OS IGNIFICADO DA ARTE by p3wKw8g

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       REFLEXÕES SOBRE PINTURA, DESENHO E ARTE EM GERAL.


1- Todas as Artes aspiram à condição de música. (Schopenhauer)
2- Na música e quase só nela, é possível ao artista dirigir-se diretamente à sua audiência
sem que entre ambos intervenha um meio de comunicação em uso corrente para outros
fins.
3- A mais simples e a mais usual de todas as definições de Arte: Tentativa de criar
formas deleitáveis
4-Certos arranjos nas proporções de formas, superfícies e massas dão origem a
sensações agradáveis enquanto que a ausência de tais arranjos conduz a reações de
indiferença ou até o real desconforto e repulsa. O sentido que registra essas relações
formais que nos são agradáveis é o sentido do belo
5- O sentido do belo é um fenômeno muito flutuante, cujas manifestações ao longo do
curso da história são muito incertas e por vezes muito desconcertantes.
6- A Arte, temos de admiti-lo, não é a expressão plástica de qualquer ideal particular. É
a expressão de qualquer ideal que o artista possa realizar em forma plástica.
7- Não há beleza que não inclua certa estranheza em suas proporções.
8- A expressão pode, naturalmente, ser completamente destituída de arranjo formal,
nesse caso sua própria incoerência impede que lhe chamemos Arte.
9. A finalidade da Arte, que é a comunicação de sentimentos, confunde-se
inexplicavelmente com a qualidade da beleza, que é o sentido comunicado por formas
particulares.
10-A forma de uma obra de Arte não pode ser avaliada em função do seu grau de
complexidade
11 - Deformações de ordem maior ou menor se verificam em toda obra de Arte.
12- É difícil antes da Renascença encontrarmos uma obra de Arte que não se afaste em
certa medida da realidade.
13- Um padrão por si só, não constitui uma obra de Arte. Ainda que uma obra de Arte
inclua sempre um padrão de qualquer ordem, nem todos os padrões são necessariamente
obras de Arte.
14- Uma obra de Arte requer certo grau de complexidade, recusamo-nos a usar o termo
em relação a um simples desenho geométrico composto de círculos e triângulos, e
mesmo em desenhos intrincados, se bem que perfeitos, de um tapete feito à máquina,
ainda que seus padrões possam ser bem equilibrados e simétricos.
15- Aquilo que esperamos realmente encontrar numa obra de Arte é certo elemento
pessoal. Esperamos que nos revele algo de original, uma visão do mundo privativa e
ímpar.
16- Uma obra de Arte pode ser definida com bastante exatidão como um padrão
informado pela sensibilidade.
17- Padrão: definição de uso corrente: o termo subentende a distribuição de linhas e
cores em certas repetições bem definidas. Pressupõe certo grau de regularidade dentro
de uma limitada moldura de referencia. A complicação seguinte consistiu em abandonar
o equilíbrio simétrico a favor de um equilíbrio distribuído. Neste caso a obra de arte tem
um ponto de referencia imaginário (análogo a um centro de gravidade) e à volta desse
ponto distribuem-se as linhas, superfícies e massa de tal maneira que repousam em
equilíbrio perfeito.
18- A finalidade estrutural de todos estes métodos é a obtenção de harmonia, e a
 harmonia é a satisfação ao nosso sentido do belo.
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19- A forma de uma obra de Arte não é mais que a sua configuração, a disposição das
suas partes, a sua aparência visível. É claro que quando falamos de forma em relação a
uma obra de arte deduz-se que esta forma é de certa maneira especial, que se trata de
uma forma que produz em nós certos efeitos.
20- Quando dizemos que uma obra de Arte nos toca, o processo sofrido pelo espectador
é de natureza emocional. Quando contemplamos uma Obra de Arte projetamo-nos
dentro de sua forma, e as nossas sensações são determinadas por aquilo que lá
encontramos, pelas dimensões que passamos a ocupar.
21- A obra de Arte é, em certo sentido uma libertação da personalidade. A diferença
essencial entre arte e sentimentalismo é que este é uma libertação, um afrouxamento,
um descontrair de emoções, arte é libertação, mas ao mesmo tempo um estimulante das
emoções. Arte é economia de sentimentos; é emoção que cultiva boa forma.
22- toda a arte é o desenvolvimento de relações formais e onde há forma pode haver
empatia.
23- Não devemos temer a palavra abstrato. Toda Arte é primariamente abstrata. A arte é
uma fuga do caos, é a indeterminação da matéria em busca do ritmo, da vida.
24- Será maior o artista cuja inteligência for mais vasta, o homem capaz de ver e sentir
não só o objeto que tem em frente dos olhos, mas de vê-lo integrado nas suas
implicações universais.
25- Há talvez cinco elementos distintos em um quadro: ritmo de traço/ concentração de
formas em massa/ espaço/ luz/ sombra.
26- Toda forma tem que ser definida por um contorno, e este contorno para não para
não parecer inanimado, tem de possuir um ritmo próprio.
27- Na concentração de formas, massas, espaço, luz e sombra, estes devem ser
estudados em estreita relação uns com os outros. Todos são aspectos do sentido do
espaço do artista.
28- Massa é espaço sólido, luz e sombra são os efeitos da massa em relação ao espaço;
espaço é simplesmente o inverso da massa.
29- Arte no sentido estrito começa com a passagem de indeterminação a contorno. A
arte começa com o desejo de delinear.
30-O traço não desaparece necessàriamente na passagem do desenho para a pintura. O
traço é um dos métodos de pintar.
31- Nas mãos de um mestre o traço significa mais do que um simples contorno. Pode
exprimir também movimento e volume. É esta qualidade do traço que quando utilizada
com discernimento resulta em ritmo.
32- A nossa sensibilidade física projeta-se de certa maneira dentro do traço porque o
traço por si não se move ou dança, somos nós que nos imaginamos a dançar ao longo do
seu curso.
33- A qualidade mais notável do traço é a sua capacidade de sugerir massa ou forma
sólida. O traço é um artifício sumário e abstrato para traduzir um assunto, uma espécie
de estenografia pictórica.
34- A característica conhecida por tonalidade também é universal e talvez possa
considerar-se uma alternativa de valor igual ao traço como modo de expressão.
35- Tonalidade é uma palavra que se utiliza em mais de uma forma de expressão
artística, mas desde os primórdios da crítica de Arte no século XVI, que foi empregada
a serviço da pintura.
36- O uso pelos músicos da palavra cromático parece ser tão venerável como o uso de
tonalidade pelos pintores.
37-Definição de John Ruskin sobre tonalidade: ‘’A palavra tonalidade diz-me duas
coisas: em primeiro lugar designa o relevo exato e a relação dos objetos uns contra os
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outros e uns com os outros, em substancia e escuro, conforme estão mais próximos ou
mais distantes, e a perfeita relação da gradação das sombras com as cores das partes
iluminadas, de forma a que possa sentir-se imediatamente que se trata simplesmente de
gradações diferentes da mesma luz. ’’
38- O traço é uma abstração, não tem uma relação real com a aparência visual dos
objetos. A luz é fluida, é um fenômeno variável que muda constantemente em grau de
intensidade e ângulo de incidência. Não pode, portanto ser representada por uma coisa
tão estática e definida como uma linha.
39- Chegamos assim a introdução do sombreado: a luz é representada pela gradação
entre os pontos extremos de branco e preto. Este processo gradativo de sombrear pode
ser usado para representar três qualidades distintas: 1) a passagem da luz para a sombra
dentro do campo de uma mesma cor ou de uma mesma massa; 2) numa representação
monocromática, a intensidade das diferentes cores em relação a um ponto neutro; 3) o
grau real de luminosidade ou escuro em relação à luz principal do quadro.
40- É duvidoso que a escola italiana tenha alguma vez chegado a conceber o efeito
visual de uma atmosfera luminosa generalizada. Quando os efeitos de luz começaram a
ser estudados pelos primeiros pintores italianos do Renascimento, estes, da mesma
forma que encontraram dificuldades em representar o espaço a não ser estratificando-o,
sentiram-se incapazes de representar a luz a não ser isolando-a ou focando-a
seguidamente em cada objeto representado. O ideal da janela aberta, como se lhe tem
chamado, da ilusão de uma atmosfera espacial uniforme só viria a set realizado pela
tradição que começa com os Van Eycks, e atinge sua perfeição num pintor como
Vermeer.
41- Então, o padrão fundamental do quadro evolui para torna-se um padrão de luzes-
sombras num ritmo livre de equilíbrio para se obter efeitos puramente dramáticos e
estéticos.
42- O uso natural da cor é extremamente raro na história da arte extremamente difícil de
determinar. Quando vemos as cores reais na natureza, sentimo-nos tentados a protestar
contra sua irrealidade.
43- À parte esse uso natural da cor podemos distinguir três maneiras que chamaremos:)
heráldica;2) harmônica; 3) pura.
44- A maneira heráldica é a mais primitiva, nesta maneira a cor é usada pela sua
significação simbólica. A maneira heráldica continuou em vigor até o fim do século
XV, quando a tradição medieval começou a ser suplantada por noções de cor mais
intelectuais e científicas.
45- A maneira harmônica é a usada de modo geral dos séculos XVI ao XVIII, tem sua
origem naquelas considerações de valor tonal. Na prática isto quer dizer que tem que
sujeitar as cores a conformar-se com uma escala restrita, seleciona-se o tom dominante
do quadro e todas as outras cores são graduadas para cima e para baixo até uma
distancia restrita dessa tonalidade dominante.
46- A maneira pura é aquela em que a cor é usada por si mesma, e já nem sequer para
comunicar ilusão de forma, e as questões de verossimilhança tornam-se secundárias.
47- Dos quatro elementos constitutivos de uma obra de pintura, a forma é o mais difícil
porque traz consigo conceitos de natureza metafísica. Platão a divide em formas relativa
e absoluta. Se adotarmos a distinção sugerida podemos dividir as formas alcançadas em
uma obra de arte em dois tipos; arquitetônico ou simbólico.
48- A necessidade mais evidente de qualquer composição é simplesmente que haja um
princípio coesivo que a mantenha uma em termos físicos, que não permita que o
espectador se distraia pela sua inquietude ou falta de equilíbrio.
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49- A composição da alta Renascença, triangular, é estática como sobre uma pirâmide.
Oposta a essa, há a composição, que embora ainda arquitetônica, construída, é mesmo
assim dinâmica e aberta. Observa-se esse fator nas pinturas barrocas.
50- Ao organizar sua composição o artista pode proceder ou por via intelectual ou por
via instintiva, ou, e é o caso mais comum, por uma e por outra.
51- É neste aspecto da forma arquitetônica que se incluiria o ritmo. O ritmo em um
quadro pode ser resultante não só do contorno das linhas, mas ainda da repetição das
massas, geralmente em conseqüências decrescentes. Que tais seqüências sejam
frequentemente tríadas não se deve a razão mais misteriosa que o fato de ser três o
número em que uma seqüência começa a ser perceptível e que, num quadro, uma
seqüência de mais de três massas tenderia a tornar-se evidente em demasia.
52- A forma simbólica é muito mais difícil de explicar. Parece que a Arte tem acesso ao
substrato de todos os matizes emocionais da vida, a algo de subjacente a todas as
emoções particulares e especializadas da vida real. Traz à superfície os vestígios
residuais deixados no espírito humano pelas várias emoções da vida, de forma que nos
apercebemos do eco da emoção sem as limitações e a direção que a emoção tinha na
experiência vivida.
53- Na obra de arte perfeita todos os elementos se inter-relacionam, se ligam para
formar uma unidade de valor maior que a simples soma de suas partes.
54- Quando acabamos de analisar todos os elementos físicos de um quadro temos ainda
de levar em consideração este elemento intangível que é a expressão da individualidade
do artista.
55- Devemos sempre lembrar que a arte não se dirige à percepção consciente, mas à
apreensão intuitiva. A presença da obra de arte não se faz sentir ao nível do pensamento,
mas do sentimento; é mais um símbolo do que a afirmação direta de uma verdade.
56- Uma obra de arte é sempre uma surpresa; operou o seu efeito antes de nos termos
apercebido conscientemente da sua presença.
57-A estrutura de uma obra de arte nem sempre é evidente: pode consistir simplesmente
do equilíbrio sutil de unidades irregularmente dispostas. Mas de uma maneira geral, um
pintor, por exemplo, de suficiente coragem toma um esquema de fácil apreensão e
dispõe suas massas conforme esse esquema.
58- Tem sido sempre a função da arte dilatar a mente um pouco além dos limites da
compreensão. Esta distância para além pode ser espiritual ou transcendental, ou
simplesmente fantástica, algures deve passar além dos limites do racional. No dizer de
Bacon, a arte deve ter sempre um pouco de estranheza em suas proporções, o que não
quer dizer que isto defraude a harmonia.
59- A maioria dos quadros traz consigo uma dispersão da atenção: olhamos primeiro
para a figura à esquerda, depois para o grupo à direita, depois para a paisagem distante,
e finalmente detemo-nos triunfantes na minúscula figura do burro a atravessar a ponte.
Desse modo, vemos que o êxito de um quadro depende da fusão ou coesão final criada
na mente do espectador.
60-Qual a distinção entre arte e natureza? Existe alguma diferença essencial entre a
beleza da paisagem em si e a beleza representada pelo artista no seu quadro dessa
mesma paisagem? Se a arte fosse meramente um registro da natureza, a obra de arte
mais satisfatória seria a que imitasse esta de mais perto. Nos termos mais simples, no
entanto, podemos dizer que o artista ao pintar uma paisagem ( e o mesmo é verdade
sobre qualquer assunto que o pintor escolha) não tenciona descrever a aparência visível
da paisagem, mas dizernos qualquer coisa a cerca dela.
61- A arte de ver a natureza é uma qualidade que é preciso adquirir quase tanto como a
arte de ler os hieróglifos egípcios (Constable).
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62- A natureza á simplesmente um dicionário, vamos a ela buscar o tom correto, a
forma particular, assim como vamos ao dicionário buscar o sentido exato de uma
palavra, a sua ortografia ou etimologia; mas não consideramos o Dicionário como uma
composição literária ideal que devemos copiar, e também não devemos considerar a
natureza como um modelo a ser copiado pelo pintor. (Delacroix)
63- Não se pode esperar que o espectador julgue o quadro pela quantidade ou espécie de
esforço despendido na sua execução. O artista deve fazer desaparecer não só todos os
andaimes, mas a obra deve demonstrar uma unidade tão espontânea, que dê a impressão
de nunca os ter tido.
64- A palavra expressão não significa a elocução espontânea de sentimentos, mas o
reconhecimento de imagens ou objetos que contém expressão.
65- O processo artístico se constitui em evocar em nós mesmos uma sensação
experimentada, e, tendo-a evocado em nós, por meio de movimentos, linhas, cores,
sons, ou formas expressas em palavras, transmitir essa sensação de forma a que outros a
experimentem,é esta a atividade da arte (Tolstoi).
66- É preciso criar entre todas as cores que constituem o quadro um equilíbrio tal que
chegue um momento em que cada parte tenha encontrado sua relação definitiva, e a
partir de então será impossível dar mais uma pincelada sem que seja preciso pintá-lo de
novo. (Matisse).

Extraído do livro ‘’O significado da Arte’’, de Herbert Read.

								
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