Cadernos do GIPE-CIT N by 38ms6w

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									              Cadernos do GIPE-CIT N. 3
                  Os Novos Dramaturgos
                  Gil Vicente Tavares e Cláudia Barral


                               Fev– 1999
                  Coordenação Geral do GIPE-CIT
                           Armindo Bião

                         Equipe de Editoria
Christine Greiner (coordenação), Luiz Cláudio Cajaiba e Renata Pitombo

                              Diagramação
                              Antonio Firmo

                                 Capa
                              André Mustafá

                                  Revisão
                              Arthur Brandão
                             Juliana Gutmann




                Universidade Federal da Bahia
    GIPE-CIT. Escola de Teatro. Programa de Pós-Graduação




                                                                    ISSN / 1516 – 0173
            Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 7-82, fev. 1999
                    Ficha Catalográfica

Cadernos do GIPE-CIT: Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e
     Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e
     Teatralidade/ Universidade Federal da Bahia. Escola de
     Teatro, Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas.
     Escola de Dança. - n. 1, nov. 1998. - Salvador: UFBA/
     PPGAC, 1998 –

     n ; 21cm.
     Irregular
     ISSN 1516 - 0173

     1.   Teatro-Periódicos. 2. Dança-Periódicos. 3.
          Etnocenologia-Periódicos. 4. Contemporaneidade e
          Imaginário-Periódicos. I. Universidade Federal da
          Bahia. Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas.

                                                CDD 705
                                                CDU 7(05)
                                                                                                                5
                        Cadernos do GIPE número 3

                                Os novos dramaturgos
Sumário

APRESENTAÇÃO....................................................................................................7


PARTE 1 – GIL VICENTE TAVARES

   ATO ÚNICO (PEÇA EM 1 ATO).................................................................................. 8

   CANTO SECO (PEÇA EM 1 ATO) ............................................................................. 16

   OS JAVALIS (PEÇA EM 1 ATO) ................................................................................. 33

   QUARTOS – QUATRO MONÓLOGOS SOBRE SOLIDÃO ...................................... 56

       MONÓLOGO 1 (SEM TÍTULO).................................................................. 56

       MONÓLOGO 2 (SEM TÍTULO).................................................................. 63

       MONÓLOGO 3 (SEM TÍTULO).................................................................. 68

       MONÓLOGO 4 (SEM TÍTULO).................................................................. 73

PARTE 2 - CLÁUDIA BARRAL

   A CONVERSA DE LUCILA........................................................................................ 78
6
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Apresentação

        Cadernos do GIPE número 3 reúne uma coletânea de textos
inéditos de dois jovens dramaturgos baianos: Gil Vicente Tavares e
Claudia Barral.
        Gil Vicente, filho do poeta e escritor Ildásio Tavares, tem 21
anos, é também músico e aluno de Direção da Escola de Teatro da
Universidade Federal da Bahia.
       Cláudia Barral, 19 anos, aluna do curso de direção da Escola de
Teatro da UFBA tem se destacado entre os talentos da nova
dramaturgia baiana.
         A coleção de Cadernos do GIPE vem publicando ensaios e
artigos de pesquisadores ligados ao Grupo Interdisciplinar de Pesquisa
em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade da Escola de Teatro
da Universidade Federal da Bahia e, a partir deste número, amplia as
suas possibilidades de atuação no meio editorial com esta reunião de
textos teatrais que deverá ter prosseguimento, divulgando a obra de
novos autores, para fertilizar, não apenas os meios acadêmicos, mas
também os artísticos onde, a cada dia, os conhecimentos teórico-
práticos parecem mais enamorados.
        Mais do que uma proposta para o futuro, que os nossos leitores
entendam este nosso desejo de divulgar os novos talentos como um
convite e que nos enviem os seus textos inéditos para que sejam
analisados e publicados!



Christine Greiner, coordenadora editorial do GIPE-CIT
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    Parte 1 – Gil Vicente Tavares
Ato Único (peça em 1 ato)

Personagens:

Mulher A
Mulher B

“Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.”
(Fernando Pessoa, Mensagem).

ATO ÚNICO
(Mulher sentada. Uma das mãos enfaixada. Costura uma colcha.)

A - Ela não chegou. Já se passam duas horas e ela ainda não
  chegou.(Pausa). A porta entreaberta vai permitir que ela entre sem
  que me incomode. De ladrão não tenho medo, botei tudo no seguro.
  O relógio está quebrado. O cavalinho de vidro poderia até ser
  roubado, mas com a luz apagada ninguém vai ver. Sorte
  minha.(Pausa). No escuro ela não vai conseguir enxergar...(Barulho de
  vidro quebrando).

B (De fora) - Ôh de casa. A porta estava aberta...

A - A mesinha...

B (Entra) - Me desculpe, a luz estava apagada e...

A - Pode sentar.(Aponta a cadeira. B senta-se). Quantos anos?

B - Quem, eu?

A (Olha pra ela) - Menos de trinta, suponho!?

B - Mais ou menos.


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A - Não parece. Achou a cadeira confortável?

B - Sim.(Pausa). Olha, eu trouxe as rosas que você pediu.

A - Que rosas?(Sorri pra si mesmo).

B - Vermelhas, rosas vermelhas. Deixei lá na frente, perto do piano.
   Tem algum problema?

A - Você ainda estuda música!?

B - Acabei de ganhar um concurso. Meu pai ficou muito
  orgulhoso.(Pausa). Isto foi no ano passado, um pouco antes de...

A (Larga a costura friamente, interrompendo) - Fale-me de seu pai.

B - Ele é bonito, alto, charmoso. Está um pouco pálido por causa dos
   remédios que ele toma...

A (Cortando) - Fale-me da vida de seu pai.

B - Todos os dias, uma mulher de branco troca suas roupas e lhe dá
   comida. Ele só sai de casa aos domingos. Vai ao Jockey-club em sua
   cadeira de rodas e aposta sempre no cavalo errado. Ele adora
   cavalos. No dia em que ganha alguma coisa, leva rosas pra minha
   mãe. Rosas vermelhas!

A - Você gosta de rosas vermelhas?

B - A primeira vez que eu ganhei foi de um namorado meu. O único. A
   gente nunca tinha se beijado, mas nesse dia eu agarrei ele e...(Pausa).
   Depois disso ele ficou com medo, eu cresci, fiquei feia e ninguém
   mais me mandou rosas, de qualquer cor que fosse. Só meu pai,
   quando as levava pra casa, é que me fazia lembrar o cheiro do
   primeiro beijo, com gosto de chiclete. Era moda na época. Beijar
   com chiclete.(Pausa). Depois eu vi a porcaria que era. Aliás, meus
   pais estavam certos. Beijar na boca é uma porcaria danada. É
   nojento. Minha mãe disse que José e Maria nunca beijaram de língua.


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     A - Eu já. E com chiclete...

B - Você gostou?

A - Você gostou?

B - A única coisa que eu gostei na vida foi de meu pai ter morrido.
   Nunca mais vou sentir o cheiro das flores me perseguindo,
   impregnando a casa toda...

A - Você não me falou da morte de seu pai. Ainda há pouco...

B - Foi hoje. Um pouco antes de eu vir pra cá. É por isso que eu estou
   de preto. Minha casa está toda de luto.

A - E sua mãe, não se abalou com a notícia?(Pega a costura do chão e volta a
   costurar).

B - claro que não, se foi ela quem matou!?

A - Ela o quê?

B - Foi. Foi por amor. Disse que não agüentava mais ver meu pai
   sofrendo, indo ao Jockey, essas coisas...

A - Você ajudou?

B - Mais ou menos. Fiquei lá embaixo, na sala de visitas, conversando
   com a mulher de branco, enquanto minha mãe sufocava ele.

A - Com o travesseiro.

B - Isso, exatamente!

A - De quem era o travesseiro?

B - Meu, por quê?

A - E você vai conseguir dormir nele depois de tudo o que aconteceu?

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B - É claro que não. Vou lavar ele com bastante cuidado pra sair a baba,
   o sangue. Eu sempre fui muito asseada.

A - E você sabe lavar uma fronha...

B - No melhor aniversário de minha vida, minha mãe disse que eu podia
   ir ao Jockey com meu pai. Ela me arrumou toda, dos pés a cabeça.
   Botou um vestido vermelho em mim e um laço de fita no cabelo. Eu
   odiava trança, porque ficava puxando minha testa e dava dor de
   cabeça. Pedi pra minha mãe fazer um rabo de cavalo, já que estava
   indo ao Jockey e ela aceitou a desculpa. Toda festa que tinha eu
   sempre usava o mesmo vestido. Era amarelo...

A - Rosa.

B - Não, vermelho! Vermelho como suas rosas...

A - Continue.

B - Está bom. Onde foi que eu parei mesmo? Eu estava falando...

A - Da festa.

B - Isso! Pois é, nesse dia teve bolo, bola de soprar, minha mãe tinha
   convidado um bocado de gente. Meu pai que não gostava. Era chato
   pra ele pois não podia sair do quarto. A mulher de branco ia embora
   cedo e não tinha quem cuidasse dele.

A - E sua mãe? Não podia levar ele pelo menos até a sala? Ele fazia o
   quê à noite?

B - Geralmente eu ia estudar piano e ele ficava ouvindo. Ele odiava
   música...

A - E por que te ouvia?

B - Não tinha outro jeito, ele e o piano eram pesados demais pra eu ficar
   carregando de um lado para o outro.

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A - Você não terminou a história do Jockey...

B - Ah, sim, já tinha até me esquecido. O dia mais feliz da minha vida!
   Eu sempre tinha sonhado em ver um cavalo de verdade, assim, na
   minha frente. Aqui na cidade a gente de vez em quando esquece que
   existe muita coisa por aí que respira, anda, precisa comer. Eu fiquei
   impressionada quando vi um cavalo comendo. Pra mim ele só servia
   pra correr, só sabia fazer isso. Era costume de meu pai visitar os
   cavalos. Ele sabia o nome de todos, mas o preferido dele era o
   “Sargento”, um cavalo bonito, todo branco; era o mais manso
   também. Deixou eu alisar a cabeça dele e até me deu um beijo. Meu
   pai sorriu e me levou pra tribuna de honra, porque ia começar a
   corrida. Lá de cima deu pra ver o “Sargento”, com uma espécie de
   roupa toda verde, igual ao meu vestido. Meu pai disse que daria
   sorte. Eu segurei no vestido e comecei a torcer de olho fechado. Só
   dava pra ouvir os gritos de meu pai. A cadeira de rodas dele ia pra
   frente e pra trás, e ele gritando mais alto, cada vez mais alto, meu
   ouvido já estava doendo quando de repente ele calou. Ficou aquele
   silêncio e eu comecei a abrir o olho, bem devagarinho. Meu pai
   estava rasgando o bilhete com um olhar de raiva e tristeza. Olhei pra
   minha mão e vi um pedaço do vestido, a bainha estava toda
   descosturada. Meu pai olhou pra mim e deu um sorriso.

A - Só isso?

B - Depois a gente foi tomar sorvete. Tinha que ser rápido pois minha
   mãe não gostava que meu pai chegasse tarde, ainda mais hoje, que
   era meu aniversário e eu tinha que tomar banho pra botar meu
   vestidinho amarelo. Meu pai tirou uns trocados do bolso, pagou o
   sorveteiro e me deu o resto pra comprar tudo de doce. Comprei um
   monte de chiclete e fui pra casa. Meu pai disse pra guardar pra
   depois da janta senão minha mãe ia brigar. quando cheguei em casa,
   minha mãe tinha ido ao cemitério. Era dia de finados e ela sempre
   visitava o vovô. Levava rosas e conversava com ele.

A - Como é que você sabe que ela conversava com o morto?



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B - Porque eu já fui com ela. No início eu estranhava, ficava ali, sem
   ter o que fazer; até que achei um menino da minha idade pra
   conversar também. Na verdade não era conversa, porque só quem
   falava era eu. O menino ficava quieto o tempo todo. Minha mãe
   disse que ele tinha morrido entalado, talvez seja por isso. Talvez ele
   também não gostasse muito de conversa. Será?

A - E os chicletes, você fez o que com eles?

B - Meu pai estava tomando sopa. Ele me chamou só que eu não fui.
   Estava sem fome mesmo. Peguei os chicletes e botei todos na boca...

A - E a festa, o bolo, sua mãe tinha esquecido?

B - Botei todos na boca... de vez...

A - O vestidinho, os convidados?

B - Cheguei a pensar que ia ficar entalada, mas o cheiro do chiclete
   começou a ficar cada vez mais forte e aí me esqueci de tudo, só
   conseguia lembrar do meu primeiro beijo... minha mãe nunca
   soube... um beijo... com chiclete...

A - Você gostou?

B - Você gostou?

A (Para com a costura) - Você não gostaria de saber.

B - Ah, conta vai!

A - Não insista!

B - Conta!

A - Pare.

B - Por favor...(Pausa).


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     A - Está bem, eu conto. Mas antes traz as rosas.

B - Rosas vermelhas! Pode contar enquanto eu pego na sala. (Se levanta e
   vai saindo). Pode falar que eu estou ouvindo.

A - Meu primeiro beijo... meu pai era militar e quase nunca parava em
   casa. Quando aparecia era bêbado, fardado ainda, sempre mascando
   alguma coisa. Tinha a maior curiosidade de saber o que era, e
   descobri da pior forma possível. Aproveita que está aí e traz uns
   panos que eu deixei na cozinha...

B (De dentro) - Pode continuar que eu estou ouvindo.

A - Eu tinha começado a aprender piano. Toda vez que eu sentava pra
   estudar e meu pai estava em casa, ele vinha atrás de mim, com a
   desculpa que ia me ouvir tocar. Ele então sentava do meu lado,
   conferia se minha mãe estava na cozinha, e ia se aproximando de
   mim, cada vez mais perto, até que sua perna roçava na minha, sua
   arma me machucando, e começava a me tocar por debaixo da saia,
   beijava meu pescoço, minha boca, meus seios...

B (De dentro ainda) - Não achei os panos na cozinha não, vou ver se está
   na área de serviço.

A - Era sempre assim. O cheiro do álcool misturado com o suor da
   farda me davam mais nojo ainda. Pra mim, aquilo tudo era muito
   estranho. As poucas vezes que sua boca estava livre era pra me
   mandar continuar tocando. Ele dizia que se eu contasse pra mamãe,
   que ele ia me bater. Eu não sabia o que era pior.(Pausa). Até que um
   dia minha mãe descobriu tudo. Ela pegou o vaso de flores, enquanto
   meu pai me bolinava, e partiu pra cima dele. Meu pai viu a tempo e
   sacou a arma. Minha mãe parecia tão enfurecida que nem percebeu e
   continuou. Ele se apoiou no piano, deixando um acorde dissonante
   no ar, e atirou nela. Na mesma hora ela caiu.(Se concentra na costura). O
   vaso, as flores, o sangue, minha mãe tão mansa...(Pausa). Depois
   disso nunca mais vi ninguém, nunca mais ouvi ninguém... Agora eu
   costuro.



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B (De dentro) - Não consegui achar os panos ainda. Quer que eu
   procure em outro lugar? Talvez no...

A - Olha...

B (Ainda de dentro) - Diz.

A - Já que está aí na sala, aproveita e toca uma música pra mim...

B - E as rosas?

A - Depois.

B - Se você prefere.(A sorri e B começa a tocar. A música vai aumentando à
   medida que A vai se exaltando).

A - Você toca bonito. Muito bonito mesmo. É lindo demais, lindo
  demais...(A música é cortada bruscamente)

C (Que será a mesma pessoa B, só que agora com outra maquiagem e vestida de
   enfermeira, ainda de dentro) - Falando sozinha de novo?

A - Hã!?

C (Entrando) - Eu conversei com o doutor, e ele disse que é perigoso
   botar outro espelho no seu quarto. (A olha a mão enfaixada). Parece
   que você vai perder seu eterno companheiro de conversa. (Coloca um
   xale em A e tenta lhe tomar a costura, A impede). Vamos dormir, sua cama
   já está pronta. (C sai amparando A carinhosamente até saírem de cena. A luz
   vai abaixando).


(CAI O PANO)




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     Canto Seco (peça em 1 ato)
PERSONAGENS:

ZÉ
TONHA
HOMEM

 “Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.”
(João Cabral de M. Neto, Catar Feijão)

ATO ÚNICO
    (Casa pobre à esquerda do palco. Ambiente bastante seco, árido. ZÉ e
TONHA já se encontram em cena, no black, com jarros na mão. Luz.).

ZÉ- Larga o seu primêro, Tonha. Num tem corage?

TONHA- E vô tê medo de quê, Zé? A mãe deve de tá drumino.

ZÉ- É, mais isprito do pai vorta e briga...

TONHA- Briga? Briga não, nós num tem curpa de num tê achado
   água...

ZÉ- Mãe deve de tá cum sede!

TONHA- Isprito do pai briga nada... (Pausa).

ZÉ- Ói? Você ouviu? É agôro de pássaro. Deve de tá triste também...

TONHA- Que nada. Se quisé ele voa prôto canto. (Pausa).

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ZÉ- Nós num tem mais força, né Tonha?

TONHA- Mais força que a mãe nós tem. (Pausa).

ZÉ- Ouviu de novo?

TONHA- Tu tá é variano, Zé. Leva os pote lá pa dentro.

ZÉ- E s’eu acordá a mãe?

TONHA- Mãe qué acordá nada! (ZÉ entra com os potes enquanto TONHA
   fica cavando a terra). Botô onde? Num disarruma a casa não que mãe
   reta, viu!

ZÉ (Voltando)- Tá fazendo o quê? Ê terra seca, né!? Parece a farinha da
    mãe. (Pausa). Eu quiria ir na cidade. (Senta ao lado de TONHA).

TONHA- Pra quê? Tu nunca foi lá.

ZÉ- Purisso mermo.

TONHA- Tu já foi no céu?

ZÉ- Não!?

TONHA- Tu qué ir pra lá? (ZÉ se levanta). Parece a farinha da mãe. Tá
   cum fômi? A cidade deve sê bunita. A mãe disse que tem um
   monte de bicho pela rua...

ZÉ- Tudo vivo?

TONHA- É, Zé! (Pausa). Sabe a carcaça do jegue? Nem urubu vem
   mais. Tô cuns ombro me dueno.

ZÉ- Tá cum fômi? Tinha urubu no riacho, antes de pai morrer. Tu viu
    os urubu na cruz do pai?



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     TONHA- Deus benza. É só rezá. Deve de ser agôro de pássaro. (Bate
       na boca). Ôxi, tô ficando iguar você. Deus benza.

ZÉ- Tu já viu Deus? (TONHA o olha desconfiadamente). Bença só dá quem
    tem mão.

TONHA- Isprito do pai é diferente...

ZÉ- Tu pede bença à ele?! Mãe num gosta, cê sabe! (Pausa). Os pote já tá
    rachando de seco. Pai morreu tem tempo, né?

TONHA- Lembro não. Tu acendeu as vela que eu pidi onti? Qué que
   tenha água não?!

ZÉ- Nem santo... (Pausa). Deve ser agôro de pássaro. Onti me cortei em
    tiririca. Será que sara? Meu joelho parece que tá pôdi. Sangrô pôco
    mas ficou logo preto. Deu bicho e tudo. Lembra do jegue? O jegue
    era do pai. Pai morreu junto e dexô nós só. Mãe dorme sempre.
    Tem que enterrá o jegue pra morrer de vez. Vira ispritu ruim, a
    mãe falou. Tu já viu isprito do pai?

TONHA- Ôxi, Zé.

ZÉ- Tu num pede bença à ele? Eu qui tô variano...

TONHA- Pai que ia na cidade. Trouxe santo de mãe e badogue procê.
   Me arlembro que mãe deu bronca que ele me deu essa
   correntinha...(Mostra corrente com crucifixo, que não existe).

ZÉ- Ôxi, Tonha, aí num tem crucifixo nenhum, tu deve de ter perdido.
    Si abaxô no riacho...

TONHA (interrompendo)- Foi pai que levô. Isprito do pai aparece quando
   tem água.

ZÉ- Tu já viu?

TONHA- Tu lembra do pai? (Pausa).


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ZÉ- Não.

TONHA- Nem eu. (Pausa). Vou acendê as vela.

ZÉ- Tu espera o quê?

TONHA- Guardô as vela aonde? Vou contá as moeda da mãe. Acho
   que as vela acabô. Quem qui compra?

ZÉ- Eu num posso...

TONHA- Tu num disse que queria conhecer a cidade?

ZÉ- Vô lá não. Pai disse que é ruim...

TONHA- Tu tá é com medo...

ZÉ- Tu ouviu o pássaro? Só doido qui vai... deve de sê agôro.

TONHA- Si quisé ele voa prôto canto. Nóis que num pode. (Pausa).

ZÉ- Mãe tá véa...

TONHA- Pega os pote.

ZÉ- E já deu tempo...? Nóis largô os pote agora.

TONHA- Acende as vela e umbora vê o pai...

ZÉ- Mãe num gosta...

TONHA- Mãe deve de tá druminu.

ZÉ- Vô pegá os pote. (Pausa. ZÉ entra. TONHA começa a cavar, mexer na
    terra).

TONHA- Zé!

ZÉ(de dentro)- É o que, Tonha?

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TONHA- Chega aqui.

ZÉ- Qui foi?

TONHA- Tu ajuda a achar minha corrente?

ZÉ- Tu num disse que pai levou?

TONHA- E si pai botô no jegue? Isprito do jegue num discansô. Pai
gostava dele.

ZÉ- Os urubu já deve de ter cumido até o isprito do jegue...

TONHA- Ôxi, Zé. Dêxa de falá bobage. Deus benza. (Pausa).

ZÉ- E Deus vai ficar nessa seca nada.

TONHA- E deus esquece assim da gente, é!? Mãe disse que santo
   ninhum larga da gente. É Deus que vai larga, é?!

ZÉ- Será que foi as vela?

TONHA- Vai na cidade, Zé.

ZÉ- Pai num ia gostá.

TONHA- Pai morreu, Zé.

ZÉ- E o isprito!? Sô besta não...

TONHA- Pai qué vê a gente bem...

ZÉ- Pai é Deus, é? (Pausa).

TONHA- Cadê os pote, Zé?

ZÉ- Tudo seco, vai rachá. A poêra tá rachando a gente também... já viu
    meus pé?

               Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 16-32, fev. 1999
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TONHA- O joelho sarô?

ZÉ- Ôxi, tá é coçâno. (Pausa). Urubu canta, Tonha?

TONHA- Sei lá!

ZÉ- Eles deve de tá vortâno. (Pausa). Será que vem pra busca nóis? Tu
    tem medo?

TONHA- Poêra quando levanta né só bicho não.

ZÉ- E gente vem pra cá!? Mãe num foge cum nóis porque já tá véia.
    Mãe nem chora mais. (Pausa). Tu qué farinha? Vô contá as moeda
    da mãe. Acho que a farinha acabô.

TONHA- Tô cum fômi não. As vela é que faz farta. (Pausa). Tu ainda
   anda com esse joelho, Zé?

ZÉ- E como é que sara? Deu nem pra lavá.

TONHA- Se apodrece cai. Os bicho deve tá é ti cumêno por dentro.
   Que nem cum jegue.

ZÉ- Ôxi, Tonha. Os bicho morri de fômi. Num tem nem mais carne
    pra cumê...

TONHA- Tu tá mermo muito seco. Também, num cômi. (Pausa).

ZÉ- Tu já viu os santo da mãe como é bunito? Mãe disse que se nóis
    cumesse direito ficava tudo iguar à eles. Umas cara gorda, né
    Tonha...

TONHA- Pai até qui tinha cara assim, e mãe também. Tu viu na foto?

ZÉ- Ôxi, as traça já cumeu tudo. Só sobrô os zói de mãe. Ficô de cara
    triste...

TONHA- E só os zói dá pra vê tristeza?

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ZÉ- Sei lá, mãe nunca chorô... (Pausa).

TONHA- Tu já viu chôro, Zé? Diz que parece água do riacho...

ZÉ- O jegue chorô, quando morreu... caia as gota e os urubu já tava
    comeno ele. Num sei se era dô ou tristeza. Pai morreu primêro... as
    perna do bicho nem batia mais. Acho que o bichinho respirou até
    os urubu comê o nariz dele.

TONHA- Deve de ter doido...

ZÉ- Tu não viu foi a tiririca... catei mais três bicho hoje de manhã...

TONHA- Tu tem corage de comê?

ZÉ- O nariz ou os bicho?

TONHA- Sei lá! Tu num tem nojo não?

ZÉ- Pai morreu antes, bicho foi junto.

TONHA- Mãe disse que gente quando morre num leva tristeza junto.
   Acho que pai dexô pro bicho. Jegue deitô pra num levantá mais.
   Morreu de seco... tu num tem nojo não?

ZÉ- Já matei foi dois urubu com badogue. Teve um que morreu do lado
    do jegue. Acho que eles morrêro se oiando. Os zôio dos dois tava
    frio...

TONHA- Frio como, Zé?

ZÉ- Sei lá, chega me deu um arrupeio. Parecia que era os zóio do pai.
    Os da mãe eu só lembrava na foto. E ói que era assim, paradão,
    que nem os ôtro. Uma frieza de de noite. Sabe aqueles arrupeio que
    chega nós se abraça? (Pausa).

TONHA- A poêra tá estranha...


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ZÉ- Num disse!? Deve ser arguem. E se fô o pai?

TONHA- Pai morreu, Zé.

ZÉ- Mãe disse que pai ia vortá. Que eu ia ver pai de novo.

TONHA- Só se fô no céu. Ou sinão vê o isprito. Tu disse que tem
   medo...

ZÉ- Tenho medo não, se fô isprito do pai... mãe disse que pai era
    santo...

TONHA- Num tem medo o quê, Zé!? Tu se caga todo de ovi os
   pássaro cantano. Num gosta de ir na cruz do pai. Tu tem medo até
   de sombra.

ZÉ- Tenho mermo. Mãe disse que foi isprito ruim que levou o pai. Que
    pai num fez nada. Pai era homem santo, Tonha. A mãe que dizia.
    Tu se lembra do pai?

TONHA- Não. (Pausa).

ZÉ- Nem eu. (Pausa).Tu tá sentindo a friage, Tonha? (Pausa). Tu ouviu
    agora? Pássaro quando canta é agôro ou aviso. Tá com medo não?

TONHA- Ôxi, e mãe tá aí dentro pra quê?

ZÉ- Mãe tá drumino, Tonha...

TONHA- Fale baixo, então. Se mãe acorda ela reta.

ZÉ- Mãe acorda não... (Pausa). Essa pereba me deu moleza. (Encosta em
    TONHA). Ê sono...

TONHA (empurrando)- Tu vai drumi pra quê, injura? Quê que eu fique
   só?

ZÉ- É só cuchilo, Tonha, dêxa de bestage. (Deita de novo).


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     TONHA- Zé, dormi não...

ZÉ (desfalecendo)- Me dêxa, Tonha... (Ouve-se pela primeira vez um canto de
    pássaro).

TONHA- Tu ouviu, Zé?

ZÉ- É o quê, Tonha?

TONHA- O canto..?!

ZÉ- Xô drumi, Tonha...

TONHA- É canto de agôro?!

ZÉ- Tu tá é ficano besta! Nesse calô num da pra drumi direito. Só mãe
    que consegui. (Pausa. Ouve-se mais uma vez o canto, mais alto).

TONHA- Ó pra aí, Zé. Acorda abestado! (Pausa. A luz do ambiente muda
   discretamente, com súbita ventania). Que é aquilo ali, Zé. Acorda, diabo!
   (Empurra ZÉ fortemente).

ZÉ (ainda lerdo do sono, olhando TONHA)- Ôxi, deus benza...

TONHA- Ó ali...

ZÉ- Ôxi! (Entra o HOMEM, de certa idade, roupas comuns, carregando uma
    sacola, traz um leve sorriso).

HOMEM- Com licença. (ZÉ e TONHA se agarram).

ZÉ- É o quê, hômi? (Se solta de TONHA tentando mostrar coragem e volta).

HOMEM- Calma, só tô de passagem. Sua mãe?

TONHA- Tá lá dentro.

HOMEM- Seu pai?


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ZÉ- Se fôr água, veio na direção errada. A cidade é pra lá...

HOMEM- Sou um vendedor.

ZÉ- A sacola é de tralha, é?

TONHA- Zé!?

HOMEM- É sim.

ZÉ- E tu viaja muito per’esse sertão?

HOMEM- Como bom vendedô que sô.

ZÉ- E pra quê veio pará aqui?

HOMEM- Tô vindo da cidade...

ZÉ- Vorta pra lá, ué!

HOMEM- Não dá, já tô indo pra ôtra...

ZÉ (encantado e desconfiado ao mesmo tempo)- Tu já foi ni muita cidade? Mãe
    disse qui dá medo de tanta gente...

HOMEM- A gente se acustuma. Ela está?

TONHA- Mãe tá em casa... (Aponta pra casa).

ZÉ- É só entrá.

TONHA (com ZÉ)- Vai dexá ele entrá, é?

ZÉ- Vá lá, moço. (Pra TONHA). Tá cum medo de perder o quê?

TONHA (pra ZÉ)- E si fô ladrão? (Pro HOMEM). O sinhô vende o
quê?



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     HOMEM- Eu vendo tudo que um bom homem precisa, que um bom
      garoto quer e uma boa menina gosta. Nessas andanças acabei
      descobrindo os desejo de cada um, e botei tudo no saco. Cada viaje
      era um novo desejo guardado.

ZÉ- E tu mora onde pra viajá tanto?

HOMEM- Num moro não. Vivo de cidade em cidade, comprando,
  vendendo, enchendo minha sacola.

TONHA- Posso vê?

HOMEM- A sacola? Claro! (Coloca o saco no chão e começa a tirar coisas).Tem
  esse espelho aqui... (Os dois correm pra ver).

TONHA- É bunito...

HOMEM- Bunito e resistente. Só tá meio sujo da viaje.

TONHA (pegando o espelho e se olhando)- Ói, Zé, tô bunita?! (ZÉ se
   aproxima tentando pegar o espelho).

ZÉ- Cadê!?

TONHA (empurrando)- Pra quê vai vê esse rosto sujo, seco. Tu é feio
   mermo, Zé...

ZÉ- Ôxi, Tonha, e precisa falá assim... só quiria vê meu rosto... pra vê
    s’eu pareço cum pai... (se afasta tristemente).

TONHA- Parece não, pai tinha a cara gorda... (continua se olhando no
   espelho).

HOMEM- Tem também esse porta-retrato. Comprei agora, nessa
  cidade que’u passei.

TONHA (pra si)- Eu fiquei foi fêa nesse espêio. (Puxa o porta-retrato).
   Vem, Zé! (ZÉ, que estava triste, meio afastado pela questão do espelho, se
   reanima e volta pra perto da irmã). Umbora ficá assim que nem na foto.

                Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 16-32, fev. 1999
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     (Sorri.Olha pra ZÉ). Ri também abestado. É pra fingí que é nóis
     na foto. Finge que é espêio... (Os dois se olham e olham pra foto,
     sorrindo. Concomitantemente, o HOMEM tira algumas peças de roupa, entre
     elas um paletó e um vestido).

TONHA- Dêxa a gente vistí as rôpa, moço?

HOMEM- Só tenha cuidado. É tudo rôpa elegante. (Eles pegam as roupas
  alegremente e se vestem). Ficou bem em vocês... (ajuda-os a vestir). Vocês
  tão ótimos. Parecendo gente grande, da cidade. Que nem o casal da
  foto...

TONHA (se olhando e olhando ZÉ)- Ah, num gostei não. Nóis num presta
   pr’essas rôpa. Tira, Zé, qu’eu num gostei não...

ZÉ (tirando)- Ôxi, Tonha, é assim, bota e tira, é?!

HOMEM (mexendo na sacola e fechando algo na mão, enquanto os dois tiram as
  roupas do vendedor)- Talvez disso você goste... (abre a mão e mostra uma
  corrente com crucifixo).

TONHA (puxando a corrente, avidamente)- Xô vê!

HOMEM- Calma, calma...

ZÉ- O senhor vende vela, farinha...?

TONHA- Calaboca, Zé! A corrente é quanto?

HOMEM- Ela é cara, de ouro, foi de uma princesa. Uma princesa muito
  rica e bunita. Bunita assim como você...

TONHA (encabulada)- Ôxi, moço... (Olha a corrente). Ela é linda! Posso
   botar só um pouquinho..?

HOMEM- Claro. Fique a vontade. (Ajuda a colocar a corrente).

ZÉ- Ói, Tonha, tem um crucifixo...


              Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 16-32, fev. 1999
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     TONHA (ignorando ZÉ)- Vem, vem vê minha mãe... (Puxa-o pelo braço
       levando-o pra dentro de casa).

ZÉ (Advertindo, enquanto os dois entram)- Tonha, pode acordar a mãe...
    (Pausa). Mãe reta. (Mexe na sacola). Ói, tem um badogue bonito.
    Deve de ser mió que o meu. (Pega uma pedra e atira no próprio chão). É
    bom. Assim mato até no céu. Vou vê chuva de verdade, chuva de
    urubu! (Ri de felicidade). Tonha! Ói que buniteza... ôxi, Tonha nem
    responde. Vou ispantá os urubu todo da cruz de meu pai. Num vô
    nem tê medo dos urubu cumê meu joelho. Mato tudo. (Os dois
    voltam).

TONHA- Ele esqueceu a sacola.

ZÉ- Dêxa o badogue aqui, tá bom?

HOMEM- Tudo bem. Você gostou?

ZÉ- Desse aqui, mato até no céu. Era de príncipe esse badogue?

HOMEM- Mais ou menos. Ele é realmente muito bom, mas é caro
  também. Vai lhe custar muito.

ZÉ- Num custô pro sinhô chegá aqui? Pois intão! É custo pur custo.
    (Atira, cai na real, desanimado). Mas nóis num tem dinheiro não...

TONHA- Tem sim...

ZÉ- É dinheiro da mãe, Tonha!

HOMEM (pega uma lata vazia na sacola, colocando esta no ombro)- Tome essa
  lata.

ZÉ- Ôxi, pra quê, hômi?

HOMEM- Pra você atirar. Vê como ele é bom.

ZÉ- Brigado, moço. (Vai preparar a lata. TONHA pega o homem pelas
    mãos).

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TONHA- Vâmu, vâmu! (Leva de novo o homem pra dentro).

ZÉ- Tonha! A mãe acordou? (Pausa).Ôxi! Tá tão animada que nem ôvi.
    (Atira na lata). Êta que faz um zuadêro retado. (Atira de novo1). A
    mãe num deve acordar assim não. (Atira). É baruio pôco. Mãe tá
    num sono solto, acorda nada! (Atira). Vô rebentá a lata tôda.
    Esbagaçá. (Atira). Parece baruio de sino da igreja! Mãe que falô.
    Iguar panela quando cai, deve até de sê bunito. (Atira). Pai quando
    morreu num teve nem desse nem de ôtro sino. Só os urubu na
    cruz. (Atira). Vô botá mais longe, parecendo os urubu no céu.
    (Levanta e coloca a lata mais longe). Vô vê chuva de verdade! Êta que
    os urubu se camparam... (Finge atirar para o alto, em desvario). É só os
    urubu caíno. Êta porra! Cada um prum lado! Ê lasquêra! (Entra
    TONHA sorridente segurando algo ao pescoço). Ôxi, Tonha, cadê o
    hômi?

TONHA- Saiu pela porta do fundo. Disse que ia siguí viaje.

ZÉ- Ôxi, hômi vêio que nem vento.

TONHA- Tá quente, né Zé?!

ZÉ- E isso? (Aponta para seu pescoço).

TONHA (com um sorriso)- Me dêxa, Zé!

ZÉ- Ele esqueceu o badogue!

TONHA- Dêxa!

ZÉ- Será que eu ainda pego ele?

TONHA- Dêxa pra lá, Zé!

ZÉ- Mas e o badogue?

1
 Cada tiro deve ser acompanhado de determinada ação que faça o tempo
passar ainda mais. Algo como o preparativo para o tiro e o acerto da lata.
               Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 16-32, fev. 1999
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     TONHA- Fica com ele, abestado.

ZÉ- Ele disse que era caro, que ia custá muito. E isso no seu pescoço?

TONHA- Cê é besta, Zé!?!

ZÉ (se aproximando)- É a corrente, não é?

TONHA- Me dêxa, Zé!

ZÉ- Xô vê! (Tenta pegá-la).

TONHA- Sai!

ZÉ (agarrando-a)- Larga isso aí! (Arrancando). Tu robô, Tonha?!

TONHA- Deus benza, que nóis nunca precisô disso, Zé.

ZÉ- Num mete Deus nas sua trapaiada. (Olhando a corrente). É a corrente
    de princesa! O hômi disse que ia custá muito, mais que o badogue.
    Tu comprô cum dinheiro da mãe, num foi?

TONHA- Num servia pra nada...

ZÉ- E as vela, comprô?

TONHA- Pra quê?

ZÉ- Pra quê?!

TONHA- É, já tem o crucifixo, num precisa vela não...

ZÉ- Mas e o santo da mãe?

TONHA- Num precisava de vela não. Agora tem o crucifixo, minha
   correntinha...

ZÉ- Tu tá doida. Comprô a farinha?


                Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 16-32, fev. 1999
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TONHA- Tu num ficô com o badogue? Mate seus urubu. Tu num
   come mermo!

ZÉ- O quê que a mãe disse? Acordô?

TONHA- O moço disse que a mãe num acorda mais não. Desde muito
   tempo que ela drumiu. Chega fedeu quando eu cheguei perto. Os
   zôio frio que nem você falou da foto...

ZÉ- Foi da foto não... (Pausa).

TONHA- Mãe disse que tirou a foto cum pai na cidade. Ela só foi uma
   vez. Disse que pai era vendedô lá. É por isso que trôxe presente. A
   foto também. Mãe disse que pai era bunito, se vestia muito bem,
   mas morreu cedo. Pai até tinha dinheiro. Pai comprava coisa pra
   gente e pra mãe, lembra?! (Brinca com a corrente).

ZÉ (de costas, como que não querendo ouvir a história do pai, atirando no chão com
    o badogue)- Tu deu o dinheiro todo?

TONHA- A corrente é linda, não é. Tu gostô?

ZÉ (se reanimando, olhando o badogue)- O badogue é retado mermo... se eu
    atirar nos pote, quebra tudo... os urubu vai saí tudo de meu pai. Tu
    vai querer matar também?

TONHA- Pega os pote lá dentro, Zé.

ZÉ- Tu ouviu? O pássaro nem tá cantando. Deve di tê água.

TONHA- Pega os pote, Zé. (Brinca com a corrente).

ZÉ- Mãe fedeu mermo, Foi? Deve de sê iguar chêro do jegue. Deve de
    ser farta d’água. Mãe só faz é drumi de sede. Nem santo prela
    acordá. Se nóis trussé água!? Mato os urubu tudo.

TONHA- Pega os pote. (Continua a brincar).



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     ZÉ- O badogue é lindo. Só os urubu que num vai gostá. (Anda em
       direção a casa e sente o joelho). Ai. (Mexe no joelho, como que catando algo).
       Só achei um bicho essa manhã. Tenho medo não. No riacho é
       cheio dos bicho. O pai deve de tá lá, junto com o jegue, cheio dos
       bicho, iguar meu joelho. No riacho num fica mais bicho ninhum.
       Mãe deve de tá fedendo. Vou pegá os pote. (Se encaminha em direção à
       casa).

TONHA (brincando com a corrente)- É linda, né Zé?

ZÉ (parando subitamente)- Tu ôviu? O pássaro cantô. Vai acordá a mãe...
(BLACK).


CAI O PANO




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Os Javalis (peça em 1 ato)

Personagens:

HOMEM a, homem acima de 40 anos
HOMEM b, homem acima de 40 anos


“...matam nosso cão...”
(Vladimir Maiakovisk)

ATO ÚNICO
(Sala de uma casa comum. À esquerda, entrada que dará pra cozinha. À direita,
porta que será a saída da casa. Sala cheia de móveis, aparência antiga. O
HOMEM a estará em posição de tiro, em direção à cozinha. Veste roupas básicas,
calça e camisa, que serão parecidas com as do HOMEM b, com exceção ao paletó.
O motivo se tornará óbvio no decorrer da trama. Ouve-se um disparo. A luz abre-
se.)

 HOMEM a- O tiro de misericórdia. Não adianta a insistência. O
          prolongamento da espécie deveria ser um
          procedimento comum à homens e mulheres. Ah, mas
          no meio tem os problemas, e no meio das pernas o
          maior deles! (Pausa, guarda a arma que estará em suas mãos).
          Não suporto visitas. Perco meu tempo discutindo
          coisas que sempre levarão à morte. Pois sim?! Tudo não
          leva à morte? Ou vai me dizer que tudo que fazemos,
          apressadamente, não é para afastá-la? Pois sim. Ainda
          ontem, tomava chá com minha mãe, em sua casa,
          quando o vizinho veio pedir açúcar. Odeio armas.
          Ando com elas sempre escondidas. É pra eu não ver o
          quanto somos ruins. Se eu caçava quando era novo!?
          Ah, essa é boa. Javalis no meu prato. Em plena cidade
          tropical. Só podia ficar louco. Um cavaleiro não pode
          comer comidas perecíveis. Enlatados nem pensar.
          Talvez por isso não existam cavalheiros hoje em dia. As
          visitas me perturbam e eu ando armado. Se sou louco?!

               Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 33-55, fev. 1999
34
     Essa é boa. Não saio às ruas porque não tenho motivos. Minha mãe
                  faz compras e me traz aqui. Minha vizinha. Ela e a
                  gostosa da frente. Sempre quis comer a vizinha da
                  frente. Javali no dendê. Se saio de casa aos domingos?
                  Minha mãe faz os almoços e convida muita gente. A
                  maioria vem de penetra. Coisa da nossa gente. Você
                  está em uma festa, na sua casa, e acaba como
                  desconhecido. Posso ir ao banheiro? É o que dá
                  vontade de perguntar. Vou ter que limpar a cozinha de
                  novo. Visitas só dão trabalho... (Toca a campainha).
                  Quem é? Deve ser o vizinho pedindo açúcar. (Toca mais
                  uma vez). Já vai! Oh, inferno, são esses vizinhos. (Abre a
                  porta. HOMEM b entre esbaforido).

 HOMEM b- Feche a porta, rápido. Os javalis estão chegando...

 HOMEM a (estranhando)- Como é que é?

 HOMEM b- Os javalis! (Empurrando a porta entreaberta). Aí fora...

 HOMEM a (meio irônico)- Javalis? Em nossa cidade?!

 HOMEM b (se explicando)- Foi o que eu disse à eles.

 HOMEM a- Faça o favor de se retirar de minha casa. Não te conheço
           e estou farto de histórias de javali.

 HOMEM b- O javali é um porco feroz. Pode nos matar com suas
          presas.

 HOMEM a- Não com a porta fechada...

 HOMEM b- A boca do javali não é uma porta, não tem como ser
          fechada!

 HOMEM a- Você quer que eu chame a polícia?




                Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 33-55, fev. 1999
                                                                        35
HOMEM b- Os javalis já comeram as cabeças de todo mundo,
         nessa cidade. Não sobraram nem policiais, nem
         professores, nem jovens. Só nos resta esperar pelo fim
         do mundo...

HOMEM a- Espere em outro lugar. Menos na minha casa. Tenho que
          dar de comer ao meu gato.

HOMEM b- Não há mais gatos e nem gente na cidade. Você não está
          levando a sério?! Também não acreditei quando vi sua
          mãe triturada por um deles.

HOMEM a- Não mete a mãe no meio!

HOMEM b- É verdade, experimente ligar pra ela... (se dirige à cozinha,
          procurando o telefone).

HOMEM a- Não entre aí! Quero dizer, por favor, esse lugar é área
          restrita da casa. (Pra si). É por isso que eu não gosto de
          visitas.

HOMEM b- A história de sua mãe é verdade. Ela inclusive mandou
          um beijo pra você enquanto era devorada pelos javalis!

HOMEM a- E por quê você não impediu?

HOMEM b- A sociedade protetora dos animais disse que eu estaria
          agredindo a cadeia alimentar. Disseram que eu tinha
          que respeitar os animais. Que na Índia a vaca era
          sagrada. Vê se pode?! O que é bom pra hindu, é bom
          pra hindu! Mas o engraçado é que quando os javalis
          partiram pra cima deles, pediram socorro e ajuda pra
          mim.

HOMEM a- E você ajudou?

HOMEM b- E a cadeia alimentar, fica aonde?



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     HOMEM a- Mas, vem cá, já que os javalis estavam comendo todo
              mundo, por quê não te comeram, então?

 HOMEM b- Esqueci de dizer. Eu vendo produtos de limpeza
          naturais. Talvez o cheiro dos produtos não tenha
          agradado eles.

 HOMEM a- Então é daí que vem o fedor?

 HOMEM b- Fedor, não. Só não estamos acostumados a sentir o puro
           sabor da natureza...
 HOMEM a- Os javalis, sim, estão até demais...

 HOMEM b(cortando)- Se bem que eu também acho fedorento. Foi o
            chefe que mandou dizer essas coisas todas. Preciso
            ganhar a vida. Quer dizer, precisava. Agora que eu vou
            morar com você aqui, longe dos javalis, longe de tudo,
            viveremos de suas despensas, até que tenhamos que
            enfrentar de novo o mal do século.

 HOMEM a- Vá embora, homem... deixe de falar bobagem. Tenho um
           almoço marcado com minha mãe. Hoje é domingo...
           dia de fazer javali...

 HOMEM b- Eles viraram a mesa, homem! Não há mais saídas. Até a
           vizinha gostosa da frente foi comida.

 HOMEM a(irônico)- Ora, eu sempre soube, menos por mim...

 HOMEM b- Ligue pra sua mãe. Eu espero. Se ela atender eu saio.

 HOMEM a- Que coisa ridícula. Javali ser o mal do século... (pega o
          telefone, disca, espera). Chama e ninguém atende, deve ter
          ido comprar o tempero pro javali. (Bate o telefone).

 HOMEM b- Viu que eu disse?!

 HOMEM a- Que ridículo! Como é que você conhece a vizinha da
          frente? E como sabe que minha mãe é minha mãe?!

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HOMEM b(mórbido)- Na desgraça todos se conhecem... (se animando).
         E eu também era vendedor!

HOMEM a- Era? Então entrar em minha casa é uma espécie de carta
          de demissão?

HOMEM b- Não seja tão rude. Precisamos viver como irmãos a partir
          de agora. Só existimos nós dois no mundo. Ligue a
          televisão e verá!

HOMEM a- Não costumo ver televisão. Esse sim é o mal do século.
          A minha fica na cozinha...

HOMEM b (dirige-se à cozinha)- Então vamos lá...

HOMEM a(barrando sua entrada)- Já lhe disse pra não entrar aí!

HOMEM b- E como veremos a TV?

HOMEM a- Não veremos. É fácil. Eu ficarei em minha sala,
         esperando minha mãe chegar do mercadinho e você vai
         se retirar de minha casa.

HOMEM b- Por favor, me entenda! Estamos prestes a morrer. Bem
          que sua mãe me falou de sua avareza...

HOMEM a- Minha mãe o quê?

HOMEM b- Me disse que você era pão-duro. E olha que isso não foi
          a única coisa que ela disse.

HOMEM a(Mudando repentinamente de comportamento)- Bem, sente-se.
         Conte um pouco mais. Sempre quis saber o que minha
         mãe achava de mim.

HOMEM b- Bem, ela me disse... ah, você não gostaria de saber...

HOMEM a- Pode contar, eu estou preparado.

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 HOMEM b- Ai meu deus... (encarrilhado). Bem, ela disse que não
          aguenta mais você ir almoçar com ela aos domingos,
          que você é chato, entrão, que na verdade te odeia, que
          não sabe como botou um filho assim no mundo e...

 HOMEM a(cortando)- Chega, é o bastante. Sempre soube que minha
            mãe não prestava. Desde o dia em que ela escondeu o
            doce de goiaba atrás das verduras, na geladeira...

 HOMEM b- Sua mãe também fazia isso?

 HOMEM a- Pior é que ficava com gosto de coentro depois... vinha
           com o argumento que era melhor aumentar a goiabada
           pra depois repartí-la. Nessa história, eu acabava não
           comendo nunca.

 HOMEM b (pra si)- E eu que pensava que javali era o mal do século...

 HOMEM a(desconversando)- Você quer ver televisão?

 HOMEM b- Daqui a pouco. Conte mais sobre essas atrocidades...

 HOMEM a- É muito doloroso lembrar disso. Você gosta de doce de
           goiaba?

 HOMEM b- Adoro. Minha mãe também o escondia de mim, e pior é
           que era atrás da carne de feijão, imagine o cheiro que
           ficava...

 HOMEM a- No mínimo igual a seus produtos de limpeza...

 HOMEM b (cortando)- Ainda hoje eu comprei doce de goiaba pra levar
            pra casa. Só que os javalis comeram todo.

 HOMEM a- Que horas foi isso?

 HOMEM b- Na hora em que eu tocava na campainha de sua casa. Por
           isso eu entrei tão afobado.

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HOMEM a- Você realmente acha que eu estou acreditando nessa
         história de javali?!

HOMEM b- Tente ligar pra sua mãe!

HOMEM a(buscando mudar de assunto)- E sua mãe, também já fez javali
          pra você, alguma vez?

HOMEM b- Nunca comi e nem tinha visto um javali até o dia de hoje.
          Eles são terríveis!

HOMEM a- Seu gosto também. Sempre odiei os javalis que minha
          mãe fazia. E a ingrata ainda saia por aí dizendo que sou
          chato, entrão...

HOMEM b- Êpa, por aí não. Ela contou isso pra mim em total
         segredo!

HOMEM a- Você conheceu ela quando?

HOMEM b- Hoje, por quê?

HOMEM a- Você confiaria em alguém que você conheceu hoje?

HOMEM b- Eu confio em você.

HOMEM a- Ora, vamos, fale sério.

HOMEM b- Estou falando sério. De qualquer forma, eu terei que
         confiar em você. Se não vai ficar parecendo casamento,
         um porre nossa relação. Estamos ligados pelos sagrados
         laços dos javalis. Falei bonito?! Sempre treinei pra falar
         bem. É o primeiro exercício de um bom vendedor.
         Lembro que eu entrava em fila de banco só pra
         conversar com as pessoas...

HOMEM a- Deixe de falar bobagem. Não se pode confiar em alguém
          da noite pro dia!

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 HOMEM b- Pois eu confio em você e você precisa acreditar, confiar
           em mim. Duas cabeças lutam melhor contra um javali
           do que uma só. Pense bem, se sua mãe confiou em
           mim, você também tem que confiar. Peça a mãe que o
           filho atende.

 HOMEM a- Deixe minha mãe fora disso. (Toca o telefone).

 HOMEM b- Quer que eu atenda? Deve ser alguma armadilha. (Ouve-se
           pancadas na porta). Veja, são eles!

 HOMEM a- Pelo amor de deus. Esse barulho é a bola dos meninos
           do apartamento da frente.

 HOMEM b (o telefone continua tocando)- Os filhos da gostosa?

 HOMEM a- Você vai atender o telefone?

 HOMEM b- E se forem eles? (O telefone para de tocar).

 HOMEM a(correndo para atender)- Parou de tocar. E se foi minha mãe?
            Javalis não sabem discar, não é!?

 HOMEM b- Eles devem estar com reféns. O que será de nós?! (Toca o
           telefone de novo). Agora eu atendo. (Pega o fone). Alô!? Ele
           não está, foi pescar na praia. Deixo sim. Um beijo. (Bate
           o telefone).

 HOMEM a- Quem era?

 HOMEM b- Sua mãe. Estava te chamando pra comer o javali.

 HOMEM a- Você não disse que ela tinha sido devorada pelos javalis?

 HOMEM b- Bem lembrado, então foi engano.

 HOMEM a- Que outra mãe chamaria o filho pra comer javali?!


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HOMEM b- Realmente, deve ter sido trote, então.

HOMEM a- Você realmente esgotou minha paciência. Se todos
         estivessem realmente mortos, não ligariam pra mim.
         Vou almoçar com minha mãe (pega o telefone), e o senhor
         vai se retirar de minha casa. (Disca o telefone).

HOMEM b- Que senhor, o quê! Nós já temos intimidade o suficiente
          para estes tipos de trato. Pois ligue pra sua mãe! Quero
          ver quem é o mentiroso aqui.

HOMEM a- Chama e ninguém atende. Estranho. Ela deve ter ligado
          da rua. (Bate o telefone).

HOMEM b- Impossível, os javalis comeram todos os orelhões,
         palitaram os dentes com os cartões e só cuspiram as
         fichas. Inúteis, é claro. (Barulho na porta, desesperado). São
         eles!

HOMEM a- Já te disse, rapaz, não existem javalis em nossa cidade.

HOMEM b- Você já foi no Zoológico?

HOMEM a- Lógico. O Zoológico é vizinho daqui de casa...

HOMEM b- Existem girafas em nossa cidade?

HOMEM a- Existem no Zoológico, apenas. Não tente me enrolar
         com deduções óbvias. Por mais javalis que tivessem no
         Zôo, não seriam em número suficiente para destruir a
         cidade, muito menos o mundo inteiro. Eu mesmo
         tenho uma arma pra me defender. (Tira a arma).

HOMEM b (jogando-se ao chão)- Largue isso. Pelo amor de deus, eu
          tenho trauma!

HOMEM a- Você prefere a arma ou os javalis? Vou ligar de novo pra
          mamãe.


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     HOMEM b- Aquela que escondia a goiabada atrás das verduras?

 HOMEM a- Você por acaso quer me influenciar?

 HOMEM b- De certa forma, (pra si, levantando-se), e sua mãe já morreu
           mesmo...

 HOMEM a- Pois conseguiu. (Guarda a arma). Minha mãe realmente,
           depois de tudo que fez e disse, não merece a minha
           companhia. Você visita sua mãe?

 HOMEM b- Me recuso. Por isso virei vendedor. Pra não precisar
          olhar mais pra cara dela.

 HOMEM a- Você a odeia tanto assim?

 HOMEM b- Além de tudo ela era feia. Ou você acha que eu nasci
          com esse rostinho à toa.

 HOMEM a- Você realmente é meio feinho...

 HOMEM b- Não precisa escrachar, também. No emprego como
          vendedor tinha a necessidade de boa aparência, e no
          entanto eu entrei. Você talvez entrasse também! Por
          quê não experimenta!? Eu emprestaria meu paletó e
          você iria. (Tira o paletó). Vista. (Ajuda-o a vestir-se). Ficou
          lindo. O patrão iria adorar. Poderíamos sair para vender
          juntos. Se alguém não quisesse comprar, você obrigava
          com a arma! (Ri). Brincadeira. Mas ficou bom mesmo...

 HOMEM a- A gente iria vender pra quem? Como falaríamos com seu
           patrão? Você não disse que todos foram devorados
           pelos javalis?

 HOMEM b- Tem razão. Eu tinha me esquecido... ah, mas de qualquer
           forma, eu dou o paletó pra você. Ficou melhor que em
           mim.

 HOMEM a(tentando tirá-lo)- Não faço a mínima questão...

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HOMEM b (recolocando-lhe o paletó)- Por favor, não me faça essa
         desfeita. É um presente. Quando é seu aniversário?

HOMEM a- O quê importa, a essa altura dos acontecimentos?

HOMEM b- Diz! Está com vergonha, é?

HOMEM a- É hoje.

HOMEM b- Eu sabia!

HOMEM a- Como você sabia?

HOMEM b (irônico)- Isso tudo é uma grande brincadeira, fui
        contratado por sua mãe para uma festa surpresa, ela
        mandou esse paletó de presente. Parabéns! (Começa a rir,
        misto de graça e nervosismo).

HOMEM a- Você está falando sério?

HOMEM b- É claro que não... (é interrompido por outro barulho, mais forte,
          na porta). Ai! São eles de novo!

HOMEM a- Ora, pois sim. Não aguento mais brincadeiras. Vou
         reclamar com esses moleques e pôr você pra fora.

HOMEM b (tomando a frente da porta)- Não faça isso. Eles vão entrar.
           Por favor!

HOMEM a- Nossa, como eu odeio visitas!

HOMEM b (começando a ficar nervoso)- Lembre que eu não sou uma
          visita. Sou o que restou de sua extinta espécie. Se você
          realmente quer abrir a porta, então abra. Abra sem
          medo. (Se exaltando). Pois eu sou um louco e estou
          perdendo esse tempo todo aqui, para te convencer de
          uma coisa que não existe. Abra a porta. Não existe nada
          além de crianças brincando com bola. Vamos ver o

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     quanto eu sou louco e você está certo. Esqueça as coincidências dos
                  telefonemas, meu desespero ao entrar em sua casa, tudo
                  que sua mãe me disse. Esqueça e abra a porta. Tem um
                  mundo lá fora, belo, com um único javali no prato, à
                  sua espera, e sua adorada mãe sorrindo pra você.
                  (Totalmente exaltado). Abra a porta! Vamos! Abra esta
                  porta agora! Abra! Abra! Abra!

 HOMEM a(constrangido)- É melhor você se acalmar primeiro. Sente-se
            um pouco. Vou pegar um pouco de chá que eu fiz. Chá
            de tília. Gosta?

 HOMEM b- Não precisa, já estou mais calmo.

 HOMEM a- Você sempre foi assim, histérico, ou é apenas
          circunstancial?

 HOMEM b (mudando radicalmente de humor, acalmando-se)- Só estou um
           pouco preocupado, mais nada. Nossa situação de
           vítima não me agrada nem um pouco. Num momento
           em que deveríamos relaxar, frente às atuais
           circunstanciais, você só me deixa mais nervoso...

 HOMEM a- Desculpa. É que esses meninos... (pancada mais forte, gritos
           indecifráveis bem ao longe, ele toma um grande susto). Nossa.
           (Preocupado). Dessa vez foi mais forte! Você está
           começando a me deixar preocupado. (Tentando cair na
           real). Onde já se viu! Javalis! Essa é boa...

 HOMEM b (sentado, parecendo relaxado, despreocupado)- Tranque as portas
            em vez de ficar falando.

 HOMEM a(tentando disfarçar a preocupação)- Bem, não custa nada, por
            precaução. Mas não pense que com isso eu estarei
            aceitando sua absurda história... (barulho mais forte, esta
            vez, ele sai desesperado momentaneamente pra trancar a porta,
            enquanto o outro apenas se abana sentado na cadeira). Vou
            trancar logo tudo! (Sem graça, disfarçando). Esses
            meninos...

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HOMEM b- Você tem filhos?

HOMEM a- Ora, você não está vendo que eu moro só?

HOMEM b- Poderia ser desquitado...

HOMEM a- Não tenho filhos e nem nunca me casei!

HOMEM b- Você é veado?

HOMEM a- Ora, deixe de falar besteira, só não achei a mulher certa
          pra mim ainda...

HOMEM b (imitando-o)- Ainda... não existe mais mulheres, esqueceu?
          Acabou. Só nos resta esperar pela morte.

HOMEM a(já aparentando preocupação)- Como você é pessimista! Mesmo
           que sua história seja verdade, o que eu ainda duvido,
           não é possível que os javalis tenham matado todo
           mundo assim, da noite pro dia...

HOMEM b- Mas não foi da noite pro dia, foi do dia pra noite. Já são
          seis horas da tarde...

HOMEM a(toma a dianteira)- O almoço de minha mãe... (grunhidos e
          barulhos lá fora, ele se acovarda). Mas pensando bem, às seis
          horas não deve-se mais ir almoçar na casa de ninguém,
          mesmo que seja da mãe...

HOMEM b(pra si mesmo)- A não ser que você queira almoçar ela...

HOMEM a- O quê que você disse?

HOMEM b- Ora, deixe de confusão! Pois sim! Devemos aceitar a
         condição que nos é imposta. Não podemos mudar o
         mundo com nossas vontades. Fui panfletário, mas deve
         ter ajudado...


            Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 33-55, fev. 1999
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     HOMEM a- Você já estudou filosofia, niilismo, essas coisas?

 HOMEM b- Nunca vi mais gordo!

 HOMEM a- E essas frases?

 HOMEM b- Nunca perco essa sessão nas revistas de moda. Minha
          mãe faz coleção de corte e costura. Você se interessa?

 HOMEM a(triste)- Será que mamãe morreu...

 HOMEM b- Ora, homem, vamos, pois sim! Deixe de agonia. Que tal
           falarmos sobre futebol?

 HOMEM a- Detesto.

 HOMEM b- Política?!

 HOMEM a- Desacreditado.

 HOMEM b- Por favor, preciso saber do que você gosta para
          mantermos um diálogo saudável. Deixe-me ver... (olha
          pra arma). Você serviu ao exército?

 HOMEM a- Inútil!

 HOMEM b- O quê, você ter servido?

 HOMEM a- Não, o exército. Estamos sitiados em casa por uma
          revolta javalinesca e o exército não faz nada. Pra quê
          gastar dinheiro público comprando novas armas, se
          nunca as usaremos?

 HOMEM b- Ora, então você está mais desinformado do que eu
          pensava. Já faz um bom tempo que os javalis tomaram
          conta das forças militares. Eles entraram de mansinho,
          aos poucos, com propostas sedutoras ao exército. Os
          javalis propuseram uma aliança - aliás, você sabe que a
          política inteligente precisa de aliança - que consistia no

                Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 33-55, fev. 1999
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              seguinte: Os javalis exterminariam com instituições
              do governo, destruindo universidades, hospitais
              públicos, estatais, e tendo destruído todas elas,
              arranjariam um jeito de desviar mais verbas, para que
              todos do poder se beneficiassem.

HOMEM a- Onde, então, eles guardariam essas verbas desviadas?

HOMEM b- Nos bancos. Eles também entraram no acordo. Foi uma
          proposta tentadora para todos. Você sabe como são as
          coisas, se o poder não se interessa nem um pouco por
          educação, saúde, essas coisas, imagine então os javalis.
          No entanto, os planos dos javalis não paravam por aí.
          Como bons gananciosos que são, acabaram por trair o
          exército. O general foi o primeiro a ser devorado na
          reunião.

HOMEM a- Você quer dizer que na conversa, os javalis enganaram
          todo o exército? Você é louco...

HOMEM b- Não na conversa, pois eles perderiam muito tempo
         explicando aos militares sem que eles entendessem, mas
         falou em poder, o exército se ouriça logo.

HOMEM a- E agora?

HOMEM b- Os javalis já comeram o exército todo. Inclusive seu
         arsenal. Eles agora peidam granadas e arrotam balas de
         fuzil. Estão mais preparados do que nunca! O pior é
         que os javalis dominaram também a aeronáutica e a
         marinha. Daqui a pouco você vai ver um bocado de
         javalis voando sobre sua casa... imagine javali
         kamikase...

HOMEM a- E os javalis que dominaram a marinha?

HOMEM b- Esses gastaram um pouco mais de tempo, porque você
          sabe, né, porco não nada, afunda. O dinheiro que eles
          gastaram de bóia, dava pra alimentar metade do país.

           Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 33-55, fev. 1999
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     Os javalis submarinos tomaram conta da costa nacional. É o caos!

 HOMEM a(já entrando na viagem, preocupado)- E como nos livraremos
            deles agora, só com uma arma e...

 HOMEM b- Meus produtos de limpeza! É isso! Vamos espalhar pelas
           entradas da casa! (Pega a maleta, tira uns frascos e distribui
           com o homem). Vamos! (Começa a espalhar na porta, enquanto
           o HOMEM a espalha na janela. O HOMEM b vai em
           direção à cozinha. Vale ressaltar uma devida atenção ao fedor
           dos produtos).

 HOMEM a(olhando preocupado para a cozinha, nervoso)- Não entre aí! Quer
            dizer, aí não tem saída pra rua, deixe pra lá...

 HOMEM b- Tudo bem então. Estamos mais tranquilos ou não?

 HOMEM a- Bom, mais ou menos. Como posso ficar tranquilo
          sabendo de um plano como esse. De comunhão militar
          com javalis, a quase total extinção do ensino público,
          desvio de verbas, é um verdadeiro absurdo!

 HOMEM b- Não me venha com histórias de absurdo! Esqueceu que
           só temos nós dois, agora, no mundo? Deixe de se
           preocupar com besteiras. Temos que pensar na gente,
           não existem mais outros, é o mundo moderno em que
           vivemos. Sitiados, como você mesmo disse, por javalis,
           sem nada podermos fazer diante da situação. E você
           mesmo disse que não gostava de política...

 HOMEM a- Isso não é questão mais de política. É questão de
          sobrevivência! Os jovens não fazem nada à respeito
          disso!?

 HOMEM b- Já lhe disse. Os javalis comeram os jovens também. Os
           jovens estão mortos. Os javalis comeram todos na
           sobremesa. Como se fossem goiabada...

 HOMEM a(buscando alguma solução)- Poderíamos ligar a televisão...

                Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 33-55, fev. 1999
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HOMEM b- Você correria o sério risco de ter sua televisão invadida
          pelos javalis.

HOMEM a- Como eles entrariam aqui em casa? Os produtos de
         limpe...

HOMEM b- Eles já têm tecnologia o suficiente para entrar em nossas
          casas através da televisão, ou você acha que foi mérito
          do homem ter chegado à lua? (Barulhos, grunhidos e tiros
          do lado de fora).

HOMEM a- Isso foi um tiro?

HOMEM b- Possivelmente um peido.

HOMEM a(começa a inverter-se o pânico inicial)- Estamos perdidos!

HOMEM b (remexendo no bolso da calça e pegando um papel amassado)- Só se
           for você!?! Estamos na Alameda Costa e Silva é o nome
           do bairro, meu nome é... como é o nome do senhor?

HOMEM a(agoniado)- Não interessa, vamos morrer mesmo...

HOMEM b- Eu te disse que era vendedor, e no entanto você ainda
          não disse nada sobre o que você faz.

HOMEM a- Sou aposentado.

HOMEM b- Coitado.

HOMEM        a(justificando-se, sem graça)- Vamos morrer mesmo.
                Aposentado ou não, estamos no mesmo barco.

HOMEM b (sonhador)- Na mesma casa, só eu e você...

HOMEM a- Bem, de qualquer sorte... (barulhos novamente. Os grunhidos
          estão cada vez mais fortes, o HOMEM a se desespera cada vez
          mais, olha pra cozinha, enquanto HOMEM b parece

            Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 33-55, fev. 1999
50
     aparentemente calmo). Minha nossa senhora, será que os produtos vão
                    adiantar muito tempo?

 HOMEM b- Nossa senhora foi comida também...

 HOMEM a- Não é o que diz a bíblia...

 HOMEM b- Você é religioso!?

 HOMEM a- Apostólico romano. Você?

 HOMEM b (se ajeitando)- Estou bem, obrigado.

 HOMEM a- Você está muito calmo com essa situação toda. Não
          parecia com aquele vendedor esbaforido que entrou em
          minha casa. (Começa a pegar os móveis para botar na porta).

 HOMEM b- Um dia é da caça e outro do caçador. Mudo de acordo
           com a situação.

 HOMEM a(nervoso)- Já sei, leu isso na revista de corte e costura?
           Adivinhei?

 HOMEM b- Não, foi o que sua mãe disse quando os javalis
          abocanharam ela. Na hora ela estava servindo um tira-
          gosto de javali pra mim, nem tive tempo de
          experimentar.

 HOMEM a- Sorte sua... vamos me ajude com esses móveis!

 HOMEM b (sem sair da cadeira, dando ordens)- Bota mais para a direita,
            assim sustenta melhor...

 HOMEM a(obedecendo cegamente)- Assim?

 HOMEM b- Um pouco mais...

 HOMEM a- Assim?


                Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 33-55, fev. 1999
                                                                        51
HOMEM b- Pra esquerda agora...

HOMEM a- Você sabe mais ou menos o número de javalis que se
          encontram na cidade?

HOMEM b- Devem ser milhares, milhões, sei lá...

HOMEM a(sempre ajeitando os móveis)- E agora?

HOMEM b (falando dos móveis)- Melhor. Sei que são em número
         suficiente para derrotar qualquer exército do mundo!

HOMEM a(percebendo momentaneamente sua condição de subalterno)- Ora
          mas isso é fácil, com o arsenal que eles têm. difícil é
          trabalhar aqui, com esse peso todo, tenso, preocupado,
          sozinho. E com essa arma me espetando a pele...

HOMEM b- Deixe ela aqui, em cima da mesa. Fica mais fácil.

HOMEM a- Realmente, é melhor. (Tirando a arma e botando em cima da
          mesa). Qualquer coisa, você atira. Sabe?

HOMEM b- Aprendo.

HOMEM a(procurando mais móveis)- o quê mais... (tropeça em uma cadeira).
           Ai!

HOMEM b- Cuidado, esses móveis foram caros...

HOMEM a- Como eram as caras dos javalis?

HOMEM b- Pareciam homens de longe. Só de bem perto é que se
          viam o quanto eram repugnantes.

HOMEM a- Você teve medo?

HOMEM b- Pois sim. Claro que não.



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     HOMEM a- Eu teria. Não suporto javalis, animais, exército, política,
              tenho zoofobia...

 HOMEM b- Não suporto homens covardes.

 HOMEM a- Ainda há pouco você...

 HOMEM b- Não suporto homens covardes perto de mim. Homem
          que é homem não chora.

 HOMEM a(chegando perto do HOMEM b)- Mas você...

 HOMEM b (pegando a arma)- Não se aproxime!

 HOMEM a- Por favor, me compreenda. Estou apavorado pela
          situação. Nós somos os únicos sobreviventes da espécie
          e um arsenal de javalis está aí fora, prestes a nos matar.
          Como posso ficar corajoso frente a uma situação
          destas? (Começa a chorar).

 HOMEM b- Não chore, imbecil. Não vê que os produtos espantaram
           qualquer ameaça daqui?! Estamos, por hora, livres. Não
           ouvimos mais barulhos tem algum tempo. Eles se
           foram, pelo menos momentaneamente.

 HOMEM a- E se eles estiverem preparando uma armadilha?! Somos
           os únicos sobreviventes, lembra, você mesmo disse...

 HOMEM b- Veja bem, eu vou abrir a porta (se dirige para a porta da
          frente), e vou mostrar pra você que não há nenhum
          animal aí fora. Acalme-se e sente-se.

 HOMEM a(tomando a frente)- Não faça isso, pelo amor de deus!

 HOMEM b- Vou lhe mostrar que não há nenhuma visita além de nós
           dois...

 HOMEM a- Lembre que eu não sou uma visita. Sou o que restou de
           sua extinta espécie. Se você realmente quer abrir a

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                porta, então abra. Abra sem medo. Pois eu sou um
                louco e estou perdendo esse tempo todo aqui, para te
                convencer de uma coisa que não existe. Abra a porta.
                Não existe nada além de crianças brincando com bola.
                Vamos ver o quanto eu sou louco e você está certo.
                Esqueça as coincidências dos telefonemas, meu
                desespero. Esqueça e abra a porta. Tem um mundo lá
                fora, belo, com um único javali no prato, à sua espera, e
                minha adorada mãe sorrindo pra você. Abra a porta!
                Vamos! Abra esta porta agora! Abra! Abra! Abra!

HOMEM b (empurrando HOMEM a com certa força)- Sente-se já.
         (Aponta-lhe a arma). E acalme-se. Vou mostrar como
         está tudo em ordem.

HOMEM a(sem saber o que fazer, sentindo-se ameaçado, sentando na cadeira;
           constrangido, chorando)- Por favor, eu estou com medo...

HOMEM b- Você verá que não tem nada... (começa a tirar os móveis da
          frente da porta, que deverão ser móveis fáceis de pôr no lugar onde
          estavam). Vamos, me ajude, tire esses móveis daqui.
          (HOMEM a vai em direção aos móveis, totalmente receoso,
          HOMEM b apontando-o a arma, HOMEM a arruma-os,
          olha para a porta e volta correndo para a cadeira). É só um
          instante. Você vai ver...

HOMEM a(se agarrando a maleta de produtos do HOMEM b, com medo,
           apavorado)- Por favor...

HOMEM b- É só um instante... (nisso ouve-se barulhos muito mais fortes que
          qualquer das outras vezes, gritos e tiros, pancadas também vindas
          da cozinha; até um barulho mais forte, absurdamente,
          impulsionar o HOMEM b para trás, sem no entanto largar a
          arma).

HOMEM a(sai correndo desesperadamente em direção à cozinha, com a pasta do
           HOMEM b na mão)- Preciso vedar a porta dos fundos...



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     HOMEM b (se levantando, com a arma em punho)- Ah!! Você me
             enganou...

 HOMEM a(olhando pra trás, da porta da cozinha)- É que você não podia...
            (vai entrando na cozinha, sumindo de cena).

 HOMEM b- Não entre aí! (Atira no HOMEM a. Este, já fora de cena,
          consequentemente não será visto pela platéia no momento do tiro).
          O tiro de misericórdia. Não adianta a insistência. O
          prolongamento da espécie deveria ser um
          procedimento comum à homens e mulheres. Ah, mas
          no meio tem os problemas, e no meio das pernas o
          maior deles! (Pausa, guarda a arma que estará em suas mãos).
          Não suporto visitas. Perco meu tempo discutindo
          coisas que sempre levarão à morte. Pois sim?! Tudo não
          leva à morte? Ou vai me dizer que tudo que fazemos,
          apressadamente, não é para afastá-la? Pois sim. Ainda
          ontem, tomava chá com minha mãe, em sua casa,
          quando o vizinho veio pedir açúcar. Odeio armas.
          Ando com elas sempre escondidas. É pra eu não ver o
          quanto somos ruins. Se eu caçava quando era novo!?
          Ah, essa é boa. Javalis no meu prato. Em plena cidade
          tropical. Só podia ficar louco. Um cavaleiro não pode
          comer comidas perecíveis. Enlatados nem pensar.
          Talvez por isso não tenham cavalheiros hoje em dia. As
          visitas me perturbam e eu ando armado. Se sou louco?!
          Essa é boa. Não saio às ruas porque não tenho
          motivos. Minha mãe faz compras e me traz aqui. Minha
          vizinha. Ela e a gostosa da frente. Sempre quis comer a
          vizinha da frente. Javali no dendê. Se saio de casa aos
          domingos? Minha mãe faz os almoços e convida muita
          gente. A maioria vem de penetra. Coisa da nossa gente.
          Você está em uma festa, na sua casa, e acaba como
          desconhecido. Posso ir ao banheiro? É o que dá
          vontade de perguntar. Vou ter que limpar a cozinha de
          novo. Visitas só dão trabalho... (Toca a campainha).
          Quem é? Deve ser o vizinho pedindo açúcar. (Toca mais
          uma vez). Já vai! Oh, inferno, são esses vizinhos. (Abre a


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               porta. HOMEM a entre esbaforido, com o paletó e a maleta
               do HOMEM b).

HOMEM a- Feche a porta, rápido. Os javalis estão chegando...

HOMEM b(estranhando)- Como é que é?

HOMEM a- Os javalis! (Empurrando a porta entreaberta). Aí fora...

HOMEM b(meio irônico)- Javalis? Em nossa cidade?!

HOMEM a- Foi o que eu disse à eles.

HOMEM b- Faça o favor de se retirar de minha casa. Não te conheço
          e estou farto de histórias de javali.

HOMEM a- O javali é um porco feroz. Pode nos matar com suas
         presas.

HOMEM b- Não com a porta fechada...

HOMEM a- A boca do javali não é uma porta, não tem como ser
          fechada!

HOMEM b- Você quer que eu chame a polícia?

HOMEM a- Os javalis já comeram as cabeças de todo mundo, nessa
          cidade. Não sobraram nem policiais, nem professores,
          nem jovens. Só nos resta esperar pelo fim do mundo...
          (black).

(CAI O PANO)




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     Quartos – Quatro Monólogos sobre Solidão
“Embaixo dela, os esgotos;
nela mesma, não tem nada;
em cima dela, fumaça.
Nela nós vivemos, rotos,
a nossa vida frustrada,
uma passagem violenta.
E a cidade também, lenta,
e a cidade também passa.
(Bertold Brecht)

MONÓLOGO 1 (SEM TÍTULO)

MULHER 1:
       Certa noite... bem, de manhã para mim era o melhor horário pra
chorar. Acordava e ia direto pro banheiro, deixando pelo caminho uma
leve música de fundo. A maioria das vezes era Tchaikovski. (Pausa).
Claro que eu não aprendi a ouvir música sozinha, seria um ato tortuoso.
Aprender a ouvir música clássica... aposto que você nunca prestou
atenção em Tchaikovski, nunca ouviu nada além do que os outros
quisessem. Com certeza não. Aposto que nem está me ouvindo direito
agora. O que foi que eu disse? Você nem sabe quem é Tchaikovski. E
olha que ele era viado, a classe mais divulgada por aqui. Se ele nascesse
hoje seria homem, talvez. E com certeza não seria gênio. Pelo menos
pra você e sua corja. (Pausa). Sim, por que eu chorava? E precisa dar
motivo? Não, o único motivo que você imaginaria para meu choro seria
o amor. (Pausa). E foi. Mas naquela noite... pois é, o choro. Ser largada
às vésperas do aniversário de sete anos... superstição, não, deixei de
acreditar em tudo depois de Pessoa. Aliás, passei a acreditar mais em
tudo. Talvez tenha sido esse o problema. (Pausa). A mania de deixar o
chuveiro ligado. Nem me permitia chorar mais pela manhã. Não tinha
tempo. Nos últimos meses, esperar horas pelo fim de um banho
enquanto era esquecida na cozinha fazendo café, era a rotina de uma
relação nada harmoniosa. (Pausa). O problema era que nunca se
esgotava a questão de um limite. Sempre o outro dia era pior. Ficar
esperando na sala o telefonema que nunca chegava, e ser acordada às
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três da manhã com a porta batendo. Nunca deixar o som ligado.
(Pausa). Você já percebeu que eu só falo de mim? Você não sabe de nada
também. Adiantaria dizer que no dia que eu li Pessoa, a exclamação que
eu ouvi foi: “Leia Nietzsche”. Não, não, talvez se eu falasse de um ator
de novela, da cantora da moda, da peça que eu mais ri... morder a
maçã... a certeza do bicho... quem aceitaria comer a outra metade?
Cuspir agora é arte? Tive quem me ensinasse que não. (Pausa. Ri). Que
não se pode amar. Pelo menos duas vezes, duas horas, duas mulheres.
(Pausa). Cuspiria na cara de todos os homens. O único prazer que eu
tinha era me trancar no banheiro e ouvir Tchaikovski. Ele tinha tirado a
chave, “o som estava muito alto”, e... bem, cuspiria de novo, na cara de
todos homens, o grito que eu guardei só pra um. Porra, guardei só pra
um. Será que valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é
pequena... pro caralho! Alma é a puta que te pariu! Só vale a pena ser
feliz. Eu aprendi assim. Até o dia em que o mestre virou as costas e me
deixou sozinha, procurando a felicidade. Se eu encontrei? (Pausa). Foi
naquela noite... encontrar meus discos espalhados e um bilhete de “não
encontrei Debussy” era quase todo dia. Quando eu ia explicar, só ouvia
um “tenho a impressão de que deixei no carro”. Porra de
impressionismo de merda! (Pausa). Desculpe, não fica bem uma mulher
da minha idade estar se exaltando desta maneira. É que... é que... deixa
pra lá. Você deve estar sem graça. Mas cá entre nós, romantismo é lavar
cueca. Nunca acreditei em nada além de mim. A prova disso foi meu
sonho. Era meu? Não era. Se fosse, a esta hora estaria num aeroporto.
Indo pra onde? Com certeza não muito longe, teria medo de me
encontrar de novo. Ali adiante, poderia me esbarrar em outro sonho.
Melhor mesmo é ficar em casa. (Pausa). Ouvir música? Primeiro tive que
me acostumar. Meu ouvido de merda achava tudo aquilo um cocô. Nós
sempre esperamos dos outros o que a gente quer ouvir. Dói fundo tudo
aquilo que não era pra ser dito. Não era pra ser dito!? (Pausa). Não devo
dizer hoje tudo o que a vida me gritou? Poderia ser mais sutil. Ela, não
eu. Me gritar todo dia larga: esses livros, vai pra rua e sai correndo, se
joga no mar e tire a roupa. Sem a loucura, que é o homem? Tentava
então, como única saída, ser sábia e selvagem. Fora louco esperar. Tarde
demais descobri que só eu dependo de mim. Gritar com o espelho não
adiantava nada. Era preciso silêncio. No outro quarto, só o aquário me
interessava. O peixe ainda não tinha comido, e só eu dependia de mim.
Que culpa haveria no peixe, em ser aprisionado numa redoma de vidro?
Eu quis. Talvez não soubesse, e gritar não adiantava, não conseguiria

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   ouvir nada além do barulho da água caindo e a música tocando, cada
vez mais forte, com a subida da orquestra, os tambores...! (Pausa). Mais
uma vez, desligado o som. “Muito tempo no banheiro”. Eu não podia.
Agora era fazer o café e esperar a eternidade de um banho, que só eu
não tinha direito. Uma ducha de água fria. (Ri). Só me restava o
trocadilho e uns biscoitos na geladeira. “Sem tempo pro café”, qua, qua,
qua. Nem um suquinho? (Pausa). Foi estranho no dia em que ele me
jogou na mesa, por cima da comida, assim como era estranho o modo
como ele chupava meus seios. Faltava-lhe delicadeza e eu gostava.
Sensibilidade não. Tinha de sobra. Foi o que me conquistou de primeira.
De primeira... dei de primeira sim. Se prejudicou a relação? Acho que
não, hoje eu ouço Tchaikovski. (Pausa). Você deve ter uma relação
muito boa com seu parceiro!? Até agora não disse nada, só fez dar umas
leves risadas. Qua, qua, qua. Uma relação muito boa, ou talvez nenhuma
relação. Melhor? Até hoje eu procuro o melhor, e cada vez mais me
convenço que melhor mesmo é ficar calada, no alto do monte, sem
comer, sem trepar, só olhando serena a vida passar no meio da rua, no
meio da gente... taí um estágio que eu não alcançaria! seria impossível
pra mim. Os poetas não precisaram ir tão longe para ver nossos
problemas, se é que o temos. Se sou otimista? Com certeza não sou
poetisa. Uma mulher que... naquela noite... (Ri). Bem, que diferença faz?
Prefiro habitar a cabeça de poucos, do que os testículos de muitos. É
questão de preferência. Têm uns que preferem pensar, outros foder,
outros, ganhar dinheiro. São todos ofícios difíceis. Todos nós temos que
cumpri-los. Geralmente esquecemos de algum. (Pausa). Pior do que
esquecer é ser esquecida. É muito mais confortável a dor do outro.
Claro, é por isso que nós amamos. Foi a gota d’água esquecer os sete
anos, e ainda receber o grito de “contenção de despesas”. Cerveja só na
rua, não é? (Pausa). O mais engraçado, é que parecia que o sofrimento
era só meu. Não conseguia ser fria e terminava como chata. Quem
terminou tudo? (Pausa). Seria à noite... a camisola preta, a mais sensual,
não servia mais nem como pano de chão. A casa era limpíssima. Só saía
do meu quarto pra rua. No outro quarto era o silêncio e o barulho das
teclas de vez em quando. O resto era apenas falta de música. Eu
esperava a qualquer momento a entrada dos violinos, uma melodia
suave, e a tosse de três horas de chuveiro me fazia ir na farmácia. Eu
indicava café. “Cafeína faz mal”. Também, não indicava mais nada. A
indicação de Nietzsche me bastava. Não perguntara mais nada desde
então. Lembra? Nietzsche? Esquece. Se lembra ou não lembra, é

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problema seu. Eu, particularmente, nunca li nada sobre anjos.
Literatura moderna? Já ouvi falar sobre isso num livro de história. Nada
novo sob o sol, a não ser meu peixinho morto. Ele tinha um nome.
Quixote. (Ri). Foi a única novidade nesses anos todos. E eu doida pra
estar em seu lugar. Do aquário a gente vê as coisas maiores. Efeito do
vidro. Já tinha entrado demais quando percebi que no fundo, a saída
dava para o boxe do banheiro. (Pausa). Foi num dia de viagem. Tinha o
banheiro só pra mim. Havia aposentado Tchaikovski durante um bom
tempo, e do jeito que eu estava, sem saber se alegre ou triste, dei um
tempo a ele e a mim, e tapando os ouvidos comecei a cantar... Cantava
com tristeza, a melodia primeira que me vinha na cabeça. Tchaikovski?
Não, o tema de uma novela.(Pausa). Suicídio? Para mim, tudo no céu era
estúpido, e com certeza eu não seria um anjo. Dizem que anjo não tem
sexo, e depois de tudo que eu passei, não podia mais deixar de ser
mulher. Não tive filhos e criei fantasias. Fui normal até certo ponto.
“Barulho na casa? De jeito nenhum”. Estava criando nada mais do que
uma criança invejosa. “Sujeira pra tudo que era lado”. E o sonho? Se
não pertencia a mim, era pelo menos uma parte do meu útero. Meu
corpo não pensava, não pensa. Acho que é por isso que eu abria as
pernas. Fazer amor? A viagem já tinha acabado, e o pó de café também.
Tossia de novo. Não era só o banho. O cigarro ajudava, “aproveita e
passa na farmácia”. (Pausa). Era bonito o neon da farmácia. Lembrava
os filmes. E todo mundo a passar por mim. Estranho era mesmo um
velhinho, que sentado num banco, lia sempre o mesmo jornal. Se achava
livre e não me dava bom dia. Liberdade era o neon da farmácia. Belo
nome. Belo e estranho. Tinha acabado de faltar água em casa. Cheguei
sem o café e encontrei apenas um bilhete “de noite a gente conversa”.
(Pausa). Tinha esperado a água ferver, mas por ser naquela noite...
“Banho quente no verão era gasto de energia”. Eu gritava e ninguém
ouvia. Metia a cabeça no aquário, e Quixote me dava um sorriso. O
único bicho que não mais me sorria era o homem. (Pausa). O sol essa
época do ano era de lascar. Abria todas as janelas que não davam pra
lugar nenhum. “O prédio da frente”. (Ri). Você não quis mesmo falar,
heim? É bem mais fácil assim, ficar em silêncio e empurrar com a
barriga. Grito, só no parto. Talvez me sentisse bastante mulher. Pra
quê? Queria apenas me sentir sozinha, e para isso só precisava fechar os
olhos e abrir as janelas. Ou quem sabe talvez o contrário. Com as janelas
fechadas eu via muito mais. Era só ligar o som. Via cada vez mais minha
solidão. (Pausa). Foi naquela noite que... bem, ficar sozinha era estado de

              Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 56-77, fev. 1999
60
   espírito. Ligava pra minha melhor amiga e ficava horas no telefone.
Sempre ocupado. Aquele sonzinho do telefone sempre igual me
lembrava Ravel. Depois arrumava os livros na estante. Trabalho?
Tentava pela segunda vez terminar meu mestrado. Em quê? Talvez a
solução fosse pegar um ônibus e ir na casa dela. Fui correndo, nem tive
tempo de tomar banho. Talvez eu não quisesse. O ônibus chegou num
susto, pela porta do fundo “se mudou”. A última notícia era um
“adeus”. Descia as escadas, queria chorar mais já era tarde. Talvez no
chuveiro, numa viagem. Se eu gostava de ficar só? (Pausa). Resolvi voltar
à pé, no primeiro telefone público me encostei e liguei pra casa,
ninguém atendia. Sozinha outra vez. Que bom. Perto de casa, lembrei
do cinema que havia fechado. Fui até lá? Não fui. Era tarde demais.
minha amiga havia se mudado. Amiga? Naquele dia aprendi o resto de
mim. Pelo menos na esquina. A noite se escondia atrás do neon da
farmácia, e era sempre mais difícil esquecer a Liberdade. (Pausa). Pois de
noite... a luz fraca da manhã permitia ao menos que eu visse o aquário.
O ronco e a tosse, outro banho. Tentava ser diferente, era melhor assim.
Pelo menos mudar a tristeza de lugar. Chorava na cama ao som das
notícias do jornal... O ano novo estava perto e mais uma vez minha mãe
morria dentro de mim. O cinema reabriria daqui a dois meses, e o peixe
precisava comer. Naquele dia não haveria café, pelo menos até eu me
levantar. “Minha toalha”. Só eu dependia de mim, e o resto eu engoliria
à seco. O dia estava quente para um café, e ele suava como nunca.
(Pausa). Você gosta de música? Antes de nós, os passarinhos, antes de
tudo, a explosão. Porra! Meu café, e a porta batia-se atrás de mim.
(Pausa). Meu pai criava passarinhos, e foi assim que eu aprendi... imitava-
os... depois tudo que meu pai disse foi pro espaço. Pra uma estrela bem
linda, daquelas que não se podia nem se pode ver por aqui. (Pausa).
Aposto que você não costuma olhar as estrelas!? O prédio da frente?
Que nada, minha janela dá pro mundo todo, eu é que não enxergo. Pelo
menos aprendi a não enxergar. Ver o que então? Tudo o que eu não
fui!? O mundo é do tamanho do meu quarto, e “leia Nietzsche” já não
adiantava nada. O homem nunca voaria. Se voasse, virava música, até
que o outro desligasse o som. (Pausa). Ele chegara às três horas, e eu
tinha que estar dormindo. De manhã pra ele um “bom dia” resolvia, e
eu tinha que estar dormindo. No café, novas notícias, e eu tinha que
estar dormindo. Naquele dia ele não sairia, ficaria em casa, e eu não
podia mais dormir. Era o dia do café e quem sabe algum beijo. Eu
queria falar com ele quando o telefone tocou. Eu queria chorar quando

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ele me tocou. “Não vai atender?”. Sua mão forte, apertava meu
ombro e ontem à noite tinha sido ótimo. Mais café? “Não”, e eu
esquecia de sua mão forte, engolia o choro. Alô?! Era engano, chovia lá
fora. Eu chamava pra conversar, “um momento”. Eu dizia que era
rápido, “só a última frase”. Ele escrevia um livro e eu queria falar de
minha vida. (Pausa). Tinha deixado a janela aberta, a chuva batia de leve
no meu corpo e eu esquecia o calor da noite. Era só olhar pro lado.
“Nunca mais como carne de noite” e um arroto. Acabava sempre assim,
quando não era briga. Quixote se agitava dentro do aquário e eu só
queria estar no chuveiro. Lá de casa não se via a farmácia, mas parecia
que o neon estava quebrado. Cheguei lá e vi tudo escuro. Esqueci que
era domingo. O velhinho também esquecera e debaixo de chuva lia o
jornal. Não podendo ouvir Tchaikovski, preferi escutar a chuva. Olhava
o neon desligado. O cinema reabriria daqui a dois meses, e eu nunca
mais tinha saído. Lembrei de meu pai. Ele botava os passarinhos todos
pra fora quando chovia de dia, e os recolhia se fosse à noite. “Lugar de
passarinho à noite, é juntinho de mim...” e me abraçava. Engraçado, por
um instante achei o velhinho parecido com meu pai, e foi o suficiente
pro resto da noite. Tinha que ir embora e perguntei que horas eram, ele
apenas me disse “feliz natal”. (Chora. Pausa). Se eu entendia o porque
dele ser assim? Um homem culto... o som estava quebrado e não
derramaria mais nenhuma lágrima, pelo menos até que o som voltasse.
Ele sabia disso. Me acordou domingo ao som de Debussy, seria demais
um Tchaikovski. Era o último dia do ano, e tudo parecia ser diferente.
Naquela noite... naquela noite botei meu vestido branco, o mais caro do
guarda-roupa. Não tinha superstições, mas as convicções me bastavam.
Minha religião sempre fôra a música, mas o silêncio empurrado goela
abaixo me fez entender melhor a vida. Em silêncio estava, em silêncio
fiquei. Fui até a porta, por um momento fechei os olhos e abri os
braços, nunca mais voltaria àquela casa. Botei Quixote num saco
plástico e deixei o que não me faltava no banho. Fui até a farmácia
procurar o velho e lá estava ele. Sentei ao seu lado ainda em silêncio, e
ele me balbuciou “vou embora, o cinema não vai abrir nunca mais”. Me
mostrou sua saudade e o jornal, levantou e eu precisava ir. (Pausa). A
conversa deve estar chata, não é? Ouvir o absurdo de minha vida deve
lembrar a sua. Tudo bem, nada tenho mais pra falar, minha história
termina por aí, e a sua? Não precisa dizer, tenho certeza que o homem
nunca vai voar. Sei que Tchaikovski é ultrapassado, e amar também.
Quixote morreu num aquário novo, melhor assim. Morrer no aquário

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  novo... (Ri), acho que deixei o chuveiro ligado, vou aproveitar e tomar
banho...

CAI O PANO




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MONÓLOGO 2 (SEM TÍTULO)
HOMEM 1:
          Boa noite, vou apresentar para vocês o meu mais recente número de...
não, fica parecendo circo. Bem, eh... não importa. Também não vou ficar me
desgastando pra uma simples apresentação. (Pausa). Os convidados... (Pausa).
Não importa se virão de casacos de pele, roupas caras e alinhadas. (Pausa). Juro
que não me importo. É sério. Nunca fui de muitas cerimônias. A primeira vez
que tive a chance de encarar o público foi no colégio. Festa das Nações... me
preparei todo, o maior cuidado do mundo! Eu ia representar a Espanha, terra
natal de minha mãe. Ia ser o maior orgulho pra mim. Meu pai, claro, chegou
atrasado pra me buscar. Eu nem ligava mais. (Pausa). O trabalho de meu pai era
assim mesmo, não tinha hora pra acabar. Não sabia direito o que era não, só sei
que ele viajava de duas em duas semanas - eu morria de vontade de ir - mas
minha mãe não deixava. Dizia que era perigoso eu viajar naquela idade. Logo
depois ela morreu. As Festas das Nações que tinham no meu colégio eram as
melhores da cidade. Cidade do interior você sabe né? Tinha a maior disputa.
Quem escolhia era o prefeito. Ele odiava meu pai. Ainda bem que não sabia
quem eu era. Aliás ninguém sabia de quem eu era filho. Foi aí que eu viajei.
Sem minha mãe, nada me prendia àquela cidade. Menos Adela. (Pausa). Adela
era filha de imigrantes espanhóis que nem eu, só que de pai e mãe. Meu pai era
Turco, segundo dizia minha mãe, assim como deveriam ser os seus amigos.
Minha mãe xingava ele de estúpido e seus amigos eram da mesma forma. Claro
que não fui tratado bem. Também, dizia meu pai, toda criança na cidade grande
é tratada mal, era costume, segundo ele. Eu vi que era verdade quando meu pai
me colocou pra morar com uma mulher num desses prédios velhos perto do
porto. Os meninos todos, parecia que os meninos todos da cidade dormiam
naquela calçada. E na calçada eu fiquei, esperando meu pai, todo vestido de
espanhol. Minha mãe chamando ele de estúpido e eu rasgando a roupa. Não
estava com raiva, somente não prestaria mais pro próximo ano, e Adela já tinha
visto. Tinha conhecido uma menina parecida com ela, só que não falava
comigo. A senhora que me criou naquele porto imundo chamava aquilo de
preconceito. Dizia que ela era preconceituosa e por isso não falava comigo. Era
Linda, o nome da senhora. Ali gostava de sofrer. Parecia que todos seus amigos
batiam nela à noite. Ela gritava tanto que eu não conseguia dormir. Por isso que
pela manhã era um tapa de preguiçoso que anunciava a chegada de meu pai,
quando ele ia, era claro. Ela me parecia meio burra, pois dizia sempre “Um dia
eu vou sair daqui” e não saia. Era tão simples. Foi só minha mãe morrer que eu
tinha ido parar naquele lugar com ela. Foi tão rápido. Ela botou sangue pela
boca e foi parar no hospital. (Pausa). Adela nem foi se despedir de mim. Foi tão
rápido. Meu pai me pegou pelo braço e fomos embora. Ela só tinha me dito,
antes da festa, que tinha gostado da minha roupa. Só isso. E as roupas de dona
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   Linda eram parecidas com a minha. Quando ela voltava vestida e sem
dinheiro meu pai também batia nela. “Só isso”. Minha mãe sempre sangrava
mais. Acho que porque chamava ele de estúpido e ele não gostava. Dona Linda
não, ficava calada enxugando sangue, suor e lágrimas do rosto. No dia que eu vi
Adela... a menina estava olhando tudo que tinha acontecido... naquele dia eu
entendi o que era preconceito. Ela realmente parecia com Adela, só que Adela
era mais bonita. Se vestia mais bonito pra Festa das Nações. Eu sei que não
tinha festa nenhuma das crianças do cais. Eu que tinha batizado assim. Na
verdade tinha sido o jornal. Eu tinha lido no chão uma reportagem que dizia:
“Meninos do cais são abandonados” e coisa e tal, e eu via abandono no rosto
de todos os meninos que não se olhavam naquele porto, e depois no único
espelho da casa eu via que não estava sozinho. Dava pra janela, e eu olhava
escondido a menina abandonada do prédio. Ela parecia com Adela, e parecia
uma Adela abandonada pelo sorriso. (Ri). Ficou engraçado, meninos do cais.
Mundo, cais sobre mim. Tinha aprendido um pouco de português na escola,
antes de vir pra cá. Aqui, eu larguei os estudos, não tinha escola mesmo. Meu
pai é que dizia. (Pausa). No cais eu não conversava com ninguém. Só depois de
conhecer dona Juanita, uma cartomante, é que meus dias passaram a ser mais
espanhóis. Ela vinha do Sul da Espanha e tinha um sotaque bem forte. Minha
mãe brigava comigo porque eu queria a todo custo aprender a dançar igual ao
ciganos, e dona Juanita me vendeu, pelo preço de alguma companhia e leite
fresco, todos segredos da dança. Às vezes eu ficava sem graça de estar
enganando a velha, porque no fundo ela também me fazia companhia, e leite
fresco era fácil de conseguir, principalmente quando ela dava o dinheiro. Vez
por outra, meu pai me dava algum dinheiro, e, veja quanto era, dava pra juntar e
comprar o leite quando dona Juanita não tinha. Assim passaram-se alguns
meses, ou anos, ou dias, não sabia muito bem, e os clientes de dona Juanita
começaram a voltar. Eu ficava ensaiando os passos em casa, na esperança que a
menina me visse e se transformasse em Adela, como na história que a cigana
me contava. Um dia, a menina triste, que deveria ser feliz, por parecer com
Adela, foi na cartomante. Nesse dia eu me escondi para ouvir a conversa.
(Pausa). A menina começou a dizer algo sobre visitas de um médico, doutor
Luís, e veja, era o nome do único cliente que dona Juanita tinha. Depois a
menina triste, agora triste não sei porque, tirou um pequeno maço de dinheiro
do bolso, deu pra cigana e saiu. (Pausa). Dona Linda quando soube dos meus
ensaios com Donita - era como chamavam a cigana - me disse pra eu não
contar de jeito nenhum a meu pai. Disse que ia me botar pra dançar no 69. Ah,
eu não tinha lembrado do 69. Era o lugar que dona Linda ia encontrar com os
amigos dela, antes de voltar pra casa. Eu tinha loucura pra ir lá. Estava
chegando a minha chance. Eu ia encontrar com Adela na Festa das Nações e
dançar pra ela alguns passos. Naquele dia Adela estava linda, tão linda que eu
não queria vê-la mais de outro jeito. E foi assim que aconteceu. Minha mãe
estava morta e ela era rainha, daquelas que some em livro de contos de fada.

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Foi a única coisa que deu pra trazer escondido. Eu tinha roubado da escola e
ninguém podia saber. Não sei também se aquilo era roubo, eu achava que
quando eu ficasse grande, que o livro sumiria como as princesas e rainhas. (Ri).
Eu sempre fui muito tímido, não conseguia nem olhar direito pra Adela. Como
seria agora frente àquele público, os raivosos amigos de dona Linda. Tinha que
me preparar. Fui correndo avisar pra Donita, a cigana, e pareceu-me que ela
não gostou muito. Disse pra eu ensaiar sozinho, pois o que ela tinha me
ensinado era uma dança de respeito; e foi pra isso que eu ensaiei, pra mostrar
pra todos uma dança de respeito. Boa noite, vou apresentar para vocês o meu
mais recente número de... não, fica parecendo circo. Bem, eh... não importa.
Também não ia ficar me desgastando pra uma simples apresentação. Só tinha
que ser bonito. A roupa, dona Linda disse que arrumava, e nesse dia eu vi outra
mulher, que não ela, em nossa casa. Era Valdinéia, uma mulher com aparência
de homem, mãos fortes, como as de meu pai, e um grande nariz turco. Eram os
turcos que tinham nariz grande? Bom, meu pai tinha. Valdinéia veio me
arrumar pra dança, e eu me sentia como Adela na Festa das Nações. Linda e
sempre certa, no horário de se apresentar e brilhar pros outros. Eu não pude
assistir. Lembrei então de olhar disfarçadamente pelo espelho e ver se a menina
triste me olhava pela janela. A roupa tinha ficado muito bonita e estava na hora.
Desci as escadas... as escadas eram imundas e cheia de ratos. Pareciam, os ratos,
que eram a única companhia dos meninos do cais. Que não se olhavam.
Engraçado, por ironia, o único que procurava alguém o tempo todo era o
menino cego da beira da escada. Era costume dona Linda dar moedas à ele. Ele
agradecia com um sorriso e a certeza que poderia algum dia deixar de ser
menino do cais. Eu só pensava o tempo todo o quanto triste eu seria se não
visse algum dia Adela, e me prometi que dali em diante eu seria feliz. Pelo
menos enquanto a dança e aquela roupa, que Adela tanto ia gostar e o menino
não poderia ver, estivesse presente na minha vida. Já estava no meio do
caminho, quando olhei pra trás e corri em direção ao menino. Sussurrei no
ouvido dele como era a minha roupa e dei um beijo nele. O menino sorriu, e a
lágrima que eu enxuguei, ele me disse que era um agradecimento. Dali em
diante eu percebi que não era uma moeda que faria ele feliz. Feliz fiquei o
tempo todo. Cheguei no 69, e vi diante de mim várias pessoas bebendo,
gritando, e me jogaram no palco. Houve um breve silêncio, eu imóvel. Depois
foram gritos, eu imóvel, nervoso, meu pai entrando pela porta dos fundos,
minha mãe correndo, dona Linda gritando, eu rasgando a roupa, sangue na cara
de dona Linda, seu estúpido e um tapa, Adela tão linda, meu braço sendo
puxado, Valdinéia me agarrando e meu pai segurado. Só lembro que eu corri
pra casa da cigana. Dona Linda no hospital, e meu pai nunca mais. A cigana
estava de cama, parecia doente e me sorriu: “Deu errado, não foi?”. Ela sabia
de tudo e eu não podia esconder, me encostei na cama ao lado dela, como fazia
com minha mãe, e chorei. Não sei porque, naquela hora só me lembrava do
livro que eu tinha roubado. Seria castigo? Valdinéia foi me buscar e dona Linda

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   me pediu desculpa. Eu aceitei. Mais uma vez me sentia enganando alguém.
Quem devia desculpas era eu. Não tinha adiantado tanto ensaio e os avisos da
cigana. Eu era burro. (Pausa). Dona Linda ficou em casa alguns dias, disse que
não podia trabalhar com aquele rosto. Eu voltei a visitar Donita. Fui pagar toda
dança e as histórias que ela me ensinava. Talvez tivesse sendo mais lucrativo pra
mim. Lia de novo minhas histórias, e ainda levava o menino cego pra ouví-las
comigo. Donita disse que aquilo tudo era muito bonito e me chamou de
solidário. Por uma letra deixava de ser mais um menino do cais. Donita me
explicou o que era solidariedade, e eu vi que solidária era ela, pois me ensinava
a dançar e ainda dividia seu leite comigo e com o cego. Ouvíamos histórias. Às
vezes eu dançava, enquanto Donita cantava e o ceguinho batia palmas. (Pausa).
No dia de comprar remédios, nunca sobrava dinheiro pro leite. Logo depois
vinha a menina triste, e com a mesma conversa de sempre, dava mais dinheiro
pra ela, se bem, que naquele momento, dinheiro pra gente não era problema. A
gente tinha meu livro, a voz de Donita e as moedas do cego. Nós éramos
felizes, e sabíamos que, para sempre, só as histórias do livro. Dona Linda já
tinha voltado a trabalhar e Valdinéia tomava conta de mim, com medo que meu
pai voltasse. E ele só voltou nos jornais. Agora eram os meninos do cais e o
gigolô turco morto na prisão. O que seria gigolô, e como havia sido morto, o
ceguinho me contou depois. Percebi que ele também sabia histórias, e
passamos a revezar, eu, ele e Donita, as histórias pra contar. (Pausa). O que
passava a me incomodar era que só eu repetia sempre as mesmas histórias, as
que estavam nos livros. Também só eu podia ler. Não era grande vantagem no
cais. Passei a ficar em casa, desde esse dia, a somente ensaiar para a menina
triste da janela, e tentar criar uma história pra contar pra eles. Minha cabeça
fervia e não saia nada. Só me vinham as histórias do livro, até que um dia
Donita, cortando o silêncio da pausa pro leite, disse-nos que todas as histórias
sempre vinham da gente, não importando se eram livros, lendas ou desejos.
Naquele dia então resolvi contar a história da minha vida, tinha finalmente
conseguido buscar mais distante, o que era pra mim passado, e nas mãos da
cigana, o futuro. “Quando você não tiver como ir em frente, olhe pra trás”, ela
disse e eu contei. Vi que todos nós éramos aquilo que queríamos, e vi que ter
histórias e um copo de leite, era o suficiente pra ser feliz. Pelo menos antes que
a história terminasse. Antes que essa história terminasse, e os remédios
também. Olhava então, pela primeira vez, o relógio que Donita tinha na parede.
Percebia o quanto o tempo passava à medida que minhas histórias ficavam.
Lembro que falei de minha mãe, da festa e de Adela, é claro. Disse exatamente
como ela havia se vestido pra festa, e o quanto era bela. Daí não passei.
Descobri que éramos fortes mas não éramos pedra. Parei a história e o
ceguinho, somente pela segunda vez chorou. Outra lágrima e um suspiro. Ele
tinha acabado de ver de novo, assim como no dia da minha apresentação, com
todos os detalhes, que a vida poderia ser colorida, além da escuridão que o
cercava. O resto da noite foi o silêncio, e a despedida da gente. Olhei pro

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relógio, e percebi quantas horas gastávamos com os outros, enquanto
esquecíamos da gente. Donita já não tomava o remédio fazia uma semana, e
cada dia estava pior. Naquele dia, o silêncio só era cortado pela sua tosse e um
escarro de sangue. Mesmo assim, com toda falta de música, eu dançava dentro
de mim, e sentia que Donita cantava ao som das palmas do cego. Ela mais que
a gente, sabia como seria o amanhã, e a despedida daquele dia foi só ela
cantando, sem palma e sem dança, uma música lenta e dolorosa. Não sei
porque, ela não conseguiu terminar, soluçou e me disse: “Leve o ceguinho, mas
vá pela luz”. (Pausa). No outro dia, pela manhã, enquanto não conseguia dançar,
dona Linda me disse que sairíamos daquele porto imundo e a campainha tocou.
Era a menina triste, com o relógio de Donita. “Minha mãe mandou te
entregar”, ela disse; e saiu. Não deu tempo, e nem tive coragem de mostrar a
dança e entender o que estava acontecendo. Parei um minuto, depois desci as
escadas correndo. O ceguinho chorava pela terceira e última vez. Eu ia embora,
e a luz da ambulância me confirmou todo o resto. Fui arrumar minhas coisas,
enquanto via no espelho, pela última vez, a menina mais triste que eu havia
conhecido. Desci as escadas, deixei o livro com o cego e fui embora, pra
sempre, sem olhar pra trás. Tenho certeza que o cego ainda lembra das
histórias, e a menina triste ainda me olha ensaiando. O relógio está me
confirmando as horas, é tempo de dançar!

CAI O PANO




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     MONÓLOGO 3 (SEM TÍTULO)

MULHER 2:
          Preciso me arrumar! (Pausa). Ah, sim, não posso me esquecer... (Pausa).
Bom, mas ele era assim mesmo. (Ri). Pegou em minhas coxas e tudo. (Pausa).
Meus pais me adoravam, lembro bem que eu era a alegria da casa, ele só não
quis ficar comigo, mas tudo bem, um dia ele ficaria... (Ri). Quando eu fui morar
com minha tia em outra cidade, não precisei me despedir, pois foram todos
juntos, minha mãe, meu pai.... meu primo não foi, bom, mas ele era assim
mesmo. (Pausa). Não posso esquecer de fechar a porta do armário, minha mãe
sempre odiou que eu deixasse aberta. Meu pai não ligava, e ele - meu primo -
podia passar as mãos nas coxas de todo mundo. Não posso esquecer de fechar
a porta do armário e a janela da sala. Cidade pequena não tinha mais sossego, e
buzina de carro me lembrava praia. Todo domingo. Ele chegava e... ah, sim,
tinha sua irmã. Era bom ser filha única porque só tinha irmã quando queria.
Tinha feito um trato com ela de sermos irmãs até a morte. (Pausa). Preciso
organizar melhor meu pensamento, não é? Vou falar dela agora. Vou falar a
verdade mesmo, pois pode parecer mentira pra alguns tudo o que eu contarei.
Mas antes, um pouco de café. (Pega uma térmica, depois joga no chão). Tá frio. Odeio
café frio, era sempre o que ele dizia, mas sim, minha prima... (Pausa). Não vou
falar de meus pais não, já falei um bocado. (Pausa). Ah! Não falei não? Meus
pais mereceriam dias de lembrança, só que eu não os conheci. Tinha ido cedo
pra casa de minha tia. Só os reconheci depois que a porta se abriu. Ele, não. Eu
reconhecia pelo cheiro. Adoro cheiro de flores! Lembrava o quintal de minha
mãe. O quintal de minha mãe tinha um... ah, lembrei do cachorro, o nome dele
era... (Pausa). Que saco, não aguento mais esperar, vou aproveitar e contar a
história de minha prima. Já falei dela? A do pacto de sangue!? Ô coisa nojenta é
sangue. Minha prima era, até aquele dia, e o aniversário dele, quando minha
mãe comprou o presente, que eu escolhi. O cachorro latiu bastante naquele
domingo. A praia seria boa. (Pausa). Lembro que eu caí. Ô coisa nojenta era
sangue. Não pude ir pro seu aniversário. Minha prima lembrou do pacto. Ele
poderia ser irmão de todas as minhas primas. “Seu primo te leva na escola”, e
eu adorava o cheiro das flores. Quando minha mãe voltou do aniversário eu
tinha comido todas. Não todas do quintal, mas quantas eu podia. Só fazia cocô,
no outro dia, mas pior foi neste. Me escondi atrás do armário, depois dentro
dele, depois de todo mundo. Apanhei e vi que minha mãe não era santa. (Ri). O
pior foi meu pai, que assistiu como santo. Eu, era o demônio. “Bom nome pro
cachorro”! Meu primo dava o cão e o nome, me levava pra escola e eu nunca
tinha visto ele com a camisa que eu tinha dado. Ufa, falei demais. Por isso
tomei outro tapa na boca. Só por isso. “Quem fala demais morde a língua”.
`Meu primo gostava mais de conversar com minha mãe do que comigo, “mas é


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claro, ele já é um rapaz”. (Pausa). Não sei porquê meu pai era velho. Babava,
arrotava na mesa e batia em minha mãe. Bem feito, era minha vingança. Não
que eu não gostasse de minha mãe, mas odiava apanhar. (Pausa). Estava
chegando minha festa de quinze anos, e meu primo estrearia a camisa. Quem
me disse? Eu estou dizendo. (Pausa). Lembro que no dia de praia todos bebiam.
Menos as crianças, é claro. Mas eu não era mais criança. Minha mãe não tinha
entendido isso ainda, e só quem percebia era meu primo. Não sei bem se
percebia ou eu me fazia perceber, só sei que na praia ele me olhava, pelo menos
na praia, com os olhos de desejo que olhava pra todas as primas. Ele só parou
de olhar quando começou o namoro com Ritinha - minha prima. Foi só uma
semana. Ninguém gostou na família, mas o cachorro era lindo! Meu pai
confundia demônio com diabo, mas na hora de chamar minha mãe, pra
qualquer coisa que fosse, eu era a reserva e não podia brincar. Tudo bem,
adorava meu velho pai. Minha mãe, não. Só sentava na mesa depois de tudo
posto. E não queria minha ajuda. Eu era muito nova pra tudo, menos pra
cuidar de meu pai quando ela não estava. (Pausa). Todas as minhas primas
tinham feito quinze anos, meu pai estava doente e na última festa eu tinha
apanhado só por vestir uma roupa de minha mãe que não dava mais nela.
(Pausa). Quanto mais perto dos quinze anos eu ficava, menos eu podia ficar
com meu primo, e mais com minha prima. Lembro bem que meu peito já tinha
nascido, e tinha vergonha dos cabelinhos que nasciam na xereca. Me sentia
culpada pelo olhar de minha mãe na minha primeira menstruação. Foi cedo...
(Pausa). Foi bastante cedo que minha mãe me levantou pra ir à praia. Era moda
os biquínis asa delta, só que eu não podia ter pois era criança ainda. Minhas
primas todas lindas de biquíni, meu primo olhando pra elas e um mal-estar de
minha mãe encurtava a praia. Aquele dia foi chato. Todo mundo passou mal.
Eu era a melhor no vôlei, apesar de ser pequena. “Brincadeira de moleque!”.
Com quem eu ficaria? Conversa de mocinha eu não podia entrar, a curiosidade
foi pior. Lembro que um “mostra aí”, “pega aqui”, risos e já estava tarde, me
deixaram dormir na casa de minha irmã. Lembra, a do sangue!? Sabe como foi
o pacto? A porta bateu e meu primo tinha chegado tarde. Namoradinhas. O
cão avisou, ele sempre avisa. Lá em casa ninguém ouvia. Só eu. Prometíamos
ser irmãs até a morte. “A morte de quem?”. Foi a pergunta de meu pai quando
minha mãe saiu de preto. Amiga de minha mãe morria sempre, e seus vestidos
pretos eram lindos. Como o da festa, que eu apanhei. Doeu, mas tinha sido boa
a noite. Ouvi meu primo chegando e deu pra ver seu último beijo na namorada.
Se é que aquilo era um beijo, e não sabia com quem brincar, as conversas de
mocinha eu tinha com minha irmã, minha prima, meu primo entrou em casa e
o cachorro parou de latir. Que coisa nojenta era sangue, e tinha ficado
menstruada na casa de minha prima. De noite. “Podia ter ligado de noite e
avisado a gente”. Meu pai dizia que eu já era uma mocinha e irritava mais minha
mãe. Meu pai tinha ficado doente e triste, mais de repente do que velho.
(Pausa). Eu também entristeci. Não fui pra praia, fiquei com meu pai e não

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   tinha o que fazer. Fui tomar banho de mangueira e meu biquíni ficou
molhado, praia só na semana que vem, e minha mãe chegava alegre. (Pausa).
Bom mesmo era quando minha tia viajava e eu podia ficar sozinha com minha
prima. “Deixou a porta do armário aberta!” Não! “Não me responda!”, e eu
não podia curtir aquele final de semana na casa de minha prima. Lembro que a
cama de meu pai era enorme, mas só cabia ele na minha cabeça. Nunca tinha
visto minha mãe deitada nela, até que... (Pausa). No primeiro dia que eu roubei
o batom de minha mãe, aproveitei e abri a “nunca abra” gaveta de meu pai.
Não tinha nada a ver o batom com aquela arma. Ainda bem que eu fechei a
gaveta, pois o armário era mais uma vez motivo pra eu apanhar. (Pausa). Foi
burrice colocar o batom de minha mãe pra ir à praia. Meu primo achou lindo e
eu apanhei de novo. Tinha que ficar mais uma vez com meu pai, doente e
velho, um ex-militar aposentado, nada a ver a arma e o batom, mas os dois
apontaram pra mim algum desejo. Queria ir à praia. (Pausa). Mais um ano de
vida, muitas felicidades, “é big” e meu primo sem a camisa, meu pai mais velho
e mais triste e meu primo sem a camisa. Tudo bem, a gente combina depois, e
mais uma vez dormia, ficava até tarde e via os beijos, as mãos de meu primo e o
cão avisando. Bronca já era costume, e eu queria mais que um beijo, meu pai
chamava minha mãe de amor e ela saía de casa. Meu pai podia até ficar triste,
mas a volta de minha mãe todo dia lhe alegrava. O pacto de sangue funcionava
agora, e roubávamos, eu e minha prima, o batom de minha mãe.
Conversávamos na cama de meu pai e ele quietinho só despertava do cochilo
com o latido do cão e “Sua mãe já chegou”, não, íamos até a sala sem ter o que
fazer e voltávamos felizes, ficávamos com meu pai, e não mais cuidava dele
sozinha. (Pausa). Minha tia nunca mais tinha viajado. Lembro que quando eu ia
na casa dela brincava de me esconder. Quase sempre nos armários. A casa dela
era cheia de armários, e era sempre a casa dos esconderijos. Lembro também
que escondemos o batom de minha mãe em cima de um deles, até o dia que ela
ia sair, procurou justamente este, apanhei e não resolvi nada, não estava
comigo, e um pacto de sangue era mais que um respeito por tia, minha prima
rindo na grande cama de meu pai, e minha irmã era o pacto até a morte. (Pausa).
Mais uma festa e ele sem a camisa que eu tinha escolhido. Foi tratado super
bem por minha mãe e desprezado por mim. Só eu e minha prima, e ela
engessada ao tentar pegar o batom em cima do armário. O médico disse que ela
teve sorte. Eu não, fiquei sozinha, eu e meu pai, sozinhos, um olhando a
solidão do outro. (Pausa). Isso nunca mais ia acontecer, jurei, e na sorte de uma
praia, voltei cedo, eu e todos, minha prima no mar, água no pulmão, “sapeca”,
o médico coçava a cabeça dela e eu lembrava de meu pai. Meu primo tinha
salvado sua irmã e a minha, e o cachorro latiu. (Pausa). Minha tia ia viajar, passar
bom tempo fora. Eu doida pra ficar em sua casa, meu pai doente, mais uma vez
minha prima comigo na cama, as duas de batom e no cochilo eu mostraria a
arma. Minha mãe ia sair mais uma vez. Meu pai essa época dormia mais que
tudo e não enxergava quase nada. Combinamos ir pra casa de minha prima, a

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casa vazia, e fazer o que quiséssemos. Lembro que tínhamos mais planos que
armários e eu queria tirar o cheiro de mofo da camisa. Lembro também que
íamos experimentar roupas pra nova mocinha da família, eu, quinze anos quase,
peito, bunda, pentelho e repreensões de minha mãe. “Já está com corpo de
mulher” me fez usar maiô, por ordem de minha mãe, e mostraria minha barriga
branca pra minha prima naquele dia. Meu pai roncou e fomos. Meu único
medo era encontrar com meu primo. (Pausa). Lembro que no primeiro ronco
deixei meu pai, no segundo bati a porta e no terceiro devia estar com a chave
na mão, a porta nunca fazia barulho, minha prima alisando o cachorro, eu
correndo na ponta dos pés, “ninguém pode ver, nem ele” e entramos em casa.
A namoradinha viajando deixava a grande possibilidade de meu primo estar em
casa, mas os gemidos confundiram tudo. Não sabíamos o que fazer. Eu
adorava os beijos e mãos de meu primo, mas o pacto não revelara isso à ela.
Como dizer. Foi excitante? Minha prima me chamou e estávamos perto da
porta. “Você já é uma mocinha” e apertou meu seio em sua mão. “Venha ver”.
Sorri. “Já viu algum homem nu?”. O riso diminuiu. “Um pinto duro?... nem
mole?”, no canto da boca deixei transparecer o que estava vendo, e as mãos de
minha prima foram do meu seio pra sua boca. Um vestido preto na cadeira. O
cão latiu. Meu pai deve ter acordado e fugimos de minha mãe, meu primo e da
lembrança. Adiantaria pouco a fuga, e muito menos a mentira. Mas contar pra
quem? As mãos de meu primo suadas, as costas de minha mãe mexendo e um
sorriso em seus cabelos, que mexiam, mexiam, mexiam, mexiam... o vestido
preto... só vesti uma vez um vestido preto e estava sujo, apertado, e meus seios
nunca haviam balançado como os de minha mãe. (Pausa). Meu primo nunca
mais tinha ido lá em casa. Festa agora só no meu aniversário. Minha tia voltava
de viagem com a notícia de outra, o cão latiu, meu pai acordou de um pesadelo
e minha mãe tinha acabado de chegar em casa, toda de preto, pra consolá-lo.
“Morreu mais alguém?” perguntou ele, e minha mãe acariciava ele bem mansa.
(Pausa). Nossos segredos eram agora parte do nosso pacto. Até a morte. Só
conversávamos dentro dos armários e meu pai na cama, roncando. O barulho
da chave na porta fez a gente sair correndo do armário, deixando a porta aberta
e o joelho de minha prima sangrando. Que coisa nojenta era sangue. Minha
mãe brigou com nós duas, contou pra minha tia e ela ia viajar de novo. Ficava
cada vez mais longe meu aniversário e eu não poderia brincar mais com minha
prima, naquela viagem que meu pai, cada vez mais velho, doente e triste,
quando não via minha mãe, ficava cada vez mais longe de mim em sua imensa
cama. Eu esperei minha mãe sair. Era uma dificuldade cada ronco de meu pai.
O cão latiu na saída de minha mãe. Não queria que minha prima visse o meu
pai e nem eu queria ver as mãos de meu primo. Mas alguma coisa eu iria fazer.
Lembra do pacto de minha irmã? Ela mesmo! Não falei dela não? A do pacto
de sangue!? Ela deixou, naquele dia, a chave da porta comigo, e levou o
cachorro pra passear. Deixei meu pai indo tão distante na cama, que tive a
impressão que nunca mais ia ouvir ele roncando. Ao sair de casa, o cão latiu e

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   ele nunca mais roncou. Corri na ponta dos pés, que nem naquele dia, deixei
em casa tudo aberto. Minha prima devia ter ido pra bem longe com o cachorro,
só via a chave rodando, a porta nunca fazia barulho, e entrei. Os mesmos
gemidos de antes, lembrei das mãos, minha mãe batendo, o carinho de minha
prima, as mãos suadas de meu primo, e deixei minha mãe num daqueles
armários. Meu primo não, tratei dele como devia. Encostei ele na cama, vesti a
camisa que minha prima tinha lavado, passado e o pacto era pra sempre, até a
morte. Sem cheiro de mofo, adorava o cheiro das flores, o quintal de minha
mãe e o nome do cachorro era.... Ele já deve estar chegando. Preciso me
arrumar!

CAI O PANO




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MONÓLOGO 4 (SEM TÍTULO)
HOMEM 2:
           (Homem sentado em uma mesa com um papel à sua frente. Ele lê atenciosamente
este papel) “...Até algum dia”. (Ri). Algum dia, essa é boa. Ficaria muito melhor
um até nunca mais. Soaria mais verdadeiro. Como nossa música, lembra? Sei
que você odeia música, mas não custava nada uma dose de romantismo.
(Pausa). Lembro que naquele dia minha mãe me obrigou a tomar sopa. Usou o
mesmo argumento de sempre; “É só porquê seu pai morreu...”, e eu não
suportava futebol, meus colegas marcavam pra assistir e eu nunca ia. Na casa de
Pedro era diferente. Tinha sua mãe e sua irmã que me tratavam muito bem, e
Pedro era gente-fina. Era então São João, e minha família ia viajar em peso para
o interior. Eu tinha prova e a sopa tinha esfriado, a última colher de xarope e
um “Fique direito com sua tia” me faziam voltar a casa de Pedro. (Pausa).
Ficava a maior parte do tempo com ele. Minha tia era velha e chata, só que me
adorava. Não tinha filhos, e Pedro era motivo de inveja. (Pausa). “Não dá mais
pra continuar” era o pior adeus que se podia dar a uma pessoa; acho eu, pelo
menos, pois foi também o único verdadeiro adeus de minha vida. Até agora,
pelo menos. (Pausa). Pedro era mais velho que eu e a gripe também fazia com
que minha tia proibisse o que eu acabara de fazer. Fugir de sua casa era simples,
a chave ficava atrás do jarro, e minha mãe era irmã dela. (Pausa). Pedro era alto,
bonito e forte; pelo menos pra mim, e me chamava pra olhar a lua, pelo menos
pra mim. Era impressionante a confiança que minha mãe tinha em mim, e
Pedro me deu um beijo. Era tarde quando minha tia me acordou, minha mãe
vinha me buscar e conheci você. Era fácil não lembrar que minha mãe me
apresentou você, eu já tinha me apresentado com os olhos. Adorava xingar a
bichinha do sétimo andar e minhas mãos suavam ao apertar a sua. Estranho
mesmo era não gostar da irmã de Pedro. Estranho era, pois depois da lua não vi
nem ela nem minha tia velha e morta desde então. Outra morte sem despedida
e só você me dizendo “...Até algum dia”. (Ri). Algum dia, essa é boa. Ficaria
muito melhor um até nunca mais. Soaria mais verdadeiro. “Mais verdadeiro e
mais verdadeiro”, minha mãe me dava um tapa e eu prometia não mais mentir.
Parei assim como você, (ri), não é? Aliás, mentir nunca foi do seu feitio, dizia
verdades demais. Talvez por isso não tenha dito um reconfortante eu te amo.
Era o que eu precisava dizer pra Pedro ou pra lua, por aquele momento. (Pega o
papel e volta a ler). “Sua mãe nunca gostou de mim....”, mas é claro! Como ela iria
gostar do homem que me fez filho, pai, mãe e mulher, principalmente mulher,
pois mãe ela deixaria de ser algum dia, mas pra ela, a mulher ficaria na minha
cabeça como única e perfeita. Respeite seu pai eu não ouvia mais, era pior
agora. “Se seu pai estivesse aqui você não faria isso”, ela me dominava com
chantagem, vivíamos a perfeita relação mãe e filho. Vivíamos até que ela
descobriu que ia me perder pra outro homem. Ela nunca soube de Pedro,
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   minha tia estava morta e eu não veria ele. Tentei um dia, de ônibus, ir até sua
casa, mas as pernas me tremeram e eu já te conhecia. O resto da noite foi a
vontade de olhar a lua, seus olhos e a boca de Pedro. (Pausa). Minha mãe tinha
acabado de me acordar, olhei o sol, a certeza do dia e fui ao seu encontro.
Lembrei de ter sido apresentado à uma pessoa que eu não sabia de onde vinha.
Voltei pra casa com o pão e uma bronca de minha mãe. No meio do café a
campainha tocou, você já estava interessado em mim... minha mãe outra vez
me apresentou à você, só que agora era o vizinho do 29. Tinha ficado mais fácil
a distância e mais difícil o começo. Era pra ser difícil, pois você me convidou
pra ir em sua casa e minha mãe adorou a idéia, disse que eu não me enturmava,
não gostava de futebol, e, ha! Lembro bem que você disse: “Também detesto”,
esporte bruto, não foi? Bem, só me importava a sua delicadeza, “como é que
foi com seu amigo”, nada tinha acontecido, o maior respeito, foi legal, ele me
mostrou uns livros de informática. Saía do futebol para o computador. Merda!
(Pausa). Mas tudo bem, ser exigente era fácil quando se é sozinho e não se
precisa de alguém. (Pausa). Fui dormir pensando no que poderia ter acontecido
se eu beijasse ele, ele caiu no sofá, eu por cima dele, e no terceiro dia deixava
pra trás todas as dúvidas à respeito de mim. Se fui bem, não sei, mas que foi
bom, foi... minha mãe então estranhava eu sempre indo pra sua casa e me
perguntou certo dia: “Drogas”, eu ri, dei um beijo nela e disse, pra você talvez.
Ela não entendeu, e fiquei sem entender as lições de computador enquanto
você me beijava com os olhos. (Pausa). Seus olhos, sempre falo neles sem nunca
olhá-los direito. Sempre fui assim, aprendi com minha mãe. Ela descobria logo
o que eu estava sentindo, e não queira que você soubesse o quanto estava
apaixonado, palavra forte, dizia minha mãe ao ver a novela, e completava
perguntando quando eu ficaria. O que ela mais queria era ter netos e eu
querendo o neto dos outros... (Pausa). Ter humor é um dom, dizia minha mãe,
dom esse que eu tinha perdido, sorumbático pela casa. Que palavra feia, não é?
(Pausa). Minha mãe perguntava sobre progressos nas aulas de computação e eu
dizia, não era aula, só aprendia bobagens, jogos, brincadeiras que você fazia por
entre minhas pernas e que me deixava todo suado, lembra!? Ser tímido tem suas
vantagens, mas fui eu quem te agarrei. Você sabia tanto de minha pessoa, e
quando eu estava com você nem eu sabia de mim. Isso é piegas mas é verdade.
(Pega o papel e lê). “Estou me mudando”. Lembra que você mentiu pra mim, pelo
menos por três horas, tempo do caminhão chegar. Tão pouco tempo e já ia
embora. Minhas noites voltavam a ser lua, quando tinha, e sua o tempo todo.
Você ainda não sabia de Pedro e tinha ido embora. (Pausa). Minha mãe me deu
um beijo desejando boa sorte. Servir ao exército era estranho até chegar no
quartel. Caso foi o que não faltou, quando não estava na solitária. Tinha me
tornado homem e não podia voltar pra minha mãe. Servi ao exército e me
mudei de casa, com economias minhas e um emprego qualquer, arranjado por
minha mãe, e veja, recriminado por ela. Minha mãe passaria a viver sozinha
quando a campainha tocou, era você com flores. Sacanagem, a estabilidade me

               Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 56-77, fev. 1999
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servia de perdição, minha vida se arrumava pra você entrar nela e se
aproveitar de mim. Foi só o que você fez. Quando então descobri o que você
fazia da vida, já não tinha mais sentido me afastar, bem verdade não
conseguiria. “Nosso ex-vizinho morando com você”, minha mãe não era besta
e se fazia de desentendida. Desaprovou e veio cumprimentá-lo, visitando pela
primeira vez essa casa. (Pausa, lê o papel). “Não sabia de Pedro”. Confiança?
Isso não era questão de confiança, era intimidade. (Lê o papel). “Mais intimidade
que a gente tinha?!” Ah, por favor, você já sabia de tudo e não precisava drama.
Só me arrependo de não ter contado antes pois a partir daquele dia tudo era
motivo pra Pedro e conte mais e não foi só aquilo, de vez em quando. (Pausa).
Minha mãe deixou de me visitar depois que você veio. Reclamava de solidão e
só eu fiquei, naquele dia em que você me deixou esperando e só voltou depois
de uma semana sem trabalho e saudade. Foi o primeiro aviso. Aquele infarto
me mostrava muita coisa. Fiquei na sala de espera sozinho, olhando uma foto
de minha mãe na carteira, você longe e um “Ela é bastante forte, foi só um
susto”. O maior susto foi ver Pedro e sua irmã no hospital, ambos
desconsolados com a morte da mãe. Outra despedida sem adeus. Pelo menos
minha mãe não tinha ido, pensei no bar em frente ao hospital, já relaxado e
frente à duas pessoas que me marcaram profundamente, me apaixonei, uma
recaída, e acordei no outro dia numa cama larga, a irmã de Pedro ao meu lado e
a foto de minha mãe na mão. Me vesti apressado, preocupado com aquele que
pouco ligava pra mim... talvez por isso! Bem, a irmã de Pedro acordou a tempo
de se despedir e me dar outro beijo. Fiquei mais um pouco, minha mãe já
estava em casa e você não dormira na minha. Nossa? Já não lhe bastava eu ser
totalmente seu? (Pausa). Durante uma semana saímos separados, eu
encontrando a irmã de Pedro e você se perdendo na vida. (Pausa). Você ia
viajar, mais uma de suas sumidas, e aproveitei pra ficar na casa de minha mãe.
Reparei no quadro de meu pai como nunca havia reparado. Ele parecia me
repreender com aquela cara de sério que sempre teve. “Isso é que era homem”,
minha mãe batia no meu peito, já totalmente recuperada, “Como está seu
amigo”, acho que até demais. Foi estranho a campainha tocar. Fui atender
achando que a viagem tinha se encurtado, e me surgiu um senhor de boa
aparência, perguntei o que ele queria e um beijo de minha mãe respondeu.
Sentia agora o mesmo que ela, ao me perder pra outro homem. Seria uma
relação maravilhosa, a nossa, se não houvessem homens, desde meu pai,
atrapalhando. Agüentei o intruso uma semana até o outro, você, vir me buscar.
Confesso que foi romântico, apesar de não ser costume. Botou uma música no
carro que eu não sabia como tinha comprado e bem, também não queria saber,
só me restava algumas horas antes do sono. (Pausa). Foi uma retomada na
minha vida, essa semana que eu passei com minha mãe. Fui tratado bem pelo
seu namorado, apesar de sua aparente falsidade, e minha mãe tinha tratado você
bem. Ela só errou quando falou de Pedro. De novo a mesma crise, gritos,
ciúmes idiotas e o telefone tocando. Atendi, era Pedro. O “liga depois” não deu

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   pra disfarçar, foram mais gritos e um “não sei quando volto” e a porta
batendo. Pensei em ligar pra minha mãe, mas ele tinha quebrado o telefone de
raiva. O jeito era olhar a lua. Nova. O céu escuro. Somente a luz do abajur me
iluminava. (Lê). “Parto. Pensei em ficar mas não podia”. Parto, parto... parto...
lembrei de minha mãe e peguei um táxi até sua casa. Ninguém. Deve ter ido
jantar fora, um infarto fulminante, eu de novo no hospital, sem Pedro, sua
irmã, sozinho chorando e você na rua. Perdi a única pessoa que me respeitava.
Era o suficiente. Alguns dias depois tudo voltaria ao normal. Pensava eu, pelo
menos. Você voltou, como sempre, ou como sempre deveria ter voltado. Acho
que meu ódio era tão grande que beirava o amor, vendo você ali, indefeso do
outro dia, pálido de todo dia, triste de toda a vida. Sempre quis saber o porquê
de você ser assim triste. Não conhecia sua família. Era sozinho. Talvez a
homossexualidade o perturbasse. O dia mais triste da minha vida, passei
curando a sua depressão. Isso era amor? Você nem sabia de minha mãe e sorriu
no segundo carinho. Deixei tudo pra lá, ou tentei, e fomos dormir. Chorei a
noite, sozinho, chorei a lua, sozinho, e me vi cercado de solidão com você ao
meu lado. Acordamos com o telefone, não podia ser Pedro e era. Resolvi não
disfarçar. Meu coração bateu mais rápido, sem no entanto imaginar porquê ele
continuaria assim depois. A irmã de Pedro estava grávida e o filho era meu.
Engraçado que nesse dia você nem reagiu, foi na cozinha pegar um copo de
água e trouxe outro pra mim. Não conseguia entender; uma mulher, um filho,
uma traição e um copo de água?! (Pausa). Nesse dia você estava tranqüilo.
Mesmo depois da notícia, continuou calmo e tomou café da manhã comigo.
Disse-me então que ia sair e voltava logo. Estava calmo mas também triste,
cabisbaixo. Realmente você não demorou. (Pausa, lê). “Gostava à minha
maneira, se era boa ou ruim, eu gostava”. Nem um amavazinho!? Lembro
como você olhou disfarçadamente pros meus olhos... minha timidez às vezes
ajudava. Sempre dizia isso. Pena que eu perdi o meu humor. “Ter humor é um
dom”. E você, mãe, que teve o dom de amar!? As coisas aconteciam comigo
numa avalanche. Aquele pouco tempo que eu passei te esperando, fez-me rever
muita coisa. De repente eu era pai, órfão, e de repente eu não era nada. O que
eu tinha construído? Uma gravidez? Eu morava no meu apartamentozinho,
com outro homem, meu namorado, minha mãe tinha tido um ataque
fulminante e eu era pai. Como eu seria pai? Ser pai era ter autoridade e a porta
batendo revelava sua chegada. Me entregou um envelope e sumiu não sei pra
onde. (Lê). “...Até algum dia”. “Não dá mais pra continuar”. “Sua mãe nunca
gostou de mim....”. “Não sabia de Pedro”. “Mais intimidade que a gente tinha?!
Parto. Pensei em ficar mas não podia. Gostava à minha maneira, se era boa ou
ruim, eu gostava”. Nada original suas palavras. Pensa que eu não vou te
esquecer por elas? De jeito nenhum. Outras lembranças virão, melhores ou
piores que elas, e talvez menos verdadeiras. Eu tinha mentido pra minha mãe.
Eu era gay. Meu primeiro relacionamento foi um beijo em Pedro, vizinho da
minha tia. O traí com sua irmã, anos depois. Quem eu fui? Quem sou eu agora?

               Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 56-77, fev. 1999
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Um mentiroso? Você não sabia de Pedro porque eu tinha medo de contar.
Sempre invejei sua coragem. As noites de lua eu olhava pro céu e lembrava de
Pedro, um amor inocente, se é que eu posso dizer que amei. Agora que você
não está aqui eu posso dizer. Eu não soube amar talvez quem merecesse. Mas
agora eu seria pai. (Ri). Posso ter sido fraco, mesmo em sua despedida, a única
despedida que eu tive. Um adeus. Mas eu poderia ficar forte. Você foi fraco.
Cortar os pulsos na banheira. Sem originalidade nenhuma. Dizer adeus e cortar
os pulsos. Os outros não me disseram adeus. Acho que nem eu direi. Foi pouco
nosso tempo, e eu não sei como será o meu. Eram dois envelopes. Um aberto,
como seus pulsos, o outro, fechado, você me deu. Deixar uma semente
estragada na terra. Nessas horas a gente até vira poeta, e essa merda que deu
positivo... (Pega o papel e rasga).

CAI O PANO




               Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 56-77, fev. 1999
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     PARTE 2 - Cláudia Barral

A Conversa de Lucila
(No escuro ouve-se o bater de asas. A luz vai lentamente iluminando o quarto de
Lucila, o anjo está pousado em uma mesa.)
O anjo – Lucila, quer montar nas minhas costas?
Lucila – Você já não me aguenta.
O anjo – Aguento sim!
Lucila – Eu não quero.
(O anjo começa a sacudir as suas asas.)
Lucila – Você está fazendo vento.
O anjo – Incomoda?
Lucila – O suficiente.
(O anjo fecha a asas. Permanece silêncio)
Lucila - Eu queria lhe fazer um pedido. Não me diga as coisas.
O anjo – Mas eu estava calado.
Lucila – Eu sei. Mas não quero que me diga nunca mais.
O anjo – Por que?
Lucila – Por que enquanto você fala eu, sem perceber, aprendo a ouvir.
O anjo - E se souber ouvir?
Lucila - Toda palavra será perigosa..
O anjo - Ninguém lhe fará mal sem que você permita.
Lucila - Mas se eu ouvir as pessoas e as suas frases que outra coisa
        estarei fazendo senão permitindo?
(Pequena pausa)
O anjo - As pessoas nem sempre são ruins, Lucila.
Lucila - Mas as pessoas sempre têm medo.

                Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 78-82, fev. 1999
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O anjo - E isso as torna ruins?
Lucila - Isso pode torná-las qualquer coisa.
O anjo - E você? Não tem medo?
Lucila - Muito medo de muitas coisas.
O anjo - Isso quer dizer que eu não devo confiar em você?
Lucila - Você pode confiar em mim, contanto que não seja
       absolutamente.
O anjo - Por que?
Lucila - Porque confiar absolutamente em alguém é tirar-lhe o direito de
         errar.
O anjo - Você confia em mim?
Lucila - Eu jamais confiaria em um anjo.
O anjo - Um anjo não tem erros, não tem medos, não poderia traí-la!
Lucila - Um anjo não tem erros, não tem medos, como poderia me
        compreender?
O anjo - Então prefere ser salva pelas mãos das pessoas?
Lucila - As pessoas não se salvam, se aliviam.
O anjo - Então admite que são boas?
Lucila - (Sorri) Ninguém me fará bem sem que eu permita!
O anjo - E você permite?
Lucila - Às vezes.
O anjo - Como?
Lucila - Falando, apenas falando. Primeiro é necessário trair o meu
        próprio silêncio, porque essa traição é a minha voz, e, enquanto
        eu lhe entrego as minhas palavras, a outra pessoa me dedica o
        seu silêncio e isso é o máximo que um ser humano pode fazer
        pelo outro e é esse o milagre.




              Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 78-82, fev. 1999
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     O anjo - Então lhe faço bem porque você fala e eu ouço.
Lucila – Não, você é apenas um anjo. Se houvesse em você a capacidade
        de me fazer o mal e, ainda assim, me fizesse o bem, então seria
        bom. Mas você não tem essa escolha. Um anjo só pode ser bom
        e por isso não é!
O anjo – Então eu não sou bom??
Lucila – (Irritada) Ah, quantas perguntas!!
(Pequena pausa)
O anjo - Por que você tem medo de aprender a ouvir?
Lucila – Porque existem as palavras cruéis.
O anjo - Há o reverso do milagre, então?
Lucila - Teria que haver, não é mesmo?
O anjo - Mas as pessoas só a ouvirão se você ouvi-las! É sempre uma
       troca.
Lucila – E é isso o que eu não quero! Essa troca. As conversas.
O anjo – Mas eu pensei que você gostasse.
Lucila – Eu gosto, ainda.
O anjo – Pela primeira vez eu não te entendo.
Lucila – É tudo e sempre um arrependimento. Ou me arrependo das
        coisas que não disse quando precisava, ou me arrependo de ter
        dito o que não mereciam ouvir e as duas coisas são vazias.
O anjo – Mas não pode ser sempre assim. E quando conversam e riem?
        E quando contam piadas? E os segredos?
Lucila – É maravilhoso, eu sei.
O anjo – Pois então.
Lucila – Mas nada disso impede que as pessoas se afastem. Às vezes é
        ainda mais fácil acontecer com alguém a quem já dissemos tudo.
        As pessoas se abandonam, tão facilmente! E aí acontecem as
        conversas cruéis, as que eu não quero ter!
O anjo – Eu sei.

                Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 78-82, fev. 1999
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Lucila – Sabe?
O anjo - Quando você era menina e eu chegava era uma alegria, Lucila,
        era a sua maior alegria. Hoje eu cheguei aqui e você sequer
        sorriu, percebe?
          Você pode pensar que não mas eu, apesar de ser um anjo, sei
          muito bem o que pode significar a falta de um sorriso. Além
          disso, posso não conhecer bem a forma como as pessoas se
          entendem, mas eu sei perceber quando alguém já se cansou dos
          mesmos assuntos. Eu te escuto, Lucila...
Lucila – E me ouve dizendo que não confio em você.
O anjo – Ouço-lhe dizendo que não posso ser bom.
Lucila - E, se algum dia eu te amei, hoje lhe diria que não te amo mais.
O anjo - E, se tivesse coragem, me pediria para ir embora. São assim as
        conversas cruéis?
Lucila - Compreende agora?
O anjo - Lucila, eu nunca desejei que fosse eterno. Se a menina que eu
        visitava antes de você nascer não tivesse crescido e me
        mandado embora, eu jamais lhe conheceria! Se você não me
        mandar embora, como conhecerei a próxima menina?
        Compreende agora?
Lucila – E como você sabe que haverá uma próxima menina?
O anjo – Alguma vez já deixou de haver um dia após uma noite?
(Lucila sorri)
O anjo – Pois então! Eu já espero a manhã seguinte!
(Ficam um tempo em silêncio, o anjo se empoleira na cadeira de Lucila)
Lucila – Já reparou que, às vezes, as pessoas estão conversando e, de
        repente, ficam caladas?
O anjo – Dizem que quando isso acontece é sinal de que um anjo caiu.
Lucila – Isso acontece quando já não há mais nada a dizer.
(Ficam novamente em silêncio. Lucila olha para o anjo)


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     Lucila – Quando você fica empoleirado, exatamente assim como você
           está, parece uma galinha gigante.
O anjo – Eu vou embora, Lucila.
Lucila – As coisas têm que ser assim?
O anjo – As coisas acontecem como precisam acontecer.
Lucila – Você vai voltar?
O anjo – Se algum dia você quiser que eu volte.
Lucila – Terá raiva de mim?
O anjo – (Sorrindo) Nem que eu quisesse. Eu sou um anjo, esqueceu?
Lucila – Quer dizer que, depois de tudo que eu lhe disse, você ainda
        gosta de mim?
O anjo – O amor de um anjo é eterno.....
Lucila – E existem as coisas eternas?
O anjo – Lucila, são os anjos que não existem. Adeus.

  (O ANJO SOBE NO PEITORIL DA JANELA, ENDIREITA AS SUAS ASAS E
  SAI VOANDO.)




               Cadernos do GIPE-CIT. Salvador, n. 3, p. 78-82, fev. 1999

								
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