez Círculos Bíblicos preparados por Carlos Mesters e Francisco
      Orofino: “Seguir Jesus – Círculos Bíblicos em preparação à V
      Conferência Geral do Episcopado Latino-americano – Aparecida 2007”.
      Estes foram editados conjuntamente pelo CEBI, Editora Santuário, as Paulinas e
      Paulus e já se encontram traduzidos para o castelhano, com distribuição em muitos
      países do continente. Centrados no tema do seguimento de Jesus e de sua missão,
      para que nossos povos e toda a criação tenham Vida e Vida plena, visam oferecer
      um caminho espiritual, bíblico e de compromissos concretos, para preparar, seguir
      e sobretudo colocar em prática os apelos da V Conferência. Os Círculos
      recomendados pela Presidência da CNBB estão sendo assumidos como roteiro de
      preparação para a Conferência. As Irmãs Paulinas prepararam uma versão de três
      minutos diários que irão ao ar numa rede de 400 rádios do dia 1º. ao dia 31 de maio
      e uma versão televisiva, com o mesmo intuito de associar as comunidades de base,
      círculos bíblicos e as pessoas interessadas à V Conferências, aos seus temas, debates
      e resoluções65.
      3. Um Manifesto do Povo de Deus: Povo de Deus com Jesus Libertador rumo à
      Aparecida – Vida Plena para todas as criaturas, que recolhesse numa única folha,
      as principais preocupações, desejos e propostas do Fórum de Participação para a V
      Conferência e que reproduzimos em anexo.
      4. Um Seminário Latino-americano de Teologia: América Latina, Cristianismo
      e Igreja no Século XXI, promovido pelo Conselho Nacional do Laicato do Brasil
      (CNLB) de 18 a 20 de maio, em Pindamonhangaba. Pretende-se entregar suas
      conclusões e propostas aos bispos reunidos em Aparecida.
     Sem a participação popular, de um lado, e sem o envolvimento dos presbíteros , de
outro, com entusiasmo e aplicação de mente, coração e espírito, Aparecida não será capaz
de cumprir a expectativa de tornar-se, como Medellín, um marco e uma referência para a
caminhada da Igreja na América Latina e no Caribe.



65
  PAULINAS RÁDIO, Bíblia, Deus com a gente. A Bíblia na linguagem do Rádio: Programas Radiofônicos.
Tema: Discípulos e Missionários de Jesus. Maio de 2007. São Paulo: Paulinas Rádio, 2007.

                                                                                                      47
               A N E X O                               I
  M A N I F E S T O   D O                               P O V O              D E
                  D E U S
          Povo de Deus com Jesus Libertador rumo à Aparecida
                     Vida plena para todas as criaturas

      A América Latina e o Caribe vivem a expectativa da superação das
estruturas injustas, agravadas, atualmente, pelo sistema neoliberal. As
eleições realizadas recentemente em vários países do Continente sinalizam essa
expectativa. Entretanto, o abismo entre ricos e pobres continua sendo uma afronta ao
Deus Pai-Mãe da humanidade e manifesta a contradição com o ser cristão (Puebla, 28).
Confiantes na presença do Espírito do Ressuscitado, temos a esperança de que a
Conferência de Aparecida marcará os rumos da Igreja latino-americana e caribenha na
missão de “anunciar a Boa-Nova aos pobres; proclamar a libertação aos presos e, aos
cegos, a recuperação da vista; dar a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça
da parte do Senhor” (Lc 4,18-19). Com esta certeza-esperança, queremos confirmar as
marcas fundantes da experiência eclesial da Igreja na América Latina e no Caribe.
      Como discípulos e discípulas de Jesus, iluminados pelos valores do Reino e pelos
ensinamentos do Concílio Vaticano II, queremos ser uma Igreja-Povo-de-Deus,
profética, aberta ao diálogo ecumênico e inter-religioso e que reflita a vida de
nossos povos e suas culturas, onde os leigos e leigas adquiram seu lugar, seu espaço de
iniciativa, de liberdade, de autonomia e participação. Pela numerosa presença das
mulheres e sua participação imprescindível em nossa(s) Igreja(s) cristãs, há de se
repensar seu papel numa nova estruturação eclesial. Por isso tudo, queremos ser Igreja-
fonte! Uma Igreja toda ministerial e com a vivência da colegialidade que valorize as
comunidades, as pastorais, os movimentos, a Igreja local, as Conferências Episcopais em
comunhão com a Sede de Pedro, com todas as Igrejas particulares e outras Igrejas cristãs
do mundo inteiro.
      A opção pelos pobres, proclamada em Medellín e reafirmada em Puebla e Santo
Domingo, é um mandamento do Senhor e está na base de toda a ação evangelizadora (Lc
4,16-21; Mt 11,2-6). A Palavra de Deus é a companheira inseparável da caminhada das
comunidades cristãs. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) têm vivenciado sua
presença em todas as dimensões da vida e transmitido a fé cristã em um tempo de
grandes provações e mudanças. À luz da Palavra de Deus lida, refletida, rezada, cantada e
celebrada, a Igreja-Povo-de-Deus tem a missão de comunicar a fé e colaborar (GS,1.11) na
solução dos graves problemas que afetam a maioria da população em nosso continente:
desemprego, violência, exclusão social, migração forçada, contando com a ação de todos
os homens e mulheres de boa vontade do mundo inteiro. A ligação entre evangelização
e libertação (EN, 30), fé e vida, já faz parte do patrimônio de nossa Igreja latino-
americana e caribenha e caracteriza a luta pela justiça na construção da paz (Medellín,
Introdução, 6; Paz, 16).
      A Igreja latino-americana e caribenha, como Povo de Deus, preocupa-se com o
futuro. Os jovens esperam encontrar nas comunidades cristãs um espaço de liberdade,
de participação e responsabilidade. Esperam também incentivos na busca de novos
caminhos de libertação e de compromisso. Responsáveis pela vida das gerações futuras,

                                                                                      48
as comunidades cristãs da América Latina e Caribe se sentem comprometidas com a
defesa da natureza e preservação da vida humana, animal, vegetal e das águas. Sem uma
nova espiritualidade integradora e a luta pela libertação ecológica, não haverá futuro
e corremos o risco de destruir o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com
toda a criação (Gn 9,9-17).
      A Igreja latino-americana e caribenha continua no caminho de Jesus, sustentada
pelo testemunho de muitos mártires indígenas, negros, bispos, padres, religiosas e
religiosos, homens e mulheres, que, como Jesus, derramaram seu sangue para defender a
vida. Confiantes no Deus da Vida, Pai-Mãe de todos os povos, proclamamos a nossa fé
na presença do Espírito que conduz a história rumo à manifestação do Reino de
Deus, testemunhado por Jesus de Nazaré e seguido fielmente por sua e nossa Mãe
Maria que invocamos com o nome de “Aparecida”.




                                                                                   49
                A N E X O    I I
      M A R I A  D E    A P A R E C I D A :
      R O S T O    D O S   P O V O S   D A
      A M É R I C A   L A T I N A   E  D O
                              66
                  C A R I B E
                                                                                            Cecília Domezi

      Neste continente, uma grande e peculiar devoção mariana, com sua multiplicidade
de expressões culturais, nos traz uma boa noticia: o evangelho que passa pelo coração e
pelas práticas dos pobres é profundamente aberto à inculturação e também apresenta, a
partir da base da sociedade e da Igreja, uma força vital para o ecumenismo e o diálogo
inter-religioso. A Palavra de Deus, encarnando-se nos dinamismos da cultura popular,
atualiza-se, deixa-se comunicar criativamente e dá sentido à luta pela vida digna em meio
às estruturas de morte.
      O catolicismo latino-americano-caribenho, com sua pluralidade interna, é vivido
num modo cultural de tradição popular devota, pela grande maioria das pessoas que o
constituem. É profundamente mariano, heterodoxo em muitas de suas expressões, mas
sempre fiel ao senso comum da fé da Igreja. Multidões de pessoas, submetidas a
opressões estruturais geradoras de gritantes desigualdades, têm que declinar-se no plural
e rearranjar-se continuamente, num modo de ser católico que faz da ambigüidade e do
sincretismo, em suas múltiplas formas, uma importante possibilidade de defesa da vida
através do sentido dado pela religião67. É esse catolicismo popular que tem provido
sentido à vida e ao mundo, nas situações cotidianamente periclitantes e também nas
lutas populares dos nossos povos daqui.
      Desde o início da conquista colonizadora, o dinamismo da encarnação de Jesus, no
paradigma guadalupano, possibilita que Maria se apresente aqui como a Mãe da
compaixão, irmã e companheira das etnias e povos condenados à mais angustiante
orfandade. Suas feições índias, negras, mestiças, humanas, revelam o rosto materno de
Deus. Sua mensagem e atuação evangélica que salvam, em Cristo, a dignidade dos
vencidos, também manifestam uma inusitada apropriação do Cristianismo da parte dos
empobrecidos, através dos quais atua o Espírito de Deus.

      A simbólica de Aparecida
    No Brasil, Maria é Aparecida na dor, na resistência e na práxis libertadora dos
empobrecidos. Sua pequena imagem “apareceu”68 na experiência de fé de pescadores

66
   Livro “Sinais de esperança, reflexão em torno da Conferência de Aparecida”. Ameríndia, Paulinas, 2007.
67
   Sanchis se refere a uma multidimensionada diversidade do campo religioso, que se constrói e se reconstrói
continuamente nas reações entremeadas das instituições, grupos, quase-grupos e indivíduos, diante do jorro dos
acontecimentos. No caso mais específico do povo brasileiro, por causa dos desenraizamentos a que tem sido
submetido desde a colonização, o sincretismo é um dos modos possíveis de convivência plural dos diferentes,
com indefinições, ambigüidades, ambivalências, porosidade e inacabamento das identidades. O povo teve que
aprender a declinar-se no plural. Cf. SANCHIS, Pierre. “O campo religioso brasileiro será ainda hoje o campo
das religiões?” In HOORNAERT, Eduardo, et al. História da Igreja na América Latina e no Caribe – 1945-
1995. [trad. Ephraim Alves; Jaime Clasen; Lúcia Mathilde Andlich Orth]. Petrópolis: Vozes; São Paulo:
CEHILA, 1995, pp. 81-131.
68
   Tomamos a história do achado da imagem de Nossa Senhora Aparecida e dos primórdios do culto popular a
ela dedicado, da obra de BRUSTOLONI, Júlio. História de Nossa Senhora da Conceição Aparecida: a imagem,

                                                                                                            50
explorados, em 1717. O contexto era do ciclo de mineração de ouro e diamantes, sob a
face mais cruel da escravidão dos negros africanos. No Vale do rio Paraíba do Sul,
província de São Paulo, desenvolvera-se a vila de Guaratinguetá, como entreposto de
mercadorias e de escravos. Situada entre Minas Gerais e o mar, era uma passagem
obrigatória de tropas, com intenso fluxo de migração e intercâmbio comercial. A febre do
ouro, desde o final do século XVII, fazia acorrerem às áreas de mineração multidões de
todo o Brasil e depois também de Portugal. Os ricos chegavam com toda a sua escravaria,
e os pobres com o que tivessem.
      A vultosa transladação humana trazia graves problemas sociais, que escapavam ao
controle da Coroa portuguesa. Empresários da terra e o patriciado lusitano se
enfrentavam numa luta feroz, que teve na guerra dos Emboabas o enfrentamento mais
grave. Os mineiros se rebelavam através da sonegação de impostos e do escamoteio de
ouro e diamantes. A população revidava com motins às punições, repressão, confisco e
derramas da Coroa, mas era sempre sufocada pela força policial. Pedro de Almeida, o
conde de Assumar, que acabara de ser nomeado governador das capitanias de São Paulo
e Minas Gerais, viajava do Rio de Janeiro para São Paulo, e dali para Minas Gerais. Seu
objetivo era o de organizar com rigor os quadros administrativos, a fim de controlar as
rebeliões. Foi neste contexto que os pobres formularam a sua narrativa do milagroso
achado da imagem. A linguagem do mito preserva o sentido mais profundo do encontro
com Deus através de Maria.
      A Câmara de Guaratinguetá deu ordem aos pescadores de apresentarem para o
banquete do governador e de sua comitiva todo o produto da pesca. Dentre os muitos que
foram ao trabalho, três pescadores foram lançando suas redes numa grande distância,
desde o porto de José Correa Leite, sem tirar peixe algum. Eram eles: Domingos Martins
Garcia, João Alves e Filipe Pedroso. Chegando ao porto de Itaguassu, João Alves lançou
de rasto sua rede e tirou o corpo da Senhora sem cabeça. Lançou novamente a rede, mais
abaixo, e tirou a cabeça da mesma Senhora. Surpresos, os três lançaram a rede pela
terceira vez e a pescaria foi tanta que puderam encher suas canoas. Limparam a imagem
apanhada do fundo do rio Paraíba e notaram que era a de Nossa Senhora da Conceição,
na cor escura. João Alves a guardou num pano.
      Durante quinze anos a imagem recebeu um culto familiar na casa de Filipe Pedroso.
Depois, com idade avançada, ele a confiou a seu filho Atanásio Pedroso, que lhe construiu
uma capelinha na beira da estrada, com um altar de paus. Ali se dirigiam as pessoas
devotas, aos sábados, para rezar o terço, cantar as ladainhas e testemunhar prodígios.
Rapidamente se irradiou dali grande devoção, numa vasta região do país, divulgando-se
pessoa a pessoa as graças e milagres. E como a afluência do povo crescia mais e mais, em
1745 erigiu-se uma capela maior, no Morro dos Coqueiros, construída por escravos do
capitão Raposo Leme e com a ajuda voluntária de vizinhos69.
      Os nobres da região fundaram a Confraria de Nossa Senhora da Conceição
Aparecida, através da qual passaram a administrar o culto e os bens do santuário, que
vinham de abundantes ofertas dos fiéis. Mas, no início do século XIX houve uma
intervenção do governo real, que tomou o controle valendo-se das prerrogativas do
padroado. Entretanto, o controle eclesiástico também não deixaria de se impor, já que as
capelas tinham que depender das igrejas centrais, assim como as ermitanias dependiam
das matrizes paroquiais e os ermitães dos vigários70. E o título “Aparecida” foi deixado
como apêndice ao título oficial de Nossa Senhora da Conceição.



o santuário e as romarias. 10a. ed. rev. e ampl. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1998. Pelo fato de ser ele um
sacerdote redentorista, pode fazer um cuidadoso estudo a partir de documentos originais, além de levar em conta
a memória popular. Desde que a Igreja Católica assumiu oficialmente esta devoção, confiou o santuário de
Aparecida aos religiosos redentoristas.
69
   BRUSTOLONI, 1998, pp. 67-71. Para esta capela, conhecida como igreja velha, ainda hoje se dirigem
constantemente multidões de romeiros.
70
   Esta determinação consta nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, aprovadas em 1707.

                                                                                                              51
      A monarquia foi destronada através de um golpe militar, mas a patrona Nossa
Senhora da Conceição continuou reconhecida no período imperial. Dom Pedro I a
declarou padroeira do império brasileiro, tolerando o acréscimo popular de Aparecida
porque este expressava uma sutil relação de continuidade e mudança na soberania
religiosa do país71. Entretanto, sua cor negra era mais difícil de ser tolerada. Em 1854, o
bispo de São Paulo, Dom Antônio Joaquim de Melo, mandou imprimir na França uma
estampa de Nossa Senhora Aparecida em tez branca e com traços europeus, e ordenou
que se queimassem as estampas com a cor negra72.
      O confronto com a ideologia do positivismo comtiano, com a qual se estabeleceu a
República nos moldes das elites brancas, fez o episcopado brasileiro entrar nas
peregrinações populares que se dirigiam ao santuário de Aparecida. Antes, Nossa
Senhora da Conceição era festejada com gala, no dia 8 de dezembro, e o exército imperial
a invocava todas as noites como sua padroeira. Mas, tudo mudava a partir do segundo
Império, com a difusão da nova ideologia no exército e na intelectualidade brasileira.
Depois de uma longa ausência nesse espaço da fé do povo, a hierarquia da Igreja passou a
utilizar as romarias em seu movimento de restauração católica73. A velha igreja foi
ampliada e declarada santuário episcopal em 1893 e, no ano seguinte, confiada aos
missionários redentoristas alemães. A imagem teve solene coroação em 1904. Quatro
anos depois, o santuário recebeu da Santa Sé o título de basílica menor.
      No contexto dos populismos latino-americanos dos anos 30, os bispos promoviam
manifestações de massa no intuito de despertar a consciência de nação católica, contra os
princípios secularistas da República. Em 1930, o papa Pio XI declarou Nossa Senhora da
Conceição Aparecida como rainha e padroeira do Brasil. A 31 de maio de 1931, o cardeal
Dom Sebastião Leme dirigiu a proclamação desse título perante cerca de um milhão de
fiéis reunidos na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro. Nas mãos da hierarquia
católica, a pequena e frágil imagem passava a simbolizar o poder da cristandade. Assim,
na reivindicação do símbolo da nação, venceu a Igreja junto das massas de gente pobre,
com seu símbolo mariano, enquanto os positivistas no poder ficavam com o símbolo
cívico do mártir da inconfidência mineira, Tiradentes. E, para que o herói Tiradentes
fosse aceito nas camadas populares, as elites civis o representaram com traços do Ecce
Homo74.
      Contudo, nem a campanha de restauração empreendida pela Igreja, nem o
autoritarismo do regime político conseguiram instaurar um centro simbólico da
cristandade brasileira. A coroa da Senhora da Conceição que, para o império português
significava a unidade do domínio em todas as colônias75, não poderia ter o mesmo
significado para a mestiça descendência do ventre colonizado de Paraguaçu76. A profunda
71
   FERNANDES, Rubem César. Romarias da Paixão. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 107.
72
   SANTOS, Lourival dos. “Igreja, Nacionalismo e Devoção Popular: as estampas de Nossa Senhora Aparecida –
1854-1978. Dissertação de Mestrado em História. São Paulo: USP, 2000.
73
   BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. Especialmente o cap. IX,
pp. 273-307. MORAES, E. Vilhena de. A Padroeira do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Dom Vital, 1929.
74
   CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo:
Companhia das Letras, 1987.
75
   Diante da imagem de Nossa Senhora da Conceição, o rei e a rainha de Portugal não podiam usar coroa. Só a
Virgem era coroada, pois era tida como a verdadeira soberana de Portugal. Cf. SANTOS, Lucila Morais. Arte do
Marfim. Rio de Janeiro: Centro Cultural/ Banco do Brasil, 1993, p. 26. A devoção portuguesa à Senhora da
Conceição tinha centralidade e se constituía numa verdadeira prerrogativa dinástica, que dava coesão interna à
sua identidade de nação. Dom João V elevou o culto da Imaculada Conceição a um esplendor nunca visto antes.
Cf. BOFF, Clodovis. Maria na Cultura Brasileira: Aparecida, Iemanjá, Nossa Senhora da Libertação.
Petrópolis: Vozes, 1995, p. 12.
76
   A construção da primeira igreja no Brasil, no litoral de Boipeba, na Bahia, por volta de 1535, está envolta
numa lenda segundo a qual uma belíssima senhora apareceu em sonho à índia Paraguaçu, esposa do português
Diogo Álvares, o Caramuru. Paraguaçu acreditou ser a aparição de Nossa Senhora da Graça, que lhe pedia a
construção de uma igreja. Hoje ali está o mosteiro de Monserrate, onde está sepultada Paraguaçu e onde continua

                                                                                                            52
e expressiva devoção mariana do povo não encontra uma coesão interna de nação. O
povo brasileiro surgiu e cresceu de maneira constrangida e deformada, num choque de
cosmovisões e numa dizimação de epidemias e pestes mortais, guerras de extermínio e
escravização77.
      Maria foi estabelecida pelo catolicismo oficial como rainha e padroeira de diversas
nações deste continente. Mas, na consciência do povo devoto, que a invoca sob os mais
diversos nomes, ela é a Mãe de Jesus e tem uma história de sofrimento. Teve seu Filho
num presépio, precisou fugir para o Egito, esteve com Jesus aos pés da cruz, está agora
na glória do céu, mas continua sendo a singela, muito próxima e muito humana Mãe dos
pobres e necessitados78. Sua presença constante se insere no universo da paixão de
Cristo, como Mãe da compaixão e a grande mediadora entre seus filhos sofredores e
Deus. É diferente a imagem de Czestochowa, na católica Polônia, que integra com
maestria todos os títulos sob sua coroa de rainha. Para o povo brasileiro devoto, ela é a
Senhora encontrada no rio, cuja soberania não chega a ser política como a de uma rainha.
A usual expressão “minha Nossa Senhora” une o respeito à intimidade79.
      O centro mariano estabelecido como nacional insere-se numa pluralidade que, nas
diversas regiões, manifesta um policentrismo religioso com seu complexo calendário de
festas. Enquanto o santuário de Aparecida congrega especialmente os romeiros do
centro-sul do país, outras romarias dirigem-se ao santuário de Nossa Senhora do Círio de
Nazaré, em Belém, ao de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte, na tradição do
padrinho dos pobres, Padre Cícero Romão Batista, além de outros santuários.
      Como rainha e padroeira do Brasil ela foi especialmente invocada nas semanas que
precederam o golpe militar de 1964, nas “marchas da família com Deus pela liberdade”.
Centenas de milhares de pessoas compareceram às manifestações que se realizaram nas
capitais mais importantes do país, que acusavam um suposto perigo comunista do
governo Goulart, com as reformas de base que eram prometidas80.
      O simbolismo de Nossa Senhora Aparecida e do seu santuário vem sendo
construído dia a dia pelos pobres e excluídos, desde a experiência de fé cristã de escravos,
tropeiros explorados, mulheres submetidas e violentadas, índios que, reduzidos à
minoria, foram condenados à fome e à ninguenidade, colonos pobres em geral. Desde o
início da colonização, uma apropriação da mensagem cristã se fez em outras chaves
culturais, num amálgama de cosmovisões e cultos ancestrais dos indígenas e dos
africanos com as expressões de devoção popular trazidas pelos cristãos que vieram de
Portugal.
      Ela é ícone do povo oprimido e libertador. Sua imagem foi encontrada por
pescadores pobres, num ambiente de forte tensão social. Assumiu a cor da raça mais
desprezada, e nessa cor se manteve. Foram pessoas leigas, pobres, humildes e anônimas,
que iniciaram seu culto, administraram essa devoção nos primeiros anos e a propagaram.
O primeiro favorecido por um milagre dela foi um escravo. Ela é a Mãe e companheira do
povo que está na caminhada de libertação. As Romarias dos Trabalhadores, a cada ano,
mostram o crescimento na consciência social e religiosa dos negros e mestiços do Brasil81.

      Vida agredida, imagem quebrada


sendo venerada a pequena imagem da Virgem da Graça trazida já nos primórdios da colônia. Cf. BOFF,
Clodovis, 1995, p. 13.
77
   RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, pp. 26; 44; 47; 70.
78
   PARKER, Cristián. Religião Popular e Modernização Capitalista: outra lógica para a América Latina. [trad.
Attilio Brunetta]. Petrópolis: Vozes, 1995, pp. 152-153.
79
   BOFF, Clodovis, 1995, pp. 15-16; 111.
80
   Pode-se ver PRANDINI, et al. (org.s) As Relações Igreja-Estado no Brasil. Vol. 1. São Paulo: Loyola, 1986,
p. 23.
81
   BOFF, Clodovis, 1995, pp. 38-43.

                                                                                                           53
      A cruz cristã sacralizou esta terra conquistada sob a lógica do capitalismo mercantil,
em meio a violentos atentados contra a vida. Agrediu-se a vida dos inúmeros povos que
aqui já estavam há muitos milênios, como também de milhões de africanos arrancados
de sua pátria e aqui escravizados. Também a mãe natureza, carinhosamente cultuada por
estes povos da Ameríndia e da África, fiéis às suas antigas tradições, foi agredida. A terra
foi depredada, principalmente através de uma febril extração de árvores do pau-brasil
para o comércio global, sem replantio.
      Para as pessoas escravizadas e submetidas, era difícil viver uma relação amorosa
com Deus, apresentado como um juiz aterrorizador, distante das maiorias dominadas e
parceiro dos senhores da casa-grande. Em nome da vontade de Deus instaurou-se e se
manteve um sistema de morte, com grilhões da escravidão, doenças estranhas e
epidêmicas, roubo de terras, guerras, medo, imposição da religião, inquisição. Está certo
que não faltaram missionários imbuídos de profetismo, que arriscaram sua vida na
defesa da vida e liberdade dos indígenas. Mas, para a imensa população negra
escravizada, ao invés de uma teologia da libertação, elaborou-se uma teologia escravista.
      O povo brasileiro nasceu deformado, em meio a desarranjos e destruições
familiares, quebras culturais, rompimento de laços étnicos, cortes de tradições religiosas,
mestiçagem acelerada, estupros a mulheres negras e índias. Por um tortuoso caminho,
brasilíndios e afro-brasileiros, na condição de não-europeus, desindianizados e
desafricanizados, obrigaram-se a uma busca de coesão no plano emocional. E a
identidade étnica teve a ambigüidade como seu único espaço82.
      Apesar de tudo, como uma colagem de destroços com novo sopro de vida, os
pobres, desde logo, passaram a criar novos laços de compadrio e vizinhança, de
irmandades e confrarias leigas, apropriando-se do batismo cristão num sentido de
dignidade humana e cidadania. É nesta realidade que Maria se tornou Aparecida,
conforme narra a teologia oral dos pobres. O pescador que levou a imagem quebrada da
Senhora da Conceição para sua casa, colou a cabeça ao corpo com cera de abelha do
arapuá, preta e pegajosa. É assim que, através da reciclagem da imagem-signo, o povo
devoto constrói e reconstrói a imagem-significado, fazendo arranjos possíveis83.
      A reciclagem e recriação da imagem de Maria através dos dinamismos das culturas
oprimidas é uma constante na América Latina e Caribe. Nossa Senhora dos Trinta e Três,
no Uruguai, foi esculpida por um índio e colocada numa ermida. Nossa Senhora de
Altagrácia, na República Dominicana, segundo a lenda que guarda a interpretação
popular, foi desenhada por um velhinho que, em seguida, desapareceu. Nossa Senhora de
Chiquinquirá, na Colômbia, foi pintada por um artista sobre tela fabricada pelos índios.
O quadro permaneceu durante doze anos exposto à veneração popular e se foi
deteriorando, até ser retirado do altar e levado para um depósito. Maria Ramos, uma
devota da Virgem, levou-o para um altar em sua casa, onde reunia amigos e parentes
para o culto. Em 1856 ocorreu o milagre da iluminação da tela. As cores ficaram vivas e a
imagem resultou nítida.
      Nossa Senhora de Copacabana, na Bolívia, foi primeiro esculpida em argila pelo
índio Francisco Tito Yupanki, ajudado por seu irmão Felipe de Leon. As autoridades
oficiais a rejeitaram e esconderam na sacristia. Yupanki buscou ajuda de um mestre
santeiro e, tomando por modelo a imagem oficial da Virgem do Rosário, desenhou-a
numa prancha, com traços da cultura indígena. Foi mostrá-la ao bispo e lhe pedir licença
para ser pintor e escultor, mas os espanhóis presentes riram e zombaram dele e o bispo

82
  RIBEIRO, 1995, pp. 131-132.
83
  Pode-se dizer, seguindo Lévi-Strauss, que a pequena escultura tem um forte poder de referência como
intermediária para uma sempre dinâmica composição e recomposição da imagem enquanto significado. A
sabedoria popular, como ciência do concreto, opera através da bricolage, contando com o único repertório que
lhe está ao alcance, como peças frágeis. Cf. LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. [trad. Maria
Celeste da Costa e Sousa; Almir de Oliveira Aguiar]. São Paulo: Editora Nacional/ Editora da USP, 1970, pp.
37-38.

                                                                                                           54
lhe negou licença sob pena de castigo. Humilhado, Yupanki foi a uma igreja pedir a Deus
o acerto no policromado da imagem. Em, seguida, pôs-se a caminho de La Paz, junto com
alguns trabalhadores que voltavam das minas, aproveitando a escuridão da noite para
levar o desenho ao atellier do mestre Vargas, no convento franciscano. Teve que comprar
o ouro necessário para dourar. Junto com Vargas, trabalhou na pintura durante um dia e
uma noite, e ela resultou belíssima.
       A pequenina imagem de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil84, é a da Imaculada
Conceição, mas tem traços que se diferenciam da imagem oficial e a tornam mais
parecida com as mulheres brasileiras. Seus lábios têm uma forma sorridente, há uma
covinha em seu queixo, o penteado é longo e solto, há flores nos cabelos e na testa e seu
porte é levemente inclinado para trás. Ela foi esculpida com um tipo de barro que resulta
numa imprevisibilidade de coloração. Seu escultor não deixou assinatura 85. Apropriada
pela fé dos pobres, nos dinamismos de sua cultura popular, é imagem híbrida que se vai
enegrecendo; sua simbologia circula entre os espaços oficial e popular; ela se abre ao
sincretismo que não tem outro recurso senão o de esconder-se nas dobras da cultura e da
religião dominantes. Seu significado é ativado na escultura de uma imagem que é de
cultura estranha, mas que é permitida. Por isso, ela é Aparecida na Senhora da
Conceição.
       É na fragilidade desta imagem que tantas pessoas, submetidas a graves
instabilidades e perigos cotidianos, encontram a força para sobreviver. Em meio ao
dilaceramento existencial do povo, e na falta de atendimento às necessidades básicas,
viver é sempre perigoso86. A pequenina escultura, encantada na religiosidade popular, e
reveladora da compaixão de Deus, continua com sua cicatriz no pescoço e com seu corpo
frágil. Na tentativa de disfarçar, durante longo tempo lhe foram enrolados ao pescoço
grossos cordões de ouro, doações de ex-votos. Seu corpo de mulher machucada tem sido
coberto por ricos mantos e coroas. Através de colagens as mais diversas, inúmeras
restaurações temporárias se fizeram porque, devido aos traslados e romarias, a cabeça
facilmente se desprendia do corpo. Cercada sempre por multidões, acabou praticamente
presa ao seu nicho, protegida por vidros e rodeada por um esquema de segurança, mas
isto não a livrou de ser agredida em 1978, por um homem que sofria de perturbação
mental e que a derrubou de uma altura de dois metros. Na queda, partiu-se em sento e
sessenta e cinco fragmentos87.
       A restauração revelou sua forma original. Mas, a Senhora da Conceição, que para
Dom João IV tinha o significado de protetora do domínio de Portugal em todas as suas
colônias88, tornou-se imagem dos dominados. O lodo do fundo do rio a escureceu e
depois, exposta à fumaça das velas e tochas, cercada por multidões de fiéis, enegreceu-se.
       A negritude e a indianidade têm sido assumidas por Maria em toda a América
Latina e Caribe. Nossa Senhora de Guadalupe, no México, apareceu nas ruínas do antigo
santuário da deusa Tonantzin, cultuada pelos astecas pobres. Apareceu com feições

84
   Tem a medida de 36 cm de altura e o peso é de 2 quilos e 550 gramas. Cf. BRUSTOLONI, 1998, p. 18.
85
   A imagem foi esculpida no século XVII por um monge beneditino que era discípulo do santeiro português
Frei Agostinho da Piedade. Muito provavelmente, seu escultor foi Frei Agostinho de Jesus, um brasileiro nascido
no Rio de Janeiro, que seguiu as determinações do rei de Portugal cromando-a nas cores oficiais. É arte erudita,
feita de terracota paulista que, ao ser queimada, pode adquirir uma coloração rosa ou acinzentada. Esta imagem
tornou-se acinzentada. Cf. BRUSTOLONI, 1998, pp. 18; 21-23; 50.
86
   Guimarães Rosa, conhecedor da vida e da cultura dos brasileiros do sertão de Minas Gerais, faz seu
personagem Riobaldo dizer muitas vezes que “viver é perigoso”. Cf. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão:
veredas. 19a edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
87
   Foi quando uma equipe de peritos do Museu de Arte de São Paulo a restaurou em sua forma original. Cf.
BRUSTOLONI, 1998, pp. 36-37; 108-129.
88
   Após a vitória da restauração portuguesa contra o domínio espanhol, que se estendeu de 1580 a 1640, Dom
João IV cumpriu uma promessa de consagrar à Senhora da Conceição Portugal e seus domínios ultramarinos. A
consagração foi a 25 de março de 1646. Cf. HOORNAERT, Eduardo, et al. História da Igreja no Brasil: ensaio
e interpretação a partir do povo. Primeira Época. 4a. ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Paulinas; CEHILA, 1992,
p. 349.

                                                                                                             55
indígenas, falando em náhuatl e envolta na simbologia asteca. Nossa Senhora de Luján,
na Argentina, tem rosto moreno e seu culto se afirmou graças à dedicação e serviço de
um negro, chamado Manuel. Nossa Senhora dos Anjos, em Costa Rica, deixou-se
encontrar por uma jovem negra, trabalhadora, que cortava lenha. Nossa Senhora da
Caridade do Cobre, em Cuba, tem a cor negra e foi encontrada por dois irmãos índios e
mais um negro. Nossa Senhora da Apresentação de El Quinche, no Equador, apareceu
diversas vezes para os índios de Oiacachi, prometendo-lhes proteção contra as feras, as
tempestades e os vulcões. A imagem de Nossa Senhora de Caacupé, no Paraguai, foi
esculpida por um índio guarani fugitivo, como cumprimento de uma promessa feita a ela
ao invocar-lhe a proteção: esculpiria sua imagem com o tronco daquela árvore atrás da
qual se escondia dos perseguidores. Esculpiu duas imagens: uma, que ofereceu à igreja
da aldeia e outra menor, para sua própria devoção. Foi esta imagem menor que se
conservou milagrosamente. Nossa Senhora das Mercês, no Peru, abriga sob o manto dois
escravos ajoelhados, sendo que um deles tem algemas e grilhões.
      O Cristianismo aqui foi abraçado de coração pelos povos submetidos, através de
Maria. A adesão da fé viva se fez através de uma reciclagem de destroços, bricolagem de
significados e recuperação da dignidade de suas culturas.

      Igreja dos Pobres, santuário da vida digna
      Maria de Nazaré é ícone da Igreja. A Palavra se fez carne não só em seu corpo, mas
também em seu coração (Lúmen Gentium, n. 53). Ela é a primeira e a mais perfeita
discípula e, como mãe, nos ensina a ser discípulos e discípulas de seu Filho, tornando-
nos, como Ele, evangelho vivo do Pai89. A tradição dos Santos Padres diz que, no mistério
de Cristo, Maria é a Igreja concentrada e a Igreja é Maria extensa90. O espelho da alma de
Maria está em seu canto de libertação messiânica, o Magnificat, “cume da espiritualidade
dos pobres de Javé e do profetismo da Antiga Aliança” (Puebla, n. 297), “prelúdio do
Sermão da Montanha” (cf. 1144). Maria canta a ação de Deus na história, que subverte
todas as hierarquias injustas e todas as ordens violentas91. A Maria do Magnificat é
protótipo da Igreja profética, com teologias contextualizadas, opção pelos pobres e
inculturação.
      A Mariologia popular faz um esperançoso apelo à Igreja. Desde que, em 1531, a
imagem de Nossa Senhora de Guadalupe se imprimiu milagrosamente na tilma rústica
do índio Cuahutlatóac, cujo nome cristão espanhol era Juan Diego, Maria vem
protegendo e abençoando, neste continente, a inculturação do evangelho de seu Filho
operada pelos pobres. Ela aparece através do imaginário, da cosmovisão e das religiões
enraizadas em culturas-matrizes. Manifesta sua vontade de ficar em lugares
marginalizados e até proibidos pelo poder oficial, fala a língua dos índios, estabelece
intercâmbios e laços de reconstrução, traz o amor que vence a violência. Seu pedido da
construção de um santuário no Tepeyac, para ali “ouvir, remediar e curar as misérias,
penas e dores”92 dos povos submetidos e agredidos por toda sorte de violência, é um
apelo a sermos Igreja dos pobres e excluídos, deslocada para as margens, acolhedora da
interpretação que os pequenos e empobrecidos fazem da boa nova.
      Para abrir-se à inculturação do evangelho, a Igreja tem que descer ao esvaziamento
de si, na kenosis de Jesus (Fil 2,5-11), e caminhar com o povo que está nas margens,
criativamente ativo nos dinamismos culturais da ambigüidade, sincretismo, hibridez e
dupla pertença religiosa. Dentre as múltiplas faces da pobreza, a condição das pessoas

89
   CELAM. Rumo à V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe. Documento de Participação,
n. 64. São Paulo: Paulinas/ Paulus, 2005, p. 43.
90
   RAHNER, Hugo. Maria e la Chiesa. 2a. ed. Milão: Jaca Book, 1977, pp. 15-24.
91
   BOFF, Clodovis. Introdução à Mariologia. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 64.
92
   Nican Mopohua. História das Aparições da Virgem de Guadalupe, 1531. In SUESS, Paulo (coord.). A
Conquista Espiritual da América Espanhola: 200 documentos do século XVI. Petrópolis: Vozes, 1992, pp. 476-
485.

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pobres que têm sua pele negra é uma condição de maior inferiorização social. E o degrau
mais baixo é o da mulher pobre e negra. No Brasil se implantou uma falsa democracia
racial, que joga para o plano pessoal e privado os possíveis conflitos, de maneira que o
preconceito, não reconhecido na intimidade, constitui um tipo todo peculiar de racismo,
silencioso e diluído, oculto atrás de uma suposta garantia de universalidade e igualdade
de leis93. E Maria revela a face misericordiosa de Deus aparecendo à devoção dos pobres
em época de escravidão, através de uma imagem de mulher negra.
      Uma Igreja que defende e promove a vida tem que estar com as multidões de
catadores anônimos, que recolhem do lixo materiais recicláveis, e que vão se organizando
em cooperativas. Tem que ser parceira das organizações que lutam por relações de justiça
e igualdade, vencendo as opressões de classe, gênero, etnia, e geração. Tem que dar apoio
efetivo às pequenas organizações que, em rede, globalizam a solidariedade e a esperança.
Tem que se colocar junto dos movimentos sociais que lutam contra o represamento das
águas pelo latifúndio, e que defendem a preservação dos mananciais.
      Através de sua imagem retirada do fundo do rio, Maria de Aparecida anuncia que
nova vida surge das águas. Na Argentina, ela escolheu ficar às margens do rio Luján; em
Copacabana escolheu as margens do lago sagrado Titicaca; em Cuba deixou-se encontrar
nas águas do mar das Caraíbas; em El Salvador tornou-se Nossa Senhora da Paz, trazida
pelas águas do mar; sua pequena imagem de Caacupé salvou-se de uma inundação no
lago Ypacaraí; na Venezuela, ela apareceu ao cacique indígena Coromoto sobre as águas
do rio Guanaré.
      Ela é conduzida por mulheres e homens trabalhadores. É recolhida na rede dos
pescadores, levada por transportadores em carro de bois, encontrada por lenhadores,
trabalhadores de salinas, mercadores, lavradores. Seguindo seu exemplo, a Igreja dos
pobres tem como destinatários e sujeitos da evangelização homens e mulheres na luta
diária do seu trabalho. E em nosso continente, um terço da população tenta sobreviver no
trabalho informal.
      A opção preferencial pelos pobres, com suas ricas culturas e devoções, com sua
vocação para o trabalho digno94, é caminho para se alcançar um outro mundo possível,
com a garantia de integridade para todas as pessoas humanas, com uma sociedade justa e
fraterna e um planeta sadio. A recuperação da dignidade humana não se fará sem a
harmoniosa recomposição que cola a cabeça ao corpo, vence as opressões, harmoniza
razão e sentimento, estabelece relações igualitárias e fraternas, transforma a política,
instaura a cidadania.
      A Igreja da América Latina e Caribe é chamada a lançar sua rede de missão em
águas mais profundas, na espiritualidade do Reino de Deus. Muitos são os mártires que
tombaram por causa do seu testemunho de luta pela justiça, movidos por essa
espiritualidade. A Igreja Povo de Deus segue as romarias dos pequenos e humildes, aos
quais Deus revela os segredos do seu Reino (Mt 11,25).




93
   SCHWARCZ, Lilia Moritz. “Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na intimidade”. In
NOVAIS, Fernando A. (coord.). História da Vida Privada no Brasil. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras,
1998, pp. 175-244.
94
   É oportuno lembrar a encíclica do papa João Paulo II, Laboren Exercens, especialmente o n. 25.

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                                         S U M Á R I O


APRESENTAÇÃO ............................................................................................................. 3
INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 4
1. SEGUIR JESUS PELOS CAMINHOS DA AMÉRICA LATINA RUMO A
APARECIDA .................................................................................................................... 6
     1.1. Discípulos e missionários de Jesus segundo Lucas ............................................ 6
     1.2. Discípulos e missionários de Jesus segundo Mateus ......................................... 7
     1.3. Discípulos e missionários de Jesus segundo Marcos ......................................... 8
     1.4. Discípulos e missionários de Jesus segundo João ........................................... 10
2. POVO DE DEUS COM JESUS LIBERTADOR RUMO A APARECIDA .......................... 12
3. O PRESBÍTERO NAS CONFERÊNCIAS GERAIS DO EPISCOPADO LATINO-
AMERICANO .................................................................................................................. 21
     3.1. Concílio plenário Latino-americano - Roma, 28 de maio a 9 dejulho de
     1899 ....................................................................................................................... 21
     3.2. I Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano - Rio de Janeiro,
     25 de julho a 04 de agosto de 1955 ........................................................................ 24
     3.3. II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano - Medellín, 26
     de agosto a 06 de setembro de 1968 ...................................................................... 26
     3.4. III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano - Puebla, 27 de
     janeiro a 13 de fevereiro de 1979............................................................................. 31
     3.5. IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano - Santo
     Domingo, 12 a 28 de outubro de 1992 .................................................................... 35
     3.6. V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano - Aparecida, 13
     a 31 de maio de 2007 ............................................................................................. 36
ANEXO I - MANIFESTO DO POVO DE DEUS................................................................ 46
ANEXO II - MARIA DE APARECIDA: ROSTO DOS POVOS DA AMÉRICA
LATINA E DO CARIBE .............................................................................................. 48




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            C R I T É R I O S                             D E
     P A R T I C I P A Ç Ã O                              D O         1 2 º
                     E N P

      1. Os delegados eleitos democraticamente pelo presbitério diocesano, preenchidos
os critérios abaixo, são os legítimos participantes do 12º ENP.
      2. Devido às dificuldades que temos encontrado para acomodar bem um número
maior de presbíteros na casa de Itaici, a Comissão Nacional de Presbíteros decidiu o
número de participantes pelos seguintes critérios:
      a) Dioceses com até 20 padres: 01 delegado,
      b) Dioceses de 21 a 100 padres: 02 delegados,
      c) Dioceses de 101 a 200 padres: 03 delegados,
      d) Dioceses de 201 a 300 padres: 04 delegados,
      e) Dioceses de 301 a 400 padres: 05 delegados,
      f) Dioceses de 401 a 500 padres: 06 delegados,
      g) Dioceses de 501 a 600 padres: 07 delegados.
      3. Não serão aceitos os presbíteros indicados apenas pelo bispo ou pelo Conselho
Presbiteral.
      4. Os delegados diocesanos deverão ter participado do Encontro Regional de
Presbíteros.
      5. O presbitério escolherá um suplente para cada delegado diocesano, que também
fará a inscrição, a fim de substituir, eventualmente, os impedidos de participar, por
motivos vários. (O suplente só participará se o delegado não puder comparecer).
      6. Somente serão aceitas as inscrições dos delegados e suplentes cuja ficha de
inscrição tiver a assinatura do Presidente da Comissão Regional de Presbítero (CRP), que
se torna o responsável pelos delegados do seu regional.
      7. O tempo limite para as inscrições ao 12º ENP será 30 de novembro de 2007.
      8. Os delegados inscritos e confirmados para o 12º ENP devem estar preparados
para debater o tema tratado no presente “Texto-base”.
      9. Esperamos que as Dioceses e Regionais levem a sério estes critérios. Com isso,
evitaremos confusões e dissabores de última hora, quando poderão ficar impedidos de
participar delegados não devidamente credenciados para o 12º ENP.
      10. Pedimos que informem o povo de Deus a respeito do Encontro, promovendo nas
comunidades e Dioceses orações pelo bom êxito deste momento.




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