No Mesmo Barco
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- 2/18/2012
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NO MESMO BARCO
Martha Medeiros
O jardineiro trabalha na mansão há anos, podando tudo o
que enxerga de verde e com a pele vincada pelo sol.
A poucos metros dele, estão a
piscina e a dona da piscina,
uma bela mulher de olhos
fechados deitada sobre a
espreguiçadeira e com uma
revista abandonada no chão.
Ele, pobre e cheio de dívidas.
Ela, rica e cheia de dúvidas.
Ele, sensível e encantado pela
nova vida que planeja.
Ela, aborrecida e tentada a
conhecer da vida um outro
lado.
O psiquiatra escuta o homem
de quarenta anos que na sua
frente se dissolve em
lágrimas.
O paciente, envergonhado,
expõe toda a sua fragilidade.
O psiquiatra chorou também,
ontem à noite, de raiva por
ter rasgado uma carta.
Já o paciente, ontem, estava
contente porque sentia-se
mais encorajado.
O psiquiatra tem dores de
gente, o paciente tem dores
natas, ambos têm gavetas
fechadas.
O leitor lê palavras que lhe
preenchem o peito.
O escritor tenta buscá-las e
distribuí-las na página a seu
jeito.
O leitor renasce ao ler, o
escritor renasce ao ler também,
ambos fugindo de sua solidão
através do verbo alheio, um
escrevendo pra fora e
publicando,
outro se escrevendo por dentro
no seu quarto, dois artistas, um
e outro aproximados.
O pai sabe tudo, pensa o filho.
Este filho é tudo pra mim, pensa o pai.
O filho não viu que o pai foi obrigado a se humilhar
para o patrão, o pai não viu a coragem que o filho
teve em enfrentar uma dificuldade.
Que grande filho, esse que me pede proteção.
Que pai humano, esse que parece inatacável.
O remetente manda notícias de casa, diz que está indo
bem no trabalho, deixa um parágrafo inacabado, nem
todas as notícias são boas.
O destinatário, lá do outro lado, recebe a mensagem
como quem recebe um abraço,
por sua vez teme ficar desempregado, mas tem
notícias boas de saúde, já não sente tanto cansaço,
e a prova disso, quem diria, patroa está esperando
outro pirralho.
O professor sai do
velório da mãe e vai dar
aula na universidade,
está abatido o mestre,
enquanto seu aluno está
feliz que parece à beira
de um colapso, vai viajar,
conseguiu a bolsa, ficará
longe de casa pela
primeira vez,
liberdade, uma
temporada sem família.
O professor o
cumprimenta e lembra,
já teve esta alegria, a
mãe distante não fazia
falta,
é da vida
aproximações e
distância, vivências
cedo ou tarde,
uns antes, outros
depois.
Música :
Because You Loved Me Estamos todos
Montagem
maricarusocunha@terra.com.br no mesmo barco.
www.pranos.com.br
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