SILVA by 3kP7t9

VIEWS: 31 PAGES: 4

									    ESTUDO DA CONCENTRAÇÃO DE FLÚOR E POTENCIAL EROSIVO DE
                                 BEBIDAS QUENTES

  MARON, Anelise Schäfer 1; SILVA, Viviane Maciel 1; LUND, Rafael Guerra 2;
                     DEL PINO, Francisco Augusto Burkert 1.
           1
         Laboratório de Flúor e Corrosão – Departamento de Bioquímica – IQG - UFPel
       2
       Faculdade de Odontologia – UFPEL – Programa de Pós-Graduação em Odontologia
     Campus Universitário – Caixa Postal 354 – CEP 96010-900. anelisemaron@hotmail.com




                             1. INTRODUÇÃO TEÓRICA

       A erva mate (Ilex paraguaryensis), o café (Coffea arábica) e o chá têm grande
importância histórico-cultural para o povo brasileiro. O hábito de consumir bebidas
quentes está profundamente arraigado nas populações [3, 9]. Apesar de suas
amplas utilizações, pouco se sabe a respeito da relação entre as composições
químicas dessas bebidas e os seus efeitos na cavidade bucal.
       Está cientificamente comprovado que o flúor em dosagens que variam de 0,6
a 0,9 ppm tem grande efetividade para a redução da cárie dentária. Em
contrapartida, um elevado teor deste íon, pode causar a fluorose [3].
       Mesmo a concentração de flúor ser geralmente baixa nos alimentos [2],
produtos naturais despertam a curiosidade científica, especialmente, em se tratando
de bebidas pouco estudadas do ponto de vista odontológico.
       A erosão dental é definida como uma perda progressiva de tecido dentário por
processo químico que não envolve atividade bacteriana [5, 8]. Os fatores etiológicos
são: frutas, bebidas ácidas, indústrias químicas, piscinas cloradas, vitamina C,
aspirina, ácido clorídrico ou doenças que provocam regurgitação do suco gástrico ou
diminuição do fluxo salivar [4].
       Inicialmente, a característica clínica mais comum da lesão por erosão é a
perda do brilho do esmalte. Quando atinge a dentina, provoca sensibilidade ao frio,
calor e pressão osmótica. Quando acomete dentes restaurados, as restaurações
tornam-se proeminentes, projetando-se acima da superfície dental [4].
       Estudos in vitro mostram que, quando o esmalte é exposto à uma solução
aquosa com pH 4 a 5, a superfície de esmalte é alterada, formando uma lesão
semelhante à erosão que se desenvolve na cavidade bucal. Esta situação pode
ocorrer clinicamente quando os níveis de pH salivar são inferiores a 4,5 ou por meio
do consumo de frutas e bebidas ácidas [6]. Convém salientar, que a saliva possui
um papel de proteção no processo de desmineralização dental em razão, dentre
outros fatores, devido à sua capacidade tamponante [1].
       Com o aumento do consumo de uma dieta ácida decorrente do advento dos
produtos industrializados, torna-se fundamental que o cirurgião dentista esteja atento
para a etiologia da erosão dental, adquirindo conhecimento de diagnóstico e conduta
clínica frente a pacientes que apresentem tal patologia [6].
       Diante do exposto, objetivou-se determinar o pH, a capacidade tampão e teor
de flúor de bebidas quentes preparadas com diferentes marcas de erva-mate, chás e
cafés, fornecendo dados que auxiliem na predição dos seus potenciais erosivos,
bem como a concentração de flúor e sua efetividade terapêutica.
                            2. MATERIAL E MÉTODOS

       Foram selecionadas 10 marcas de chá, 9 de café e 8 de erva-mate
comercializadas na cidade de Pelotas / RS (Tabela 1).
       O chimarrão foi preparado na proporção aproximada de 150g de erva mate
para 250 mL de água miliQ quente. O café foi preparado dissolvendo-se 1,5g (duas
colheres de chá) do produto em 250mL de água miliQ fervente. Para o preparo do
chá, foi feita uma infusão de um sachê do produto (1g) em 250mL de água miliQ
fervente.
       As análises das bebidas foram processadas em duplicata no Laboratório de
Flúor e Corrosão do Departamento de Bioquímica da UFPel-RS.
       Para a mensuração do pH e a determinação do teor de flúor, foi utilizado um
potenciômetro microprocessado (ANALION - AN 2000). Para a análise de flúor foi
acoplado ao equipamento um eletrodo seletivo para fluoreto previamente calibrado.
       A capacidade tampão foi determinada por titulação com NaOH 0,1N de 25mL
de cada amostra, sob agitação constante (agitador magnético), usando-se
fenolftaleína como indicador ácido-base.

Tabela 1 – Marcas de ervas-mate, chás e cafés utilizadas no estudo.
        Ervas - mate               Cafés                        Chás
                     ®                             ®
       Barão Verde         Poupe Mais (torrado)           Chileno (sene) ®
                    ®                              ®
        Flor Verde         Bom Jesus (torrado)           Dr. Oetker (verde) ®
       Madrugada ®          Caboclo (torrado) ®        Flora da Índia (preto) ®
                   ®                           ®
         Nacional             União (torrado)             Leão (carqueja) ®
          Raízes ®           Iguaçu (solúvel) ®         Madrugada (hortelã) ®
                       ®                       ®
    Saphira (colonial)       Mellita (solúvel)         Multiervas (erva-doce) ®
           Vier ®           Nescafé (solúvel) ®          Nacional (cidreira) ®
                 ®                               ®
          Yacuy             Pacheco (solúvel)             Prenda (maça) ®
                                                     ®
                         Três Corações (solúvel)        Royal Blend (preto) ®
                                                         Vemat (maracujá) ®




                         3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

       A tabela 2 apresenta os resultados de flúor, pH e Capacidade Tampão para
as diferentes marcas de chá, café e erva-mate comercializadas no município de
Pelotas.
Tabela 2 – Resultados obtidos para as diferentes marcas de chás, cafés e ervas-
mate analisadas
                                                        Capacidade Tampão
       Descrição         Flúor (ppm)         pH
                                                          (mEq-g/100mL)
     Chileno (sene)          0,22           5,92                0,28
   Dr. Oetker (verde)        4,35           5,22                3,28
 Flora da Índia (preto)      2,05           5,14                2,36
    Leão (carqueja)          0,24           5,79                0,68
  Madrugada (hortelã)        0,54           5,83                 0,7
 Multiervas (erva-doce)      0,41           5,93                0,78
   Nacional (cidreira)       0,35           6,08                 0,9
     Prenda (maça)           0,45            4,3                2,16
  Royal Blend (preto)        1,75           5,01                4,62
   Vemat (maracujá)          0,37           4,52                2,37
 Poupe Mais (torrado)        0,47           6,10                3,42
  Bom Jesus (torrado)        0,64           6,10                8,32
   Caboclo (torrado)         0,39           5,78                4,78
     União (torrado)         0,22           5,79               10,78
    Iguaçu (solúvel)         0,90           4,81               15,44
    Mellita (solúvel)        1,21           4,93                6,48
   Nescafé (solúvel)         1,04           4,90                6,47
   Pacheco (solúvel)         1,14           4,70               20,50
Três Corações (solúvel)      0,60           7,08                8,58
      Barão Verde            0,11           5,65               13,96
       Flor Verde            0,13           5,59                3,50
       Madrugada             0,40           5,50                9,28
        Nacional             0,15           5,64                7,38
         Raízes              0,16           5,63                8,34
   Saphira (colonial)        0,24           5,54               10,36
          Vier               0,23           5,61                2,10
         Yacuy               0,14           5,50                 6,0

       As amostras de chá que apresentaram teor de fluoreto acima do considerado
ideal (0,9ppm) foram: Dr. Oetker, Flora da Índia e Royal Blend, e as demais tiveram
valores inferiores. Quanto ao pH, todas as amostras apresentaram caráter ácido. As
marcas que exibiram os maiores valores para a capacidade tampão foram: Dr.
Oetker, Vemat, Prenda, Flora da Índia e Royal Blend. As outras apresentaram
valores baixos.
       As amostras de café que apresentaram teor de flúor acima do ideal foram:
Mellita, Nescafé e Pacheco. Bom Jesus, Três Corações e Iguaçu apresentaram
níveis considerados ideais (entre 0,6 e 0,9ppm) e o restante exibiu valores inferiores
a 0,6 ppm. Somente a marca Três Corações mostrou valores de pH próximo à
neutralidade, o restante apresentou caráter ácido. As marcas Pacheco, Iguaçu e
União, respectivamente, tiveram os maiores valores para a capacidade tampão.
       Todas as amostras de erva-mate revelaram baixos níveis de flúor e caráter
ácido. Barão Verde e Saphira apresentaram os maiores valores para capacidade
tampão.
                                 4. CONCLUSÕES

       Com base na metodologia empregada e dentro das limitações deste estudo
foi possível verificar a influência das diferentes marcas de chás, ervas-mate e cafés
na ocorrência da erosão dental bem como o considerável teor de flúor de algumas
marcas, predizendo a sua efetividade terapêutica.




                       5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] AMAECHI, B.T., HIGHAM, S.M. Eroded enamel lesion remineralization by saliva
as a possible factor in the site-specificity of human dental erosion. Archives of Oral
Biology, 2001, 46, p. 697-703.
[2] BURT, B.A. The changing patterns of systemic fluoride intake. Journal of Dental
Research, 1992, 71, p.1228-37.
[3] CURY, J.A. Concentração de fluoreto em chás brasileiros e seu significado na
prevenção da cárie. Revista Gaúcha de Odontologia, 1981, 29, p. 136-138.
[4] ECCLES, J. D. Dental erosion of nonindustrial origin. A clinical survey and
classification. Journal of Prosthetic Dentistry, 1979, 42, p. 649-653.
[5] IMFELD, T. Dental erosion. Definition, classification and links. European Journal
of Oral Science, 1996, 104(2/II), p.151-155.
[6] JÄRVINEN, V.K, RYTÖMAA, I.I., HEINONEN, O.P. Risk factors in dental erosion.
Journal of Dental Research, 1991, 70, p. 942-947.
[7] LARSEN, M. J., BRUUN, C. Esmalte-saliva – reações químicas inorgânicas. In:
THYLSTRUP, A.; FEJERKOV, O. Tratado de cariologia. 2. ed. RJ, 1998. p. 169-
193.
[8] NEVILLE, B.W., DAMM, D.D., ALLEN, C.M., BOUQUOT, J.E. Anomalias dos
dentes. In: Neville, B.W., Damm, D.D., Allen, C.M., Bouquot, J.E. Patologia Oral &
Maxilofacial. 1a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998. Cap.2. p. 43-92.
 [9] TREVISANATO, S.I., KIM, Y.I. Tea and health. Nutrition Review, 2000, 58, p.1-
10.

								
To top