Ensino de Ci�ncias

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					                     Ensino de Ciências
                    e Educação Infantil
                          Russel Teresinha Dutra da Rosa


                   Princípios da área de ensino de ciências


       O ensino de ciências na educação infantil acontece preferencialmente
integrado às demais áreas de conhecimento, proporcionando, através dos co-
nhecimentos acumulados, teorias, metodologias e instrumentos da área, uma
riqueza de possibilidades de exploração do mundo realizada pelas crianças.
Muitos dos temas enfocados por esta área, são temas de interesse das crianças
sobre os quais elas já vêm se perguntando e construindo concepções e
representações, sendo fundamental, ao planejarmos qualquer atividade en-
volvendo conhecimentos da área de ciências, criar oportunidades para que as
crianças interajam com diferentes materiais e expressem suas concepções,
representações e hipóteses explicativas. Nesses momentos, através de diferentes
materiais, é possível ampliar interesses e fornecer informações adicionais. Uma
postura desejável no ensino de ciências é a de encorajar as crianças a realizar
testes e expor suas dúvidas sobre os temas abordados.
        O ensino de ciências pode propiciar o contato com a diversidade de formas
de vida e de ambientes, bem como com as necessidades e condições necessárias
à sobrevivência das diferentes espécies de seres vivos, procurando-se incluir a
espécie humana entre as demais espécies e superar visões utilitaristas e
antropocêntricas de natureza. Isto é, olhar para os seres vivos procurando ver
suas estratégias de sobrevivência ao invés de considerá-Ios em função dos
interesses e valores da espécie humana. O ensino precisa superar classificações
simplistas de elementos da natureza como úteis ou nocivos aos seres humanos,
ou como recursos naturais a serem explorados.
        Outro aspecto importante a ser considerado ao trabalharmos com temas das
ciências é a busca permanente de informações, o desassossego. Em ciência, as
verdades são provisórias, são revistas de tempos em tempos, portanto,
precisamos tomar cuidado com expressões como "tal fato foi comprovado
cientificamente". Somente podemos afirmar que um conjunto de experimentos e
observações realizadas rigorosamente, do ponto de vista científico, evi

Russel Teresinha Dutra da Rosa é mestre em Educação, professora assistente do
Departamento de Ensino e Currículo da Faculdade de Educação da UFRGS.



                                                                             141
dencia que tal explicação pode ser aceita hoje. Isso significa que em se tratando
de conhecimento científico não existem explicações definitivas, eternas, absolutas,
o que existem são verdades provisórias que são aceitas e válidas pela
comunidade científica, durante um período histórico, mas que estão sujeitas a
transformações devido ao avanço dos estudos e ao desenvolvimento tecnológico.
Portanto, os conhecimentos têm uma história e o que consideramos correto hoje,
como por exemplo, o fato da terra girar em tomo do sol, não era considerado
correto há 500 anos atrás pelos cientistas.
        Uma das grandes dificuldades do trabalho com a área de ciências é o
excesso de nomenclatura científica, de conceitos e definições encontrados nos
manuais didáticos, em detrimento de explicações dobre os fenômenos da
natureza. Por esta razão, as informações devem ser buscadas em outras fontes,
além dos livros didáticos, como por exemplo notícias de jornais e revistas. Além
disso, na educação infantil, é fundamental que os temas sejam abordados de
forma lúdica através de jogos simbólicos, do "faz de conta", de personagens da
literatura e da televisão e etc.., por esta razão é fundamental utilizarmos e
confeccionarmos materiais alternativos para o desenvolvimento de projetos com as
crianças. Trabalhar com a fantasia e a imaginação, mas também com a
observação, as comparações, as medidas e os registros escritos, os desenhos, as
modelagens, as colagens e etc..
       Em suma, a criança para construir conhecimentos precisa agir, perguntar, ler
o mundo, olhar imagens, criar relações, testar hipóteses e refletir sobre o que faz
de modo a reestruturar o pensamento permanentemente.


                    Alguns princípios da educação infantil


        o conhecimento, bem como as regras e os valores são construídos pela
ação sobre o meio físico e social, cabendo, ao adulto, oportunizar a ocorrência de
situações interativas em que a criança precise tomar decisões, fazer escolhas,
expressar pontos de vista e fazer trocas no sentido de desenvolver a autonomia e
a cooperação. Entretanto os processos pedagógicos não se restringem à
realização de atividades, sendo fundamental a realização de reflexões sobre as
atividades cotidianas.
       É parte dos processos de ensino-aprendizagem a investigação das
concepções e representações das crianças, considerando-se as características da
faixa etária e as especificidades socioculturais do grupo e os ritmos de cada
indivíduo. Para isso é fundamental que o adulto observe, interprete e registre as
ações e as reações das crianças com a finalidade de descobrir o que é
significativo para elas e as lógicas de suas práticas cotidianas.
       O trabalho pedagógico na educação infantil diferencia-se de acordo com a
faixa etária e o processo de construção progressiva de autonomia por parte da
criança. As atividades dedicadas a crianças de zero a um ano precisam considerar
a grande dependência das crianças em relação ao adulto e, portanto, a
necessidade de interações individualizadas adulto-criança, nos momentos de ex-
142 plorar o próprio corpo através de movimentos e da experiência de diferentes
sensações no contato com os objetos. Nessa fase inicial o ambiente precisa ser
aconchegante, mas apresentar, também, alguns desafios através da diversidade
de materiais que irão mediar a relação e as brincadeiras entre o adulto e a criança.
Um exemplo é descoberta de brinquedos que possibilitem formas variadas de
interações dentro de um saco de retalhos ou dentro de uma caixa fechada como
panos, bolsas, bolas, argolas, cubos, fantasias, sapatos e etc..
       As crianças de um a dois anos já poderão participar de algumas atividades
em grupo, mas ainda têm necessidade de muita atenção individualizada por parte
do adulto. Nessa fase, é fundamental pensar em atividades que proporcionem o
desenvolvimento motor e o desenvolvimento da linguagem como, por exemplo,
imitar os movimentos e os sons produzidos por diferentes animais. Aqui, o adulto
precisa estar muito atento para o significado da fala das crianças que se confunde
com as ações e os gestos. Ainda é importante considerar que o tempo de
concentração em cada atividade é muito pequeno, sendo necessário, portanto,
uma variedade de propostas na rotina cotidiana.
       De dois a quatro anos, iniciam os jogos simbólicos, as brincadeiras de faz-
de-conta e uma maior desenvoltura motora das crianças para a exploração do
ambiente e dos objetos. Nessa fase já é possível organizar as primeiras rodinhas
para comunicação e representação como, por exemplo, fazer mímicas para imitar
outros seres vivos, além de desenhar, pintar, modelar, ler histórias infantis, ouvir e
cantar algumas músicas. Nessa fase as crianças começam a tomar algumas
decisões por conta própria como escolher alimentos e roupas e, também, se
alimentar e se vestir sozinhas.
       Nessa época, as crianças começam a se dar conta das diferenças entre as
coisas mesmas e as suas representações através de desenhos, histórias e etc.. A
interação da criança com o mundo se dá, portanto, no plano da ação e no plano
simbólico, através da fala, do jogo e da imitação. A passagem do plano da ação
para o plano da representação se dá através da linguagem. As representações
são condições para as operações mentais. As ações são interiorizadas e
reconstruídas pelas representações. Ao tomar consciência das ações, o sujeito
representa o real. Para isso é importante valorizar o faz de conta, as imitações, os
desenhos, as histórias, a fala, as narrativas e etc. Além disso, a autonomia se
constitui através da responsabilidade em realizar tarefas e em cumprir
compromissos com o grupo. Um espaço importante é o do planejamento coletivo,
isto é, das decisões em grupo sobre as atividades cotidianas.
       Dos quatro aos seis anos, é possível investir nas atividades cooperativas
que requerem negociações permanentes. Nesse período começam a se esta-
belecer as regras de convivência, sendo o momento privilegiado para o de-
senvolvimento de atividades a partir dos temas e metodologias oriundas das
diferentes áreas de conhecimento. Para tanto é importante a observação dos
interesses e das necessidades das crianças, através da oferta de materiais va

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riados e da proposição de atividades diferentes simultaneamente para que as
crianças possam realizar algumas escolhas. Aqui a atividade simbólica começa a
complexificar-se nas brincadeiras de faz-de-conta e nas dramatizações. Também é
possível propor jogos não competitivos e atividades de leitura e escrita de obras de
literatura, de imagens, de músicas e etc.
        É importante considerar que a diferenciação entre o desenho e a escrita
começa a ser construída nessa época. Além disso, a escrita assim como a fala é
aprendida pela exposição a situações comunicativas, por isso é desejável
proporcionar o contato das crianças com diferentes textos escritos na fase pré-
escolar para que percebam as diferenças de estilo entre a linguagem oral e a escrita
e entre os diferentes textos escritos. Para ler, as crianças devem utilizar sua
experiência com o discurso de maneira a desenvolver estratégias que isolem o texto
do contexto de modo a reduzir o número de opções complexas que um texto de
leitura apresenta. Ler, portanto, é lidar com a linguagem como algo em si, como um
meio de expressar significados que são relativamente independentes do contexto
imediato.
       Em síntese, na educação infantil, as atividades devem ser planejadas com o
objetivo de atender as necessidades das crianças em suas diferentes fases de
desenvolvimento de modo a contribuir para os processos de construção de sua
autonomia.
       Face os princípios da área de ensino de ciências e alguns princípios da
educação infantil podemos pensar em algumas atividades que abordem espe-
cificamente temáticas e metodologias da área de ciências naturais.


Algumas possíveis atividades


       Objetivando desenvolver a capacidade das crianças de observar a natureza,
expressar suas concepções e registrá-Ias podem ser desenvolvidas algumas
atividades com obras da literatura infantil, músicas, vídeos, além, é claro, da
exploração do ambiente próximo à instituição educativa.
       Uma primeira sugestão consiste em apresentar para as crianças um "saco
surpresa" com objetos de diferentes materiais (plástico, papel, tecido, madeira,
metal e etc.) que permitam uma exploração táctil. Primeiramente, as crianças
podem ser instigadas a tentar imaginar ou adivinhar o que tem dentro do saco para,
logo a seguir, serem incentivadas, em um jogo, a tocar o saco por fora para
descobrir o que tem dentro. Nessa atividade, as crianças trabalham com outros
sentidos que não o sentido da visão, predominante nas atividades escolares. Elas
podem sacudir, ouvir os sons produzidos pelos objetos, cheirar e, finalmente, tocar
por dentro do saco com a finalidade de explorar texturas e identificar os objetos. O
grau de certeza sobre os objetos aumenta quando as crianças tocam por dentro do
saco. Isso pode ser discutido com elas.
       O saco surpresa pode também ser pensado como metáfora do encontro entre
professora e crianças. Não saber o que existe dentro do saco, o ainda não




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dito, desperta o nosso interesse, nos deixa curiosos, excitados, pennite soltar a
imaginação, bem como depositar nossas expectativas e também nossos medos lá
dentro. O saco pode, nesse sentido, representar nossas bagagens, nossas ex-
periências anteriores, nossos conhecimentos e nossos projetos.

Os bichos na literatura e na vida mesmo

       Dentro do saco pode ter um bicho de pelúcia ou um fantoche como, por
exemplo, um pato. Esse pode se transformar no "Patinho Feio". Feio ou diferente?
Agora imaginem que uma fada apareceu e transfonnou cada um de nós em patinho
feio. O que estamos sentindo? Durante essa atividade podemos nos colocar no
lugar de cada personagem: o lugar do "feiinho", dos outros patinhos, da mãe, do pai
e da professora do patinho feio e, ao dramatizar as ações, descrever os sentimentos
de cada personagem.
       Para enriquecer esse trabalho dramático é importante a realização de
algumas investigações prévias. O que os patos comem? Como é a boca / bico dos
patos? Como são as patas? (refletir sobre as adaptações para alimentação e
locomoção) Como são os movimentos na água, no ar e na terra? São rápidos? São
barulhentos? Onde dormem? São ativos durante o dia ou durante a noite? Têm
hábitos diferentes no inverno e no verão? Vamos imitá-los? Como nascem os
filhotes? Quanto tempo acham que demoram para nascer os filhotes depois que a
pata coloca os ovos? Existem cuidados com os filhotes? Andam sozinhos ou em
bandos? Quem são os inimigos? Vocês sabiam que os patos são aves migratórias?
       Dentro do saco também pode ter um disco com uma música que conta a
história de um monstro que tem medo de princesas.

O MONSTRO
(Luis Tatit)

Era um monstro filho de uma monstra, desses grandes Deformado mas até que
bonitinho como monstro
É que prá gente, prá gente os padrões são outros Tinha muito pêlo pelo corpo
Umas manchas esverdeadas
Uns caroços, uns buracos
Mas também o que você pode esperar de um monstro Muita sensibilidade, isso que
importa
Criativo, um devorador de livros de estória
Não gostava de princesa, achava todas horrorosas Em compensação com os
monstros,
Como se identificava
E ele achava uma beleza as estórias só de monstros




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Mas se pintava uma princesa: "Ai mamãe que medo!
Tire essa princesa.
Ela deve Ter um dente, mãe! TIra!"
Vocês vêem que é um monstro tipo mariquinhas pelo jeito Mas na verdade é a
super proteção da mamãe monstra
É que no fundo, no fundo ele bem que gosta: "Ai mamãe... "

Que medo!
Tire essa princesa,
Ela deve ter um dente, mãe! Tira!"

       A partir da audição da música, as crianças podem desenhar o monstro e sua
mãe. Imaginar o que ele come? Será que os filhotes de monstros comem as
mesmas coisas que os monstros adultos? Qual o seu tamanho? E que tamanho
tinha quando nasceu? Qual o tamanho dos pais? Ele tem irmãos? Do que ele
brinca? Ele tem cheiro? Ele tem dentes? Ele voa? Ele caminha? Ele se arrasta? Ele
pula? Quem são seus amigos? E seus inimigos? Como ele se defende? Do que ele
gosta? Como é a casa dele? Os monstros vivem sozinhos ou em grupos? Quanto
tempo ele demora para nascer? As crianças também podem montar um monstro de
sucata e tentar construir o ambiente onde ele vive.
       A música do monstro permite a continuidade da reflexão iniciada com o
patinho feio. É possível realizar uma discussão sobre padrões estéticos. Quando
dizemos que um animal é bonito ou feio, o comparamos, geralmente, com outros
animais e mobilizamos um conjunto de valores socioculturais, atribuindo
características humanas a esses seres. O que nos faz dizer que um cisne é ma_s
bonito que um pato, que uma princesa é mais bonita que um monstrinho ou, ainda,
que uma borboleta é mais bonita que uma lagarta são convenções e preconceitos
produzidos pela nossa cultura ao longo da história.
       Por outro lado, aquela música possibilita desencadear uma atividade de
observação da imensa diversidade dos' seres vivos, através da descrição e registro
das diferentes formas e adaptações para a sobrevivência existentes na natureza. As
questões anteriormente levantadas e as atividades sugeri das para a exploração do
pato e do monstro permitem o estudo de outros animais como borboletas, sapos,
formigas, baratas, galinhas, gatos e etc.. Tais estudos podem principiar pela leitura
de uma obra da literatura infantil como, por exemplo, "Quintino, o girino" ou "O
pintinho do vizinho". As crianças também podem se fantasiar, buscando caracterizar
os animais estudados. Basta um rabo e nasceu o gato. Com uma almofada nas
costas pode ser feito um casco de tartaruga ou uma corcova de camelo. Um pano
longo, como dois lençóis costurados e uma fila de crianças embaixo são suficientes
para inventarmos uma centopéia. Um lençol com um rabo e duas crianças e está
feita a "vaca louca" ou o "bumba meu boi", ou, ainda, uma "cabaninha" ou uma toca.
Uma caixa de papelão grandona é suficiente para montar um ninho de ratinhos ou
de passarinhos.                                              .




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Nesses estudos dos animais, conforme já foi mencionado, é importante chamar a
atenção das crianças para as estruturas adaptativas dos organismos para
alimentação, locomoção, proteção contra a dessecação, estratégias para fuga dos
inimigos ou estratégias para capturar os alimentos, abrigos e etc. Alguns exemplos
dessas adaptações são os diversos tipos de bicos dos pássaros adaptados para
comer pequenos insetos, peixes, grãos e etc.; as mandíbulas fortes dos felinos
adaptadas para hábitos carnívoros; o casco das tartarugas que garantem proteção;
os pequenos vermes que vivem enterrados ou sob as pedras para evitar a perda de
umidade por exposição ao sol; os ovos das aves protegidos por uma casca
resistente para evitar a perda de água, em comparação com a cobertura gelatinosa
dos ovos dos sapos, que são postos dentro da água; as asas das aves adaptadas
para o vôo; as patas de galinhas adaptadas para ciscar; as patas dos patos
adaptadas para o movimento dentro da água e etc.. Podem ainda ser investigadas
as estratégias de atração e aproximação para o acasalamento (estratégias de
corte). Os sapos e os passarinhos, por exemplo, cantam, o pavão exibe as penas
coloridas, algumas mariposas liberam escamas que têm um odor característico e
esse odor é captado por outras mariposas através das antenas. Podem ainda ser
observados e descritos os cuidados com os filhotes. As espécies que constróem
ninhos, aquelas em que os pais buscam alimento para os filhotes, aquelas em que
os filhotes têm uma alimentação específica como o leite e etc.
       Do trabalho a partir da música do monstro pode derivar, ainda, um trabalho
de investigação sobre os dinossauros. Aqui, é possível tratar de algumas
informações importantes para as ciências naturais como, por exemplo, o fato de os
dinossauros terem existido muito tempo antes de existirem macacos e seres
humanos, o fato de terem sido extintos, o fato de sabermos de sua existência no
passado através dos fósseis e etc.. As crianças podem ser instigadas a fazer
investigações através de questões do tipo: Como as pessoas souberam que os
dinossauros eram assim? O que pensamos, o que queremos saber, o que estamos
descobrindo?
        O trabalho com animais pode aproveitar imagens de documentários, de
livros e revistas com a finalidade de caracterizar com as crianças as populações de
animais e plantas de regiões contrastantes em termos de clima. Quem são os
habitantes das regiões geladas? Pingüins, lobos e leões marinhos, no extremo sul
do planeta, e focas e ursos no extremo norte. Quais são suas adaptações para viver
em lugares tão frios? Os lobos, os leões e as focas apresentam um couro espesso e
uma camada grossa de gordura, os pingüins também têm uma camada de gordura
sob a pele e outra sobre as penas, os ursos além de também serem gordos e
apresentarem pêlos fartos, têm o hábito de hibernar, durante o inverno rigoroso,
diminuindo a necessidade de alimentos (que são mais raros no inverno). De outra
parte, nas regiões muito secas, como o sertão brasileiro e alguns desertos
africanos, encontramos plantas retorcidas com poucas folhas ou com folhas
transformadas em espinhos para evitar a perda de água por evaporação através da
superfície foliar e reservas




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de água e nutrientes nos caules, como no caso dos cactos. Os animais encontrados
nessas regiões como pequenos roedores e lagartos vivem enterrados, para diminuir
o tempo de exposição ao sol e a perda de água.
        Podem também ser feitos passeios para observar pequenos animais no pátio
ou em terrenos baldios ou ainda em granjas ou chácaras próximas. Nesse momento
é importante incentivar as crianças a observar e interagir com os animais, sempre
com cuidado para não expor as crianças a nenhum risco e, também, tratando os
animais com muito respeito, sem machucá-Ios ou estressálos desnecessariamente.
Alguns animais podem ser tocados para que as crianças experimentem as
diferentes texturas de pelos e penas por exemplo. Podem ser observados os insetos
que voam sobre as flores, sendo feitas observações em diferentes horários, como
pela manhã, bem cedinho, e em um horário próximo ao meio dia para que as
crianças façam comparações quanto à quantidade de insetos em cada um desses
horários. As crianças também podem ser incentivadas a prestar atenção nos sons
dos animais nos diferentes momentos do dia. Ao amanhecer, ouvimos o canto dos
pássaros, próximo do meio dia, o som das cigarras e, ao entardecer, o som de grilos
e sapos. Podem também prestar atenção nos insetos que são atraídos, à noite,
pelas lâmpadas. Depois desses passeios e dessas observações, as crianças podem
construir jogos envolvendo as informações como "trilhas", por exemplo, inventar his-
tórias sobre os bichos estudados, confeccionar animais gigantes com sucata, cantar
e inventar músicas para esses animais. Escrever recados e bilhetes para o
personagem inventado e etc.

Observando o céu

      Nas incursões pelos pátios e jardins é possível chamar atenção para as
diferentes posições do sol. As crianças podem fazer medidas do tamanho de suas
sombras, com pedaços de barbante, nó início da manhã, ou no fim da tarde e em
um horário próximo ao meio dia. Podem também fazer medidas das sombras de
objetos como um mastro ou um prédio. Essas medidas podem ser feitas contando-
se os passos. Todas essas medidas precisam ser registradas por elas através de
desenhos e de informações escritas para depois serem lembradas e comparadas. É
possível fazer observações, desenhos e pinturas dos diferentes tipos e cores de
nuvens e aproveitar para ouvir as hipóteses das crianças sobre a formação dos
ventos e das chuvas. Além disso, as crianças podem ser questionadas sobre o que
produz os dias e as noites e sobre onde está o sol quando anoitece ou em dias
nublados e chuvosos. As crianças podem, ainda, ser incentivadas a observar as
diferentes formas/fases da lua, seus diferentes tamanhos e posições no céu.
Geralmente as crianças se fazem muitas perguntas sobre esses temas e é
importante criar situações para que elas possam expressar suas hipóteses e
experimentar algumas problematizações sobre elas.




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                               Por dentro do corpo


       Um outro trabalho importante de ser desenvolvido, na pré-escola, é o de ex-
ploração e conhecimento do corpo. As crianças podem fazer medidas umas das
outras, entrevistar os pais para saber o tamanho que tinham quando nasceram e
comparar esses dois tamanhos. Podem também fazer medidas dos irmãos e dos
pais para tentar fazer estimativas sobre o tamanho que terão quando forem adultas.
Podem ainda aproveitar para medir outros seres, como o gato por exemplo, ou
pequenas plantinhas que estejam cultivando na escola. Podem ainda fazer o
contorno do pé e da mão e compará-Ios c<;>m o contorno dos pés e das mãos de
outras pessoas.
       Também é importante que as crianças toquem o próprio corpo para descobrir
as costelas, os ossinhos da mão e do pé, os ossos do nariz e da face, o crânio, as
vértebras no pescoço e nas costas, os omoplatas, nas costas, o lugarzinho do
estômago, sentir a pulsação do coração, no coração, no pulso e no pescoço, antes
e depois de uma corrida, prestar atenção em outras transformações do corpo,
depois da corrida, como o vermelho do rosto, o suor e a sede. As crianças, nesse
momento, podem ser levadas a refletir sobre os porquês dessas reações do corpo.
       Na hora do lanche também podem ser levadas a pensar sobre a origem dos
alimentos: o leite vem das vacas, o arroz, o feijão e o amendoim são sementes, a
cenoura é uma raiz, muitas farinhas também são feitas de sementes moídas, a
carne corresponde à musculatura dos animais e assim por diante. É importante
pensar e representar o caminho dos alimentos dentro do corpo, bem como as
transformações desse alimento, durante o processo de digestão. Depois, é possível
imaginar que todas as crianças engoliram uma "pílula do tamanho" e que foram
fazer uma viagem por dentro do corpo de alguém. O que viram, durante a viagem?
É possível representar as imagens internas em um papel pardo em que seja feito o
contorno do corpo de uma das crianças. As partes internas do corpo também
podem ser feitas com massinha de modelar ou com argila, tentando-se imaginar o
tamanho e a sobreposição dos órgãos internos.
       Nesse trabalho com o corpo, as crianças a partir da história infantil "Tum tum
tum" que trata dos sons do corpo podem gravar a própria voz para depois ouvi-Ia.
Podem cantar, podem produzir um anúncio publicitário, podem imitar sons de
animais e etc. Todas essas atividades de observação do próprio corpo são
fundamentais para que as crianças reflitam sobre o funcionamento e os cuidados
necessários com o corpo, além de contribuir para trabalhos de reflexão sobre
identidade.

                                   As jóias do lixo
Na área de ciências, uma outra temática importante de ser trabalhada, desde a pré-
escola, é a (ia reciclagem de lixo. As crianças podem, a partir de materiais secos e
limpos, como caixas, sacos, frascos e etc.. ser convidadas a




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formar grupos com esses materiais. Nesse trabalho de classificação costumam
aparecer critérios diferentes daqueles que nós adultos utilizamos como, por
exemplo, os materiais que servem para brincar de farmácia, de supermercado, de
casinha e etc.. As crianças podem principiar explorando esses materiais para
confeccionar brinquedos. Em outro momento, podem fazer experimentos verificando
que tipos de materiais se desmancham, se decompõem, e quais não, colocando
diferentes materiais do lixo dentro de vidros fechados e etiquetados com o nome e a
data do que foi ali colocado. As crianças poderão verificar que folhas de alface,
pedaços de cenoura, cascas de mamão e etc. passam por muitas transformações
durante seu processo de decomposição, enquanto que plásticos, vidros, metais e
papéis não se decompõem quando colocados dentro de vidros fechados. Podem
ser feitas observações e registros semanais dessas transformações. Paralelamente,
no pátio, podem ser enterrados os mesmos materiais, sendo identificados os locais
por plaquinhas. Através desse experimento paralelo, as crianças poderão comparar
as velocidades de decomposição dos materiais, dentro dos vidros fechados e dos
materiais enterrados.
       Em outra ocasião, pode ser discutido com as crianças, o fato de alguns
materiais levarem muito tempo para se decompor ou não se decomporem nunca,
sendo, portanto, necessária a ocupação de uma área muito grande para depositar
esse lixo que não se desmancha. Por essa razão é fundamental que utilizemos os
materiais com parcimônia, uma vez que não temos muitos lugares disponíveis para
colocar todo o lixo que produzimos ao descartar embalagens que não se
decompõem ou que levam muito tempo para fazê-Io. As crianças podem separar o
lixo orgânico (restos de comida) e o lixo seco (papéis, vidros, latas e plásticos
limpos) e construir uma composteira no pátio, um monte de material orgânico
coberto com terra e areia para formar adubo. Também é possível propor que façam
entrevistas com o pessoal da limpeza pública, perguntando para onde vai o lixo,
quem trabalha nesse lugar, o que é feito com o lixo. Em Porto Alegre e, em outros
municípios, que têm algum sistema de reciclagem, é possível visitar as unidades de
reciclagem e os aterros sanitários com as crianças. Visitas a lixões, por outro lado,
não são recomendáveis pelos odores desprendidos durante os processos de
decomposição a céu aberto.
       Um outro trabalho interessante a ser feito é o de investigação sobre a origem
dos materiais que são postos no lixo. Os vidros são produzidos pela fundição de
areia, os plásticos a partir de petróleo, as latas a partir de minério de ferro ou de
bauxita, os papéis a partir de árvores. Essa investigação nos leva a pensar na
destruição produzida em áreas naturais para extração dessa matéria-prima e na
destruição das condições de vida dos seres vivos que habitam esses locais. Por
exemplo, ao extrair a areia, muitos animais que vivem enterrados, como siris, por
exemplo, são mortos, além de ser produzida uma alteração da paisagem do litoral
que pode produzir inundações e ventanias, pela ausência de dunas que funcionam
como "quebra-ventos" e como contenedores das águas. As matas que são
devastadas para produção de papel ou durante as escavações para obtenção de
minérios e etc.




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                                   Considerações finais
            O ensino de ciências na educação infantil propicia a interação com diferen-
   tes materiais, a observação e o registro de muitos fenômenos, a elaboração de
   explicações, enfim a construção de conhecimentos e de valores pelas crianças.
   Essa área, entretanto, precisa tomar parte nas atividades de outras áreas como a
   linguagem, os estudos sociais a matemática, as artes plásticas, o teatro e a música.
   Na educação infantil é fundamental superar as fragmentações do conhecimento e
   buscar articulá-l o através de atividades lúdicas e instigantes.

                           REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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