Date: Wed 01-Jul-1998 by HC120218221351

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									JOÃO GILBERTO
(5 de julho de 1998)


José Rezende Jr.

   Novembro de 1962. Tarde da noite. Na sala do apartamento de Jorge Amado, em
Copacabana, João Gilberto repete ao infinito a melodia, que, associada à letra escrita
pelo autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos, fará parte da trilha do longa-
metragem Seara Vermelha, de Alberto D'Aversa. Jorge Amado e sua mulher, Zélia
Gattai, bebem em silêncio a poção mágica feita de voz e violão.
  De repente, um canto igualmente belo e sobre-humano ousa se intrometer. João se
cala. Olha para os donos da casa, que devolvem a interrogação. Longos segundos de
quietude. O canto misterioso se faz outra vez presente, imitando com perfeição a
perfeição do inventor da Bossa Nova. João fica de pé, caminha pela sala. Busca a
origem do som. Até que seu rosto se ilumina: é um passarinho que está cantando.
  “Nós tínhamos um passarinho, um sofrê, criado solto no apartamento. Naquela
noite, ele acordou e, de tanto ouvir o João repetindo a melodia, aprendeu e começou
a cantar. Foi lindo”, lembra a escritora Zélia Gattai.
  O sofrê, comprado das mãos de um menino pobre de Copacabana pelo ator
argentino Hugo del Carril, foi deixado para sempre sob a guarda do casal. Entre
outras peripécias, já havia arrancado um lenço do bolso do escritor português
Ferreira de Castro e aterrissado na cabeça do poeta chileno Pablo Neruda. E
costumava pousar sobre as mãos de Jorge Amado quando ele escrevia. Mas era a
primeira vez que esse passarinho amarelo e preto, que muito tempo mais tarde
morreria de velhice em Salvador, cantava em dueto com alguém. Se João gostou?
Bem, 35 anos depois, ele perguntaria, ao telefone: “Zélia, lembra daquele
passarinho, de olho redondinho, que uma noite cantou a minha música?”
  É assim, capaz de nunca esquecer o canto de um passarinho, o homem
reverenciado pelos mais reverenciados músicos do planeta, que ganhou quatro
Grammy - o Oscar da música americana - com um disco antológico em parceria com
o gigante do jazz Stan Getz, e virou verbete de enciclopédias como a americana The
Grove Dictionary of Jazz e a italiana Il Jazz.
  O homem que em junho de 1958 entrou no estúdio da Odeon para gravar um 78
rotações por minuto que teria de um lado Chega de Saudade, de Tom Jobim e
Vinícius de Moraes, e do outro, Bim Bom, uma de suas raríssimas composições
próprias. João Gilberto gravou com a voz em sussurro e o violão tocado como
jamais se vira. E quando saiu do estúdio, a história nunca mais seria a mesma.

SER FELIZ SOZINHO

  É tarde da noite. Ou então já vai alto o dia, quem sabe? João Gilberto, que amanhã
faz 67 anos, talvez não saiba se é dia ou noite. Tem fechadas as janelas e acesas as
luzes do apartamento, no Leblon. Provavelmente é noite, já que o homem ao violão
tem fuso horário oposto: dorme durante o dia e encontra-se completamente desperto
de madrugada. Mas às vezes acontece de não dormir: começa, tarde da noite, a
burilar uma música que ouviu há 60 anos nos alto-falantes de Juazeiro, no sertão da
Bahia, e esquece a hora de parar (Vai burilar essa música dias e noites a fio, mesmo
que não haja nenhuma urgência, nenhum show à vista, nenhum disco a caminho).
Assim, é possível que agora já vá alto o dia, ainda que camuflado pela insônia, as
janelas fechadas e as luzes acesas do apartamento do Leblon.
  Cabe, desde já, um esclarecimento: há muitos anos João Gilberto não dá entrevista
(Nas poucas que deu, respondeu com monossílabos). E não tem o costume de
receber visita - muito menos a de desconhecidos. Portanto, que João Gilberto mora
há três anos num apartamento alugado e que este fica no Leblon, Zona Sul do Rio, é
possível dizer com uma considerável margem de certeza. Mas nada mais se sabe
desse apartamento: em que rua fica? quantos quartos tem? é virado para o nascente
ou para a tardinha que cai? tem vista para o mar? da janela vê-se o Corcovado e o
Redentor? Quase ninguém tem as respostas. E quem tem, guarda a sete chaves. Há
uma espécie de pacto de silêncio em torno do mito.
  João Gilberto escolheu viver só. Não exata e completamente só. Vive com sua
música - até porque, entende João, sem ela não há paz, não há beleza. Fica dias e
dias sem sair de casa. Não vai a bares, restaurantes, cinemas, teatro, praia. Dedica
boa parte das noites e madrugadas a cantar e tocar violão.
  “O João não pára de tocar”, testemunha a cantora Miúcha, que foi casada com
ele entre 1965 a 1971. “Ele pega uma música e vai decodificando, desconstruindo e
tornando a construir. O que ele busca é a essência da música”, conta ela.
Traduzindo: João repete infinitas vezes os mesmos acordes, perdendo
completamente a noção de tempo, confundindo o dia com a noite. Insuportável de
ouvir? “Não, é lindo. Nunca é a mesma coisa. Ele sempre descobre uma harmonia
nova, que leva a outra e a outra... Cada vez que o João toca a mesma música, é
diferente”, garante a ex-mulher.

SAUDADE FEZ UM SAMBA

  Mas que músicas ocupam os dias e as noites de João Gilberto? Talvez algumas
que ele ouviu na infância, em Juazeiro, mesmo antes de aprender a tocar violão pelo
Método Elementar Turuna. Outras, mais recentes, ouvidas nos anos 50.
  E aonde João Gilberto vai buscar a matéria-prima para seu trabalho de ourives? Na
memória, já que costuma viver basicamente duas situações: ou não tem aparelho de
som ou tem, mas não funciona. “Ele não precisa ouvir música. É uma discoteca
mental ambulante”, garante o jornalista e escritor Ruy Castro, autor do livro Chega
de Saudade, espécie de biografia da Bossa Nova, publicada em 1990.
  Um fato em especial chamou a atenção de Ruy Castro: “João tem na cabeça tudo o
que escutou desde que era criança até hoje. Músicas de discos lançados há quase 50
anos e nunca mais regravados”. Com um detalhe: Quando quer, João Gilberto canta
reproduzindo todas as vozes daqueles antigos conjuntos vocais, como o Garotos da
Lua, do qual participou quando mudou-se de Salvador para o Rio, em 1950, aos 19
anos de idade. “Ele canta fazendo as vozes agudas, graves, médias. E ainda imita o
som do violão com a boca”, lembra Ruy Castro. (Como se fosse pouco, João
Gilberto é capaz de trocar a voz sussurrante de João Gilberto pelo vozeirão de
Orlando Silva, um de seus ídolos; costuma também imitar os amigos, muitas vezes
sem que eles próprios percebam).
  Resgatadas as preciosidades no baú da memória, resta a João debruçar-se sobre
essas músicas, buscar-lhes a alma, encontrar a essência. Ou a perfeição. Um trabalho
infinito enquanto dura ­ e mesmo quando parece finalmente terminado. “Quando
João chega a gravar uma música, é porque já trabalhou sobre ela durante muito
tempo. Mesmo assim, só fica satisfeito com o resultado por um breve período. Na
verdade, se pudesse, João regravaria tudo o que já gravou”, arrisca Miúcha.
  Mas nem sempre João se dedica a resgatar músicas que a maioria dos brasileiros
não conheceria se não fosse ele. O jornalista e produtor musical Nelson Motta,
amigo há 30 anos, se lembra da emoção de ouvir João, ao telefone, cantando e
tocando Como uma Onda, parceria de Lulu Santos com o próprio Motta. “Ele veio
com uma versão completamente diferente. E mais bonita”, reconhece.
  Mas Nelson Motta guarda uma relíquia de valor inestimável. No dia 29 de outubro
de 1988, ao chegar em casa, viu a secretária eletrônica indicando a existência de
uma mensagem. Apertou a tecla play e - surpresa! - lá estava João Gilberto cantando
Parabéns pra Você. De uma forma completamente gilbertiana, claro. E se chegou a
gravar o Parabéns pra Você, ainda que numa secretária eletrônica, há de ter João
passado noites e madrugadas em busca da essência dessa musiquinha besta que um
coro quase sempre bêbado e desafinado insiste em entoar na mesa do botequim ou
em volta do bolo, antes do sopro.

MIL HORAS SEM FIM

  João pede comida por telefone. E ao telefone passa boa parte do tempo desperto.
Liga para os amigos e conversa horas e horas. Desenvolveu uma técnica que lhe
permite presentear os interlocutores tocando o violão ao telefone (Ninguém sabe
direito como ele consegue, já que tem esse costume desde muito antes do advento do
viva-voz. E o som chega límpido ao outro lado da linha).
  “Uma vez, ele me telefonou e nós conversamos de dez da noite às cinco da
manhã”, conta o produtor musical Almir Chediak. Existe assunto para sete horas de
conversa? Existe, garante Chediak. “Conversar com o João é um presente. Ele fala
de música com emoção, conta histórias como ninguém e é muito criativo”, elogia.
  Exemplo de uma conversa com João Gilberto? Uma vez ele manifestou a
preocupação com o destino de pequenas criaturas da noite para as quais os seres
humanos não costumam dar a mínima: “Sabe, Almir, eu estou muito preocupado
com o sofrimento dos bichinhos de luz. Já apaguei todas as lâmpadas, para ver se
eles param de morrer. Mas mesmo assim tem um monte deles caídos aqui no chão,
sem as asinhas, coitados”.
  João e Almir são amigos há dez anos. Até aí, nada demais. O estranho é que os
dois nunca se viram. (Não, não se trata de um erro de revisão: os dois amigos
NUNCA se viram mesmo). A amizade foi sendo construída sobre intermináveis
telefonemas noite adentro. Começou quando Chediak ligou para agradecer os alunos
que João indicara para sua escola de violão. O cantor disse, então, que tinha adorado
o Dicionário de Acordes Cifrados, um manual escrito por Chediak em 1984.
  Com o passar do tempo, o amigo telefônico recebeu uma missão importante:
trocar as cordas do violão do homem que, nesse instrumento, quatro décadas atrás,
inventou a célebre batida da Bossa Nova. João acha que somente Chediak, além de
Luís Bonfá, é capaz de trocar as cordas com uma perfeição tal que lhe permite usar o
violão logo em seguida, seja num show ou gravação.
  Como João quase não sai de casa e não é chegado a visitas, um emissário ficou
encarregado de levar e buscar o violão: Manelzinho, ex-funcionário do apart-hotel
onde o cantor morou, hoje transformado em secretário particular (Uma vez, João
ligou pedindo que Chediak ensinasse violão a Manelzinho; ele bem que tentou, mas
o aluno não era exatamente um virtuose).
  Quando Manelzinho não podia buscar o violão de cordas recém-trocadas, João
pedia a Chediak que fosse até o apart-hotel. Chediak ia e cumpria à risca o ritual:
fazia-se anunciar na recepção, subia até a cobertura, dava três batidinhas na porta do
apartamento 2909, encostava o violão na parede e ia embora. Dois minutos depois,
João Gilberto abria a porta e apanhava o instrumento.
  Com o tempo, João passou a entreabrir a porta antes que o amigo fosse embora.
Mas limitava-se a esticar o braço para fora e apanhar o violão, sem nunca ver
Chediak, que também não o via. A cada vez, João criava uma justificativa: um dia,
estava de pijama; no outro, esquecera de fazer a barba.
  Um dia, os dois combinaram um jantar, na casa de um amigo em comum, para
enfim se conhecerem. João, claro, não apareceu para comer o peixe. Ligou no dia
seguinte informando que a caminho do jantar parara num posto de gasolina e o
frentista, que estava no seu primeiro dia de trabalho, em vez de botar a água no
radiador do Monza, botou no motor. “E o pobre rapaz ainda dizia: ‘Acelera, moço,
acelera que é bom’. E eu acelerava", contou João Gilberto, que aproveitou e pediu
ajuda para resgatar o veículo literalmente afogado.
  Frustrado o encontro, dias depois João telefonou novamente: “Sabe Almir, eu
estava pensando: acho que é melhor a gente continuar amigo sem se conhecer. Para
não quebrar o encanto”.

UMA NOTA SÓ

  Miúcha deixa escapar, rindo: “Tem muito folclore em torno do João. Mas na vida
real, ele é ainda mais engraçado que o folclore”. Por exemplo: nas poucas vezes em
que sai de casa, João costuma fazê-lo de madrugada. Pega o carro e sai dirigindo,
quase sempre sozinho. Vai até a praia, toma uma água de coco, come um milho
cozido, conversa com um ou outro barraqueiro e volta para casa. Às vezes, nem
chega a parar o carro. Limita-se a dirigir. Acha que é bom motorista. Pode até ser.
Mas alguns amigos não deixaram de observar que João tem hábitos excêntricos
também ao volante: cada curva precisa ser feita com perfeição milimétrica,
mantendo os pneus rigorosamente paralelos à curvatura do meio-fio.
  Quando morava no apart-hotel do Leblon, por algum tempo teve como vizinho, no
prédio em frente, o amigo Nelson Motta. Nem a distância de poucos metros o
animava a uma convivência ao vivo. João ia para a janela e telefonava para o amigo.
Este, por sua vez, também chegava na janela. E ficavam os dois conversando horas a
horas, cara a cara, antecipando a invenção do videofone.
  Consta que há muitos e muitos anos, João chegou em casa e descobriu que seu
gato - batizado, aliás, com o originalíssimo nome de Gato -, havia caído da janela
(Felizmente, seu dono ainda não morava no 29º andar). Socorrido, Gato escapou,
tendo gasto no incidente não mais que uma ou duas de suas sete vidas. O fato deu
origem à seguinte interpretação: o felino, na verdade, atirou-se pela janela, tendo
cometido o tresloucado gesto por não agüentar mais conviver com João Gilberto
tocando o dia inteiro Samba de uma Nota Só.
  Em tempo: João Gilberto detesta essa piada.

SÓ PRIVILEGIADOS

  Durante 13 anos, João Gilberto morou num apart-hotel no Leblon, nos 60 m2 de
um sala-quarto-cozinha-banheiro com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas. O que
custaria, hoje, R$ 2.300,00 por mês (Não, João não está pobre. Tem garantidos os
dólares dos sucessos no exterior e cobra em torno de R$ 20 mil por show. Se até
hoje não comprou casa própria é porque não tem paciência para administrar
patrimônio, aplicações financeiras etc etc).
  Alguns funcionários mais antigos do apart-hotel orgulham-se de ter visto o ex-
hóspede mais ilustre nada menos que TRÊS vezes nesses anos todos. Uma façanha,
se considerarmos o fato de que João Gilberto não costumava aparecer no elevador,
não passava pela recepção, nem ficava zanzando pelos corredores. Suas raras saídas,
recordemos, aconteciam de madrugada a bordo do carro, que aliás costumava ficar
esquecido na garagem, acumulando poeira.
  Mas João reconhecia a voz de cada um dos empregados ao telefone. Só
privilegiados com ouvidos iguais ao dele seriam capazes de comentários desse tipo,
disparados depois de ouvir um simples “alô” dito pelo funcionário: “O que houve
com sua voz, Adilson? Você está gripado?”
  “Seu João”, como é até hoje lembrado no Rio Flat Service, deixou admiradores
inconsoláveis no velho endereço. “Diz aí, meu irmão: seu João, de zero a dez?”,
pergunta o mensageiro Adeilton Garcia a um colega, para testar a popularidade de
João Gilberto. “Seu João? É dez”, responde o outro, na bucha.
  Seu João é dez graças à educação e à generosidade não só das gorjetas. Chegou a
telefonar para amigos e conhecidos médicos na tentativa de conseguir consultas e até
cirurgias de graça para os funcionários do apart-hotel.
  “Lembra dele cantando? Aquela vozinha mansa? Pois é: ele falava com a gente
com a mesma voz. E se hoje eu tenho o meu carro é graças às gorjetas do Seu
João”, agradece Adeilton, feliz proprietário de um Escort 84.
  Entre outras missões, o mensageiro comprava para Seu João desde sushi no
aristocrático Cesar Park até pão com manteiga na Real, a padaria da esquina.
Adeilton se lembra de pelo menos uma vez na vida ter sido convidado a entrar no
inexpugnável apartamento 2909. “Ele me ofereceu café com leite. Nunca vou
esquecer, porque sei que pouca gente teve essa honra”, orgulha-se o mensageiro, que
adora pagode e nunca viu um show de João Gilberto, nem tem um único disco de
Bossa Nova. Mas, relembrando e homenageando Seu João, Adeilton cantarola
baixinho, quase num sussurro: “Vou te contar... Meus olhos já não podem ver”...

ONDE ANDA VOCÊ

  João Gilberto costuma deixar a televisão permanentemente ligada. Mas quase
sempre sem som. Vê com especial atenção os jogos de futebol e, pasmem, as lutas
de boxe. João é tricolor, mas ama a Seleção Brasileira e o futebol em geral (O último
show em Brasília, em 1995, na Villa-Lobos, começou com duas horas de atraso,
simplesmente porque João Gilberto preferiu ficar no quarto do Kubitschek Plaza
vendo o primeiro jogo da decisão do Brasileiro, entre Botafogo e Santos).
  Quanto ao boxe, não é a potência dos socos que deixa João de olhos fixos na tela.
“Ele ama a musicalidade, o ritmo do boxe. Gosta como os lutadores preenchem os
espaços vazios - como se eles fossem uma música, na qual cada som vai se
encaixando no outro que vem em seguida”, analisa o cineasta Walter Salles, diretor
de Central do Brasil, que assistiu a algumas lutas em companhia de João, no apart-
hotel do Leblon.
  Salles dirigiu, em 1993, o comercial de João Gilberto para a cerveja Brahma (Logo
João, que não bebe). E durante os meses seguintes, freqüentou cinco ou seis vezes o
apart-hotel, sempre tarde da noite, acalentando o sonho de rodar um documentário
em longa-metragem contando a trajetória do cantor, desde os tempos de Juazeiro.
  Salles chegou a filmar algumas cenas de João Gilberto cantando em estúdio. “Mas
logo ficou claro que o local não reunia as condições técnicas adequadas para o que o
João queria: ‘encontrar o som’. E a busca da perfeição não tem limites”, reconhece
Salles.
  O longa-metragem acabou abortado, mas para o cineasta ficou daquele tempo o
prazer de conversar com João, de vê-lo cantando e tocando na sua busca ilimitada. E
de comer os pastéis que João Gilberto mandava buscar, desde o dia em que
descobriu que o novo amigo adorava pastéis.
  Em retribuição, Walter Salles tem na gaveta uma fita VHS com o documentário
Quando Éramos Reis, de Leon Gast, que conta a célebre decisão do título dos pesos-
pesados de 1974, entre Mohammad Ali e George Foreman, no Zaire. Se ainda não a
entregou é porque não tem ninguém que lhe diga onde, diabos, João Gilberto mora
hoje.
COISAS QUE SÓ O CORAÇÃO

  João adora cantar e tocar para os amigos. Houve um tempo, nos anos 70, em que
passava as noites em jam sessions intermináveis com a turma dos Novos Baianos.
Ao fim de uma dessas noitadas, as duas gerações de baianos saíram caminhando
pelas ruas da cidade. Já amanhecia quando João avistou uma mulata descendo do
morro para o trabalho. E exclamou: “Olha lá o Brasil descendo a ladeira!” Moraes
Moreira pegou o mote e o transformou num de seus grandes sucessos: “Quem desce
do morro, não morre no asfalto / Lá vem o Brasil descendo a ladeira”...
  Mas antes de sair para tocar na casa de algum amigo, João sempre perguntava
quantas e quais pessoas estariam lá. “Se ele chegava e encontrava mais gente do que
o combinado, dizia: ‘Só vim para dizer que não venho’. E ia embora”, lembra
Nelson Motta. “João é extremamente tímido. Tem vergonha até de sair na rua.
Imagina o sofrimento que é para uma pessoa assim ter que ganhar a vida num
palco”, lembra Miúcha.
  Tímido sim, mas um mestre na arte de conquistar amigos e conseguir deles o que
deseja - desde a troca da bateria do carro que não usa até as consultas médicas de
graça para quem precisa.
  “Ele consegue coisas inenarráveis. Já viajou dos Estados Unidos para a Holanda
sem passaporte. E morou vinte anos nos Estados Unidos sem nunca ter aprendido
inglês. Em compensação, o que tinha de músico americano estudando português
para poder se comunicar com o João...”, conta a ex-mulher.
  A timidez de João é tamanha que antes de se casar com Miúcha, telefonou para
Jorge Amado e pediu ao amigo que fizesse a ponte com o pai da moça, Sérgio
Buarque de Holanda. “Jorge, liga para o Sérgio e diz que eu não sou tão ruim como
dizem. Dê boas informações a meu respeito”. Jorge Amado telefonou. Se deu certo,
não se sabe. Mas João casou-se com a filha de Sérgio.
  Jorge Amado e Zélia Gattai tiveram participação destacada também no primeiro
casamento de João, com Astrud. João pediu a Jorge que telefonasse para o dono do
cartório em Copacabana, o escritor Anibal Machado, e conseguisse que o seu
casamento fosse o primeiro, ao meio-dia. “Eu não vou me sentir bem esperando
naquela fila enorme para casar”, justificou. João conseguiu o primeiro lugar na fila.
Mas às vésperas do casamento, passou a ligar todos os dias para Zélia, sempre com a
mesma pergunta: “Zélia, o Jorge vai ao meu casamento? Você tem certeza?”
  No dia marcado, Jorge e Zélia chegaram ao cartório ligeiramente atrasados, às
12h05. Encontraram o noivo nervoso na porta. “Ah, que bom, agora eu posso me
casar”, comentou João. “Por que?”, estranhou Jorge Amado. “Ora, porque vocês são
os meus padrinhos”.
  O papel de Jorge e Zélia ainda não estava terminado. Finda a cerimônia, João
procurou a amiga para um último pedido: “Zélia, o Vinícius (de Moraes) não veio.
Mas eu tenho certeza que é porque ele foi dormir muito tarde, coitado. Então,
quando der três horas, telefona e diz para ele não ficar com remorso, porque remorso
é a pior coisa do mundo”.
  Às três horas da tarde, Zélia ligou para Vinícius, que acabara de acordar. “Ai,
Zélia! Fui dormir tarde e perdi o casamento do João. Tô morrendo de remorso...”,
lamentou o poeta.
  Não sabia Vinícius que João já o perdoara por antecipação. Coisas que só o
coração pode entender.

MELHOR DO QUE O SILÊNCIO

  É tarde da noite. Ou já vai alto o dia, quem sabe? João Gilberto tem fechadas as
janelas e acesas as luzes do apartamento, no Leblon. Com a voz e o violão, busca o
mais que perfeito. Se tiver em casa um disco chamado Livro, e desde que o aparelho
de som funcione, pode até descansar um pouco escutando a música Pra Ninguém, de
Caetano Veloso (autor de Sampa, que João transformou numa obra ainda mais
prima).
  Na mais bela faixa do CD, Caetano lista belezas quase indescritíveis, como Tim
Maia cantando Arrastão, Djavam cantando Drão e Elis Regina cantando Como
Nossos Pais. E conclui: “Melhor do que isso só mesmo o silêncio / E melhor do que
o silêncio só João”.
  Talvez melhor do que tudo isso só João rompendo o silêncio, cantando em dueto
com um passarinho atrevido de olho redondinho - o único ser vivo que, um dia,
ousou cantar tão bonito quanto João.

								
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