Universidade Federal da Bahia by rtflUIVu

VIEWS: 24 PAGES: 15

									Universidade Federal da Bahia
FFHC-761 Bahia Contemporânea: Cultura e Poder
Aluno especial: André Teixeira Jacobina.
Professor: Antonio Guerreiro.


Ensaio: A Bahia voltada para o Passado.



Introdução


A idéia para esse ensaio, que é uma reflexão sobre a política baiana e os
contrastes entre a figura histórica de Rômulo Almeida para com a tradição
oligárquica da Bahia, surgiu, especialmente por ocasião da leitura do livro
“Rômulo: Voltado para o Futuro” que é um conjunto de entrevistas a Rômulo
Almeida organizadas e conduzidas por Joviniano Neto além de outros
pesquisadores do grupo de trabalho da associação dos sociólogos do Estado da
Bahia a ASED.


A reflexão passa pelas          dificuldades que enfrentou quando assessor do
governador    Antonio   Balbino     na      década   de     50,   posteriormente    em
empreendimentos     inclusive    privados    como    a    CLAN,   assim   como     suas
perspectivas em relação economia do Nordeste e da Bahia. Essas perspectivas
que trabalhavam tanto com o desenvolvimento da industria, do comercio, assim
como a socialização dos resultados dessa produção para o atendimento das
necessidades básicas e diminuição das desigualdades.


Refletimos também sobre o dito “enigma baiano” relativo ao atraso e perda de
importância da Bahia no cenário primeiro econômico, e progressivamente político,
especialmente a partir de meados do século XIX. A Bahia como Rômulo disse do
“Já Teve”, ou como Israel Pinheiro destaca com a sua “...fixação do passado
como referencia recorrente no presente”1. O orgulho, a soberba que está por trás
da construção da idéia que haveria um enigma em por que a Bahia ficou atrasada
em relação ao Centro Sul do Brasil.


Existe a necessidade de explicar o título. Provocativo, o titulo é uma referencia ao
contraste que existe entre Rômulo Almeida que foi um exemplo de homem voltado
para o futuro, com compromisso ético e o serviço público, e com causas coletivas,
e democráticas, e a Bahia, ai escrevo mais especificamente das elites tradicionais
da política baiana, essas que estiveram em geral ao lado do poder, fazendo
referência a partir de meados do séc XIX aos seus tempos de gloria no passado, a
fim de garantir os privilégios da ordem privada, da qual fazem parte. Isso não
significa um decreto relativo a toda história baiana, como Israel Pinheiro destaca,
no texto já mencionado a Bahia esteve na vanguarda de movimentos e revoltas
como Sabinada, e o movimento pelo federalismo mesmo no inicio do séc XIX. Em
meados do mesmo século estagnação econômica, perda de destaque no cenário
nacional (que já vinha em curso no século XVIII com a transferência da capital e
foi acentuado) levam a partir de meados do séc XIX a hegemonia das forças
conservadoras, não por motivos ideológicos ou de projeto político, mas
conservadoras do poder privado, esse legitimado pelo Estado. Logo “A Bahia
voltada para o passado” não é uma atitude atemporal, mas ela tem um momento
que se inicia e passa por transformações e desgastes. A vanguarda em outros
tempos, em movimentos, demonstra que não existe uma vocação baiana para o
atraso, mas que circunstancias, escolhas e ações, pavimentaram o caminho da
Bahia tanto para o atraso econômico, bem como para hegemonia política das
oligarquias rurais.


Trabalho no presente construção para o futuro


Rômulo Almeida foi um baiano singular. Para isso não são necessários muitos
argumentos o trabalho de referencia já citado fundamenta tal afirmação

1
    Israel de Oliveira Pinheiro, A política na Bahia: Atraso e Personalismos, p.57
suficientemente além de dar conta de sua trajetória pessoal. Resta então lembrar
mesmo que rapidamente que Rômulo foi um dos principais assessores de Vargas
em seu segundo e ultimo mandato na década de 50, criou o CPE (comissão de
Planejamento Econômico) esteve ligado a SUDENE, foi um dos primeiros
representantes brasileiros a fóruns de integração econômica latino Americana
como a conferencia da CEPAL. Esteve ligado ao projeto da Petrobrás, foi
presidente do Banco do Nordeste, criou sistema de planejamento e muitas outras
iniciativas pioneiras na área de planejamento econômico.


Rômulo enfrentou varias disputas políticas não somente pessoais, embora tenha
sido deputado, candidato a senador, e a outros cargos políticos, mas também
disputas de projetos políticos. Uma dessas considero de fundamental importância,
e que significou não apenas uma derrota de Rômulo, ou dos desenvolvimentistas,
mas em minha avaliação uma derrota do Brasil, frente a interesses privados.
Escrevo sobre os projetos de transportes coletivos, e de materiais, especialmente
as ferrovias. Entendidas por Rômulo como fundamentais, para conectar o interior,
e áreas produtivas, aos grandes centros, e por terem menores custos, e menos
poluidoras2, do que o transporte rodoviário e por isso seriam preferíveis. Além de
serem mais eficientes para transporte de grandes cargas. Vargas que comungava
dessa visão teve iniciativas nesse sentido, porém a pressão da industria
automobilística, a concepção que “governar é fazer estradas”, acabaram
prevalecendo, e o investimento acabou por se concentrar nesse tipo de transporte.
O que acabou resultando na ausencia de uma rede nacional de transporte
ferroviário, e num relativo abandono pelos transportes coletivos. É importante
destacar que não se trata de uma questão mutuamente excludente, a idéia é que
transportes ferroviários fossem complementares, e complementados pelo
transporte rodoviário. A opção por região, relativa a função, obedeceria as
necessidades do local, e para isso o planejamento e o estudo da economia das
regiões era tão vital. Os objetivos eram de maior eficiência, comunicação, e
diminuição de custos, combinando as diversas formas de transporte, obedecendo

2
    Rômulo já demonstrava preocupação ecológica o que comenta não estava na moda na década de 50.
a um planejamento a fim de promover o desenvolvimento das regiões. Porém
interesses políticos privados, cedendo a pressão industria automobilística, como
Rômulo aponta, acabaram “vitoriosos”.


Rômulo se mostrava antenado ao que melhor se produzia em termos de teoria
econômica, tal como a Bahia no inicio do séc XIX estava antenada ao federalismo
republicano que era parte do que havia de mais avançado para a época nos EUA
e Europa. Mas a partir de meados do séc XIX a Bahia perde essa característica
para se tornar tanto atrasada economicamente e politicamente, quanto sua elite
vira parasitaria do Estado dos cargos públicos, e do poder conferido a suas
lideranças locais. Postura que vai atravessar o séc XX. Já Rômulo acaba por
desenvolver uma perspectiva, influenciado não apenas por suas leituras e
estudos, mas pela prática em diversas funções que assumiu, que consideramos
por demais interessante para deixar de comentar. A perspectiva econômica
entendia que se deveria procurar compatibilizar desenvolvimento técnico
tecnológico, econômico, livre comercio e trocas, com planejamento e ação estatal,
no sentido de promover esse desenvolvimento, e simultaneamente promover
inserção   social,   atendimento   das   necessidades    básicas,   diminuir   as
desigualdades, e que a Bahia deveria conquistar espaço no cenário nacional ao
mesmo tem que realizar uma contribuição para o desenvolvimento do país.


Tal concepção combinava aquilo que Rômulo entendia como dinâmico do
capitalismo para geração de riquezas, o “livre comercio”, ao mesmo tempo em que
esse poderia ser promovido, e conduzido para atingir macro objetivos tanto de
desenvolvimento econômico, quanto atendimento das necessidades básicas,
diminuição das desigualdades socioeconômicas. Foge, portanto a perspectiva
clássica de controle da economia, um controle completo da produção, como a
perspectiva do socialismo real, inclusive por que aceita a colaboração de
empresas e iniciativa privada, mas simultaneamente rejeita a autonomia da
economia como espaço que o Estado deve abrir caminho para iniciativa privada, e
simplesmente fazer cumprir as leis, agindo em outras áreas como educação,
segurança, que é uma perspectiva mais liberal. O socialismo para Rômulo estava
a idéia de distribuição da riqueza, para diminuir a exclusão. Inclusive em tempos
de guerra Fria, ele rejeita não somente as teses econômicas do socialismo real,
como as teses políticas ao consolidar uma perspectiva democrática em relação ao
exercício do poder.


Tudo isso encontra um flagrante contraste na Bahia depois de sua perda de
relevância em termos econômicos, e diminuição de sua importância política
(embora essa tenha mais longa duração). Primeiro que como Israel Pinheiro
aponta com o controle das oligarquias rurais a preocupação que resta é a
manutenção dos privilégios e do poder local. Segundo que uma dinamização da
economia significaria competição o que ameaça a hegemonia dessa elite, e
Rômulo alerta para que essa preferia o ganho certo, mesmo que fosse pouco.
Competição significaria ricos, que essa oligarquia não estava disposta a correr. No
entanto iniciativas como o Pólo Petroquímico de Camaçari, foram implantadas, e
houve uma política de planejamento. Como explicar? É importante lembrar que os
projetos de Rômulo Almeida eram muito mais ambiciosos sobre isso e o Poló
Rômulo diz:


“Foi realmente uma coisa importantíssima para o Estado. Agora se vocês me
perguntarem: Assim resolveu os problemas do Estado? É o ideal? Não, isso não,
nós tínhamos sugerido uma serie de políticas para internalizar os efeitos do Pólo e
essas políticas não foram adotadas”.3


Devemos lembrar que além de não serem adotadas as medidas que iriam reverter
os efeitos do Pólo em maiores benefícios para o Estado, e para os baianos, muitos
projetos de Rômulo tendiam a ser diminuídos pela falta de ambição. Um exemplo
disso é a ambição da criação de centros tecnológicos, assim como do que ele
chamou de “... reservar mercado nacional para atividades econômicas



3
    Rômulo Almeida, Rômulo: Voltado para o Futuro, p.163.
competitivas no Nordeste”.4 Nisso se diferencia de uma perspectiva comum a
esquerda da época que defendia atividades de mais baixo capital, porém seriam
mais “empregadoras”. Isso Rômulo percebeu que não funcionaria, pois sem a
competitividade, essas atividades não se sustentariam frente a produção do centro
sul especialmente de São Paulo no que se refere a industria leve. Assim tais
atividades sejam elas industriais ou de                      agropecuárias, precisavam    ser
competitivas e complementares. Competitivas por que sem isso não iriam se
sustentar e o sendo poderiam se expandir, pagar melhores salários, e iriam acabar
empregando mais ou de forma mais eficiente, complementares, pois vendo o
papel da Bahia ou do Nordeste em relação ao Brasil, a complementaridade seria
um instrumento de desenvolvimento nacional, se investindo e priorizando mais nos
em setores diferentes daqueles já bem desenvolvidos em outra região. Isso é o
que alias para Rômulo justifica o Pólo Petroquímico de Camaçari, e a instalação
de industria pesada na Bahia já que competir com a industria leve de São Paulo
seria inviável. A complementaridade já citada está mais relativa a agroindústria ou
atividade agropecuária, já que a Bahia têm terras e gado, é uma questão de
explorar esses recursos adequadamente, de maneira a complementar a produção
nacional. Porém essa lógica com adaptações atravessa os parâmetros
(competitividade          e     complementaridade)          estipulados   nos   planejamentos
desenvolvidos por Rômulo Almeida não limitados, portanto a uma avaliação do
que era necessário ao desenvolvimento da Bahia.


Outra característica de Rômulo que contrastam em grande medida com as elites
tradicionais baianas é o seu compromisso ético, convicções democráticas e
políticas. Não apenas seu compromisso ético com o serviço público ao ter aberto
mão de riqueza pessoal para contribuir com o país, mas por agir de acordo com
seus princípios e ter tido que muitas vezes que pagar o preço e no caso que
vamos citar não sozinho. Poderíamos buscar exemplos do inicio de sua trajetória,
ou de meados dela, mas nos aproximamos no tempo para o período do regime



4
    Rômulo Almeida, Rômulo: Voltado para o Futuro, p.181.
militar por que esse período e esse exemplo acabam melhor definindo os
contrastes.


Importante dizer que Rômulo, como ademais praticamente todo político, negocia,
junta forças, cede em momentos, para pelo menos realizar parte do que planeja.
Logo a ética não é como uma mordaça que impede a negociação, ela serve para
estabelecer os limites, dizer o ponto para o qual não se pode atravessar, mesmo
que a lei permita, a consciência evita. Rômulo volta ao Brasil em 66, e se inscreve
no MDB partido que seria “oposição” no regime do bipartidarismo5 estabelecido
pela ditadura militar. São oferecidos a ele cargos, na Sudene, no Ministério da
Industria e Comercio, e por convicção democrática, e sendo contrario ao regime
não aceita, atuando politicamente no MDB e na vida privada na empresa de
consultoria criada por ele e amigos a CLAN. No mesmo período em 66 houve a
eleição para senador e Vieira de Melo6 foi candidato pelo MDB e pela Arena foi
candidato Aloísio de Carvalho Filho, amigo pessoal de Rômulo de longa data,
muito mais próximo pessoalmente e ex-professor de Rômulo. Apesar disso,
Rômulo foi suplente de Vieira de Melo e fez campanha para ele devido as
convicções políticas que era preciso fortalecer a oposição ao regime. Já temos
diferenças fundamentais com a elite tradicional, essa por característica é
governista, e se adaptou sem problemas ao novo regime e ao apoio a Arena,
sendo que na Bahia nas “... eleições de 1970, dos 336 municípios da Bahia, a
Arena estava organizada em todos, o MDB em 150.”7 Além disso, a elite
tradicional valorizava muito mais ligações pessoais do que convicções políticas,
logo o apoio de Rômulo a Vieira, além desse não ser do partido do governo, o seu
adversário era amigo de Rômulo, para um membro dessa elite tradicional essa é a
completa inversão dos valores, que para esses faziam sentido.


No período de Balbino enquanto governador Rômulo como seu assessor já havia
entrado em atrito com ACM quando por ocasião de uma manifestação de

5
  Que durou até 1979 quando voltou o pluripartidarismo no governo de Figueiredo.
6
  Rômulo Almeida, Rômulo: Voltado para o Futuro, p.170
7
  Israel de Oliveira Pinheiro, A política na Bahia: Atraso e Personalismos, p.72.
estudantes Rômulo orientou Balbino a não colocar força policial contra os
estudantes, idéia defendida por ACM, segundo relato de Rômulo, e Balbino
preferiu ouvir seu assessor invés daquele que na época era um político em
ascensão na UDN no caso ACM. Isso combinado com o que já foi relatado,
somando-se ao fato de ACM ter ido para ARENA, e a oposição de Rômulo no
MDB, fez deles inimigos políticos. Quando ACM volta ao governo de Estado em
1979 leva esse, segundo Rômulo a perseguir a CLAN que fazia consultoria técnica
ao Estado. Em suas palavras depois de ser perguntado sobre o assunto por um
dos membros da ASED:


“O que posso dizer é que ele tentou destruir, não conseguiu, mas conseguiu
desativa-la. Foram grandes os prejuízos, administramos a crise, passamos dois
anos e meio em “Déficit” , concluindo obrigações contratadas, liquidando ativos. O
pior prejuízo creio foi para o Estado, pois sempre servimos com criatividade e
entusiasmo independente de divergências pessoais”. 8


Pois foi exatamente uma desavença pessoal com Rômulo que ACM levou para
esfera pública, cancelando contratos ganhos tecnicamente pela CLAN, além de
ameaçar de sanções: “... o pior é que ele transmitiu direta ou indiretamente aos
nossos associados no projeto de Expansão Urbana, da Nova Dias D’Ávila, no
projeto DETEN e no projeto POLITENO, que o governo adotaria sanções se nos
continuássemos como associados. Trancou também a PROPAR para dar apoio a
projetos que nos tínhamos desenvolvido, projetos, inclusive de maior importância
para a Bahia.”9          O uso patrimonialista do Estado, a confusão entre público e
privado, o recuso ao clientelismo punido de forma vingativa, dispensam maiores
comentários. Por isso quando se fala que ACM esteve envolvido na
modernização, é importante o adendo, desde que funcione para aumentar seu
poder pessoal, e que ele pudesse realizar essa modernização para beneficio
daqueles ligados a ele. Não é por convicção política ou “ideológica” mas sim


8
    Rômulo Almeida, Rômulo: Voltado para o Futuro, p.173.
9
    Rômulo Almeida, Rômulo: Voltado para o Futuro, p.174.
porque esse era o contexto, e como membro dessa elite tradicional e pertencente
a esse estilo de se fazer política, tinha que se aproveitar do contexto político,
como todo bom governista, para recursos públicos, esses sendo geridos a sua
maneira, na troca de favores e privilégios que é característica. ACM sem duvida
compreendeu bem como fazer a política na Bahia dos lideres do interior funcionar
para acumulação de prestigio.


Para concluir esse tópico entendo ser importante expressar que se fica clara a
admiração pela figura de Rômulo Almeida, isso não apaga seus erros ou
discordâncias que podemos ter com ele. Na juventude chegou a ser atraído pelo
integralismo,   devido   fundamentalmente   ao   nacionalismo    existente   nessa
tendência, nacionalismo que Rômulo compartilhava e que não era comum nas
esquerdas que falavam do internacionalismo, não é por acaso que era a
Internacional comunista uma das principais organizações da esquerda. Porém tais
equívocos não duraram, por sua vertente democrática, qualquer tendência que se
aproximasse do fascismo, ele afastou, embora tenha mantido vivo o nacionalismo
esse passou a estar associado a idéias democráticas. Não nos focamos nesses
aspectos, ou nas poucas divergências com Rômulo porque não é o objetivo do
ensaio, vale a menção apenas para demonstrar que a admiração pela figura
histórica não impede uma avaliação crítica de suas idéias, e ações.


Desmistificando o “Enigma Baiano”


As razões pelas quais a Bahia perdeu importância econômica no nível nacional, e
progressivamente força política, embora essa tenha se mantido por muito mais
tempo, não são tão difíceis, nem muito menos enigmáticas de se apontar. Citando
Pinto de Aguiar, que nos lembra vários daqueles que se debruçaram sobre a
questão do atraso da Bahia, são vários os fatores complementares que podem ser
destacados e nos ajudam a compreender.
“No quadro da causalidade, por exemplo, Thales de Azevedo sugeriu a influencia
materna na constituição das famílias irregulares de nossa sociedade, Rômulo
Almeida lembrou o escasso espírito empresário-industrial de homens que visavam
apenas elevados lucros nas atividades mercantis, Mario Barbosa apontou a alta
rentabilidade e adequação de nossas lavouras à exportação como um elemento
contrapolarizador da industria, Braz de Amaral salientou a sangria de braços da
Guerra do Paraguai, Clemente Mariane apontou pequena capacidade de absorção
das poupanças quando elas existiam entre nós. Inúmeras outras causas
concorrentes         tem     sido    apontadas       para    o   nosso   reduzido   crescimento,
condicionante do nosso atraso industrial: Causas institucionais, credito escasso,
técnica atrasada, instrução reduzida, pouco espírito de iniciativa, formação
excessivamente jurídico-literaria, etc; causas econômicas, como ruína, - pela
concorrência do açúcar de beterraba e pelo avanço técnico das usinas antilhanas,
- de nossa industria básica: o açúcar, a escassez de certos recursos ; tais como
carvão, o ferro e mesmo petróleo, o pequeno poder aquisitivo do mercado local, a
má orientação de certas linhas de transporte, em traçado ou capacidade, etc. E
esta enumeração é exemplificativa.”10


Podemos ainda acrescentar o que Manuel Pinto de Aguiar faz, mais a frente na
mesma entrevista e Rômulo Almeida faz no trabalho já citado acerca do papel do
café.


“Bem, o processo histórico fez com que o Nordeste fosse marginalizado; porque o
Nordeste não teve possibilidade de desenvolver a industrialização, a não ser muito
moderadamente em Pernambuco. A industrialização brasileira foi o resultado do
café. Tanto pela formação do capital como pela atração da mão-de-obra e, pela
criação de um mercado pois o café é muito empregador direta ou indiretamente. E,
como o Nordeste não teve chance nos seus produtos de exportação, o açúcar e o
fumo caíram em importância, os outros produtos caíram ainda mais, o algodão é
uma coisa muito pequena, então o Nordeste nesse tempo foi ficando cada vez

10
     Manuel Pinto de Aguiar, Notas sobre o “Enigma Baiano”, p.125.
mais dependente do Sul. Essa é uma visão minha. E uma visão de alguns
analistas, não poderia , não poderia dizer que fosse uma visão geral.”11


Tenho algumas discordâncias em relação ao que Rômulo depõe nesse momento.
Mas antes disso nós devemos lembrar que a proximidade do Centro Sul a partir do
séc XVIII do centro político é outro fator, e que os desequilíbrios entre Nordeste e
Centro sul estão ligados como já foi citado a incapacidade de competição com a
industria leve. A discordância se refere não ao papel do café, que concordamos foi
relevante para atração de mão de obra para região, outros estudos atestam isso, e
acumulação de capital. A discordância se refere ao trecho que ele diz que o
Nordeste não teve possibilidade de industrialização.O café e o contexto impõem
dificuldades, as razões já citadas do empobrecimento, da concorrência do açúcar
das Antilhas, do fato do refinamento do açúcar e sua distribuição por boa parte da
história dessa produção, não ter sido feita aqui, mas na Holanda, tudo isso
somado as outras razões impõe dificuldades, um contexto desfavorável, porém as
elites ao não investirem em aprimoramento técnico, em alternativas, essas que
controlavam tanto o poder político quanto o econômico, são também
responsáveis. Sua postura de se buscar o controle do Estado, a ocupação dos
cargos públicos, e ter como prioridade a manutenção do seu poder e hegemonia,
garantindo o ganho certo sem uma constante preocupação em se adequar aos
novos tempos, mas invés dessa preocupação com o futuro, o grande objetivo era
a manutenção do poder e hegemonia que já tinham, como do chefe do interior,
que desenvolve sua ação para se manter no poder, na liderança daquele território.


Possibilidades haviam não somente nos anos 50 quando o próprio Rômulo
acreditava, mas antes disso. Podemos avaliar, sim, que a conjuntura do final do
séc XIX e inicio do séc XX era menos propensa, e a partir de meados do séc XX a
perspectiva desenvolvimentista fornece circunstancias mais favoráveis. Mas o
inexorável e inescapável raramente faz sentido na história humana produto



11
     Rômulo Almeida, Rômulo: Voltado para o Futuro, p.78.
simultaneamente de escolhas dos indivíduos, e das condições em que esses
estão envolvidos.


Assim sendo surge a pergunta o que leva a criação do mito do Enigma Baiano?
Esse que significa traduzindo: as razões pelas quais a Bahia se tornou atrasada
seriam desconhecidas, algo ainda fora do alcance da nossa compreensão, algo
ainda a ser desvendado, o atraso que causa surpresa, inesperado e ilógico. Não
existe nada de ilógico no atraso, podemos divergir em relação a qual o fator
predominante, mas podemos elencar suficientemente uma lista de fatores capazes
de convencer os mais céticos que não existe surpresa, dado o processo histórico
transcorrido, que a Bahia fosse progressivamente perdendo força.


Sobre essa mitificação Nelson de Oliveira já aponta:


“Desde finais do século XIX, ao invés de um confronto com sua decadência
socioestrutural, a Bahia viu-se envolvida numa serie de mitificações que passaram
a ocupar o lugar de fontes e a servir de justificativas para uma possível percepção
acerca do que vinha se processando no seu interior.”12


As razoes do mito acabam por simplificar a compreensão de sua função. Como
Nelson de Oliveira indica a estagnação, era mais do que uma ameaça era um
dado concreto13 do qual não se podia fugir ou esconder. Mas as elites provaram
que poderia ser mitificado. Admitiam o atraso, mas como foram elas que estiveram
no poder de uma estrutura autoritária por todo o período em que esse atraso se
desenvolveu, o tratavam como um mistério, do qual não tinham qualquer
responsabilidade. A responsabilidade recair sobre os mais pobres e trabalhadores
era difícil, devido a opaca participação democrática, tão valorizada por Rômulo,
tão escassa na história do Brasil, e na Bahia agravada pelo autoritarismo, fraudes
eleitorais       como     nos     relata    Rômulo,      e    tradições     clientelistas.     Para   se


12
     Nelson de Oliveira, Sob o manto da Concórdia: Bahia como contrafação do moderno, p.11.
13
     Nelson de Oliveira, Sob o manto da Concórdia: Bahia como contrafação do moderno, p. 11.
responsabilizar os trabalhadores, os mais pobres, somente se recorrendo a um
outro mito da preguiça do baiano, da sua aversão ao trabalho como uma
singularidade local. Já desmistificada por outros trabalhos e como não é objeto de
nossa reflexão não faremos mais considerações sobre esse outro mito.


Voltando ao mito do “Enigma baiano” vejamos o que Nelson de Oliveira expressa
sobre esse:


“O ‘enigma baiano’ foi assim o primeiro dentre os mitos que viriam povoar a
imaginação cujo afã de explicar o que parecia fora de qualquer explicação lógica,
abrira caminhos para que uma relação se estabelecesse por aqui, mais do que em
qualquer outro espaço regional, entre o mítico-transcendente e o real. O primeiro
fomentando o segundo, numa relação de dependência que fugia qualquer
preocupação de coerência lógica, num fomento apologético proposital do
irracional, como se isto aqui não se explicasse mesmo. Certamente, uma postura
cômoda para quem aposta que o mais importante é caminhar, ainda que esse
caminhar nem sempre seja possível em determinadas circunstancias, pelo menos
para a grande maioria dos pretensos caminhantes. Cômoda, não só por isto, mas
por outras razoes, sobretudo as velhas e carcomidas classes dominantes, uma
vez que,          não     havendo      explicações,      desapareceriam         também        quaisquer
motivações         para     mudanças        profundas      no    modo      de    ser    histórico,   ou
deslocamentos definitivos nas relações internas entre as classes.”14


Então fica clara a razão e a função.A razão para o mito é o dado objetivo do
atraso, e ao mesmo tempo a necessidade de explicitar sua inexplicabilidade,
explica-lo seria além de depositar uma parte considerável da responsabilidade por
esse atraso nas elites tradicionais, iria criar o imperativo por mudanças estruturais
na política e economia, mudanças essas que eram temidas, por uma elite que não
desejava ameaças ao seu poder. Essa não foi capaz de evitar todas
transformações que nos anos 60 e 70 como Israel Pinheiro aponta essas “Elites,

14
     Nelson de Oliveira, Sob o manto da Concórdia: Bahia como contrafação do moderno, p.12.
definidas não mais necessariamente pelo brasão familiar, pela tradição do nome
mas pelo poder econômico por alguma forma de poder exercido sobre os demais
da comunidade.”15 Isso não significa uma mudança significativa até porque a
tradição do nome é algo que ainda ajuda, porém deixa de ser determinante, e se o
perfil da liderança local passa por essa alteração, a sua forma de fazer política, e
se adequar ao jogo de troca de favores, se mantêm pouco alterada.


Conclusão


O atraso econômico da Bahia é resultado como fica claro de uma serie de
circunstancias, combinadas com escolhas nas quais se as elites tradicionais não
são as únicas responsáveis certamente sua responsabilidade é relevante. O estar
“Voltada para o passado” está presente em três dos trabalhos citados quais sejam
o de Israel Pinheiro, Nelson de Oliveira, e nas entrevistas concedidas por Rômulo
Almeida a ASED. Essa postura esteve ligada a uma mitificação do atraso que um
exame demonstra quais eram as razões políticas e a função que tais mitificações
exerciam em uma elite tradicional cujo prestigio e a soberba do seu poder pessoal,
necessitavam de uma cortina de fumaça sobre tanto os motivos para o atraso
como a conclusão das transformações que seriam necessárias para supera-lo,
mudanças essas que a elite temia, pois com essas mudanças sua hegemonia
política não estaria mais garantida.


É importante lembrar que as generalizações referidas são sempre do predomínio e
não da totalidade, e a Bahia pela sua extensão e dinâmicas diferentes por região,
impede uma caracterização absoluta. Porém a percepção do que predomina até
por dados eleitorais, pela forma como se constrói o poder das lideranças pode ser
percebido mesmo na heterogeneidade existente.


Uma vez chegando a essas conclusões resta a pergunta: O que fazer diante
disso? Reconhecer razões do atraso compreende-las é o primeiro passo, trabalhar

15
     Israel de Oliveira Pinheiro, A política na Bahia: Atraso e Personalismos, p.74.
no sentido da superação dessas, o segundo passo mais difícil e espinhoso que
exige transformações. Para trilhar o caminho de superação do atraso, do
autoritarismo político, realizando as transformações no fazer política, ampliando a
participação democrática e lembrando de Rômulo Almeida na ambição de
dinamizar a economia, sem se esquecer do compromisso ético, de fazer os
resultados desse desenvolvimento serem revertidos em benefícios para todos os
baianos, especialmente aqueles mais enfraquecidos pelo atraso, e que mais
necessitam de ajuda, não a ajuda do cabide do cargo publico (que é para poucos
e deveria ser assumido obedecendo a critérios de competência técnica e
compromisso com serviço e não por conveniência política), mas a ajuda para
poder trabalhar e produzir, seja na terra, em serviços, na industria ou em outro
setor, o compromisso é pela igualdade de oportunidades, e o atendimento das
necessidades básicas de todos baianos, e como indicaria o nacionalismo de
Rômulo para todos os brasileiros. O humanismo nosso pode ampliar tais anseios
para toda a humanidade mesmo que pareçam distantes pois como Rômulo nos
alertava que a descrença na possibilidade de desenvolver é a primeira inimiga que
precisa ser desfeita, e desmistificada.


Referências Bibliográficas


Oliveira, Nelson de, Sob o manto da Concórdia: Bahia como contrafação do
moderno, Salvador, Comissão justiça e Paz, 2000.p.11-29.

Pinheiro, Israel de Oliveira, A política na Bahia: Atraso e personalismos,
Ideação, Feira de Santana, n.4,1999. p.49-78. Disponível em:
http://www.uefs.br/nef/israel4.pdf (Ultima consulta feita 29/03/2007)

Pinto de Aguiar, Manoel.Notas sobre o “Enigma baiano”.Salvador, v.5,
n.4,1977.p.123-135.

Almeida, Rômulo. Rômulo: Voltado para o futuro.Fortaleza, BNB, 1986,
p.242.(Entrevistas concedidas ao grupo de trabalho da ASED).

								
To top