DO DESENHO AO MAPA
Em um encontro de professores de Geografia, em 1990, fui abordada por uma
senhora muito simpática, professora primária da cidade de Barretos. Ela trazia
uma pasta contendo trabalhos de seus alunos da 4ª- série. Abriu a pasta com
entusiasmo e mostrou-me desenhos e textos produzidos pelas crianças durante
atividades que ela havia elaborado após ler o \"livro cor-de-rosa\"*, recém lançado.
Em pé, apoiei o material sobre uma mureta e comecei a analisar os desenhos.
Deparei-me com um que me pareceu espetacular. Pedi para fazer uma cópia.
Diante de meu interesse, a professora deixou-o comigo, dizendo que me
procuraria no dia seguinte. Não me lembro do nome dessa professora, que nunca
mais encontrei, ficando com o desenho original até hoje.
O que havia de tão interessante naquele desenho?
Infelizmente, na folha faltavam nome e idade. Não sei se foi feito por um menino
ou por uma menina, nem sei sua idade. Segundo a professora, os alunos
realizaram um estudo do meio do bairro onde está a escola. Andaram por tudo,
escrevendo ou desenhando o que
viam. Anotaram as casas de cada lado das ruas e o que acharam mais
interessante. Depois, em sala de aula, cada um escreveu um texto e elaborou um
desenho como se fosse um mapa, para localizar a escola no bairro. Eis porque
este desenho é especialmente interessante.
Parece-me que desenhar o \"mapa\" do bairro mobilizou o pensamento do aluno
para buscar formas de traçar o bairro, não como era visto durante o percurso, mas
como deveria ser representado para parecer um mapa. Os traços que evocam
ruas, casas, árvores... permitem pensar onde o aluno se encontrava com relação
ao domínio da representação espacial. Interpretar o desenho sob esta ótica
reveste o ensino de mapas de um caráter muito diferente daquele comumente
impresso às atividades propostas aos alunos. (A professora de Barretos, por ter
dito que o desenho deveria situar a escola no bairro, já estabeleceu um desafio
maior do que a simples solicitação de desenhar o bairro; penso que sua intenção
foi levar o aluno a elaborar um mapa.)
Mas o caráter \"diferente\" que atribuo ao ensino de mapas é dado pelo
conhecimento sobre a representação do espaço pela criança e suas implicações
para o desenvolvimento de habilidades espaciais e o ensino de conceitos
cartográficos. Assim, com o auxílio de teorias sobre a representação do espaço
pela criança, foi possível ver no desenho em questão traços que o colocam em um
nível avançado.
Essas teorias, no entanto, não pertencem à tradição dos currículos dos cursos de
formação de professores e só recentemente passaram a figurar no currículo do
ensino fundamental.
Tenho observado, nos últimos anos, que os professores apropriaram-se de
práticas destinadas ao ensino de mapas, como fazer maquetes, analisar
fotografias a partir de diferentes pontos de vista, medir distâncias, calcular escalas
e identificar pontos cardeais, apenas para dar alguns exemplos. Essas práticas
visam a ensinar os elementos do mapa do adulto, aquele mapa que se usa na
aula de Geografia. Mapas que representam o espaço terrestre, em escala, por
meio de uma malha de coordenadas de grande precisão (as coordenadas
geográficas), de projeções cartográficas e se utilizando simbologia convencional.
Mas, nas aulas em que os professores ensinam a respeito de mapas, não percebo
como os conhecimentos elaborados pelo aluno são levados em conta, porque
nelas ainda persistem tarefas fragmentadas, durante as quais os avanços e
dificuldades dos alunos pouca conseqüência têm nas etapas subseqüentes. A
natureza das tarefas apresentadas também não garante que se atinja o que é
proposto. Por exemplo, pede-se para o aluno calcular distâncias com a finalidade
de verificar se ele sabe escala. Neste caso, os erros podem decorrer de
dificuldades em calcular e não do domínio da noção de escala. Há, portanto,
confusão entre as tarefas propostas e os conceitos a serem aprendidos.
Os mapas das crianças trazem elementos do pensamento infantil, são
representações de seu modo de pensar o espaço, as quais persistem mesmo que,
na escola, as crianças tenham entrado em contato com conteúdos relativos aos
\"mapas dos adultos\". Conhecer como as crianças percebem e representam o
espaço pode auxiliar muito o trabalho docente. Especialmente na preparação de
atividades de ensino que contribuam para a aquisição gradativa de diferentes
modos de representação espacial, cada vez mais próximos daqueles dos adultos.
Portanto, as práticas no ensino de mapas poderão legitimar-se se estiverem sob a
luz de fundamentos teóricos e se permitirem aproximações críticas entre esses
modos de fazer mapas.
Neste livro, proponho-me a apresentar atividades para o ensino de mapas, a partir
de uma discussão teórica sobre a representação do espaço por crianças.