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DO DESENHO AO MAPA

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DO DESENHO AO MAPA
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2/11/2012
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DO DESENHO AO MAPA

Em um encontro de professores de Geografia, em 1990, fui abordada por uma

senhora muito simpática, professora primária da cidade de Barretos. Ela trazia

uma pasta contendo trabalhos de seus alunos da 4ª- série. Abriu a pasta com

entusiasmo e mostrou-me desenhos e textos produzidos pelas crianças durante

atividades que ela havia elaborado após ler o \"livro cor-de-rosa\"*, recém lançado.

Em pé, apoiei o material sobre uma mureta e comecei a analisar os desenhos.

Deparei-me com um que me pareceu espetacular. Pedi para fazer uma cópia.

Diante de meu interesse, a professora deixou-o comigo, dizendo que me

procuraria no dia seguinte. Não me lembro do nome dessa professora, que nunca

mais encontrei, ficando com o desenho original até hoje.

O que havia de tão interessante naquele desenho?

Infelizmente, na folha faltavam nome e idade. Não sei se foi feito por um menino

ou por uma menina, nem sei sua idade. Segundo a professora, os alunos

realizaram um estudo do meio do bairro onde está a escola. Andaram por tudo,

escrevendo ou desenhando o que

viam. Anotaram as casas de cada lado das ruas e o que acharam mais

interessante. Depois, em sala de aula, cada um escreveu um texto e elaborou um

desenho como se fosse um mapa, para localizar a escola no bairro. Eis porque

este desenho é especialmente interessante.

Parece-me que desenhar o \"mapa\" do bairro mobilizou o pensamento do aluno

para buscar formas de traçar o bairro, não como era visto durante o percurso, mas

como deveria ser representado para parecer um mapa. Os traços que evocam

ruas, casas, árvores... permitem pensar onde o aluno se encontrava com relação

ao domínio da representação espacial. Interpretar o desenho sob esta ótica

reveste o ensino de mapas de um caráter muito diferente daquele comumente

impresso às atividades propostas aos alunos. (A professora de Barretos, por ter

dito que o desenho deveria situar a escola no bairro, já estabeleceu um desafio

maior do que a simples solicitação de desenhar o bairro; penso que sua intenção

foi levar o aluno a elaborar um mapa.)

Mas o caráter \"diferente\" que atribuo ao ensino de mapas é dado pelo

conhecimento sobre a representação do espaço pela criança e suas implicações

para o desenvolvimento de habilidades espaciais e o ensino de conceitos

cartográficos. Assim, com o auxílio de teorias sobre a representação do espaço

pela criança, foi possível ver no desenho em questão traços que o colocam em um

nível avançado.

Essas teorias, no entanto, não pertencem à tradição dos currículos dos cursos de

formação de professores e só recentemente passaram a figurar no currículo do

ensino fundamental.

Tenho observado, nos últimos anos, que os professores apropriaram-se de

práticas destinadas ao ensino de mapas, como fazer maquetes, analisar

fotografias a partir de diferentes pontos de vista, medir distâncias, calcular escalas

e identificar pontos cardeais, apenas para dar alguns exemplos. Essas práticas

visam a ensinar os elementos do mapa do adulto, aquele mapa que se usa na

aula de Geografia. Mapas que representam o espaço terrestre, em escala, por

meio de uma malha de coordenadas de grande precisão (as coordenadas

geográficas), de projeções cartográficas e se utilizando simbologia convencional.

Mas, nas aulas em que os professores ensinam a respeito de mapas, não percebo

como os conhecimentos elaborados pelo aluno são levados em conta, porque

nelas ainda persistem tarefas fragmentadas, durante as quais os avanços e

dificuldades dos alunos pouca conseqüência têm nas etapas subseqüentes. A

natureza das tarefas apresentadas também não garante que se atinja o que é

proposto. Por exemplo, pede-se para o aluno calcular distâncias com a finalidade

de verificar se ele sabe escala. Neste caso, os erros podem decorrer de

dificuldades em calcular e não do domínio da noção de escala. Há, portanto,

confusão entre as tarefas propostas e os conceitos a serem aprendidos.

Os mapas das crianças trazem elementos do pensamento infantil, são

representações de seu modo de pensar o espaço, as quais persistem mesmo que,

na escola, as crianças tenham entrado em contato com conteúdos relativos aos

\"mapas dos adultos\". Conhecer como as crianças percebem e representam o

espaço pode auxiliar muito o trabalho docente. Especialmente na preparação de

atividades de ensino que contribuam para a aquisição gradativa de diferentes

modos de representação espacial, cada vez mais próximos daqueles dos adultos.

Portanto, as práticas no ensino de mapas poderão legitimar-se se estiverem sob a

luz de fundamentos teóricos e se permitirem aproximações críticas entre esses

modos de fazer mapas.

Neste livro, proponho-me a apresentar atividades para o ensino de mapas, a partir

de uma discussão teórica sobre a representação do espaço por crianças.


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