COL�GIO INEDI � Instituto Educacional Integrado Cachoeirinha by 38ms6w

VIEWS: 1 PAGES: 3

									                COLÉGIO INEDI – Instituto Educacional Integrado Cachoeirinha – RS
                Ano: 2009        Turma: 301        Professora: Alexandra Oliveira



                                    RUGENDAS, Johann Moritz. Negros no fundo do porão. 1840.



                                                    Neste saara os corcéis o pó levantam,
           Navio Negreiro                           Galopam, voam, mas não deixam traço.
            Castro Alves                                                                                         Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
                                                    Bem feliz quem ali pode nest'hora                            Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
 I                                                  Sentir deste painel a majestade!                             Sacode as penas, Leviathan do espaço,
                                                    Embaixo — o mar em cima — o firmamento...                    Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço             E no mar e no céu — a imensidade!
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam                Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!                          II
Como turba de infantes inquieta.                    Que música suave ao longe soa!
                                                    Meu Deus! como é sublime um canto ardente
'Stamos em pleno mar... Do firmamento               Pelas vagas sem fim boiando à toa!                           Que importa do nauta o berço,
Os astros saltam como espumas de ouro...                                                                         Donde é filho, qual seu lar?
O mar em troca acende as ardentias,                 Homens do mar! ó rudes marinheiros,                          Ama a cadência do verso
— Constelações do líquido tesouro...                Tostados pelo sol dos quatro mundos!                         Que lhe ensina o velho mar!
                                                    Crianças que a procela acalentara                            Cantai! que a morte é divina!
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos              No berço destes pélagos profundos!                           Resvala o brigue à bolina
Ali se estreitam num abraço insano,                                                                              Como golfinho veloz.
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...              Esperai! esperai! deixai que eu beba                         Presa ao mastro da mezena
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...            Esta selvagem, livre poesia                                  Saudosa bandeira acena
                                                    Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,                     As vagas que deixa após.
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas          E o vento, que nas cordas assobia...
Ao quente arfar das virações marinhas,              ..........................................................   Do Espanhol as cantilenas
Veleiro brigue corre à flor dos mares,                                                                           Requebradas de langor,
Como roçam na vaga as andorinhas...                 Por que foges assim, barco ligeiro?                          Lembram as moças morenas,
                                                    Por que foges do pávido poeta?                               As andaluzas em flor!
Donde vem? onde vai? Das naus errantes              Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira                     Da Itália o filho indolente
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?          Que semelha no mar — doudo cometa!                           Canta Veneza dormente,
                                                                                                                 — Terra de amor e traição,
                                                                                                                                                            1
Ou do golfo no regaço                            Que horror!                                  Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
Relembra os versos de Tasso,                                                                  "Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Junto às lavas do vulcão!                                                                     Fazei-os mais dançar!..."
                                                     IV
O Inglês — marinheiro frio,                                                                   E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
Que ao nascer no mar se achou,                                                                E da ronda fantástica a serpente
(Porque a Inglaterra é um navio,                 Era um sonho dantesco... o tombadilho               Faz doudas espirais...
Que Deus na Mancha ancorou),                     Que das luzernas avermelha o brilho.         Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Rijo entoa pátrias glórias,                      Em sangue a se banhar.                       Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
Lembrando, orgulhoso, histórias                  Tinir de ferros... estalar de açoite...             E ri-se Satanás!...
De Nelson e de Aboukir.. .                       Legiões de homens negros como a noite,
O Francês — predestinado —                       Horrendos a dançar...
Canta os louros do passado                                                                       V
E os loureiros do porvir!                        Negras mulheres, suspendendo às tetas
                                                 Magras crianças, cujas bocas pretas
Os marinheiros Helenos,                          Rega o sangue das mães:                      Senhor Deus dos desgraçados!
Que a vaga jônia criou,                          Outras moças, mas nuas e espantadas,         Dizei-me vós, Senhor Deus!
Belos piratas morenos                            No turbilhão de espectros arrastadas,        Se é loucura... se é verdade
Do mar que Ulisses cortou,                       Em ânsia e mágoa vãs!                        Tanto horror perante os céus?!
Homens que Fídias talhara,                                                                    Ó mar, por que não apagas
Vão cantando em noite clara                      E ri-se a orquestra irônica, estridente...   Co'a esponja de tuas vagas
Versos que Homero gemeu ...                      E da ronda fantástica a serpente             De teu manto este borrão?...
Nautas de todas as plagas,                       Faz doudas espirais ...                      Astros! noites! tempestades!
Vós sabeis achar nas vagas                       Se o velho arqueja, se no chão resvala,      Rolai das imensidades!
As melodias do céu! ...                          Ouvem-se gritos... o chicote estala.         Varrei os mares, tufão!
                                                 E voam mais e mais...
                                                                                              Quem são estes desgraçados
   III                                           Presa nos elos de uma só cadeia,             Que não encontram em vós
                                                 A multidão faminta cambaleia,                Mais que o rir calmo da turba
                                                 E chora e dança ali!                         Que excita a fúria do algoz?
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!       Um de raiva delira, outro enlouquece,        Quem são? Se a estrela se cala,
Desce mais ... inda mais... não pode olhar       Outro, que martírios embrutece,              Se a vaga à pressa resvala
humano                                           Cantando, geme e ri!                         Como um cúmplice fugaz,
Como o teu mergulhar no brigue voador!                                                        Perante a noite confusa...
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!    No entanto o capitão manda a manobra,        Dize-o tu, severa Musa,
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...   E após fitando o céu que se desdobra,        Musa libérrima, audaz!...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus!     Tão puro sobre o mar,
                                                                                                                                             2
São os filhos do deserto,           Desertos... desertos só...          Do teu manto este borrão?
Onde a terra esposa a luz.          E a fome, o cansaço, a sede...      Astros! noites! tempestades!
Onde vive em campo aberto           Ai! quanto infeliz que cede,        Rolai das imensidades!
A tribo dos homens nus...           E cai p'ra não mais s'erguer!...    Varrei os mares, tufão! ...
São os guerreiros ousados           Vaga um lugar na cadeia,
Que com os tigres mosqueados        Mas o chacal sobre a areia
Combatem na solidão.                Acha um corpo que roer.                VI
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,              Ontem a Serra Leoa,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .     A guerra, a caça ao leão,           Existe um povo que a bandeira empresta
                                    O sono dormido à toa                P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
São mulheres desgraçadas,           Sob as tendas d'amplidão!           E deixa-a transformar-se nessa festa
Como Agar o foi também.             Hoje... o porão negro, fundo,       Em manto impuro de bacante fria!...
Que sedentas, alquebradas,          Infecto, apertado, imundo,          Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
De longe... bem longe vêm...        Tendo a peste por jaguar...         Que impudente na gávea tripudia?
Trazendo com tíbios passos,         E o sono sempre cortado             Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Filhos e algemas nos braços,        Pelo arranco de um finado,          Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
N'alma — lágrimas e fel...          E o baque de um corpo ao mar...
Como Agar sofrendo tanto,                                               Auriverde pendão de minha terra,
Que nem o leite de pranto           Ontem plena liberdade,              Que a brisa do Brasil beija e balança,
Têm que dar para Ismael.            A vontade por poder...              Estandarte que a luz do sol encerra
                                    Hoje... cúm'lo de maldade,          E as promessas divinas da esperança...
Lá nas areias infindas,             Nem são livres p'ra morrer. .       Tu que, da liberdade após a guerra,
Das palmeiras no país,              Prende-os a mesma corrente          Foste hasteado dos heróis na lança
Nasceram crianças lindas,           — Férrea, lúgubre serpente —        Antes te houvessem roto na batalha,
Viveram moças gentis...             Nas roscas da escravidão.           Que servires a um povo de mortalha!...
Passa um dia a caravana,            E assim zombando da morte,
Quando a virgem na cabana           Dança a lúgubre coorte              Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Cisma da noite nos véus ...         Ao som do açoute... Irrisão!...     Extingue nesta hora o brigue imundo
... Adeus, ó choça do monte,                                            O trilho que Colombo abriu nas vagas,
... Adeus, palmeiras da fonte!...   Senhor Deus dos desgraçados!        Como um íris no pélago profundo!
... Adeus, amores... adeus!...      Dizei-me vós, Senhor Deus,          Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
                                    Se eu deliro... ou se é verdade     Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Depois, o areal extenso...          Tanto horror perante os céus?!...   Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Depois, o oceano de pó.             Ó mar, por que não apagas           Colombo! fecha a porta dos teus mares!
Depois no horizonte imenso          Co'a esponja de tuas vagas

                                                                                                                       3

								
To top