Aula 18/10/2006 � MICROBIOLOGIA by hbNiR9rK

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									             Engenharia Biomédica – 3º ano, 1º semestre
             Mecanismos Gerais da Doença (2006/2007)
                        Aula 5 – 18 de Outubro de 2006
                             Tema: Microbiologia
          Professores Mário Ramirez, Pedro Simas, Thomas Hanscheid

        Aula desgravada por Ângela Pisco, Rita Malcata e Teresa Cardoso



                        1ª parte – Professor Mário Ramirez

       Existem dois tipos de microscopia electrónica: varrimento e transmissão.
Estamos a ver uma imagem por microscopia de varrimento da superfície de bactérias, a
cor não é natural, é artificial.

        Antes de falarmos de microbiologia é importante definir o que é um
microrganismo.
        Recorrendo ao dicionário de português da Porto Editora na sua versão on-line a
definição de um microrganismo é que é um substantivo masculino, biologia,
organismo animal ou vegetal de dimensões microscópicas.
        Esta definição da Porto Editora é uma definição vasta, é uma definição que é
manifestamente insuficiente.
        Os microrganismos não são animais nem vegetais, classificam-se em domínios
da vida completamente diferentes dos animais e vegetais e portanto são muito
diferentes. Essa definição de microrganismos não nos serve de todo.
        Para perceber melhor o que é um microrganismo, nós temos que perceber o que
é uma célula, uma vez que todos os microrganismos são células, mas como são células
de um tamanho muito pequeno são umas células um bocadinho diferentes daquelas que
estão no nosso próprio organismo.
        No entanto as células têm características especiais: uma das características
importantes das células é que é distinta do meio ambiente e efectua trocas com esse
meio ambiente, há coisas que entram na célula, há coisas que saem da célula e há
coisas que são transformadas pela célula.
        Uma das características essenciais é a célula ser capaz de se reproduzir, ao
fim de algum tempo uma célula tem que ser capaz de se reproduzir, de dar duas células
filhas idênticas
        É também uma característica importante não só das nossas células, mas também
das células bacterianas a capacidade de se diferenciarem, ou seja de existir um tipo
de célula que pode dar um tipo diferente de célula.

(na imagem uma diferenciação celular por esporolação, diferenciação num tipo celular
diferente que é o esporo)

       As células são capaz de comunicar entre si, como é obvio que acontece com
os nossos neurónios, mas as bactérias também comunicam entre si.


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        E finalmente (talvez) chegámos aquilo que levou à definição da Porto Editora a
dizer que há células, que há microrganismos animais e vegetais: algumas células são
capazes de se moverem! E essa qualidade do movimento é uma qualidade que está
desde sempre associada aos animais. Aquilo que distingue um animal de uma planta,
se eu perguntar a qualquer um de vós, se calhar é que as plantas não se mexem e que os
animais mexem.
        Não? Está um colega ali a dizer que as plantas também se mexem. E que
plantas é que mexem? As plantas carnívoras. De facto têm um movimento, mas estão
enraizadas naquele espaço. Eu não conheço nenhuma planta (também não sou
botânico) que seja capaz de arrancar as raízes e ir com as raízes às costas para outro
sítio qualquer.
        É essa qualidade de movimento que os animais têm e que levou a essa tal
classificação original de que algumas células seriam animais. Aliás vocês já ouviram
de certeza a história do Leeuwenhoek (o Leeuwenhoek foi aquele senhor que inventou
o microscópio): aquilo que mais o impressionou quando olhou para a gotinha de água
foi que algumas células se mexiam, e portanto essas células eram indubitavelmente
vivas e ele chamou-lhes animalcus e foi daí que aquele erro de classificação se
propagou até ao dicionário da Porto Editora
        E finalmente, e é uma característica que nós poucas vezes pensamos nela mas
que é essencial a todas as células, é a capacidade de evoluírem, ou seja de nós termos
uma célula ancestral que ao fim de milhares de anos de adaptação vai dar origem a
células cujas propriedades diferem das propriedades daquela célula ancestral, portanto
são células que se vão especializar e diferenciar em novas espécies.
        Podemos pensar nessas funções ou nestas propriedades da célula como
dependentes de duas funções: uma função de codificação de informação, e essa
função de codificação como vocês sabem está contida no DNA, que é replicado,
transcrito em RNA e que será depois traduzido em proteínas de modo a que essa
informação possa ser transmitida às células filhas. São essas proteínas que na maior
parte dos casos são os efectores dessa informação, aquilo que vai realizar as funções na
célula e as funções são funções que os anglo-saxónicos chamam “machine functions”
que são por um lado a obtenção de energia na forma de ATP e por outro a
transformação de percursores em macromoléculas, o que leva a que se consigam
produzir novas células. São estes os dois tipos de função.
        Nós na microbiologia clínica tratamos não só de organismos que são
microscópicos, como de organismos que são bastante macroscópicos, como vocês
vêem ali pela fotografia do meio (ténia – parasita humano)
        A microbiologia clínica também se debruça sobre o estudo destes organismos,
que são parasitas humanos.

       Outras fotografias:
       Fungos – podia ser o fungo do pão lá de casa, vocês vêem as hinfas e os
esporos (estruturas reprodutoras do fungo)
       Bactérias
       Leveduras – são células eucariotas, a imagem é de microscopia de Luhmann,
em que o que se vê é o núcleo, porque tem um índice de refracção diferente do resto da
célula
       Vírus – Corona vírus – vírus da gripe

        Estes microrganismos são por um lado microrganismos procariotas e por
outro, tal como as leveduras e os fungos, organismos eucariotas.

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        Qual é a diferença fundamental entre os organismos procariotas e os
organismos eucariotas?
        Os eucariotas têm um núcleo individualizado separado do resto da célula
enquanto que os procariotas não têm, têm uma região onde se vai localizar o DNA
que se chama nucleóide, mas não têm um núcleo individualizado, mas para além disso
vocês vêem aqui, existem várias estruturas membranares internas à membrana nos
eucariotas e que não existem nos procariotas e vocês identificam aqui os cloroplastos,
as mitocôndrias e eventualmente o complexo de Golgi.
        As mitocôndrias descendem das bactérias; e há uma teoria, que é a teoria mais
aceite neste momento (Teoria Endossimbiótica) que é a que havia uma célula que teria
uma morfologia mais ou menos procariota e que engoliu uma outra célula; essa célula
mais pequena transformou-se na mitocôndria e a célula grande desenvolveu uma
membrana interna que deu origem ao núcleo, e o mesmo aconteceu com o cloroplasto.
Inicialmente pensava-se que os procariotas não tinham membranas internas e hoje
sabe-se que existem procariotas com membrana interna, mas não têm organelos
distintos.
        A mitocôndria tem o seu próprio DNA, existe DNA mitocondrial. Até há uma
teoria engraçada, sobre estes genes: estes genes são os genes Eva – até à bem pouco
tempo pensava-se (hoje sabe-se que não é totalmente verdade) que as mitocôndrias só
nos são transmitidas pelo lado feminino!

        O que vocês se calhar nunca pensaram foi que esta distinção que todos
tomamos por evidente entre procariotas e eucariotas é uma distinção muito recente, foi
só em 1940/1950 que de facto esta distinção se fez e eu gostaria de perguntar se
alguém tem alguma ideia de porque é que foi nesta altura que se fez esta distinção?
Porque foi nesta altura com estudos de microscopia electrónica que de facto se
puderam estudar todas estas estruturas e ver que a diferença que existia entre os
microrganismos procariotas e eucariotas justificava a sua separação em dois ramos
completamente diferentes da vida.
        Portanto os eucariotas e os procariotas distinguem-se pela existência de um
núcleo contra um nucleóide (não é uma estrutura individualizada) mas também se
distinguem por outras características, por exemplo nos eucariotas os cromossomas são
lineares enquanto que nos procariotas os cromossomas são circulares.
        Vocês todos já viram os nossos cromossomas, que forma é que têm os nossos
cromossomas? Têm um aspecto em grande na forma de X e os das bactérias parecem
uma bolinha, é circular.
        Mas existem outras diferenças entre estas duas classes de microrganismos, nós
somos diplóides, sabem o que é que é ser diplóide? É ter um par de cada cromossoma,
ter dois cromossomas, ou seja, fazer com que nós tenhamos para cada gene, que estão
localizados em cada cromossoma, duas cópias, ao passo que as bactérias são haplóides,
apenas têm um cromossoma e apenas uma cópia de cada gene.

       E finalmente, uma questão que levantou ou que tem levantado muitas perguntas
é a quantidade de DNA. Os eucariotas têm mais DNA e inicialmente pensava-se que
teriam muitos mais genes mas como ficou evidente desde a sequenciação do genoma
humano a relação que existe entre a quantidade de DNA e o número de genes não é
uma relação directa. O número de genes que se identificou no genoma humano é muito
mais pequeno do que aquele que se estava à espera; no entanto continua a ser verdade
que em relação às bactérias nós temos muitos mais genes, porque as bactérias tendo
menos DNA têm menos genes.

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         Outra questão importante (e também introdutória) é o tamanho dos
microrganismos. Os microrganismos como o seu próprio nome indica são pequeninos e
o tamanho normal de uma bactéria varia entre 0.5 a 2m.
         O que vocês vêem é uma fotografia de microscopia electrónica, colorida
artificialmente, em que vêm as bactérias (bastonetes cor-de-laranja), um eritrócito (a
vermelho) e um macrófago (célula fagocitária do nosso sistema imunológico) e como
vêm as diferenças de tamanho são notórias: a bactéria é claramente mais pequena. Os
vírus se tivessem representados seriam um pixel, menos do que 0,1m. Estamos a falar
de coisas muito pequenas.
         Porque é que as bactérias são pequenas?
         Quando nós aumentamos o raio de uma esfera de 1m a 2m a relação entre a
superfície e o volume passa de 3 para 1,5. À medida que nós aumentamos o volume da
célula diminuímos a razão entre superfície e volume e portanto dificultamos as trocas
com o meio exterior; e é por isso que as bactérias são pequenas. As nossas células
evitam isso à custa dos organitos intracelulares, porque ao terem organismos
intracelulares deixa de ser só o contacto com o meio extracelular e passamos a criar
lúmens internos à célula, que podem funcionar como se fossem o meio exterior.
         Aquilo que se separa o interior da célula do exterior é a membrana
citoplasmática. A membrana citoplasmática é a principal barreira entre o que é externo
e o que é célula e também é um local onde estão ancoradas outras estruturas e eu tentei
representar aqui nesta figura 3 estruturas possíveis:
1. proteína que funciona como um sensor, está a sentir a quantidade daqueles
     quadradinhos amarelos no meio exterior;
2. temos um conjunto de proteínas que faz um canal que deixa passar selectivamente
     uma substância qualquer para o interior da célula;
3. e temos aquilo que pretende ser um transportador que agarra nas bolinhas azuis e as
     exporta para o meio exterior.

        E vamos ver outras estruturas que também estão ancoradas na membrana.
Como vocês sabem a membrana é uma camada bilipidica, tem dois folhetos, o
folheto externo e o folheto interno que se organizam assim naturalmente uma vez que
estas cabeças são hidrofílicas e esta região é hidrofóbica. E vocês vêem aqui um
fosfolípido complexo, que é um constituinte habitual das membranas citoplasmáticas, é
feito à base de glicerol substituído com ligações éster e ácidos gordos e vêem aqui um
grupo fosfato e a etanolamina que constituem esta cabeça e que vão torná-la ainda mais
polar. Portanto como vocês vêem aqui do lado esquerdo, vêem duas membranas em
que existe uma região a preto separada por uma coisinha branca e depois outra região a
preto que são as cabeças dos fosfolípidos, que são densas electronicamente, e portanto
aparecem a preto na microscopia electrónica e a região branca que corresponde às
caudas dos fosfolípidos, que deixam passar os electrões.
        Quando se pensava em membranas bilipidicas pensava-se que eram estruturas
rígidas e não foi senão dos anos 60/70 que os senhores Singer e Nicolson propuseram o
modelo do mosaico fluído.
        Neste modelo não só a membrana se formava facilmente como também se
vocês olharem e pensarem que este é o plano da membrana as proteínas que estão
inseridas na membrana não estão fixas num local mas deslocam-se livre e
aleatoriamente na membrana de modo a irem ocupar novas posições; portanto as
proteínas deslocam-se naquele plano bidimensional livremente.


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         O modelo da superfície bacteriana tal como visto por um artista é aquele.
Temos proteínas que são transmembranares, que atravessam a membrana de um
lado ao outro, temos proteínas periféricas que se associam à membrana mas não estão
directamente inseridas e temos proteínas integrais que não atravessam a membrana
mas que estão associadas a ela de algum modo e aqui então vêem a representação
artística.
         Os receptores, aquilo que sente as coisas para a célula, normalmente são
proteínas.
         As arvorezinhas são açúcares, são polímeros de açúcares, ou então são outras
estruturas que também são constituídas à base de hidrocarbonetos.
         Este modelo fluído, ou o entendimento de que a membrana era fluida, levou a
estudos que vissem como é que nós poderíamos reduzir a fluidez da membrana e de
facto descobriu-se que as nossas células, por exemplo, utilizam um composto para
reduzir essa fluidez e esse composto é nada mais nada menos que o colesterol,
portanto o colesterol é um nutriente essencial. Nós sem colesterol morríamos e com
excesso de colesterol também morremos!
         As bactérias não têm colesteróis, não usam o colesterol para reduzir a fluidez, a
fluidez dos seus lípidos, mas usam opanóides ou esteróides, que têm exactamente a
mesma função, são moléculas com anéis aromáticos.
         E o que é que o colesterol faz? O colesterol insere-se na membrana e vai fazer
com que as cadeias de ácidos gordos saturados que nós víamos no slide anterior se
organizem e ao organizarem vai diminuir a energia vibracional destas cadeias e
portanto vai diminuir a fluidez da membrana. Vamos passar de um estado cristalino,
que seria a baixas temperaturas, para um estado líquido-cristalino, um estado fluído, a
temperaturas normais e o que vamos conseguir com o colesterol é à mesma
temperatura vamos reverter para um estado mais cristalino ou menos fluído da
membrana.

       A forma que a bactéria tem quando observada em microscopia óptica foi uma
das primeiras coisas que o homem observou acerca das bactérias e desde cedo as
pessoas se aperceberam que existem várias formas celulares e essas formas celulares
têm a vantagem de nos permitir olhando pura e simplesmente para uma preparação
saber (ou pelo menos ter um a ideia) de que tipo de bactérias é que nós temos nessa
preparação.

       Imagens de microscopia óptica:
1. Cocos – são bolinhas (como o próprio nome indica) e o arranjo espacial desses
   cocos também nos pode ajudar a classificar as bactérias, portanto dois cocos juntos
   chamamos diplococos, se tivermos uma cadeia de cocos todos juntinhos temos os
   estreptococos (conjunto de cocos), tetrados – conjuntos de quatro cocos (e isto
   tem a ver com os planos de divisão das células) e finalmente têm os estafilococos,
   estafilo é uma palavra grega que quer dizer cacho, é quando os cocos se organizam
   em cachos ou molhos mais ou menos irregulares. Esta apresentação das células é
   de tal maneira importante que existem alguns géneros bacterianos que obtiveram o
   seu nome a partir desta organização. Por exemplo existe um género bacteriano que
   é o género Streptococcus ou o género Staphylococcus.
2. Bastonetes ou bacilos – são células alongadas, não são cocos, e vocês vêem aqui
   naqueles bastonetes uma coisa esquisita. Qual é a coisa esquisita que está ali? Há
   uma espécie de uma coisa aqui dentro, um corpo refringente ali no meio, e esse



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   corpo refringente é um esporo, as espécies do género Bacilos são muitas vezes
   esporoladas.
3. Espiroquetas ou espirilos – são células com forma ondulada;
4. Vibriões – têm a forma de ¼ de lua.

        Existem células/bactérias de espécies patogénicas com todas estas formas.
Temos os Streptococcus pyogenes, que são a causa bacteriana mais importante de
faringite ou amigdalite; temos o Bacillus anthracis – alguém se lembra? – o Bacillus
anthracis andou na boca no Mundo por causa do antrax, o antrax é uma palavra que
não existe em português, foi inventada agora pelos jornais, a doença causada pelo
Bacillus anthracis chama-se carbúnculo em português. Temos uma bactéria com a
forma de um espirilo, chamado o Treponema pallidum, causa a sífilis (DST); temos os
vibriões, dos quais o mais famoso é o Vibrio cholerae, toda a gente já ouviu falar na
cólera certamente. Em tudo há microrganismos patogénicos.
        O que é que mantém a forma celular? O que mantém a forma celular é a parede
celular. A parede celular é uma estrutura semi-rígida que sustenta uma pressão
intracelular de várias atmosferas de vida à pressão osmótica, e é a parede celular que
suporta essa pressão osmótica, portanto se nós retirássemos a parede celular – o que é
que acham que acontecia à célula? – a célula rebentava.
        As nossas células têm parede celular? As nossas não! Então, como é que é?
        A pressão extracelular a que as nossas células estão sujeitas não tem nada a ver,
porque as bactérias estão em ambientes que não têm praticamente nutrientes, portanto
os nutrientes estão todos concentrados aqui dentro, temos uma pressão osmótica
enorme; as nossas células estão em contacto com uma solução que está no nosso corpo
e que está ela própria controlada, mas mesmo assim as nossas membranas precisam de
estar rígidas e o que confere essa rigidez é exactamente o colesterol.

        Alguém já ouviu falar do método de coloração de Gram?
        O método de coloração de Gram distingue as bactérias em quantos grupos?
        Dois. As Gram positivas e as Gram negativas. As Gram positivas são roxas
(azuis ou violetas) e as Gram negativas são vermelhas. Isto tem a ver exactamente com
a estrutura da superfície bacteriana.
        As bactérias Gram positivas têm como camada mais externa uma camada muito
espessa de peptidoglicano, portanto a camada mais externa que a célula está a oferecer
ao meio exterior é o peptidoglicano e abaixo do peptidoglicano está então a membrana
citoplasmática e vê-se numa fotografia de microscopia electrónica a camada espessa de
peptidoglicano e a membrana citoplasmática.
        As bactérias Gram negativas são cor-de-rosa ou vermelhas ou o que for e têm
uma estrutura de superfície substancialmente diferente. Também têm peptidoglicano (o
peptidoglicano como eu vos disse é essencial para suportar a pressão extracelular), mas
exteriormente ao peptidoglicano (e o peptidoglicano como vocês vêem aqui facilmente
é uma camada muito mais fina do que no caso das bactérias Gram positivas) têm uma
membrana externa.
        Esquematicamente têm a membrana externa, uma região interna onde está o
peptidoglicano (que é uma linha muito fininha) e a membrana interna ou membrana
citoplasmática.
        Então gera-se um problema, como é que nós deixamos passar as coisas para
este espaço, para esta zona aqui chamada o periplasma, como é que as coisas passam
para puderem chegar a esta zona e interagir com a membrana e serem depois
transportadas para o citoplasma?

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        A maneira como as bactérias resolveram isso foi criando estruturas chamadas
purinas, que são canais proteicos que se localizam na membrana externa e que
permitem a passagem da maior parte das substâncias ou pelo menos da maior parte das
substâncias até aos 600daltons (bastante grande).
        Qual é a estrutura desta tal malha que faz a retenção da pressão osmótica? É
constituída por peptidoglicano, que como o próprio nome diz é uma cadeia peptídica
constituída por dois oligossacáridos, o ácido N-acetilmurâmico e a N-
acetilglucosamina, ligados entre si por uma ligação -1,4 e essa ligação é importante
porque existem enzimas no nosso organismo que fazem parte do nosso sistema
imunitário inato, portanto aquele que já nasce connosco, que vão atacar aquela ligação,
vão partir isto e ao partir isto fazem buracos naquela malha e matam as células. A
enzima chama-se lisozima e existe em grandes quantidades nas lágrimas, saliva e em
todos os fluidos corporais que nós mandamos cá para fora.
        Ligado ao ácido N-acetilmurâmico temos um péptido, e daí chamar-se
peptidoglicano, constituído por 5 aminoácidos que também tem uma particularidade,
esses aminoácidos são aminoácidos D (os que existem no nosso corpo e nas proteínas
das bactérias são aminoácidos L), estes aminoácidos são aminoácidos especiais que só
vêm aqui para a parede ok?
        E depois têm, no caso deste peptidoglicano em particular, que é o
peptidoglicano do Staphylococcus aureus, uma ponte de glicinas que faz então a
ligação entre cadeias adjacentes de glicano e que conferem rigidez àquela malha.
        Uma característica importante da membrana externa (e é importante porque é
um contaminante habitual do meio ambiente, existe em grande quantidade no meio
ambiente) é que o folheto externo e o folheto interno, ao contrário do que acontece
com a membrana citoplasmática, não são simétricos, a composição do folheto externo
é diferente da composição do folheto interno.
        O folheto externo contém para além dos fosfolípidos uma substância chamada
LPS; o LPS ou lipopolissacárido, também conhecido como endotoxina, é um potente
activador do nosso sistema imunológico; o nosso sistema imunológico reconhece o
núcleo polissacárido e esta fracção do LPS, o lípido A, é altamente citotóxico, mata as
nossas células.
        Se eu injectasse em algum de vós uma preparação de endotoxina essa pessoa
rapidamente entraria em choque anafilático gerado pela resposta imunológica a esta
substâncias e poderia até morrer. Portanto é uma substância que se evita que esteja
presente em todos os tipos de compostos que nós utilizamos na saúde.

      Até aqui falámos de morfologia das bactérias, falámos de estruturas comuns, da
membrana citoplasmática e da parede celular e das funções e falámos da coloração de
Gram e da organização da superfície bacteriana.
      Alguém tem dúvidas? Não? Então eu vou prosseguir!

        Os vírus! Os vírus não são células! Têm material genético mas não têm
ribossomas, portanto não são eles próprios capazes de executar essa informação
genética ou no fundo de actuar sobre essa informação e fazer qualquer coisa. São
parasitas celulares obrigatórios. E como parasitas celulares obrigatórios que são
classificam-se de uma maneira diferente da classificação das células.
        O glicocálix é todo o material externo à parede celular (e entenda-se por parede
celular o peptidoglicano e os compostos associados e a membrana externa).
        Porque é que o glicocálix é importante? Porque é a primeira camada a interagir
com o meio ambiente e com outros organismos, sejam microrganismos, seja o nosso

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sistema imunitário. Nas bactérias que têm ou que produzem um glicocálix é contra esse
glicocálix que muitas vezes o nosso sistema imunológico monta a resposta
imunológica. Como o nosso sistema imunológico vê superfície, se existe aqui um
polissacárido é contra esse polissacárido que o nosso sistema imunológico vai montar a
sua resposta.
        A cápsula é o nome que o glicocálix tem quando é abundante.
        Quando o glicocálix é muito espesso chamamos cápsula, se fosse menos
espesso chamar-lhe-íamos camada mucilaginosa. A razão porque sabemos que ela lá
está, apesar de não a conseguirmos ver ou de a vermos com muita dificuldade é que
podemos identificar os anticorpos que a reconhecem, portanto sabemos que ela está lá
apesar de termos dificuldade em vê-la.

       (descrição de uma imagem de microscopia electrónica ilustrativa do que está
acima explicado)

        Vocês sabem que para fazer microscopia electrónica temos de retirar a água
toda da amostra. A cápsula é muitíssimo maior do que as células, é uma coisa
volumosa que envolve as células.
        A cápsula é constituída por polissacáridos, normalmente são extremamente
diversos, por exemplo em Streptococcus pneumonia existem 90 tipos diferentes, 90
estruturas polissacáridas diferentes, o que obviamente tem vantagem para a bactéria. E
que vantagem é que vocês acham que tem ter muitas cápsulas diferentes? Se vocês
imaginarem uma população de bactérias em que têm dois tipos de bactérias, as
bactérias vermelhas e as bactérias azuis, que vão infectar uma população humana,
como o que nosso sistema imunológico vê é o exterior, depois de esta bactéria
(vermelha) infectar estes indivíduos, estes indivíduos vão ficar protegidos contra essa
infecção, portanto esta bactéria não vai ser capaz de infectar novamente estes
indivíduos; mas a outra (azul) vai, portanto é vantajoso para a célula, para as bactérias
enquanto população, terem várias cápsulas. A cápsula é também um factor de
virulência, protege contra o nosso sistema imunológico e pode promover a adesão das
células bacterianas às nossas próprias células. Também protege contra a secura e é uma
reserva de nutrientes, o que obviamente é útil para a bactéria.

        Mas existem outros apêndices procariotas, alguém sabe dizer algum?
        Flagelos – são de facto apêndices procariotas, são essenciais para a mobilidade.
        Mas existem outros apêndices procariotas como as fímbrias, ou pili, e os pilis
sexuais, já vamos ver o que é que é cada uma destas estruturas.
        Portanto os flagelos são usados para a movimentação, as fímbrias na adesão e
os pili sexuais para promover trocas genéticas uma vez que as bactérias (assumo que
vocês sabem) não se reproduzem da mesma maneira que nós, a bactéria divide-se por
fissão binária, não é preciso haver duas bactérias para darem uma bactéria mais
pequenina, elas reproduzem-se sozinhas, mas de facto têm uma forma de troca genética
ou de sexualidade particular.
        Vamos falar primeiro em flagelos.
        Os flagelos pode ser apenas um ou vários, podem se localizar de maneiras
diferentes e portanto têm nomes diferentes de acordo com a sua localização ou número.
Já agora trico, esta terminação trico vem de uma palavra grega e quer dizer pêlo.
Portanto monotrico quer dizer só um pêlo.




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     (agora era a altura em que iríamos ver um filme que mostra a diferença entre
movimento browniano e mobilidade)

        No movimento browniano conseguimos ver as partículas, se forem
suficientemente pequenas, a moverem-se de acordo com o movimento browniano, o
que é claramente diferente da mobilidade normal das bactérias. O que provoca o
movimento browniano é que a água não está parada e portanto se as partículas forem
suficientemente pequenas andam com os movimentos da água, há fluxos na água e
como as preparações são de fresco, as células estão em suspensão e as partículas
andam. Quando se observa há umas que andam assim lentamente a mover-se de acordo
com o movimento browniano e depois há outras que fazem assim “vuuu” (passam
muito depressa), essas são as que andam mesmo com flagelo.
        A mobilidade é dada pelos flagelos. O flagelo é uma estrutura que tem assim
este tipo de forma e o que acontece é que na ponta do flagelo existe uma estrutura
proteica que é no fundo um motor, é um motor que não funciona a gasolina, funciona a
protões. E ao deixar entrar protões todo este conjunto de proteínas vai rodar e ao rodar
o que é que vocês acham que vai acontecer ao flagelo? Roda como aquelas máquinas
de bater bolos lá de casa, portanto o flagelo não é flexível (vocês podiam imaginar que
ele ondulava mas não) e ao rodar sobre este eixo funciona como a batedeira e a célula
move-se de acordo com essa batedeira.
        Portanto a mobilidade por acção do flagelo é 0,00017km/h, vocês acham que
isto é muito ou que isto é pouco? É muito rápido ou muito lento aquele movimento?
São 60 comprimentos celulares por segundo! Alguém sabe qual é o animal mais rápido
à face da terra? É a chita! Qual é a velocidade a que a chita corre, alguém sabe? De
facto a chita move-se a 110Km/h mas isso corresponde a apenas 25 comprimentos
corporais por segundo. As bactérias movem-se muito mais depressa do que as chitas!

       Isto não interessa! Vamos saltar isto tudo!

        Vamos só falar nas fímbrias, as fímbrias são estruturas curtas, finas e rectas
que estão frequentemente envolvidas na parte da osmicidade e nós vemos ali uma
bactéria com fímbrias à volta. As fímbrias são constituídas por duas proteínas, uma
proteína que se repete ao longo de toda a fímbria chamada pilina e na ponta da fímbria
estão expressas adesinas, que pode ser uma ou várias. Promove a adesão específica das
bactérias principalmente a oligossacáridos e eventualmente a glicoproteínas e
glicolípidos e nós sabemos isso porque podemos inibir competitivamente aquela
ligação, se nós dermos os oligossacáridos solúveis vamos inibir a ligação das bactérias.
Em que bactérias é que isso é importante? Por exemplo nas bactérias que colonizam a
nossa uretra. Vocês sabem que cada vez que vão à casa de banho esvaziarem a vossa
bexiga faz com que todas as bactérias que estão na uretra vão com aquela corrente, é
um arrastamento físico das bactérias. O que é que acontece quando nós temos uma
infecção urinária? Temos uma infecção urinária porque as bactérias que vão causar
essa infecção urinária produzem fímbrias específicas que vão promover uma adesão
muito mais forte das células às células epiteliais da uretra e portanto quando nós
passamos a urina já não há o arrastamento físico das células mas as células ficam
agarradas e assim vão progredir até atingir a nossa bexiga onde irão causar uma
infecção urinária.
        Os pílis sexuais são usados para promover trocas genéticas, vocês vêem ali o
que acontece, vêem ali uma célula que é uma célula que produz píli, é uma célula
cabeluda que basicamente o que faz é agarra uma célula careca e transfere o DNA para

                                                                                      9
essa célula careca. No fim de um destes processos de conjugação o que acontece é
vocês vêem ali um bocadinho de DNA vermelho na célula cabeluda, o que acontece é
que esse bocadinho de DNA vermelho passou para esta célula careca.
       Os esporos são importantes porque os esporos exibem uma grande resistência à
temperatura, aos agentes químicos, ao pH e à pressão osmótica. Portanto as bactérias
esporoladas vão conseguir resistir aos processos de desinfecção que nós aplicamos
com muito mais eficiência que as células vegetativas, as células normais, no entanto o
esporo não está metabolicamente activo mas está dormente e pode germinar, ou seja,
produzir células vegetativas quando as condições sejam favoráveis.

        Isto foi o que falámos! Falámos de morfologia celular variada, de estruturas
comuns, da coloração de Gram e depois falámos um bocadinho das estruturas
específicas das bactérias e da sua função

       Apenas para terminar… Não! Vamos falar disto…

        Vamos falar um bocadinho de metabolismo bacteriano.
        Existem alguns elementos essenciais de crescimento das bactérias, um deles é o
ferro e o ferro é um elemento que nosso corpo – vocês acham que existem muito ferro
no nosso corpo? – no nosso corpo existe bastante ferro, na hemoglobina, o que não há
no nosso corpo é ferro livre e a razão porque não há ferro livre vai ser obvia dentro de
pouco de tempo.
        A obtenção de energia faz-se ou por respiração, como é o nosso caso, ou por
fermentação e a necessidade de haver oxigénio no meio para o crescimento permite-
nos classificar os microrganismos em aeróbios ou anaeróbios (aqueles que crescem na
ausência de oxigénio) e os aeróbios que podem ser obrigatórios (apenas crescem se
houver oxigénio) e os anaeróbios obrigatórios (só crescem quando não há oxigénio) e
depois temos os anaeróbios facultativos que podem crescer tanto na ausência como na
presença de oxigénio.
        Como vocês sabem a respiração começa com a degradação da glicose e depois
termina com uma via de transporte electrónico e vocês sabem quanta energia é que
conseguem tirar de uma glicose por respiração? 30 e muitas moléculas de ATP e
quantas é que nós conseguimos por fermentação? 4 (se for o lactato), mas pode variar
consoante o produto final. Portanto o rendimento energético é muito inferior na
fermentação do que na respiração.
        Se nós semearmos a mesma caixa de Petri com quatro microrganismos e
incubarmos uma em aerobiose, uma em microaerofilia (pouco oxigénio) e uma em
anaerobiose podemos classificar os microrganismos. Por exemplo o Micrococcus
luteus é aeróbio obrigatório, só cresce quando há oxigénio. O Clostridium sporogenes
é anaeróbio obrigatório. A Escherichia coli cresce em todas as placas
        Porque é que os microrganismos são anaeróbios ou aeróbios e porque é que no
nosso corpo não existe ferro livre? O ferro ajuda a gerar radicais de oxigénio e os
radicais de oxigénio reagem com tudo e mais alguma coisa e portanto nós não
gostamos de ter radicais de oxigénio no nosso corpo e também não gostam as
bactérias. Portanto as bactérias que são anaeróbias obrigatórias não têm as enzimas
necessárias para destoxificar esses radicais de oxigénio e que enzimas são estas?
        É a catalase, que transforma o peróxido de hidrogénio em oxigénio e água, e a
peroxidase, que pega nos radicais de oxigénio e transforma-os em oxigénio molecular.
As bactérias vão utilizar estes radicais de oxigénio contra nós próprios. O nosso
próprio sistema imunitário também tem um sistema face às bactérias em que é a

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produção destes radicais de oxigénio localizada contra a bactéria que é usada como
arma. O oxigénio é uma substância essencial à vida, sobretudo à nossa vida, mas é
também uma substância tóxica!

       E eu ficava-me por aqui…
                                                                Desgravada por Ângela Pisco



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                          2ª parte – Professor Pedro Simas

       Vamos falar de descontaminação, são todos conceitos super intuitivos.

        Podemos definir descontaminação como redução de microorganismos para um
nível aceitável. Existem duas formas ou dois métodos de descontaminação:
desinfecção e esterilização. A esterilização é a eliminação total dos microorganismo a
partir de uma superfície, pode ser conseguida através de altas temperaturas e outros
processos( como veremos mais a frente). A desinfecção é a redução do número de
microorganismos para um nível que não cause doença.

A antisépsis desinfeção de um tecido vivo.
A sanitição é a desinfecção associada ao conceito de saúde pública.

        O que vos vou falar são as várias formas para se chegar à esterilização e à
desinfecção.
        A esterilização é a remoção, ausência de microorganismo, quando se esteriliza
um instrumento cirurgico não existem qualquer microorganismo, mas obviamente não
podemos esterilizar uma ferida.
        O desinfectante ideal seria o que matava os microorganismo e não matava as
células vivas, mas isto não existe, tem-se sempre um compromissso. A primeira pessoa
("agora não me lembro do nome"), no sec. XIX, quando se começou a operar, começou
por usar fenol (pois ja existia esta ideia de microorganismo e de infecção) para fazer
spray nas féridas cirurgicas evitando a infecção. O fenol, promove a desnaturação das
proteinas (utilizado na preparação de DNA), mas é tão agressivo que os cirurgiões
tiveram que começar a usar luvas, ja viram coitados dos doentes!!

       Nas folhas que eu vos dei existem uns conceitos interessantes o de agente
bacteriostático, que significa para e o de agente bactericida significa que mata. Um
agente bactericida pode ser um antibiótico, o calor, quando se aplica, eliminamos a
populção microbiónica, ao remover esse agente a população não volta a crescer. Pelo
contrário, quando se aplica um agente bacteriostático, a população para de crescer, e o
crescimento continua parado enquanto se mantem o agente e, quando se remove o
agente a população começa a crescer a partir da plataforma onde estava.

       O desinfectante é o líquido que promove a desinfecção. Atenção não confundir
o termo desinfectante com o de desinfeccção.



                                                                                        11
       O mercurio é um metal pesado (tóxico), um agente bacteriostático, que era
muito utilizado em sífilis, existe uma frase muito famosa "uma visita a venus leva a
uma premanência em mercúrio".

(Descreve o slide )
Temos aqui a esterilização, a desinfecção, alguns exemplos:
    descontaminação de instrumentos neurocirúrgicos por esterilização em
   autoclave- tem que estar esterilizado, não pode estar desinfectado
    descontaminação de bancadas de laboratório com um desinfectante- por
   exemplo a nossa sala esta infectada, está colonizada, neste caso a infecção significa
   invasão.

        Eu disse-vos que a esterilização era a destruição completa de todos os
microorganismos presentes, enquanto que a desinfecção era a redução dos
microorganismo para niveis aceitaveis e insuficientes de causarem doença, porque a
infecção está relacionada mais uma vez com esta noção de virulência, doença para o
Homem. Enquanto a descontaminação está mais relacionada com o meio ambiente,
não se diz que se vai desinfectar o meio ambiente, quanto muito desinfecta-se um
bloco operatório, em termos gerais, descontamina-se porque houve um cargueiro a
largar fuel oleo ou houve descarga de qulquer coisa ou por radiação... A infecção
geralmente é um termo médico.

         Quais são os métodos de descontaminação?
         Há por calor, radiação, gases e líquidos químicos.
         Vocês vão ver que todos eles podem ser usados ou para desinfecção ou para
esterilização.
         Vocês podem usar o calor como meio desinfectante, não é muito eficente, só o
calor húmido o é. Quando pasturizam o leite, inibem e matam algumas bactérias mas
não o esterilizam, porque se o fizessem aquilo ficava em caramelo. O calor pode ser
usado como meio de pasturização ou como desinfecção; todos eles, a radiação, gases e
líquidos químicos... Se vocês puserem um líquido químico, por exemplo uma solução
de cloro pouco concentrada pode ser utilizada para desinfectar, mas se for muito
concentrada e a deixarem por algum tempo ela esteriliza.

        Vamos ver agora o calor, que pode ser húmido ou seco. O húmido é muito mais
efectivo do que o seco porque conduz melhor, por exemplo 120ºC durante 30-40 min.
com pressão é suficiente para atingir o mesmo nivel de descontaminaçaão do calor
seco a 160ºC durante 2-4h. É óbvio que vocês muitas vezes podem preferir calor seco a
calor húmido (por exemplo, eu quando estava em cambridge,tinha a paranoia de por as
pontas no forno seco, mas ao fim de 4 ou 5 vezes aquilo desintegrava-se, depois deixe
de fazer isso, hoje em dia as pontas não tem contacto humano...mais o resto da historia
de que existem pessoas que infectam as culturas...).

       Radiação
       Por exemplo a radiação ultravioleta é obvia, vocês sabem que estes raios são
toxicos, causam cancro, isto porque causam mutações nas bases pirimidinas,
promovendo a formação de dimeros, deixando de haver a funcionabilidade de
determinados genes, o nosso mecanismo de defesa para isso: há uma mutação no gene
que codifica uma proteina, que em quase 100% dos tumores humanos esta alterada,
esta proteina é o P53 (enzima que quando detecta uma alteração a nivel genomico

                                                                                     12
induz apotose na célula). È óbvio se os raios ultravioletas fazem isto, destroem
microorganismos. Nós usamos raios ultravioleta por rotina, em termos de
descontaminação, nas salas de cultura de tecidos, nas hotes, porque é muito mais
prático ter uma luz muito abrangente do que andar a limpar aquilo com desinfectante
ou estar a fumigar com gás e, atinge-se um nivel de desinfecção aceitável, necessário
para garantir a não contaminação das culturas.
        Os raios gama e os raios x já são muito mais invasios. Ao excitarmos um
electrão à volta de um núcleo, há emissão dos fotões, logo o raio x ou gama são
radiações com determinados comprimentos de onda e certas frequências, podendo ser
mais ou menos energéticas, percorrendo distâncias menor ou maiores, sendo mais ou
menos penetrantes. Os raios x são muito erráticos e perigosos, por isso não são muito
utilizados em descontaminação, mas os raios gama já o são em determinados
instrumentos cirúrgicos ("o resto das coisas são básicas e depois vocês completam com
os slides")...

        Gases e vapores têm uma desvantagem são carcinogénicos porque no fundo,
muito dos compostos actuam por interferência com DNA. O óxido de etilieno é usado
em situações muito particulares em câmaras de esterilização, porque é muito
inflamável e muito caro, e geralmente utiliza-se misturas com 90% de dióxido de
carbono, logo é um risco, no entanto é dos poucos gases que tem efeito microcida (que
elimina os microorganismos). De facto, é usado muito pouco e não tanto com
descontaminante mas na industria dos frigoríficos e se forem a net está mais
relacionado com situações de intoxicação.
        O formaldeido pode ser utilizado como gás ou como líquido, o que se utiliza
muito são as bombas de fumigação. O formaldeído também é uma substância que
promove a ligação cruzada das proteínas, inactiva tudo, fixa as coisas, é um
preservativo. Por exemplo, temos uma sala com imensos aparelhos que queremos
descontaminar, temos duas hipóteses ou limpamos tudo com desinfectante e pintamos
com uma tinta à base de óleo ou mandamos uma bomba de formaldeído, mas temos
que ter a certeza que está tudo bem fechado, para que o formaldeído não possa sair, e
que depois o consigámos eliminar, pois o formaldeído é carcinogénico.Com um gás
temos uma maior probabilidade de efectivamente descontaminar, esterilizar um quarto,
uma câmara.

        Líquidos químicos são os tais chamados por desinfectantes, em senso comum.
Os líquidos químicos são aplicados segundo quatro critérios: tipo de superfície, os
microrganismos que se querem desactivar, a presença ou não de tecidos vivos e a
duração e temperatura do tratamento. Digam dois tipos de superfície: liso e rugoso. O
mais díficil de descontaminar é o rugoso, por razões óbvias, porque com tem mais
superfície é necassária maior quantidade para chegar a todo o lado. Existem
microorganismos mais fáceis de inactivar do que outros, por exemplo, o esporo é
muito mais díficil de inactivar do uma forma vegetativa; Um prião, que é um agente
infeccioso não convencional, é ainda mais díficil (sendo mesmo resistente a radiações
muito altas).
        Agora temos aqui uma escala simplificada, o virus com involucro lipo-proteico
são mais fáceis de inactivar porque o virus para infectar a célula tem que interagir com
ela (por meio dos receptores celulares), logo se o virus tem uma membrana qualquer
detergente lipossolúvel destroi essa cavidade do virus, um alcool destroi a maioria dos
virus com involucro, por outro lado, um virus nu já não é destruido por um alcool é



                                                                                     13
preciso ser um cloro, de modo a desnaturar a cápsula de modo que aquilo deixe de
estar ligado ao receptor.
         A presença de material orgânico torna mais díficil de inactivar o
microorganismo, pois é necessário mais desinfectante.
         O factor duração é óbvio quanto mais logo mais eficiente é o tratamento;
quanto maior a temperatura maior a probabilidade de colisão, aumenta-se a cinética.
Mas, depois também é interassente porque é que um alcool a 70% é melhor
descontaminate do que um a 90%, pois este último evapora mais depressa, o tal
compromisso. O éter é um péssimo desinfectante pois evapora logo.
         Os compostos de Amónio Quaternáriosão os mais usados nos detergentes de
casa porque são pouco agressivo mas também são pouco eficientes.
         Os melhores são Clorino e Iodino, principalmente o iodino e os seus derivados.

       Queria acabar por esclarecer: regral geral a desinfecção está relacionada com
líquidos químicos, e esterilazação são mais as outras coisas. Na descontaminação é
importantíssimo na escolha do método ter em conta o tipo de agente biológico,
concentração e o risco de exposição, e os riscos físicos e químicos para produtos,
materiais, ambiente e pessoal.



                                                                Desgravada por Rita Malcata


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                      3ª parte – Professor Thomas Hänscheid

        Para começar, vamos tentar fazer uma ponte entre microbiologia e a
bioengenharia.
        - Quais os empregos que vocês, futuros bioengenheiros, podem ter? Vêm-se
confrontados com, por exemplo, pessoas que necessitam de colocar próteses. Vamos
ver um caso específico: os velhotes. De que morriam dantes muitos velhotes? De
quedas! E as quedas conduziam a quê? A fracturas nos ossos, mais especificamente, no
fémur. Depois, estes velhotes nunca mais se conseguiam levantar e andar, pois
precisavam de meses e meses de recuperação, ficando, consequentemente, acamados.
E agora, o que acontece a pessoas que ficam acamadas durante tanto tempo? Morrem!
E morrem porquê? Morrem com pneumonia! E morrem de pneumonia porque não
conseguem respirar como uma pessoa normal e porque não fazem exercício. Mas isto
tudo verificava-se à uns 30, 40 anos atrás, altura essa em que não havia medicação para
curar a pneumonia. Daí que muitos velhotes que se encontrassem acamados morressem
com pneumonia. Mas hoje em dia muitos velhotes sobrevivem após sofrerem estas
fracturas. E porquê? Porque se colocam próteses! E a colocação de uma prótese é uma
operação bastante grande, que implica uma grande abertura a nível das ancas e da
coxa! Depois, é necessário cortar-se o osso todo para se colocar a prótese. Então, e
onde entram vocês, futuros engenheiros biomédicos? Bem, nós, médicos, sabemos,
com certeza, fazer a operação. Mas o que nós vamos colocar, a dita prótese, tem de ter
diversas características, e não pode haver falhas que possam por em risco a saúde dos
doentes. Por exemplo, uma das características é a estabilidade! A prótese tem que

                                                                                        14
durar vários anos, para que o doente só tenha que voltar a sofrer nova intervenção daí a
vários anos. Há uma outra característica muito importante, que está relacionada com
microorganismos! Então e porquê? A prótese que se está a colocar é um corpo
estranho. Se esta prótese não tiver as características necessárias, pode, após a sua
colocação, conduzir a uma infecção, tendo que ser, depois, retirada! Isto é só para
terem uma ideia do vosso papel daqui para a frente. Outro exemplo. Se vocês
colocarem um cateter para realizar um exame qualquer, constituído por um material
qualquer, o que irá acontecer? As bactérias levadas para dentro do organismo por esse
material vão desencadear uma resposta inflamatória! Então o vosso papel é
proporcionar-nos material que nós, médicos, possamos utilizar nos exames e
operações. Têm, por exemplo, que nos proporcionar material com iões de prata
incorporados. E qual a acção dos iões de prata? Os iões de prata vão sendo libertados,
eliminando as bactérias que aí existam. Assim, a infecção e consequente inflamação,
são prevenidas.
         - Outro assunto importante: esterilização. Como se esteriliza um cateter de
plástico, por exemplo? Elevando a temperatura! Mas agora, eu não sei o que acontece
na vossa casa, mas quando eu coloco plástico no fogo, este derrete, e quando se fala
em esterilização está-se a falar em temperaturas de 130º. Vocês conhecem algum
conjunto de plásticos que aguentem 20 a 30 minutos perante temperaturas assim tão
elevadas? Aqui está uma tarefa para vocês: descobrir que plásticos são esses que
aguentam tais temperaturas, e que depois previnem infecções! E para isso vocês têm
que ter diversos conhecimentos acerca de microorganismos! Que outra forma vocês
têm para esterilizar estes cateteres? Utilizando gases! E que gases? Isso vai depender
do material em questão, pois ao colocar-se o gás é necessário que o material só permita
a passagem do gás e não das bactérias!
         - E uma algália... vocês sabem o que é uma algália? A colocação de uma
algália permite ao doentes fazer as suas necessidades sem se mexerem. E onde se
colocam as algalias? Na uretra! Coloca-se um tubo na uretra! No homem não é assim
tão simples como isso, pois a distância a percorrer é muito superior à distância a
percorrer na mulher. E o tubo vai aí permanecer durante quanto tempo? O tempo que
for necessário! Dias, semanas, ou até meses! E este tubo tem que respeitar várias
restrições. Deve ser de plástico, mas que plástico? Deve ser um plástico fácil de
esterilizar, que impossibilite a colonização de bactérias. Se a uretra ficar infectada por
bactérias, pode-se desenvolver uma infecção urinária, muito comum nas mulheres.
Tive conhecimento de um caso, em que uma rapariga foi hospitalizada por ter sofrido
um AVC, tendo acabado por morrer devido a uma infecção urinária, por causa da
colocação de uma algália. Outra característica a ter em conta é as dimensões da algália
que não devem ser muito finas. Isto porque a urina tem cristais e muitas outras coisas,
que, se cristalizarem na algália, podem causar o seu entupimento. Para evitar tais
situações, deve-se estudar qual o melhor diâmetro possível. Contudo, o tubo que se
coloca na uretra não fica todo no interior do corpo. Uma ponta fica no exterior, de
forma a conduzir a urina para o exterior. E para onde se vai conduzir a urina? Para um
saco? Deve-se ter a noção que a urina é um óptimo meio de cultura de bactérias e o que
se colocar em contacto com o tubo da algália terá, igualmente, de respeitar diversas
condições. Isto porque, se se desenvolver uma colónia de bactérias na urina, esta vai
ascender até à algália, provocando uma infecção urinária. Formas de evitar essas
situações é a colocação de válvulas de anti-refluxo, assim como se colocar o saco onde
se concentra a urina a um nível mais baixo que o doente, para não haver refluxo de
urina do saco para a uretra.



                                                                                       15
        Vamos agora começar com a aula de microbiologia em si.
        Que tipos de microorganismos existem? Existem 4 grandes grupos: Bactérias,
vírus, fungos e parasitas. Vamos agora ver alguns dos aspectos mais importantes
relacionados com os 2 primeiros grupos: bactérias e vírus.
        Relativamente às bactérias, deve-se saber que elas se multiplicam. A bactéria
mais perigosa que existe em Portugal é a bactéria que provoca a tuberculose. Esta
bactéria é muito resistente ao ácido do estômago. Agora uma coisa muito interessante:
em Portugal existem muitas pessoas com tuberculose, e cada vez que cada uma dessas
pessoas tosse ou espirra milhões de bactérias são expelidas para o ar. Então como é que
se pode explicar que o nível de bactérias na atmosfera seja muito reduzido? O nível de
bactérias na atmosfera é muito reduzido derivado às radiações ultravioletas! As
bactérias não gostam dessas radiações, e morrem rapidamente quando expostas a essas
radiações! E agora... existem bactérias na pele? Existem, e em grandes quantidades! E
mesmo após sucessivas lavagens, a quantidade de bactérias na pele não sofre uma
diminuição considerável. Então para que serve a lavagem das mãos? Serve para
eliminar as bactérias que não pertencem a flora característica da nossa pele e que
podem causar doenças. Isto porque as imensas bactérias que se encontram na nossa
pele fazem parte da flora característica da nossa pele, e não necessitam de ser
eliminadas. Uma das bactérias que pode causar doenças e que não faz parte da nossa
flora normal são as salmonelas. Uma outra noção importante a se reter é que existem
milhões de tipos diferentes de bactérias, vírus, fungos e parasitas, mas apenas uma
pequena parte, à volta dos 200, é que constituem o grupo de bactérias que realmente
causam infecções. Agora, será que existem bactérias nos olhos? Os olhos não têm
bactérias. Daí que as lágrimas tenham uma substância anti bacteriana. E na boca?
Existem bactérias na boca? Existem! E é dai que surgem as cáries. Por alguma razão se
usam pastas dentárias com substâncias anti-bacterianas. No estômago também
existem bactérias, derivadas do baixo pH presente no estômago. E no intestino, será
que existem bactérias? Só para se ter uma ideia, as fezes que nós expelimos são, na
sua maioria, compostas de bactérias. Quase 90% da constituição das fezes consiste em
bactérias. Mas estas bactérias, presentes nas fezes, não são, nem poderiam ser, muito
patogénicas. Contudo, se estas bactérias, por algum motivo, entrarem em contacto com
o resto do organismo, que não o intestino, podem causar uma infecção muito grave,
podendo conduzir à morte da pessoa em questão. E nos pulmões? Se existissem
bactérias nos pulmões, então estar-se-ia na presença de uma pneumonia! As bactérias
que se encontram na boca não passam para os pulmões. Relativamente à vagina das
mulheres, existem varias bactérias. Como se pode ver, agora, por este slide, apenas
10% no nosso corpo é “humano”, sendo que os restantes 90% é composto por
bactérias.
        Uma nota final acerca das bactérias: As bactérias podem-se dividir em 3
grandes grupos - um tipo de bactérias que quase nunca causam doenças, outro tipo
que causam sempre doenças, e um outro grupo de bactérias que fazem parte da nossa
flora indígena, mas que em certas circunstâncias podem causar doenças.
        Vamos agora ver quais as características mais importantes dos vírus. Existem
muitos tipos de vírus diferentes e muitas infecções podem ser causadas por esses vírus.
Existem varias “portas de entrada” que permitem a entrada dos vírus para o interior
do nosso corpo, como é o exemplo da boca. Um vírus muito importante, conhecido de
todos nós, é o vírus do HIV, cuja “porta de entrada” é a via sexual. Este vírus
encontra-se no sangue e em todas as secreções do corpo e é muito contagioso. Mas
existe, ainda, outro vírus que, quanto presente, se encontra também no sangue, e que é



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mais contagioso que o HIV: o vírus da Hepatite, sendo o vírus da Hepatite B o mais
infeccioso.
       Fazendo agora comparação entre as bactérias e os vírus: as bactérias e os vírus
são iguais? Não! As bactérias e os vírus têm tamanhos diferentes, tendo as bactérias
dimensões muito pequenas, da ordem dos 2 ou 3 micrómetros.

         Agora um aspecto prático. No bloco operatório, os fatos que se usam são feitos
de que material? Bem, esse material tem que suportar temperaturas elevadas, pois tem
que ser esterilizado antes de se entrar no bloco, e o processo de esterilização é, como já
se viu, levado a cabo a altas temperaturas. Que material aguenta essas temperaturas? O
algodão! Mas o algodão apresenta uma grande limitação: deixa passar as bactérias.
Ora, o ideal seria ter material descartável, mas os hospitais não querem, nem podem,
andar a comprar sempre toneladas de materiais descartáveis. Portanto, estamos perante
uma outra tarefa para os bio engenheiros.
        Agora outra coisa, vocês fazem ideia do que é mais perigoso: o espirro ou a
tosse? A diferença tem a ver com a velocidade. O espirro é caracterizado por uma
velocidade que ronda os 200km/h e cria partículas pequenas. Agora, falta saber se estas
partículas pequenas são mais ou menos perigosas que as partículas maiores: são mais
perigosas. Isto porque as partículas mais pequenas, sendo mais leves, ficam a pairar no
ar, enquanto as partículas maiores caem e ficam no solo. Por estas razões, pode-se
afirmar que o espirro é mais perigoso que a tosse.

                                                         Desgravada por Teresa Cardoso




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