As Vanguardas Artísticas Européias
Tatiane Amorim Vasconcelos e Ana Beatriz Domingues
Antes de começarmos a pensar e a falar sobre as Vanguardas
Artísticas, é necessário elaborar um breve panorama histórico sobre
os fatores que possibilitam seu surgimento na primeira metade do
séc. XX. Para isso, retornaremos um pouco mais no tempo para
compreender as origens e os anseios que surgirão posteriormente na
história da arte. Em meio a um contexto de crise econômica, a
França viveu em 1848 uma nova onda revolucionária, e logo
percebeu a importância que as forças populares teriam em seu
movimento, como fator decisivo para a vitória. Nesse momento, o
"Os comedores de batatas" Van Gogh,
movimento ganha reivindicações de caráter social, além das
político-econômicas, como a defesa de um regime democrático e constitucionalista, em conjunto com as
demais propostas de nacionalismo e liberalismo. O caráter ideológico contrário ao Antigo Regime
conseguiu, neste momento, unir grupos de origens sociais muito distantes. É a partir dessa união
ideológica que surge o Realismo, uma arte de vanguarda que considera a realidade como problema
central, uma vez que é ela quem determina a vida humana. Os quadros do realismo procuram expressar o
ser humano como um ser histórico, produtor e produto do meio em que vive. Há uma rejeição do
Romantismo, considerado descompromissado com a realidade humana na medida em que celebrava o
misticismo, a beleza convencional e a evocação dos feitos históricos, em vez das pessoas comuns. O
Socialismo Científico associa-se com o Realismo artístico (o ser humano é o centro de tudo). A crise
deste movimento começa a ser observada após a derrota da experiência revolucionária da Comuna de
Paris (1871), onde ocorre uma desagregação do realismo, uma vez que seus adeptos ativamente
participavam da, ou simpatizavam com, a Comuna (principalmente os grandes mestres realistas). A
burguesia, já então fortalecida, tende ao conservadorismo e acaba se afastando ideologicamente do
restante dos movimentos sociais populares, rompendo a união realizada anteriormente O resultado disso é
a desvalorização do Realismo e a valorização de uma arte não tão comprometida com as causas sociais:
surge então o Impressionismo. O fortalecimento econômico, político e
social da burguesia fez com que esta percebesse que, se o Realismo
continuasse a ser valorizado, cedo ou tarde o restante da população se
voltaria contra ela, atribuindo à burguesia a causa das mazelas vividas
pelas classes mais baixas (a realidade precisava ser ocultada). A
Realidade continua a ser retratada nas obras Impressionistas, só que de
maneira superficial (a partir da impressão que o artista tem desta).
Testemunha viva da crise dos valores do séc. XIX, Van Gogh (1846-
1890) foi um dos artistas que viveu a crise do Realismo, e, talvez, por
causa disso, teve um fim trágico: suicidou-se, já que tudo aquilo em "A ponte de Charing Cross" Derain,
que acreditava era agora repudiado pela sociedade. As Vanguardas
Artísticas do início do século XX vão repudiar a arte Impressionista pois a associam à hipocrisia
burguesa de não-compromisso social. Os primeiros grupos vanguardistas defendem uma fuga da realidade
dominada pela ideologia burguesa, pois se vive em um período de prosperidade econômica que impede o
surgimento de um movimento social contrário à ordem vigente, como a Comuna de Paris. Porém, é
importante que consideremos que antes de serem decadentistas (querendo fugir da realidade), os
movimentos vanguardistas são revolucionários, pois desejam a mudança da sociedade no sentido de algo
melhor. A partir da negação da estética Impressionista, os vanguardistas são contra a arte esteticista,
preocupada apenas com a retratação do que era socialmente aceito como belo. Preocupam-se com a arte
inteligente, muitas vezes considerada feia pela maioria das pessoas que a criticam.
Os movimentos de Vanguarda, em geral, foram influenciados pela Arte primitiva, sobretudo a Arte
Africana. O que chamava a atenção dos vanguardistas era a expressividade intensa, clareza de estrutura e
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a simplicidade da técnica dessas obras. Para o escultor africano as idéias sobre o seu tema eram mais
importantes do que a representação naturalista, daí ser ele levado a formas ao mesmo tempo mais
abstratas e estilizadas, num certo sentido, mais simbólicas.
Dentre as diversas escolas artísticas de Vanguarda, destacamos:
Fauvismo: As obras caracterizavam-se pela liberdade de expressão através do uso de cores puras e
do exagero do desenho da perspectiva. Por essas inovações foi dado a esses artistas, por parte dos críticos,
o apelido de Les Fauves (As Feras). Matisse e Derain foram os precursores do movimento. A técnica
predominante baseava-se na utilização de espaços em branco na tela, uma técnica fluida, criando uma
sensação de espaço flutuante e o desprezo pelo acabamento, a tela devendo ser vista em sua unidade.
Pode ser considerado um movimento de transição, um processo rápido de experimentação a partir das
possibilidades sugeridas pelos pós- impressionistas.
Expressionismo: O termo Expressionista foi um rótulo dado àqueles artistas pensados como anti-
impressionistas. Suas obras foram caracterizadas por gestos visuais que transmitissem e, talvez,
libertassem emoções e mensagens emocionalmente carregadas. Desenvolve-se especialmente na
Alemanha, e após a I Grande Guerra, assume um caráter mais político. A sua pintura quase nunca é
agradável e bela, pois os artistas expressionistas (Kandinsky Meidner) buscam a liberdade da visão pura,
afirmando que, quanto mais o mundo se torna amedrontador (a guerra), mas a arte se torna abstrata. Não
podemos caracterizá-los como parte de um movimento organizado, uma vez que nunca se auto-
intitularam expressionistas.
Cubismo: Arte mais formalista, preocupada com a reavaliação e a
reinvenção de procedimentos e valores da pintura. De uma maneira geral, foi
uma arte calma e reflexiva. Influências da Arte Africana, principalmente a
escultura. A obra Cubista levava para a tela diversas impressões dimensionais
do objeto, deixando a possibilidade ao espectador de reconstituir para si
mesmo o objeto por inteiro. A arte de Picasso e Braque baseia-se num
equilíbrio cuidadoso entre representação e abstração. Movimento central em
torno do qual gravitou a arte da primeira metade do século XX, tornando-se
referência para diversos movimentos.
Futurismo: Diferente dos movimentos anteriores, o Futurismo foi um
movimento organizado na Itália por Filippo Marinetti. Foi um movimento
“Família” Pablo Picasso radical que rejeitava todas as tradições e instituições tradicionais. Iniciou a
tradição moderna de Manifestos artísticos .Os futuristas defendiam as novas
tecnologias e a modernidade associada à Arte. Influenciam o Cubismo, na medida em que propõem uma
arte menos monocromática. Destacam-se Umberto Bocciono e Giacomo Balla, entre outros. Apoiam,
desse modo, o progresso técnico, associado ao ideal burguês, diferentemente de outros movimentos de
vanguarda, críticos às propostas burguesas.
Dadaísmo: É um movimento organizado e essencialmente internacional.
Ganha força após a I Grande Guerra, criticando os governos autocráticos e as
artes burguesas. Criado a partir do clima de instabilidade, revolta ,medo e
desencanto, provocado pela guerra. Defendiam o Automatismo, um processo de
criação ao acaso. Não havia unidade real entre os dadaístas. Suas exposições
eram uma total incoerência. Nada há que seja um estilo Dada. Entre os que se
consideravam dadaístas sobressaíram-se Francis Picabia e Marcel Duchamp.
Surrealismo: “Substituto” do Dadaísmo,a diferença radical entre eles
residia na formulação de teorias e princípios, em vez do anarquismo dadaísta.
Criticam, assim como o Dada, a tradição e a ordem burguesa, as idéias de bom
gosto e as normas tradicionais da sociedade.. Segundo os surrealistas, a arte
deve se libertar das exigências da lógica e da razão. Defendem o automatismo "Sonho causado pelo
psíquico pelo qual alguém se propõe a expressar seja verbalmente, seja por vôo de uma abelha"
escrito, ou de qualquer outra forma, o funcionamento real ou irreal do Salvador Dalí,
pensamento (apóiam uma espécie de tradução do pensamento). Influência das
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teorias dos sonhos de Freud: o que os surrealistas viam nos sonhos era a imaginação em seu estado
primitivo e uma expressão pura do maravilhoso. Dentre os artistas desse movimento, podemos citar Dali
e Miro.
Com o advento das Guerras Mundiais e da crise de 1929, o Positivismo Científico, que
fundamentava o discurso burguês progressista, perde força. O Positivismo não conseguiu encobrir as
contradições sociais por muito tempo e, com as Guerras Mundiais, toda a idéia de que o sacrifício se fazia
necessário para o progresso, cai por terra. Como o Positivismo, o Liberalismo burguês também entra em
crise, principalmente depois de 1929. É com a crise do sistema capitalista que o movimento vanguardista
ganha força, pois, nesse momento, surgem movimentos sociais e políticos contrários a essa realidade
burguesa, possibilitando aos vanguardistas a exaltação do seu caráter revolucionário reprimido até aquele
momento. No período do entre guerras (1918-1939), principalmente, houve uma grande associação de
vanguardistas a movimentos políticos como o Fascismo e o Bolchevismo, por causa do forte caráter anti-
buguês e anti-liberal observados neles. Os vanguardistas acreditavam que tais movimentos traziam em
suas propostas alternativas de mudança social no sentido de uma realidade mais justa, comprometida com
a resolução dos problemas sociais. As produções artísticas desse período influenciaram outras formas
artísticas, como por exemplo, o cinema. Rússia e Alemanha foram palcos da mais importante expressão
vanguardista-cinematográfica, mas foi na França dos anos 1930 que assistimos ao sucesso do cinema
popular, pois este conseguiu alcançar o intento de interagir a cultura com os anseios do grande público. O
sucesso do cinema vanguardista foi tão grande na Europa, que o cinema hollywoodiano, principalmente
os filmes de horror, buscaram características do Expressionismo alemão para realizarem suas produções
cinematográficas. O diferencial da arte cinematográfica é que esta não cobra muita qualificação de quem
a aprecia, diferentemente dos livros, que exigem do público a alfabetização, restringindo assim seu
acesso. Outro fator interessante do cinema é que este ganhou cada vez mais força, conforme o avanço das
Guerras. As massas se identificavam e até sonhavam com os filmes deste período.
A lição que podemos tirar destes movimentos artísticos é que, como tantos outros movimentos de
contestação que surgem posteriormente, o sistema que inicialmente é criticado duramente pelos
vanguardistas, acaba, no decorrer da história, absorvendo as Vanguardas Artísticas, transformando estas
em uma arte de expressão dos seus próprios interesses.
Breve Cronologia:
1848: Movimentos de 1848
Meados do séc XIX: Realismo
1871: Comuna de Paris
Final do séc XIX: Impressionismo
1904: Fauvismo
1905: Expressionismo
1909: Cubismo
1910: Futurismo
1914 - 1918: I Grande Guerra
1917: Dadaísmo
1924: Surrealismo
Sergei M. Eisentein, importante cineasta russo
1929: Crise de 1929
do séc. XX
1939 - 1945: Segunda Guerra Mundial
Bibliografia Utilizada:
BAZIN, Germain. “História da Arte”, Lisboa, Martins Fontes,1980.
BENJAMIN, Walter. “Magia e Técnica, Arte e Política”,SP, Brasiliense, 5ª ed, 1993.
CHARNEY, Leo e SCHWARTZ, Vanessa R. “O Cinema e a Invenção da Vida Moderna”,
SP,Cosac & Naify, 2ª ed, 2004.
DAIX, Pierre. “Crítica Nova e Arte Moderna”, RJ, Civilização Brasileira S.A, 1ª ed, 1971.
GOMBRICH, Ernst Hans. “A História da Arte”, RJ, 2ª ed, Jorge Zahar, 1981.
HAUSER, Arnold. “História social da Literatura e da Arte”, SP, Mestre Jou, 2ª ed,1972.
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HOBSBAWN, Eric. “A Era dos Extremos”, SP, Cia. da Letras, 2ª ed, 2003.
MICHELI, Mario de. “As Vanguardas Artísticas”, SP, Martins Fontes, 20ª edição, 1991.
STANGOS, Nikos (org). “Conceitos da Arte Moderna”, RJ, Jorge Zahar, 4ª ed, 1997
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